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Catolicis

mo
ARTIGOS NESTE MATERIAL:
1. CULTO À DEUSA
MÃE.....................................................................................
....02
2. DIFERENÇA ENTRE DEVOÇÃO RELIGIOSA E
IDOLATRIA........................................13
3. EXORCISMO – AS FORÇAS DO MAL EM
FOCO.....................................................19
4. FESTAS JUNINAS – FOLCLORE OU
RELIGIÃO?......................................................30
5. IDOLATRIA

Página
DISFARÇADA........................................................................
.............45
6. IEMANJÁ - RAINHA DE TODAS AS ÁGUAS E MÃE DE TODOS
1
OS ORIXÁS?............51
7. JESUS TEVE
IRMÃOS?..............................................................................
...........62
8. MARIA - VIRGEM E MÃE, DUAS PODEROSAS E UNIVERSAIS
EMOÇÕES................72
9. MERECEM CONFIANÇA OS LIVROS
APÓCRIFOS?.................................................82
10. MONOTEÍSMO TEÓRICO E POLITEÍSMO
PRÁTICO..............................................99
11. MUDANÇA DE PARADIGMA - CRISTOCENTRISMO VERSUS
MARIOCENTRISMO NA RENOVAÇÃO
CARISMÁTICA.......................................................................
.....108
12. O CORPO DE CRISTO - PODEMOS CRER NA
TRANSUBSTANCIAÇÃO?................117
13. OS ESTIGMAS DE CRISTO, FATO OU MITOLOGIA
RELIGIOSA?..........................133
14. OS SANTOS DE CADA
DIA................................................................................142
15. QUEM FOI O PRIMEIRO
PAPA?.......................................................................152
16. A HIERARQUIZAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA
ROMANA......................................172
17. CELIBATO BÍBLICO X CELIBATO
HUMANO.......................................................175

1. CULTO A DEUSA MÃE


Página
Por Hélio de Souza
2

“...todos unanimemente levantaram a voz, clamando por


espaço de quase duas horas: Grande é a Diana dos
efésios” (At 19.34)

“E m dado momento, abrem-se par em par as portas de


cipreste do templo. As multidões que convergiam de
todas as partes da Ásia Menor, da Galácia, da Capadócia,
da Macedônia e da Acaia, tanto sãos como enfermos,
aleijados com as suas muletas, cegos guiados por
crianças, paralíticos carregados em padiolas, se
comprimem entre as colunas fronteiras à fachada. Todos
esperam o momento de erguer-se o véu da deusa.

“Um longo clangor de trombeta, um rápido estrurgir de


tambores e, em seguida, um intervalo de silêncio. Uma
nuvem de incenso paira na praça. Dentro e fora do
templo os fiéis se prosternam retendo o fôlego. O véu de
seda é lentamente retirado. Sobre o pedestal de
mármore negro, cercado de misteriosos hieróglifos
indecifráveis, ergue-se a deusa Diana de Éfeso, que
Apolo enviou do céu à terra.

“No momento em que foi desvendado, um brado


comovido se propagou do salão para o pórtico e do
pórtico para a praça, onde milhares de fiéis estavam
prostrados em terra.

- Viva a grande Diana dos efésios!

“Um êxtase de esperança e de temor dominou a


multidão que se quedou de olhos fechados, lábios
contraídos e frontes a se tocarem uma nas outras...
Página
Levantando-se então os fiéis seguiram de roldão para as
portas do templo. Os cegos, os coxos e os enfermos
avançavam como podiam, com os pés ou de rastos, em
3
direção à deusa que não viam, amparando-se uns aos
outros e gritando suas orações. Aqui e ali vozes
delirantes soavam:

– Milagre! Milagre! O coxo está caminhando! O enfermo


desceu da cama!

“A esses brados saía do templo um grupo de sacerdotes


e, atravessando a multidão, eles reuniam as muletas
jogadas fora, para pendurá-las como troféus nas paredes
do templo, em homenagem à grande deusa Diana”.1

Com essas palavras, o escritor judeu-cristão polonês,


Sholem Asch, descreveu o culto à deusa Diana, tão
popular na região da Ásia Menor, nos primórdios da Era
Cristã. Como podemos conferir, qualquer semelhança
com os cultos modernos às chamadas “Nossas Senhoras”
não é mera coincidência, mas perpetuação de uma
milenar tradição de culto a deusas, hoje disfarçada com
matiz cristã. E não estamos falando de uma pequena
seita obscura, existente em algum povo atrasado em um
país exótico, mas de uma religião que possui milhões de
adeptos, com uma força de devoção que chega à beira
da loucura: o “marianismo”.

E não é preciso ser teólogo para perceber isso. Qualquer


conhecedor de História pode constatar. Em uma revista
de circulação nacional foi publicada uma matéria com o
título: “No princípio, eram as deusas”. O texto se
desenvolve da seguinte forma: “As deusas só foram
destronadas com o advento das religiões monoteístas,
que admitem um só deus, masculino. Com a difusão do
cristianismo, as antigas deusas são banidas do
Página
imaginário popular. No Ocidente, algumas acabaram
associadas à Virgem Maria, mãe do Deus dos cristãos,
outras se transformaram em santas... Nos primeiros
4
séculos cristãos, Ísis passou a ser identificada com
Maria”. O historiador Will Durant em sua História da
Civilização diz: “O povo adorava-a (Isis) com especial
ternura e erguia-lhe imagens, consideravam-na Mãe de
Deus; seus tonsurados sacerdotes exaltavam-na em
sonoros cantos...e mostravam-na num estábulo,
amamentando um bebê miraculosamente concebido...Os
primitivos cristãos muitas vezes se curvavam diante das
estátuas de Ísis com o pequeno Hórus ao seio, vendo
nelas outra forma do velho e nobre mito pelo qual a
mulher , criando todas as coisas, tornou-se por fim a Mãe
de Deus (grifo do autor) 2”.

Status de deusa

O paganismo não se conformou em ficar sem suas


deusas. Assumindo características culturais e étnicas de
cada nação, o culto à deusa Maria foi se adaptando à
devoção popular com uma versatilidade incrível. Desde
suntuosos santuários até silhuetas em vidros e grãos de
milho, inúmeras aparições no mundo inteiro dão status
de deusa a estas supostas aparições, incorporando-as ao
acervo popular de inúmeras nações.

No Brasil, a chamada “Senhora Aparecida” possui traços


raciais negros e seu culto está muito ligado à cultura
afro. Seu santuário, na cidade de Aparecida, chega a
receber 6,5 milhões de visitantes por ano. Em Portugal, a
deusa Maria, conhecida como “Senhora de Fátima”,
assume características raciais européias, bem como a
“Senhora de Lourdes”, na França. Elas recebem,
respectivamente, cerca de 4,2 milhões e 5,5 milhões de
visitas por ano. Entre outras divindades nacionais, ainda
Página
podemos citar a “Senhora de Guadalupe”, no México, e a
“Senhora da Estrela da Manhã”, no Japão.
5
Não é óbvio presumirmos que as antigas divindades
tutelares reverenciadas no passado apenas mudaram de
nome? Diana para os efésios, Nun para os ninivitas,
Ishtar para os babilônios, Kali para os hindus e, assim,
continuam sendo cultuadas por meio de um
pseudocristianismo.

Além de divindades nacionais, o marianismo assume


características regionais e funcionais, assenhoreando-se
de cidades e regiões, assumindo diferentes nomes e
funções. Assim, temos no Brasil a “Nossa Senhora do
Monte Serrat”, “Nossa Senhora do Rosário”, “Nossa
Senhora das Dores”, “Nossa Senhora das Graças” e
“Nossa Senhora do Parto”, entre outras. Na verdade,
muito do que as estatísticas chamam de cristãos não
passam de grosseiros pagãos, aprisionados por
superstições e servindo a falsos deuses.

Curiosa é a descrição da deusa Diana feita por R.N.


Champlin. Esse renomado teólogo diz que a deusa Diana
e a deusa Maria se confundem, o que torna difícil
encontrar a diferença entre a “Diana dos efésios” e a
“Maria dos efésios”. Em 431 d.C., a idolatria tornava a
entrar pela porta de onde saíra: “Em Éfeso ela recebeu
as mais altas honrarias. De acordo com uma inscrição
existente no local, ela trazia estes títulos: Grande Mãe da
Natureza, Patrocinadora dos Banquetes, Protetora dos
Suplicantes, Governanta, Santíssima, Nossa Senhora,
Rainha, a Grande, Primeira Líder, Ouvidora...”2 (grifo do
autor).

A ascensão de Maria

Página
Segundo o catolicismo, “finalmente, a Imaculada Virgem,
preservada imune de toda mancha da culpa original,
terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo
6
e alma à glória celeste. E para que mais plenamente
estivesse conforme a seu Filho, Senhor dos senhores e
vencedor do pecado e da morte, foi exaltada pelo Senhor
como Rainha do universo. A assunção da Virgem Maria é
uma participação singular na ressurreição de seu Filho e
uma antecipação da ressurreição dos outros cristãos”.3

Qualquer conhecedor das Escrituras fica aborrecido


diante de tamanha distorção. A humilde camponesa de
Belém, que singelamente aceitou sua missão de ser a
mãe de Jesus, foi, ao longo dos séculos, transformada em
uma divindade pagã.

Em toda a Bíblia, a figura de Maria não recebe qualquer


posição especial com relação a Jesus ou ao plano de
salvação:

• Jesus não a chamava de mãe, mas de mulher (Jo 4.4;


19.26);
• Aos que a definiram como sua mãe Ele fez questão de
mostrar que seus familiares são os seus seguidores (Mt
12.46-50);
• Quando quiseram atribuir alguma honra a Maria pelo
fato de ter dado à luz a Jesus, Ele fez questão de mostrar
que há honra maior em obedecer a Deus (Lc 11.27-28);
• Nenhum dos apóstolos fez qualquer menção a ela, seja
Paulo, Pedro, Tiago, João ou Judas.

Mas quando olhamos para o marianismo, não vemos


apenas uma ascensão física, mas uma ascensão de
importância que vem, através dos séculos,
transformando a mãe de Jesus na figura central do
Catolicismo e, conseqüentemente, da fé popular.

Como isso foi possível? Como a Igreja Católica pôde Página


transformar uma figura que não recebeu nenhum
7
destaque no Novo Testamento na peça mais importante
de sua religião? Como essa igreja conseguiu, em nome
do Cristianismo, desobedecer ao mandamento tão claro:
“Não terás outros deuses diante de mim?” (Ex 20.3). A
tolerância, no entanto, é uma faca de dois gumes que, se
exagerada, pode permitir que uma virgem se torne uma
meretriz: “Mas tenho contra ti que toleras a Jezabel,
mulher que se diz profetisa. Com o seu ensino ela
engana os meus servos, seduzindo-os a se prostituírem e
a comerem das coisas sacrificadas aos ídolos” (Ap 2.20).
Quando os verdadeiros crentes precisaram tomar uma
atitude mais severa, eles se calaram e a conseqüência
disso foi a forte idolatria que se camuflou com o título de
cristianismo. Assim, com o passar dos anos Maria foi
acumulando títulos, adquirindo mais prestígio do que a
própria Trindade.

Além da conhecida designação de “Nossa Senhora”, ela


recebeu outras nomeações, como Medianeira, Imaculada
(sem pecado), Mãe dos Homens, Mãe da Igreja, Rainha
dos Céus, Co-redentora etc. A força de seu culto supera
qualquer outro movimento dentro do Catolicismo.

A mariolatria continua mais forte do que nunca

A devoção às deusas do catolicismo cresceu nas últimas


décadas e continua crescendo. Por meio de abaixo-
assinado na internet para pressionar o papa João Paulo II
a conceder a Maria de Nazaré o que os católicos chamam
de “Quinto Dogma”, cinco milhões de assinaturas já
foram levantadas. O “Quinto Dogma”, título oficial de co-
redentora da humanidade, confere à santa a posição de
quarta pessoa da Trindade.

O movimento que busca essa “conquista” chama-se Vox Página


Populi Mariae Mediatrice e é liderado pelo “teólogo” Mark
8
Miravalle, professor da Universidade Franciscana de
Steubenville, no estado de Ohio, EUA. Pelo menos 500
bispos e 42 cardeais já assinaram o abaixo-assinado,
conforme matéria publicada pela revista Tudo em
setembro de 2001.

O papa atual foi e é um dos grandes fomentadores desse


culto idólatra. O lema de seu brasão de pontificado, Totus
tuus, significa sua entrega total a Maria. Sua primeira
viagem, 13 dias após a eleição, foi a um santuário
mariano nas proximidades de Roma. Desde então, o papa
não perde a oportunidade de reafirmar seu culto à mãe
de Jesus e de lembrar que foi “Nossa Senhora de Fátima”
quem o salvou do atentado a tiros que sofreu em 1981.

No século XX, foram registradas em todo o mundo cerca


de 200 supostas aparições da virgem Maria. Os dogmas
da imaculada conceição e da assunção de Maria,
proclamados no século XIX, colaboraram para todo esse
entusiasmo.

Lamentamos o fato de que a humilde Maria não tem


nenhuma culpa em toda essa idolatria cometida em seu
nome. Com certeza, as rezas, os cânticos, os sacrifícios e
as promessas não vão para ela que, assim como os
demais servos do Senhor, também está aguardando a
ressurreição dos mortos.

A história do concílio de Éfeso

O concílio de Éfeso não instituiu a adoração a Maria,


apenas sancionou-a. Até então se tratava de um
sentimento religioso popular. Depois disso, passou a ser
Página
matéria teológica. Pior que uma prática idólatra
permitida é uma prática idólatra teologicamente
defendida. E foi justamente isso que esse concílio
9
significou para o cristianismo: o passaporte de entrada
da deusa Diana para dentro da Igreja Cristã.

Hoje, fala-se muito do concílio de Éfeso como “uma


questão cristológica”. O que estava em jogo não era se
Maria deveria ser chamada de mãe de Deus ou não, mas
se o Filho nascido dela possuía apenas a natureza
humana ou as duas naturezas: a humana e a divina. O
resultado positivo foi o estabelecimento da natureza
hipostática de Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro
homem.

Mas a deturpação veio de carona. Todo o ambiente que


cercou esse Concílio foi repleto de intrigas, corrupções,
ódios e idolatria, mais especificamente idolatria mariana.
O historiador Edward Gibbon referiu-se ao concílio de
Éfeso como um “tumulto episcopal, que na distância de
treze séculos assumiu o venerável aspecto de Terceiro
Concílio Ecumênico”.4

Nestor, patriarca de Constantinopla, se recusava a


conferir o título de “Mãe de Deus” a Maria. “Na Síria, a
escola de Nestor tinha sido ensinada a rejeitar a
confusão das duas naturezas, e suavemente distinguir a
humanidade de seu mestre Cristo da divindade do
Senhor Jesus. A bendita virgem era honrada como a mãe
do Cristo, mas os seus ouvidos foram ofendidos com o
irrefletido e recente título de Mãe de Deus, que tinha sido
insensivelmente adotado desde a controvérsia ariana. Do
púlpito de Constantinopla, um amigo do patriarca e
depois o próprio patriarca, repetidamente pregou contra
o uso, ou o abuso, de uma palavra desconhecida pelos
apóstolos, não autorizada pela igreja, e que apenas
Página
tendia a alarmar os tímidos”, diz Gibbon (grifo do autor).

Cirilo, então bispo de Alexandria, acusou-o de heresia e


10
tratou rapidamente de convencer Celestino, bispo de
Roma, de seu ponto de vista. Para resolver a questão, foi
então decidido um Concílio Universal, sediado na cidade
de Éfeso, na Ásia Menor, que ficaria acessível tanto por
mar quanto por terra, para ambas as partes conflitantes.

Cirilo usou todos os artifícios para persuadir o povo a


tomar seu partido. Vejamos o que disse Gibbon a
respeito: “O despótico primado da Ásia (Cirilo) dispôs
prontamente de trinta a quarenta votos episcopais: uma
multidão de camponeses e os escravos da Igreja foram
derramados na cidade para sustentar com barulhos e
clamores um argumento metafísico; e o povo
zelosamente afirmou a honra da Virgem, de quem o
corpo repousava dentro dos muros de Éfeso. O navio que
havia transportado Cirilo de Alexandria foi carregado com
as riquezas do Egito; e ele desembarcou um numeroso
corpo de marinheiros, escravos e fanáticos, aliciados com
cega obediência sob a bandeira de São Marcos e a mãe
de Deus. Os pais e ainda os guardas do concílio estavam
receosos devido àquele desfile esplendoroso de roupas
guerreiras; os adversários de Cirilo e Maria foram
insultados nas ruas ou destratados em suas casas; sua
eloqüência e liberalidade fizeram um acréscimo diário ao
número de seu aderentes...

“Impaciente com uma demora que ele estigmatizou


como voluntária e culpável, Cirilo anunciou a abertura do
Sínodo dezesseis dias após a Festa do Pentecoste. A
sentença, maliciosamente escrita para o novo Judas (isto
é, Nestor), foi afixada e proclamada nas ruas de Éfeso: os
cansados prelados, assim que publicaram para a igreja
com respeito à mãe de Deus, foram saudados como
Página
campeões, e sua vitória foi comemorada com luzes,
cantos e tumultos noturnos.
11
“No quinto dia, o triunfo foi obscurecido pela chegada e
indignação dos bispos orientais (do partido de Nestor).
Em um cômodo da pensão, antes que ele tivesse limpado
o pó de seus pés, João de Antioquia tinha dado audiência
para Candidian, ministro imperial, que relatou seus
infrutuosos esforços para impedir ou anular a violenta
pressa dos egípcios. Com igual violência e rapidez, o
Sínodo Oriental de cinqüenta bispos degradou Cirilo e
Memnon de suas honras episcopais; condenou, em doze
anátemas, o mais puro veneno da heresia apolinária; e
descreveu o primado alexandrino (Cirilo) como um
monstro, nascido e educado para a destruição da igreja.

“Pela vigilância de Memnon, as igrejas foram fechadas


contra eles, e uma forte guarnição foi colocada na
catedral. As tropas, sob o comando de Candidian,
avançaram para o assalto; as sentinelas foram cercadas
e mortas à espada, mas o lugar era inexpugnável; os
sitiantes retiraram-se; sua retirada foi perseguida por um
vigoroso grupo; eles perderam seus cavalos e muitos
soldados foram perigosamente feridos com paus e
pedras. Éfeso, a cidade da virgem, foi profanada com
ódio e clamor, com sedição e sangue; o sínodo rival
lançou maldições e excomunhões de sua máquina
espiritual; e a corte de Teodósio ficou perplexa pelas
narrativas diferentes e contraditórias dos partidos da
Síria e do Egito. Durante um período tumultuado de três
meses o imperador tentou todos os meios, exceto o mais
eficaz, isto é, a indiferença e o desprezo, para reconciliar
esta disputa teológica. Ele tentou remover ou intimar os
líderes por uma sentença comum de absolvição ou de
condenação; ele investiu seus representantes em Éfeso
com amplos poderes e força militar; ele escolheu de
Página
ambos os partidos oito deputados para uma suave e livre
conferência nas vizinhanças da capital, longe do
contagioso frenesi popular.
12

“Mas os orientais se recusaram a ceder e os católicos,


orgulhosos de seu número e de seus aliados latinos,
rejeitaram todos os termos de união e tolerância. A
paciência do manso imperador Teodósio foi provocada, e
ele dissolveu, irado, este tumulto episcopal, que na
distância de treze séculos assumiu o venerável aspecto
de Terceiro Concílio Ecumênico. ‘Deus é minha
testemunha’, disse o piedoso príncipe, ‘que eu não sou o
autor desta confusão. Sua providência discernirá e punirá
o culpado. Voltem para suas províncias, e possam suas
virtudes privadas reparar o erro e o escândalo deste
encontro’.

“(...) os abades Dalmácio e Êutico tinham devotado seu


zelo à causa de Cirilo, o adorador de Maria, e à unidade
de Cristo. Desde o primeiro momento de sua vida
monástica eles nunca tinham se misturado com o mundo
ou pisado no chão profano da cidade. Mas neste terrível
momento de perigo para a igreja, seus votos foram
superarados por um mais sublime e indispensável dever.
À frente de uma ordem de eremitas e monges,
carregando archotes em suas mãos e cantando hinos à
mãe de Deus, eles foram de seus mosteiros ao palácio do
imperador”5 (grifo do autor).

Longe de ser uma disputa teológica, na qual a Palavra de


Deus era o padrão da verdade, essa foi uma guerra
política, ocasião em que Maria foi proclamada a “mãe de
Deus”, iniciando uma ascensão que fez dela a deusa que
é hoje.

Nem todas as sutilezas teológicas produzidas pelo


Página
catolicismo terão poder de inocentar os milhões apri-
sionados na idolatria mariana. Nenhum longo tratado,
nenhuma citação da patrística e nenhuma alegação da
13
tradição serão suficientes para apagar dessas almas
manchadas o envolvimento com essas entidades que se
intitulam “Senhoras”. São mais de quinze séculos de
práticas pagãs, justificadas por argumentos ilegítimos,
tentando tornar aceitável o inaceitável.

Mas o fundamento de Deus permanece. “Não terás


outros deuses diante de mim”, diz o Senhor. E muito
menos deusas!
Bibliografia:

“O Novo Testamento interpretado versículo por


versículo”. R.N. Champlin, Candeia.
“O Apóstolo”. Sholem Asch. Companhia Editora Nacional.
“Virgem Maria”. Aníbal Pereira dos Reis. Edições Caminho
de Damasco.
Decline and Fall of Roman Empire. Edward Gibbon.
Encyclopaedia Britannica. INC. Vol II
Revista “Tudo”. Setembro/2001
A História da Civilização – Nossa Herança Oritental. Will
Durant, Ed. Record. Vol I.

Notas:

1 O Apóstolo. Sholem Asch, pp.386-387.


2 Revista Super ieressante de agosto 1988. número 8,
ano 2.
2 O Novo Testamento Interpretado versículo por
versículo. R.N. Champlin. Candeia, p .431.
3 CIC, p. 273, item 966.
4 Declínio e Queda do Império Romano. Vol II.
5 Decline and Fall of Roman Empire. Edward Gibbon.
Página
Encyclopaedia Britannica. INC. Vol II, pp. 140-142. 14
2. DIFERENÇA ENTRE DEVOÇÃO RELIGIOSA E
IDOLATRIA

Por Márcio Souza

É possível alguém adorar o verdadeiro Deus e cair no


pecado de idolatria? Uma pessoa pode devotar-se a outra
ou a alguma coisa e ainda assim achar que está
promovendo a genuína adoração? A resposta a essas
duas perguntas é um sonoro SIM.

Como exemplo, podemos extrair das páginas da Bíblia a


história do povo de Israel.

A serpente de metal

Quem não conhece a história bíblica da serpente de


metal? O povo de Israel, no deserto, murmurou contra
Deus e Moisés. Então, o que o Senhor fez? Enviou
serpentes ardentes para morder o povo, que logo
reconhece tratar-se de um castigo divino decorrente da
Página
atitude que vinha cometendo. Os israelitas clamaram a
Moisés, e este foi orientado por Deus a erguer uma
serpente de metal no meio do acampamento. Aqueles,
15
portanto, que fossem mordidos pelas serpentes
abrasadoras tinham apenas de olhar para a serpente de
metal para que ficassem livres dos efeitos de suas
mordidas. Com o tempo, porém, os israelitas passaram a
cultuar a serpente de metal como um ídolo, dando-lhe o
nome de Neustã. Tempos depois, em virtude da atitude
insensata dos israelitas, o piedoso rei Josias ordenou a
destruição dessa serpente, que se havia tornado objeto
de adoração para a nação de Israel.
E disse o Senhor a Moisés: Faze-te uma serpente ardente,
e põe-na sobre uma haste; e será que viverá todo o que,
tendo sido picado, olhar para ela. E Moisés fez uma
serpente de metal, e pô-la sobre uma haste; e sucedia
que, picando alguma serpente a alguém, quando esse
olhava para a serpente de metal, vivia (Nm 21.8-9).

Ele tirou os altos, quebrou as estátuas, deitou abaixo os


bosques, e fez em pedaços a serpente de metal que
Moisés fizera; porquanto até aquele dia os filhos de Israel
lhe queimavam incenso, e lhe chamaram Neustã (2 Rs
18.4).

Templo do Senhor

Em outra ocasião, os judeus passaram a confiar na


linhagem davídica e no sacerdócio araônico, para que
pudessem salvar-se dos invasores. Diziam eles: Templo
do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor é este (Jr
7.4). Muito embora os judeus tivessem demonstrado fé
no templo do Senhor, que ficava em Jerusalém e era uma
de suas glórias, não tiveram eles o livramento esperado.
Por isso foram levados cativos por Nabucodonosor para
Página
Babilônia (2 Rs 25.8-9). Isso porque eles olhavam para o
templo apenas como um meio para se livrarem das
forças inimigas. Resultado? Foram culpados de idolatria!
16

O que dizem as Testemunhas de Jeová

As Testemunhas de Jeová corroboram com o nosso ponto


de vista de que é possível alguém prestar culto a Deus
por meio de uma organização religiosa e, ao mesmo
tempo, tornar-se idólatra. Declaram: Se uma pessoa
rende serviço em obediência a alguém ou a alguma
organização, quer voluntária, quer compulsoriamente,
considerando como algo em posição superior de domínio
e com grande autoridade, então se pode dizer
biblicamente que tal pessoa é idólatra (A Sentinela - 1 de
março de 1962. STV. p. 141).

E a pretensão de todas as organizações religiosas é que a


adoração a Deus deve ser feita mediante uma ou outra
das múltiplas organizações religiosas, com seus grandes
e pequenos sistemas clericais, como ‘representantes’ de
Deus. Elas também são imagens, obras das mãos dos
homens, e destinadas à destruição com todas as outras
formas de idolatria (Seja Deus Verdadeiro - 1949. STV.
p.137).

Não podemos participar de nenhuma versão moderna de


idolatria – seja em forma de gestos adorativos diante de
uma imagem ou de um símbolo, seja por imputar
salvação a uma pessoa ou a uma organização (A
Sentinela - 1 de novembro de 1990. STV. p. 26).

Declaram, ainda, que o fato de alguém se voltar para


uma organização religiosa e confiar nela como único
meio de salvação não passa de um ato de apostasia
moderna. Incrivelmente, essa declaração das
Página
Testemunhas de Jeová está ancorada nas palavras do
apóstolo Paulo, que disse que, imediatamente após a sua
morte, os homens apostatariam da fé verdadeira e
17
passariam a devotar-se às organizações religiosas. O
apóstolo João também falou a respeito do mesmo efeito
causado pela obra de Satanás. Pedro, por sua vez,
declara: Prometendo-lhes liberdade, sendo eles mesmos
servos da corrupção. Porque de quem alguém é vencido,
do tal faz-se também servo (2Pe 2.19).

Quanta incoerência das Testemunhas de Jeová! Cabem


bem aqui as palavras do apóstolo Paulo em Romanos
2.21a: Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti
mesmo?

A idolatria das Testemunhas de Jeová

Porventura as Testemunhas de Jeová não se tornam


idólatras quando atribuem a salvação à sua própria
organização? Chegam a usar da analogia da salvação em
relação à arca de Noé, dizendo: Simplesmente não é
verdade que todas as religiões conduzem ao mesmo fim.
Você precisa pertencer à organização de Jeová e fazer a
vontade de Deus, a fim de receber sua bênção de vida
eterna (Poderá Viver para Sempre no Paraíso na Terra -
Edição 1983. STV p. 255).

As Testemunhas de Jeová condicionam a salvação a duas


providências: 1) fazer a vontade de Deus; e 2) pertencer
à organização de Jeová, referindo-se à sua própria seita
religiosa. De fato, precisamos fazer a vontade de Deus,
como ensinou Jesus na oração dominical: ...seja feita a
tua vontade, assim na terra como no céu (Mt 6.10). Mas,
pertencer à Sociedade Torre de Vigia, considerando-a o
único meio de salvação, é um ato de idolatria. A salvação
depende única e exclusivamente do Senhor Jesus: E em
Página
nenhum outro há salvação, porque também debaixo do
céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo
qual devamos ser salvos (At 4.12).
18

A Sociedade Torre de Vigia declara: Tenha fé na


organização vitoriosa de Jeová (A Sentinela - 1 de
setembro de 1979. STV. p.12). Devemos, então,
perguntar: fé em Deus e no Senhor Jesus Cristo ou em
uma organização religiosa? A Bíblia nos oferece a
resposta por meio das palavras do próprio Senhor Jesus
em João 14.1: Credes em Deus, crede também em mim.
O escravo fiel e discreto

Na Tradução do Novo Mundo, uma publicação da


Sociedade Torre de Vigia, a versão de Mateus 24.45 vem
da seguinte forma: escravo fiel e discreto. Essa figura é
aplicada pelas Testemunhas de Jeová a seus líderes,
pessoas encarregadas de distribuir-lhes o alimento
espiritual desde 1914. Esses líderes também são
conhecidos como Corpo Governante.

Os prosélitos dessa seita afirmam que seus líderes, com


ministério sediado no Brooklin, Nova Iorque, recebem
orientação teocrática e, por isso, não devem ser
questionados em sua autoridade supostamente divina.
Ao contrário, devem ser cegamente obedecidos. Pois,
segundo crêem as Testemunhas de Jeová, tais homens
são os únicos intérpretes infalíveis das Escrituras.

Ainda segundo as Testemunhas de Jeová, a Bíblia não foi


escrita para ninguém, a não ser para elas próprias,
somente. Ele [Deus] não alimenta cada um
individualmente nem designa sobre eles [adeptos da
Seita] uma só pessoa. Nenhum estudante individual da
Palavra de Deus revela a vontade de Deus, tampouco
Página
interpreta a sua Palavra. Deus interpreta e ensina,
mediante Cristo, o Servo Principal, que por sua vez usa o
escravo discreto como canal visível, a organização
19
teocrática visível (A Sentinela - novembro de 1952. STV.
p. 164).

A Bíblia é um livro de organização e pertence à


congregação cristã como organização, e não a
indivíduos, não importa quão sinceramente creiam poder
interpretar a Bíblia. Por esta razão, a Bíblia não pode ser
devidamente entendida sem se ter presente a
organização visível de Jeová (A Sentinela- 1 de junho de
1968. STV. p. 327).

As Testemunhas de Jeová podem até vir a discordar do


ensino do Corpo Governante, mas isso de nada
adiantará. Pois é aquilo que o escravo fiel e discreto
escreve nas publicações da Sociedade Torre de Vigia que
deve ser transmitido de porta em porta quando os
adeptos dessa seita saem em seu trabalho de campo: As
verdades que havemos de publicar são aquelas que a
organização do escravo discreto fornece, e não algumas
opiniões pessoais contrárias ao que o escravo
providenciou como sendo sustento conveniente (A
Sentinela - novembro de 1952. STV, p. 164). E concluem:
Os que permanecem leais à organização de Jeová
assumem o parecer que os apóstolos tinham, quando
muitos dos discípulos de Jesus deixaram de segui-lo.
Pedro expressou os sentimentos deles, dizendo: Senhor,
para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna. As
ovelhas leais vêem que o caminho da vida é com a
organização fiel de Jeová (A Sentinela - 1 de maio de
1963. STV, p. 279).

O fim da lei é Cristo

Página
Quem poderia imaginar que as Testemunhas de Jeová, no
seu zelo religioso, se assemelhassem àqueles a quem
Paulo afirmou: Porque lhes dou testemunho de que têm
20
zelo por Deus, mas não com entendimento. Porquanto,
não conhecendo a justiça de Deus, e procurando
estabelecer a sua própria justiça, não se sujeitam à
justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para justiça
de todo aquele que crê (Rm 10.2-4).

Se uma pessoa obedece a alguém ou a alguma


organização, voluntária ou compulsoriamente, como algo
de domínio superior e de grande autoridade, então pode-
se dizer biblicamente que tal pessoa é idólatra.

Página
21

3. EXORCISMO – AS FORÇAS DO MAL EM FOCO

Por Elvis Brassaroto Aleixo

Depois de quase três décadas, o filme “O exorcista”


(pioneiro do gênero de exaltação às forças do mal e
assistido por milhões de pessoas) retorna às telas dos
cinemas brasileiros. Nos EUA, na primeira semana de
exibição da nova versão desse trabalho, o faturamento
girou em torno de U$ 8,5 milhões. Qual a razão de
tamanho sucesso e interesse por esse filme 27 anos
depois de sua exibição original? A grande atração seriam
os onze minutos de imagens cortadas em sua primeira
edição. Um outro motivo seria o forte interesse das
pessoas, por mais materialistas que sejam, por temas
religiosos e proposições de fé.

O exorcismo, ato de esconjurar ou expelir demônios, é


encontrado em várias passagens bíblicas. Na época em
que o cristianismo se expandia, existiam alguns judeus
que praticavam o exorcismo como profissão. Durante os
dois anos em que o apóstolo Paulo esteve na Ásia
pregando o evangelho aos judeus e aos gregos, foram
notórias as extraordinárias obras que Deus fez através
das suas mãos. Os seus lenços e aventais eram levados
aos enfermos e as enfermidades fugiam dos doentes; os
espíritos malignos saíam. Admirados por tal proeza,
“alguns dos exorcistas judeus ambulantes tentavam
invocar o nome do Senhor Jesus sobre os que tinham
espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus a
quem Paulo prega. E os que faziam isto eram os sete
filhos de Ceva, judeu, principal dos sacerdotes.
Página
Respondendo, porém, o espírito maligno disse: “Conheço
a Jesus, e bem sei quem é Paulo; mas vós quem sois? E,
saltando neles o homem que tinha o espírito maligno, e
22
assenhorando-se de todos, pôde mais do que eles; de tal
maneira que, nus e feridos, fugiram daquela casa”.

Por causa desse acontecimento veio grande temor sobre


todos os habitantes de Éfeso, os feiticeiros queimaram
seus livros de magia publicamente, o nome do Senhor
Jesus foi engrandecido e a Palavra de Deus cresceu e
prevaleceu poderosamente (At 19.13-20).
No tempo de Jesus não havia muitos critérios para que
fosse atribuída a uma pessoa possessão demoníaca. João
Batista, precursor de Jesus, era tido como possesso:
“Porquanto veio João, não comendo nem bebendo, e
dizem: Tem demônio” (Mt 11.18).

Quando Jesus acusou os judeus de procurar matá-lo, “a


multidão respondeu, e disse: Tens demônio; quem
procura matar-te?” (Jo 7.20). Ao discursar sobre a
parábola do Bom Pastor que dá a vida pelas suas
ovelhas, as palavras de Cristo causaram divisão entre os
judeus: “E muitos deles diziam: Tem demônio, e está fora
de si; por que o ouvis? Diziam outros: Estas palavras não
são de endemoninhado. Pode, porventura, um demônio
abrir os olhos aos cegos? (Jo 10. 20-21).

As fórmulas mágicas de Roma

A igreja católica romana reivindica, através da autoridade


eclesiástica, ser o canal exclusivo de libertação em casos
de possessão demoníaca. No catolicismo, “o exorcismo
propriamente dito é reservado aos sacerdotes
especialmente designados pelo Bispo diocesano” 3.
Ninguém pode legitimamente fazer exorcismo em
Página
possessos a não ser que tenha obtido licença especial e
expressa do Ordinário local”4.
23
Temos na obra “Manual do exorcista” - um pequeno
compêndio elaborado pelo Sumo Pontífice León Magno III
- orações contra toda espécie de encantamentos; de
sortilégios a possessões. “Estas preces foram
organizadas para serem entregues ao imperador Carlos
Magno, com o intuito de se utilizar no combate às
interferências espirituais malignas que pretendessem
envolvê-lo”5. Segundo o papa, essas orações fariam que
o poder do imperador fosse ilimitado na terra.
Um meio pelo qual se podia valer o exorcista para a
realização do ritual era o uso de água benta salpicada
nas partes mais afetadas pelo demônio. Se o possuído
apresentava o perigo de atacar alguém, era amarrado. O
ritual empreendia muitas conjurações, dentre as quais
destacamos algumas:

“Deus, a majestade de Cristo, o Espírito Santo, o


Sacramento da cruz, a fé dos apóstolos Pedro e Paulo e
os demais santos, o sangue dos mártires, a intervenção
dos santos e das santas, os mistérios da fé cristã,
ordenam-te a obedecer. Saia, violador da lei; saia,
sedutor cheio de astúcia e de engano, inimigo da virtude,
perseguidor dos inocentes, ceda teu espaço,
crudelíssimo, cede-o, imundo; cede-o para Cristo, a quem
não pode chegar, pois ele te despojou e te tirou do teu
reino, e te encarcerou depois de tê-lo vencido e atirado
para as trevas exteriores, onde os mortos esperam a ti e
os teus companheiros”6.

A arrogante detenção exclusivista do poder de exorcismo


também foi ab-rogada pelos discípulos íntimos de Jesus,
assim relatadas nas palavras de João: “Mestre, vimos um
Página
que em teu nome expulsava demônios, o qual não nos
segue; e nós lho proibimos, porque não nos segue. Jesus,
porém, disse não lho proibais; porque ninguém há que
24
faça milagre em meu nome e possa logo falar mal de
mim. Porque quem não é contra nós, é por nós” (Jo 9.38-
40, grifo do autor).

Embora a autoridade conferida ao exorcista por meio do


nome de Jesus seja um notável sinal de poder, isso não
lhe garante entrada no reino de Deus: “Muitos me dirão
naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em
teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E
em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então
lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos
de mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mt 7.22-23, grifo
do autor).

A autenticidade da libertação do possesso está fincada


na eficácia que há no nome de Jesus, conforme é inferido
nos quatro evangelhos. Jesus nunca ensinou a evocar
nomes de santas ou santos para este propósito. Paulo e
Pedro nunca mencionaram nomes de profetas ou de
mártires do Antigo Testamento (Mt 23.37) para obter
êxito nos seus ministérios.

Enfatizamos que é, única e exclusivamente, através do


nome de Jesus que alguém pode ser verdadeiramente
livre da opressão diabólica! (Jo 8.32,36; At 16.18). Tão-
somente Ele pode aliviar os oprimidos! (Mt 11.28).

Cristãos endemoninhados?

Existe entre os cristãos sinceros uma preocupação


demasiada com a demonologia. Alguns chegam ao
absurdo de admitir a possessão de crentes. Esta doutrina
tem causado grandes conflitos entre os cristãos que no
Página
passado estiveram envolvidos com o espiritismo. Quando
velhas criaturas, praticavam a comunicação com os
mortos, recebendo entidades espirituais no exercício da
25
mediunidade. Agora, como novas criaturas, temem e
acreditam que suas experiências passadas os tornam
mais suscetíveis à possessão demoníaca que os outros
cristãos.

Para fundamentar esta exótica doutrina, seus defensores


alegam a possessão de crentes em alguns casos bíblicos:
Judas Iscariotes, Pedro, Ananias e Safira, entre outros.
Quanto a Judas Iscariotes

Apesar de ser um dos doze, não era um cristão autêntico.


Em João 6.70 Jesus declara: Não vos escolhi vós os doze?
e um de vós é um diabo (grifo do autor). Judas não era
como os demais: “Disse-lhe Jesus: Aquele que está
lavado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais
todo está limpo. Ora, vós estais limpos, mas não todos.
Porque bem sabia ele quem o havia de trair; por isso
disse: Nem todos estais limpos” (Jo 13.10-11, grifo do
autor).

Arrazoamos ainda: poderia um cristão autêntico roubar?


Judas Iscariotes era ladrão: “Ora, ele disse isto, não pelo
cuidado que tinha dos pobres, mas porque era ladrão e
tinha a bolsa, e tirava o que ali se lançava” (Jo 12.6). Seu
final não poderia ter sido mais trágico: “E ele, atirando
para o templo as moedas de prata, retirou-se e foi-se
enforcar” (Mt 27.5).

Quanto a Pedro

Na cerimônia do lava-pés, Pedro não permitiu que Jesus o


lavasse: “Nunca me lavarás os pés. Repicou-lhe Jesus: Se
Página
eu não te lavar não tens parte comigo” (Jo 13.8). Após ter
entendido que esta atitude era equivalente a rejeitar
Jesus e seus benefícios, o impetuoso apóstolo pediu que
26
lhe fossem lavados não somente os pés, mas também as
mãos e a cabeça (Jo 13.9). Como vimos, havia um que
estava impuro, e este não era Pedro.

