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RELEITURAS DA HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO SUL
RELEITURAS DA HISTÓRIA
DO RIO GRANDE DO SUL
RELEITURAS DA HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO SUL - 2011 -

- 2011 -

CORAG – Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas

Diretor-presidente:

Homero Alves Paim

Diretor Administrativo-financeiro:

Dorvalino Santana Alvarez

Diretor Industrial:

Antônio Alexis Trescastro da Silva

DIREITOS RESERVADOS DESTA EDIÇÃO:

Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore 1ª edição: Porto Alegre

Revisão:

Greice Zenker Peixoto

Diagramação:

Lilian Lopes Martins - Corag

Dados Técnicos:

Maria Helena Bueno Gargioni

Impressão:

CORAG - Companhia Rio-grandense de Artes Gráficas Tiragem: 1000 exemplares

2011

R362 Releituras da História do Rio Grande do Sul. Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore. Organizadores: Sandra da Silva Careli, Luiz Claudio Knierim. Porto Alegre, CORAG, 2011.

282p.

ISBN: 978-85-7770-149-0 (Corag)

1.História. 2. Rio Grande do Sul. I. Sandra da Silva Careli. II. Cláu- dio Knierim. III. Título. Releituras da História do Rio Grande do Sul.

CDU 94(816.5)

Governador do Estado do Rio Grande do Sul Tarso Genro Secretário de Estado da Cultura Luiz Antonio de Assis Brasil Presidente da Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore Rodi Pedro Borghetti Diretor da Faculdade Porto-Alegrense (FAPA) Darci Sanfelici

Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore Av. Borges Medeiros, 1501 - Praia de Belas Porto Alegre – RS CEP: 90020-020 Fones (51) 3228-1711 - (51) 3228-1764 Correio Eletrônico: presidencia.igtf@via-rs.net Sitio: www.igtf.rs.gov.br

Organizadores Sandra da Silva Careli Luiz Claudio Knierim

Autores Ana Regina Falkembach Simão Arthur Lima de Avila Edison Bisso Cruxen Jorge Euzébio Assumpção Luís Fernando da Silva Laroque Marcia Eckert Miranda Paulo Roberto de Fraga Cirne Raul Rebello Vital Junior René E. Gertz Ricardo Arthur Fitz Sérgio Roberto Rocha da Silva Véra Lucia Maciel Barroso

APRESENTAÇÃO

A riqueza da História do Rio Grande do Sul foi regis- trada ao longo dos tempos em diferentes suportes de texto, sob as mãos de diferentes atores, movimentos sociais e insti- tuições. Os segmentos responsáveis pelo registro, ao lerem o processo vivido pela sociedade, traduziram um pouco de si nessa sistematização. Ter a consciência da ausência de imparcialidade nesses escritos permite ao leitor certa visibilidade dos atores sociais que povoaram e povoam a constituição da história regional. Nesse sentido, optamos por uma perspectiva afinada com o pensamento de Thompson (2001, p. 263), que afirma:

A

transformação histórica acontece [

]

pelo fato

de

as alterações nas relações produtivas serem vi-

venciadas na vida social e cultural, de repercutirem nas ideias e valores humanos e de serem questiona- das nas ações, escolhas e crenças humanas.

Uma nova interpretação histórica deve incluir os atores sociais até então esquecidos ou desprezados. Precisa, ainda, trabalhar com abordagens novas que promovam a visibilidade de processos tanto de curta quanto de longa duração. O reco- nhecimento da multiplicidade de caminhos que nos consti- tuem como sociedade possibilita que nos percebamos como uma diversidade de identidades – de etnia, de classe, de gêne- ro, de idade

Desse modo, a identidade, em uma perspectiva so- cial, é realizada no espaço das relações, tratando-se

de um processo dinâmico, ou seja, [

contínuo de construção e desconstrução, na ambi- güidade presente e inevitável que a compõe, impli- cando um trabalho de unificação de diversidade, incorporando a diferença” (MAHEIRIE, 1994, p. 65 apud CROMACK, 2004).

] um processo

A obra que apresentamos ao público foi operacionalizada

a

partir de uma parceria entre o Instituto Gaúcho de Tradição

e

Folclore (IGTF) e a Faculdade Porto-Alegrense (FAPA), duas

instituições comprometidas com o resgate da riqueza histórica regional e com a reflexão em torno dos processos econômicos,

políticos, sociais e culturais vividos nesse estado. Desse traba- lho, que busca traduzir e atualizar as discussões que se apresen- tam com relação à História do Rio Grande do Sul, resultou o livro Releituras da História do Rio Grande do Sul. Coube ao IGTF a responsabilidade de edição do livro. Enquanto representante da Comissão Organizadora da Sema- na Farroupilha, o Instituto colocou-se como órgão aberto ao debate e à discussão de temas históricos e culturais caros à historiografia do Rio Grande do Sul. Profissionais de diversas áreas do conhecimento, indicados pela FAPA, contribuíram com pesquisas, levantamentos e questionamentos que forne- cem ao livro o peso de uma reflexão honesta e ponderada. Nessa perspectiva, com ênfase em aspectos que eviden- ciassem a problematização crítica, priorizamos a abordagem de temas clássicos na História regional. Com base nos tra- balhos de pesquisa atuais, os quais ensejam novos conceitos

e categorias – formulando e incorporando, entre outras, uma

abordagem étnica a esse tipo de temática –, os artigos trazem perspectivas inovadoras. Para abranger diversas questões e li-

nhas de pensamento, a obra está organizada em 12 capítulos. No primeiro capítulo, Luís Fernando da Silva Laroque desvela o protagonismo dos povos ameríndios na formação do estado, em “Os nativos Charrua/Minuano, Guarani e Kaingang:

o protagonismo indígena e as relações interculturais em terri-

tórios de planície, serra e planalto do Rio Grande do Sul”. Seu texto rompe com a lógica perversa da “terra sem dono”, de um

Rio Grande surgido, unicamente, da ação das populações euro- peias que disputaram o controle do território. Tomando como baliza temporal o século XVI até a contemporaneidade, o autor sistematiza os conhecimentos existentes sobre importantes so-

ciedades nativas que habitavam – e ainda habitam – a região, além de explorar as características sociais das relações entre os diferentes grupos étnicos no processo de formação do estado. Ricardo Arthur Fitz, por sua vez, desenvolve o tema “Os jesuítas no território gaúcho”. O trabalho analítico inicia com a contextualização da Companhia de Jesus e sua relação com o Estado espanhol, passando pela avaliação dos instru- mentos empregados na ação missionária até o extermínio das reduções. O artigo questiona a “autonomia” das redu- ções no contexto da exploração colonial, administrada pela Coroa espanhola. O capítulo redigido por Edison Bisso Cruxen, inti- tulado “A ocupação ibérica do território e as disputas pelas fronteiras do continente de Rio Grande”, trata dos meandros envolvidos na colonização europeia do Rio Grande do Sul e retoma a discussão a respeito do conceito de fronteira – tão importante para a compreensão do processo de constituição do atual território de nosso estado, originalmente envolto na lógica das contendas entre Portugal e Espanha. O autor de- monstra que, muito além das relações belicosas entre as co- roas ibéricas, na Região do Prata, houve um intenso contato cultural, comercial e social entre os habitantes luso-brasileiros e hispano-americanos. A fronteira, nessa perspectiva, carac- teriza-se por ser contraditória e por apresentar mobilidade dinâmica, caracterizando-se, muito mais, como um meio de contato que um simples instrumento de separação entre terri- tórios e populações. Marcia Eckert Miranda explora a complexidade que envolveu a posse do território pelos portugueses no capítulo “De comandância militar à província: a administração do Rio Grande de São Pedro (1737-1824)”. A autora aborda a adminis- tração do Rio Grande de São Pedro no período que se esten- de do início da ocupação portuguesa, com a criação do Forte Jesus Maria José, em 1737, à posse do primeiro Presidente da Província, José Feliciano Fernandes, em 1824. Ela analisa a es-

trutura máxima de governo da região, seus limites e poderes e

as transformações ocorridas nesse sistema, ao longo do tempo, qual seja: a Comandância Militar, o Governo da Capitania Su- balterna, o Governo da Capitania Geral, a Junta Governativa Provisória e a Presidência da Província.

O quinto capítulo, de autoria de Véra Lucia Maciel

Barroso,“Os açorianos no Rio Grande do Sul: uma presença desconhecida”, tem a marca do desvendamento daqueles que, forçados à diáspora no século XVIII, encontraram na nova ter- ra sul-americana, que imaginavam ser a da promissão, muitos

reveses e não poucos desafios. O texto critica a pouca valoriza- ção da história e da cultura açoriana na historiografia regional. Jorge Euzébio Assumpção, autor do capítulo “Época das charqueadas (1780-1888)”, aprofunda o olhar sobre as et- nias negras, advogando a importância do trabalho dos cativos negros na estruturação do estado. Defende a necessidade de uma leitura crítica em torno do mito da “democracia racial sulina”, consolidado por vertentes da historiografia brasileira.

O texto de Raul Rebello Vital Júnior, “Caminhos da

colonização alemã no Rio Grande do Sul: políticas de Estado, etnicidade e transição”, analisa os objetivos do Estado brasi- leiro ao inaugurar a política colonizatória no Brasil, ao longo do século XIX. Aborda questões ligadas a políticas de Estado, condições de vida dos colonos e etnicidade. Arthur Lima de Avila, no oitavo capítulo, “Caudilhos e fronteiriços: a Revolução Farroupilha e seus vínculos rio- -platenses”, discute criticamente a ligação do Rio Grande do Sul com o seu entorno territorial. No capítulo, o autor insere o conflito farroupilha no cenário das lutas associadas aos proces- sos de formação dos Estados Nacionais latino-americanos e, ainda, explicita os vínculos das elites farroupilhas com os cau- dilhos platinos. O texto rediscute o conceito de fronteira em bases mais complexas, a exemplo do texto de Edison Cruxen. Ana Regina Falkembach Simão, no capítulo “Da co-

lônia ao Império: uma análise da política externa brasileira”,

situa o Rio Grande do Sul em relação ao Prata no que se refere

à dinâmica política externa inicialmente portuguesa, e, poste-

riormente, brasileira. A autora esclarece o papel do nacionalis-

mo nas contendas do período. No capítulo “Aspectos da Revolução Federalista no con- texto político de Júlio de Castilhos”, Sérgio Roberto Rocha

da Silva, focaliza o regime republicano e a Revolução Federa- lista no Rio Grande do Sul, no período entre 1893-1895, dis- secando os fatos que compuseram o cenário da luta armada

e também os processos de mitificação que envolvem Júlio de

Castilhos. O autor convida-nos a refletir sobre as diferentes memórias produzidas em torno de dois importantes eventos na história gaúcha: a “Revolução Federalista” e a “Revolução Farroupilha”. René E. Gertz, no capítulo “A colonização no período

republicano – segunda fase”, oferece continuidade à reflexão, vista em outras unidades do livro, referente à atuação de dife- rentes etnias na constituição do Rio Grande do Sul. O autor mostra-nos que, somente nos anos de 1870, italianos e polo- neses juntaram-se a então já cinquentenária imigração ale- mã. Esses imigrantes foram, mais tarde, seguidos por outros grupos e, no final desse processo, em torno de 40% da popu- lação gaúcha era considerada de origem centro-europeia. A presença dos imigrantes e de seus descendentes foi promovida

e encorajada por muitos, mas também criticada por outros. O

texto trata das alegrias, mas também dos dissabores resultan-

tes desse projeto de imigração e colonização. Fechando a obra, encontra-se o capítulo de Paulo Ro-

berto de Fraga Cirne, “O começo do tradicionalismo gaúcho”.