Como explicar Marcos 8.33? “Mas ele, virando-se, e


olhando para os seus discípulos, repreendeu a Pedro,
dizendo: Retira-te de diante de mim, Satanás; porque
não compreendes as coisas que são de Deus, mas as que
são do homem” (grifo do autor).
Em seu intenso cuidado humano, Pedro serviu de
instrumento satânico ao pronunciar palavras que se
opunham aos planos de Deus para a salvação da
humanidade. Não há nenhuma evidência de possessão,
mas, sim, uma influência diabólica a qual todos os que
não vigiam estão expostos (Mc 14.38). Alguns momentos
antes, na ocasião em que Jesus interrogou os discípulos
acerca da sua identidade, Pedro havia sido elogiado:
“...Quem dizem os homens ser o filho do homem?... E
Simão Pedro, respondendo, disse: Tu és o Cristo, o Filho
do Deus vivo... Bem aventurado és tu, Simão Barjonas,
porque to não revelou a carne e o sangue, mas meu Pai,
que está nos céus (Mt 16.13-17, grifo do autor).

Depois de algum tempo, em virtude de suas experiências


e tendo adquirido maior maturidade espiritual, o apóstolo
enfatizou a importância da vigilância e explicou a posição
do diabo em relação à vida do cristão: “Sede sóbrios;
vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em
derredor, bramando como leão, buscando a quem possa
tragar” (1Pe 5.8, grifo do autor).

No final de sua vida, Pedro autenticou sua fé como


Página
mártir, morrendo crucificado de cabeça para baixo por
não se achar digno de morrer como seu mestre 7.
27
Quanto a Ananias e Safira

“Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás seu


coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e
retivesses parte do preço da herdade?” (At 5.3, grifo do
autor).

Ananias e sua esposa receberam ataques de Satanás – a


Bíblia diz: “Não deis lugar ao diabo” (Ef 4.27) – e, em
conseqüência, revelaram reações pecaminosas. Jesus
disse: “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará
também o vosso coração” (Mt 6.21). A questão em pauta
é tão-somente o fato de tentarem mentir ao Espírito
Santo e a falta de fé para fazer como os demais
discípulos que depositavam aos pés dos apóstolos todo o
valor da herdade que possuíam.

Uma impossibilidade à luz da Bíblia

Infelizmente, em alguns cultos “evangélicos” dá-se


grande enfoque à atuação dos demônios na vida das
pessoas, deixando em segundo plano o louvor e a
adoração ao único que é digno de recebê-los (Ap 4.11).
Examinando à Bíblia, entendemos que a libertação de
pessoas endemoninhadas e a manifestação de espíritos
malignos na presença de cristãos era um fator comum
decorrente da verdade por Jesus ensinada, pois não pode
haver comunhão entre a luz e as trevas. Não se
determinava um culto periódico específico para tal
prática. Surge a questão: Como deveriam proceder os
irmãos da igreja primitiva nas suas reuniões? O apóstolo
Paulo responde: “Quando vos ajuntais, cada um de vós
tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem
Página
interpretação. Faça-se tudo para edificação” (1 Co 14.26,
grifo do autor). A Palavra de Deus é cristocêntrica. Cristo
é o centro das nossas vidas. Nos cultos, Cristo deve ser o
28
centro das atenções!

Não há quaisquer possibilidades de um crente genuíno


ser possuído por demônios. O verdadeiro cristão, sal da
terra e luz do mundo (Mt 5.13-14), é nascido de Deus (Jo
3.3), e a Ele se sujeita resistindo ao diabo (Tg 4.4) e o
maligno não lhe toca (1 Jo 5.18). Não discordamos que
crentes aparentes, disfarçados, fiquem possessos. E,
diante disso, é aconselhável que alguém com o dom
específico de discernir espíritos prove se tal pessoa está
realmente endemoninhada.

Essa classe de indivíduos foi comparada por Jesus com o


joio, erva daninha inútil que não serve para qualquer
proveito. Tais pessoas precisam urgentemente da
regeneração do Espírito Santo; do contrário, tendo
crescido o joio, deve ser separado do trigo e queimado
(Mt 13.24-30). Existe uma gritante distinção entre a
aparência e a essência. O Deus que servimos olha para
dentro (coração), e não para fora (1 Sm 16.7).

Ratificamos a impossibilidade de o crente ser possuído


por demônios com as seguintes considerações:

Somos templo do Espírito Santo e este, por sua vez, não


é um visitante esporádico, antes, é um morador
permanente que não se ausenta de sua morada (1 Co
6.19,20);

Esse glorioso habitante é zeloso e sente ciúmes de seu


santuário (Tg 4.5);

Somos selados com o Espírito Santo da promessa, o qual


Página
é o penhor (garantia) da nossa herança, para a redenção
da possessão adquirida, para o louvor da sua glória (Ef
1.13-14);
29

Somos um povo especial, propriedade exclusiva de Deus


(Tt 2.14,1 Pe 2.9) resgatados por um preço caríssimo (Sl
49.8);

Somos auxiliados em nossas fraquezas pela


incomparável intercessão do Espírito Santo (Rm 8.26);

Somos mais que vencedores por aquele que nos amou e


estamos certos de que absolutamente nada poderá nos
separar desse amor (Rm 8.37-39);

O Senhor guarda a nossa alma contra todo mal (Sl 121.5-


7);

Jesus é o valente que venceu e expulsou Satanás das


nossas vidas, tirando-lhe toda a sua armadura,
repartindo os seus despojos (Lc 11.21-22);

Se formos infiéis, Ele permanece fiel, pois não pode


negar-se a si próprio (2 Tm 2.13).

A soberania de Jesus sobre os demônios

A possessão demoníaca é uma enfermidade espiritual


que pode, às vezes, exteriorizar uma doença física. A
Bíblia diz que o Cordeiro de Deus “verdadeiramente
tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores
levou sobre si” (Is 53.4).

O fariseu Nicodemos reconheceu que Jesus era mestre


vindo de Deus por meio de seus singulares prodígios e
grande parte desses prodígios estavam relacionados a
Página
curas de enfermidades. Em muitos casos, essas
enfermidades eram frutos de possessões demoníacas.
“E, tendo chegado a tarde, quando já estava se pondo o
30
sol, trouxeram-lhe todos os que se achavam enfermos e
os endemoninhados. E curou muitos que se achavam
enfermos de diversas enfermidades e expulsou muitos
demônios, porém não deixava falar os demônios, porque
o conheciam” (Mc 1.34, grifo do autor).

Acontecimentos como esses foram comuns em seu


ministério. Certa vez, Jesus curou um mudo e
endemoninhado: “E expulsou o demônio, falou o mudo e
a multidão se maravilhou dizendo: Nunca tal se viu em
Israel” (Mt 9.33). Houve também algumas mulheres que
foram libertas pelo seu poder: “e também algumas
mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos
e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual
saíram sete demônios” (Mt 8.3; Mc 16.9).

Lembramos também do relato histórico de um homem,


gadareno, que era possuído por demônios. Não andava
vestido, habitava nos sepulcros, era muitas vezes
aprisionado com grilhões e cadeias e as prisões eram por
ele quebradas; temível, era considerado um monstro na
sociedade da época. Seríamos capazes de avaliar o
rebuliço e a insegurança que causava a todos os
moradores da cidade?

O texto diz que repreendida por Jesus, a legião se


prostrou diante dele: “E, quando viu a Jesus, prostrou-se
diante dele, exclamando, e dizendo com alta voz: Que
tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Peço-te
que não me atormentes” (Lc 8.28). Os de demônios
chegaram a suplicar-lhe que não os mandasse para um
abismo próximo, sendo a eles concedido que entrassem
numa vara de porcos que naquele momento pastava no
Página
local. O resultado foi glorioso: “Os habitantes da cidade
acharam o homem de quem haviam saído os demônios,
vestido, e em juízo, assentado aos pés de Jesus; e
31
temeram” (Lc 8.35, grifo do autor).

Jesus sempre demonstrou sua soberania diante dos


demônios, porém houve um caso em que seus discípulos
não conseguiram expelir uma legião de demônios devido
ao maior grau de resistência dessa legião e a falta de fé
revelada pelos discípulos: “e trouxe-o (lunático) os teus
discípulos e não puderam curá-lo. Então repreendeu
Jesus o demônio, que saiu dele; e desde aquela hora o
menino sarou. Jesus explicou: Esta casta de demônios
não se expulsa senão pela oração e pelo jejum” (Mt 17.
16,18, 21).

Absolutamente, não é de qualquer maneira que podemos


enfrentar os inimigos das nossas almas. Veja Efésios
6.10-18.

O aparente fracasso dos discípulos causou-lhes


desapontamento. Contudo, noutra passagem podemos
contemplá-los cheio de alegria pelo fato de terem os
demônios sujeitado-se à autoridade de Jesus a eles
conferida (Lc 10.17). Nada era fruto da capacidade
humana: “Eis que vos dou poder para pisar serpentes e
escorpiões, e toda força do inimigo, e nada vos fará dano
algum” (Lc 10.19, grifo do autor).

O mundo jaz no maligno, o deus deste século (2 Co 4.4).


Ele tem sob seus domínios os reinos deste mundo (Lc
4.4). O confronto de poderes, luz versus trevas, é
inevitável. A Bíblia declara que a vitória é certa (1 Jo 4.4).

Estejamos sempre prontos para este combate como bons


soldados de Cristo, lembrando que o maior motivo da
Página
nossa alegria não é a sujeição dos demônios, mas, antes,
por estar o nosso nome escrito no livro dos céus (Lc
10.20). Devemos sempre tributar adoração àquele que
32
recebeu todo o poder no céu e na terra (Mt 28.18) e se
revelou para desfazer as obras do diabo (1 Jo 3.8).

Notas:

3 Pergunte e Responderemos, Ano XL. Maio. 1999. 444,


p. 194.
4 Pergunte e Responderemos, Ano XL. Maio. 1999. 444,
p. 197.
5 Manual do Exorcista (Orações do Papa León III). Papa
León Magno. Madras 1998 (prefácio).
6 Manual do Exorcista (Orações do Papa León III). Papa
León Magno. Madras 1998, p. 78.
7 Ele andou entre nós. Josh Macdowell & Bill Wilson.
Candeia. 1988, p. 82.

Página
33
4. FESTAS JUNINAS – FOLCLORE OU RELIGIÃO?

Por Natanael Rinaldi e Luiz Antonio Capriello

O Inciso VI, do artigo 5º da Constituição Federal reza o


seguinte: “é inviolável a liberdade de consciência e de
crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos
religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos
locais de culto e suas liturgias”.

O ensino brasileiro tem explorado em nossas escolas


(públicas e/ou particulares) as muitas manifestações
folclóricas do nosso povo, inserindo-as em seus
calendários de atividades com o respeitável propósito de
auxiliar a definição da verdadeira identidade brasileira.
Nosso país, em virtude de seu passado histórico,
absorveu diversas culturas e costumes, fato que nos
tornou conhecidos como “um país de muitas caras”.
Desde que conquistamos a independência de Portugal
estamos lutando para nos descobrirmos. E um dos meios
eficazes para atingir esse objetivo é justamente a
avaliação acurada das vastas e peculiares manifestações
populares.

Página
Naturalmente, as festas juninas fazem parte das
manifestações populares mais praticadas no Brasil, e
todas as considerações sobre essas comemorações
34
exigem uma análise equilibrada, pois há um limite entre
o folclore e a religião, visto que esta quase sempre acaba
mesclando-se com as tradições. E é justamente o que
propomos neste artigo: uma avaliação equilibrada. Afinal,
será que temos maturidade espiritual para delinear as
fronteiras entre o que é folclore e o que é religião?

Uma herança portuguesa


A palavra folclore é formada dos termos ingleses folk
(gente) e lore (sabedoria popular ou tradição) e significa
“o conjunto das tradições, conhecimentos ou crenças
populares expressas em provérbios, contos ou canções;
ou estudo e conhecimento das tradições de um povo,
expressas em suas lendas, crenças, canções e
costumes”.

Como é do conhecimento geral, fomos descobertos pelos


portugueses, povo de crença reconhecidamente católica.
Suas tradições religiosas foram por nós herdadas e
facilmente se incorporaram em nossas terras,
conservando seu aspecto folclórico. Sob essa base é que
as instituições educacionais promovem, em nome do
ensino, as festividades juninas, expressão que carrega
consigo muito mais do que uma simples relação entre a
festa e o mês de sua realização. Entretanto, convém
ressaltar a coerente distância existente entre as
finalidades educacionais e as religiosas. Além disso, não
podemos nos esquecer de que o teor de tais festas oscila
de região para região do país, especialmente no Norte e
no Nordeste, onde o misticismo católico é mais
acentuado.

Página
As origens dessa comemoração remontam à antiguidade,
quando se prestava culto à deusa Juno da mitologia
romana. Os festejos em homenagem a essa deusa eram
35
denominados “junônias”. Daí o atual nome “festas
juninas”.1

As primeiras referências às festas de São João no Brasil


datam de 1603 e foram registradas pelo frade Vicente do
Salvador, que se referiu aos nativos que aqui estavam da
seguinte forma: “os índios acudiam a todos os festejos
dos portugueses com muita vontade, porque são muito
amigos de novidade, como no dia de São João Batista,
por causa das fogueiras e capelas”.2

A origem das festividades

Para as crianças católicas, a explicação para tais


festividades é tirada da Bíblia com acréscimos
mitológicos. Os católicos descrevem o seguinte:

“Nossa Senhora e Santa Isabel eram muito amigas. Por


esse motivo, costumavam visitar-se com freqüência,
afinal de contas amigos de verdade costumam conversar
bastante. Um dia, Santa Isabel foi à casa de Nossa
Senhora para contar uma novidade: estava esperando
um bebê ao qual daria o nome de João Batista. Ela estava
muito feliz por isso! Mas naquele tempo, sem muitas
opções de comunicação, Nossa Senhora queria saber de
que forma seria informada sobre o nascimento do
pequeno João Batista. Não havia correio, telefone, muito
menos Internet. Assim, Santa Isabel combinou que
acenderia uma fogueira bem grande que pudesse ser
vista à distância. Combinou com Nossa Senhora que
mandaria erguer um grande mastro com uma boneca
sobre ele. O tempo passou e, do jeitinho que
combinaram, Santa Isabel fez. Lá de longe Nossa
Página
Senhora avistou o sinal de fumaça, logo depois viu a
fogueira. Ela sorriu e compreendeu a mensagem. Foi
visitar a amiga e a encontrou com um belo bebê nos
36
braços, era dia 24 de junho. Começou, então, a ser
festejado São João com mastro, fogueira e outras coisas
bonitas, como foguetes, danças e muito mais!”3

Como podemos ver, a forma como é descrita a origem


das festas juninas é extremamente pueril, justamente
para que alcance as crianças.

As comemorações do dia de São João Batista, realizadas


em 24 de junho, deram origem ao ciclo festivo conhecido
como festas juninas. Cada dia do ano é dedicado a um
dos santos canonizados pela Igreja Católica. Como o
número de santos é maior do que o número de dias do
ano, criou-se então o dia de “Todos os Santos”,
comemorado em 1 de novembro. Mas alguns santos são
mais reverenciados do que outros. Assim, no mês de
junho são celebrados, ao lado de São João Batista, dois
outros santos: Santo Antônio, cujas festividades
acontecem no dia 13, e São Pedro, no dia 24.

Santo Antônio

Pouca gente sabe que o nome verdadeiro desse santo


não era Antônio, mas Fernando de Bulhões, segundo
consta. Ele nasceu em Portugal em 15 de agosto de 1195
e faleceu em 13 de junho de 1231. Aos 24 anos, já na
Escola Monástica de Santa Cruz de Coimbra, foi ordenado
sacerdote. Ao tomar conhecimento de que quatro
missionários foram mortos pelos serracenos, decidiu
mudar-se para Marrocos. Ao retornar para Portugal, a
embarcação que o trazia desviou-se da rota por causa de

Página
uma tempestade, e ele foi parar na Itália. Lá, foi
nomeado pregador da Ordem Geral. Viveu tratando dos
enfermos e ajudando a encontrar coisas perdidas.
37
Dedicava-se ainda em arranjar maridos para as moças
solteiras.

Sua devoção foi introduzida no Brasil pelos padres


franciscanos, que fizeram erigir em Olinda (PE) a
primeira igreja dedicada a ele. Faz parte da tradição que
as moças casadouras recorram a Santo Antônio, na
véspera do dia 13 de junho, formulando promessas em
troca do desejado matrimônio. Esse fato acabou
curiosamente transformando 12 de junho no “Dia dos
Namorados”. No dia 13, multidões se dirigirem às igrejas
pelo pão de Santo Antônio. Dizem que é bom carregar o
santo na algibeira para receber proteção.

É bastante comum entre as devotas de Santo Antônio


colocá-lo de cabeça para baixo no sereno amarrado em
um esteio. Ou então jogá-lo no fundo do poço até que o
pedido seja satisfeito. Depois cantam:

“Meu Santo Antônio querido,


Meu santo de carne e osso,
Se tu não me deres marido,
Não te tiro do poço”.

As festas antoninas são urbanas, caseiras, domésticas,


porque Santo Antônio é o santo dos nichos e das
barraquinhas.

Na A Tribuna de 14 de junho de 1997, página A8, lemos:


“O dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro, foi
lembrado... com diversas missas e a distribuição de 10
mil pãezinhos. Milhares de fiéis compareceram às igrejas
para fazer pedidos, agradecer as graças realizadas e
Página
levar os pães, que, segundo dizem os fiéis, simbolizam a
fé e garantem fartura à mesa”.
38
Ainda para Santo Antônio, cantam seus admiradores:

“São João a vinte e quatro


São Pedro a vinte e nove
Santo Antônio a treze
Por ser o santo mais nobre”4.

São João
A Igreja Católica o consagrou santo. Segundo essa igreja,
João Batista nasceu em 29 de agosto, em 31 A.D., na
Palestina, e morreu degolado por Herodes Antipas, a
pedido de sua enteada Salomé (Mt 14.1-12). A Bíblia, em
Lucas 1.5-25, relata que o nascimento de João Batista foi
um milagre, visto que seus pais, Zacarias e Isabel, na
ocasião, já eram bastante idosos para que pudessem
conceber filhos.

Em sua festa, São João é comemorado com fogos de


artifício, tiros, balões coloridos e banhos coletivos pela
madrugada. Os devotos também usam bandeirolas
coloridas e dançam. Erguem uma grande fogueira e
assam batata-doce, mandioca, cebola-do-reino, milho
verde, aipim etc. Entoam louvores e mais louvores ao
santo.

As festas juninas são comemoradas de uma forma rural,


sempre ao ar livre, em pátios e/ou grandes terrenos
previamente preparados para a ocasião.

João Batista, biblicamente falando, foi o precursor de


Jesus e veio para anunciar a chegada do Messias. Sua
mensagem era muito severa, conforme registrado em
Página
Mateus 3.1-11. Quando chamaram sua atenção para o
fato de que os discípulos de Jesus estavam batizando
mais do que ele, isso não lhe despertou sentimentos de
39
inveja (Jo 4.1), pelo contrário, João Batista se alegrou
com a notícia e declarou que não era digno de desatar a
correia das sandálias daquele que haveria de vir,
referindo-se ao Salvador (Lc 3.16).

Se em vida João Batista recusou qualquer tipo de


homenagem ou adoração, será que agora está aceitando
essas festividades em seu nome, esse tipo de adoração à
sua pessoa? Certamente que não!
São Pedro

É atribuída a São Pedro a fundação da Igreja Católica,


que o considera o “príncipe dos apóstolos” e o primeiro
papa. Por esse motivo, os fiéis católicos tributam a esse
santo honrarias dignas de um deus. Para esses devotos,
São Pedro é o chaveiro do céu. E para que alguém possa
entrar lá é necessário que São Pedro abra as portas.

Uma das crendices populares sobre São Pedro (e olha


que são muitas!) diz que quando chove e troveja é
porque ele está arrastando móveis no céu. São Pedro é
cultuado em 29 de junho como patrono dos pescadores.
Na ocasião, ocorrem procissões marítimas em sua
homenagem com grande queima de fogos. Para os
pescadores, o dia de São Pedro é sagrado. Tanto é que
eles não saem ao mar para pescaria.

A brincadeira de subir no pau-de-sebo é a que mais se


destaca nas festividades comemorativas a São Pedro. O
objetivo para quem participa é alcançar os presentes
colocados no topo.

Página
Os sentimentos do apóstolo Pedro eram extremamente
diferentes do que se apregoa hoje, no dia 29. De acordo
com sua forma de agir e pensar, conforme mencionado
40
na Bíblia, temos razões para crer que ele jamais aceitaria
os tributos que hoje são dedicados à sua pessoa.

Quando Pedro, sob a autoridade do nome de Jesus, curou


o coxo que jazia à porta Formosa do templo de Jerusalém
e teve a atenção do povo voltada para ele como se por
sua virtude pessoal tivesse realizado o milagre não
titubeou, mas declarou com muita segurança: “Por que
olhais tanto para nós, como se por nossa própria virtude
ou santidade fizéssemos andar este homem? ...o Deus de
nossos pais, glorificou a seu filho Jesus ... Pela fé no
nome de Jesus, este homem a quem vedes e conheceis
foi fortalecido. Foi a fé que vem pelo nome de Jesus que
deu a este, na presença de todos vós, esta perfeita
saúde” (At 3.12-16).

O Pedro da Bíblia demonstrou humildade ao entrar na


casa de Cornélio, que saiu apressado para recepcioná-lo.
O texto sagrado declara: “E aconteceu que, entrando
Pedro, saiu Cornélio a recebê-lo, e, prostrando-se a seus
pés, o adorou. Mas Pedro o levantou, dizendo: Levanta-
te, que eu também sou homem” (At 10.25-26).

Os balões

A sociedade “Amigos do Balão” nasceu em 1998 para


defender a presença do ‘balão junino’ nessas
festividades. O padre jesuíta Bartolomeu de Gusmão e o
inventor Alberto Santos são figuras ilustres entre os
brasileiros por soltarem balões por ocasião das festas
juninas de suas épocas, portanto podemos dizer que eles
foram os precursores dessa prática.

Página
Hoje, como sabemos, as autoridades seculares
recomendam os devotos a abster-se de soltar balões
pelos incêndios que podem provocar ao caírem em uma
41
floresta, refinaria de petróleo, casas ou fábricas. Não
obstante, essa prática vem resistindo às proibições das
autoridades. Geralmente, os balões trazem inscrições de
louvores aos santos de devoção dos fiéis, como, por
exemplo, “VIVA SÃO JOÃO!!!”, ou a outro santo qualquer
comemorado nessas épocas.

Todos os cultos das festas juninas estão relacionados


com a sorte. Por isso os devotos acreditam que ao
soltarem um balão e ele subir sem nenhum problema
seus desejos serão atendidos, caso contrário (se o balão
não alcançar as alturas) é um sinal de azar. Mas tudo isso
não passa de crendices populares.

Sincretismo religioso

Religiões de várias regiões do Brasil, principalmente na


Bahia, aproveitam-se desse período de festas juninas
para manifestar sua fé junto com as comemorações
católicas. O candomblé, por exemplo, ao homenagear os
orixás da sua linha, mistura suas práticas com o ritual
católico. Assim, durante o mês de junho, as festas
romanas ganham um cunho profano com muito samba
de roda e barracas padronizadas que servem bebidas e
comidas variadas. Paralelamente, as bandas de axé
music se espalham pelas ruas das cidades baianas
durante os festejos juninos. Lá, devido ao candomblé,
Santo Antônio é confundido com Ogum, santo guerreiro
da cultura afro-brasileira.

Os evangélicos e as festas juninas

Diante de tudo isso, perguntamos: “Teria algum problema


Página
os evangélicos acompanharem seus filhos em uma
dessas festas juninas realizadas nas escolas, quando as
crianças, vestidas a caráter (de caipirinha), dançam
42
quadrilha e se fartam dos pratos oferecidos nessas
ocasiões: cachorro-quente, pipoca, milho verde etc?”. É
óbvio que nenhum crente participa dessas festas com o
objetivo de praticar a idolatria, pois tal procedimento, por
si só, é condenado por Deus!

Quanto à essa questão, tão polêmica, é oportuno


mencionar o comportamento de certas igrejas
evangélicas, com a alegação de estarem propagando o
evangelho durante o Carnaval, dedicam-se a um tipo
duvidoso de evangelização nessa época do ano. Fazem
de tudo, inclusive usam blocos carnavalescos com nomes
bíblicos. Não devemos nos esquecer, no entanto, de que
as estratégias evangelísticas devem ocorrer o ano todo,
e não apenas em determinadas ocasiões. O mesmo
acaba acontecendo no período das festas juninas.
Ultimamente, surgiram determinadas igrejas evangélicas
que, a fim de levantar fundo para os necessitados e
distribuir cestas básicas aos pobres, estão armando
barracas junto com os católicos em locais em que as
festas juninas são promovidas por órgãos públicos. Os
produtos que vendem, diga-se de passagem, são
característicos das festividades juninas. Os “cristãos” que
ficam nas barracas vestem-se a caráter e pensam que,
dessa forma, estão procedendo biblicamente.

E o que dizer das igrejas que promovem festas juninas


em suas próprias dependências com a alegação de
arrecadarem fundos? As festas juninas têm um caráter
religioso que desagrada a Deus. Então, como separar o
folclore da religião se ambas estão intrinsecamente
ligadas?

Página
O povo de Israel abraçou os costumes das nações pagãs
e foi criticado pelos profetas de Deus. A vida de Elias é
um exemplo específico do que estamos falando. Ele
43
desafiou o povo de Israel a escolher entre Jeová Deus e
Baal. O profeta pôs o povo à prova: “Até quando
coxeareis entre dois pensamentos? Se o Senhor é Deus,
segui-o, e se Baal, segui-o” (1Rs 18.21). É claro que o
contexto histórico do texto bíblico em pauta é outro,
mas, como observadores e seguidores da Palavra de
Deus, devemos tomar muito cuidado para não nos
envolvermos com práticas herdadas do paganismo. Pois
é muito arriscada a mistura de costumes religiosos,
impróprios à luz da Bíblia, adotada por alguns
evangélicos. É preciso que os líderes e pastores
aprofundem a questão, analisem a realidade cultural do
local em que desenvolvem certas atividades
evangelísticas e ministério e orientem os membros de
suas respectivas comunidades para que criem e ensinem
os filhos nos preceitos recomendados pela Palavra de
Deus. O simples fato de proibirem as crianças a
participar dessas comemorações na escola em que
estudam não resolve o problema, antes, acaba
agravando a situação.

O que diz a Bíblia

Para muitos cristãos, pode parecer que a participação


deles nessas festividades juninas não tenha nenhum mal,
e que a Bíblia não se posiciona a respeito. O apóstolo
Paulo, no entanto, declara em 1 Coríntios 10.11 que as
coisas que nos foram escritas no passado nos foram
escritas para advertência nossa. Vejamos o que ele disse:
“Ora, tudo isto lhes sobreveio como figuras, e estão
escritas para aviso nosso, para quem já são chegados os
fins dos séculos”.

Página
O que nos mostra a história do povo de Israel em sua
caminhada do Egito para Canaã? Quando os israelitas
acamparam junto ao Monte Sinai, Moisés subiu ao monte
44
para receber a lei da parte de Deus. A demora de Moisés
despertou no povo o desejo de promover uma festa a
Deus. Arão foi consultado e, depois de concordar, ele
próprio coletou os objetos de ouro e fabricou um bezerro
com esse material. O texto bíblico diz o seguinte: “Ele os
tomou das suas mãos, e com um buril deu forma ao ouro,
e dele fez um bezerro de fundição. Então eles disseram:
São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da
terra do Egito. Arão, vendo isto, edificou um altar diante
do bezerro e, apregoando, disse: Amanhã será festa ao
Senhor” (Êx 32.4-5).

Qual foi o resultado dessa festa idólatra ao Senhor? Deus


os puniu severamente: “Chegando ele ao arraial e vendo
o bezerro e as danças, acendeu-se-lhe a ira, e
arremessou das mãos as tábuas, e as quebrou ao pé do
monte. Então tomou o bezerro que tinham feito, e o
queimou no fogo, moendo-o até que se tornou em pó, e o
espargiu sobre a água, e deu-o a beber aos filhos de
Israel. Então ele lhes disse: Cada um ponha a sua espada
sobre a sua coxa. Passai e tornai pelo arraial de porta em
porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu
amigo, e cada um a seu vizinho” (Êx 32.19-20,27).

O teor religioso das festas juninas não passa de um ato


idólatra quando se presta culto a Santo Antônio, São João
e São Pedro. Paulo declara o seguinte: “Mas que digo?
Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o sacrificado ao ídolo
é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios
sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E
não quero que sejais participantes com os demônios”
(1Co 10.19-20).

Página
“E serviram aos seus ídolos, que vieram a ser-lhes um
laço. Demais disto, sacrificaram seus filhos e suas filhas
aos demônios. E derramaram sangue de seus filhos e de
45
suas filhas que sacrificaram aos ídolos de Canaã; e a
terra foi manchada com sangue”(Sl 106.36-37).

Como crentes, devemos adorar somente a Deus: “Ao


Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás” (Mt 4.10).
Assim, nossos lábios devem louvar tão-somente o Senhor
Deus: “Portanto, ofereçamos sempre por meio dele a
Deus sacrifício de louvor, que é o fruto dos lábios que
confessam o seu nome” (Hb 13.15). O texto de
Apocalipse 7.9 é um bom exemplo do que estamos
falando: “Depois destas coisas olhei, e eis aqui uma
multidão, a qual ninguém podia contar, de todas as
nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante
do trono, e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas
com palmas nas suas mãos. E clamavam com grande
voz, dizendo: Salvação ao nosso Deus, que está
assentado no trono, e ao Cordeiro”.

É possível imaginar um cristão cantando louvores a São


João Batista? O cântico seria mais ou menos assim:

“Onde está o Batista?


Ele não está na igreja
Anda de mastro em mastro
A ver quem o festeja”5

Lembramos a atitude de Paulo e Barnabé diante de um


ato de adoração que certos homens quiseram prestar a
eles: “E as multidões, vendo o que Paulo fizera,
levantaram a sua voz, dizendo em língua licaônica:
Fizeram-se os deuses semelhantes aos homens, e
desceram até nós. E chamavam Júpiter a Barnabé, e
Mercúrio a Paulo; porque este era o que falava. E o
Página
sacerdote de Júpiter, cujo templo estava em frente da
cidade, trazendo para a entrada da porta touros e
grinaldas, queria com a multidão sacrificar-lhes. Porém,
46
ouvindo isto os apóstolos Barnabé e Paulo, rasgaram as
suas vestes, e saltaram para o meio da multidão,
clamando, e dizendo: Senhores, por que fazeis essas
coisas? Nós também somos homens como vós, sujeitos
às mesmas paixões, e vos anunciamos que vos
convertais dessas vaidades ao Deus vivo, que fez o céu,
a terra, o mar e tudo o que neles há” (At 14.11-15).

Os santos não podem ajudar


Normalmente, as pessoas que participam das festas
juninas querem tributar louvores a seus patronos como
gratidão pelos benefícios recebidos. Admitem que foram
atendidas por Santo Antônio, São João Batista e São
Pedro. Crêem também que esses santos podem
interceder por elas junto a Deus. Entretanto, os santos
não podem fazer nada pelos vivos. Pedro e João, como
servos de Deus obedientes que foram, estão no céu,
conscientes da felicidade que lá os cerca (Lc 23.43; 2Co
5.6-8; Fp 1.21-23). Não estão ouvindo, de forma
nenhuma, os pedidos das pessoas que os cultuam aqui
na terra. O único intercessor eficaz junto a Deus é Jesus
Cristo. Diz a Bíblia: “Porque há um só Deus, e um só
Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem”
(1Tm 2.5).

E mais:

“É Cristo quem morreu, ou antes quem ressuscitou


dentre os mortos, o qual está à direita de Deus, e
também intercede por nós” (Rm 8.34).

“Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não


Página
pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para
com o Pai, Jesus Cristo, o justo. E ele é a propiciação
pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas
47
também pelos de todo o mundo” (1Jo 2.1-2).

Foi o próprio Senhor Jesus quem nos disse que


deveríamos orar ao Pai em seu nome para que
pudéssemos alcançar respostas aos nossos pedidos: “E
tudo quanto pedirdes em meu nome eu o farei, para que
o Pai seja glorificado no Filho. Se pedirdes alguma coisa
em meu nome eu o farei” (Jo 14.13-14).
Quanto ao teor religioso das festas juninas, podemos
declarar as palavras de Deus ditas por meio do profeta:
“Odeio, desprezo as vossas festas, e as vossas
assembléias solenes não me exalarão bom cheiro” (Am
5.21).

Como seguidores de Cristo, suplicamos, diante desta


delicada exposição, que Deus nos conceda sabedoria
para que consigamos proceder de uma maneira que o
agrade em todas as circunstâncias, pois: “toda ação de
nossa vida toca alguma corda que vibrará na eternidade”
(E. H. Chapin).

FOGUEIRAS

A fogueira é um elemento essencial nas festas juninas.


Algumas regiões ainda conservam a bizarra tradição de
caminhar sobre as brasas. Você sabia que
convencionalmente cada uma das três festas, Santo
Antônio, São Pedro e São João, exige um arranjo diferente
de fogueira?

Santo Antônio
As lenhas são atreladas em formato quadrangular.

São Pedro Página


As lenhas são atreladas em formato triangular.
48

São João
As lenhas são atreladas observando o modelo habitual;
possui formato arredondado semelhante à pirâmide.

COMIDAS TÍPICAS

As festas juninas são comemoradas com comidas típicas:


curau, batata-doce, mandioca, pipoca, canjica, pé-de-
moleque, pinhão, gengibre, quentão, entre outros.

VOCÊ SABIA

Que a quadrilha é uma dança de origem francesa? Foi


trazida ao Brasil no início do século XIX passando a ser
dançada nos salões da corte e da aristocracia brasileira.
Com o passar do tempo, deixou a nata da sociedade e
incorporou-se às festas populares gerando, assim, suas
variantes no interior do país.

PIROLÁTRICOS

Você sabia que os cultos pirolátricos são de origem


portuguesa? Antigamente, em Portugal, acreditava-se
que o estrondo de bombas e rojões tinha como finalidade
espantar o diabo e seus demônios na noite de São João.
Atualmente, no mês de junho intensifica-se o uso desses
artifícios, porém, desassociado dessa antiga crendice.

Bibliografia:

CARVALHO, Hernani de – No Mundo Maravilhoso do


Folclore
Página
LIRA, Mariza – Migalhas Folclóricas
RUIZ, Corina – Livro e Folclore (citado no site
http:venus.rdc.puc.rio.br/kids
49

Notas:

1 Migalhas folclóricas, p. 99. Mariza Lira.


2 Ib., p.106. Mariza Lira.
3 Didática e Folclore. Corina Ruiz.
(citado no site
http:venus.rdc.puc.rio.br/kids/kidlink/kidcafe-
esc./origem.html).
4 Migalhas Folclóricas, p. 101, Mariza Lira.
5 Ib., p. 108, Mariza Lira

Página
5. IDOLATRIA DISFARÇADA
50

Por Paulo Cristiano da Silva

Os católicos sempre encontraram uma maneira de se


livrar da acusação de serem idólatras. Quando
pressionados com textos bíblicos sobre seu modo de
culto prestado a Deus, aos santos, às imagens, às
relíquias, à eucaristia e à Maria, prontamente respondem
que não levamos em conta a cuidadosa distinção de
culto feita pela Igreja Católica para não incorrer neste
pecado.

Os eruditos católicos precisam fazer esta distinção, pois,


sem ela, não poderiam escudar-se quando pressionados
com a acusação de idolatria. Com esta nuança de
palavras, sentem-se livres para prosseguir com seus
sofismas teológicos. Diante das severas advertências
bíblicas, foi necessário fabricar-se uma tríplice distinção
entre o que eles classificam “latria”, que seria o grau
mais alto de adoração, “hiperdulia”, um grau abaixo
daquele (tido como veneração a Maria) e superior à
“dulia”, também veneração, mas prestada aos santos e
aos objetos relacionados a tais santos, como, por
exemplo, as imagens.

Os católicos dizem que prestam unicamente o culto de


“latria” a Deus e o culto de “dulia” aos santos, sem
incorrerem no risco de confundi-los. Contudo, esta
“cuidadosa” diferença desaparece na prática. Vejamos,
mais à frente, como ela tende a se confundir no
desenrolar do culto que o devoto católico presta.

O papa Gregório estava errado quando disse que “as


Página
imagens são os livros dos ignorantes”. A bem da
verdade, as imagens são mais eficazes para cegar os
olhos espirituais destas pessoas e, conseqüentemente,
51
deixá-las mais ignorantes ainda, do que para tirá-las
desta condição.

Quando a imagem de algum “santo” cai no chão e


quebra, o devoto não diz apenas que a imagem se
quebrou, mas afirma ter quebrado o próprio santo, seja
ele Antônio, Benedito, Jorge, José, entre outros, repetindo
assim o episódio de Labão, que acusou Jacó de roubar
não só suas imagens, mas seus “deuses” (Gn 31.30).
Imagine um católico fazendo a oração que segue, curta e
fervorosa, diante do quadro da sagrada família — Jesus,
Maria e José.

Meu Jesus, misericórdia.


Doce coração de Maria, sede a minha salvação.
Jesus, Maria, José eu vos dou meu coração e minha alma.
Jesus, Maria, José assisti-me na última agonia.
Jesus, Maria, José, expire a minha alma entre vós em paz.
Amém.

Perguntamos: Qual é o católico que consegue fazer a


distinção entre “latria”, “dulia” e “hiperdulia” quando se
prostra para rezar fervorosamente perante os três
personagens do quadro? Como bem expressou a
pesquisadora de religiões, Mary Schultze: “a mão-de-
obra é grande demais!”

Como quase todas as invenções doutrinárias do


catolicismo através dos séculos têm seu embrião no
paganismo, esta suposta distinção entre um culto e outro
não é uma exceção. Os pagãos rodeados por seus muitos
deuses e intercessores fizeram uma hierarquia de culto
Página
para eles, distinguindo entre divindades maiores e
divindades menores. A Roma papal, cópia fiel do
paganismo, também procedeu do mesmo jeito. Isto nos
52
traz à memória um texto bíblico em que aparece uma
situação análoga: “Assim estas nações temiam ao
SENHOR e serviam as suas imagens de escultura;
também seus filhos, e os filhos de seus filhos, como
fizeram seus pais, assim fazem eles até o dia de hoje”
(2Rs 17.41; grifo do autor).
O correto uso dos vocábulos da Bíblia

Os termos gregos dulia e latria não têm nenhuma


semelhança com a definição que lhes dá o catolicismo.
Podemos desmontar este arcabouço doutrinário
levantado pela teologia romanista simplesmente
recorrendo ao original grego do Novo Testamento.

Dulia: é derivado do verbo grego douléuo, cujo


equivalente é “servir”, “ser escravo”, “subserviente”.
Este verbo é usado para expressar o nosso dever de
servir a Deus, e aparece em passagens como:

Mateus 6.24

“Ninguém pode servir (douleuein) a dois senhores...”

Atos 20.19

“Servindo (douleuôn) ao Senhor com toda a


humildade...”

Romanos 12.11 (V. tb. 14.18)

Página
“Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no
espírito, servindo (douleuontes) ao Senhor”
53
Latria: o termo aparece nas escrituras gregas cristãs
como adoração como culto, ritos, cerimônias, serviços
exteriores. Vejamos alguns exemplos de seu uso:

João 16.2

“Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em


que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço
(latreian) a Deus”.
Romanos 9.4 (V. tb.12.1)

“Que são israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e a


glória, e as alianças, e a lei, e o culto (latreia), e as
promessas”

Hebreus 9.6 (V. tb. 9.1)

“Ora, estando estas coisas assim preparadas, a todo o


tempo entravam os sacerdotes no primeiro tabernáculo,
cumprindo os serviços (latreias)”

A palavra comumente usada na Bíblia Sagrada para


adoração é proskyneo, cujo significado, entre outros, é
prostrar-se e adorar, e não latreia. Vejamos:

Mateus 4.10

“Então disse-lhe Jesus: Vai-te, Satanás, porque está


escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás (proskunêseis), e só
a ele servirás (latreuseis)”

Tanto o culto de latria quanto o de dulia devem ser


Página
prestados somente a Deus, e a mais ninguém. Somente
diante de Deus devemos nos prostrar e somente a Ele
devemos servir. Portanto, servir a alguém em sentido
54
religioso que não seja o próprio Deus é declaradamente
idolatria, e foi essa a censura do apóstolo Paulo quando
escreveu aos gálatas reprovando a vida idólatra que
outrora levavam.

“Mas, quando não conhecíeis a Deus, servíeis aos que


por natureza não são deuses” (Gl 4.8).

No original grego aparece a palavra dulia. Era justamente


este o tipo de culto que os gálatas prestavam aos seus
deuses, mas nem por isso Paulo os poupou de serem
chamados de idólatras.

Aos tessalonicenses, o apóstolo diz o seguinte: “Porque


eles mesmos anunciam de nós qual a entrada que
tivemos para convosco, e como dos ídolos vos
convertestes a Deus, para servir o Deus vivo e
verdadeiro” (1Ts 1.9).

Diante disso, entendemos que o culto de dulia deve ser


prestado com exclusividade a Deus, ficando claro que o
apóstolo, ao usar o termo dulia, condena esta
superstição com a mesma força com que a condenaria
com o termo latria” (Institutas, livro I, cap. 12).

O que é hiperdulia?

A definição do dicionarista para o prefixo hiper é:


“posição superior; além; excesso”. Será que com o culto
de hiperdulia os católicos não estariam cultuando a Maria
acima e além de Deus e, conseqüentemente,
transformando-a em um ídolo? As Escrituras nunca
registram uma hiperdulia para Deus, mas apenas a dulia,
Página
já os católicos querem prestar a Maria um culto ou
serviço superior ao que é prestado ao próprio Deus, ou
seja, uma hiperdulia!
55

Para que nenhum católico diga que estamos jogando com


as palavras para acusá-lo falsamente, vejamos o que
afirma o livreto intitulado “Com Maria rumo ao novo
milênio”, da editora Paulus:

“Houve um tempo em que os católicos veneravam


demais os santos. Esqueceram-se um pouco de Jesus. Ele
até parecia um santo ao lado dos outros...” (p. 13; grifo
do autor).

Evidências disso são os títulos “santóides” conferidos a


Jesus, tais como: “São Bom Jesus dos Milagres” e “Senhor
Jesus do Bonfim”, entre outros.

Se isto não for idolatria, então não sabemos mais o que


poderia ser!

Todavia, os fatos falam por si só. E a questão em pauta


envolve fatos, e não nomes. Alguém já disse que “contra
fatos não há argumentos”. Não adianta querer esconder
a situação espiritual em que os católicos se encontram
com sutilezas e supostas distinções de palavras. Suas
práticas constituem-se em atos de adoração explícita, ou
seja, quando um católico se prostra diante de uma
imagem de Maria e lhe faz pedidos, isto é idolatria.

Onde está a diferença da qualidade do culto que prestam


a Deus, aos santos ou a Maria e suas imagens? Ela
desaparece por completo no desenrolar da adoração do
fiel.

Por tudo isso é que não podemos aceitar a sutileza usada


Página
pelos teólogos católicos para diferenciar os tipos de culto
que prestam em seus “arraiais”.
56
Oremos para que o Espírito Santo conceda-lhes
oportunidades de reconhecer, em tempo oportuno,
aquele que é o único digno de adoração. De verdadeira
adoração!
6. IEMANJÁ

Rainha de todas as águas e mãe de todos os orixás?

Por Danilo Raphael

A nova novela das oito da Rede Globo, Porto dos


Milagres, que estreou no dia cinco de fevereiro, conta
com um cenário paradisíaco, localizado no belo Estado
da Bahia, mais precisamente na Ilha de Comandatuba. É
uma história envolvente, cheia de aventuras, emoções e
totalmente voltada para o culto a Iemanjá. A trama
escrita por Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares é baseada
Página
nos livros Mar Morto e A descoberta da América pelos
turcos, assinados por Jorge Amado, renomado autor
baiano, que na maioria de suas obras cita a personagem
57
Iemanjá. No Mar Morto, Iemanjá é personagem de grande
importância, com um capítulo inteiro dedicado a ela. A
direção da novela é de Marcos Paulo.

Mais uma vez, a mais potente emissora de televisão do


país apresenta uma novela eivada de ensinamentos
religiosos. O ator Marcos Palmeira, cujo personagem se
chama Guma, interpreta um pescador salvo de um
naufrágio na infância. Ele acredita que sobreviveu graças
à proteção de Iemanjá. Por isso o orixá terá forte
influência em sua vida.

Famosa em todo o Brasil pelos cerimoniais dedicados a


ela nas praias durante a passagem de ano, multidões de
pessoas, todos os anos, recorrem a Iemanjá em busca de
ajuda. No dia 02 de fevereiro deste ano, em Salvador,
houve uma festa consagrada a Iemanjá. O evento reuniu
300 mil pessoas que se espalharam por mais de 2 mil
terreiros da capital baiana. Iemanjá é a divindade afro-
brasileira da água salgada. Orixá marítimo, identificada
com a sereia européia, a iara tupi e Nossa Senhora da
Conceição. Festejada, na Bahia, em 2 de fevereiro e, no
Rio de Janeiro, em 31 de dezembro (Definição da
Enciclopédia Britânica)1. A etimologia da palavra Iemanjá
pode ser explicada da seguinte forma: yeye, “mãe”; e
eja, “peixe”.

Histórias e lendas

O escritor Abguar Bastos registrou: Os cultos afro-


brasileiros, disseminados no Brasil, tomam nomes
diferentes, pouco se distinguem entre si pelos ritos
admitidos, pelas divindades ou categorias protetoras ou
Página
pelas finalidades a que se destinam. De maneira geral se
confundem. Por isso, o que é macumba no Rio é
candomblé na Bahia; o que é Xangô em Pernambuco e
58
Alagoas é canjerê em Minas, Pará, Rio Grande do Sul, e
babaçuê (Santa Bárbara) no Norte... Encanteria, cabula,
tambor de mina (Maranhão), cambinda e linha de mesa,
sem falar em catimbó, misto, no Nordeste, de “pretos-
velhos” e “caboclos”... se destacam da macumba dois
ramos de origens comuns, porém de objetivos
diferenciados: a umbanda e a quimbanda. Para a
primeira, a segunda é reunião para malefício,
trabalhando feitiços que trazem danos às pessoas
visadas.2

Ao tentarmos identificar a origem de um orixá,


encontramos a mesma dificuldade, devido à variedade
de informações divergentes e contraditórias que se conta
de um terreiro para outro ou de um pai-de-santo para
outro, e ainda de uma região para outra. Por esse motivo,
neste artigo, nos deteremos apenas nas duas histórias
mais aceitas sobre Iemanjá entre os cultos afro-
brasileiros.

Uma das lendas conta que Iemanjá (as águas) se casou


com Aganju (terra firme). Dessa união nasceu Orugan (o
ar e as alturas). Mas, certo dia, na ausência do pai,
Orugan possui a mãe Iemanjá. Após o ato incestuoso,
Iemanjá cai morta e de seu ventre nascem os demais
orixás. É por isso que ela é considerada a mãe de todos
os orixás.

Outra lenda diz que Iemanjá se sentia sozinha e


abandonada pelos filhos, que dela se afastaram. Então,
ela decide correr mundo e, chegando em Okerê, foi
admirada e adorada por sua meiguice, beleza e
inteligência. O rei se apaixonou por ela e desejou que ela
Página
se tornasse sua mulher. Como tal coisa não constava em
seus planos, Iemanjá fugiu, mas foi perseguida pelos
exércitos de Alafin, sendo encurralada, durante a fuga,
59
por Okê (as montanhas). Iemanjá caiu e, na queda,
cortou seus enormes seios, de onde nasceram os rios,
tornando-se, assim, rainha de todas as águas.

Em uma entrevista dada ao programa Defesa da Fé, na


série nº 6, o professor angolano, pastor André Nguina
Quiala (Pós-graduado em Aconselhamento Cristão,
mestre em Comunicação Social e diretor da Missão VEM),
disse: Lendas não esclarecidas se tornam crenças e
divindades. Infelizmente, é justamente isso que acontece
com as lendas a respeito de Iemanjá, que acabaram
transformando-a numa entidade religiosa.

Herança da África

A origem dos cultos afro-brasileiros deve-se à chegada


dos africanos em nossas terras. Esses nativos da África,
por natureza, são extremamente religiosos e, sem
dúvida, muitos deles só conseguiram resistir ao massacre
colonizador por causa de suas crenças religiosas. Quando
da colonização do Brasil, em 1500, a mão-de-obra era
escassa, pois a terra era povoada pelos índios, que
impuseram resistência ao trabalho forçado. Assim, os
colonizadores portugueses optaram por trazer escravos
da África. Inicia-se, então, um período vergonhoso na
história do Brasil. O sofrimento dos escravos africanos é
descrito pelo grande poeta Castro Alves em suas poesias:
Navio Negreiro e Vozes D’ África. Em seu livro Latin
America: Na Interpretative History, o escritor Burns
apresenta vários dados sobre o repugnante tráfico de
seres humanos da África para o Brasil: Acredita-se que os
primeiros escravos africanos chegaram ao novo mundo já
em 1502. Provavelmente, os primeiros carregamentos de
Página
escravos chegaram em Cuba em 1512 e no Brasil em
1538, e isso continuou até que o Brasil aboliu o tráfico de
escravos, em 1850, e a Espanha finalmente encerrou o
60
tráfico de escravos para Cuba em 1866. A maioria dos
três milhões de escravos vendidos à América Espanhola
e os cinco milhões vendidos ao Brasil, num período de
aproximadamente três séculos, veio da costa ocidental
da África.3

O livro Os Negros da Bíblia e os do Brasil, do professor


Paulo de Sousa Oliveira (Mestre em Ciências Sociais pela
Puc/SP e Doutor em História Social pela USP) declara: Os
negros desembarcados nos portos brasileiros acabaram
em grande parte se miscigenando com os brancos e os
índios. Mas, até ficarmos com a imagem atual, um
processo doloroso ocorreu. De um total de 8.330.000
negros escravizados, nos primeiros seis meses morreram
3.300.000. Depois de cinco anos na nova terra, só dois
milhões sobreviveram.4

Com os escravos, vieram também seus rituais religiosos


e suas crenças, tais como: invocação dos espíritos da
natureza e dos mortos, influências dos sonhos, contos e
lendas, inclusive sobre Iemanjá, sendo que as lendas a
respeito dela sofreram algumas modificações quando
aplicadas no Brasil.

Não foi, no entanto, apenas a religiosidade sincretista


que o Brasil herdou da bela África. Os africanos, embora
escravizados, trouxeram sua contagiante alegria de viver
e uma vasta riqueza cultural expressa nas cores, na
música, na culinária, nas artes, na linguagem e nos usos
e costumes; sem contar o papel importantíssimo que
tiveram no mundo secular e cristão. Como exemplo,
citamos dois grandes pastores, descendentes de
africanos, que revolucionaram o mundo cristão ocidental:
Página
o pioneiro pastor pentecostal, reverendo J. Seymour, da
Missão da Rua Azuza em Los Angeles, e o pastor batista,
reverendo Martin Luther King Jr., que liderou o triunfante
61
movimento de Direitos Humanos nos Estados Unidos.

Culto a Iemanjá

Para se ter uma idéia da dimensão do culto a Iemanjá no


Brasil, basta constatar a popularidade desse nome entre
os brasileiros. Não se tratam apenas de estatuetas da
sereia do mar, expostas em lojas de artigos de umbanda
e candomblé, mas de um mito, que já tem lugar cativo
na arte oficial do país, de modo especial na Bahia,
através de livros, músicas e danças.

Na forma de uma linda mulher, esse orixá, que por vezes


aparece com os seios descobertos simbolizando a
maternidade espiritual, é uma das mais lendárias
entidades do culto afro-brasileiro.

Uma vez iniciados, seus adeptos ficam ligados, por


obrigação, a esse orixá. O sábado é o dia consagrado a
Iemanjá, especialmente à noite, período em que,
segundo os adeptos, as ondas do mar são em forma de
peixe. As oferendas para Iemanjá são realizadas à beira-
mar ou em alto mar, utilizando-se, neste caso,
embarcações. Como se trata de uma deusa vaidosa, fato
comum entre os orixás da Umbanda e do Candomblé, ela
pede ofertas que constem de produtos de beleza,
bijuterias e perfumes5. A presença do culto no Brasil
mostra que Iemanjá é a configuração de um mito que,
para muitas pessoas, está vivo em seus corações,
cultuada também na África, mas em grande intensidade
pelas populações negras da América do Sul e do Norte6.
O fato é que o culto não se restringe à população negra.
Grande parte da população branca é arrastada ao seu
Página
culto, mostrando a fascinação que esse mito exerce
sobre a raça humana.
62
O babalorixá (pai-de-santo) Jamil Rachid, líder muito
respeitado dentro da umbanda, explica por que as
pessoas vão à praia homenagear Iemanjá: Dezembro é o
mês da espiritualidade, quando todos os guias-chefes
dos terreiros de macumba pedem para que todo o corpo
mediúnico esteja presente à Terra Sagrada, que é o mar.
Mas, por que os guias pedem isso? Justamente porque
dezembro é o último mês do ano e os presidentes
espirituais aproveitam para levar presentes a Iemanjá... a
todas as falanges e legiões de espíritos das águas. E,
nesse contato do médium com a natureza, ou seja, com o
mar sagrado [Kalunga], ele recebe os fluídos benéficos
para limpeza do corpo fluídico, alcançado, com isso,
maiores vibrações para sua mediunidade. E também para
prestar homenagem a esse grande orixá que comanda as
maiores falanges de caboclos, caboclas e crianças que se
manifestam na maioria dos terreiros de todo o território
nacional. Esse orixá, conhecido em todo o mundo, é a
nossa rainha Iemanjá, mãe de todos os orixás.7

A respeito das oferendas que a Iemanjá, Zora Seljan


declara: Os presentes são amontoados num imenso
cesto: sabão, perfumes, flores naturais ou artificiais,
lenços de renda, cortes de fazenda, figurinos, colares,
braceletes, dinheiro. Tudo é acompanhado de cartas,
súplicas dos fiéis, que pedem uma graça. Todas as coisas
são lançadas ao mar. Portanto, para que tais oferendas
sejam aceitadas por Iemanjá, devem ser mergulhadas
nas águas. Se boiarem é sinal de recusa e
descontentamento. Será preciso então fazer novos
sacrifícios e novas oferendas para que o ofertante
alcance a proteção da entidade.8

Página
Mas será que toda esta fascinação, ritual religioso e
adoração direcionada a Iemanjá está de acordo com a
vontade de Deus, revelada em sua Palavra?
63

O culto a Iemanjá analisado à luz da Bíblia

Respeitamos as pessoas envolvidas com o culto a


Iemanjá. Todavia, gostaríamos de esclarecer alguns
pontos que nos levam a reconhecer que tais seguidores
estão equivocados quanto às suas crenças. Em 1
Coríntios 10.20-21, o apóstolo Paulo declara o seguinte:
Mas que digo? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o
sacrificado ao ídolo é alguma coisa? Antes digo que as
coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos
demônios, e não a Deus. E não quero que sejais
participantes com os demônios. E no início dessa
exortação, Paulo declara: Portanto meus amados, fugi da
idolatria (1 Co 10.14). Tanto os adeptos de Iemanjá
quanto os seguidores de outras entidades são amados
por Deus e, portanto, necessitam de um relacionamento
direto e pessoal com Jesus Cristo: Porque Deus amou o
mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito,
para que todo aquele que crê não pereça, mas tenha a
vida eterna (Jo 3.16). Ainda nos orienta a Bíblia Sagrada:
Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância,
anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que
se arrependam (At. 17.30).

Um dos papéis que Iemanjá ocupa entre seus seguidores


é o de mediadora de favores entre Deus e os homens.
Por isso rezam para que ela lhes dê paz e segurança,
além de outros favores. Paulo, escrevendo a Timóteo,
declara: Porque há um só Deus, e um só Mediador entre
Deus e os homens, Jesus Cristo homem (1Tm 2.5). O
mesmo apóstolo declara que o único meio de obtermos
paz com Deus é através de seu Filho Jesus Cristo: Tendo
Página
sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por
nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 5.1).
64
É interessante notar que, uma vez comprometidos com
os orixás, seus seguidores não podem mais desobedecê-
los, caso contrário, sofrem grandes represálias e
punições, como, por exemplo, doenças, perda de
emprego e de um ente querido, loucura, falência etc. Na
verdade, os adeptos acabam tornando-se servos dos
orixás e obrigados a praticar rituais e sacrifícios nada
agradáveis. Espinosa, certa vez, disse: Não há
instrumento mais poderoso para manter a dominação
sobre os homens do que mantê-los no medo, e para
conservá-los no medo, nada melhor do que conservá-los
na ignorância.9 Com Iemanjá não é diferente. Pois sendo
ela a mãe de todos os orixás, pode tornar esses castigos
mais rigorosos.

Felizmente, com o Deus da Bíblia é diferente. Ninguém é


obrigado a seguir a Cristo. Não somos impostos a servir o
Filho de Deus. Até porque o Senhor não deseja que
ninguém o sirva por medo, mas por amor. E, ainda que
cometamos falhas em nosso relacionamento com Deus,
Ele está sempre pronto a nos perdoar: Deixe o ímpio o
seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos,
e se converta ao Senhor, que se compadecerá dele;
torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar
(Is 55.7). Deus nos atrai com laços de amor, e não com
ameaças: Atraí-os com cordas humanas, com laços de
amor, e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre
as suas queixadas, e lhes dei mantimento (Os 11.4).

Outro fato marcante do culto a Iemanjá contrário à


Palavra de Deus são as imagens dessa figura do mar, que
nada mais são do que idolatria pura por parte daqueles
que se prestam à adoração dos orixás. O Senhor Deus
Página
declara: Não farás para ti imagem de escultura, nem
alguma semelhança do que há em cima dos céus, nem
em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra (Êx
65
20.4). O profeta Isaías diz que louvores e glórias devem
ser dados somente a Deus: Eu sou o Senhor; este é o
meu nome; a minha glória, pois, a outrem não darei, nem
o meu louvor às imagens de escultura (Is 42.8). E ainda:
E tomaste as tuas jóias de enfeite, que eu te dei do meu
ouro e da minha prata, e fizeste imagens de homens, e
te prostituístes com elas (Ez 16.17) Não virareis para os
ídolos nem vos fareis deuses de fundição. Eu sou o
Senhor vosso Deus (Lv 19.4).
A raça humana sempre esteve envolvida com o culto a
alguma divindade feminina. E, quanto a isto, não
faltaram advertências, por parte do profeta Jeremias, ao
povo de Judá, que prestava devoção à suposta rainha dos
céus: Os filhos apanham a lenha, e os pais acendem o
fogo, e as mulheres preparam a massa, para fazerem
bolos à rainha dos céus, e oferecem libações a outros
deuses, para me provarem à ira (Jr 7.18. Ver também Jr
44.19). A diferença aqui é somente a posição da rainha:
em vez de céu, é o mar. O salmista coloca o ídolo como
algo sem vida e sem utilidade: Os ídolos deles são prata
e ouro, obra das mãos dos homens. Têm boca, mas não
falam; olhos têm, mas não vêem. Têm ouvidos, mas não
ouvem; narizes têm, mas não cheiram. Têm mãos, mas
não apalpam; pés têm, mas não andam; nem som algum
sai de sua garganta. A eles se tornam semelhantes os
que o fazem, assim como todos os que neles confiam (Sl
115.4-8). Aqueles que desejam seguir a Deus com
sinceridade devem servir o conselho do apóstolo João,
que diz: Filhinhos, guardai-vos dos ídolos. Amém (1Jo
5.21).

Outro fato marcante e contrário à Palavra de Deus do


Página
culto a Iemanjá é o sacrifício de animais. Quando
interrogados a respeito, os adoradores dessa entidade se
desculpam dizendo que Moisés, no Antigo Testamento,
66
também sacrificava animais. Havia sim sacrifícios de
animais no Antigo Testamento, mas todos aqueles
sacrifícios apontavam para o sacrifício perfeito da pessoa
de Jesus Cristo na cruz do calvário.

Em Hebreus 10.12, a Bíblia declara: Mas este havendo


oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados,
está assentado à destra de Deus. Esse fato torna
qualquer outro sacrifício inútil aos olhos de Deus. Falando
dos sacrifícios não direcionados ao verdadeiro Deus,
Moisés se manifestou da seguinte maneira: Sacrifícios
ofereceram aos demônios, não a Deus; aos deuses que
vieram há pouco, aos quais não temeram vossos pais (Dt
32.17). Mais uma vez, devemos nos lembrar da
advertência do apóstolo Paulo: Antes digo que as coisas
que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e
não a Deus. E não quero que sejais participantes com os
demônios (1 Co 10.20).

Como vimos, não existe qualquer compatibilidade entre o


culto a Iemanjá e o culto prestado ao verdadeiro Deus. É
por esse motivo que muitas pessoas desejam abandonar
tais práticas, mas temem as ameaças dos orixás.
Todavia, quem desejar desvencilhar-se desse jugo para
encontrar a verdadeira liberdade em Jesus Cristo deve
fazer isso sem medo, pois: Para isto o Filho de Deus se
manifestou: para desfazer as obras do diabo (1Jo 3.8b).
Foi o próprio Jesus quem disse: E conhecereis a verdade,
e a verdade vos libertará (Jo 8.32).

Alguns dados sobre Iemanjá

Nomes: Yemanjá, Iemanjá, Yemasá, Dandalunda Página


Animais: Galinha branca, ovelhas e peixes.
67
Bebida: Aloá, champanhe.
Características: maternal, mandona, possessiva,
protetora, intrigante.
Comida: Canjica (Ebó) branca e mel, peixe, camarão,
arroz, manjar branco.
Dia da semana: Sábado.
Identidade: Orixá das águas, rainha do mar, sereia.
Filiação: Ododua e Oxalá
Metal: Prata
Atividade: Trabalha em favor do amor, da família e da
educação das crianças. Ajuda a progredir na vida.
Presentes prediletos: flores, colar, espelho, perfume,
pente.
Posição: A grande mãe da água e do lar.
Sacrifício: porco, cabra e galinha.
Sincretismo: Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora do
Rosário, Nossa Senhora da Candeia (da luz).
Significação: Símbolo gerador da vida.

Notas:

1 Enciclopédia Britânica do Brasil Publicações Ltda.,


Barsa, CD-ROM.
2 Os Cultos Mágico-Religiosos no Brasil, Abguar Bastos,
Editora Hucitec, São Paulo, 1979, p. 29,30.
3 Latin America: Na Interpretativa History, citado no
Crisis in Latin America, Na Evangelical Perspective, de
Emílio A. Nunes C. e William D. Taylor, Moody Chicago,
EUA, p. 35
4 Os Negros da Bíblia e os do Brasil, Paulo de Sousa
Oliveira, Editora Sete, Resende – RJ, p.p 93-94
5 Revista dos Orixás, Vol. 4, Editora Provenzano, Rio de
Janeiro, RJ, p.5.
Página
6 Maria e Iemanjá, Pedro Iwashita, Edições Paulinas, p.35.
7 Jornal da Tarde, 06.12.75
8 Iemanjá, Mãe dos Orixás, Zora A. Seljan, Editora Afro-
68
brasileira, São Paulo, 1973, p. 32.
9 Citação do livro: Educação Religiosa Relevante, Angelo
Gagliardi Jr., Vinde Comunição, 1995, pg. 9
Página
7. JESUS TEVE IRMÃOS?

Por Paulo Cristiano


69

Indubitavelmente, este é um assunto já resolvido no


meio protestante tradicional devido à abundância de
textos nas Escrituras neotestamentária que o elucidam.
Poderíamos até considerá-lo obsoleto se não fosse pelo
mariocentrismo, doutrina da Igreja Católica Romana que
teima em admitir que Maria permaneceu virgem após o
parto (virginitas post partum), o que torna parte dessa
teologia um verdadeiro desvario e um grande óbice ao
verdadeiro cristianismo ortodoxo.

Durante séculos, a mariologia tem sofrido evoluções


cada vez mais ousadas, e o tempo é testemunha disso:

• Em 400 d.C, Maria foi proclamada “Mãe de Deus”;


• Em 1854, a “Imaculada Conceição de Maria” torna-se
dogma;
• Em 1950, a “Assunção de Maria” vira artigo de fé.

Hoje, cogita-se em colocar Maria junto à Trindade divina,


formando assim uma quaternidade. O catolicismo está
criando cada vez mais uma Maria totalmente diferente
daquela apresentada pelos evangelhos. Ao inventarem
supostos pais para Maria, Santa Ana e São Joaquim,
baseados em livros apócrifos, os católicos ao mesmo
tempo omitiram a verdadeira família de Maria e
roubaram-lhe a nobre missão de mãe.

Origens dessa doutrina

Não se sabe ao certo onde e como começou a acreditar-


se que os irmãos de Jesus, de quem tanto a Bíblia fala e
“de modo explícito”, eram apenas seus primos ou irmãos
Página
em sentido espiritual (versão Romana) ou meio-irmãos
de um casamento anterior de José (versão Grega). Parece
que isso surgiu com uma deturpação da resposta de um
70
soldado romano chamado Pantera aos judeus que
acusavam Maria de cometer adultério (Atos de Pilatos
11.3 e Talmud, séc. II). No ponto de vista católico, Jesus
seria um filho bastardo desse suposto soldado.

O fato é que essa doutrina ganhou força somente após o


século IV, com Jerônimo. Até então, era praticamente
desconhecida pelos antigos escritores pré-niceno. Como
de praxe, é mais uma das invencionices da Igreja
Católica.

Um dos pais primitivos que mais colaborou para que essa


distorção criasse corpo foi Orígenes, que se baseou em
duas obras apócrifas: o “Proto-Evangelho de Tiago” e o
“Evangelho de Pedro”, de meados do século II. Não
demorou muito, Epifânio seguiu os passos de Orígenes e
acabou abraçando tal idéia.

É interessante notar que Orígenes, Epifânio e Jerônimo


eram adeptos do ascetismo e da vida monástica que
incluía a castidade. Orígenes, segundo alguns
historiadores, chegou a castrar-se! Mais tarde, porém,
essa teoria sobre os irmãos de Jesus foi desenvolvida e
aperfeiçoada. Empacotada de modo sofismável pelos
teólogos católicos, é agora um dos dogmas do
catolicismo romano.

O que muitos protestantes talvez não saibam é que até


mesmo os primeiros reformadores como Lutero e Calvino
criam na virgindade perpétua de Maria. Mas, por outro
lado, é bom frisarmos que muitos pais primitivos como
Hegesipo, Tertuliano, Irineu e, posteriormente, Eusébio e
Helvídio defendiam a idéia de que os irmãos de Jesus
Página
eram de fato seus irmãos carnais. A mesma defesa é
feita atualmente por uma maioria esmagadora de
protestantes e também por alguns teólogos católicos.
71

Analisando o evangelho de Mateus

O texto de Mateus 1.25 afirma o seguinte: “e não a


conheceu enquanto (até que) ela não deu à luz um filho;
e pôs-lhe o nome de Jesus”.

Para os protestantes, a referência bíblica em apreço


parece ser, a princípio, uma fortaleza inexpugnável, e
não é para menos, pois diz categoricamente que José não
a conheceu “até” ou “enquanto” (heos, hou) ela não deu
à luz. Ora, o que depreende e subentende-se é que, após
o parto, Maria teve relações sexuais com seu marido
como qualquer casal judeu normal de seu tempo! Parece
ser esta a preocupação principal do evangelista ao
transmitir sua mensagem. Mas, por outro lado, devemos
concordar com nossos antagonistas romanos em que há
casos em que Mateus usa a preposição “até” para dizer
que não houve mudança após a ocorrência de
determinado evento. Por exemplo, “Não esmagará a cana
quebrada, e não apagará o pavio que fumega, até que
faça triunfar o juízo” (Mt 12.20). É claro que o texto não
está dizendo que o manso Messias será um ditador cruel
após o triunfo do juízo.

Outros textos bíblicos, além de Mateus, podem ser


usados como exemplo: Salmo 110.1 e 1 Timóteo 4.13.
Mas podemos ver Mateus usando a preposição “até” (que
indica um limite de tempo, nos espaços, ou nas ações)
quando o contexto diz claramente que há mudança.
Vejamos: “E, havendo eles se retirado, eis que um anjo
do Senhor apareceu a José em sonho, dizendo: Levanta-
te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito, e ali fica
Página
até que eu te fale; porque Herodes há de procurar o
menino para o matar” (Mt 2.13).
72
Assim, tomar este trecho de forma isolada não é de
modo nenhum conclusivo para ambas as partes; não
resolve o problema. Se quisermos obter uma idéia mais
clara do assunto teremos de nos voltar para um contexto
maior e achar algo fora desse trecho que complete esta
lacuna e dirima a incógnita. Será que Mateus usou a
preposição “até” para indicar mudança ou não?
Resolveremos isso usando dois princípios de
interpretação: o contexto imediato e o contexto mais
lato.

É notório que os casamentos orientais da época de Jesus


eram, sem sombra de dúvida, bem diferentes dos do
nosso tempo. Mateus declara que Maria estava
desposada (entenda-se noiva) com José. Diz ainda que
ele não a “conheceu até” (Mt 1.18). Algumas vezes a
palavra “conhecer” é usada na Bíblia de modo figurado,
significando relação sexual (Gn 4.25), e, neste caso, o
contexto apóia este sentido.

A voz dos outros evangelistas

Outro fator que corrobora com a interpretação acima é o


fato de Lucas ter usado a expressão grega prototokos,
que significa “Primogênito”, em relação ao nascimento
de Cristo: “e teve a seu filho primogênito...” (Lc 2.7).

Se Lucas quisesse dizer que Jesus foi o único filho de


Maria, teria usado, de modo inequívoco, a expressão
monogenes (unigênito, em português) que significa
“[filho] único gerado”, como acontece em João 3.16. Mas
não, ele usou, de modo consciente, o termo certo:
“primogênito”, indicando que Jesus foi apenas o
Página
“primeiro” filho de Maria, e não o “único”.

Se Jesus tivesse sido o único filho de Maria, os


73
evangelistas mostrariam isso, de modo explícito, em seus
escritos. Mas não é isso que constatamos no Novo
Testamento.

O que diz o Novo Testamento

Uma leitura superficial do Novo Testamento, em especial


dos evangelhos, mostrará, sem sombra de dúvida, que
Jesus Cristo teve irmãos e irmãs (Mt 12.46,47, 13.55-56;
Mc 6.3). E ainda nos dão os nomes dos irmãos: Tiago,
José, Simão e Judas. E essas pessoas aparecem sempre
relacionadas com Maria, mãe de Jesus, o que nos dá a
impressão de que os escritores e os evangelistas
quiseram nos transmitir o quadro de uma família
composta por mãe e filhos. Vejamos: “Enquanto ele ainda
falava às multidões, estavam do lado de fora sua mãe e
seus irmãos, procurando falar-lhe. Disse-lhe alguém: Eis
que estão ali fora tua mãe e teus irmãos, e procuram
falar contigo” (Mt 12.46-47).

Depois do milagre em Caná, Maria e os irmãos do Senhor


aparecem juntos: “Depois disso desceu a Cafarnaum, ele,
sua mãe, seus irmãos, e seus discípulos; e ficaram ali
não muitos dias” (Jo 2.12).

Em outra ocasião, Maria e seus irmãos mandam chamá-


lo: “Chegaram então sua mãe e seus irmãos e, ficando da
parte de fora, mandaram chamá-lo” (Mc 3.31). João
acrescenta que nem os seus criam em Jesus: “Pois nem
seus irmãos criam nele” (Jo 7.5). E, por último, os irmãos
de Jesus aparecem no cenáculo orando com Maria:
“Todos estes perseveravam unanimemente em oração,
com as mulheres, e Maria, mãe de Jesus, e com os
Página
irmãos dele” (At 1.14).

Resposta a um suposto argumento


74

Não conseguindo desmentir o consenso cristalino das


Escrituras, os mestres romanistas acabam forjando
sofismas cada vez mais mascarados de piedade que, aos
poucos, vão alcançando a mente e o coração dos
adeptos católicos. Todavia, quando confrontados com a
Bíblia, tais disparates revelam ser apenas paliativos
ardilosos que, por vezes, acabam sendo pulverizados
diante dos fartos argumentos bíblicos. Na tentativa de
esquivar-se dos argumentos protestantes, os líderes
católicos desenterram, das ruínas medievais, teses
falaciosas floreadas com terminologias teológicas
modernas para causar impressão. Uma dessas teses
tenta transferir os irmãos de Jesus para uma outra Maria
e, para alcançar esse objetivo, faz verdadeiro
malabarismo com os nomes bíblicos. Consegue fazer
uma combinação engenhosa com os textos de Marcos
6.3, 3.18, 15.14, 16.1 e João 19.25. Diz que Maria, mãe
de Tiago (o menor) e de José é irmã de Maria (a mãe de
Jesus) e mulher de Cleofas, a quem confundem com
Alfeu. Resumindo: esses “irmãos” (Tiago e José) de
Marcos 6.3, segundo essa teoria, na verdade seriam
primos de Jesus. Uma explicação plausível e uma suposta
base “bíblica” para a questão. Ledo engano!

Um argumento de fácil refutação

Contudo, não há nada no texto que insinua ser Alfeu


cunhado de Maria! Naquela época, esses nomes eram
comuns! Demais disso, a Bíblia não relata o nome da
irmã de Maria, e é pouco provável que duas irmãs
tivessem o mesmo nome. Suponhamos, por um
momento, que isso fosse verdade! Não é estranho que
Página
esses personagens apareçam sempre junto a Maria, sua
“tia”, e nunca junto à sua verdadeira mãe?!
75
Outros ainda insistem no fato de que aqueles irmãos de
Jesus na verdade seriam seus discípulos, simplesmente
porque na igreja todos os discípulos de Cristo são
chamados de “irmãos”.

Esse parece ser o argumento mais inócuo, pois a Bíblia


faz nítida distinção entre ‘seus discípulos” e os “irmãos”
do Senhor (Jo 2.12; At 1.13,14). Todavia, a maior
dificuldade enfrentada por esse argumento é que o texto
diz que nem “seus irmãos criam nele” (Jo 7.3,5,10). Ora,
como então poderiam ser seus discípulos?!

O significado de irmãos na Bíblia

Em Mateus 12.47, na Bíblia católica, versão dos “Monges


Maredsous”, o tradutor teceu o seguinte comentário
sobre os “irmãos” de Jesus no rodapé da página: “Irmãos:
na língua hebraica esta palavra pode significar também
‘parentes próximos’ ou ‘primos’, como neste caso.
Exemplo: Abraão, tio de Lot, chama-o com a designação
de irmão (Gn 11.27; 13.8)”.

Outro estudioso católico afirma: “Assim sendo, é possível


que por detrás dos ‘irmãos’ e ‘irmãs’ de Jesus estejam
seus ‘primos’ ou ‘parentes’1.

Refutação bíblica: Não existe um só caso na Bíblia, e


principalmente no Novo Testamento, em que a palavra
grega adelphós (irmão) é traduzida por primo ou parente.
Das 343 vezes em que o N.T usa o termo adelphós, ele
apresenta dois sentidos para a palavra “irmão”: a de
irmão legítimo (carnal) e o metafórico.

Página
Sentido metafórico: Neste sentido, enquadram-se
todos os textos sobre os seguidores de Jesus (Mc 3.35),
os cristãos da igreja (1Co 1.1), os judeus (Rm 9.3) e os
76
seres humanos em geral (Hb 2.11,17). É obvio que as
referências nos evangelhos e nas epístolas aos “irmãos”
(filhos de Maria) de Jesus não se enquadram nesta
categoria.

Sentido literal: É justamente neste sentido que a


palavra irmãos (no plural) é usada, em sua grande
maioria, na Bíblia. Nenhum estudioso católico jamais
traduziu esta palavra como primos ou irmãos espirituais.
As Escrituras não deixam nenhuma dúvida quanto a esse
assunto. Duvido que alguém leia os textos que seguem e
consiga empregar o sentido de primo ou irmão espiritual
onde aparece a palavra irmãos.

“E, passando mais adiante, viu outros dois (irmãos)


Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, no barco com
seu pai Zebedeu, consertando as redes; e os chamou”
(Mt 4.21).

“E todo o que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs,


ou pai, ou mãe, ou filhos, ou terras, por amor do meu
nome, receberá cem vezes tanto, e herdará a vida
eterna” (Mt 19.29).

A Bíblia deixa patente que quando a palavra “irmãos”


aparece junto aos termos “pai” e “mãe” ela denota
filiação legítima de sangue, e isto ninguém consegue
eclipsar. Compare: “Não é este o filho do carpinteiro? E
não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José,
Simão, e Judas?” (Mt 13.55).

Nas quinze ocorrências em que é empregado o termo


adelphós em relação a Jesus o sentido básico é de irmãos
Página
legítimos. Mas alguns podem objetar dizendo que a
palavra hebraica ah (irmão) aparece várias vezes
significando irmãos não de sangue, mas primos ou
77
sobrinhos. É verdade que a língua hebraica tinha um
vocabulário um pouco pobre e, por isso, não possuía uma
palavra específica para primos ou parentes. Então
utilizava a expressão “irmão” de modo lato (Gn 29.12,
24.48)

Esse artifício, no entanto, não é suficiente para que os


católicos se esquivem da derrocada teológica! A palavra
“irmão”, no hebraico, pode significar primo, mas, mesmo
neste caso, temos de tomar cuidado. Geralmente,
quando a palavra “irmão” é empregada no sentido de
parente próximo o contexto esclarece a questão (1Cr
23.21-22). Além disso, o Novo Testamento foi escrito em
grego, e não em hebraico. Será que no grego Coiné,
língua na qual foi escrito o Novo Testamento, existia esta
distinção praticamente ausente no hebraico? Vejamos.

Termos do Novo Testamento para irmãos e primos

Não devemos nos esquecer de que quando o Novo


Testamento faz referências aos irmãos de Jesus o
contexto não traz nenhum tipo de esclarecimento
adicional, como acontece no Antigo Testamento. Além
disso, os escritores sabiam a diferença entre os termos
irmão (adelphós), primo (anepsiós) e parentes
(sungenes). Mesmo Paulo, que usava bastante metáfora,
sabia usar com distinção essas palavras. Tanto é que
escreveu sobre os “irmãos” de Jesus sem deixar
nenhuma dúvida ao laço carnal entre o Senhor e seus
irmãos. Vejamos: “Não temos nós direito de levar
conosco esposa crente, como também os demais
apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?” (1Co 9.5).
“Mas não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a
Página
Tiago, irmão do Senhor” (Gl 1.19).

Como já falamos, e isso é interessante, o apóstolo Paulo


78
sabia perfeitamente usar a palavra correta para primo
(anepsiós) e parente (sungenes) em suas epístolas. Não
havia motivo de confusão! “Saúda-vos Aristarco, meu
companheiro de prisão, e Marcos, o primo de Barnabé...”
(Cl 4.10). “Saudai a Herodião, meu parente” (Rm 16.11).

Caso a tese católica estivesse correta, o apóstolo poderia


muito bem ter usado a expressão hoi anepsiós Kyriou
(primos do Senhor), e não adelphói tou Kyriou (irmãos do
Senhor), até porque os irmãos de Jesus estavam vivos
quando o apóstolo escreveu as duas epístolas.

Argumentos contraproducentes

Diante do exposto, a única consideração plausível a que


podemos chegar é que os “irmãos” de Jesus eram
realmente seus irmãos legítimos. É justamente esse o
sentido do termo adelphós no Novo Testamento. Apesar
de todo o esforço empregado pelos católicos para
defender a virgindade perpétua de Maria, seus
argumentos são totalmente contraproducentes.