O

autor sintetiza a história do tradicionalismo gaúcho desde

as

primeiras tentativas de fundação do movimento até a sua

decadência e o ressurgimento em 1947, como movimento organizado. No capítulo, são destacados: a fundação do “35 CTG”, Centro de Tradições Gaúchas, que inaugurou uma nova era do tradicionalismo, a rápida expansão deste movimento e

a criação da Federação MTG, que tem como objetivo a pre- servação do núcleo da formação gaúcha e a filosofia do mo- vimento, decorrente da sua Carta de Princípios. O autor tam- bém destaca o surgimento de outras federações similares em todo País; juntas, elas integram uma Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha, fundada em 1987. Esperamos que os textos aqui veiculados e socializados nos formatos impresso e eletrônico colaborem para dar vi- sibilidade a esses importantes eventos e atores do processo social e histórico de construção da História do Rio Grande do Sul. Que o livro contemple a diversidade e que, cotidiana- mente, se atualize frente às novas problemáticas socialmente demandadas.

Claudio Knierim Sandra da Silva Careli

SUMÁRIO

Os nativos charrua/minuano, guarani e kaingang: O protagonismo indígena

e as relações interculturais em territórios de planície, serra e planalto do Rio

Grande do Sul – Luís Fernando da Silva Laroque

15

Os jesuítas no território gaúcho – Ricardo Arthur Fitz

43

A

ocupação ibérica do território e as disputas pelas fronteiras do continen-

te

de Rio Grande – Edison Bisso Cruxen

65

De comandância militar à Província: A administração do Rio Grande de São Pe-

dro(1737-1824) – Márcia Eckert Miranda

89

Açorianos no Rio Grande do Sul: uma presença desconhecida – Vera Lúcia

Maciel Barroso

115

Época das Charqueadas (1780-1888) – Jorge Euzébio Assumpção

139

Caminhos da colonização alemã no Rio Grande do Sul: Políticas de Estado,

etnicidade e transição – Raul Rebello Vital Junior

159

Caudilhos e fronteiriços: A Revolução Farroupilha e seus vínculos rio-

-platenses – Arthur Lima de Ávila

181

Da Colônia ao Império: Uma análise da política externa Brasileira –

Ana Regina Falkembach Simão

203

Aspectos da Revolução Federalista no contexto político de Júlio de Castilhos –

Sergio Roberto Rocha da Silva

223

A

colonização no período Republicano – segunda fase - René E. Gertz

243

O

começo do Tradicionalismo Gaúcho – Paulo Roberto de Fraga Cirne

265

Releituras da História do Rio Grande do Sul

OS NATIVOS CHARRUA/MINUANO, GUARANI E KAINGANG: O PROTAGONISMO INDÍGENA E AS RELAÇÕES INTERCULTURAIS EM TERRITÓRIOS DE PLANÍCIE, SERRA E PLANALTO DO RIO GRANDE DO SUL

* Luís Fernando da Silva Laroque

Os indígenas Charrua/Minuano, Guarani e Kaingang

são populações que também fazem parte do território que pas- sou a chamar-se Rio Grande do Sul. O objetivo deste capítulo

é promover uma breve reflexão sobre algumas historicidades

indígenas, considerando estes povos também como protago- nistas de eventos ocorridos no período que se estende desde o século XVI até as três primeiras décadas do século XX. A historiografia tradicional costuma priorizar a versão dos conquistadores e governantes representados por militares, viajantes, religiosos, engenheiros, diretores de aldeamentos, entre outros, os quais são encontrados nos documentos e re- lembrados na literatura. As vozes indígenas, na maior parte das vezes, estão demasiadamente silenciadas nas fontes, me- recendo um exercício hermenêutico e uma abordagem in- terdisciplinar entre arqueologia, história e antropologia, por exemplo, para captar os sentidos e a interpretação de histo- ricidades. Tendo em vista tais limitações, a opção condutora para as reflexões é considerar a atuação de algumas lideranças Charrua/Minuano, Guarani e Kaingang. Recorrendo a trabalhos como de Sahlins (1970) e Service

(1984), é importante ressaltar que, nas sociedades tradicionais,

o poder não está separado do corpo social, conforme ocorre

com sociedades com a presença do Estado, portanto, as lide- ranças em questão somente mantinham-se na função quando

* Doutor em História. Professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento do Centro Universitário UNIVATES, em Lajeado/RS.

representavam os interesses das famílias dos nativos. 1 Nos as- pectos relacionados a situações envolvendo

representavam os interesses das famílias dos nativos. 1 Nos as- pectos relacionados a situações envolvendo distintos grupos étnicos, bem como alianças, guerra e reatualizações culturais, tem-se os estudos de Barth ([1969] 2000), Clastres (1987), Sahlins (1990) Vainfas (1995) e Viveiros de Castro (2002). O presente capítulo procura considerar as categorias ter- ritoriais que faziam parte da historicidade geográfica dos Char- rua/Minuano, Guarani e Kaingang, os quais respectivamente envolvem territórios mesopotâmios, guarás e bacias hidrográfi- cas. Fundamentação para isto são os trabalhos de Seeger e Cas- tro (1979) e Ramos (1988). Este autor enfatiza que a concepção de limite territorial não é estranha às sociedades nativas, mas sim “o sentido de exclusividade e de policiamento de um ter- ritório” nos moldes concebidos pela Sociedade Colonial e Na- cional brasileira (RAMOS, 1988, p.14). Frente a isso, situações envolvendo territorialidades das populações indígenas, por um lado, extrapolam ao longe a geografia do Rio Grande do Sul e, por outro, suas concepções de fronteiras eram bastante fluidas, porque, embora guerreando entre si, esses grupos conviveram em um mesmo território antes mesmo da chegada dos ibéricos.

1 Os Charrua/Minuano em territórios mesopotâ- mios dos rios Salado, Prata, Uruguai, Negro e Ibicuí

Os Charrua e Minuano são duas populações que apresen- tam características diferentes no plano físico e no social, embo- ra os colonizadores, muitas vezes, as juntassem e confundissem como uma só (LAROQUE, 2002). Em decorrência disto, serão tratados em conjunto os aspectos abordados as ambas etnias. No Rio Grande do Sul, Charrua/Minuano ocupavam áreas de campos do sudoeste, até aproximadamente a altura dos rios Ibicuí e Camaquã, mas também se estendiam para o pampa uruguaio e as pequenas porções do território argentino.

1 O termo “nativo” refere-se a povos em seu ambiente tradicional. Procura-se evitar sempre que possível a designação “índio”, pois, conforme Caleffi (1997), trata-se de uma identidade atribuída pela historiografia brasileira e que nunca deu conta da diversidade destas populações.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Ilustração 1 – Mapa de áreas indígenas no Rio Grande do Sul (séc. XVIII)

Mapa de áreas indígenas no Rio Grande do Sul (séc. XVIII) Fonte: Riograndino Silva (1968). Cada

Fonte: Riograndino Silva (1968).

Cada uma delas, entretanto, ocupava áreas bem-definidas. Os Charrua “moravam mais para o oeste, ocupando ambas as margens do Rio Uruguai e tiveram maior contato com o colonizador espanhol”, enquanto que os Minuano “se loca- lizavam mais para leste, nas áreas irrigadas pelas lagoas dos Patos, Mirim e Mangueira, com extensão até as proximidades de Montevidéu; tiveram maior contato com os portugueses” (BECKER, 1991, p. 145). Os Charrua/Minuano praticavam a caça, a pesca e a cole- ta. Alguns arqueólogos cogitam a possibilidade da cultural ma- téria produzida pelos antepassados destes indígenas pertencer à

Tradição Arqueológica Vieira, construtora dos “cerritos”. Per- tenciam a um mesmo tronco linguístico, mas não

Tradição Arqueológica Vieira, construtora dos “cerritos”. Per- tenciam a um mesmo tronco linguístico, mas não está claro se falavam a mesma língua ou dialetos diferentes. Nas primeiras décadas do século XVI, as expedições sobre os territórios Charrua/Minuano foram esporádicas. Entretanto, a partir de meados deste mesmo século e primei- ras décadas do século XVII, os interesses das Coroas Ibéricas crescem na região e alianças com lideranças Charrua, como Zapicán, Miní, Guaytán, e lideranças Minuanas, como Cloyan e Lumillan, passam a ser efetivadas. Possivelmente pela lógica nativa, essas alianças possibilitaram vantagens das parcialida- des lideradas por estes caciques para lutarem contra os grupos indígenas inimigos que também ocupavam o território. No que se refere à utilização da aliança e à guerra nas sociedades nativas, Pierre Clastres, no trabalho Investigaciones em antropología política, enfatiza:

Ya hemos indicado que, por la voluntad de indepen- dencia política y el dominio exclusivo de su territorio manifestado por cada comunidad, la posibilidad de la guerra está inmediatamente inscrito en el funciona-

miento de estas sociedades: la sociedad primitiva es el lugar del estado de guerra permanente. Vemos aho- ra que la búsqueda de alianzas depende de la guerra efectiva, que hay una prioridad sociológica de la guer- ra sobre la alianza. Aquí se anuda la verdadera relaci-

ón entre el intercambio y la guerra. (

a los grupos implicados en las redes de alianza, los so- cios del intercambio son los aliados, la esfera del inter- cambio recubre exactamente la de la alianza. Esto no significa, claro está, que de no haber alianza no habría intercambio: éste se encontraría circunscrito al espa- cio de la comunidad en el seno de la cual no deja de operar nunca, sería estrictamente intra-comunitario.

(CLASTRES, 1987, p.207, grifos do autor)

) Precisamente

Segundo Reichel e Gutfreind (1996), na porção Oeste, começa a fundação das primeiras cidades espanholas (1527- 1577); na parte Leste, as portuguesas (1680-1737), as quais foram acompanhadas de grandes batalhas, em que uma boa

Releituras da História do Rio Grande do Sul

parte dos Charrua/Minuano foram atingidos. Isso, gradativa- mente, haveria de produzir uma mudança fundamental em todo o território indígena, pois essas populações neste primei- ro momento não se submeteram à “encomienda”, 2 à “mita” 3 e às “reduções/missões”, 4 sendo que esta última fora utilizada principalmente com os indígenas Guarani. Nos séculos XVII e XVIII, as frentes expansionistas nos tradicionais territórios Charrua e Minuano continuavam de forma lenta e cada vez mais efetiva. No final do século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX, os tradicionais territórios Charrua/Minuano da bacia hidrográfica do Rio da Prata são efe- tivamente ocupados pelos colonizadores português e espanhol.