O Salmo 69 é um texto profético com força suficiente


para desmantelar o arcabouço erigido pelas artimanhas
teológicas católicas. Qualquer exegeta que ler esse
salmo terá de admitir que se trata de um salmo
messiânico, ou seja, um salmo que fala sobre o
ministério e a vida de Jesus, o Messias. No verso 8, o
autor descreve perfeitamente a família de Jesus sem
deixar dúvidas quanto à legitimidade carnal de
parentesco entre eles. Vejamos: “Tornei-me como um
estranho para os meus irmãos, e um desconhecido para
os filhos de minha mãe”.

Quando, então, comparado com alguns textos do Novo Página


Testamento, João 7.3-8 por exemplo, o Salmo 69 torna-se
79
um argumento esmagador contra a teoria católica.
“Disseram-lhe, então, seus irmãos: Retira-te daqui e vai
para a Judéia, para que também os teus discípulos vejam
as obras que fazes. Porque ninguém faz coisa alguma em
oculto, quando procura ser conhecido. Já que fazes estas
coisas, manifesta-te ao mundo. Pois nem seus irmãos
criam nele. Disse-lhes, então, Jesus: Ainda não é chegado
o meu tempo; mas o vosso tempo sempre está presente.
O mundo não vos pode odiar; mas ele me odeia a mim,
porquanto dele testifico que as suas obras são más. Subi
vós à festa; eu não subo ainda a esta festa, porque ainda
não é chegado o meu tempo”.

Compreendemos agora, por meio desse texto, o porquê


de Jesus ter deixado sua mãe aos cuidados de João, e
não de seus irmãos!

Notas:

Tire Suas Dúvidas Sobre a Bíblia – José Bortolini pág. 100,


editora Paulus.
Obras Consultadas
O Catolicismo Romano. Adolfo Robleto
Novo Testamento Trilíngüe. Vida Nova
Concordância Fiel do Novo Testamento,
Vols. I e II. Fiel
História Eclesiástica. Eusébio de Cesaréia.CPAD.
Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da
Bíblia. Norman Geisler & Thomas Howe. Mundo Cristãos

Página
8. MARIA
80

Virgem e Mãe, duas poderosas e universais emoções

Por Giovanni Mieggea

Maria, mãe de Jesus, ocupa atualmente um lugar de


suma importância no pensamento católico. São do
conhecimento de todos as manifestações espetaculares
da piedade mariana, as peregrinações e os congressos
marianos, além da consagração de nações inteiras a
Maria. Menos notado, mas igualmente importante, é a
elaboração doutrinária (estudo histórico e teológico) que
floresce em grande quantidade e qualidade e numa
escala raramente atingida nos séculos precedentes.
Obras a respeito da Virgem, destinadas a divulgar para
os leigos a consciência e o amor de Maria, têm sido
publicadas aos montes por editoras especializadas. E
todas elas capacitadas pelos atuais recursos de
publicidade moderna e por outros meios de divulgação,
tais como: panfletos, adesivos, camisetas, livros, rádio e
televisão. A consciência e a importância desse tremendo
esforço são bem definidos por seus promotores. O
catolicismo dos nossos dias parece que vive um
momento de devoção à Virgem Maria, superando até
mesmo a adoração católica de Maria dos séculos doze e
treze1.

Depois de um século de trabalho, a teologia mariana


atingiu um patamar de firmeza e conscientização que
nem mesmo os grandes adoradores da Idade Média,
como, por exemplo, Santo Anselmo, São Boaventura e
São Bernardo, provavelmente tiveram a chance de
alcançar. Isto porque o desejo de levar o leigo à
Página
conscientização de devoção a Maria nunca foi tão bem
servido como hoje. Os meios de comunicação atuais são
poderosos e a posição de seus divulgadores são firmes.
81

Qual é o significado desse importante florescer do


marianismo? É evidente que ele se relaciona com o
esforço que a Igreja Católica está fazendo em nossos dias
para recuperar as massas. A pregação mariana presta-se
particularmente a isso, e lança mão de apelos
sentimentais e elementares. Maria, como virgem e mãe,
acumula em si as mais poderosas e universais emoções:
veneração submissa e nostálgica da criança sonolenta
que há no homem, desejosa de carinho e proteção; e
também a atração pela presença eterna do ser feminino
que, quanto mais forte, mais sublimada e reprimida se
apresenta.

Tais fascínios, portanto, reúnem os mais típicos valores


cristãos: bondade, compaixão e misericórdia. A
misericórdia, por sua vez, redime e perdoa. Na pregação
mariana, esses valores são recomendados. E isso é feito
por meio de apelo psicológico. Será que o culto à Virgem
Maria é o meio (o canal da graça) pelo qual os eternos
valores cristãos hão de voltar a ser acessíveis às massas
barbarizadas e simples, incapazes de pensar mas com
fortes tendências a sentimentos intensos? Será Maria
verdadeiramente a “mediatrix”, num sentido psicológico
e histórico, do cristianismo do século de grandes
heresias?

Essa é a idéia conscientemente expressa pelos mais


sérios pensadores católicos que promovem a piedade
mariana. “A nova era será a era triunfal de Maria, e esse
triunfo trará consigo o triunfo de Cristo e da Igreja”. Foi o
que profetizou o padre francês Chaminade, em 1838, em
uma carta a Gregório XVI. Em 1927, o padre Doncoeur
Página
fez eco a essa profecia: “A presente geração crescida e
nutrida pelos dogmas e pela eucaristia realizará grandes
feitos. Resta ainda a façanha da descoberta da
82
Madona”2.

Talvez, seria um erro nos limitarmos apenas a essa


perspectiva de propaganda, ou, para sermos mais
respeitosos, perspectiva missionária. O presente
desenvolvimento da mariologia não deve ser
interpretado somente como um recurso consciente e
voluntário do mais poderoso instrumento de difusão
doutrinal. Ele tem raízes mais profundas que não podem
ser conhecidas sem uma noção mais sólida dos recessos
da fé católica.

O catolicismo declara: “Por Maria se vai a Jesus; sim, mas


só por Maria total se chega ao Jesus total, pessoalmente
e na sociedade; por meio da Mãe se vai ao Filho, por
meio da teologia de Maria a Deus, no pensamento e na
vida”. Per Mariam ad Iesum et per Iesum ad Patrem! É
esse o caminho que a piedade católica segue, e de forma
sempre mais consciente e segura. A mediação de Maria
não é uma proposição teológica abstrata. É uma
experiência vivida, um método de educação, um
caminho que tem sido experimentado e cujas
incomparáveis belezas tem sido celebradas com
entusiasmo ardoroso3 .

Ora, tudo isso não é de fato natural nem indiscutível.


Ninguém que pensa sobre a extrema gravidade da hora
presente e a eterna verdade do evangelho pode duvidar,
por um momento sequer, que o renascimento da fé cristã
não deve ser somente desejado, mas também ser a
única esperança da nossa época, se não quisermos cair
no caos. Mas que esse renascimento deva
necessariamente vir de uma mediação mariana,
Página
psicológica e pietista, missionária e teológica, não é, de
nenhum modo, evidente e bíblico. A insistência com que
os promotores do culto mariano enfatizam essa tão
83
necessária mediação é a mesma que mostra que tal idéia
é reconhecida pelo próprio catolicismo como sendo uma
novidade paradoxal, com pouca conformidade com as
tradições constantes e estabelecidas do cristianismo.

Na verdade, não existe evidência intrínseca que apóie a


idéia de que o evangelho - o evangelho eterno de Cristo
Jesus, o Jesus de Nazaré, Mestre e Senhor incomparável,
o Jesus da crucificação do Gólgota e da ressurreição - não
deva ser dirigido diretamente a uma geração confusa,
desorientada e ansiosa como a nossa sem a ajuda da
mediação psicológica e teológica da piedade mariana. O
fato de que tal mediação seja algo necessário, desejado,
invocado e pregado com tamanha e inquestionável
convicção, com um calor que traz em si os melhores
sinais de sinceridade, constitui um problema para as
mentes pensadoras de nosso tempo. De que modo a
consciência católica chegou a esse extremo? Perdeu o
evangelho a tal ponto sua evidência intrínseca; perdeu
ele seu poder de renovação e convicção, de modo que
deve ser recuperado e pregado de novo, por meio da
piedade mariana e do pensamento que defende essa
doutrina? Qual foi a fatalidade histórica e espiritual que
fez que Maria se tornasse a medianeira indispensável de
Jesus?

O problema que a pergunta supracitada levanta é de


notável interesse. E não diz respeito apenas ao mais
importante aspecto da piedade da Igreja Católica que,
por suas organizações religiosas, culturais e políticas,
aspira visivelmente o controle espiritual do mundo, ou
pelo menos do cristianismo. Abrange, ainda, o
desenvolvimento da piedade mariana, quer do ponto de
Página
vista da história das religiões e da psicologia religiosa, do
desenvolvimento dogmático e litúrgico ou da ética
católica. O assunto, de tão interessantes aspectos que
84
possui, por si só constitui um campo atraente de
investigações.

Na elaboração do culto à Virgem Maria ficou certo que


ele, e isso é um fato óbvio, substituiu o das mães divinas
(divindades femininas) do mundo Mediterrâneo. Mas o
reconhecimento desse fato, tirando a referência genérica
ao símbolo da divina maternidade, não nos é suficiente.
O culto à Virgem é um fenômeno dotado com
individualidade própria. O que ocorre no culto a Maria
pode ser observado, de maneira igual, nas origens do
ascetismo cristão, que é correlativo daquele culto e nele
entrelaçado com profundas raízes psicológicas e morais.
As procedências do ascetismo cristão também estão fora
do cristianismo, contudo não podem ser entendidas a
menos que sejam filiadas aos impulsos que o ascetismo
recebeu na área da piedade cristã do quarto século, a
qual fez dele um fenômeno original, ainda que muito
afastado das idéias do cristianismo do Novo Testamento.

Nosso propósito, no entanto, não é mostrar, neste artigo,


uma série de curiosidades e absurdos que envolvem a
construção do culto a Maria, o qual, diga-se de
passagem, está eivado de elementos não-cristãos. Ao
contrário disso, iremos discutir sobre um problema que,
embora gravíssimo, pode ser solucionado e, portanto,
tratado com respeito.

A posição da igreja Católica é tentar justificar, por meio


das Sagradas Escrituras, os aspectos que envolvem o
dogma mariano. Em algumas obras católicas, alguns
escritores procuram admitir que este ou aquele aspecto
da doutrina mariana (tais como: sua imaculada
Página
conceição, assunção e participação na redenção do
homem) não é explicitamente ensinado no Novo
Testamento e muito menos nos escritos dos primeiros
85
padres4. O mesmo ocorre com o culto dos santos e com
a oração à Virgem Maria: “O culto aos Santos só começa
a partir de cem anos aproximadamente, depois da morte
de Jesus, com uma tímida veneração aos mártires. A
primeira oração dirigida expressamente à Mãe de Deus é
a invocação Sub tuum praesidium, formulada no fim do
século III ou mais provavelmente no início do século IV.
Não podemos dizer que a veneração dos santos – e muito
menos a da Mãe de Cristo – faça parte do patrimônio
original”5.

Em seu livro Papal Sin (Pecado papal), o historiador


americano Garry Wills, católico praticante, declara: “O
culto à Virgem Maria inexiste nas Escrituras e entre os
católicos, durante quatro séculos é apenas um dos
muitos abusos históricos que, a seu ver, a Igreja
cometeu. Exorbitância cujo ápice teria sido a idolatria à
Nossa Senhora de Fátima e aos mistérios a ela ligados,
todos ‘manipulados pela Igreja’ para fins políticos – além
de discutíveis, na medida em que dois deles referiam-se
a previsões (supostamente feitas em 13 de julho de
1917) de fatos já ocorridos ou em andamento (uma nova
guerra mundial, um novo papa) quando sua única
testemunha viva, Lúcia, tornou-as públicas, em 1941”6.

Assim, na concepção do referido historiador, o dogma


mariano nada mais é do que a construção da piedade e
do pensamento teológico da Igreja, baseada em
premissas supostamente contidas (explícita ou
implicitamente) no Novo Testamento.

O padre Roschini, num breve catecismo popular, faz


declarações daquilo que pode ser chamado de leis
Página
intrínsecas do desenvolvimento do sistema mariano. E
divide essas declarações da seguinte maneira: um
princípio primário e quatro secundários. O princípio
86
primário é a divina maternidade: “A mui bendita Maria é
Mãe de Deus, é a mediadora dos homens”. E não duvida
de que desse princípio, decorrente dos princípios
secundários, “são deduzidas todas as vastas conclusões
da mariologia...”. Os princípios secundários são:
singularidade, conveniência, eminência e analogia com
Cristo. Em suas próprias palavras, Roschini enuncia os
princípios secundários da seguinte forma:
1 “A bendita Virgem, sendo uma criatura inteiramente
singular e constituindo uma ordem à parte, tem direitos a
privilégios singulares, inacessíveis a qualquer outra
criatura” (Princípio de singularidade).
2 “À bendita Virgem devem ser atribuídas todas as
perfeições condizentes com a dignidade da Mãe de Deus
e mediadora dos homens, desde que tenham alguma
base na revelação e não sejam contrárias à fé e à razão”
(Princípio de conveniência).
3 “Todos os privilégios de natureza, graça e glória
concedidos por Deus a outros santos devem também ser
concedidos de algum modo à Virgem Santíssima rainha
dos santos” (Princípio de eminência).
4 “Privilégios análogos aos vários privilégios da
humanidade de Cristo são possuídos
correspondentemente pela bendita Virgem, conforme a
condição de um e de outra” (Princípio de analogia ou
semelhança com Cristo)7.

Por meio desses princípios, é possível justificar todos os


desenvolvimentos históricos da piedade e do dogma de
Maria. É ainda mais interessante notar que eles abrem
caminho para qualquer possível desenvolvimento no
futuro. O dogma mariano, delimitado por essas quatro
Página
categorias, não é uma teoria completa e fechada em si
mesma. É uma doutrina em evolução, poder-se-ia dizer
um dogma aberto. Segundo os quatro princípios acima
87
expostos, tudo o que for possível afirmar como dogma
mariano pode ser aceito como desenvolvimento da
divina maternidade e mediação de Maria. De acordo com
o princípio da singularidade, as celebrações a Maria
jamais serão hiperbólicas ou excessivas. Segundo o
princípio de eminência, não existe glorificação de santos
ou mártires que não contribua para a glória de Maria. Já o
princípio de conveniência declara que por sua grandeza,
como mediadora, Maria tem perfeita semelhança com
Cristo, o redentor, em divindade.

Indo mais longe, Roschini afirma: “A divina maternidade a


eleva a uma altura vertiginosa e a coloca imediatamente
depois de Deus na vasta escala dos seres, tornando-a
membro da ordem hipostática (na medida em que por ela
e nela o Verbo está unido hipostaticamente – isto é –
pessoalmente – com a natureza humana), uma ordem
superior à da natureza e graça e glória. Por isso os
padres e as Escrituras têm quase esgotado seus recursos
de linguagem em exaltá-la sem conseguir dar-lhe a glória
que merece. Sua grandeza confina-se com o infinito”8.

A Igreja Católica pôs de lado o método de basear as


doutrinas das Escrituras Sagradas com a Tradição,
substituindo-o pela autoridade docente do Magistério
vivo, centralizada no Papa que, segundo a Igreja, é
infalível. É por esse motivo que ela (a Igreja Católica) tem
facilidade de definir, a seu bel-prazer, os dogmas que
prega como verdades reveladas, como, por exemplo, as
doutrinas da Imaculada Conceição de Maria e sua
assunção ao céu em corpo e alma. Mas esses
ensinamentos não têm nenhum fundamento nas
Escrituras, e muito menos na Tradição.

Como a Igreja Católica usa esse “novo” instrumento (a Página


autoridade docente do Magistério vivo) ela está
88
habilitada a dogmatizar sobre qualquer doutrina apoiada
pelo consenso geral dos fiéis, ainda que tal ensino seja
estranho às Sagradas Escrituras e à crença da igreja
primitiva. Tanto é assim que já está em franca elaboração
outro dogma sobre um assunto ainda mais grave: a
doutrina de Maria co-redentora. O objetivo, com isso, é
atribuir a Maria parte na obra expiatória de Cristo. As
autoridade da Igreja Católica acreditam que os
sofrimentos morais de Maria, ao contemplar a morte de
seu Filho na cruz, fizeram parte da obra redentora ali
realizada. A humanidade é constituída por homens e
mulheres e, sem os sofrimentos vicários de uma mulher,
junto com os do Homem Deus, a expiação dos pecados
humanos ficaria incompleta. É o que afirmam as
autoridades católicas. É uma heresia desse porte,
baseada em argumentos tão fracos, que está prestes a
ser definida como dogma. O ímpeto de glorificar Maria
não tem limites pela Igreja Católica.

Não há nenhum vestígio de esperança de que a Igreja


Católica, um dia, possa modificar seus ensinamentos
dogmáticos sobre a Virgem Maria. Ainda que seus erros
fossem reconhecidos por alguns de seus membros, eles
teriam de enfrentar a oposição da maioria, que jamais
concordaria com tal reconhecimento. Todavia, mesmo
sem essa Capitis diminutio, a Igreja Católica poderia
reduzir, pouco a pouco, seu culto excessivo e idolátrico
às proporções naturais do justo respeito que a mãe de
Jesus merece. Devido ao excessivo culto a Maria, a figura
de Jesus Cristo, no catolicismo, deixou de ser central,
restando-lhe apenas a posição de Senhor do além e Juiz
do juízo final.

Página
Para que Cristo seja novamente reconhecido pelos
católicos por sua incomparável grandeza e senhorio,
seria necessário uma revisão dogmática, litúrgica e ética
89
por parte da Igreja Católica. Neste caso, o único caminho
aberto para uma mudança é substituir os símbolos
católicos já prestes a sofrer deterioração psicológica por
outros mais novos e frescos. A fatalidade no catolicismo
é que os cultos a Maria exigem sempre de seus
adoradores os valores cristãos de humanidade, de
compaixão e de ascese interior.

Não obstante a tudo isso, Cristo, naturalmente, não será


esquecido. Permanecerá sendo o centro das honras
oficiais. O lado feio dessa “moeda”, porém, é que Maria
continuará sendo vista como a mediadora entre Cristo e
os homens. Primeiro Maria, depois Jesus Cristo. O que
isso significa? Significa que a verdadeira força difusiva e
persuasiva e o verdadeiro fascínio religioso que atrai
para si (a pessoa que está sendo adorada) a fé e a
devoção de multidões são inteiramente exercidos pela
Virgem Maria.

Com isso concluímos que, no catolicismo, o cristianismo


cedeu espaço para uma religião diferente. Bem diferente!

Comparando as declarações sobre Maria com a Bíblia,


chegamos à conclusão de que o culto a ela prestado é
impróprio.

A) Nenhuma criatura deve ser adorada, a não ser Deus:


Pai, Filho e Espírito Santo (Ap 5.11-13).
B) O culto à criatura foi rejeitado, e essa rejeição ainda
permanece (At 10.25,26; Cl 2.18; Ap 19.10; 22.8-9).
C) Devemos orar diretamente ao Deus Pai, (Mt 6.6-13)
em nome de Jesus (Jo 16.23-24). Ou, então, diretamente
a Jesus (At 7.59-60; 1 Co 1.2; 2 Co 12.8; Ap 22.10).
Página
D) A idolatria é fortemente condenada na Bíblia e
acarreta perdição eterna (Is 45.20; Ap.21.8; 22.15).
E) Jesus é o Deus Criador, juntamente com o Pai e o
90
Espírito Santo (Gn 1.26; 1.1-3; Jó 33.4; Cl 1.15-16).
Assim, Ele é o Pai de Maria pela sua natureza divina e
mais antigo que ela (Jo 17.5, 24; Hb 13.8); ao tomar a
forma humana (Jo 1.14), era chamado de filho (Mt 1.25;
12.46-50).
F) Maria não era isenta de pecado (Rm 3.23) e ela
mesma declarou que Deus era o seu Salvador (Lc 1.46-
47).
G) Maria não foi assunta ao céu em corpo glorificado.
Está no paraíso celestial consciente de sua felicidade
pessoal (1 Co 5.6-8; Fp 1.21-23). Quando o Senhor Jesus
voltar, ela fará parte da primeira ressurreição e subirá ao
céu num corpo glorificado (1 Ts 4.13-17; 1 Co 15.51-54);
H) Maria não é cheia de graça, mas achou graça diante
de Deus ao ser escolhida para ser a mãe do Salvador (Lc
1.30). Só Jesus é cheio de graça (Jo 1.14).

Notas:

1 Nosso Século gloria-se com bom direito de ser o século


de Maria”. E. Neuber. Marie dans lê dogme, Edittion Spes.
Paris, 1933. Tradução italiana, Maria nel Dogma. Pia
Societá di S. Paulo, Alba, 1944.
2 NEUBERT, Maria nel Dogma, p.6.
3 Sac. Romualdo M. Giovanni Evagelista, della Pia Societá
di S. Paulo: Lo studio organico e metodico di Maria
Santísima in Ginasio Liceo e Teologia, per la formazione
Soprannaturale del Seminarista. Alba, 1944.
4 Conf. Neubert, ob. Cit. A revelação a respeito de Maria
feita aos primeiros cristãos, não contém a asserção
explícita da imaculada conceição mas permite que ela
seja presumida e predispõe a mente para aceita-la
(p.82). Não possuímos documentos fidedignos que nos
Página
informem sobre a crença dos primeiros cristãos acerca da
assunção (p. 174). Naquele tempo não havia razão
especial para chamar a atenção dos fiéis para o auxílio
91
dado por Maria á obra da redenção. A parte exercida por
Cristo é que foi de preferência dada a conhecer. Podia-se
predizer, todavia, a, parte que a Virgem tinha no mistério
da redenção (P. 205).
5 O Culto a Maria Hoje. Vários autores, sob a direção de
Wolfgang Beinert. Edições Paulinas, 1980, 3a. Edição.
P.33.
6 O Estado de S. Paulo – D-17 – Sábado, 5 de agosto de
2000.
7 Gabriel M. Roschini, Chi é Maria? Catecismo Mariano.
Societá Apostolato Stampa, Roma, 1944, p. 12-14. Ver a
discussão plena deste assunto pelo autor em sua grande
Mariologia, três volumes em latim. A. Beladi, ed. Roma,
1947-48. Vol. I, p. 321-79.
8 Roschini, Chi e Maria? P. 39.

9. MERECEM CONFIANÇA OS LIVROS APÓCRIFOS?

Por Paulo Cristiano

A Constituição Dogmática sobre Revelação Divina, o


Concílio Vaticano II, declarou que “Ela (a igreja) sempre
considerou as Escrituras junto com a tradição sagrada
como a regra suprema de fé, e sempre as considerará
assim”.

Nós, cristãos evangélicos, rejeitamos a tradição como


regra de fé. Quando a Igreja Católica Romana se refere
ao cânon do Velho Testamento inclui uma série de livros
chamados “Apócrifos”, os quais não aparecem nas

Página
versões evangélica e hebraica da Bíblia. O resultado
disto foi que, na opinião popular dos católicos, existem
duas Bíblias: uma católica e outra protestante. Mas
92
semelhante asseveração não é certa. Só existe uma
Bíblia, uma Palavra (escrita) de Deus.

Apócrifos, o que significa?

No grego clássico, a palavra apocrypha significava


“oculto” ou “difícil de entender”. Posteriormente, tomou
o sentido de “esotérico” ou algo que só os iniciados
podem entender; não os de fora. Na época de Irineu e de
Jerônimo (séculos III e IV), o termo apocrypha veio a ser
aplicado aos livros não-canônicos do Antigo Testamento,
mesmo aos que foram classificados previamente como
“pseudepígrafos”.

Como os apócrifos foram aprovados

A Igreja Romana aprovou os apócrifos em 8 de Abril de


1546 para combater a Reforma protestante. Nessa
época, os protestantes se opunham violentamente às
doutrinas romanistas do purgatório, oração pelos mortos,
salvação pelas obras etc. A primeira edição da Bíblia
católico-romana com os apócrifos deu-se em 1592, com
autorização do papa Clemente VIII.

Os reformadores protestantes publicaram a Bíblia com os


apócrifos, colocando-os entre o Antigo e o Novo
Testamentos, não como livros inspirados, mas bons para
a leitura e de valor literário histórico. Isto continuou até
1629. A famosa versão inglesa King James (Versão do Rei
Página
Tiago) de 1611 ainda os trouxe. Mas, após 1629, as
igrejas reformadas excluíram totalmente os apócrifos das
suas edições da Bíblia, e “induziram a Sociedade Bíblica
93

Britânica e Estrangeira, sob pressão do puritanismo


escocês, a declarar que não editaria Bíblias que tivessem
os apócrifos, e de não colaborar com outras sociedades
que incluíssem esses livros em suas edições”. Melhor
assim. Tinham em vista evitar confusão entre o povo
simples, que nem sempre sabe discernir entre um livro
canônico e um apócrifo.
Há várias razões porque rejeitamos os apócrifos. Eis
algumas delas:

Não temos nenhum registro de alguma controvérsia


entre Jesus e os judeus sobre a extensão do cânon. Jesus
e os autores do Novo Testamento citam, mais de 295
vezes, várias partes das Escrituras do Antigo Testamento
como palavras autorizadas por Deus, mas nem uma vez
sequer mencionam alguma declaração extraída dos livros
apócrifos ou qualquer outro escrito como se tivesse
autoridade divina.

Historicidade

A conquista da Palestina por Alexandre, o Grande,


ocasionou uma nova dispersão dos judeus por todo o
império greco-macedônico. Morrendo Alexandre, seu
domínio dividiu-se em quatro ramos, ficando o Egito sob
a dinastia dos Ptolomeus. O segundo deles, Ptolomeu
Filadelfo, preocupou-se em enriquecer a famosa
Página
biblioteca que seu pai havia fundado. Muitos livros foram
traduzidos para o grego. Segundo um relato de Josefo, o
sumo sacerdote de Jerusalém, Eleazar, enviou, a pedido
94

de Ptolomeu Filadelfo, uma embaixada de 72 tradutores


a Alexandria, com um valioso manuscrito do Velho
Testamento, do qual traduziram o Pentateuco. A
tradução continuou depois, não se completando senão no
ano 150 antes de Cristo.

Essa tradução, que se conhece com o nome de


Septuaginta ou Versão dos Setenta, foi aceita pelo
Sinédrio judaico de Alexandria; mas, não havendo tanto
zelo ali como na Palestina e devido às tendências
helenistas contemporâneas, os tradutores alexandrinos
fizeram adições e alterações e, finalmente, sete dos
livros apócrifos foram acrescentados ao texto grego
como apêndice do Velho Testamento. Mas os judeus da
Palestina nunca os aceitaram no cânon de seus livros
sagrados.

Depois de referir-se aos cinco livros de Moisés, aos treze


livros dos profetas e aos demais escritos (os quais
“incluem hinos a Deus e conselhos pelos quais os
homens podem pautar suas vidas”), ele continua
afirmando: “Desde Artaxerxes (sucessor de Xerxes) até
nossos dias, tudo tem sido registrado, mas não tem sido
considerado digno de tanto crédito quanto aquilo que
precedeu a esta época, visto que a sucessão dos profetas
cessou. Mas a fé que depositamos em nossos próprios
escritos é percebida através de nossa conduta; pois,
apesar de ter-se passado tanto tempo, ninguém jamais
Página
ousou acrescentar coisa alguma a eles, nem tirar deles
coisa alguma, nem alterar neles qualquer coisa que
seja”.
95

Testemunho dos pais da Igreja

ORÍGENES: No terceiro século a.D., Orígenes (que


morreu em 254) deixou um catálogo de vinte e dois
livros do Antigo Testamento, preservado na História
Eclesiástica de Eusébio, VI: 25. Inclui a mesma lista do
cânone de vinte e dois livros de Josefo (e do Texto
Massorético), inclusive Ester, mas nenhum dos apócrifos
é declarado canônico, e se diz explicitamente que os
livros de Macabeus estão “fora desses [livros
canônicos]”.

TERTULIANO: Tertuliano (160-250 d.C.) era


aproximadamente contemporâneo de Orígenes. Declara
que os livros canônicos são vinte e quatro.

HILÁRIO: Hilário de Poitiers (305-366) os menciona


como sendo vinte e dois.

ATANÁSIO: De modo semelhante, em 367 d.C., o


grande líder da igreja, Atanásio, bispo de Alexandria,
escreveu sua Carta Pascal e alistou todos os livros do
nosso atual cânon do Novo Testamento e do Antigo
Testamento, exceto Ester.

JERÔNIMO: Jerônimo (340-420. a.D.) fez a seguinte


citação: “Este prólogo, como vanguarda, com capacete
Página
das Escrituras, pode ser aplicado a todos os livros que
traduzimos do hebraico para o latim, de tal maneira que
possamos saber que tudo quanto é separado destes deve
96

ser colocado entre os apócrifos. Portanto, a sabedoria


comumente chamada de Salomão, o livro de Jesus, filho
de Siraque, e Judite e Tobias e o Pastor (supõe-se que
seja o Pastor de Hermas), não fazem parte do cânon.
Descobri o Primeiro Livro de Macabeus em hebraico; o
Segundo foi escrito em grego, conforme testifica sua
própria linguagem”.
MELITO: A mais antiga lista cristã dos livros do Antigo
Testamento que existe hoje é a de Melito, bispo de
Sardes, que escreveu em cerca de 170 d.C.

“Quando cheguei ao Oriente e encontrei-me no lugar em


que essas coisas foram proclamadas e feitas, e conheci
com precisão os livros do Antigo Testamento, avaliei os
fatos e os enviei a ti. São estes os seus nomes: cinco
livros de Moisés, Gênesis, Êxodo, Números, Levítico,
Deuteronômio, Josué, filho de Num, Juízes, Rute, quatro
livros dos Reinos, os dois livros de Crônicas, os Salmos
de Davi, os Provérbios de Salomão e sua Sabedoria,
Eclesiastes, o Cântico dos Cânticos, Jó, os profetas Isaías,
Jeremias, os doze num único livro, Daniel, Ezequiel,
Esdras”.

É digno de nota que Melito não menciona aqui nenhum


livro dos apócrifos, mas inclui todos os nossos atuais
livros do Antigo Testamento, exceto Ester. Mas as
autoridades católicas passam por cima de todos esses
Página
testemunhos para manter, em sua teimosia, os apócrifos!

As heresias dos apócrifos


97

TOBIAS - (200 a.C.) - É uma história novelística sobre a


bondade de Tobiel (pai de Tobias) e alguns milagres
preparados pelo anjo Rafael.

Apresenta:
• justificação pelas obras – 4.7-11; 12.8.
• mediação dos Santos – 12.12
• superstições – 6.5, 7-9,19
• um anjo engana Tobias e o ensina a mentir – 5.16 a 19

JUDITE - (150 a.C.) É a história de uma heroína viúva e


formosa que salva sua cidade enganando um general
inimigo e decapitando-o. Grande heresia é a própria
história onde os fins justificam os meios.

BARUQUE - (100 a.D.) - Apresenta-se como sendo


escrito por Baruque, o cronista do profeta Jeremias,
numa exortação aos judeus quando da destruição de
Jerusalém. Mas é de data muito posterior, quando da
segunda destruição de Jerusalém, no pós-Cristo.

Traz, entre outras coisas, a intercessão pelos mortos –


3.4.

ECLESIÁSTICO - (180 a.C.) - É muito semelhante ao livro


de Provérbios, não fosse as tantas heresias:

Página
• justificação pelas obras – 3.33, 34.
• trato cruel aos escravos – 33.26 e 30; 42.1 e 5.
• incentiva o ódio aos samaritanos – 50.27 e 28
98

SABEDORIA DE SALOMÃO - (40 a.D.) - Livro escrito


com finalidade exclusiva de lutar contra a incredulidade
e idolatria do epicurismo (filosofia grega na era Cristã).

Apresenta:
• o corpo como prisão da alma – 9.15
• doutrina estranha sobre a origem e o destino da alma –
8.19 e 20
• salvação pela sabedoria – 9.19

1 MACABEUS - (100 a.C.) - Descreve a história de três


irmãos da família “Macabeus”, que no chamado período
interbíblico (400 a.C. 3 a.D) lutam contra inimigos dos
judeus visando a preservação do seu povo e terra.

2 MACABEUS - (100 a.C.) - Não é a continuação de 1


Macabeus, mas um relato paralelo, cheio de lendas e
prodígios de Judas Macabeu.

Apresenta:

• a oração pelos mortos – 12.44 - 46


• culto e missa pelos mortos – 12.43
• o próprio autor não se julga inspirado –15.38-40; 2.25-
27.
• intercessão pelos santos – 7.28 e 15.14
Página
Adições a Daniel:
99

Capítulo 13 - A história de Suzana - segundo esta lenda


Daniel salva Suzana num julgamento fictício baseado em
falsos testemunhos.

Capítulo 14 - Bel e o Dragão - Contém histórias sobre a


necessidade da idolatria.
Capítulo 3.24-90 - o cântico dos três jovens na fornalha.

Lendas, erros e outras heresias:

1. Histórias fictícias, lendárias e absurdas

- Tobias 6.1-4 - “Partiu, pois, Tobias, e o cão o seguiu, e


parou na primeira pousada junto ao rio Tigre. E saiu a
lavar os pés, e eis que saiu da água um peixe
monstruoso para o devorar. À sua vista, Tobias,
espavorido, clamou em alta voz, dizendo: Senhor, ele
lançou-se a mim. E o anjo disse-lhe: Pega-lhe pelas
guelras, e puxa-o para ti. Tendo assim feito, puxou-o
para terra, e o começou a palpitar a seus pés”.

2. Erros históricos e geográficos

Esses livros contêm erros históricos, geográficos e


cronológicos, além de doutrinas obviamente heréticas;
eles até aconselham atos imorais (Judite 9.10,13). Os
erros dos apócrifos são freqüentemente apontados em
Página
obras de autoridade reconhecida. Por exemplo: o erudito
bíblico DL René Paehe comenta: “Exceto no caso de
determinada informação histórica interessante
100

(especialmente em 1 Macabeus) e alguns belos


pensamentos morais (por exemplo, Sabedoria de
Salomão). Tobias contém certos erros históricos e
geográficos, tais como a suposição de que Senaqueribe
era filho de Salmaneser (1.15) em vez de Sargão II, e que
Nínive foi tomada por Nabucodonosor e por Assuero
(14.15) em vez de Nabopolassar e por Ciáxares... Judite
não pode ser histórico porque contém erros evidentes...
[Em 2 Macabeus]. Há também numerosas desordens e
discrepâncias em assuntos cronológicos, históricos e
numéricos, os quais refletem ignorância ou confusão.”

3. Ensinam artes mágicas ou de feitiçaria como


método de exorcismo

Tobias 6.5-9 - “Então disse o anjo: Tira as entranhas a


esse peixe, e guarda, porque estas coisas te serão úteis.
Feito isto, assou Tobias parte de sua carne, e levaram-na
consigo para o caminho; salgaram o resto, para que lhes
bastassem até que chegassem a Ragés, cidade dos
Medos. Então Tobias perguntou ao anjo e disse-lhe:
Irmão Azarias, suplico-lhe que me digas de que remédio
servirá estas partes do peixe, que tu me mandaste
guardar: E o anjo, respondendo, disse-lhe: Se tu puseres
um pedacinho do seu coração sobre brasas acesas, o seu
fumo afugenta toda a casta de demônios, tanto do
homem como da mulher, de sorte que não tornam mais a
chegar a eles. E o fel é bom para untar os olhos que têm
Página
algumas névoas, e sararão”.

Este ensino de que o coração de um peixe tem poder


101

para expulsar toda espécie de demônios contradiz tudo o


que a Bíblia diz sobre superstição.

4. Ensinam que esmolas e boas obras limpam os


pecados e salvam a alma

a) Tobias 12.8, 9 - “É boa a oração acompanhada do


jejum, dar esmola vale mais do que juntar tesouros de
ouro; porque a esmola livra da morte (eterna), e é a que
apaga os pecados, e faz encontrar a misericórdia e a vida
eterna”.

b) Eclesiástico 3.33 - “A água apaga o fogo ardente, e a


esmola resiste aos pecados”.
A salvação por obras destrói todo o valor da obra vicária
de Cristo em favor do pecador.

5. Ensinam o perdão dos pecados através das


orações

Eclesiástico 3.4 - “O que ama a Deus implorará o perdão


dos seus pecados, e se absterá de tornar a cair neles, e
será ouvido na sua oração de todos os dias”.

O perdão dos pecados não está baseado na oração que


se faz pedindo o perdão, não é fé na oração, e sim fé
naquele que perdoa o pecado.

Página
6. Ensinam a oração pelos mortos

2 Macabeus 12.43-46 - “e tendo feito uma coleta,


102

mandou 12 mil dracmas de prata a Jerusalém, para


serem oferecidas em sacrifícios pelos pecados dos
mortos, sentindo bem e religiosamente a ressurreição
(porque, se ele não esperasse que os que tinham sido
mortos, haviam um dia de ressuscitar, teria por uma
coisa supérflua e vã orar pelos defuntos); e porque ele
considerava que aos que tinham falecido na piedade
estava reservada uma grandíssima misericórdia. É, pois,
um santo e salutar pensamento orar pelos mortos, para
que sejam livres dos seus pecados”.

É nesse texto de um livro não canônico que a Igreja


Católica Romana baseia sua doutrina do purgatório.

7. Ensinam a existência de um lugar chamado


purgatório

Sabedoria 3.1-4 - “As almas dos justos estão na mão de


Deus, e não os tocará o tormento da morte. Pareceu aos
olhos dos insensatos que morriam; e a sua saída deste
mundo foi considerada como uma aflição, e a sua
separação de nós como um extermínio; mas eles estão
em paz (no céu). E, se eles sofreram tormentos diante
dos homens, a sua esperança está cheia de
imortalidade”.

A Igreja Católica baseia a doutrina do purgatório na


última parte desse texto. Afirmam os católicos que o
Página
tormento em que o justo está é o purgatório que o
purifica para entrar na imortalidade. Isto é uma
deturpação do próprio texto do livro apócrifo.
103

8. Tobias 5.15-19

“E o anjo disse-lhe: Eu o conduzirei e to reconduzirei.


Tobias respondeu: Peço-te que me digas de que família e
de que tribo és tu? O anjo Rafael disse-lhe: Procuras
saber a família do mercenário, ou o mesmo mercenário
que vá com teu filho? Mas para que te não ponhas em
cuidados, eu sou Azarias, filho do grande Ananias. E
Tobias respondeu-lhe: Tu és de uma ilustre família. Mas
peço-te que te não ofendas por eu desejar conhecer a
tua geração”.

Um anjo de Deus não poderia mentir sobre a sua


identidade sem violar a própria lei santa de Deus. Todos
os anjos de Deus foram verdadeiros quando lhes
perguntado a sua identidade. Veja Lucac 1.19.

Decisão polêmica e eivada de preconceito

Resumindo todos esses argumentos, essa postura afirma


que o amplo emprego dos livros apócrifos por parte dos
cristãos desde os tempos mais primitivos é evidência de
sua aceitação pelo povo de Deus. Essa longa tradição
culminou no reconhecimento oficial desses livros, no
Concílio de Trento, como se tivessem sido inspirados por
Deus. Mesmo não-católicos, até o presente momento,
conferem aos livros apócrifos uma categoria de
Página
paracanônicos, o que se deduz do lugar que lhes dão em
suas Bíblias e em suas igrejas.
104

O cânon do Antigo Testamento até a época de Neemias


compreendia 22 (ou 24) livros em hebraico, que, nas
Bíblias dos cristãos, seriam 39, como já se verificara por
volta do século IV a.C. Foram os livros chamados
apócrifos, escritos depois dessa época, que obtiveram
grande circulação entre os cristãos, por causa da
influência da tradução grega de Alexandria. Visto que
alguns dos primeiros pais da igreja, de modo especial no
Ocidente, mencionaram esses livros em seus escritos, a
igreja (em grande parte por influência de Agostinho) deu-
lhes uso mais amplo e eclesiástico. No entanto, até a
época da Reforma esses livros não eram considerados
canônicos. A canonização que receberam no Concílio de
Trento não recebeu o apoio da história. A decisão desse
Concílio foi polêmica e eivada de preconceito.