Ilustração 2 – Mapa de areas indígenas no Sul do Brasil

Ilustração 2 – Mapa de areas indígenas no Sul do Brasil Fonte: Curt Nimuendajú, 1987. 2

Fonte: Curt Nimuendajú, 1987.

2 A “encomienda” consistia na concessão de nativos que a Coroa espanhola dava ao colonizador para tra- balharem em serviços forçados das minas e/ou agricultura. Em troca dessa concessão, o colonizador tinha

o compromisso de cristianizá-los (MAHN-LOT, 1990, p. 69,83).

3 “Mita” era uma forma de trabalho desenvolvido pelos índios nas minas de prata e ouro. Como pagamento,

recebiam uma remuneração insuficiente para sua sobrevivência (MAHN-LOT, 1990, p. 76).

4 As “reduções” foram também conhecidas como Missões. Consistiam em aldeamentos, nos quais os índios eram reunidos para receberem ensinamentos sobre a religião católica e para trabalharem sob a direção dos padres (CAMPOS; MOHLNNIKOFF, 1993, p. 16).

As cidades multiplicaram-se e a exploração econômica, produzindo carne e couro para o mercado interno

As cidades multiplicaram-se e a exploração econômica, produzindo carne e couro para o mercado interno e europeu, aumentou significativamente. Neste contexto, é possível apontar o protagonismo Char- rua/Minuano a partir das lógicas nativas, como é o exemplo da atuação de lideranças Naigualvé, Gleubilbé e Doimalnaejé, lu- tando ao lado de Don Francisco de Vera Mujica em territórios próximos a Santa Fé contra indígenas inimigos (BECKER, 1991). Por outro lado, quando os interesses nativos não mais estavam sendo atendidos, rompiam as alianças e recorriam à guerra, con- forme ilustra a situação envolvendo o cacique Campusano.

Este cacique Charrua entrerriano, pasado el pri- mer Tércio del siglo XVIII tênia sus tolderías em lãs márgenes del arroyo Feliciciano. Presume A. y Lara que es el mismo Campusano que, a fines de abril de 1749, com um grupo de índios hurtó caballadas de lãs estâncias del Pueblo Reducción de Santo Do- mingo Soriano. Habiendo salido en su persecución el Teniente de Dragones Francisco Bruno de Zava- la con un escuadrón en un potrero del Queguay. (BARRIOS PINTOS, 1981, p.87-88)

Gradativamente, as populações indígenas são empurra- das para o interior, local onde suas possibilidades de sobrevi- vência são cada vez mais difíceis, principalmente pela dispu- ta com grupos inimigos, como Araucanos, Tehuelches, entre outros, que também estavam em movimentação pelo territó- rio, devido às frentes expansionistas (SARASOLA, 1996). Em decorrência de não terem desenvolvido sua sustentabilidade nos moldes do capitalismo, bem como insistiam em continuar com seus padrões culturais um capítulo da história Charrua/ Minuano no século XIX, resume-se pelos dois combates feitos à traição – o de Salsipuedes (1831) e o de Mataojos (1832) – nos quais os indígenas destas duas etnias foram extermina- dos em grande maioria ou retirados de seu tradicional terri- tório, como, por exemplo, Vaimaca-Peru, Senaqué, Tacuabé e Guyunusa, que foram levados pelo comerciante François de Curel para Paris, lugar de onde não mais retornaram (HIL- BERT, 2009). A partir desses dois conflitos, equivocadamente

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propagou-se um discurso que os poucos Charrua/Minuano sobreviventes teriam forçadamente se integrado na sociedade da Banda Oriental do Uruguai.

2 Os Guarani em territórios de Guará

Os Guarani, pertencentes à Família Linguística Tupi- -Guarani e Tradição Ceramista Tupiguarani, eram também chamados de Carijós, Arachanes, Tapes, Patos, entre outras nominações. Informações produzidas por cronistas, expedi- cionários, viajantes e padres jesuítas indicam que os Guarani representavam, no período colonial, a maior parte da popula- ção indígena no Rio Grande do Sul. Eram horticultores, óti- mos ceramistas e, além de dedicarem-se à caça e à pesca, pra- ticavam a antropofagia. Segundo Laroque (2002), ocupavam territórios localizados em várzeas de rios como o Uruguai, o Jacuí, a Laguna dos Patos e o Lago Guaíba, mas estendiam-se também para outras áreas da América do Sul localizadas entre Rio Paraguai e o Oceano Atlântico (ver Ilustração 2, p. 19). É importante enfatizar que, pela lógica Guarani, a re- lação com o espaço, bem como as categorias que atribuem a estes são totalmente distintas da forma como os ibéricos se relacionavam com estes espaços. Francisco Noelli (1993), fun- damentado em registros dos cronistas, etnógrafos e, muitas vezes, testadas em modelos etnoecológicos e arqueológicos, apresentou, como se vê na Ilustração 3, três categorias espa- ciais da geografia Guarani: guará, tekohá e teiî.

Ilustração 3 – Categorias espaciais Guarani

Guarani: guará, tekohá e teiî . Ilustração 3 – Categorias espaciais Guarani Fonte: Noelli, 1993, p.250.

Fonte: Noelli, 1993, p.250.

O guará , segundo a definição de Montoya, significa tudo aquilo que está contido dentro

O guará, segundo a definição de Montoya, significa

tudo aquilo que está contido dentro de uma região qualquer. Francisco Noelli (1983), utilizando-se de estudos de Branis- lava Susnik, informa que, para esta autora, o guará é enten- dido como um conceito sociopolítico que determinava o do- mínio exclusivo de uma região pelos seus habitantes, onde lhes era assegurado o pleno direito da roça, caça e pesca para sua subsistência. De acordo com informes de vários jesuítas do Guairá, Itatim, Tape e Uruguai, o guará estaria sob a liderança de uma pessoa de grande prestígio político e espiritual, ressaltando também que “alguns guará seriam compostos por até 40 al- deias unidas por laços de parentesco e reciprocidade, com vida material e simbólica comum” (NOELLI, 1993, p.248-249). O guará, por sua vez, seria subdividido em unidades ter- ritoriais socioeconômicas denominadas de tekohá, onde esta- riam os sítios arqueológicos e as aldeias históricas. O tekohá dividia-se em três níveis integrados: físico-geográfico, econô- mico e simbólico. Sua área estava geralmente bem-definida por colinas, arroios ou rios, onde estranhos só poderiam en- trar com permissão.

Era o espaço onde se produziam as relações econô-

micas, sociais e político-religiosas essenciais a vida

Por fim, como dizem os Guarani, se

tekó era o modo de ser, o sistema, a cultura, a lei

e os costumes, o tekohá era o lugar, o meio em que se davam as condições que possibilitavam a subsis- tência e o modo de ser dos Guarani. (MELIÁ apud NOELLI, 1993, p.249-250)

O tekohá, por sua vez, era formado por teiî isolados

ou agrupados em função das condições locais e políticas. Teiî, na linguagem antropológica, significa “família extensa”, onde vivia a linhagem que poderia contar com até 60 famí-

lias nucleares.

].

Guarani [

Releituras da História do Rio Grande do Sul

A seguir, na Ilustração 4, será apresentado um mode-

lo hierárquico hipotético da construção territorial (NOELLI,

1993, p. 250), o qual mostra, aproximadamente, uma sequên- cia desde a família nuclear até o guará.

Ilustração 4 – Modelo hierárquico hipotético da construção territorial

Modelo hierárquico hipotético da construção territorial Fonte: Noelli, 1993, p.250. A captação de recursos pelos

Fonte: Noelli, 1993, p.250.

A captação de recursos pelos Guarani, de uma forma ge-

ral, foi setorizada por Noelli em horticultura (roças), coleta,

caça e pesca. Suas roças, nas quais geralmente cultivavam o milho, a mandioca, o amendoim, o feijão, entre outros, pro- vavelmente instalavam-se em zonas de transição entre a Pla- nície Costeira e a Depressão Central, ou, então, em lugares de vegetação similar. É importante ressaltar que a roça, entre os muitos outros domínios da aldeia, era apenas um dos espaços de inserção de alimentos.

A região do tekohá está caracterizada por zonas de vege-

tação campestre (tapete de gramíneas), vegetação silvática (ma- tas de galeria, matas arbustivas, capões) e vegetação palustre (áreas inundáveis), onde aparece concentrada uma variedade

muito grande de espécies das quais destacam-se os butiás, ara- çás, ananás, ingás e também os pinhões, recursos de coleta. Es- sas atividades de coleta, muitas vezes, também eram realizadas em áreas de plantas cultivadas nas antigas roças abandonadas. Quanto à caça, a partir das informações de Becker (1992), é possível constatar que, excluindo os períodos que

cercam a época dos ritos de passagem, da menstruação, da gravidez, dos jejuns ligados à

cercam a época dos ritos de passagem, da menstruação, da gravidez, dos jejuns ligados à prática religiosa individual ou coletiva e os gostos pessoais, os Guarani comiam todos os se- res vertebrados e muitos invertebrados. As frentes de expansão ibéricas, no decorrer do sécu- lo XVI, a fundação de cidades espanholas e, posteriormente, lusitanas, nos tradicionais territórios Guarani, e a exploração econômica, serão responsáveis por um violento decréscimo populacional desses nativos e um acirramento de conflitos bé- licos entre os Guarani e os não índios pela América do Sul. No início do século XVII, os administradores espanhóis resolveram chamar primeiramente os franciscanos e depois os padres da Companhia de Jesus para que, por meio do aten- dimento religioso, pudessem acalmar os indígenas encomen- dados ou não. Os jesuítas, em um primeiro momento, opuse- ram-se, mas acabaram por obedecer as orientações da Coroa espanhola. Inicialmente trabalharam junto ao Guarambaré, Ipané e Guayrá, onde perceberam a inadequação do modelo missionário até então empregado. Em contraposição, os padres jesuítas propuseram o sis- tema de Missão/Redução, no qual os índios a serem catequi- zados deveriam ser organizados em povoações concentradas, livres dos fazendeiros espanhóis, e que só dependessem do Rei. Nasciam, assim, as cinco Frentes Missionárias da Anti- ga Província Jesuítica do Paraguai, denominadas de Guayrá (Paraná), Paraguay (Paraguai), Itatim (Mato Grosso do Sul), Uruguay (Brasil-Uruguai) e Tape (Rio Grande do Sul), sob a responsabilidade geral do Padre Juan Ruiz de Montoya. Como o recorte espacial deste capítulo se atém princi- palmente a territórios do Rio Grande do Sul, serão tratados aqui, especificamente, alguns aspectos da Frente Missionária do Tape, mas que não se diferenciou muito das outras quatro. A Frente Missionária do Tape localizava-se na região Centro-oeste do Rio Grande do Sul. Iniciou em 1626, quan- do o Pe. Roque González, em decorrência de alianças que o

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Cacique Ñeenguirú, liderança geral possivelmente de um dos guará localizado na Província do Uruguai e do Tape, conse- guiu atravessar o rio Uruguai na altura da confluência com

o rio Ibicuí. Inicialmente, chegou à aldeia do cacique Taba-

cá, com o qual também contraiu aliança, o que possibilitou a

fundação da Redução Nossa Senhora de Candelária. Entre- tanto, os Guarani contrários ao estabelecimento de alianças

com os jesuítas e utilizando-se da guerra atacavam os padres

e os Guarani que com eles se encontravam, como foi o caso

do Pe. Cristóbal de Mendoza, morto pelo cacique Tayubay e seus seguidores (BECKER, 1992). As outras missões/reduções, ao que parece, somente fo- ram fundadas devido às lideranças Guarani, como Guaymi- ca, Cuniambí, Arazay, Guiracurú, Tayaobá, Ayerobiá, Aruyá, Cuñambó, Carayuchuré, entre tantas outras, terem avaliado positivamente e em termos de alianças indígenas a presença dos padres em seu território, decisão posteriormente reforça- da pelas notícias que passaram a ter dos ataques bandeirantes em territórios Guarani do Norte. Assim é que, em 1626, foram fundadas as Missões de São Nicolau e São Francisco Xavier; em 1627, Candelária do Ibicuy; em 1628, Candelária do Pira- tini, Assunção do Ijuí e Caaró; em 1631, São Carlos e Apósto- los; em 1632, São Tomás, São José, São Miguel, São Cosme e Damião, Santa Teresa, Jesus Maria, Santa Ana e Natividad; em 1634, São Joaquim e São Cristóvão (PORTO, 1954). A título de ilustração destas alianças pode-se apontar Arazay (chamado também de Roque, Quiraque e Caguiraí), que, segundo a Carta Ânua de 1633, tratava-se de um grande cacique que teria se batizado e aceitado o Cristianismo. Em decorrência do cargo que representava entre os Guarani, in- terviu em termos nativos para os padres fundarem a Missão de São Tomás e São Miguel. Não são encontradas na docu- mentação maiores informações sobre essa liderança, mas uti- lizando-se o estudo de Ronaldo Vainfas, A heresia dos índios

(1995), sobre a Santidade do Jaguaribe com os Tupi, os quais

orquestravam os eventos por sua própria lógica, bem como a obra de Viveiro de Castro,

orquestravam os eventos por sua própria lógica, bem como

a obra de Viveiro de Castro, A incostância da alma selvagem

(2002), é possível constatar que os indígenas, frente aos pro-

pósitos das missões, comportavam-se como estátuas de murta

e não de pedra. Ou seja, reatualizavam algumas ações, mas

os significados continuavam sendo nativos, portanto quando não mais era de seu interesse, o que provavelmente também deve ter ocorrido com os teiî (famílias), que o cacique Arazay representava, tanto em termos de alianças como de prática de batismo ou adoção ao Cristianismo. Neste contexto, onde os espanhóis avançavam com sua frente expansionista missionária, os portugueses, em contra- partida, faziam o mesmo, mas com a frente expansionista ban- deirante e passavam a invadir as missões localizadas mais a Leste do território em busca de mão de obra indígena Guarani para o trabalho escravo nas lavouras de cana-de-açúcar. No período compreendido entre 1612 e 1638, foram capturados aproximadamente 300.000 índios, dos quais mais da metade morreram no caminho para o cativeiro, por doenças ou re- pressão às fugas. Especificamente no Tape, os ataques mais intensos ocor- reram entre 1635 e 1639, quando os bandeirantes Antônio Ra- poso Tavares e Fernão Dias Paes destruíram várias das redu- ções. Os milhares de índios que restaram tiveram, mesmo com relutância, de abandonar suas terras e migrar para a margem direita do Rio Uruguai. Em consequência disso, o gado trazido

pelos jesuítas ficou solto, passando a viver e a procriar-se livre- mente pelos campos da Depressão Central e da Campanha. Desta forma, os povoados missioneiros, denominados muitas vezes de Trinta Povos Jesuítico-Guarani, tiveram uma controvertida experiência histórica, na Bacia do Rio da Prata

e na fronteira móvel existente entre os impérios português e

espanhol. Quando os jesuítas voltaram à região, meio século

depois, encontraram grande quantidade de animais vivendo de modo selvagem na Vacaria del Mar.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

A partir de 1682, foram reerguidas as reduções de São Nicolau e São Miguel, assim como foram criadas cinco outras:

São Francisco de Borja (1682), São Luiz Gonzaga (1687), São Lourenço Mártir (1690), São João Batista (1697) e Santo Ânge- lo Custódio (1707), as quais constituíram o que ficou conhe- cido como os Sete Povos das Missões (ver Ilustração 1, p. 17). Os Sete Povos, contando também com o protagonismo Guarani, prestavam serviços à Coroa espanhola e à Roma, e adquiriam autonomia política e econômica. Essa autonomia, por sua vez, em termos de relações internacionais europeias, acarretou-lhes antipatias e animosidades; motivos que escla- recem porque, em 1750, com a assinatura do Tratado de Ma- drid, a Espanha pretendeu entregá-los aos portugueses, em troca da Colônia do Sacramento. Os indígenas Guarani, mesmo com a aliança com os espanhóis em curso avaliando a situação, decidiram que não deixariam o território. Isto automaticamente significava o rompimento da aliança e a deflagração de guerra aos espa- nhóis e portugueses. O conflito passou a ser conhecido como “Guerra Guaranítica” (1753-1756), mas, apesar do protagonis- mo Guarani, como bem ilustra a conhecida frase “esta terra já tem dono”, do cacique Sepé Tiaraju, os indígenas, pela desvan- tagem bélica, perderam a guerra e a maior parte dos que não morreram precisaram abandonar seus territórios. Uma boa parte dos Guarani que ainda não havia aban- donado o território, aproximadamente 700 famílias, foi distri- buída pelo General Gomes Freire de Andrade, para o interior da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, constituindo a Aldeia de São Nicolau (Rio Pardo), a Aldeia de São Nicolau (Cachoeira do Sul) e a Aldeia Nossa Senhora dos Anjos (Gra- vataí). Muitos descentes dessas famílias deram origem à matriz genética indígena de muitas pessoas do Rio Grande do Sul. Outros, porém, conforme Schmitz (1994, p.112), disper- saram-se pelas fazendas da Bacia do Prata, “servindo de peão, tipicamente sem família e sem chão, como o Pedro Missio-

neiro do romance, O Tempo e o Vento , de Érico Veríssimo”. É possível, ainda,

neiro do romance, O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo”. É possível, ainda, mesmo que não se tenha conhecimento sobre fontes documentais, que os Guarani tenham continuado a cir- cular pelo território. Neste sentido, somente a partir de mea- dos do século XX as fontes passam novamente a dar visibili- dade à presença Guarani no Rio Grande do Sul denominados então de Mbyá Guarani, os quais retornaram para seus tradi- cionais territórios em busca do Yrovaigua (Terra sem Males).

3 Os Kaingang em territórios de Bacias Hidrográfi- cas dos rios Uruguai e Jacuí

Os nativos Kaingang, no Rio Grande do Sul, quando iniciou a conquista europeia, ocupavam o território localiza- do entre o Rio Piratini (afluente da margem esquerda do Rio Uruguai) e as cabeceiras do Rio Pelotas, tendo como limite meridional os últimos contrafortes do Planalto junto à mar- gem esquerda da bacia hidrográfica do Rio Jacuí (ver Ilustra- ção 1, p. 17). Entretanto, é importante ressaltar que o “gran- de território Kaingang” estendia-se também pelos estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e em Missiones, na Argen- tina (LAROQUE, 2007). No entender de alguns estudiosos, os antepassados dos Kaingang foram os prováveis responsáveis pela cultural mate- rial denominada de Tradição Arqueológica Taquara e teriam ocupado territórios de planalto conhecidos como “buracos de bugre”. Os Kaingang dedicavam-se também à caça, à pesca, à pequena horticultura e, principalmente, à coleta do pinhão (SCHMITZ; BECKER, 1991). O nome Kaingang, 5 na verdade, foi introduzido na li- teratura etnográfica por Telêmaco Borba, em 1882, para de-

5 Durante os séculos XVI, XVII e XVIII, estes nativos tinham a denominação geral de “Guayná”. Na maior parte do século XIX, foram conhecidos pelo nome de “coroado”. Entretanto, no século XX, convencionou-se chamá-los de “Kaingang” (SCHMITZ apud BECKER, 1976, p. 7).

Releituras da História do Rio Grande do Sul

signar os indígenas não Guarani que ocupavam territórios de planalto no sul do Brasil. Pertencem ao grande tronco linguís- tico Jê e aparecem na documentação e na bibliografia com as nominações de Ibiraiáras, Caáguas, Guananáses, Coroado, Guayaná, Bugre, Gualacho, Botocudo, Xokleng, Bate, Chova, Pinaré, Cabelludo, Kaigua, Kaaguá, Aweikoma, entre outros (LAROQUE, 2000). As informações iniciais sobre os Kaingang são poucas e retrocedem ao século XVI, quando ocorreram os primeiros contatos com o colonizador. No século XVII, o Pe. Luiz de Montoya e Dias Taño tentaram reduzi-los, mas não tiveram sucesso. Segundo eles, estes índios eram totalmente diferen- tes dos Guarani, com os quais tinham tido experiência. Única exceção a salientar foi o Pe. Cristovão de Mendonça, que, em 1630, teria fundado a Redução da Conceição (no território de Guandaná - alto curso do Rio Uruguai), na qual, segun- do os cronistas, teria aldeado aproximadamente 3.000 índios (SCHADEN, 1963). Do contato inicial até o século XVIII, apesar do bandei- rismo paulista rumo ao Sul, a procura de terras, ouro e mão de obra escrava, os Kaingang continuavam a manter sua cul- tura original. Na primeira década do século XIX, as fazendas de colonização luso-brasileira somente ocupavam as áreas de campo, deixando, com isso, a maior parte do planalto e da mata aos Kaingang (ver Ilustração 2, p. 19). Entretanto, a partir de 1824, teve início a primeira fase da imigração alemã, que se estendeu até 1889 (ROCHE, 1969). O governo imperial, aproveitando-se dessa situação, distribuiu a esses colonos, segundo Ítala Basile Becker (1991), muitos dos territórios Kaingang, que se estendiam desde o Rio dos Sinos até a borda do planalto, propiciando, com isso, o aparecimen- to de colônias como São Leopoldo, Feliz, Mundo Novo, Bom Princípio, São Pedro de Alcântara de Torres, Três Forquilhas, entre outras.