Que os livros apócrifos, seja qual for o valor devocional


ou eclesiástico que tiverem, não são canônicos, o que se
comprova pelos seguintes fatos:

1. A comunidade judaica jamais os aceitou como


canônicos.

2. Não foram aceitos por Jesus, nem pelos autores do


Novo Testamento.

3. A maior parte dos primeiros grandes pais da igreja


rejeitou sua canonicidade.
Página
4. Nenhum concílio da igreja os considerou canônicos
senão no final do século IV.
105

5. Jerônimo, o grande especialista bíblico e tradutor da


Vulgata, rejeitou fortemente os livros apócrifos.

6. Muitos estudiosos católicos romanos, ainda ao longo


da Reforma, rejeitaram os livros apócrifos.
7. Nenhuma igreja ortodoxa grega, anglicana ou
protestante, até a presente data, reconheceu os
apócrifos como inspirados e canônicos, no sentido
integral dessas palavras.

Em virtude desses fatos importantíssimos, torna-se


absolutamente necessário que os cristãos de hoje jamais
usem os livros apócrifos como se fossem Palavra de
Deus, nem os citem em apoio autorizado a qualquer
doutrina cristã. Com efeito, quando examinados segundo
os critérios elevados de canonicidade estabelecidos,
verificamos que aos livros apócrifos faltam:

1. Os apócrifos não reivindicam ser proféticos.

2. Não detêm a autoridade de Deus. O prólogo do livro


apócrifo Eclesiástico (180 a.C.) diz: “Muitos e excelentes
ensinamentos nos foram transmitidos pela Lei, pelos
profetas, e por outros escritores que vieram depois deles,
o que torna Israel digno de louvor por sua doutrina e sua
sabedoria, visto não somente os autores destes discursos
Página
tiveram de ser instruídos, também os próprios
estrangeiros se podem tomar (por meio deles) muito
hábeis, tanto para falar como para escrever. Por isso,
106

Jesus, meu avô, depois de se ter aplicado com grande


cuidado à leitura da Lei, dos profetas e dos outros livros
que nossos pais nos legaram, quis também escrever
alguma coisa acerca da doutrina e sabedoria... Eu vos
exorto, pois, a ver com benevolência, e a empreender
esta leitura com uma atenção particular e a perdoar-nos,
se algumas vezes parecer que, ao reproduzir este retrato
da soberania, somos incapazes de dar o sentido (claro)
das expressões”. Este prólogo é um auto-
reconhecimento da falibilidade humana. (grifo
acrescentado)

Diante de tudo isso, perguntamos: “Merecem confiança


os livros Apócrifos?” A resposta obvia é: NÃO!

Natureza e número dos apócrifos do Antigo


Testamento

Há quinze livros chamados apócrifos (quatorze, se a


Epístola de Jeremias se unir a Baruque, como ocorre nas
versões católicas de Douai). Com exceção de 2 Esdras,
esses livros preenchem a lacuna existente entre
Malaquias e Mateus e compreendem especificamente
dois ou três séculos antes de Cristo.

Significado das palavras cânon e canônico

CÂNON - (de origem semítica, na língua hebraica


Página
“qãneh” em Ez 40.3; e no grego: “kanón”, em Gl 6.16")
tem sido traduzido em nossas versões em português
como “regra”, “norma”. Literalmente, significa vara ou
107

instrumento de medir.

CANÔNICO - Que está de acordo com o cânon. Em


relação aos 66 livros da Bíblia hebraica e evangélica.

Significado da palavra Pseudoepígrafado


Literalmente significa “escritos falsos” - Os apócrifos não
são necessariamente escritos falsos, mas, sim, não-
canônicos, embora também contenham ensinos errados
ou hereges.

Diferença entre as Bíblias hebraicas, protestantes e


católicas

1. Bíblia hebraica [a Bíblia dos judeus]

a) Contém somente os 39 livros do VT

b) Rejeita os 27 do NT como inspirado, assim como


rejeitou Cristo.

c) Não aceita os livros apócrifos incluídos na Vulgata


(versão Católica Romana).

2. Bíblia protestante

a) Aceita os 39 livros do VT e também os 27 do N.T.


Página
b) Rejeita os livros apócrifos incluídos na Vulgata, como
não canônicos.
108

3. Bíblia católica

a) Contém os 39 livros do VT e os 27 do N.T.

b) Inclui, na versão Vulgata, os livros apócrifos ou não


canônicos que são: Tobias, Judite, Sabedoria,
Eclesiástico, Baruque, 1º e 2º de Macabeus, seis
capítulos e dez versículos acrescentados no livro de Ester
e dois capítulos de Daniel.

A seguir, a lista dos que se encontravam na Septuaginta:

1. 3 Esdras

2. 4 Esdras

3. Oração de Azarias

4. Tobias

5. Adições a Ester

6. A Sabedoria de Salomão

7. Eclesiástico (Também chamado de Sabedoria de Jesus,


filho de Siraque).

Página
8. Baruque

9. A Carta de Jeremias
109

10. Os acréscimos de Daniel

11. A Oração de Manassés

12. 1 Macabeus
13. 2 Macabeus

14. Judite

Bibliografia:

1. Merece Confiança o Antigo Testamento?, Gleason L.


Archer. Jr. Ed. Vida Nova.
2. Introdução Bíblica, Norman Geisler e William Nix. Ed.
Vida.
3. Panorama do Velho Testamento, Ângelo Gagliardi Jr.
Ed. Vinde.
4. O Novo Comentário da Bíblia vol I, vários autores. Ed.
Vida Nova.
5. Evidência Que Exige um Veredicto vol I, Josh
McDowell. Ed. Candeia.
6. Os Fatos sobre “O Catolicismo Romano”, John
Ankerberg e John Weldon. Ed. Chamada da Meia-Noite.
7. O Catolicismo Romano, Adolfo Robleto. Ed. Juerp.
8. Estudos particulares de, Pr. José Laérton - IBR Emanuel
- (085) 292-6204.(internet)
Página
9. Estudos particulares de, Paulo R. B. Anglada.(internet)
10. Teologia Sistemática, Green. Ed. Vida Nova.
11. Anotações particulares do autor.
110
10. MONOTEÍSMO TEÓRICO E POLITEÍSMO PRÁTICO

Por Eguinaldo Hélio de Souza

“Assim temiam ao SENHOR, mas também serviam a seus


deuses, segundo o costume das nações dentre as quais
tinham sido transportados” (2Rs 17.33)

Monoteísmo é a crença em um único Deus, o que o difere


do paganismo e de religiões como o hinduísmo que,
oficialmente, acredita na existência de vários deuses. No
mundo existem apenas três grandes religiões
reconhecidamente monoteístas, isto é, que crêem em um
único Deus: judaísmo, cristianismo e islamismo. Embora
apresentando características distintas, as teologias
dessas religiões não admitem a existência de outra ou de
Página
outras divindades.

Todavia, este monoteísmo se deteriora muitas vezes em


111
um politeísmo disfarçado, que não fica longe do
paganismo evidente. Algumas vertentes dessas religiões
mantêm certo monoteísmo em seu credo, mas sua
prática está repleta de envolvimento com outros deuses.

Esse fenômeno só não ocorre dentro do judaísmo e do


protestantismo, que se mantêm estritamente
monoteístas, tanto em sua teologia quanto em sua
prática devocional. As demais religiões, mesmo as que se
intitulam monoteístas, apresentam, oficialmente ou não,
formas de cultos a outros tipos de divindade. Mesmo
alguns segmentos do cristianismo ou de outras religiões
que se intitulam cristãs são, na prática, politeístas.

O que é um deus?

O Novo Dicionário Aurélio define o conceito de Deus/deus


da seguinte forma, pontos 2 e 3: “Ser infinito, perfeito,
criador do Universo. Nas religiões politeístas, divindade
superior aos homens, é à qual se atribui influência
especial, benéfica ou maléfica, nos destinos do
Universo”.

Ao menos em teoria, é possível que as religiões


envolvam todos estes conceitos, ou mais, porém, a
revelação bíblica só admite o primeiro. O cristianismo
autêntico é mais do que doutrina verdadeira (ortodoxia),
é a prática do culto verdadeiro (ortopraxia). É um grande
engano supor que a simples adesão intelectual a um
credo torna o homem aceitável a Deus, enquanto na
prática ele continua invocando, adorando ou se
envolvendo espiritualmente com falsos deuses. O rótulo
de “cristão” utilizado por diversos grupos, como espíritas,
Página
racionalistas, etc., é insuficiente para que os homens
tenham um relacionamento verdadeiro com Deus, uma
vez que as pessoas observam práticas pagãs e idólatras.
112

O Senhor ordenou: “Não terás outros deuses diante de


mim” (Êx 20.3). O exclusivismo da Divindade não vai
apenas até a formulação de um credo, mas está no
âmago do verdadeiro relacionamento entre Deus e o
homem. Se o primeiro mandamento não for respeitado
na prática, o homem não obterá uma verdadeira relação
com o Deus vivo, independente de quantos conceitos
corretos possa apresentar na teoria.
Mediador e mediadores

“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e


os homens, Jesus Cristo homem” (1Tm 2.5).

O problema das religiões que adotam o monoteísmo na


teoria e praticam um tipo de politeísmo está na adoção
dos mediadores. Enquanto a Bíblia definitivamente
coloca Jesus como o único mediador entre Deus e os
homens, pelo fato de Ele ser o único ser em todo o
Universo que assumiu as duas naturezas, os referidos
grupos reconhecem outros mediadores que acabam
assumindo o papel de “deuses’’. Enquanto o livre acesso
a Deus é garantido nas Escrituras (Ef 2.18; 3.12), esses
grupos “se utilizam” de outros seres para conseguir este
acesso.

Jacques Doyon, grande teólogo católico, por exemplo,


assim se expressa sobre este assunto: “Os anjos, os
santos e a Virgem exercem também certa influência
sobre a nossa salvação, mais ou menos larga, segundo
sua importância, embora sua mediação não possa ser
colocada em pé de igualdade com Cristo...”.1
Página
Conseqüentemente, ao rejeitar a exclusividade da
mediação de Cristo a pessoa nega também a
exclusividade de sua Divindade.
113

Semelhante erro ocorre no espiritismo kardecista. Mesmo


admitindo a existência de um único Deus, as orações
sofrem mediação dos “espíritos” e, assim, no lugar de
um relacionamento com Deus, o relacionamento passa a
ser com estes seres, enganosamente classificados como
“espíritos de luz”. “Quando alguém ora a outros seres
que não a Deus, fá-lo recorrendo a intermediários, a
intercessores, porquanto nada sucede sem a vontade de
Deus”.2

Catolicismo romano

Vejamos o discurso dos padres do baixo clero, durante a


Idade Média: “Guardai-vos meus filhos, da cólera dos
santos! São todos eles bondosos e cheios de amor. Mas
ai dos que não os cultuam devidamente! Recebem como
castigo horríveis doenças que lhe cobrem o corpo de
chagas. São Sebastião, por exemplo, foi o criador da
peste. Seus devotos escapam desse terrível mal [...]
Aliás, é bom não esquecer de rezar para os demais
santos encarregados de conter a peste: São Roque, São
Gil, São Cristóvão, São Valentino e São Adrião. Não
convém recorrer unicamente a São Sebastião. Os outros
podem se sentir ofendidos”.3

O romanismo é a expressão mais evidente de como uma


religião pode ser monoteísta em seus fundamentos e
politeísta em suas práticas. Principalmente porque leva o
título de “cristianismo”. Contudo, um pouco de bom
senso é suficiente para perceber a distância existente
entre o cristianismo neotestamentário e o cristianismo
romano. Esta distorção geralmente é maquiada com
Página
inúmeras sutilezas teológicas, com argumentos
sofismáticos e emocionalismo. Mesmo assim é difícil não
reconhecer a semelhança existente entre o paganismo
114
comum e o catolicismo popular.

“Em Roma, a corporação [profissionais de um mesmo


ramo reunidos em uma organização] era, sobretudo, um
colégio religioso. Tinha seu deus particular, seu culto,
suas festas [...] Embora as corporações medievais não
fossem idênticas às romanas teriam mantido o caráter
forte de uma autoridade moral. Freqüentemente tinham
como sede uma paróquia ou capela particular, e
cultuavam a um santo que era o patrono da
corporação”.4

Os deuses pagãos romanos foram simplesmente


substituídos pelos santos. As deusas, igualmente, foram
trocadas pelas “nossas senhoras”. Assim como cada deus
tinha uma função particular (deus do fogo, da caça, do
mar, etc.), os santos também são funcionais (um protege
os motoristas, outro protege das doenças, outro das
dívidas, etc.). Assim como os deuses eram locais, ou
seja, pertenciam a determinada cidade e a protegiam,
assim também os santos são “padroeiros” de algumas
cidades que, muitas vezes, levam seus nomes.

Isso sem falar no sincretismo extremo encontrado não só


no Brasil como também em muitas partes do mundo,
onde os cultos locais absorveram o catolicismo e
continuaram a ser praticados com uma roupagem cristã.
Um exemplo claro e peculiar do Brasil foi a identificação
dos orixás dos cultos afros com os “santos, santas e
nossas senhoras” do catolicismo português.

Página
Kardecismo

O conceito de Deus, utilizado por Alan Kardec, foi


115
extraído diretamente do pensamento judaico-cristão.
Mesmo que o kardecismo não aceite definitivamente a
natureza Trina de Deus, nos demais aspectos é muito
fácil perceber que quando se refere a Deus está-se
referindo ao Deus cristão. “Entretanto, desde que admita
a existência de Deus, ninguém o pode conceber sem o
infinito das perfeições. Ele necessariamente tem todo o
poder, toda a justiça, toda a bondade, sem o que não
seria Deus”.5 Sendo assim, podemos considerar o
espiritismo kardecista uma religião monoteísta. Aliás,
esse segmento espírita pode, mais do que qualquer
outro, ser chamado de espiritismo cristão (embora, na
prática, isto seja um contra-senso), visto o uso deliberado
que Kardec faz dos evangelhos.

Este conceito monoteísta, todavia, não impede o


relacionamento espiritual com outros seres, por meio da
oração e dos diálogos. Na prática, o contato, a
manifestação e a “bênção” dos espíritos são o centro do
kardecismo, e não Deus ou Jesus Cristo. Absolutamente!

“As preces feitas a Deus escutam-nas os espíritos


incumbidos da execução de suas vontades; as que se
dirigem aos bons espíritos são reportadas a Deus.
Quando alguém ora a outros seres que não a Deus, fá-lo
recorrendo a intermediários, a intercessores, porquanto
nada sucede sem a vontade de Deus [...] É assim que os
Espíritos ouvem a prece que lhes é dirigida [...]”.6

Como no catolicismo, o kardecismo substitui os santos


pelos espíritos e passa a se relacionar espiritualmente
com eles. A citação que Kardec faz do segundo
mandamento deixa margem para uma adoração
Página
secundária ao lado do que ele chama de “culto soberano
a Deus”. Veja sua declaração: “Não fareis imagem
esculpida, nem figura alguma do que está em cima no
116
céu, nem embaixo na terra, nem do que quer que esteja
nas águas sob a terra. Não os adorareis e não lhes
prestareis culto soberano”.7

Com este argumento, abre-se espaço para um culto


“relativo” aos espíritos, muito semelhante ao que existe
no catolicismo, separando latria, dulia e hiperdulia8,
como se a mera alteração dos termos pudesse anular os
efeitos da idolatria sobre a humanidade.
Islamismo popular

O primeiro artigo de fé dos muçulmanos é uma


declaração explícita de seu monoteísmo: “Só há um
Deus, Alá, e Maomé é o seu profeta”. Esta profissão de fé
foi sempre o âmago da mensagem islâmica. Devido a
isto, seria difícil imaginar que a fé muçulmana pudesse,
de alguma forma, tornar-se politeísta em suas práticas.

Convém lembrar, porém, que a maior parte das


“conversões” dos povos ao islamismo se deu sob a ponta
de uma espada. Logo, não é de admirar que os neófitos,
com o passar do tempo, buscassem fazer algum tipo de
sincretismo entre a crença monoteísta muçulmana e suas
crenças politeístas culturais, tal qual aconteceu com
alguns povos da Europa Medieval ou com os escravos
africanos trazidos ao Brasil.

Basta a um povo encontrar e fundir pontos semelhantes


entre sua cultura e uma religião imposta para que o
sincretismo seja realizado. Este fato não é, de forma
alguma, ignorado pelos muçulmanos. Fazlur Rahman,
historiador muçulmano, assim se refere às práticas
Página
politeístas dentro do islamismo: “A crença generalizada
neste tipo de bênção levou à veneração e adoração dos
túmulos dos santos (islâmicos) e de outras relíquias.
117
Ainda se realizam anualmente peregrinações ao túmulo
desses santos”.9

A verdade é que o sufismo, um movimento místico


dentro do islamismo tradicional, sempre exerceu grande
influência nas camadas populares. E o sufismo realizou,
muitas vezes, um sincretismo entre o islamismo e as
religiões tribais, como admite o próprio Fazlur: “...O
sufismo envolvia uma desconcertante tendência de
compromisso com crenças e práticas populares das
massas semiconvertidas e mesmo nominalmente
convertidas. Dentro dessa amplidão que desde o
princípio foi latente no sufismo, permitiu uma
heterogênea mistura de atitudes religiosas herdadas do
passado dos novos convertidos, que vai desde o
animismo africano até o panteísmo indiano”.10

J. Dudley Woodberry, professor associado de estudos


islâmicos na Escola de Missões Mundiais do Seminário
Teológico Fuller, fez uma excelente pesquisa na qual
distinguiu, dentro do islamismo, duas correntes: o
islamismo formal, ideal, ou ortodoxo, que classificou de
“alto”, e o islamismo popular, que classificou de baixo.
Mesmo sentindo certo peso por relacionar-se com seres
os quais chamam de tonongues, os muçulmanos das
filipinas, por exemplo, geralmente pedem para que esses
tonogues sirvam de intermediários. E justificam: “Deus
criou os tonongues e lhes deu poder”.11

O islamisno popular, embora rejeite o politeísmo na


teoria, na prática, porém, foi absorvido pelo islamismo
oficial em um esquema semelhante ao catolicismo que,
apesar de dizer que condena a idolatria, faz vistas
Página
grossas para ela ou, de forma velada, estimula a fé
popular nos santos e nas “nossas senhoras”. “A interação
entre o islamismo ideal e o popular tem tido lugar desde
118
o surgimento do islamismo. A nova fé foi, ao mesmo
tempo, combatida e colorida pelo animismo existente na
Arábia. Pedras, fetiches, árvores sagradas foram
rejeitados como objetos dotados de poder; e, no entanto,
os muçulmanos sempre trataram a Pedra Negra [aliás,
objeto de culto das tribos árabes primitivas desde a Era
pré-islâmica] e a água Zam Zam, existentes no santuário
de Meca, como fontes de poder e de bênção”.12
Para termos uma idéia de até que ponto vai esse
sincretismo, e quão presente está no islamismo, basta
frisar que na África Ocidental as pessoas rezam aos
ancestrais, a fim de adquirir poder. Conforme vão-se
“islamizando”, mais e mais vão rezando a Deus, por meio
dos ancestrais.

Sendo assim, essa imagem de um monoteísmo sólido,


vendida ao mundo pelo islamismo, não corresponde
inteiramente aos fatos. Os líderes islâmicos estão
plenamente cônscios de um culto paralelo aos santos,
aos ancestrais, aos objetos e até mesmo ao próprio
Maomé.

Resumindo...

Estes poucos pontos, aqui expostos, são suficientes para


mostrar que a insistência do protestantismo, ou melhor,
da fé evangélica, no padrão sola scriptura (somente a
Escritura), nunca será demasiada. O menosprezo dos
conceitos teológicos da Bíblia como afirmações absolutas
das verdades divinas facilmente leva a uma frouxidão
doutrinária que com certeza resulta em práticas
espirituais duvidosas.

“Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” (Dt Página


6.4).
119

Esta verdade, tão vital para a humanidade, ainda que


aceita por muitos, tem sido ardilosamente distorcida,
maquiada e anulada pelas primitivas práticas pagãs. Sob
a roupagem monoteísta e até mesmo cristã se escondem
práticas politeístas e idólatras que precisam ser
desmascaradas e confrontadas com o verdadeiro culto a
Deus.
Só a Deus devemos tributar glória e louvor para todo o
sempre!

Notas:

1 Cristologia para o nosso tempo. P. Jacques Doyon.


Edições Paulinas, 1970, p. 364.
2 O evangelho segundo o espiritismo. Alan Kardec.
Instituto de difusão espírita, 1978, p. 306.
3 Grandes personagens da história universal. Victor
Civita. Abril Cultural, 1972, p. 525.
4 Introdução à sociologia. Guilherme Galliano. Editora
Harba, 1981, p. 129.
5 O evangelho segundo o espiritismo. Alan Kardec.
Instituto de difusão espírita, 1978, p. 71.
6 Ibid., p. 307.
7 Ibid., p. 33,34.
8Mais detalhes, conferir revista Defesa da Fé, nº 61, na
matéria intitulada “Idolatria disfarçada”, de autoria de
Paulo Cristiano da Silva. Centro Apologético Cristão de
Pesquisas.
9 O islamismo. Fazlur Rahman. Editora Arcádia, 1975, p.
211.
10 Ibid., p. 213.
Página
11 A relevância dos ministérios de poder para o
islamismo popular. J. Dudley Woodberry. Citado no livro A
luta contra os anjos do mau, compilado por Peter Wagner
120
e Douglas Pennoyer. Editora Unilit, p. 340.
12 Ibid., p. 341.
11. MUDANÇA DE PARADIGMA - CRISTOCENTRISMO
VERSUS MARIOCENTRISMO NA RENOVAÇÃO
CARISMÁTICA

Por José Gonçalves Gomes

“Porque ninguém pode pôr outro fundamento além do


que já está posto, o qual é Jesus Cristo” (1Co 3.11)

A expressão “mudança de paradigma” é freqüentemente


usada pelos historiadores da filosofia. Na Grécia antiga,
os filósofos pré-socráticos, também denominados de
“naturalistas”, preocupavam-se em dar explicações sobre
o “arché”, ou princípio de todas as coisas. Para Tales de
Mileto, que viveu no século 7º a.C, esse princípio, do qual
Página
todas as coisas derivaram, era a “água”. Por outro lado,
para Anaximandro, que viveu entre os séculos 7º e 6º
a.C., o “apeiron”, ou o ilimitado, explicaria a origem de
121
todas as coisas. Já Anaxímenes afirmava que o “ar”, não
a água, era o “arché” de todas as coisas. Até aqui esses
pensadores estavam preocupados em dar explicações
sobre o “cosmo”.

A grande mudança no pensamento grego, como afirmam


os historiadores da filosofia, veio com os “sofistas” (os
sábios). Com a escola sofística, “o homem”, não “o
cosmo”, passou a ser o centro do Universo. Protágoras de
Abdera, que viveu entre 491 e 481 a.C, afirmou ser “o
homem a medida de todas as coisas”. Nesta frase de
Protágoras está revelada a grande mudança de
paradigma na história do pensamento Ocidental; a visão
de mundo deixou de ser cosmocêntrica para se tornar
antropocêntrica. O homem agora passava a ser o centro
das atenções na filosofia ocidental.

Quanto mais observo o movimento de renovação


católica, mais convencido fico a respeito dessa “mudança
de paradigma” no pensamento carismático cristocêntrico
no passado e mariocêntrico no presente. A diferença
entre a mudança de paradigma do pensamento grego
para o carismático é que aquele foi uma mudança que
provocou um progresso na civilização, enquanto este
promoveu um retrocesso dentro da renovação.

Ainda muito cedo em sua história, a renovação


carismática demonstrava ser incompatível com o
catolicismo tradicional. Seus traços doutrinários, que
lembravam os pentecostais clássicos, incomodavam o
clero romano. Por isso, “em 1974 o movimento
abandonou o termo pentecostal por outro mais neutro:
carismático, para não ser confundido com os
Página
pentecostais mais antigos”.1 Quando examinamos o
Novo Testamento, observamos que a diferença entre
esses termos, imposta pela renovação carismática, não
122
tem fundamento, uma vez que as palavras pentecostal e
carismático, podem ser encontradas nas páginas
sagradas como sinônimas, suas diferenças são
puramente didáticas. A palavra pentecostal, aplicada no
início da vinda do Espírito Santo, conforme registrada no
livro de Atos 2.4, posteriormente tornou-se sinônimo dos
carismas desse mesmo Espírito.

A propósito, observa a Enciclopédia Judaica: “O termo


‘pentecostal’, derivado de ‘pentecostes’, é uma tradução
grega para a palavra hebraica shavuot (semanas), uma
das mais importantes festas do judaísmo antigo. Os
judeus helenistas [...] que só utilizavam o idioma grego,
chamavam o shavuot de ‘pentecostes’ (do grego, Pente
Kostus, que significa ‘qüinquagésimo’) porque era
festejado cinqüenta dias após a oferenda do molho de
cevada que se fazia no Templo de Jerusalém, no segundo
dia de Pessach (páscoa)”.2

Como o derramamento do Espírito Santo (At 2.1-4)


aconteceu nesse dia, o termo “pentecostal” ficou
associado às manifestações do Espírito de Deus. É
precisamente isso o que diz o expositor bíblico J. D. G.
Dunn, ao falar sobre A significância do pentecostes para
os cristãos primitivos: “O Pentecostes significa,
primeiramente, o derramamento do Espírito que Deus
prometeu para os tempos do fim. As manifestações
carismáticas e estáticas que se atribuíam ao Espírito de
Deus eram um aspecto distintivo e importante do
cristianismo palestino mais primitivo, bem como do
cristianismo helenístico posterior [...]. Atos 20.16 pode
até indicar que a igreja em Jerusalém observava o
Pentecostes como aniversário do derramamento do
Página
Espírito”.3

Por outro lado, o termo carismático, que vem do grego


123
charismatón (derivado de charizomai – “dom”, “graça”),
aparece na primeira carta aos Coríntios (12.4), quando
Paulo usa o termo para também se referir às
manifestações do Espírito Santo na Igreja. Archibald
Thomas Robertson, erudito em língua grega, comenta em
The Word’s New Testament Pictures, que essa palavra
“significa um favor [...] concedido ou recebido sem um
mérito”.4 O charismaton passou a ser um termo também
usado para os dons do Espírito Santo.
Querer fazer uma diferença abismal entre esses termos,
como pretende a renovação, é revelar claramente a
ideologia desse movimento, que tenta dar-lhe uma
identidade mais católica. Em seu livro Carismáticos e
pentecostais – adesão na esfera familiar, a socióloga
Maria das Dores C. Machado mostra que a ingerência na
Renovação Carismática, principalmente pelo papado, tem
a nítida intenção de controlá-la. A doutora Machado
afirma: “De maneira geral, revelam um esforço da
hierarquia da igreja, sobretudo do papado, em controlar o
movimento, evitando possíveis cismas e, ao mesmo
tempo, canalizar a militância evangelizadora em favor da
religião católica. A devoção à Virgem Maria foi
estimulada para demarcar as fronteiras entre o
catolicismo e o pentecostalismo e, em certa medida,
reforçar a identidade religiosa dos carismáticos”.5

Não há, pois, como negar que a renovação católica


moderna perdeu aquela identidade pentecostal que
caracterizou o início de seu movimento, para se tornar
uma caixa de ressonância do catolicismo tradicional.
Reavivamento mariano

Página
Doutrinas que tiveram suas origens na Idade Média, a
conhecida Idade das Trevas, começaram a ser
incorporadas à Renovação: “Uma das características bem
124
peculiar da Igreja Católica é a sua flexibilidade para
assimilar novas tendências, sem dividir. Isto aconteceu
com o movimento carismático católico que alcançou seu
ápice na década de 70, mas, com o tempo, a hierarquia
católica começou a dar algumas diretrizes ao movimento
para que se tornasse mais católico. Entre essas diretrizes
estava uma ênfase maior na participação da missa, na
eucaristia e na veneração a Maria”.6
Até aqui já é possível percebermos que de fato houve
uma mudança de paradigma no pensamento da
Renovação Carismática, outrora cristocêntrico, agora
centralizado na Virgem Maria. É precisamente isso o que
diz Paulo Romeiro, quando põe em destaque esse
enfoque mariano por parte da renovação carismática: “O
movimento carismático não se afasta da idolatria. Ao
mesmo tempo em que fala do Senhor, fala da senhora
[...] os líderes do movimento carismático confirmam, na
mídia, que o objetivo deles é exaltar nossa senhora.
Dizem que precisam ‘restaurar o espaço de Maria’”.7

Ficamos perplexos quando vemos importantes líderes


carismáticos renovando o marianismo, uma doutrina
estranha às Escrituras Sagradas. O marianismo se tornou
a pedra fundamental no atual movimento de renovação
carismática. Vemos isso, por exemplo, quando lemos as
palavras do padre mexicano, o carismático Salvador
Carrillo Alday, que, ao comentar sobre os “frutos do
Espírito”, coloca a devoção a Maria como sendo um
deles. Veja:

• Verdadeira conversão a Deus e renovação interior


bastante profunda.
Página
• Experiência de nova relação de intimidade com Cristo.
• Forte consciência de que a comunidade religiosa só
pode ser criação do Espírito Santo, que derrama em
125
nossos corações o amor de Deus.
• A fome da Palavra de Deus (Am 8.11).
• A volta para uma devoção séria e centralizada na
Santíssima Virgem”.8

Como prova desse “fruto do Espírito”, Carrillo apresenta


testemunhos de carismáticos que, na busca de seu
“pentecostes” ou na própria experiência do “batismo no
Espírito Santo”, põem em relevo a pessoa de Maria.
Lemos o testemunho de um desses batizados: “Recebi o
batismo no Espírito e devo dizer que o Senhor agiu
maravilhosamente comigo e estou muito satisfeito [...]
verifiquei claramente a presença singular da Virgem
Maria na ação carismática do Espírito nas almas”. Um
outro testemunho diz: “Cresci no amor de Maria, e com
grande alegria aproximo-me mais do Pai [...] o Senhor e a
Virgem Santíssima eram meus grandes confidentes;
neles encontrei força para continuar”; e mais: “a Virgem
Maria estava muito próxima de mim como mãe”.9

Ainda na mesma obra, o autor, ao falar sobre a Oração


na renovação carismática, responde à pergunta: “E o que
dizer da Virgem Maria, Mãe de Jesus?”. Resposta:
“Sempre está presente em todo o grupo de oração. E é
normal e devido, pois, assim como participou tão
intimamente do mistério de Jesus, da encarnação do Filho
de Deus durante sua vida na terra, ao pé da cruz e da
efusão do Espírito Santo no dia de pentecostes, assim
também, cada vez que se procura construir o corpo de
Cristo, a Igreja reconhece sua presença de mãe e sente
sua poderosa intercessão a favor de todos os filhos seus.
Ela é verdadeiramente a Mãe da comunidade orante”.10

Página
Para o carismático Isac Valle, entre os muitos efeitos
produzidos pela renovação carismática, um deles é “um
grande apreço pela devoção a Maria Santíssima”.11 As
126
palavras: “devoção” e “intercessão”, ligadas à pessoa de
Maria, são freqüentemente citadas nas obras de autores
da renovação carismática. O também carismático padre
italiano S. Falvo afirma em sua obra O Espírito Santo nos
revela Jesus, que é Maria quem revelará Jesus nas
páginas do seu livro. Ele declara: “E será Maria, a criatura
que a Cristo mais se assemelha e que conheceu a Jesus
mais e melhor do que todos os homens, quem no-lo
revelará”.12 Em palavras mais simples, para Falvo, é
Maria e não o Espírito Santo o agente da revelação
divina.

É bem verdade que esse ranço mariano na RCC já


aparecia entre alguns dos primeiros carismáticos,
todavia, não de forma tão acentuada, nem nas
proporções em que se encontra hoje, pois, como já
falamos, a grande maioria dos primeiros carismáticos era
cristocêntrica.

Em seu livro, Católicos pentecostais, Kevin Ranaghan


relata algumas experiências de supostos “batismos no
Espírito Santo” no início desse movimento, que nos
permitem enxergar claramente isso. Lemos: “Descobri
uma profunda devoção a Maria, e posso agora louvar a
Deus”.13 Ranaghan continua citando mais testemunhos:
“Como muitos dos nossos amigos já descobriram, o
Espírito Santo renovou nosso amor pela igreja. Onde
antes havia apenas o verniz institucional para nós,
descobrimos agora vida, poder e calor. As devoções
naturais, como a de Maria, por exemplo, tornaram mais
significativas”.14

Tudo o que temos afirmado até aqui não se trata de


Página
frases soltas nem descontextualizadas. Importantes
vozes dentro da renovação há muito empunharam a
bandeira do marianismo. O cardeal Suenens, respeitada
127
autoridade dentro da renovação carismática, fala de uma
“comunhão do Espírito Santo em Maria”. E diz mais: “A
união vivida com Maria é da mesma ordem: respirar
Maria é respirar o Espírito Santo”.15

Atento a toda essa nova ênfase dada à pessoa da Virgem


Maria por parte da renovação carismática católica em
solo americano, a obra The New International Dictionary
of Pentecostal and Charimastic Movements, traz uma
importante observação sobre o assunto. Após analisar
cinco das principais diferenças entre os pentecostais
clássicos e a renovação carismática católica, esta
conceituada obra conclui: “A abençoada virgem Maria,
embora simbolicamente não ocupe o foco da reunião da
renovação carismática católica (americana), é, todavia,
esperada estar presente e algumas vezes é invocada em
hinos ou orações. Participantes da renovação católica
carismática que têm achado o seu caminho dentro do
movimento mariano, tendo crescido acostumado a agir
como canal de mensagens do céu, podem não hesitar em
expressar profecias que crêem ter recebido da parte de
Maria ou de outros santos por meio de sonhos, visões ou
“locuções interiores”.16

Em sua defesa, teólogos caris-máticos fazem um


verdadeiro malabarismo exegético, no sentido de
justificar essas crenças antibíblicas, em especial o culto à
pessoa de Maria. Muitos deles, seguindo Tomás de
Aquino,17 tentam, de forma perspicaz, fazer uma
diferença, que logicamente não existe, entre “venerar” e
“adorar” ou entre “latria” e “dulia”, enquanto outros
afirmam que somente “no catolicismo popular” as
pessoas confundem esses termos.

Renovação carismática versus catolicismo Página


tradicional
128

Façamos uma breve reflexão sobre as afirmações feitas


até aqui, tanto por parte da renovação carismática como
também por parte do catolicismo tradicional, no que
concerne ao destaque dado à “devoção” a Maria e seu
papel de “intercessora” e até mesmo como aquela que
“revela” a pessoa de Cristo.

No mínimo, essas afirmações são problemáticas, pois


contrariam o ensino das Sagradas Escrituras.
Primeiramente, a Bíblia diz: “Ao Senhor teu Deus
adorarás, e só a ele servirás” (Mt 4.10). Em segundo
lugar, a Escritura afirma que só existe um mediador entre
Deus e os homens, que é Jesus Cristo: “Porquanto há um
só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens,
Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). Em terceiro, a Bíblia diz
que o agente da revelação divina é o Espírito Santo. É Ele
quem nos revela a pessoa de Jesus: “Mas, quando vier
aquele, o Espírito de verdade, Ele vos guiará em toda a
verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o
que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir” (Jo
16.13). Em quarto e último lugar, a Escritura é taxativa
em afirmar: “...e a nossa comunhão é com o Pai, e com
seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1.3).

Todos esses problemas teológicos insuperáveis dentro da


atual renovação carismática, com uma teologia medieval
enxertada em seu seio e que a leva a se autocontradizer,
nos mostram que essa crise pela qual passa a atual
renovação católica é estrutural. Em palavras mais
simples, o problema é mais sério do que comumente se
tem pensado, uma vez que se encontra nos alicerces
sobre os quais a renovação foi edificada.

Notas: Página
129
1 Defesa da Fé, março/abril de 1999. Instituto Cristão de
Pesquisas (ICP), São Paulo. p.14.
2 KOOGAN, A. Enciclopédia judaica, vol. 6, p. 777, Rio de
Janeiro, 1990.
3 DUNN, J.D.G. in Dicionário Internacional de Teologia do
Novo Testamento. Vol. III. Edições Vida Nova, São Paulo,
SP, 1984.
4 ROBERTSON, A.T. Robertson’s The Words New
Testament Pictures. Sociedade Bíblica do Brasil. 1999.
5 MACHADO, M.ª da Dores Campos, Carismáticos e
pentecostais, p.48.
6 Defesa da Fé, op. cit.
7 Vinde, julho de 1996. Visão Nacional de Evangelização,
Niterói, Rio de Janeiro.
8 ALDAY, Salvador Carrillo. A Renovação Carismática e as
comunidades religiosas. Ed. Ave Maria. São Paulo, 1999.
9 ALDAY, Salvador Carrillo, p.55, 58, 63, 67.
10 Ibid., p. 37-8.
11 VALLE, Isac Isaías. A Renovação Carismática: rumo ao
terceiro milênio cristão. Ed. Loyola, São Paulo.
12 FALVO, S. O Espírito Santo nos revela Jesus. Edições
Paulinas, São Paulo, p.33, 1983.
13 RANAGHAN, Kevin. Católicos pentecostais. Orlando S.
Boyer, Pindamonhangaba, São Paulo, p.92, 1972.
14 Ibid. p.114.
15 SUENENS, Léo – Joseph. A Renovação Carismática –
um novo pentecostes? – Paulus, Apelação, Portugal,
1999.
16 BURGESS, Stanley M. & MAAS, Eduard M Van Der. The
New International Dictionary of Pentecostal and
Charismatic Movements. Zondervan, Grand Rapids,
Michigan, U.S.A, 2002.
17 AQUINO, Tomás. Suma Teológica. Edição bilíngüe:
Página
latim/português. Escola Superior de Teologia, São
Lourenço de Brinde, Rio Grande do Sul, 1980.
130
12. O CORPO DE CRISTO - PODEMOS CRER NA
TRANSUBSTANCIAÇÃO?

Por Paulo Cristiano

A eucaristia é um dos sete sacramentos da Igreja


Católica. Segundo o dogma católico, Jesus Cristo se acha
presente sob as aparências do pão e do vinho, com seu
corpo, sangue, alma e divindade. Isto é o que geralmente
se entende por transubstanciação.

A doutrina da transubstanciação não tem respaldo


bíblico. Ao longo de sua história, nem todos os
representantes da Igreja Católica concordaram com essa
doutrina, entre eles podemos citar os papas Gelásio I e
Gelásio II, São Clemente e Agostinho, entre outros. Página

A tradição da Igreja Católica, além de tropeçar nas


131
metáforas e figuras da Bíblia na questão da eucaristia,
que por si mesma já é uma aberração teológica,
consegue embutir nela mais algumas heresias, como a
ministração de apenas um só dos elementos aos fiéis —
a hóstia. Segundo essa doutrina, a hóstia preserva o
comungante de pecados, tem poder para ajudar os
mortos e, pasmem!, pode ser adorada. Tais heresias não
têm o mínimo fundamento bíblico, entretanto, são de
vital importância dentro da dogmática do catolicismo
romano e, por isso, ainda estão de pé.

É preciso salientar ainda que a confecção da hóstia teve


sua origem no paganismo, sendo, portanto, plagiada e
inserida no bojo doutrinário da igreja romana.

A hóstia passou a substituir o pão da ceia somente no


ano de 1200. É algo impar, especial, fabricada com trigo
e sempre redonda. Por ocasião da festa de Corpus
Christi1, o “Santíssimo Sacramento” é levado às ruas em
procissão dentro de uma patena2 de ouro representando
um sol. Podemos constatar nesse ato uma flagrante
analogia com as religiões pagãs da antiguidade. Conta-se
que a deusa Ceres3 era adorada como a “descobridora
do trigo” e, por conta disso, representada com uma
espiga de trigo nas mãos. Tal representação correspondia
à deusa Mãe e seu filho. O filho de Ceres, que se
encarnara no trigo, era o deus Sol. Compare essa
afirmação com a doutrina católica que transformara Jesus
num pedaço de pão de trigo no formato arredondado do
sol cujo ostensório4 também tem um desenho com raios
solares.

Por que só a hóstia?

O estudante de história da igreja sabe perfeitamente que Página


nenhuma doutrina católica advinda da chamada
132
“Tradição Oral”5 pode ser substanciada, quer na história
dos primeiros séculos da igreja, quer na Bíblia! Nesta
última, muito menos.

Os apóstolos seguiram o costume bíblico de ministrar a


ceia sob esses dois emblemas: pão e vinho. A igreja pós-
apostólica6 também seguiu o mesmo exemplo, como
vemos ao analisar as obras patrísticas7 dos primeiros
séculos. Os católicos precisam rodear e florear suas
explicações para esclarecer o fato de o sacerdote dar
apenas um dos emblemas (pão) ao fiel, o que é uma
clara desobediência ao mandamento do Mestre. Jesus foi
taxativo ao dizer “bebei dele TODOS”. Essa ordem de
fato não se pode cumprir na Igreja Católica. Por mais
argumentos que inventem, a verdade continua
inalterável: Jesus e os apóstolos nunca mudaram o
mandamento. Portanto, Jesus instituiu as duas espécies
(Mt 26.26,28), e os apóstolos seguiram esta ordenança
(1Co 11.23-28). Isto só veio a ser mudado nos concílios
de Constança8 e, posteriormente, reafirmado no de
Trento9. No entanto, voltamos a reafirmar que a ordem
de Cristo foi mais que explícita: “Na verdade, na verdade
vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do
homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida
em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o
meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no
último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é
comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
permanece em mim e eu nele” (Jo 6. 53-56; grifo do
autor).

Esse trecho das Escrituras levou dois clérigos da Igreja


Página
Católica, Jacobel de Mysa e João de Leida (séc. XIV), a
voltarem ao princípio das duas espécies e logo se
empenharam em espalhar isto na cidade de Praga, e não
133
demorou muito, logo toda a Boêmia se declarou a favor.
Mais tarde, João Huss foi para a fogueira papal por
defender essa doutrina bíblica.

Ora, Jesus não foi explícito ao dizer que quem não bebe o
seu sangue não tem parte com ele e não tem a vida
eterna? Isto não serviria como uma grande advertência
aos católicos? Não estariam correndo o risco de não
terem parte na vida eterna? Porque na prática não
bebem do sangue como disse Jesus! Se as duas espécies
fossem coisa de somenos importância, de certo Jesus
teria instituído uma espécie apenas: somente o pão. É
certo que as Escrituras nunca fazem qualquer menção de
que Cristo esteja com seu sangue embutido no pão. A
linguagem usada é por demais contundente: comer e
beber, pão e vinho, carne e sangue. A igreja romana tem
alterado o mandamento original recusando-se a seguir o
exemplo de Jesus e dos apóstolos e tem abandonado a
prática de toda a igreja primitiva; prova disso é a Igreja
Ortodoxa, que é tão antiga quanto a romana, e mesmo
assim ainda preserva o costume bíblico de ministrar o
pão e o vinho aos fiéis. Por outro lado, as igrejas
evangélicas têm seguido a mesma prática instituída por
Cristo sem alterações e, por isso, podem usufruir das
bênçãos advindas dessas duas espécies, algo que não se
dá na Igreja Católica.

O que significa discernir o corpo do Senhor?

Dentro da teologia existe uma disciplina chamada


hermenêutica. O que é hermenêutica? Em toscas
palavras, hermenêutica nada mais é do que a ciência de
interpretar textos antigos, sendo uma das matérias de
Página
estudo no campo do Direito. Dentro do contexto
teológico é a arte de interpretar a Bíblia. Dentre as
inúmeras regras, a mais salutar e primordial de todas é a
134
do exame do contexto. Vamos aplicá-la aqui.O texto em
lide reza: “Porque o que come e bebe indignamente,
come e bebe para sua própria condenação, não
discernindo o corpo do Senhor” (1Co 11.29).

Entre os cristãos daquela época existia uma festa


chamada “Festa Ágape” ou festas de amor (Jd 12). Era
comum entre os cristãos celebrarem a ceia com esta
refeição, destinada a ajudar os pobres (esta prática
perdurou até na época de Justino, o mártir: 100-170 ).

Corinto era uma igreja problemática em termos de


doutrinas (véu, dons espirituais, batismo, brigas, divisões
e Santa Ceia), e eles não estavam discernindo o real
objetivo de suas reuniões (v. 17,18-20). Para eles, aquilo
era apenas uma festa como as demais festas mundanas
da sociedade grega (Corinto era grega) da qual tinham
vindo. Então, quando se reuniam, todos se embriagavam
(v. 21), como faziam antes de se converterem, e não
discerniam que aquilo era muito mais que uma festa,
devia ser observada “em memória” de Cristo (v. 25). Por
isso as pessoas deveriam examinar a si mesmas antes de
tocar no pão e no cálice (v. 28), pois correriam o risco de
tomarem a ceia de modo indigno, fora do propósito para
a qual fora estabelecida, ou seja, para a comunhão e não
divisão dos fieis (v. 18). Isto é o que o apóstolo Paulo
queria dizer com “discernir o corpo do Senhor”. Não há
nada que insinue no texto a herética doutrina da
transubstanciação. O contexto, quando analisado
honestamente, não comporta tal idéia. Logo, qualquer
conclusão que passar disso não é verdadeira.

Os disparates dessa doutrina

Ensina a teologia católica a transubstanciação (alteração Página


de substância) durante a eucaristia. Após serem
135
consagrados os elementos, pão e vinho, pelo padre e
repetidas as palavras de Cristo, “isto é o meu corpo” e
“isto é o meu sangue”, misteriosamente o pão se
transforma na carne de Cristo e o vinho, no sangue.
Levando as palavras de Cristo a um “literalismo” bruto,
interpretam ser o pão o próprio corpo de Cristo presente
na hóstia. Essa doutrina é baseada principalmente no
trecho do evangelho de João 6.53: “se não comerdes a
carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue,
não tereis vida em vós mesmos”. Contudo, daremos
algumas razões de nossa rejeição a essa doutrina
errônea e perigosa.

1. Se na frase “isto é o meu corpo” o verbo “ser (é)”


implica a conversão literal do pão no corpo de Cristo,
segue-se igualmente que nas palavras “eu sou o pão da
vida” (Jo 6.35) o verbo “ser (sou)” deve implicar igual
mudança, ensinando-nos que Cristo se converte no pão,
de modo que, se o primeiro é uma “prova” da
transubstanciação, o segundo demonstra
necessariamente o contrário; se o primeiro demonstra
que o pão pode converter-se em Cristo, o segundo
demonstra que Cristo pode converter-se em pão, o que é
um verdadeiro absurdo, mas é isto o que a lógica dessa
filosofia nos leva a entender.

2. Se acreditarmos que nesse episódio Jesus estava se


referindo à eucaristia, então forçosamente ninguém pode
se salvar sem o sacramento, e todo aquele que o recebe
não pode se perder. Seria sempre necessário ao fiel
comungar-se para não perder a bênção da vida eterna. E
aqueles que não podem tomá-la? Estariam destinados ao
inferno? Crêem os católicos que todo aquele que
Página
comunga tem a vida eterna? Pois Jesus disse que, sem
exceção, “todo aquele” que comesse a sua carne teria de
fato a vida eterna. E o que dizer então daqueles que
136
bebem indignamente (1Co 11.28)? Tal é a contradição e
confusão que nos mostra tão descabida teoria se levada
ao pé da letra.

3. Esse ponto já foi tratado acima, mas vamos reforçá-lo


aqui. Ora, se tomadas literalmente essas palavras, o
beber o sangue é tão importante quanto o comer a
carne. Em outras palavras, é tão necessário comer o pão
(hóstia) como beber o cálice (vinho). E por que então o
padre nega aos fiéis esse direito, desobedecendo a
Bíblia?

Analisando João 6

Diz o padre Alberto Luiz Gambarini10: “Jesus não deixou


dúvidas quanto a esta questão: a eucaristia ou ceia não é
uma mera lembrança, e sim a presença por inteiro de
Jesus Cristo”.11

Pois bem, analisemos essa questão dentro de seu


contexto imediato, pois tais palavras tomadas
isoladamente e sem explicação podem ter um sentido,
mas dentro do seu respectivo contexto, levando em
consideração a aplicação que o Senhor lhes deu, têm
outro sentido bem distinto.

“Respondeu-lhes Jesus: Na verdade, na verdade vos digo


que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque
comestes do pão e vos saciastes. Trabalhai, não pela
comida que perece, mas pela comida que permanece
para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará;
porque a este o Pai, Deus, o selou” (Jo 6.26,27; grifo do
autor). Essas palavras deram princípio ao discurso e são
Página
a chave para compreendermos o sentido exato e a razão
pela qual Jesus usou a linguagem figurada “comer” e
“beber”.
137

A única dificuldade que há para a compreensão desse


discurso de Jesus está relacionada à falta de
consideração à figura que lhe deu origem; ou seja, os
judeus seguiam Jesus por causa do milagre dos pães, por
causa do alimento material. Ao contrário, Jesus elucida
que a comida que ele tem é algo maior: “a comida que
permanece para a vida eterna” (v. 27). Então, os judeus
apelam para o episódio do maná que desceu do céu.
Jesus explica que o verdadeiro pão não era o maná, mas
que o pão verdadeiro é outro, o próprio Cristo. Daí,
disseram os judeus: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”
(Jo 6.34).

Até aqui, percebemos que os judeus não estavam


entendendo a mensagem de Jesus e, por isso,
interpretava-o de modo literal, assim como os católicos
fazem. Jesus então explica que o sentido de sua
mensagem era simbólico, espiritual, não literal: “E Jesus
lhes disse: Eu sou o pão da vida; aquele que vem a mim
não terá fome, e quem crê em mim nunca terá sede” (Jo
6.35). Esse versículo é muito importante, pois nos explica
que comer a carne e beber o sangue de Jesus é somente
crer e ter fé nele, recebendo-o; nada mais que isso. É
justamente isso que significa o alimento do seu corpo:
“Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta:
Que todo aquele que vê o Filho, e crê nele, tenha a vida
eterna” (Jo 6.40). Jesus rechaça qualquer tipo de
confusão quanto a isso quando arremata: “O espírito é o
que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras
que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6.63). Jesus
estava falando espiritualmente, não fisicamente. Estava
explicando que a vida vem por meio da fé nele, e não
Página
comendo o seu corpo.

Então, como explicar esse versículo: “...e o pão que eu


138
der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo”
(Jo 6.51)? Será que com isso Jesus não estava ensinando
sobre a eucaristia, quando os seus seguidores iriam
alimentar-se dele por meio da hóstia num tempo futuro?
Não necessariamente. A Bíblia ensina, sem sombra de
dúvidas, que a vida eterna viria por meio de sua morte
na cruz, dando seu corpo, isto é, sua carne para ser
sacrificada. E isso está em perfeita concordância com o
restante das Escrituras. Veja como o apóstolo Paulo
entendeu essa questão: “Porque ele é a nossa paz, o qual
de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de
separação que estava no meio, na sua carne desfez a
inimizade” (Ef 2.14).

A Bíblia nos diz que Cristo realmente deu seu sangue e


sua carne ao mundo para alcançarmos a vida eterna.
Vejamos: “E que, havendo por ele feito a paz pelo sangue
da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo
todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que
estão nos céus. A vós também, que noutro tempo éreis
estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas
obras más, agora contudo vos reconciliou no corpo da
sua carne, pela morte, para perante ele vos apresentar
santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” (Cl 1.20-22) e
“Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo
véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10.20).

A conclusão a que chegamos, lendo o contexto, é que o


“alimentar-se” de Jesus (seu corpo), por meio da sua
carne e do seu sangue, é a mesma figura de linguagem
utilizada por ele em João 4.14: “Mas aquele que beber da
água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que
eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para
Página
a vida eterna”. Assim como essa “água” era espiritual, a
bebida e a comida também, tanto é que quando os
discípulos entenderam de modo literal essa mensagem
139
Jesus prontamente os corrigiu explicando que: “O espírito
é o que vivifica, a carne para nada aproveita; as palavras
que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6.63). O
“alimentar-se” de Cristo seria “crer nele”, quando então
o Pai entregaria seu Filho na cruz para ser sacrificado por
nossos pecados. Muitos pais da igreja primitiva
concordavam com este ponto de vista, entre eles
Agostinho, considerado um dos maiores doutores da
Igreja Católica.
Lembrança ou presença real?

“Isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em


memória de mim” (1Co 11.24)

Esse é o argumento mais repetido entre os católicos para


sustentar a transubstanciação. Não há algo mais claro
nessa passagem do que a verdade de que aquilo era
realmente o corpo de Cristo, dizem os católicos.

Não precisamos nos esforçar muito para desfazer essa


interpretação, basta-nos apenas recorrer ao contexto.
Ora, é importante entender que Jesus instituiu a Santa
Ceia na ocasião em que estava comendo a ceia pascal.
Sem dúvida, ele recordava de que aquela Páscoa foi
instituída para comemorar, pela aspersão do sangue do
cordeiro, a saída dos israelitas do cativeiro do Egito.

O pão que Jesus tomou e abençoou e deu aos discípulos


era o pão pascal. Muitos católicos dizem que Jesus não
comeu aquele pão, mas tal assertiva se mostra falsa
quando lemos que Jesus iria comer realmente aquela
comida, veja: “E mandou a Pedro e a João, dizendo: Ide,
Página
preparai-nos a Páscoa, para que a comamos [...] E direis
ao pai de família da casa: O Mestre te diz: Onde está o
aposento em que hei de comer a páscoa com os meus
140
discípulos?” (Lc 22.8,11; grifo do autor).

Todas as suas ações e palavras tinham alguma relação


com a antiga Páscoa. Tendo isso em vista, devemos
procurar na antiga festa uma explicação para a Santa
Ceia que ele iria substituir, pois ele (Jesus) é a nossa
Páscoa (1Co 5.7).

Quando Moisés instituiu a Páscoa, mandou os israelitas


comerem a carne e aspergirem o sangue do cordeiro em
suas casas (Êx 12.7,8). Só que o cordeiro que comiam
não era a “Páscoa”, pois tal palavra é derivada do verbo
pasah, que significa “passar por cima”, dando a idéia de
“poupar e proteger” (Êx 12.13).

A Páscoa do Senhor era o “passar do anjo por toda a


terra do Egito”. Vê-se, pois, que o ato de passar por cima
das casas dos israelitas era uma coisa e o cordeiro que
os israelitas comiam era outra essencialmente distinta:
uma era um fato e a outra, a recordação desse fato.

Embora Moisés tivesse dito a respeito do cordeiro: “É a


Páscoa” (a passagem do Senhor), isso não significa,
porém, que quisesse dizer que o cordeiro que os
israelitas tinham assado e estavam comendo poderia ter-
se mudado ou transformado no ato de passar o Senhor
por cima das casas. O sentido simplesmente era: “É uma
recordação da Páscoa ou da passagem do Senhor”.
Temos, pois, aqui, um exemplo clássico dessa figura de
retórica pela qual se dá o nome da coisa que ela recorda,
ou se põe o sinal pela coisa significada. Quando, pois, as
famílias se reuniam em torno da mesa para comer a
Páscoa, o chefe da família dizia: “Esta é a Páscoa do
Página
Senhor”, quando, na verdade, estava querendo dizer o
seguinte: “Esta é a recordação da Páscoa do Senhor”.
141
Pois bem, fincado na essência dessa celebração, Jesus
certamente se valeu da mesma expressão
conhecidíssima dos israelitas. Depois de a Páscoa ter sido
abolida e substituída pela Santa Ceia, Jesus serviu-se da
mesma expressão de que tinha feito uso na celebração
antiga. Era natural que, do mesmo modo que tinha dito
da Páscoa “Esta é a Páscoa do Senhor”, recordando-se do
que fora feito na época de Moisés, Jesus usasse também
mui naturalmente as palavras “Isto é o meu corpo” ou
“Isto é o meu sangue”, para significar que aquele rito
devia ser usado como recordação do seu corpo e do seu
sangue oferecidos na cruz, sendo ele o verdadeiro
cordeiro de Deus (Jo 1.29) que nos libertou do cativeiro
do pecado.

Os discípulos, por serem judeus versados nas Escrituras,


estavam, por certo, familiarizados com tais figuras de
linguagem (Sl 27.1,2; Is 9.18,20; 49.26), não lhes sendo
difícil entender o que Jesus queria lhes dizer. Pois, antes
disso, haviam ouvido o seguinte de Jesus: “Eu sou a
porta” (Jo 10.7), “Eu sou o caminho” (Jo 14.6) e “Eu sou a
luz do mundo” (Jo 8.12), e entenderam perfeitamente a
linguagem.

Então, quando Jesus, ao distribuir os elementos da ceia


(pão e vinho), disse: “isto é o meu corpo” e “isto é o meu
sangue”, ele estava falando de maneira figurativa. Tanto
é que ordenou: “fazei isto em memória de mim”. Assim,
temos razão para crer que a ceia era uma comemoração
ou lembrança de sua morte na cruz, e devemos
prosseguir fazendo isso (ou seja, celebrando a Santa
Ceia) até que ele venha.

Página
Veja que mesmo depois de ter sido consagrado por Jesus,
o vinho continuou sendo vinho, o que serve para
corroborar o nosso ponto de vista: “Porque vos digo que
142
já não beberei do fruto da vide [não disse meu sangue],
até que venha o reino de Deus” (Lc 22.18).

Paulo simplesmente considerava os elementos da Santa


Ceia como pão e vinho, e não o corpo do Senhor
transubstanciado: “Semelhantemente, depois de cear,
tomou o cálice, dizendo: Este cálice é a Nova Aliança no
meu sangue; fazei isto todas as vezes que beberdes, em
memória de mim. Pois todas as vezes que comerdes este
pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor,
até que ele venha. Portanto, qualquer que comer o pão
ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será culpado
do corpo e do sangue do Senhor. Examine-se o homem a
si mesmo antes de comer deste pão e beber deste
cálice” (1Co 11.25-28).

O pão representava o corpo do Senhor e o vinho, o


sangue. Todas as vezes que nos reunimos para celebrar a
Santa Ceia fazemos isto sempre em memória do Senhor,
pois ele mesmo disse: “fazei isto em memória de mim”.

Não podemos sacrificar Cristo novamente (Hb 7.24,27)!

Os contra-sensos da transubstanciação

Por darem ouvido ao dogma da transubstanciação, os


católicos, além de incorrerem num terrível engodo,
acabam por abraçar uma teoria fictícia. Vejamos:

*Se naquela ocasião em que Jesus disse “Isto é o meu


corpo” realmente tivesse ocorrido a tão propalada
“transubstanciação”, então somos levados a acreditar
que existiam naquele momento dois corpos do Senhor.
Página
Levando esse dogma às últimas conseqüências, teremos
isto: Jesus pegou aquele pedaço de pão, já transformado
em seu corpo (com divindade e alma, segundo crêem os
143
católicos) e deu-se a si mesmo para seus discípulos
comerem. Depois de terem comido o corpo do Mestre, os
discípulos sentaram-se ao seu lado. E mais: Jesus
também teria comido e engolido a si próprio, pois certo é
que ele também participou da ceia!

*Se tal pão consagrado tivesse sido comido


acidentalmente por um roedor, dar-se-ia o caso de o
animal também ter engolido o Cristo com seu corpo,
alma e divindade.

*Se a hóstia se estragar e apodrecer, seria o caso de o


corpo de Cristo, que está nesse elemento, apodrecer
também. Então, como fica Atos 2.31, que diz que a carne
de Cristo não se corrompe?

*Se o que dá vida é o espírito, por que Deus se faria


carne por meio da hóstia para nos vivificar?

*Se Cristo nos ordenou que celebrássemos a cerimônia


até que ele voltasse, conforme 1Coríntios 11.26, como
pode estar presente na hóstia? Se ele virá, quer dizer
que não está! Devemos ressaltar que tal vinda é
escatológica, quando Cristo virá em corpo, pois,
espiritualmente, ele está conosco todos os dias (Mt
18.20, 28.20) e esta promessa não tem nada que ver
com a Santa Ceia.

*O papa Pio IX se vangloriava com o dogma da


transubstanciação, dizendo: “Não somos simples mortais,
somos superiores a Maria. Ela deu à luz um Cristo só,
mas nós podemos fazer quantos cristos quisermos; nós,
os padres, criamos o próprio Deus”.

Uma coisa tão extraordinária como essa. Um milagre tão Página


estupendo: mudar um pedacinho de pão no próprio Deus.
144
Um milagre tão diferente de todos os que se têm notícia.
Tudo isso deveria ter uma prova muito mais clara e
contundente do que meras formas de expressão. É, sem
dúvida, algo que foge à nossa compreensão, não por ser
algo misterioso, mas por ser irracional e incoerente.
Quando se prova o pão, ele ainda é pão, tem cheiro de
pão, o gosto ainda é de pão. E o mesmo se dá com o
vinho!
Onde temos o corpo de Cristo nisso tudo? Esquivar-se,
fazendo uma separação arbitrária de milagres, visíveis
para os incrédulos e invisíveis para os crentes (diga-se
católicos), é ultrapassar o que está escrito.

Onde está tal divisão nas Escrituras? Em lugar nenhum!

Mas é preciso argumentar para forjar explicações que


sirvam de alicerce para a doutrina católica.

Interpretação dos reformadores

Para a Reforma Protestante, são dois os sacramentos


instituídos pelo próprio Cristo: o batismo, que marca o
início da vida cristã, e a Santa Ceia, que significa a
manutenção dessa vida, a santificação.

Unidos sobre o sentido do batismo, apesar de ênfases


diversas, os reformadores se dividiram sobre o sentido da
eucaristia. Lutero12 se opôs à missa como obra meritória
e repetição eficaz do sacrifício do Cristo. O oferecimento
da graça se efetua sob duplo signo instituído por Cristo:
não se pode recusar a nenhum fiel o pão e o vinho
oferecidos por Jesus, em oposição ao Concílio de
Página
Constança, de 1414, que proibiu o uso do cálice aos
leigos. Contudo, Lutero opõe-se a uma presença
meramente simbólica de Cristo na ceia. Mantém a tese
145
da “consubstanciação”, segundo a qual o pão e o vinho
permanecem presentes na ceia simultaneamente com o
corpo e o sangue de Cristo.

Zwinglio13 vê na ceia cristã o simples memorial que


comemora o sacrifício único e infinitamente suficiente de
Cristo. Calvino14 queria mais do que uma presença
somente simbólica à maneira de Zwinglio, mas repudiou
não só a posição católica como a luterana. Para Calvino,
a “substância” não se refere a um substrato invisível na
matéria do objeto, mas significa a realidade profunda de
um ser. O pão e o vinho não só representam a comunhão
com o corpo e o sangue de Cristo, mas também
“apontam” para a realidade desse significado. O que
Calvino rejeitou foi a idéia da “presença local”; ele
acreditava no Espírito Santo e não num fenômeno
especial, para relacionar diretamente o comungante com
o Cristo vivo.

O anglicanismo15 adotou o essencial das posições da


Reforma. A confissão anglicana conserva dois
sacramentos (batismo e ceia), proíbe as procissões
solenes do Santíssimo Sacramento e a adoração das
espécies consagradas. O corpo do Senhor é recebido
mediante a fé (conceito calvinista). A maioria
esmagadora dos protestantes aceita as noções de
Calvino e Zwinglio.

Antes de finalizarmos este estudo é necessário fazer um


adendo sobre a posição de Lutero. Apesar de ter sido
levantado por Deus, Lutero, no princípio, não pretendia
separar-se da Igreja Católica, mas reformá-la por dentro.
Tendo esse pano de fundo histórico, podemos entender
Página
por que ele não abdicou de certas noções católicas. Ele
representava a primeira geração dos reformadores e, por
isso, muitas coisas ainda estavam enraizadas
146
profundamente nele. Somente com o decorrer do tempo
é que a doutrina da Reforma foi se purificando mais e
mais. É bem parecido com o que aconteceu com o
cristianismo em relação ao judaísmo no começo de sua
história. Esse problema já não aparece nas gerações
posteriores dos reformadores, que foram lapidando os
lapsos teológicos do catolicismo dentro do
protestantismo.
Obras consultadas:

Por amor aos católicos romanos, Rick Jones, Chick


Publications
A Reforma Protestante, Abraão de Almeida, CPAD
A Igreja que veio de Roma, Karl Weiss, Editora Gráfica
Universal Ltda
Noites com os romanistas, M. H Seymour, Edições Cristãs
Encyclopaedia britannica do Brasil publicações Ltda.

Notas:

1Corpus Christi: festa do santíssimo sacramento,


instituída em 1264, por Urbano IV, para honrar a suposta
presença real de Cristo na eucaristia. Seu caráter popular
desenvolveu-se em função da procissão que sucedia à
missa.
2 Disco de ouro ou de metal dourado que serve para
cobrir o cálice e receber a hóstia.
3 Ceres é o nome grego da deusa romana Demeter, que
simboliza a nutrição, em todas as suas formas, um dos
aspectos mais poderosos da própria Lua, em termos do
simbolismo astrológico.
4 Custódia onde se ostenta a hóstia consagrada.
Página
5 Acerca da relação entre as Escrituras e a Tradição da
Igreja (Católica), o novo Catecismo da Igreja se expressa:
à igreja está confiada a transmissão e a interpretação da
147
Revelação, ‘não derivando a sua certeza a respeito de
tudo o que foi revelado somente da Sagrada Escritura.
Por isso, ambas (Escritura e Tradição) devem ser aceitas
e veneradas com igual sentimento de piedade e
reverência.
6 A igreja que continuou a ser desenvolvida após a morte
dos apóstolos de Cristo.
7 Obras que compreenderam o século I d.C. até o século
VIII d.C. São chamadas patrísticas porque foram escritas
pelos pais apostólicos, homens que tiveram contato
direto com os apóstolos ou foram citados por alguns
deles. Destacam-se: Clemente de Roma, Inácio e
Policarpo.
8 Realizado em 1414, ocasião em que foram queimados
João Huss e Jerônimo de Praga, pré-reformadores, por
serem considerados heréticos.
9 O 19º Concílio Ecumênico da Igreja, chamado Concílio
de Trento, por ter-se reunido em sua grande parte na
cidade de Trento, ao norte da Itália. Foi realizado em 25
sessões plenárias em três períodos distintos, de 1545 a
1563. O primeiro período foi de 1545 a 1547. O segundo
começou quatro anos depois, em 1551, e terminou no
ano seguinte. O último período começou dez anos mais
tarde, em 1562, e terminou no ano seguinte.
10 Renomado padre católico, pároco da Igreja Matriz de
Nossa Senhora dos Prazeres, em Itapecerica da Serra/SP.
Escritor de mais de dezessete obras.
11 Quem fundou sua igreja?, Padre Alberto Luiz
Gambarini, p. 46.
12Martinho Lutero (1483-1546). Principal líder da
Reforma. Em oposição ao abuso da venda de
indulgências promovida pela Igreja Católica Romana,
Lutero, em 31 de outubro de 1517, afixou suas 95 teses
Página
na porta da igreja do castelo de Wittenberg, causando
repercussão mundial. Foi o estopim da Reforma.
13 Huldreich Zwinglio (1484-1531). Expoente da Reforma
148
que propagou seus ideais em Zurich, na Suíça.
14 João Calvino (1509-1564). Com suas obras foi, sem
dúvida, o reformador responsável pela projeção dos
ideais protestantes na história política e religiosa
mundial.
15 Surgiu no século XVI, na Inglaterra, com o
rompimento do rei Henrique VIII com o papa Clemente
VII.
13. OS ESTIGMAS DE CRISTO, FATO OU MITOLOGIA
RELIGIOSA?

Por João Flávio Martinez

A Igreja Católica Romana quase mandou o renomado


cientista Italiano Galileu Galilei (Século XVI) para a
fogueira, arvorando que o heliocentrismo1 era uma
heresia contra os desígnios divinos e que o
Página
geocentrismo2 não deveria ser questionado. Bem da
verdade, não foi esse o grande motivo de quererem
mandar Galileu para a fogueira da inquisição, mas suas
149
conclusões científicas de que a teoria da
transubstanciação era impossível e improvável. Esse
mito da transubstanciação, criado na Idade Média, ainda
vive hoje como um dos pilares doutrinários da fé católica
(Ler matéria de capa). A Idade Média ou Idade das Trevas
foi uma ótima oficina para que mentes alucinadas
criassem e desenvolvessem doutrinas extremamente
exóticas e totalmente anticristãs, entre elas, iremos
questionar nesta matéria os estigmas de Cristo.
O que é a doutrina dos estigmas de Cristo?

Estigmas: do grego stigmata, significa “picada dolorosa”.


Trata-se de feridas que, supostamente, aparecem em
várias partes determinantes do corpo do devoto católico:
na cabeça, devido à coroa de espinhos; nas costas,
devido às chibatadas; nas mãos e nos pés, devido aos
cravos; e na parte lateral do corpo, devido ao corte da
lança do soldado romano.

Portanto, ser estigmatizado é receber no próprio corpo as


chagas ou os ferimentos de Cristo, e isso literalmente.
Além disso, parece que o estigmatizado passa a sofrer
terríveis perseguições espirituais, tornando-se uma
pessoa afligida.

Na maioria das vezes, os estigmatizados estão em


profundo transe quando “agraciados” com esse
fenômeno. Alguns param de comer e outros ainda
passam a ter freqüentes alucinações.

A Igreja Católica Romana entende que a paixão de Cristo


está sempre viva entre os cristãos, sendo mesmo causa
Página
de conversões, e que, através dos séculos, Cristo quis
reproduzir, em pessoas privilegiadas, as marcas ou
estigmas de sua paixão.
150

O primeiro estigmatizado

Conforme os parâmetros católicos, o primeiro


estigmatizado da história foi São Francisco de Assis, no
ano de 1224. A “estigmatização” de São Francisco fez
aparecer-lhe nas mãos, pés e costas chagas semelhantes
às de Cristo na cruz.
Essa íntima comunhão de Deus para com o
estigmatizado, segundo a Igreja Católica, levaria o
indivíduo a um processo de santificação e de certa
contribuição para a salvação do mundo. Devido a isso,
São Francisco foi canonizado em 1232 e é festejado no
dia quatro de outubro.

No livro Milagres, de Scott Rogo3, são relacionados


aproximadamente 312 estigmatizados até o final do
século XIX, isso levando em consideração os
estigmatizados sem as chagas, ou seja, aqueles que
sentiram as dores, mas não manifestaram as feridas. O
livro informa também que, até agora, somente uns
sessenta estigmatizados foram beatificados e
canonizados. Depois de São Francisco, os mais famosos
foram a alemã Therese Neumann (1898-1962) e o
italiano Francesco Forgione (1887-1968), mais conhecido
como Frei de Pietralcina ou Padre Pio. Outras figuras
reconhecidas como estigmatizadas: Catarina de Sena
(1347-1380), Verônica Giuliana (1660-1727), Gema
Galgani (1878-1903), entre outras.

Segundo o Dicionário do cético, de Robert Todd Carroll4,


traduzido por Antônio Inglês e Ronaldo Cordeiro, um dos
Página
estigmatizados mais recentes é o frade James Bruce “que
não só afirmou ter as feridas de Cristo, como também
que estátuas religiosas choravam em sua presença”. De
151
acordo com o dicionário, este fato ocorreu em 1992, em
um subúrbio de Washington, D.C., “onde coisas estranhas
são comuns. Nem é preciso dizer que ele (James Bruce)
lotou os bancos da igreja. Atualmente, administra uma
paróquia na região rural da Virgínia, onde os milagres
cessaram”.

O porquê dos estigmas


Segundo o padre Tito Paolo Zecca, um dos maiores
especialistas do assunto, professor de teologia pastoral e
espiritualidade na Universidade Pontifícia do Latrão, e o
Ateneu Pontifício Antoniano de Roma, os estigmas são
“um sinal do que Cristo sofreu durante a Paixão [...] Este
fenômeno mostra a eficácia da salvação de Cristo na
cruz, e permanece de modo especial no sinal dos
estigmas, tornando-se um fato distintivo da eficácia
redentora e salvadora da fé”. Padre Zecca ainda conclui
que “é uma experiência de alegria e dor [...] estas
chagas podem ser purulentas e nunca se curar, mas
podem ajudar a curar os outros”. Apesar do sofrimento
que as chagas podem vir a causar nos santos
“privilegiados”, o padre acredita piamente que tais
ocorrências são sinais de graças benditas: “os recipientes
dos estigmas consideram isso uma imensa graça”.

A Idade Média e os estigmas

Durante quase toda a Idade Média a Europa esteve


mergulhada em um profundo misticismo que geraram
muitas coisas vãs. Tais coisas, para as pessoas, tinham
grande valor espiritual. Havia, por exemplo, uma pena da
asa do anjo Gabriel, um bocado da arca de Noé, a camisa
Página
da bendita virgem, os dentes de Santa Apolônia
(segundo as pessoas, isso proporcionava cura infalível
para as dores de dentes) e muitas outras relíquias
152
sagradas e milagrosas! Além disso, era generalizada a
crença absurda de que o arcanjo Miguel celebrava a
missa na corte do céu todas as segundas-feiras. A este
período pertence a instituição do rosário e da coroa da
virgem Maria, da invenção da doutrina da
transubstanciação e de muitas outras mitologias
católicas. É nesse contexto sociológico que surge a
doutrina dos estigmas.
É interessante notar que não se conhece nenhum caso
de estigmas que tenha acontecido antes do século XIII,
quando “Jesus crucificado” se tornou um símbolo do
cristianismo no Ocidente. Para alguns, isso indica que os
estigmas provavelmente foram feitos pelos próprios
estigmatizados, e ainda há aqueles que acreditam que
tais fenômenos vieram a ocorrer de maneira
psicossomática, devido à veneração extremada de
católicos devotos à cruz.

Opinião médica sobre os estigmas

Atualmente, fica difícil coletar opiniões médicas sobre o


polêmico assunto, pois há muitos anos não se tem notícia
de qualquer pessoa que tenha sobre si essas marcas.
Também não se tem notícia de qualquer estigmatizado
no Brasil. Não haveria, pois, como submetê-las a exame
científico conclusivo, usando-se de técnicas modernas e
aplicando o conhecimento atual, seja médico ou
psicológico.

Um especialista em estigmas, Herbert Thurston,


argumenta cinco pontos contra a natureza desses
fenômenos:

1. Os estigmas eram desconhecidos do cristianismo até o Página


século XIII, quando São Francisco de Assis os exibiu pela
153
primeira vez. Todos os casos ocorridos a partir dessa data
devem, por isso mesmo, ser imitados em sua natureza,
eis a razão por não serem autênticos.

2. As feridas dos estigmas não aparecem em local,


tamanho e forma consistentes. Tal fato sugeriria que não
passam de efeito auto-sugestivo.

3. Os estigmas surgem em conexão com a histeria.5


4. Em geral, as feridas só surgem depois que o indivíduo
teve várias doenças purgativas que parecem ser
distúrbios do sistema nervoso central.

5. Embora os supostamente estigmatizados sejam


pessoas visionárias6 , uma comparação de suas visões
mostra pouca consistência. A maior parte delas não
deixa de ser “reencenações” de histórias tradicionais da
paixão, não apresentando nenhuma evidência de sua
natureza divina.7

O Dicionário do cético ainda afirma: “os ferimentos auto-


infligidos são comuns entre pessoas com certos tipos de
distúrbios mentais, mas afirmar que as feridas são
milagrosas é raro, e se deve mais provavelmente à
religiosidade excessiva do que a um cérebro doente,
embora ambos possam estar atuando em alguns casos”.
A explicação preferida é de que estas feridas tenham
sido auto-infligidas, uma vez que nenhum estigmático
manifesta seus ferimentos do princípio ao fim na
presença dos outros, só começando a sangrar quando
não estão sendo observados.

Página
A questão teológica sobre os estigmas de Cristo

Não nos deteremos no mérito se tais manifestações são


154
possíveis ou não, mas se são teologicamente corretas.
Mas, pelo que já lemos acima e temos constatado em
nossa pesquisa sobre o assunto, essa doutrina não
aparenta ser nem um pouco bíblica.

O apóstolo Paulo relata: “... porque eu trago no meu


corpo as marcas [do grego stigmata] de Jesus” (Gl 6.17).
Então, segundo o texto bíblico, Paulo traz em seu corpo
as marcas ou os estigmas de Cristo.
No contexto geral da epístola de Gálatas, Paulo está
refutando os defensores da circuncisão. Esses pseudo-
apóstolos arvoravam que todos os cristãos deveriam ter
o estigma ou a marca da circuncisão judaica. Paulo usa
sua autoridade eclesiástica para declarar que tal doutrina
não era vinda da parte de Deus e devia ser considerada
como anátema (Gl 1.9). Ele queria que os crentes de
Gálatas tomassem conhecimento da eficácia de seu
apostolado, já que esse apostolado estava alicerçado no
evangelho da graça. Para o apóstolo, o evangelho vivido
não é notado com estigmas (leia-se marcas) externos,
mas no coração: “Todos os que querem mostrar boa
aparência na carne, esses vos obrigam a circuncidar-vos,
somente para não serem perseguidos por causa da cruz
de Cristo [...] As quais têm, na verdade, alguma
aparência de sabedoria, em devoção voluntária,
humildade fingida, e em disciplina do corpo, mas não é
de valor algum senão para a satisfação da carne” (Gl
6.12; Cl 2.23).

A palavra grega stigmata traduz perfeitamente o que


ocorria com os escravos marcados ou estigmatizados a
ferro com os nomes de seus senhores. Possivelmente,
Página
era o que Paulo queria transmitir, isto é, que ele já
estava marcado pelo sofrimento da obra de Cristo, que
pertencia ao seu Salvador e não precisava ser
155
circuncidado para tornar-se fiel a Deus. Além disso,
estava assinalado pelo selo do Espírito Santo (Ef 1.13) e
comprado pelo preço do sangue de Jesus (1Co 6.20). É
bom notarmos também que a Bíblia não fala que Paulo
tinha furos nas mãos ou nos pés, nem que seus estigmas
eram literalmente idênticos aos de Jesus na cruz, tudo é
dito de maneira ilustrativa e não literal.

O estigma do cristão não é feito do que é externo, mas,


sim, por meio de uma vida reta e santa diante de Deus:
“Trazendo sempre por toda a parte a mortificação do
Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se
manifeste também nos nossos corpos; e assim nós, que
vivemos, estamos sempre entregues à morte por amor
de Jesus, para que a vida de Jesus se manifeste também
na nossa carne mortal [...] Já estou crucificado com
Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a
vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de
Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por
mim” (2Co 4.10,11; Gl 2.20).

“Manifestações diabólicas e satânicas”

O sofrimento de Jesus na cruz foi único e singular.


Somente as chagas de Cristo têm o poder de abrir as
portas da salvação para o homem: “Tendo, pois, irmãos,
ousadia para entrar no santuário, pelo sangue de Jesus,
pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo
véu, isto é, da sua carne” (Hb 10.19,20). O prazer do
Senhor é que sejamos felizes e livres de toda a dor:
“Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas
enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o
reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas
Página
ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e
moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que
nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras
156
fomos sarados” (Is 53.4,5).

Essa doutrina católica parece mais um malfazejo, pois os


estigmatizados sofrem terríveis flagelos e padecem de
tormentos espirituais, contrariamente à vontade de Deus
revelada em sua Palavra. A própria Igreja Católica, em
alguns casos de estigmas, declarou que tais
manifestações eram diabólicas e satânicas!
Podemos afirmar categoricamente que não há
precedentes bíblicos para corroborar com a doutrina da
“estigmatização”. Nunca houve um caso na época
apostólica ou mesmo depois, pois, como vimos, tais
ocorrências só começaram a se manifestar em uma
época em que o misticismo imperava na mente das
pessoas.

Verdadeiramente, não é da vontade de Deus que


vivamos essa terrível experiência, esse cálice só o
Senhor poderia beber e suportar (Mt 26.42)!