Frente a essa situação, os alemães, para chegarem e/ou ocuparem muitos dos lotes distribuídos, precisavam

Frente a essa situação, os alemães, para chegarem e/ou

ocuparem muitos dos lotes distribuídos, precisavam enfrentar

a reação nativa, o que gerava, consequentemente, uma situação

bastante tensa entre ambas as etnias “porque enquanto os colo- nos tentavam se estabelecer nas terras que lhes cabiam por de- terminação imperial, o Kaingang via a penetração efetiva nas terras onde havia nascido” (BECKER, 1991, p.138). A título de ilustração destas reações Kaingang, que, possivelmente, foram realizadas sob o comando de lideran- ças como Braga, Yotoahê (Doble), Nicué, Condurá, entre ou- tras, tem-se os ataques à localidade de Dois Irmãos, em 26 de fevereiro de 1829, nos quais foram assassinados dois colonos alemães e um foi ferido, e, em 08 de abril de 1831, o ataque

à família Harras, quando foram vitimados três colonos, dos

quais dois ficaram feridos e uma criança foi raptada (F.W., 1913, p.87-88; PETRY, 1931, p.3; BECKER, 1976a, p.67,70). O governo provincial, aproveitando-se da passagem dos jesuítas espanhóis pelo Sul do Brasil, 6 recorreu, a partir de 1845, ao Projeto de Catequese Kaingang. Entretanto, para a mentalidade da época, a “catequese” e a “civilização” dos nati- vos significavam a sua redução em aldeamentos. O Pe. Antônio de Almeida Leite Penteado é quem, inicialmente, se ofereceu para levar as primeiras luzes do Cristianismo aos Kaingang nas imediações de Passo Fundo. Posteriormente, sob o comando do superior distrital Pe. Bernardo Parés, estabeleceram-se em Guarita os jesuítas Aloysio Cots e Ignacio Gurri; em Nonoai, Luís Santiago Villarrubia e Juliano Solanellas; e no Campo do Meio, os Pes. Pedro Saderra e Miguel Cabeza. Essa ação mis- sionária, por sua vez, não conseguiu reduzir os Kaingang nos moldes feitos com os Guarani. Neste sentido, o Pe. Villarrubia

6 Os jesuítas, depois da expulsão pombalina de 1759, tiveram uma passagem pelo Brasil durante o período de 1842 a 1867. O contexto desta nova fase em que atuaram principalmente nas Províncias de São Pedro do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina ocorreu em decorrência de sua expulsão da Argentina pelo ditador Rosas (AZEVEDO, 1984).

Releituras da História do Rio Grande do Sul

destacou, entre as dificuldades para o ensino da doutrina Cris- tã, a indiferença religiosa que acreditavam que os Kaingang tinham, a falta de meios para os padres aprenderem a língua Kaingang, o mau exemplo de outros cristãos, a falta de respei- to humano e a preguiça dos índios (AZEVEDO, 1984). De concreto, o governo, por coação e/ou medida pre- ventiva, reduziu o espaço vital Kaingang e, para tirá-los dos seus territórios, iniciou, a partir de 1846, a Política Oficial dos Aldeamentos em áreas como Guarita, Nonoai e Campo do Meio, nas quais se encontram, muitas vezes, caciques prin- cipais e chefes subordinados, como, por exemplo, Fongue, Votouro, Nonohay, Condá, Nicafim, Braga, Yotoahê (Doble), Nicué (João Grande), entre muitos outros que, de acordo com os seus interesses, negociavam ou não a estadia de suas hordas nessas áreas (LAROQUE, 2009). A política governamental para aumentar o povoamento

e propiciar melhores formas para o escoamento da produção econômica parte, entre 1848 e 1850, para a abertura de mais estradas, como, por exemplo, a de Mundo Novo-São Leopoldo

e Pontão-Caí-Porto Alegre. Conforme Ítala Becker (1976a),

boa parte dessa segunda estrada já havia sido delineada pelo engenheiro agrimensor das colônias Alphonse Mabilde des- de 1835, quando percorreu a região. Seu traçado tinha como ponto de partida o Passo do Pontão no Rio Uruguai (mais precisamente na confluência do Rio Pelotas com o Canoas), e terminava na Picada Feliz, que se localizava no Caí. Reagindo a esta situação, ao longo da década de 1850, as correrias Kaingang continuaram tanto em algumas áreas de colonização alemã quanto em regiões luso-brasileiras, como Cruz Alta, Passo Fundo, Vacaria, entre outras. Apesar dos aldeamentos, os ataques e estragos con- tinuavam, como bem mostra um relatório de Homem de Mello ao passar a administração da Província, em 1868, ao Vice-presidente, Sr. Joaquim Vieira da Cunha.

No dia 14 daquele mês assaltaram os bugres a casa do colono Lambertus Werteg, da colonia de santa Maria da Soledade, sita no 5º distrito do termo de

S. Leopoldo, levando para as matas a família do mesmo colono, composta de mulher e

S. Leopoldo, levando para as matas a família do mesmo colono, composta de mulher e filhos. (RE- LATÓRIO de 13/04/1868, p.30)

Durante a primeira metade da década de 1870, na Pro- víncia de São Pedro do Rio Grande do Sul, alguns registros sobre os aldeamentos de Nonoai e Campo do Meio mostram claramente que a legislação respaldada pela Lei de 1850 pos- sibilitava a tomada das terras indígenas, isto é, inicialmente demarcavam-se as áreas e depois passava-se a reduzi-las, re- correndo ao discurso de que estavam improdutivas (RELA- TÓRIO de 14/03/1871, p.31; FALLA de 1872, p.33-34; FALLA de 1874, p.41-42). As lideranças, por sua vez, continuavam a atuar inten- samente frente a toda esta trama, como bem demonstra a fala do Presidente Conselheiro, Jeronimo Martiniano Figueira de Mello, dirigida, em 1872, à Assembleia Legislativa da Provín- cia, ao informar que os nativos, sob a direção dos caciques e chefes, saíam do Aldeamento de Nonoai e se espalhavam pelos municípios de Passo Fundo e Cruz Alta. Tratando-se da segunda metade da década em questão,

é importante ressaltar que, a partir de 1875, os italianos co- meçaram a chegar na Província e estabelecerem-se em áreas como Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Garibaldi, entre outras, mas que, segundo Basile Becker (1991, p.138), estes não tive- ram maiores problemas com os Kaingang, porque, nesta épo- ca, eles já haviam migrado para outras regiões.

Também na última década do século XIX, os ataques às fazendas, as desavenças entre as facções e as estratégias utiliza- das pelos diretores para reduzir as terras indígenas ainda con- tinuavam. Relativo à primeira situação, um relatório do Presi- dente Carlos Thompson Flores discorre que, constantemente, os fazendeiros estabelecidos nas vizinhanças dos aldeamentos de Guarita, Nonoai e Campo do Meio reclamavam das correrias

e ameaças Kaingang às suas propriedades. Quanto às desaven-

ças entre as parcialidades, nesse mesmo relatório, referindo-se possivelmente a guerreiros do grupo do Cacique Nhancuiá, ocupantes de território da margem direita do Rio Uruguai,

Releituras da História do Rio Grande do Sul

havendo aparecido à margem direita do Rio

Uruguai, nas proximidades de Nonoai, uma tribu de indios bravos, fôra batida pelos indigenas do al-

deamento daquela denominação, que lhes sairam ao encontro e em poder de quem ficaram 4 mulheres e 7 crianças. (RELATÓRIO de 15/04/1880, p.39-40)

] [

No decorrer da década de 1880 até a Proclamação da República, percebe-se que as coisas não foram diferentes, ou seja, os Kaingang e suas lideranças, agindo de acordo com os seus próprios termos, mantiveram, até onde lhes interessava, alianças com os não índios e, consequentemente, a permanên- cia ou não dos integrantes de suas parcialidades nos aldea- mentos. O presidente Carlos Thompson Flores, por exemplo, descreve, no relatório de 15 de abril de 1880 (p.39-40), que os fazendeiros estabelecidos nas vizinhanças dos aldeamentos de Guarita, Nonoai e Campo do Meio frequentemente reclama- vam das correrias e ameaças Kaingang em suas propriedades. Tratando sobre continuidade da identidade dos grupos étnicos em contato, Fredrick Barth destaca:

Se um grupo mantém sua identidade quando seus membros interagem com outros, disso decorre a

existência de critérios para a determinação do per- tencimento, assim como as maneiras de assimilar

] Além disso, a

fronteira étnica canaliza a vida social. Ela implica uma organização, na maior parte das vezes bas- tante complexa, do comportamento e das relações

sociais. A identificação de uma outra pessoa como membro de um mesmo grupo étnico implica um compartilhamento de critérios de avaliação e de julgamento. (BARTH, 2000, p.34)

Nos primeiros anos do século XX, a situação Kaingang é praticamente a mesma do período anterior, pois a penetração e a cobiça em suas terras continuaram. A partir de 1903, no entanto, na região de Lagoa Vermelha, tem-se a presença da catequese dos capuchinhos:

este pertencimento ou exclusão [

Nas florestas do Norte do Estado existem ainda algumas tribos dos grupos que ocupavam o

Nas florestas do Norte do Estado existem ainda algumas tribos dos grupos que ocupavam o Brasil quando de sua descoberta. Um dos nossos missio- nários, Frei Alfredo de Saint Jean-d’Arves, numa de suas inúmeras excursões apostólicas, havia conseguido chegar até esses infelizes. Em vista do

relatório que me apresentou, resolvi visitá-los eu mesmo com o objetivo de verificar se haveria pos- sibilidade de empreender algo para lhes proporcio-

]. Para chegar a

seus toldos é preciso viajar vários dias pela flores-

ta, transpor árvores arrancadas, atravessar a vau cursos d’água, que se tornam instransponíveis à menor chuva; cavalgar por atalhos obstruídos, por banhados, barrancos, etc. Conversei com os chefes, falei com as autoridades civis e ficou estabelecido que se tentaria junto ao Governo do Rio Grande do Sul obter uma área de terreno, no município de La- goa Vermelha, às margens do Rio Forquilha, para aí reunir os diversos toldos e que, em seguida, um missionário, ou dois, ocupar-se-iam de sua instru- ção religiosa e civil. (GILLONNAY apud COSTA E DE BONI, 1996, p. 355-357)

Paralelo à catequese capuchinha com os indígenas, o engenheiro Carlos Torres Gonçalves, confrade de Rondon na Igreja Positivista brasileira, foi cogitado e aceitou, a partir de 1908, a Diretoria de Terras e Colonização do estado. No desem- penho dessa função, antecipou-se ao Governo Federal no enca- minhamento de uma política indigenista para o Rio Grande do Sul que estivesse em sintonia com os pressupostos positivistas. No Rio Grande, o trabalho de demarcação de terras foi realizado basicamente pela Diretoria de Terras e Colonização. No período de 1911 até 1920, conforme o relatório do Dire- tor Torres Gonçalves, são encontradas, no estado, 12 áreas de aldeamento Kaingang denominadas de Inhacorá, Guarita, Nonoai (duas aldeias), Fachinal, Caseros, Ligeiro, Carretei- ro, Ventarra, Erechim, Votouro e Lagoão (RELATÓRIO de 09/06/1910 in: LAYTANO, 1957). Os caciques e chefes que apareciam nesses aldeamentos são Candinho, Faustino, For- tunato, Santos, Vito Supriano, Titi Fongue e muitos outros.

nar os benefícios da civilização. [

Releituras da História do Rio Grande do Sul

No decorrer da década de 1930, avançando inclusive para os anos de 1940, além da frente colonizadora da Socie- dade Nacional efetivada principalmente pelas fazendas e pela exploração de riquezas vegetais que retrocedem ao início do século, tem-se, também, uma segunda frente que se caracteri- za pela criação de reservas florestais em territórios indígenas. Neste sentido, então, grande parte das áreas indígenas foram ocupadas por posse ou arrendamento, seja de colonos imigran- tes (principalmente descendentes de alemães e italianos) ou de caboclos, resultando, muitas vezes, na perda de controle dos Kaingang sobre seus tradicionais territórios (ver Ilustração 3).