“Stigmata, o filme” - sinopse

“Stigmata” conta a história em que Frankie Paige


(Patrícia Arquette), uma mulher sem nenhum tipo de
crença religiosa, começa a sofrer os “Estigmas, as cinco
chagas que Cristo sofreu antes de morrer. Baseado nos
manuscritos do evangelho apócrifo de Tome, encontrados
em 1945. O caso chega aos conhecimentos do Padre
Kierman (Gabriel Byrne), um investigador do Vaticano,
responsável por investigar casos como a veracidade e de

Página
supostos santos.

O filme começa numa fictícia cidade brasileira chamada


157
“Belo Quinto” que, supostamente, ficaria no Sudoeste do
Brasil, onde todos os habitantes se parecem com índios
peruanos ou andinos, em geral, e onde todos falam uma
mistura do português de Portugal com uma língua nativa
qualquer, que torna tal idioma completamente
indecifrável.

Como muitas outras produções de Hollyood, o filme é


chocante pelas cenas de extrema violência, blasfêmias a
Deus, exorcismos e provocações a fé cristã. No entanto,
é um material de pesquisa interessante, por levantar
questões como a existência de manuscritos, a formação
do cânon bíblico, o comportamento da Igreja Católica
sobre temas de fé e misticismo.

Diferente de um filme que vale tudo, na vida real


nenhum estigmatizado apresentou as feridas do inicio ao
fim na presença de terceiros, apenas sangram quando
não são observados.

Bibliografia e sites pesquisados:

Kinigth & Anglin, História do cristianismo, 2.ed., CPAD;


Nascimento, Luiz A., Carta aos gálatas, CPAD;
Mather & Nichols, Dicionário de ocultismo, Editora Vida;
Rodo, Scott; Milagres, 1994, Editora Ibrasa, São Paulo.
http://www.hipnologia.hpg.ig.com.br/Artigos/estigma.html

Notas:

1 A hipótese heliocêntrica sobre o sistema solar


sustentava ser o sol o centro do universo, girando a terra
e os demais planetas ao seu redor.
Página
2 Teoria que afirma que a terra está no centro do sistema
solar e que os demais corpos giram ao redor dela.
Pressupõe que a terra é imóvel e que o sol se desloca em
158
círculos em torno dela, dando origem aos dias e às
noites.
3 Médico considerado um dos mais renomados
especialistas em parapsicologia e autor do maior número
de livros sobre o assunto já publicados no mundo,
documenta e examina centenas de exemplos
impressionantes de levitação, Estigmas que sangram,
imagens e visões milagrosas, imagens que choram, e
vários outros casos menos conhecidos, mas igualmente
notáveis.
4 Professor de Filosofia do Sacramento City College e
autor do Dicionário do cético (Skeptic’s Dictionary), obra
que traz definições, argumentos e ensaios relacionados
ao sobrenatural, oculto, paranormal e pseudocientífico.
5 Psicopatia cujos sintomas se baseiam em conversão. É
caracterizada por falta de controle sobre atos e emoções,
ansiedade, sentido mórbido de autoconsciência, exagero
do efeito de impressões sensoriais e por simulação de
diversas doenças.
6 Relativo a visões. Que tem idéias extravagantes,
excêntrico. Aquele que tem visões ou acredita em
fantasmas.
7Adaptado do livro Milagres, Scott Rogo, Editora Ibrasa,
994, p.111-2.

14. OS SANTOS DE CADA DIA

Por Márcio Souza Página

Em tempos de crise, cresce a devoção a santos com


159
fama de conceder graças rapidamente. Muitos bairros
nas grandes metrópoles transformam-se em típicas
cidades do interior. Festanças católicas nos moldes
tradicionais marcam os feriados. Há procissões, shows,
missas e quermesses.

Com o agravamento da situação econômica, a fé, que


antes não costumava existir, agora não pode falhar. Tem
de ser rápida, expedita. “Os santos que vêm sendo mais
cultuados são aqueles diretamente ligados à questão
econômica. Pode-se dizer que os quatro preferidos são os
que atendem às urgências do povo: Santo Expedito,
Santa Edwiges, São Judas Tadeu e Santa Rita de Cássia”,
confessou um padre, vigário da Arquidiocese da São
Paulo. Além desses, Nossa Senhora Aparecida compõe o
quinteto que monopoliza a devoção dos fiéis.

Com base nas histórias relatadas pela tradição, faz-se


uma mensagem direta, ligada à vida cotidiana. Por
exemplo: Santo Expedito é aquele das causas urgentes,
que não pode perder tempo para resolver alguma
pendência. Santa Edwiges é a santa dos endividados.
São Judas Tadeu e Santa Rita de Cássia ajudam,
respectivamente, nos casos desesperadores ou perdidos
– um guarda-chuva amplo que pode abrigar tanto os
desempregados quanto os com problemas de desavença
familiar.

Tendo supostamente as pessoas recebido a graça tão


desejada, aparecem nas ruas, nos postes e nos muros
dezenas de mensagens de agradecimento ao santo
solicitado. Geralmente, encontramos muitas páginas nos
periódicos (jornais e revistas) dedicadas aos santos e
Página
patrocinadas pelos fiéis ‘satisfeitos’ pelas preces
‘ouvidas’. Todavia, vai aqui uma palavra de cautela: os
agradecimentos devem ser divididos por sete e, em
160
alguns casos, até mesmo por noventa! Isso mesmo! O
motivo dessa discrepância deve-se ao fato de o
suplicante ser obrigado a repetir, ou mesmo multiplicar,
seus recados de agradecimento. Geralmente, quando um
fiel receita a reza a determinado santo, indica quantas
vezes o próximo suplicante terá de divulgar o
agradecimento pela graça recebida. Parece que os
‘santos’ já aprenderam que a propaganda é o melhor
negócio.
Enquanto alguns santos são conhecidos devido à sua
projeção bíblica, outros, no entanto, são comuns apenas
na tradição católica. O número desses é surpreendente!
A Editora Paulus editou um anuário contendo santos para
todos os dias do ano, e em alguns casos dois ou três são
adicionados.

Que objetivo tem o lançamento de um anuário contendo


inúmeros santos? Inicialmente, vê-se o ideal cristão:
“observemos os santos, mas não fiquemos apenas na
contemplação deles; procuremos, isto sim, contemplar
com eles Aquele que preencheu suas vidas”, afirma o
padre Charles Foucauld. “Passar um ano em companhia
dos santos que tiveram virtudes e podem nos abençoar
com seu exemplo parece interessante, mas outras coisas
estão envolvidas!”, conclui.

Superstição e lenda

Nem todos os santos venerados são realmente


considerados históricos por teólogos católicos. Um
exemplo típico é o Santo Expedito, que aparece em
primeiro lugar nos postes e muros da cidade, bem como
Página
galardoado com faixas. Contudo, tem sua história
questionada por teólogos católicos. Conta-se que ele era
comandante de uma legião de soldados romanos e foi
161
sacrificado em 19 de abril de 303, por ordem do
imperador Diocleciano, ao lado dos companheiros Caio,
Gálatas, Hermógenes, Aristonico e Rufo. Isso porque teria
aderido à fé cristã. Segundo a tradição, no momento de
sua conversão apareceu um corvo que lhe disse crás
(amanhã, em latim). Imediatamente, o soldado esmagou
o corvo com o pé e gritou hodie (hoje), razão pela qual se
tornou aquele a quem se recorre quando não se pode
deixar nada para amanhã. O mesmo padre comentado
acima afirmou: “a mensagem dele esmagando o corvo
não me parece muito cristã. E, para mim, ele é lendário,
não existiu de fato... mas se você disser que ele não
existiu, o pessoal que o procura pode ficar bravo”. Santo
Expedito, para o desconforto de seus fiéis, não aparece
no anuário da editora Paulus.

Currículo milagroso

É muito comum os santos “engrossarem” seus currículos


com milagres. Primeiro um milagre corriqueiro, comum,
como um analgésico para dor de cabeça. Depois, o
próprio tumor na cabeça é curado. O tempo parece ser
fundamento para o exercício dos ‘milagres’ por parte dos
santos. Além disso, os santos têm-se especializado em
milagres específicos. É necessário ‘descobrir’ o seu
santo.

Contam que o bondoso São Cristóvão atravessava um rio


carregando pessoas nas costas. E, não por acaso, ele é
considerado padroeiro dos motoristas. Mais
recentemente, São Camilo de Lellis dedicava a vida aos
doentes, tornando-se, assim, o protetor dos enfermeiros.
Esses são alguns dos casos mais conhecidos. O
Página
catolicismo contém santos para quase todas as
profissões. Uma lista elaborada pelo Vicariato da
Comunicação da Arquidiocese de São Paulo os relaciona
162
com vários ofícios, incluindo até santos não mais
reconhecidos pelo catolicismo, como São Jorge, por
exemplo.

Embora considerado apócrifo pelo Decreto Gelasiano do


século 6, a influência que exerce sobre seus admiradores,
porém, não foi apagada. Conforme reza a lenda,
difundida na Idade Média, São Jorge é aquele cavaleiro
que luta contra o dragão. Tal lenda diz que um horrível
dragão saía de vez em quando das profundezas de um
lago e se atirava contra os muros da cidade, espalhando
morte com o seu mortífero hálito. Para afastar tamanho
flagelo, as pessoas ofereciam ao “monstro” jovens
vítimas, escolhidas por sorteio. Um dia coube à filha do
rei ser oferecida para servir de alimento ao dragão. O
monarca, que nada pôde fazer para evitar esse horrível
destino de sua tenra filhinha, acompanhou-a com
lágrimas até as margens do lago. A princesa parecia
irremediavelmente destinada a um fim atroz quando, de
repente, apareceu um corajoso cavaleiro vindo da
Capadócia. Era São Jorge.

O valente guerreiro desembainhou a espada e, em pouco


tempo, reduziu o terrível dragão num manso cordeirinho,
que a jovem princesa levou preso numa corrente até
dentro dos muros da cidade diante da admiração de
todos os habitantes que antes se fechavam em casa,
cheios de pavor. O misterioso cavaleiro lhes assegurou,
gritando-lhes que tinha vindo, em nome de Cristo, para
vencer o dragão. Eles deviam, então, converter-se e ser
batizados.

Por conta dessa lenda, quadros e mais quadros foram


Página
pintados com São Jorge vencendo o dragão. E podemos
encontrá-los nas casas de alguns fiéis. E não só isso. Há
muito tempo ouvimos falar da figura de São Jorge e o
163
dragão estampada na lua. São histórias cheias de drama
e martírio, que vão desde os tempos em que São Gabriel
Arcanjo anunciou a gravidez de Maria – o que o tornou
padroeiro dos carteiros! – até a segunda guerra mundial,
quando São Maximiliano Kolbe, protetor dos presos
políticos, se ofereceu para morrer no lugar de um
condenado em um campo de concentração nazista.

Creio que você já entendeu, querido leitor, o processo


que habilita o santo a ser um protetor especialista em
determinado ramo ou ofício. Basta-lhe apenas comparar
como foi a vida do tal santo, ou o que lhe aconteceu,
segundo a tradição, e, baseado no padrão trágico de
seus supostos martírios aplicar o que lhe seja mais
conveniente.

Devoção grandiosa

A devoção à Nossa Senhora Aparecida é expressa em


números grandiosos. As ‘igrejas’ consagradas a essa
santa ultrapassam radicalmente às dedicadas a Jesus
Cristo. Considerado o maior santuário do mundo, a
Basílica Nacional de Aparecida, no Vale do Paraíba, é
visitada anualmente por cerca de oito milhões de
romeiros (um número sempre crescente), vindos de
todos os Estados. Por ano, são distribuídas cerca de três
milhões de comunhões, ouvidas cerca de 260 mil
confissões e realizados quase quatro mil batizados. Tudo
sob as bênçãos da padroeira do Brasil, cuja imagem, com
35 centímetros de altura, repousa num altar a três
metros do solo, protegido por vidros à prova de bala e

Página
um sistema de segurança eletrônico – providenciados
depois que, em 16 de maio de 1978, a estátua foi atirada
ao chão por um doente mental e reduzida a 200 pedaços,
164
aproximadamente.

Os fiéis recorrem a essa santinha de 35 centímetros em


busca de milagres e soluções. A história dessa devoção
começou com os pescadores Domingos Garcia, Filipe
Pedroso e João Alves, em outubro de 1717. Encarregados
de suprir a mesa do Conde de Assumar, de passagem
pela então vila de Guaratinguetá, eles jogaram a rede no
rio Paraíba, próximo ao porto de Itaguaçu, e trouxeram à
superfície o corpo da pequena imagem – apanhando a
cabeça da estátua na segunda tentativa. Até então, os
peixes andavam raros, mas, a partir daquele momento,
houve, para espanto dos três homens, uma repentina
abundância. Foi, segundo a tradição, o primeiro milagre
operado pela Aparecida.

Por alguns anos, a santinha ficou na casa de Pedroso.

Mas logo a sua casa tornou-se pequena para abrigar o


grande número de devotos. Esse foi motivo da
construção, em 1734, da primeira capela da santa. Cento
e quarenta anos mais tarde, foram iniciadas as obras da
Basílica Velha, que ficou em segundo plano, após a
inauguração, em 1954, da Nova, ainda não concluída.
Percorrer o interior desse templo corresponde a um
mergulho na alma da maior parcela da população
brasileira – seja na Capela das Velas, onde são
queimados mais de 20 mil quilos de cera por mês, seja
na Sala das Promessas, no subsolo da catedral, que exibe
milhares de ex-votos.

A importância de Maria no culto popular tem alcançado


refrões que distorcem o que a Bíblia ensina sobre a
Página
soberania de Deus. Um exemplo muito conhecido é:
“Tudo o que você pede à mãe, o filho faz”. A grandiosa
devoção à Aparecida não é questionada pelos mentores
165
católicos, antes parece que a ponderação do clero
católico tem sido a mesma do padre mencionado no
início deste artigo: “mas se você disser que ele não
existiu, o pessoal que o procura pode ficar bravo”.

Os argumentos bíblicos

Encontramos nas Escrituras apoio à veneração de


santos? Se fosse apropriada, teríamos no livro de
Hebreus, principalmente no capítulo 11, uma grande
oportunidade para o escritor sagrado incentivar essa
prática. Mas não é isso que acontece. Não encontramos
nenhum vestígio de proteção mística a certas profissões
ou classes sociais. A superstição e o misticismo são
contestados pelas Escrituras, como, por exemplo, fazer
preces aos mortos ou prestar-lhes culto: “Quando vos
disserem: Consultai os necromantes e os adivinhos, que
chilreiam e murmuram, acaso, não consultará o povo ao
seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos?”
(Is 8.19).

Outro aspecto da veneração aos santos está relacionado


à intercessão e à divindade. As Escrituras são bem claras
ao dizer que há somente um Deus, e somente Deus atua
sobre sua criação. Toda criatura está sujeita e é
dependente de Deus. Somente um homem pôde ocupar
o lugar de intercessor, devido à sua divindade: Jesus
Cristo. Lemos em Romano 8.34: “Quem os condenará? É
Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o
qual está à direita de Deus e também intercede por nós”.
E mais ninguém!

Galeria dos santos

São Bartolomeu (24 de agosto) – um dos 12 apóstolos, Página


nascido na Galiléia, sofreu um suplício por divulgar o
166
evangelho na Armênia, onde despertou a ira dos
sacerdotes locais por conseguir várias conversões. Os
sacerdotes então fizeram a cabeça do rei Polímio para
que São Bartolomeu fosse torturado de maneira bárbara:
teve toda a sua pele arrancada, ficando em carne viva,
antes de ser decapitado – santo protetor dos
açougueiros.

Santo Ivo nasceu na Bretanha, em 1253. Estudou


filosofia, teologia, direito civil e canônico. Ordenado
sacerdote em seguida, era chamado advogado dos
pobres, pois sempre os defendia nos julgamentos. Sem
se importar com a perseguição dos poderosos, ia aos
castelos buscar os pertences do povo, confiscados a
título de impostos não pagos. É o santo protetor dos
advogados.

São Dimas. É chamado de bom ladrão. Conta a lenda que


ele conheceu a família de Jesus, dando abrigo ao menino
Jesus. Converteu-se após a crucificação e pediu perdão
pelo seu passado pouco antes da morte. É o protetor dos
agentes funerários.

São Bernardo era natural de Piemonte, Itália, no século


18, e cuidava dos viajantes e peregrinos que precisavam
atravessar as montanhas dos Alpes. Os cães são
bernardos levam carinhosamente o seu nome. É
considerado protetor dos alpinistas.

São Tomé. Ficou conhecido no imaginário popular como


aquele que precisa ver para crer. Santo protetor dos
arquitetos, não basta projetar, é preciso realizar.

Página
São Lourenço. Tinha função importante como assistente
do papa, cuidando de toda parte burocrática e listando
todos os pertences. Interrogado sobre os bens da Igreja,
167
pediu prazo e, em seguida, apresentou o nome dos
doentes, dos velhos e das crianças a quem ajudava. É o
santo protetor dos arquivistas.

Santa Clara de Assis. Fundou uma ordem conhecida


como Clarissas. Uma vez perguntaram-lhe se era melhor
a vida contemplativa ou a pregação, e ela respondeu:
“Cristo revelou que sua vontade é que caminhes pelo
mundo a pregar”. É a protetora dos artistas de televisão,
pois entendia o valor da comunicação.

Nossa Senhora de Loreto. Diz a história que o santuário


de Loreto guarda a casa em que morou Nossa Senhora,
em Nazaré. A lenda afirma, ainda, que, em 1291, durante
as Cruzadas, a casa foi transportada para lá por anjos. Na
verdade, a família De Angelis salvou a casa da destruição
e a transportou para Loreto. É a santa protetora dos
aviadores.

Santa Bárbara. Era uma jovem belíssima e seu pai


Dióscoro a encarcerou numa torre, com ciúmes dos seus
pretendentes. Um dia ela fugiu, mas acabou presa. Morta
pelo próprio pai, que em seguida foi fulminado por um
raio, é a santa protetora dos bombeiros.

São Brás. Útil, segundo a lenda, para duas áreas. Resolve


problemas com a garganta e engasgos. Quem não
conhece a atitude de tapinha nas costas seguido da
famosa frase: “são Brás, pra frente e pra trás!”? Em seu
martírio, teve os cabelos cortados e o couro cabeludo
espetado por pentes de ferro. É o santo protetor dos
cabeleireiros.

Página
São Gabriel Arcanjo. Independentemente da notícia que o
carteiro carregue, ele é supostamente protegido pelo
anjo Gabriel, pois este anunciou a Maria o nascimento de
168
Jesus, portanto foi portador de boa notícia. É o santo
protetor dos carteiros.

São João Bosco. Sua intensa preocupação com novas


formas de conhecimento o identificou com a sétima arte.
Ordenado padre aos 26 anos, fundou escolas, revistas e
editoras, além de oratórios festivos que reuniam filhos de
operários. É o santo protetor dos cineastas.
São Martinho de Tours. Húngaro, seu pai era oficial do
exército romano e o obrigou a alistar-se. Um dia, porém,
ao ver um mendigo tremendo de frio, cortou sua manta
ao meio e ofereceu a metade para ele. À noite, sonhou
com Jesus, que disse: “Martinho, ainda não batizado me
ofereceu esse vestuário”. No dia seguinte, ele se
converteu. É o protetor dos comissários de bordo.

São Vito. Mártir siciliano do segundo século, é invocado


durante uma doença nervosa chamada dança de São
Vito. Sua vida foi bem aventureira, sofrendo perseguições
por conta de sua fé. Em Roma, foi condenado a ser
jogado às feras no Coliseu. É o santo protetor dos
dançarinos.

Santa Apolônia. Viveu no século três. Preferiu ser


queimada viva a renunciar a fé. Teve todos os dentes
arrancados por seus algozes, mas morreu pedindo
perdão para aqueles que a torturavam.

São Francisco. Nasceu em Assis, Itália, em 1182. Aos 24


anos abandonou tudo e passou a andar errante e
maltrapilho em protesto contra a sociedade burguesa.
Seu testemunho de fé também incluía o amor à natureza
Página
e aos animais, acolhendo qualquer bicho e chamando o
sol e a lua de irmãos. É o protetor dos ecologistas.
169
Santo Agostinho. Africano da Tunísia, nascido em 354.
Escreveu muitas obras de cunho filosófico. Teve uma
ativa vida aflitiva – usou a si mesmo como ilustração das
dificuldades humanas. Considerado doutor, é protetor
dos editores.

Santa Zita. Todas às sextas-feiras, dava esmolas na


cidade, dividindo o pouco que possuía. Numa dessas
ocasiões, viu que o avental que vestia se transformou em
flores. É protetora das empregadas domésticas.

São João Evangelista. Um dos 12 apóstolos, era um dos


mais chegados a Jesus Cristo e testemunhou vários
milagres. Escreveu o quarto evangelho, as epístolas de
João e o Apocalipse. É o protetor dos escritores.

Santo Isidoro. Muito culto, era dicionarista, escritor


considerado à frente de seu tempo. É o santo protetor
dos internautas.

Santa Luzia. Diz a lenda que preferiu arrancar os olhos e


oferecê-los numa bandeja ao seu torturador a renunciar a
fé. É a santa protetora dos oculistas.

São Raimundo Nonato. Foi chamado de nonato (não


nascido) por ter sido retirado das entranhas de sua mãe
já morta. É o santo protetor das parteiras.

Página
170
15. QUEM FOI O PRIMEIRO PAPA?

Por Paulo Cristiano

Todos sabem que o título “papa” é empregado para o


supremo chefe da igreja católica apostólica romana. Este
termo vem do grego e significa “pai”. Já em latim, é
formado pela junção da primeira sílaba de duas palavras:
pater patrum, que quer dizer “pai dos pais”. Mas o
significado que os católicos mais gostam de conferir é:
Petri apostoli potestatem accipiens, isto é, “aquele que
recebe autoridade do apóstolo Pedro”.

Segundo a doutrina católica, o papa é o sucessor de São


Pedro no governo da Igreja Universal e o vigário de Cristo
na terra. Tem autoridade sobre todos os fiéis e sobre toda
a hierarquia da igreja. Além da autoridade espiritual,
exerce uma territorial (interrompida de 1870 a 1929),
que, a partir de 1929, foi limitada ao Estado da cidade do
Vaticano. É infalível quando fala em assuntos de fé e
moral (ex-cathedra). Alguns títulos que o papa ostenta
dão uma amostra deste exagero, a saber: Bispo de
Roma, Primaz da Itália, Patriarca do Ocidente, Vigário de
Jesus Cristo, Servo dos Servos de Deus, Sumo Pontífice
Página
da Igreja Universal, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos,
Soberano do Estado da Cidade do Vaticano, Arcebispo e
Metropolita da Província Romana e Santo Padre.
171

Durante a história de sua existência, o papado teve seus


altos e baixos. Recentemente, o atual papa teve de pedir
desculpas aos judeus por seu antecessor, o papa Pio XII,
e se vê em dificuldades com a questão do celibato.
Apesar de toda esta imponência de chefe de Estado, líder
espiritual da maior parcela de cristãos do mundo (1
bilhão) e administrador de um império financeiro que a
cada ano acumula bilhões de dólares, algumas perguntas
precisam ser feitas. Existem provas bíblicas e históricas
que indiquem que o papa é o sucessor do apóstolo
Pedro? Pedro foi o primeiro papa e gozou de supremacia
sobre os demais apóstolos? Teria Pedro fundado a igreja
de Roma e transformado essa igreja na sede de seu trono
episcopal?

O alvo de nossa matéria é apresentar respostas


adequadas a perguntas cruciais como essas, visto que a
Internet está repleta de sites de cunho apologético
católico com o intuito de refutar as verdades das
Escrituras Sagradas apresentadas pelos evangélicos.

Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja

Tu es Petrus et super hanc petram aedificabo ecclesiam


meam

Esse trecho de Mateus 16.18 é tão especial para os


fundamentos papais que foi escrito em enormes letras
douradas na cúpula da Basílica de São Pedro, em Roma.
Destarte, ele é a fonte mais importante de toda a
dogmática1 católica. A expressão Tu es Petrus, carrega
atrás de si uma procissão de outras heresias erigidas em
Página
cima das interpretações de textos deslocados de seus
respectivos contextos, interpretados de modo arbitrário
pelos teólogos e doutores católicos romanos. É ele o
172
genitor da infalibilidade papal, do poder temporal e dos
demais desvios teológicos, contradições e distorções
dessa igreja. Portanto, esclarecer à luz da Bíblia todo
esse equívoco teológico é desestruturar a base em que
se firma a eclesiologia2 católica.

Os pilares do papado

A tese católica se firma em três questionáveis


pressupostos principais, a saber:

Cristo edificou a Igreja sobre Pedro, numa interpretação


totalmente tendenciosa e arbitrária de Mateus 16.18,19.

Pedro fundou e dirigiu a Igreja de Roma, sendo


martirizado nessa cidade.

A sucessão apostólica numa cadeia ininterrupta até


nossos dias: de Pedro a Karol Wojtyla (João Paulo II).

Outrossim, há ainda outros argumentos apresentados


pelos católicos romanos que se firmam nessa trilogia,
mas, neste momento, analisaremos apenas os já
mencionados.

Em que pedra a igreja está edificada?

O endereço eletrônico católico www.lepanto.org.br, da


Frente Universitária Lepanto, é um site antiprotestante e,
na página sobre a Igreja Católica, que interpreta Mateus
16.18, traz a seguinte declaração: “Esse ponto é muito
importante, pois a interpretação truncada dos
protestantes quer admitir o absurdo de que Nosso
Página
Senhor não sabia se exprimir corretamente. Eles dizem
que Cristo queria dizer: Simão, tu és pedra, mas não
edificarei sobre ti a minha Igreja, por que não és pedra,
173
senão sobre mim. Ora, é uma contradição, pois Nosso
Senhor alterou o nome de Simão para Kephas, deixando
claro quem seria a pedra visível de sua Igreja”.

Entendemos que essa declaração nada mais representa


do que o ecoar das suposições romanas na tentativa de
harmonizar o que não pode ser harmonizado. A princípio
pode até impressionar, mas carece totalmente de
fundamentos. Leiamos o versículo: “Pois também eu te
digo que tu és Pedro (Petrus), e sobre esta pedra (petra)
edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não
prevalecerão contra ela; e eu te darei as chaves do reino
dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos
céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos
céus” (Mt 16.18,19).

Jesus, ao proferir essa declaração, estava realmente


afirmando que Ele próprio era a “pedra” sobre a qual sua
Igreja seria edificada. Temos diversos motivos para esta
interpretação. Vejamos:

Petra versus Petros

Ao referir-se a Pedro, Jesus emprega o termo grego


Petros, que significa um seixo, pedregulho. Ao referir-se à
edificação da Igreja, diz que ela seria edificada não sobre
o Petros (Pedro), mas sobre a petra, um rochedo
inabalável. Ora, Jesus fez nítida diferença semasiológica3
entre petra e Petros. Um é substantivo feminino singular
e está na terceira pessoa; o outro, masculino plural, e se
encontra na segunda pessoa. Além disso, o termo petra
nunca é usado na Bíblia em relação a homem algum,
somente em relação a Deus. Logo, tal verso nem de
Página
longe insinua alguma coisa sobre Roma, sucessão
apostólica ou algo similar. Os católicos conseguem ver o
que não existe no texto.
174

Edificação sobre quem?

A declaração “Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo” é a


chave para entendermos toda a problemática. Jesus
perguntou a “todos”, e não somente a Pedro, “quem Ele
era”. “Disse-lhes ele [Jesus]: E vós, quem dizeis que eu
sou?” (Mt 16.15). A ele — Pedro — foi revelado, em sua
confissão, que Cristo era o Messias, o Filho de Deus, daí a
frase: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque
não foi carne e sangue que to revelou, mas meu Pai, que
está nos céus. Pois também eu te digo que tu és Pedro, e
sobre esta pedra edificarei a minha igreja...”, ou seja, a
igreja está edificada sobre a confissão de que Ele (Jesus)
era o Filho de Deus.

A bem da verdade, a Igreja jamais poderia ser


solidamente edificada sobre homem algum, nem mesmo
Pedro, que, embora tenha sido um grande apóstolo, foi,
no entanto, falível e passível de erros, como demonstra,
de maneira sobeja, o contexto imediato: “Ele [Jesus],
porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de mim,
Satanás, que me serves de escândalo; porque não
compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que
são dos homens” (Mt 16.23), além de outros escritos do
Novo Testamento em que podemos perceber a
inconstância de Pedro (Mt 26.69-75).

Quem é a pedra?

O significado de Petros e petra está em perfeita


concordância com o contexto doutrinário e teológico
neotestamentário. Sendo Petros um fragmento tirado da
Página
grande rocha, há de se ver uma conotação de todos os
cristãos como Petros, e isto é descrito posteriormente
pelo próprio Pedro: “Vós também, como pedras vivas,
175
sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para
oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por
Jesus Cristo” (1Pe 2.5).

Por sua vez, todas as “pedras vivas” estão edificadas


sobre a grande Petra, que é Jesus: “Assim que já não sois
estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos
santos, e da família de Deus; edificados sobre o
fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus
Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o
edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no
Senhor” (Ef 2.19-21).

Agora, comparemos o texto de Mateus 16.18 com o texto


seguinte:

“Diz-lhes Jesus: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra, que


os edificadores rejeitaram, essa foi posta por cabeça do
ângulo; pelo Senhor foi feito isto, e é maravilhoso aos
nossos olhos? Portanto, eu vos digo que o reino de Deus
vos será tirado, e será dado a uma nação que dê os seus
frutos. E, quem cair sobre esta pedra, despedaçar-se-á;
mas aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó” (Mt
21.42-44).

Indubitavelmente, tanto em Mateus 16.18 quanto em


21.44, Jesus é a pedra. Desde a época dos salmistas,
passando pelo profeta Isaías, a palavra profética já
anunciava o Messias como a pedra da esquina (Cf. Sl
118.22, Is 28.16).

Igualmente, é bom lembrar que na narrativa apresentada


pelo evangelista Marcos é omitida a frase de Cristo: “Tu
Página
és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”
(Mc 8.27-30). Isto não é de pouca relevância, pois
Marcos, por muito tempo, foi companheiro de Pedro (1Pe
176
5.13) e, segundo Eusébio4 , foi de Pedro que Marcos
coletou informações para redigir seu evangelho. Pedro,
em nenhum momento, disse de si mesmo que era a
rocha ou pedra da igreja, caso contrário, Marcos teria
confirmado o fato de modo enfático. Se porventura o
dogma da superioridade de Pedro é verdadeiro e de
tamanha importância, como ensina a Igreja Católica, não
parece praticamente inconcebível que os registros de
Marcos e de Lucas silenciem a respeito?
O que significa Kephas?

Kephas significa pedra ou Pedro? João nos dá a resposta:


“... Jesus, fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho
de João, tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro)”
(Jo 1.42). Fica claro que Cefas ou Kephas significa Pedro e
não pedra. Para fazer jus à coerência e à lógica católica,
Jesus deveria ter dito mais ou menos assim: “Tu és
Kephas e sobre esta kephas edificarei...”, ou: “Tu és
Pedro e sobre este Pedro edificarei...”, caso não houvesse
nenhuma diferença.

Um acréscimo ao nome de Pedro

Teria Jesus mudado o nome de Simão Barjonas para


Pedro ou apenas feito um acréscimo?

Ora, quando se muda um nome faz-se necessariamente


uma substituição. O nome anterior não é mais
mencionado, como nos casos de Abrão para Abraão (Gn
17.5) e de Sarai para Sara (Gn 17.15). Já no caso de
Pedro, houve apenas um acréscimo, como bem atesta
Lucas: “Agora, pois, envia homens a Jope e manda
Página
chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro” (At
10.5,18,32; 11.13). Podemos ver que se trata de um
acréscimo no nome e não a mudança do mesmo, como
177
querem os teólogos do Vaticano. Além disso, Pedro
continuou sendo chamado de Simão (At 15.14) ou Simão
Pedro (Jo 21.2-3,7), algo que, no mínimo, seria estranho
se o antigo nome tivesse sido trocado. Querer ver nisto
uma ligação da suposta supremacia de Pedro com
relação ao papado, certamente, é ir além dos limites
admissíveis.

A quem pertencem as chaves?


Os católicos insistem em alardear que a simbologia das
chaves (v. 19) significa supremacia jurisdicional sobre
todo o cristianismo. Conquanto, sabemos que a chave foi
realmente outorgada a Pedro para “abrir e fechar”.
Todavia, devemos salientar que foram as chaves do
“reino dos céus” e não da Igreja que lhe foram
concedidas. O reino dos céus não é a Igreja.

Antes, as “chaves” estavam nas mãos dos fariseus, como


lemos: “Ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave
da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes os
que entravam” (Lc 11.52).

Essas chaves representam a propagação do evangelho


de arrependimento de pecados, pelo qual todos os
cristãos, e não Pedro apenas, podem abrir as portas dos
céus para os pecadores que desejam ser salvos. Tanto é
que, em Mateus 18.18, Jesus confia as chaves também
aos demais apóstolos: “Em verdade vos digo [digo a
vocês e não somente a Pedro] que tudo o que ligares na
terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra
será desligado no céu”.

Página
Pedro, portanto, foi o primeiro a usá-la por ocasião da
festa de Pentecostes, quando quase três mil almas foram
salvas (At 2.14-41). Depois, a usou para pregar ao
178
primeiro gentio, Cornélio (At 10.1-48). É esta a chave que
abre a porta, e ela não é prerrogativa exclusiva do
hierarca católico romano. Ninguém tem o poder (ou
direito) de monopolizá-la, como querem os católicos
romanos.

Certo site ortodoxo5 , comentando sobre o assunto em


questão, disse com muita propriedade: “Para a Igreja una
e indivisa, a interpretação desta passagem do evangelho
é toda outra. Como disse Orígenes (fonte comum da
Tradição patrística da exegese), Jesus responde com
estas palavras à confissão de Pedro: este se torna a
pedra sobre a qual será fundada a Igreja porque exprimiu
a fé verdadeira na divindade de Cristo. E Orígenes
comenta: Se nós dissermos também: Tu és o Cristo, Filho
de Deus Vivo, então tornamo-nos também em um Pedro
[...] porque quem quer que seja que se una a Cristo
torna-se pedra. Cristo daria as chaves do reino apenas a
Pedro, enquanto as outras pessoas abençoadas não as
poderiam receber? Pedro é, então, o primeiro ‘crente’, e
se os outros o quiserem seguir podem ‘imitá-lo’ e receber
também as mesmas chaves.

“Jesus, com as suas palavras relatadas no evangelho,


sublinha o sentido da fé como fundamento da Igreja,
mais do que funda a Igreja sobre Pedro, como a Igreja
Romana pretende. Tudo se resume, portanto, em saber
se a fé depende de Pedro, ou se Pedro depende da fé [...]
Por isso mesmo, São Cipriano de Cartago pôde afirmar
que a fé de Pedro pertencia ao bispo de cada Igreja local,
enquanto São Gregório de Nissa escreveu que Jesus ‘deu
aos bispos, por intermédio de Pedro, as chaves das
honras do céu’. A sucessão de Pedro existe onde a fé
Página
justa e ortodoxa é preservada e não pode, então, ser
localizada geograficamente, nem monopolizada por uma
só Igreja e tampouco por um só indivíduo. Levando a
179
teoria da primazia de Roma às últimas conseqüências,
seríamos obrigados a concluir que somente Roma possui
essa fé de Pedro e, neste caso, teríamos o fim da Igreja
una, santa, católica e apostólica que proclamamos no
Credo: atributos dados por Deus a todas as comunidades
sacramentais centradas sobre a Eucaristia.

“Além disso, afirma a Igreja de Roma que é ela a Igreja


fundada por Pedro e que essa fundação apostólica
especial lhe dá direito a um lugar soberano sobre todo o
Universo. Ora, a verdade é que, para além do fato de não
sabermos realmente se São Pedro foi o fundador dessa
Igreja Local e o seu primeiro papa, temos conhecimento
de que outras cidades ou outras localidades menores
podiam, igualmente, atribuir a si mesmas essa distinção,
por terem sido fundadas por Pedro, Paulo, João, André ou
outros apóstolos. Assim, o Cânone do 6º Concílio de
Nicéia reconhece um prestígio excepcional às Igrejas de
Alexandria, Antioquia e Roma, não pelo fato de terem
sido fundadas por apóstolos, mas porque eram na altura
as cidades mais importantes do Império Romano e,
sendo assim, deram origem a importantes igrejas
locais...”

Onde está a primazia de Pedro?

A lógica vaticana, insaciável em sua disposição em


favorecer Pedro em detrimento dos demais apóstolos,
esquiva-se em seus conceitos teológicos. Os católicos
procuram, a qualquer preço, encontrar nas Sagradas
Escrituras um elo de ligação entre a primazia de Pedro e
a alegada supremacia do papa. Os argumentos
apresentados são quase sempre furtados de seus
Página
contextos a fim de fortalecer essa cadeia de fantasia
teológica. A pessoa que analisar o assunto pela ótica
papista tende a ficar impressionada com a avalanche de
180
textos que colocam Pedro no topo da lista de
exclusividade. À primeira vista, a abundância de uma
aparente primazia tende a sustentar essa corrente. No
entanto, confrontaremos os textos citados e veremos que
não são tão pujantes quanto parecem.

A Pedro foi conferida com exclusividade a chave


dos céus
(Mt 16.19)
Este argumento foi satisfatoriamente respondido
anteriormente.

A Pedro foi dado, por duas vezes, cuidar com


exclusividade do rebanho de Cristo
(Lc 22.31,32; Jo 21.15,17)

Os católicos frisam nesses textos as palavras “confirmar”


e “apascentar” e vêem nelas uma suposta primazia
jurisdicional de Pedro. O engano deste argumento está
em não mostrar que o apóstolo Paulo também
“confirmava” as igrejas (Cf. At 14.22; 15.32,41).

Quanto ao “apascentar”, esta também não era uma


exclusividade de Pedro, pois todos os bispos deveriam ter
esta incumbência (At. 20.28). Para sermos coerentes,
deveríamos dar este status de primazia aos demais, pois
não só apascentavam como confirmavam as igrejas.

Pedro foi o primeiro a pregar um sermão no dia de


Pentecostes
(At 2.14)

Página
Ora, Pedro, ao pregar na festa de Pentecostes, estava
apenas fazendo uso das chaves para abrir a porta da
salvação. Demais disso, alguém tinha de tomar a palavra
181
e coube a Pedro, que era o mais velho e intrépido. Mas,
ao terminar a mensagem, ninguém o teve por especial,
antes se dirigiram a todos com a expressão: “Que
faremos varões irmãos?”. Dirigiram-se a toda a igreja e
não apenas a Pedro (At 2.37).

Pedro foi o primeiro a evangelizar um gentio


(At 10.25)
Ao contrário do que pensam os católicos, o caso de
Cornélio é um contragolpe no argumento romanista, pois
Pedro teve de dar explicações perante a Igreja por ter se
misturado e comido com um gentio. Raciocinemos, onde
está a primazia de Pedro nesse episódio? Se a tivesse,
porventura daria explicações perante seus supostos
comandados? Certamente que não! Mas Pedro teve de se
explicar, porque não possuía nenhum governo sobre os
demais.

No catálogo dos apóstolos, o nome de Pedro


sempre é colocado em primeiro lugar
(Mt 10.2-4, Mc 3.16-19, Lc 6.13-16, At 1.13)

É bom frisarmos que este primeiro lugar na lista de


nomes é apenas de caráter cronológico e não funcional.
Percebe-se que os quatro primeiros nomes da lista dos
sinópticos são: Simão, André, João e Tiago, os primeiros a
serem chamados para seguir o Mestre e, dentre eles,
coube a Pedro ter uma prioridade cronológica. Todavia,
em outros textos, como, por exemplo, Gálatas 2.9, seu
nome não aparece em tal posição: “E conhecendo Tiago,
Cefas e João, que eram considerados como as colunas...”.

Página
Pedro escolhe Matias para suceder Judas
Iscariotes
(At 1.15)
182

Lendo cuidadosamente Atos 1.15-26, vemos que Pedro


apenas expôs o problema, qual seja, a falta de um
sucessor para o cargo de Judas. No entanto, Matias foi
eleito pela igreja por voto comum e não por decisão de
Pedro: “E, lançando-lhes sortes, caiu a sorte sobre
Matias. E por voto comum foi contado com os onze
apóstolos” (v. 26).
O veredicto de Jesus

O fator agravante quanto à intenção de tornar Pedro


soberano entre os demais apóstolos está nas palavras
taxativas de Cristo — o ÚNICO Sumo Pastor, Chefe
Supremo, Cabeça e Fundamento da Igreja — em não
titubear e corrigir algumas precoces ambições de
supremacia entre eles.

Certa feita, tal idéia foi sugerida ao Mestre que, no


mesmo instante, a rechaçou dizendo: “... Sabeis que os
governadores dos gentios os dominam, e os seus
grandes exercem autoridades sobre eles. Não será assim
entre vós; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se
grande, será esse o que vos sirva; e qualquer que entre
vós quiser ser o primeiro, será vosso servo...” (Mt 20.18-
27).

O próprio Pedro desfaz essa lenda ao dizer: “ninguém


tenha domínio sobre o rebanho...” (1Pe 5.1-3). Não se
pode ver aí nenhum vestígio de superioridade,
supremacia ou destaque sobre os demais, pois ele
mesmo se igualava aos outros dizendo: “... que sou
também presbítero com eles...” Pedro jamais mandou.
Página
Pelo contrário, foi mandado e obedeceu: “Os apóstolos,
pois, que estavam em Jerusalém, ouvindo que Samaria
recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e
183
João” (At 8.14). E tudo isso faz jus às palavras de Jesus,
que disse: “Não é o servo maior do que o seu senhor,
nem o enviado maior do que aquele que o enviou” (Jo
13.16).

Pedro esteve em Roma?

Embora a Bíblia não diga nada a respeito, os católicos


insistem em dizer que o fato de o apóstolo Pedro ter sido
o fundador da igreja de Roma é incontestável. Atribuem,
ainda, ao apóstolo Pedro, um pontificado de 25 anos na
capital do Império. E, conseqüente (deduzem), ele tenha
morrido ali.

É claro que estas ligações, em princípio, são de valor


inestimável, pois, entrelaçadas, robustecem a tese
vaticana da primazia do papado. Contudo, há de se frisar
que somente a chamada tradição vem em socorro das
causas romanistas nestas horas e, mesmo assim, de
maneira dúbia.

Pedro não pode ter sido papa durante 25 anos, pois foi
martirizado no reinado do imperador Nero, por volta do
ano 67 ou 68 d.C. Subtraindo 25 anos, retrocederemos ao
ano 42 ou 43. Nessa época, ainda não havia sido
realizado o Concílio de Jerusalém (At 15), que ocorreu por
volta do ano 48 ou 49 d.C., quando Pedro participou (mas
não deveria, porque, segundo a tradição, nessa época o
apóstolo estava em Roma). No entanto, ainda que Pedro,
segundo a opinião católica, tivesse participado do
Concílio de Jerusalém, a assembléia fora presidida por
Tiago (At 15.13-21).

Página
No ano 58 d.C., Paulo escreveu a epístola aos Romanos e,
no capítulo 16, mandou uma saudação para muitos
irmãos daquela cidade, mas Pedro sequer é mencionado.
184
Em 62 d.C., o apóstolo Paulo chegou em Roma e foi
visitado por muitos irmãos (At 28.30,31), todavia, nesse
período, não há nenhuma menção de Pedro.

O apóstolo Paulo escreveu quatro cartas de Roma:


Efésios, Colossenses, Filemom (62 d.C.) e Filipenses
(entre 67/68 d.C.), mas Pedro não é mencionado em
nenhuma delas. Se Pedro estava em Roma no ano 60
d.C., como se deve entender a revelação referida no livro
de Atos, em que Jesus disse a Paulo: “Importa que dês
testemunho de mim também em Roma?” (At 23.11). Se
Pedro estava em Roma, não caberia a ele estar
cumprindo esta função? Onde se encontrava o suposto
papa de Roma nessa ocasião?

É por estas e outras razões que não acreditamos que


Pedro tenha fundado ou presidido a Igreja de Roma,
como afirmam os católicos.

O insustentável suporte da tradição

A tradição é um dos pilares nos quais se assenta a


teologia romanista. O principal órgão da tradição é a
Patrística, os escritos dos pais da Igreja. Essa tradição é
de relevante valor à causa católica, pois dela advém toda
a “lógica” da “sucessão apostólica”. É dela que é
extraída a má interpretação de Mateus 16.18, da
primazia de Roma, da corrente sucessória de São Pedro,
etc. Na verdade, as coisas são bem diferentes quando
analisadas de maneira criteriosa.

Dos inúmeros pais da Igreja, somente 77 opinaram a


respeito do assunto de Mateus 16.18, sendo que 44
Página
reconheceram ser a fé de Pedro a rocha. Os outros 16
julgaram ser o próprio Cristo e somente 17 concordaram
com a tese vaticana. Nenhum deles afirmou a
185
infalibilidade de Pedro e tampouco o tinham como papa.
Exemplo disso é Santo Agostinho que, em uma de suas
obras,13 expressamente afirma que sempre, salvo uma
vez, ele havia explicado as palavras sobre esta pedra —
não como se referissem à pessoa de Pedro, mas sim a
Cristo, cuja divindade Pedro havia reconhecido e
proclamado.

Diz certa fonte católica14 que: “Se a corrente da


sucessão apostólica por alguma razão encontra-se
interrompida, então as ordenações seguintes não são
consideradas válidas, e as missas e os mistérios,
realizados por pessoas ilegalmente ordenadas, estão
desprovidos da graça divina. Essa condição é tão séria
que a ausência de sucessão dos bispos em uma ou outra
denominação cristã despoja-a da qualidade de Igreja
verdadeira, mesmo que o ensino dogmático presente
nela não esteja deturpado. Esse foi o entendimento da
Igreja desde o seu início”.

Finalizando...

Procuramos não ser prolixos ao historiar sobre esta


questão. Todos sabemos que o trono dos papas teve seus
momentos de vacância. Muitos papas conquistaram este
título por dinheiro; outros, considerados legítimos, foram
condenados como hereges; e quantos, pela ganância do
cargo, foram envenenados por seus rivais. Houve
também os nomeados por imperadores e, quando não,
havia três ou mais papas se excomungando mutuamente
pela disputa da cadeira de São Pedro. Sem falar, é claro,
da época negra da pornocracia (influência das cortesãs
no governo).

Não é debalde que a obra literária clássica Divina Página


comédia, de Dante Alighieri, coloca vários papas no
186
inferno. Há, ainda, uma tremenda contradição nas muitas
listas dos pontífices romanos expostos por historiadores
católicos, nas quais os nomes de tais sucessores
aparecem trocados ou ausentes, sem consenso algum.
Não cremos que estes homens sejam os verdadeiros
sucessores da cátedra de Pedro.

A bem da verdade, essa tal sucessão ininterrupta e


contínua dos papas é totalmente arrebentada e falsa. É
por demais ultrajante, mesmo para uma mente mediana
suportar tamanha incongruência.

Pelo que foi exposto, podemos considerar serenamente


que “Pedro nunca foi papa e tampouco o papa é o vigário
de Cristo”.

Biografia de Pedro

• Cidade natal: nasceu em Betsaida, Galiléia.


• Filiação: filho de Jonas e irmão do apóstolo André, seu
primeiro nome era Simão.
• Moradia: na época de seu encontro com Cristo, morava
em Cafarnaum, com a família da sua mulher (Lc 4,31-38).
• Profissão: pescador, trabalhava com o irmão e o pai.
• Qualidades: dinâmico (Mt 17.4), fiel (Mt 26.33), sincero
(Jo 21.17), ousado (Mt 14.28), humilde (Lc 5.8), entre
tantas outras.
• Defeitos: ansioso (Mt 19.27), inconstante (Mt 14.30),
precipitado (Mt 16.22), duvidoso (Mt 26.75)
• Fontes: Os quatro evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e
João), Atos dos Apóstolos e as epístolas de Paulo.
• Ministério: destacou-se entre os doze apóstolos e foi a
ele que Cristo apareceu pela primeira vez depois de
Página
ressuscitar.
• Cartas escritas: 1 e 2 epístolas que levam o seu nome.
187
•Viagens ministeriais:

- Primeira viagem: de Jerusalém a Samaria (At 8.14-25).


- Segunda viagem: de Jerusalém, através de Lida e Jope,
até Cesaréia (At 9.32; 11.2).
- Terceira viagem: de Jerusalém a Antioquia (At 15.1-14;
Gl 2.11).

• Pedro e Jesus:
- Perto do mar da Galiléia, é chamado para seguir a Jesus
(Mt 4.18,19).
- Perto da Galiléia, encontra a moeda do tributo na boca
do peixe (Mt 17.24-27).
- Na Galiléia, anda sobre as águas do mar (Mt 14.28,29).
- Em Jerusalém, na última Ceia, Jesus lava seus pés (Jo
13.6,7).
- No Jardim do Getsêmani, corta a orelha de Malco (Jo
18.10,11).
- Em Jerusalém, no palácio do sumo sacerdote, nega o
seu Senhor (Jo 18.25,27).
- Em Jerusalém, sente remorso (Mt 26.75).
- João e ele correm, apressados, para o túmulo vazio (Jo
20.3-8).
- Junto ao mar da Galiléia, após a ressurreição, vê o
mestre e é consolado (Jo 21.3-17).

• Momentos ministeriais marcantes:

Em Jerusalém, profere seu maior discurso, quando


ocorrem quase três mil conversões (At 2.41).

- Em Jerusalém, cura um paralítico (At 3.6).


Página
- Em Jerusalém, profere dura sentença sobre Ananias e
Safira (At 5. 1-11).
- Em Lida, cura Enéias de paralisia (At 9.34,35).
188
- Em Jope, ressuscita Tabita, também chamada de Dorcas
(At 9.36-41).
- Em Jope, tem a visão do lençol descendo do céu (At
10.9-16).
- Em Cesaréia, prega na casa de Cornélio (At 10.23-48).
- Em Jerusalém, é libertado da prisão por um anjo (At
12.3-10).

Pedro em Roma, segundo a tradição católica


romana

Todos os anos, milhares de peregrinos cristãos vão para o


Vaticano, o centro da cristandade católica, para visitar a
basílica que possui o nome do apóstolo Pedro. É dito aos
visitantes que o túmulo de Pedro encontra-se nessa
igreja.

De acordo com uma antiga tradição, Pedro tornou-se


mártir em Roma durante as perseguições aos cristãos por
parte do imperador Nero, nos anos 60 A.D. Contudo, não
temos a mínima idéia de como ou quando ele chegou lá
e as evidências, arqueológicas e textuais, deste período
em Roma são poucas – datadas do segundo século A.D.,
tão-somente.

Clemente é o primeiro a escrever sobre o sofrimento e o


martírio de Pedro6, mas não nos dá nenhum indicativo de
que Pedro tenha trabalhado ou morrido em Roma. O
bispo Inácio de Antioquia, enviado a Roma e martirizado
entre os anos 110 e 130 A.D., também não faz menção a
Pedro como líder (bispo) da igreja em Roma.

Os teólogos católicos romanos entendem que o texto de


Página
1Pedro 5.12,13 o situa em Roma — mas de maneira
críptica; isto é, descrevem o remetente da carta como “o
eleito na Babilônia”, um código do século 1º para Roma,
189
o império opressor daqueles dias. Mas embora esta carta
contenha o nome de Pedro, alguns acreditam que não
tenha sido escrita por ele. Além disso, a carta é
endereçada aos cristãos das províncias da Ásia menor
romana, confirmando o relato de Paulo das atividades de
Pedro no extremo Leste.

No final do século 2º, contudo, Pedro se junta a Paulo, de


forma regular, como um dos fundadores da igreja em
Roma. A inspiração para essa tradição parece vir do livro
de Atos, que divide, de forma organizada, a descrição
sobre como o evangelho foi espalhado de Jerusalém (o
cenário de Atos 1) até Roma (o cenário do capítulo final,
Atos 28): uma seção de Pedro (Atos 1-12) seguida por
uma seção de Paulo (Atos 13-28). Na mesma época, o pai
da igreja, Irineu (c. 185 A.D.), descreveu a igreja de Roma
como “a igreja maior, mais antiga e igreja
universalmente conhecida, fundada e organizada em
Roma pelos apóstolos mais gloriosos: Pedro e Paulo”.7 O
presbítero (ancião da igreja) Gaio menciona dois
monumentos em Roma dedicados a esses “fundadores
da igreja”. Segundo Gaio, o monumento de Pedro
encontra-se no Vaticano e o de Paulo, no Caminho de
Ostiense (região Sul de Roma, onde se encontra a
Basílica de São Paulo fora dos muros)8. O termo usado
por Gaio para monumento foi tropaion, que significa
“troféu” — pode refer
ir-se também a um túmulo ou a um memorial erguido no
local do sofrimento9. Assim, Gaio é o escritor mais
recente a situar o martírio de Pedro em Roma.

No início do século 3º, o escritor cristão Tertuliano supõe


que os leitores saibam que Pedro foi crucificado e Paulo
Página
executado (provavelmente decapitado) durante as
perseguições do imperador romano Nero10. Tertuliano
interpreta a morte de Pedro como o cumprimento de João
190
21.18,19, no qual Jesus prediz: “Quando for velho
[Pedro], estenderá as mãos e outra pessoa o vestirá e o
levará para onde você não deseja ir. Jesus disse isso para
indicar o tipo de morte com a qual Pedro iria glorificar a
Deus”.

A tradição, comum no meio cristão, de que Pedro fora


crucificado de cabeça para baixo vem de uma obra de
231 A.D: “E, por fim, vindo a Roma, ele foi crucificado de
cabeça para baixo; pois havia pedido que sofresse
daquela maneira”.11 Jerônimo, no século 4º, acrescenta
os motivos que levaram Pedro a fazer tal pedido: “Ele
recebeu em suas mãos a coroa do martírio ao ser
pregado na cruz com a cabeça voltada para o chão e
seus pés levantados para o alto, afirmando que ele era
indigno de ser crucificado da mesma maneira que seu
Senhor”.12

Segundo a pregação romana, o túmulo de Pedro


encontra-se exatamente embaixo do altar consagrado da
basílica e atrás do Nicho dos Pálios, local onde as estolas
litúrgicas (pálios) são deixadas durante a noite antes de
serem entregues aos novos bispos. Escavadores
modernos encontraram um nicho escondido nessa
parede contendo os ossos de um homem envolvidos em
um pano de púrpura cara que, “acreditam”, possuía
cerca de 60 anos quando morreu. Em 1968, a igreja
declarou que tais ossos eram os restos de São Pedro.

É importante esclarecer que todas estas informações são


contestadas por vários estudiosos, devido à ausência de
evidências satisfatórias e suspeita de manipulação de
informações por parte da igreja romana. Todo o esforço
Página
de Roma em autenticar a presença de Pedro por lá visa
aglutinar argumentos que corroborariam para aceitação
de seu papado em Roma, pois como poderia sê-lo se
191
jamais estivera lá? Entretanto, ainda que houvesse
consenso de que Pedro esteve em Roma e que lá foi
martirizado, isso ainda não seria o suficiente para alterar
a avalanche de argumentos bíblicos que se opõe ao
estabelecimento de seu papado. A dogmática católica
depende da presença de Pedro em Roma, porém, esta
suposta presença, se fosse confirmada, não tem a
capacidade em si mesma de evidenciar que Pedro tenha
iniciado a linha de sucessão apostólica, como quer a
igreja romana.

Bibliografia:

Noites com os romanistas, M.H. Seymour, Edições


Cristãs.
Doze homens, uma missão, Aramis C. de Barros, Ed. Luz
e Vida.
O cristianismo através dos séculos, Earle E. Cairns, Ed.
Vida Nova.
Pedro nunca foi papa nem o papa é vigário de Cristo.
Aníbal P. Reis. Ed. Caminho de Damasco.
Quem fundou sua Igreja, padre Alberto Luiz Gambarini,
Ed. Ágape.
Os papas, Aquiles Pintonello, Ed. Paulinas.
A hierarquia, padre José Comblin, Ed. Paulus.
Bible Review, fevereiro de 2004, artigo “Peter in Rome”

Notas:

1 Doutrina que afirma a existência de certas verdades


que se podem provar indiscutíveis (Não é este o caso da
dogmática católica, passível de contestação).
2 Eclesiologia: estudo pertencente ou relativo à Igreja,
Página
eclesial.
3 Semasiologia: estudo do sentido das palavras, que
parte do significante para estudar o significado.
192
4 Eusébio de Cesaréia (265-339). Incentivado por
Constantino, fez a narração da primeira história do
cristianismo, coroando-a com sua imperial adesão a
Cristo.
5 Publicado no site:
http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/a_igreja_ortodoxa/
o_cristianismo_ortodoxa_em_perguntas_e_respostas.htm
6 Clemente 5.4.
7 Irineu, Against Heresies [Contra Heresias] 3.3,2.
8 Citado em Eusebius, History of the Church [A história
da Igreja] 2.25.
9 Veja Hans Georg Thümmel, Die Momorien fúr Petrus
und Paulus im Rom, Arbeiten zur Kirchengeschichte 76
[As memórias de Pedro e Paulo em Roma, uma obra
sobre a história da Igreja (Berlin: Wlater de Gruyter,
1999), p. 6,7.
10 Tertuliano, Scopiace 15.3.
11 Origen, Commentary on Genisis [Comentário sobre
Gênesis], relatado em History of Church [História da
Igreja] de Eusébio 3.1.2.
12 Jerônimo, Lives of Illustrious Men 1.
13 Livro 1, das Retratações, cap 21 (Livro escrito no fim
da sua vida, para retratar-se de seus escritos anteriores).
14 Publicado no site:
http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/pries
thood_p.htm, sob o título
“Colaboradores de Deus – sobre o sacerdócio e a
hierarquia eclesiástica”, escrito por Bispo Alexander
Mileant e traduzido por Elga Drizul.

Página
193
16. A HIERARQUIZAÇÃO DA IGREJA CATÓLICA
ROMANA

Por Marcos Heraldo Paiva

O diácono

É a primeira ordem clerical. Como todas as demais


ordens sagradas, esta também só pode ser conferida a
homens e por um Bispo, que exigirá do candidato o
certificado de confirmação (crisma). Para o diaconato
permanente, os candidatos que não são casados não
podem ser admitidos até que completem 25 anos de
idade. Para os casados, a idade mínima é 35 anos, sendo
necessário o consentimento da esposa. Caso não haja
esse consentimento, o aspirante não pode ascender ao
sacerdócio.

Uma vez admitido na ordem antes de se casar, deve


juramentar a guarda do celibato. Aqueles que almejam o
presbitério devem ingressar, com 23 anos de idade, no
seminário para o curso, de três anos, do diaconato e já
ter completado o quinto ano do curso filosófico teológico.
A vida ministerial do diácono católico é regida pelo bispo
diocesano.

O padre

É a ordenação imediatamente posterior ao diaconato e


segue os preceitos de idade, submissão, atribuições e
obrigações. A promoção ao presbitério é automática e só
não se realiza se houver impedimentos de ordem
eclesiástica ou de foro íntimo do diácono. O presbítero
Página
(padre) pode dar todas as bênçãos que não estiverem
reservadas ao papa e aos bispos, além de ministrar todos
os ritos litúrgicos, diferentemente do diácono, que só
194
pode conferir as bênçãos que lhe são expressamente
permitidas.

O bispo

Eclesiástico que tem a plenitude do sacerdócio, com


poderes de conferir os sacramentos da confirmação e das
ordens, podendo, ainda, sagrar outros bispos – com a
devida autorização de Roma. É colocado como dirigente
espiritual de uma diocese (divisão territorial composta
por várias paróquias) e considerado sucessor dos
apóstolos de Jesus. Somente se subordina ao papa e,
eventualmente, a um arcebispo. O traje e paramentos
que o distinguem são o báculo (cajado), o anel, a cruz
peitoral e a mitra (chapéu). Para que seja consagrado,
deve ter, no mínimo, 35 anos de idade e ter servido
como padre durante pelo menos cinco anos.

O arcebispo metropolitano

Ocupa a primazia entre seus pares numa Sé Episcopal


(igreja principal). Guarda a conservação da fé e da
doutrina no âmbito de sua diocese, designa o
administrador diocesano e, caso seja necessário, pode
exercer a função do bispo diocesano – com prévio aviso –
para que possa, no lugar do bispo, celebrar as funções
sagradas. O traje (pálio) do arcebispo deve ser solicitado
três meses após a consagração episcopal. Trata-se de um
ornamento litúrgico que consiste numa faixa de lã branca
adornada com cruzes negras, sendo usada em torno do
pescoço em cerimônias pontificais. Este traje só pode ser
Página
utilizado dentro de paróquias e catedrais que estejam
sob a autoridade de sua arquidiocese. Caso seja
transferido para outra diocese, o paramento deve ser
195
substituído.

O cardeal

Depois do papa, é o mais alto dignatário da Igreja


Católica Romana. Escolhido pelo pontífice, compõe o
“colégio episcopal”, que é responsável por sua eleição.
São membros titulares do clero romano, mas ainda se
dividem em três tipos: cardeal-bispo, cardeal-presbítero e
cardeal-diácono. A escolha é livre por parte do sumo
pontífice, que faz a seleção de acordo com o perfil
eclesiástico, considerando questões doutrinárias, bons
costumes, prudência e modo de agir. O papa pode
escolher o cardeal entre os presbíteros, que recebe,
necessariamente, consagração episcopal antes da
promoção cardinalícia.

Reunidos em conclave, os cardeais elegem o soberano


pontífice. Segundo determinação do papa João Paulo II,
os cardeais devem abandonar seus cargos aos 75 anos e,
aos 80, já não podem mais ser eleitores do papa. Após a
promoção, caso não tenham dioceses ou arquidioceses
sob sua responsabilidade, são obrigados a residir em
Roma. Os cardeais, chamados de “príncipes da Igreja”,
desfrutam de privilégios e honras e recebem o
tratamento de “eminência”. Suas vestes são escarlates,
simbolizando o voto de darem a vida pelo papa, se
preciso for.

O papa/sumo pontífice

Posto máximo e individual da Igreja Católica. Desde o


século 18, é reconhecido no Ocidente como posição de
Página
uso exclusivo do bispo de Roma. O papa faz declarações
públicas doutrinais, pode convocar concílios, canonizar
santos, resolver questões legais (contra sua sentença
196
não há apelação ou recurso), estabelecer dioceses e
eleger bispos, além de outras funções. Não responde a
ninguém.

A tradição católica ensina que o papa é o sucessor de


São Pedro, a quem Cristo teria confiado a Igreja. A parte
burocrática da Igreja Católica responsável pela
publicação e revisão dos atos papais é conhecida como
Cúria.
17. CELIBATO BÍBLICO X CELIBATO HUMANO

Por Eguinaldo Hélio de Souza

O Novo Dicionário Aurélio apresenta uma definição


superficial sobre o termo “celibato”. Diz apenas que é “o
estado de uma pessoa que se mantém solteira”.

Em uma visão bíblica e religiosa, porém, é muito mais do


que isso. Celibato é a ausência de atividade sexual na
vida de um indivíduo. Ocorre geralmente por motivos
religiosos, embora qualquer pessoa possa exercê-lo. O
celibato pode (e às vezes até deve) ser exercido por
apenas um período. Os solteiros devem, com certeza,
praticá-lo, bem como os viúvos e separados. Mas
também pode ser praticado temporariamente por
motivos espirituais (1Co 7.5). Nosso enfoque, aqui, não é
o estado de celibato temporário, mas sua prática
permanente.
Página
Claro que a Bíblia fala em celibato, mas nem tudo o que
197
leva este nome é bíblico. Distorcido ao longo dos anos
por influências gnósticas e estranhas, esta prática se
tornou, por imposição humana, um “preceito de homens”
e “doutrina de demônios” (1Tm 4.1), distante dos
critérios de Deus. A Enciclopédia Britânica assim se
expressou sobre o assunto: “A ligação entre o
cristianismo e o judaísmo e a aceitação do Antigo
Testamento pela Igreja cristã, tendia a perpetuar na
Igreja primitiva a estima que os hebreus tinham por
casar e ter numerosos filhos”.

Logo, se o estado celibatário se tornou sinônimo de um


estado espiritual, isso não ocorreu como produto da
pregação apostólica. Outras influências fora da cultura
hebraica e do contexto bíblico levaram a prática a
extremismos danosos.

Quando o celibato é bíblico?

Dizer que o celibato nunca é bíblico, não é verdade.


Podemos encontrar base para ele tanto nos sinópticos
quanto nos escritos paulinos. A história, sacralizada como
tradição no catolicismo, não é normativa. Há exemplos e
afirmações neotestamentárias que devem ser levadas
em conta. Ignorá-los tem gerado pesados e amargos
frutos.

Quando é uma decisão pessoal

Quando Jesus falou sobre pessoas que se decidiram por


viver uma vida celibatária por amor ao reino de Deus, foi

Página
bem explícito em apresentar isso como uma decisão
puramente pessoal. Não é uma adesão a algum
regulamento fixo da lei mosaica ou a qualquer outro
198
ponto das Escrituras, mas uma escolha deliberada e
própria. “Porque há eunucos que nasceram assim; outros
foram feitos eunucos pelos homens; e há eunucos que se
fizeram eunucos por causa do reino dos céus” (Mt 19.12;
grifo do autor).

Em Israel, não havia uma classe instituída de eunucos


como havia em outras nações. Aliás, os castrados eram
proibidos de entrar na congregação do Senhor (Dt 23.1).
Quando a Bíblia faz referência aos eunucos, geralmente
eles pertencem a outras nações. Eram guardas de harém
(Et 2.3,14,15), ou serviam os reis e rainhas em diversos
cargos (Jr 38.7; At 8.27). Conforme o Dicionário da Bíblia
John D. Davis, não é muito certo que o termo eunuco
tenha o mesmo significado em todas as passagens das
Escrituras, pois há casos em que falam de eunucos
casados, como, por exemplo, Potifar, que era casado (Gn
37-39).

Também se faz, ocasionalmente, menção de eunucos


entre o povo de Israel ou mesmo em Judá (2Rs 24.15;
25.19; Jr 29.2;). John D. Davis afirma que “os eunucos
existentes no reino de Judá eram, pela maior parte,
senão em sua totalidade, estrangeiros”, como vemos em
Jeremias 38.7. Lembrando ainda que Jesus fala de
eunucos de nascença e de eunucos castrados pelos
homens.

De qualquer maneira, não havia algo como uma


instituição de “eunucado” como se isso tivesse alguma
virtude em si. A cultura judaica valorizava o casamento,
a procriação e a varonilidade. O conceito de renúncia ao
casamento por amor ao reino de Deus é um elemento
Página
novo dentro da fé escriturística, com um caráter
estritamente pessoal.
199
Quando o celibatário recebeu o dom para “aceitar
isto”

Há um segundo ponto importante no celibato bíblico.


Além da decisão individual, o celibatário deve possuir
aptidão para permanecer em tal estado. Jesus terminou
sua sentença com a frase: “Quem puder aceitar isto,
aceite-o” (Mt 19.12), mostrando que nem todos estavam
aptos a receber tal preceito. Jesus disse ainda que nem
todos poderiam receber esta palavra, mas somente
aqueles a quem foi concedido recebê-la (v.11).

Paulo, o apóstolo celibatário, afirma a questão de


vocação ainda com mais veemência ao responder às
perguntas dos coríntios sobre o casamento. “Porque
quereria que todos os homens fossem como eu mesmo;
mas cada um tem de Deus o seu próprio dom, um de
uma maneira, e outro de outra” (1Co 7.7). Pela revelação
bíblica, não basta alguém desejar ser celibatário para sê-
lo. É necessária uma capacitação especial de Deus.

Quando o celibato leva a uma maior santificação a


Deus

O motivo do celibato bíblico é só um: maior


disponibilidade para Deus e o seu reino (Mt 19.12). O fato
de um cristão não querer se casar pode ser ocasionado
por motivos que não um chamado para servir a Deus
integralmente. Pode haver motivos de ordem social,
física ou psicológica. O celibatário vocacionado o fará
com pleno prazer, não se sentirá oprimido pela ausência
de um marido ou esposa, mas utilizará sua vida
completamente a serviço de Deus.

Paulo coloca o celibato neste foco, mostrando que os que Página


são casados têm de cuidar de coisas relativas a esta vida
200
para agradar seu cônjuge, enquanto que os solteiros
cuidam das coisas do Senhor apenas, tendo maior
consagração, tanto no seu corpo quanto no seu espírito
(1Co 7.32-34).

Não é a mera abstinência sexual que constitui o valor de


um celibato voluntário, mas o resultado desta abstenção
no serviço divino. Este ponto é importante, pois não é a
ausência do ato sexual que torna o celibatário mais
consagrado, mas uma vida desligada das coisas deste
mundo, voltada somente para Deus e seu reino.

Quando o celibato não é bíblico?

Embora o celibato clerical católico seja o mais conhecido,


houve e há outros grupos que entendem o celibato como
sendo necessário e obrigatório, pelo menos para algumas
classes especiais dentro do grupo, criando uma espécie
de casta de eunucos espirituais. Grupos menores, na
História passada e em nossos dias, exigem o celibato
como um estado automático de maior santidade e por
isso o impõe como exigência para adesão ao grupo.

Quando é imposto por outros

Uma coisa é incentivar o celibato. Outra é exigi-lo. Uma


coisa é crer que uma vida de solteiro, voltada só para as
coisas divinas, é melhor. Outra coisa é estabelecer que
só possa ser dessa forma. Dizer que alguém é obrigado
ao celibato se deseja ser um ministro da Igreja de Cristo
é uma ordenança humana e um ensino antibíblico: “Mas
o Espírito expressamente diz que, nos últimos tempos,
apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos
Página
enganadores e a doutrinas de demônios, pela hipocrisia
de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua
própria consciência, proibindo o casamento...” (1Tm 4.1-
201
3; grifo do autor).

Não existe qualquer lugar nas Escrituras que estabeleça


um estado de solteiro obrigatório para quem quiser
tomar sobre si o encargo da obra de Deus. O celibato
obrigatório teve uma evolução histórica, por influências
não-apostólicas e não-bíblicas. Ainda lemos na Britânica:
“O celibato de clérigos não parece ter sido obrigatório
durante os primeiros séculos cristãos. A opinião
formalmente sustentada por alguns de que o celibatário
teve origem apostólica tem sido largamente
abandonada. A liberdade de escolha era a norma [...] No
Ocidente, o Concílio de Elvira na Espanha (306 d.C.)
decretou o celibato nas seguintes palavras: ‘é
inteiramente proibido a bispos, sacerdotes, diáconos e
todos os clérigos colocados no ministério viver com suas
esposas e filhos gerados. Quem o fizer será destituído de
sua posição de clérigo’”.

Quando o celibatário não consegue se conter

Paulo foi taxativo ao dizer que se alguém não pode se


conter, que então se case, pois é melhor casar do que
viver abrasado (1Co 7.9). Isso quer dizer que somente
alguém que é celibatário por dom e vocação deve insistir
em permanecer nessa condição. Os demais estão
desobrigados pela Palavra a tal esforço.

Quando entende o sexo como inerentemente mal

A imposição celibatária nasceu da falta da distinção entre


a perversão sexual e o ato sexual propriamente dito. A
perversão sexual é completamente condenada nas
Página
Escrituras. Já o ato sexual faz parte dos planos de Deus
desde a criação do homem, pois, ao criá-lo, disse:
“Crescei e multiplicai-vos” (Gn 1.28). “E viu Deus que
202
também isto era muito bom” (v.31).

Outras influências não-bíblicas foram responsáveis por


esse desvio. Essa visão, provavelmente, tem raízes
gnósticas. O gnosticismo classificava a matéria como
algo inerentemente mal, sendo produto não de um Deus
bom e sábio, mas de outra entidade inferior. Eusébio, em
sua História eclesiástica, tece comentário sobre uma
seita denominada “encratitas”, originada de dois hereges
gnósticos: Saturnino e Marcião. Eusébio escreve o
seguinte, citando Irineu: “Aqueles que brotaram de
Saturnino e de Marcião, chamados encratitas,
proclamavam abstinência do casamento, deixando de
lado o propósito original de Deus e censurando
tacitamente quem os fez macho e fêmea para a
propagação da raça humana”.

Ainda prossegue Eusébio, no mesmo capítulo, citando


Irineu e repreendendo a posição desses gnósticos com
respeito ao matrimônio: “Também o casamento,
declarava [um certo Taciano] juntamente com Marcião e
Saturnino, era apenas corrupção e fornicação”.

“Os gnósticos, que identificavam a matéria com o mal,


procuravam uma forma de criar um sistema filosófico em
que Deus, como espírito, seria livre da influência do mal
e no qual o homem seria identificado, no lado espiritual
de sua natureza, com a divindade [...] Em seu sistema,
não havia lugar para a ressurreição da carne [...] Também
os maniqueus, outra seita gnóstica, popularizou o
celibato. O maniqueísmo provocou tal exaltação da vida
ascética a ponto de ver o instinto sexual como mal e
enfatizar a superioridade do estado civil do solteiro”.

Muitos líderes do século 2o tinham uma visão do Página


casamento influenciada pelo gnosticismo. Chegavam a
203
interpretar o casamento como uma conseqüência da
queda de Adão e não como algo anterior a ele, o que não
é certo. Ficavam com uma visão conflitante do
casamento, como sendo necessário e desaconselhável ao
mesmo tempo: “A hesitação dos ortodoxos casuístas
sobre este interessante assunto trai a perplexidade de
homens relutantes em aprovar uma instituição que eles
eram compelidos a tolerar. Alguns gnósticos foram mais
consistentes. Eles proibiram o uso do casamento”.
Quando o faz por “proibição demoníaca”

O apóstolo Paulo foi celibatário por plena voluntariedade.


Mas ele não encarava tal fato como uma obrigação
ministerial. Muito pelo contrário. Questionou os coríntios
em sua primeira epístola: “Não temos nós o direito de
levar conosco uma esposa crente, como fazem os demais
apóstolos, e os irmãos do Senhor e Cefas?” (1Co 9.5).

Logo, o celibato obrigatório não era instituição


apostólica. Uma nota da Bíblia de Jerusalém sobre esta
passagem, diz: “Como quer que seja, em vista dos
problemas materiais, os apóstolos casados, como Cefas
(Pedro), geralmente levavam a esposa em missão”.

É difícil traçar uma genealogia histórica para o celibato


clerical. Com certeza, não foi apostólico tanto quanto não
é bíblico. Nunca foi geral no cristianismo e, mesmo
quando foi imposto aos clérigos, não era praticado
uniformemente: “Por exemplo, a igreja oriental sempre
permitiu que seus sacerdotes casassem. O celibato
clerical é exigido somente dos monges. Os bispos
ortodoxos orientais são tradicionalmente escolhidos entre
Página
os monges, portanto, celibatários. O sacerdote simples
da paróquia, no entanto, tem permissão para se casar
antes de ser ordenado. Se for solteiro por ocasião de sua
204
ordenação, deve permanecer assim. A tradição católica
romana desenvolveu paulatinamente a prática do
celibato clerical universal, de tal modo que todos os
sacerdotes da Igreja devem permanecer solteiros e
castos”.

A argumentação do catolicismo sobre o celibato clerical é


de que não há imposição. Quem faz o voto sacerdotal o
acata voluntariamente. Isso, todavia, constitui uma
imposição humana e não divina. As pessoas não deviam
ter de escolher entre ser ministro cristão e ter uma
família. As duas alternativas não são incompatíveis. Dizer
que alguém só pode ser ministro se for celibatário é
proibir o casamento para o clérigo.

Quando, porém, lemos a Palavra de Deus, vemos que


esta posição está absolutamente em conflito com ela.
Veja o que Paulo escreveu sobre algumas das
características dos ministros: “Esta é uma palavra fiel: Se
alguém deseja o episcopado, excelente obra deseja.
Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de
uma mulher [...] tendo seus filhos em sujeição [...] se
alguém não sabe governar a sua própria casa [família],
terá cuidado da igreja de Deus?” (1Tm 3.1-5; grifos do
autor). E ainda: “Por esta causa te deixei em Creta, para
que [...] de cidade em cidade, estabelecesse presbíteros,
como já te mandei: aquele que for irrepreensível, marido
de uma mulher, que tenha filhos fiéis [...] (Tt 1.5,6; grifos
do autor).

Quando leva a desvios sexuais

Não faz muito tempo, a mídia mundial ficou repleta de


Página
denúncias de práticas homossexuais e pedófilas por
parte do clero católico. Isso sem falar no Movimento dos
Padres Casados, que é uma dissidência católica e um
205
protesto aberto contra o celibato obrigatório.

Não é de se espantar coisas desse tipo. Quando os


impulsos sexuais não são refreados por um dom da graça
de Deus, serão extravasados de uma forma ou de outra.
Assim escreveu o apóstolo em sua epístola aos Romanos:
“E semelhantemente, também os varões, deixando o uso
natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade
uns para com os outros, varão com varão, cometendo
torpeza” (1.27; grifos do autor). A torpeza foi o resultado
de deixar “uso natural da mulher”.

Deus criou o homem como um ser sexuado e


estabeleceu princípios pelos quais essa necessidade
seria legitimamente atendida. Isso está claro na Bíblia:
“Macho e fêmea os criou” (Gn 1.27); “Não é bom que o
homem esteja só” (Gn 2.18); e, por fim, “Deixará o
homem seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher e
serão os dois uma só carne” (Gn 2.24). E ainda o
apóstolo Paulo arremata: “Todavia, para evitar a
fornicação, cada homem tenha a sua mulher e cada
mulher tenha o seu marido” (1Co 7.2 – Bíblia de
Jerusalém).

A insistência na obrigatoriedade do celibato clerical,


tanto na prática quanto na matéria teológica, é plena
demonstração de uma “consciência cauterizada” ou,
como traduz a Bíblia de Jerusalém, “hipocrisia dos
mentirosos, que têm a própria consciência como que
marcada com ferro quente” (1Tm 4.2).

Considerações finais

Página
Se alguém deseja ser celibatário, sente que tem um
chamado de Deus para isto, sente-se capacitado por
Deus para assumir essa posição, então que seja. Mas,
206
definitivamente, não há qualquer grau de
pecaminosidade no casamento e, especificamente, no
ato sexual praticado pelo marido e a mulher. “Mas, se te
casares, não pecas; e, se a virgem se casar, não peca”
(1Co 7.28).

Para terminar, vale a observação do dr. Otto Borchert


sobre Jesus e o casamento:
“Não podemos duvidar, nem por um momento, que Jesus
via grandes benefícios no casamento. Em algumas de
suas parábolas, Ele retratou a alegria do casamento
como a maior de todas, chegando a se comparar com o
noivo. Ele mesmo tomou parte em um casamento e
experimentou o maior prazer com os ramos de oliveira
(filhos) que são o resultado de tal união. Além disso,
invocou a lei da criação (Deus os fez macho e fêmea)
contra Moisés, revelando o pleno significado intrínseco e
a seriedade desta lei (Mt 19.4). Aqueles dentre nós que o
conhecem, reconhecem que Jesus nunca foi partidário
das pessoas que proíbem o casamento (1Tm 4.3), da
mesma forma, jamais podemos crer que seja possível
que Ele [Jesus] tenha dado o conselho oferecido pelo seu
apóstolo de que é melhor não se casar”.

Notas:

1 Enciclopédia Britânica, 1969, vol 5.


2 CESARÉIA, EUSÈBIO de. História eclesiástica (Livro 4,
XXIX). São Paulo: Fonte editorial, 2005, p. 146.
3 Ibid.
4 CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos.
São Paulo: Edições Vida Nova, p. 81.
Página
5 Declínio e queda do império romano, Cap 15, p.192.
Coleção grandes livros do Ocidente, Enciclopédia
Britânica.
207
6 Ibid.Cap XV, 92.
7 OLSON, Roger. História da teologia cristã. São Paulo:
Editora Vida, 1999, p. 309.
8 BORCHERT, Otto. O Jesus histórico. São Paulo: Edições
Vida Nova, 1985, p. 245.

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