Ilustração 3 – Mapa de áreas indígenas no Sul do Brasil na República Velha

de áreas indígenas no Sul do Brasil na República Velha Legenda 1. Mangueirinha 2. Palma 3.

Legenda

1. Mangueirinha

2. Palma

3. Chapecó

4. Inhacorá

5. Guarita

6. Pary

7. Nonoai

8. Serrinha

9. Votouro

10. Erechim

11. Ventarra

12. Ligeiro

13. Carreteiro

14. Faxinal

15. Cacique Doble

16. Caseiros

17. Lagoão

Fonte: Luís Fernando Laroque (2011).

A título de ilustração dessa questão, tem-se o caso da Área Indígena de Serrinha, que,

A título de ilustração dessa questão, tem-se o caso da Área Indígena de Serrinha, que, pelo Decreto nº 658, de 10 de março de 1949, Walter Jobim reduziu o território Kaingang para criação de uma reserva florestal. O argumento utiliza- do, segundo José Antônio Nascimento (2001, p.56), era o de evitar que os funcionários do Serviço de Proteção aos Índios devastassem a área. Entretanto, o governo não fez nada “para criar áreas de preservação ambiental em áreas não indígenas, como, por exemplo, em propriedades particulares com vasta extensão devoluta, expondo, com isso, o caráter protetor das elites, que o Estado brasileiro sempre teve”.

4 Conclusão

Nessas primeiras décadas do século XXI, observou-se que os povos indígenas no Rio Grande do Sul, semelhante- mente ao passado, continuam a viver seu protagonismo, a lu-

tar por seus tradicionais territórios e a vivenciar sua história

e cultura. Ilustra a questão a situação Charrua, que a historiogra- fia considerou que, enquanto grupo, desapareceu. Porém, na primeira metade do século XIX, passado pouco mais que o período de um século, em plena capital gaúcha, um grupo de Charrua, liderado pela cacique Acuab, rompeu a invisibidade imposta e testemunhou que sempre esteve presente, percor- rendo os territórios no Rio Grande do Sul. Para os Mbyá Guarani no Rio Grande do Sul, que oficial- mente retornaram para o estado a partir da década de 1960, totalizam, aproximadamente, 3.000 indivíduos, as questões

não são diferentes. Falam a língua guarani, além do espanhol

e do português. Elementos culturais, como, por exemplo, a

cestaria, o artesanato, os cantos, o parentesco, o deslocamento pelo território e, principalmente, o universo religioso, conti- nuam sendo vivenciados e mantidos no seu dia a dia.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Os Kaingang, com um contingente atual em torno de 10 mil indivíduos no Rio Grande do Sul, também continuam a vivenciar seu protagonismo. Ressalta-se ser o grupo que, mes- mo tendo o território bruscamente reduzido após a década de 1930, esteve oficialmente presente como etnia, embora as esti- mativas governamentais e demográfica insistissem em prever seu desaparecimento ou sua “aculturação”. Dentre os vários elementos culturais desses nativos, são apontadas as pinturas corporais, o respeito ao universo simbólico das duas metades que se encontram divididas, os cantos, as danças, o apego aos seus territórios tradicionais, a continuação da língua e, prin- cipalmente, sua natureza guerreira manifestada recentemente quando bloquearam várias rodovias gaúchas como forma de reivindicar melhorias na área da saúde. Para finalizar, chama-se a atenção para o fato de que as populações indígenas, durante o contato com a Sociedade Co- lonial e Nacional brasileira, não deixaram de ter sua própria ordenação histórica dos eventos que vivenciaram, uma vez que a história é ordenada culturalmente, mas a recíproca tam- bém acontece (SALHINS, 1990). Neste sentido, ainda é preci- so romper com a concepção estática de cultura fundamentada no paradigma estrutural-funcionalista e difundida pelo Evo- lucionismo e Positivismo, as quais concebem que as socieda- des passam por estágios de “evolução” ou de “perda cultural”. Infelizmente, esta visão ainda continua presente na atualidade e a dificultar relações interculturais entre a sociedade Ociden- tal e as sociedades indígenas.

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

OS JESUÍTAS NO TERRITÓRIO GAÚCHO

* Ricardo Arthur Fitz

1 A Companhia de Jesus e sua contextualização his- tórica

O século XVI foi, sem dúvida, um divisor de águas na História do mundo ocidental. A inserção de vastas áreas da América, África e Ásia na economia mercantil europeia al- terou significativamente os horizontes europeus. Não havia mais limites ou barreiras intransponíveis. Evidentemente, tais circunstâncias não são geradas de forma abrupta no período, mas, sim, resultado de longa maturação, cujas raízes podem ser vislumbradas no incremento das atividades comerciais na Baixa Idade Média. No bojo desse processo, desenvolveu-se o que se convencionou denominar Renascimento e que alcan- çou sua culminância justamente no século XVI. Segundo Heller (1982), o Renascimento representou a primeira onda no processo de transição do feudalismo ao ca- pitalismo. As atividades capitalistas, na medida em que têm permanentemente metas a serem atingidas – a produção de riquezas –, tornam as várias circunstâncias previamente exis- tentes em fatores restritivos. “O homem não deseja continuar a ser aquilo em que se transformou, antes vivendo um processo constante de devir”, uma constante transposição de barreiras, rompimento de limites e hierarquias (MARX, GRUNDISSE apud HELLER, 1982, p. 11). Consequentemente, os limites também são rompidos nas consciências humanas. Agnes Heller demonstra que a consciência da historicidade do homem é produto do desen- volvimento burguês. O Renascimento propicia, portanto, o

* Professor da Faculdade Porto-Alegrense (FAPA) e do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA).

surgimento de um conceito dinâmico de homem – em opo- sição a um conceito estático

surgimento de um conceito dinâmico de homem – em opo- sição a um conceito estático dominante na Antiguidade –, se- gundo o qual o mesmo homem passa a ter uma história de desenvolvimento pessoal e a sociedade também adquire seu sentido de desenvolvimento (HELLER, 1982). Heller comenta que, durante a Antiguidade, prevale- ceu um conceito estático de homem, cujas potencialidades eram limitadas. Tais limites acabaram sendo dissolvidos pela ideologia cristã medieval na medida em que tanto a perfec- tibilidade quanto a perversão podem constituir um processo ilimitado. Ainda assim, limites se impunham, determinados pela transcendência do início e do fim: o pecado original e o Juízo Final. Portanto, ao passo que o comportamento intelectual do homem medieval era orientado fundamentalmente pela exe- gese da revelação – tanto das autoridades religiosas, quanto das autoridades da Antiguidade – o comportamento intelec- tual do homem do Renascimento, influenciado pelo Huma- nismo, voltava-se para suas próprias potencialidades e pos- sibilidades. De outro lado, a expansão das atividades comerciais de- finiu a superação das estruturas feudais nos níveis econômico e socioculturais. Decorre disso uma profunda mudança nas consciências acerca de tempo e de espaço. No que se refere ao tempo, Agnes Heller afirma que:

Surgia com a dissolução do quadro limitado das or- dens sociais feudais, a possibilidade de o indivíduo ‘subir’ ou ‘descer’, ‘aderir’ ao dinamismo objetivo da sociedade; devia ‘aprender-se’ o ‘momento certo’, de tal modo que o indivíduo pudesse movimentar-se juntamente com a corrente histórica. O ‘ritmo’ e o ‘momento’ tornaram-se essenciais e totalmente compreensíveis no interior do ‘processo’. (HELLER, 1982, p. 143)

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Ainda, segundo a autora, “esses conceitos de tempo não

as generalizações da experiência quotidia-

na” (HELLER, 1982, p. 143). Surgia, assim, uma nova concep- ção de tempo vinculada a uma nova ordem social – burguesia, por excelência – que se afirmava. Esse tempo é colocado ao lado de um tempo religioso herdado da Idade Média. Assim, “desde o final do século XV dois tempos passaram a convi- ver paralelamente: o tempo da Igreja, regido pelo sino e pela oração e o tempo laico, organizado matematicamente pelo relógio e pelos marcadores.” (DECKMAN, 1991, p. 43). Este último, ainda que voltado fundamentalmente para uma fun- cionalidade econômica objetiva, a saber, gerar riquezas, passa gradativamente a balizar o quotidiano ocidental e as concep- ções modernas de organização temporal. No que tange ao espaço, tais alterações nas consciências constituíam-se, antes de tudo, em uma consequência direta das grandes descobertas. Comenta a autora:

ultrapassaram (

)

A mudança das idéias de ‘grande’ e ‘pequeno’ trans- formou-se num tema da experiência quotidiana:

tornou-se um lugar-comum, o ‘mundo’ até então conhecido ser apenas uma pequena parte da terra. Essa experiência – pelo menos durante o período clássico do Renascimento – tinha um efeito mobi- lizador; deu um impulso no sentido da descoberta de novos mundos. O vasto e desconhecido atraíam, em vez de repelir; sua conquista era um desafio para a individualidade recém-desenvolvida, uma aventura. (HELLER, 1982, p. 142)

Estas novas condições foram também determinantes na mudança de perspectivas de apreensão da realidade. Até

então, “por partirem da ideia de que a definição do universo

a fidelidade e a objetividade (dos relatos de

viagem) eram suplantadas por imagens fantásticas” (DECK- MAN, 1991, p. 47).

vinha de Deus, [

]

Na medida em que as navegações atlânticas se desenvol- veram, novas fantasias destruíram parcialmente o

Na medida em que as navegações atlânticas se desenvol- veram, novas fantasias destruíram parcialmente o imaginário medieval. Este processo de transição “volatizou muitas das certezas do homem e o capacitou para dominar o mundo e devassar os mistérios da Natureza.” (DECKMAN, 1991, p. 1).

Os reflexos de tal atitude se fazem sentir em todas as esferas da vida europeia. Assim é na arte, na cultura, no pen- samento e na religião. Os movimentos reformistas da religião são parte integrante deste contexto, criando-se um profundo abismo na cristandade. Os reformadores protestantes têm como alvo principal a teologia escolástica. Evidentemente, esta ruptura não significava um rompi- mento completo com os princípios determinantes da fase an- terior. Esses princípios vinham, agora, orientados em direção

à nova realidade dada. Assim, esta dinamicidade do homem se

refletia, também, nas concepções religiosas que vão se definin- do no período. Lutero – sem dúvida um dos marcos mais sig- nificativos desta ruptura – proclamava que “a fé está sempre,

e incessantemente em acção; caso contrário não é fé.” (apud

DICKENS, 1971, p.89). A fé não é passiva, é ativa. Esta postu- ra radical, inclinadamente moderna, subordina a condição de

existência da fé à dinamicidade própria da época.

É significativo o fato de que o centro de educação teo-

lógica da Igreja Católica Romana deixava de ser Paris; outros

centros, como Salamanca e Coimbra, menos atingidos pelas novas correntes de pensamento, tomaram seu lugar.

É dentro desse contexto que é convocado o Concílio de

Trento (1545-1563) e surge a Companhia de Jesus – além do reavivamento da Inquisição. A Companhia, aprovada pela bula Regimini Militantis Ecclesiae do papa Paulo III, cinco anos an- tes da convocação do Concílio, incorpora, todavia, o espírito

tridentino no que se refere ao combate às heresias e aos movi- mentos reformistas. Contudo, nenhuma outra ordem religio- sa foi mais receptiva ao humanismo, em particular ao estudo renovado do Aristotelismo, que a Companhia de Jesus, esta-

Releituras da História do Rio Grande do Sul

belecendo-se inclusive longas controvérsias entre jesuítas e to- mistas. No dizer do teólogo sueco (luterano) Bengt Hägglund (1981), a nova ordem jesuítica foi de natureza eclética. Jean Lacouture (1994, p. 89) afirma que:

É, ao mesmo tempo antes e depois da adoção do humanismo renascentista que devemos buscar e avaliar o tesouro conquistado ao longo dos anos parisienses pelos alunos de Santa Bárbara: uma nova concepção da transmissão do saber, e numa abertura para o mundo que só se manifestará mais tarde, mas que o debate dos sete pais funda- dores, no momento do pronunciamento dos votos de Montmartre, permitiu antever. 1 (grifos do autor)

De fato, os jesuítas não ficaram de todo imunes às mu- danças ocorridas no período. Se, de um lado, era-lhes muito presente o espírito cruzadista medieval – talvez por influên- cia das experiências diretas [pessoais] de Loyola – e os seus princípios norteadores, também deve-se considerar o espírito investigativo, presente na visão de mundo do homem da época, e que de certa forma se manifestava nos componentes da So- ciedade de Jesus. O espírito cruzadista, traduzido à fórmula da evangelização do oriente e das populações nativas da América, constituiu na versão inaciana do binômio fé/ação de Lutero. Por outro lado, o individualismo nascente é tipicamen- te renascentista e, também ele, de alguma forma, se faz pre- sente entre os jesuítas. A posição de Santo Inácio, expressa principalmente nos Exercícios Espirituais, privilegia a cons- ciência, forma do individualismo inaciano, como ponto onde se decide a bondade ou a maldade da vida humana. Neste aspecto, há uma aproximação com Lutero: o cuidado com sua própria salvação.

1 Ao utilizar as expressões “alunos de Santa Bárbara”, o autor está se referindo a Inácio de Loyola, que havia estudado no Colégio de Santa Bárbara, em Paris; ao se referir” aos “sete pais fundadores”, tratados primeiros seguidores de Inácio.

2 Os jesuítas e sua relação com o Estado espanhol Politicamente, o Concílio de Trento

2 Os jesuítas e sua relação com o Estado espanhol

Politicamente, o Concílio de Trento aproximava-se do Ab- solutismo Monárquico então instalado na Europa, tendo a Igreja colocado-se lado a lado ao Estado. Para que tivesse seu poder reconhecido, o rei deveria demonstrar estar imbuído de pensa- mento cristão. É essa a base do Absolutismo de direito divino. Do ponto de vista das conquistas territoriais dos séculos XV e XVI, exige-se dele compromisso cristão com as regiões conquis- tadas. Essa é a base da expansão religiosa do período colonial. Na Península Ibérica, não há muito tempo, o último bastião de resistência muçulmana havia sido dobrado, com a conquista de Granada, em 1492. O espírito cruzadista que acompanhou a Reconquista vai marcar intensamente a Espa- nha recém-unificada pelos “Reis Católicos”, Fernando de Ara- gão e Isabel de Castela. Isto evidencia que

não foi o pensamento jesuítico que orientou a con- versão do gentio à fé católica ou o que estimulou o espírito cruzadista dos colonizadores, pois já havia uma estrutura mental global, totalizadora e ante- rior aos jesuítas (QUEVEDO, 2000, p. 21).

Desde a primeira viagem de Colombo à América (1492) ficara clara a proximidade do Estado espanhol com a Igreja.

O

papa Alexandre VI, nascido na Espanha, garantiria a esta

os

territórios conquistados ou a serem conquistados através

das bulas Inter Coetera, adiante substituídas pelo Tratado de

Tordesilhas. Ao sancionar estes documentos, o papa exigia dos espanhóis que levassem missionários a esses territórios. Dava-se, assim, continuidade a um antigo projeto medieval de constituição de um Império Universal, 2 no qual o gládio material atuaria em favor do gládio espiritual.

2 A este respeito, veja-se o interessante trabalho de Marcos del Roio: O Império Universal e seus antípodas.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Esta relação próxima entre Igreja e Estado se materiali- zava mediante alguns mecanismos (FLORES, 1986, p. 6):

Através do Régio Padroado, da Teoria do Vica- riato e da Propriedade da Mão Morta, a Igreja hispânica fazia parte integrante do Estado Espa-

nhol. O Padroado real era o direito que o monar- ca tinha de nomear os sacerdotes para as igrejas vagas. A Teoria do Vicariato permitia que o rei examinasse qualquer resolução do papa, a qual

só teria valor em território do vasto império com

a assinatura do monarca. Os bens imóveis da

Igreja espanhola faziam parte da Propriedade da Mão Morta, isto é, só podiam ser alienados com o consentimento da coroa. Portanto o Estado do- minava a Igreja espanhola.

Acompanhando a expansão ibérica, diversas ordens do clero regular vão ocupando novos espaços. Já em 1500 os

Franciscanos se estabeleram no México; dez anos depois, foi

a vez dos Dominicanos, que trouxeram consigo a máquina da

Inquisição. Sucedem-se várias outras ordens religiosas, uma vez que o clero secular vinha bastante enfraquecido. De todos, os jesuítas foram os mais ativos. Após o re- conhecimento da Companhia de Jesus (1540), eles, ato contí- nuo, acompanhando as expansões portuguesa e espanhola, se lançam à tarefa missionária. Em 1548, estavam no Ceilão; em 1549, no Brasil; em 1552, na China; em 1580, no Japão. Os je- suítas sediados em São Paulo, tendo à frente o Pe. Manoel da Nóbrega, propõem a Inácio de Loyola a evangelização de áreas da América espanhola. Em 1568, Francisco de Borja 3 envia um grupo de jesuítas para o Peru. Em 1607, é criada a Província

Jesuítica do Paraguai, abrangendo o Paraguai, parte da Bolívia,

a Argentina, o Uruguai e o Sudoeste do Brasil. A região dos

3 Francisco de Borja, neto do papa Alexandre VI (Rodrigo Borgia), era o Duque de Gandia, influente nobre espanhol. Na ocasião, era o superior da Companhia de Jesus.

chamados “Sete Povos das Missões”, no Rio Grande do Sul, corresponde a uma parte do

chamados “Sete Povos das Missões”, no Rio Grande do Sul, corresponde a uma parte do território sob jurisdição da Pro- víncia Jesuítica do Paraguai. Cumpre lembrar que a atividade jesuítica se encontra subordinada a toda uma legislação, já existente por ocasião da fundação da Companhia de Jesus, promulgada pela Co- roa hispânica ao longo do século XVI, as Leyes de Índias. “Os missionários tinham a obrigação de observá-las, sob pena de não poderem trabalhar no meio indígena. E eles não apenas zelavam por sua fiel observância, mas procuravam, por meios legais, aperfeiçoá-las em muitos pontos.” (BRUXEL, 1978, p. 19-20). Portanto, sua atuação não era completamente autôno- ma e se vinculava às formas de relação política da Igreja com o Estado espanhol.

3 A ação missionária na região da Província Jesuítica do Paraguai

Inicialmente, a ação missionária dos jesuítas era do tipo “missão”, que consistia em incursões de missionários aos aldeamentos indígenas que, no caso do Rio Grande do Sul, eram da etnia Guarani. De tempos em tempos, os jesuítas visita- vam as aldeias onde então era exercido o proselitismo religioso com fins de conversão. Os indígenas, portanto, permaneciam em seus locais de origem onde, senhores do território, man- tinham seus hábitos e costumes seculares, seu modo de vida, sua organização socioeconômica, seu sistema familiar, etc. Do ponto de vista da ação missionária, o método se mostrou inefi- caz: o proselitismo não perdura; a mensagem dos jesuítas não se incorporara solidamente no universo indígena. O modo de vida indígena era obviamente associado à sua cosmovisão e esta tinha sua fundamentação em seu sistema religioso. O sucesso da doutrinação religiosa só poderia ocorrer se, simultaneamen- te, fosse desarticulado seu modo de vida tradicional.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Outro problema enfrentado pelos jesuítas diz respeito ao fato de que os índios eram caçados tanto por portugueses como por espanhóis para submetê-los a trabalhos forçados e, não raro, os padres eram associados aos apresadores de índios. Alguns deles sendo, inclusive, mortos pelos índios, como foi o caso dos “três mártires de Caaró”. Diante do fracasso de tal sistema, os jesuítas passaram

a adotar o sistema “reducional”. As populações indígenas fo-

ram chamadas a abandonar seus tradicionais aldeamentos e ocupar novos espaços, as “reduções”, as quais eram pensadas de forma a se constituírem longe das áreas povoadas por por- tugueses ou espanhóis, evitando, assim, as “más influências” destes. Por este processo, os indígenas seriam “reducidos”, isto é, estabelecidos coletivamente em aldeamentos, nos quais, além da doutrinação religiosa, seriam submetidos a um pro- cesso “civilizatório”, isto é, europeizados. A primeira experiên- cia reducional foi em Juli, às margens do Titicaca, atualmente território do Peru junto à fronteira boliviana. Weber (2002, p. 116) procura demonstrar a nova postu- ra do protestantismo diante do mundo, comentando que

o ascetismo cristão, que de início se retirava do

mundo para a solidão, já tinha regrado o mundo ao qual renunciara a partir do mosteiro e por meio da Igreja. Mas no geral, havia deixado intacto o caráter naturalmente espontâneo da vida laica no mundo. Agora avança para o mercado da vida, fe- chando atrás de si a porta do mosteiro; tentou pe- netrar justamente naquela rotina de vida diária, com sua metodicidade, para amoldá-la a uma vida laica, embora não para nem deste mundo.

] [

Em certo sentido, este foi, salvaguardadas as óbvias dife- renças, o caminho traçado pelos jesuítas. Melhor seria, talvez, dizer que os jesuítas ampliaram o mosteiro para o mundo com

a sensibilidade de compreender o mundo enquanto seculum.

Os jesuítas tiveram a clareza necessária para perceber que a vida e a atitude cristãs

Os jesuítas tiveram a clareza necessária para perceber que a vida e a atitude cristãs não estão identificadas com o isolamento e o afastamento do mundo. Compreenderam que

o combate por Cristo implicava uma atividade plena. Assim,

a obra evangelizadora dos padres da Companhia de Jesus as- sumiu um sentido prático: vinha acompanhada de preocupa-

ções de se fazer presente na vida e no cotidiano das pessoas. A atitude contemplativa é substituída [ou acompanhada de] intervenções concretas no mundo secular. No caso das reduções americanas, não se tratava de, ex- clusivamente, converter os indígenas ao Cristianismo, ainda que fosse o fim a ser alcançado. Compreendiam os jesuítas que

a conversão só seria possível na medida em que a ação evan-

gelizadora viesse acompanhada de ações que representassem concretamente mudanças radicais, ou, ao menos, significati- vas, no modo de vida dos futuros catecúmenos. Ficava claro para os padres que a nova religião a ser trazida para os índios somente vingaria caso o modo de vida dos mesmos sofresse radical transformação. O Cristianismo é

também um modo de vida. Isso significa a exigência de certos tipos de comportamento que não eram observados entre os indígenas. Isto é particularmente verdadeiro no que se refere

a certas formas de comportamento presentes nas tradições in-

dígenas que contrariavam frontalmente os princípios do Cris- tianismo. Áreas particularmente sensíveis são a poligamia e a antropofagia. O sucesso da doutrinação religiosa só poderia ocorrer se simultaneamente à evangelização fosse desarticulado o modo de vida tradicional dos indígenas. Neste sentido, segundo Kern (1994, p.17), “a atuação dos jesuítas junto aos guaranis é francamente modernizadora e tem como objetivo a mudança em todos os sentidos: transformar os guaranis em homens po- líticos que ultrapassem o estágio selvagem e se transformem em habitantes da Polis”.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Isto implicava a necessidade de romper com as velhas

tradições culturais das populações indígenas. Normalmente, os porta-vozes destas tradições culturais eram os caciques e os “feiticeiros” (pajés) e com eles frequentemente se estabeleciam relações de conflito. O Padre Antonio Ruiz de Montoya (1997,

p. 61), em texto originalmente publicado em 1639, fala de um

cacique que “começou a perturbar e rebelar os ânimos contra nós”, dizendo que “foram os demônios que nos trouxeram es- tes homens, pois querem, com novas doutrinas, privar-nos do que é antigo e do bom modo de viver de nossos antepassados.”.

Porém, em um trabalho paciencioso, os jesuítas vão aos

poucos conquistando os Guarani. O próprio Montoya (1997,

p. 61) comenta que por dois anos os jesuítas toleraram os há-

bitos poligâmicos de um determinado chefe Guarani. Aos poucos, porém, a conversão do indígena vai se tor-

nando mais sólida. É possível que um dos fatores que mais tenha contribuído para isso tenha sido o trabalho feito junto às crianças, que parecem ter sido muito mais suscetíveis que os adultos. José de Anchieta (1998, p.107) comentava, sobre o tra- balho missionário no planalto de Piratininga, em São Paulo que “porque como dos pais nenhuma ou mui pequena espe-

tudo se converte em os filhos”. Nas reduções,

as crianças eram retiradas do convívio com os pais todas as manhãs e doutrinadas. Mais tarde, elas tratavam de repassar o que haviam aprendido aos adultos. À medida que o processo de conversão avançava, os Guarani iam sendo instalados nas reduções que eles próprios, sob supervisão dos padres, iam construindo. Aos poucos, “nos povoados guaranis um complexo processo de acultura- ção mescla as normas e a tradição indígena com novos hábitos e instituições europeias que são assimilados parcialmente ao longo do tempo.” (KERN, 1994, p.18). Na Província do Paraguai, a instalação das reduções

tem início em 1610, quando os padres José Cataldino e Simão

rança haja (

),

Masseta organizam os indígenas nos povoados missioneiros de Nossa Senhora de Loreto e Santo Inácio

Masseta organizam os indígenas nos povoados missioneiros de Nossa Senhora de Loreto e Santo Inácio Mini. Em 1626, o padre Roque Gonzalez de Santa Cruz funda São Nicolau, ini- ciando o processo em territórios do atual Rio Grande do Sul. Conforme o Padre Arnaldo Bruxel (1978, p. 22), “em menos de

25 anos foram fundadas mais de 30 reduções”. É por essa época que começam a aparecer as primeiras cabeças de gado: “desde 1628, há referências sobre gado nas reduções, em pequeno nú- mero e destinado à alimentação do padre e de doentes. Em 1634, os Padres Pedro Romero, superior das missões,

e Cristóvão de Mendoza compraram 1.500 vacas ao português Manoel Cabral Alpoim” (FLORES, 1986, p.12). Esse gado vai alcançar, a partir de 1637, a chamada Vacaria do Mar.

O período vai assistir às incursões dos bandeirantes

paulistas à região em busca de mão de obra escrava. Segundo

Bruxel (1978, p 25), “foram cativados mais de 300.000 índios, entre 1612 e 1638, sendo vendidos em mercado brasileiro uns 60.000 escravos indígenas, entre 1628 e 1631”. As frequen- tes incursões dos paulistas levaram os padres a transladar as missões para a outra margem do rio Uruguai, retornando em 1687. Das antigas reduções, muitas se extinguiram, umas so- breviveram parcialmente e outras foram, com o decorrer do tempo, reocupadas. Novas reduções também surgiram. Com

a fundação de Santo Ângelo, em 1707, completava-se o ciclo

de fundações de povos missioneiros que agora contava com 30

reduções, sendo que 7 delas no atual território gaúcho.

4 O plano urbanístico das reduções jesuíticas e organização econômico-social

As reduções apresentavam uma regularidade e simetria

do plano urbanístico. Obedeciam a um modelo-padrão com pequenas variantes individuais. Ao centro ficava uma grande praça quadrada com cerca de 150m de lado, para a qual con- vergiam as ruas principais. Em um dos lados da praça, ao nor-

Releituras da História do Rio Grande do Sul

te ou sul, ficava a igreja, dominando a paisagem em frente a

ela, no lado oposto da praça, o cabildo. Junto à igreja ficavam,

de um lado o cemitério e a casa das viúvas (cotiguaçu), e de outro a casa dos padres, escola, dois pátios internos, oficinas, etc.; nos fundos deste conjunto ficavam a horta e o pomar dos padres. Cercando a praça por três lados, encontravam-se as habitações dos índios. Kern (1994, p 33-36) chama a atenção para o fato de que a origem do conjunto que compõe a igreja, o cemitério e os outros equipamentos, se encontra em mosteiros beneditinos da Idade Média. Quanto ao traçado regular das ruas onde se encontram as casas, seria uma retomada Renas- centista do antigo projeto Helenístico de cidades planejadas.

O modelo era especificado pelas “Leyes de Indias” e deveria

ser aplicado nas várias povoações espanholas que vinham se constituindo na América. Nas oficinas, produzia-se toda a sorte de utensílios ne- cessários. Faziam-se trabalhos em olaria, cantaria, marcenaria, produziam-se instrumentos musicais. Em algumas reduções, até mesmo fundições (como em São João Batista) e tipografias

foram instaladas. Nas estâncias, o gado era criado livremente, mas pro- curava-se separar o gado equino, vacum e lanígero. A deli-

mitação aproveitava barreiras naturais, como rios, banhados, matos intransponíveis. Haviam, ainda, os posteiros, famílias

de indígenas encarregados de amansar o gado e fazer os neces-

sários rodeios. A carne abastecia as reduções, constituindo-se em seu alimento principal. As reduções também se caracterizaram pela produção em larga escala de erva-mate. A “Ilex Paraguariensis”, por estar associada às atividades xamânicas dos pajés, foi inicial- mente proibida pelo governo espanhol e seu uso punido com excomunhão pela Igreja. Ainda assim, seu uso se tornava cada vez mais difundido a ponto de a proibição ser revogada e as reduções jesuíticas tornarem-se os principais produtores de

erva-mate. Mais do que isto, a erva-mate tornou-se o princi- pal produto de exportação das

erva-mate. Mais do que isto, a erva-mate tornou-se o princi- pal produto de exportação das reduções e sua principal fonte de recursos. Os jesuítas instituíram um sistema caracterizado por um acentuado dirigismo econômico. Este modelo condizia com o que se poderia considerar uma síntese entre as concepções europeia, orientada por uma perspectiva jesuítica, e indígena, esta última, que vinha sofrendo brutais transformações com a chegada dos europeus. Imbuídos, do ponto de vista econômi- co, de uma lógica mercantilista, os jesuítas procuram integrar os indígenas em um novo contexto produtivo. Assim, os indí- genas são submetidos a uma nova realidade econômica. Seu modo de vida tradicional é quebrado; as formas e os processos produtivos e os tempos necessários para garantir a sobrevi- vência são profundamente alterados. Godelier (1988, p.78), ao se referir a sociedades coleto- ras/caçadoras, comenta que:

Constatou-se, por meio de observações quantitati- vas precisas e prolongadas em sociedades de caça- dores e de colectores, que aos membros produtores dessas sociedades bastavam pouco mais ou menos quatro horas de trabalho por dia para cobrirem to- das as necessidades de pequenos grupos humanos e, mesmo perante estes factos, cai rapidamente por terra a visão dos primitivos esmagados pela natu- reza e vivendo exclusivamente para subsistir. Mui- to pelo contrário, parece que o desenvolvimento da agricultura resultou no alongamento do dia de tra- balho e quantidade de trabalho anual necessário à produção e à reprodução das condições materiais da sociedade.

É essa organização original que é rompida. O ritmo de trabalho não é mais ditado pelas necessidades naturais, mas por novas imposições sociais. O tempo não é mais o tempo da natureza, mas o do relógio. O cotidiano indígena, agora, é

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ditado pelo jesuíta. Ora, a inserção dos indígenas em um novo modo de produção representa uma ruptura que nem sempre era facilmente assimilada. Daí acontecer de os indígenas apre- sentarem frequentemente “resistências” ao novo modelo, ou apenas não seguirem as regras com o rigor que os jesuítas es- peravam. Por isso, não raro eram taxados de “imprevidentes” ou “indolentes”. Os jesuítas procuraram adaptar o modo de vida indí- gena à nova realidade. O sistema de propriedade ou posse da terra procurava, por exemplo, fazer um casamento entre duas culturas distintas. Kern (1994, p. 17) demonstra que

a propriedade familiar ou clânica (“Abama-

baé”) está relacionada à horticultura de origem neolítica, enquanto que muitas das tradições cultu- rais européias introduzidas, tais como a agricultu-

] [

ra do arado, a pecuária e o artesanato com tecno- logia mais avançada, passam a ser uma atividade comunitária (“Tupambaé”).

A organização social também reflete esta síntese. Nova-

mente, com Kern (1994, p. 17), pode-se perceber que

Nas missões jeusítico-guaranis não existiam “clas- ses” sociais, mas uma divisão de trabalho por sexo e por idade, onde duas categorias sociais se distin- guem pela função: os caciques escolhidos dentre os guaranis e uma “casta” de padres imposta pela so- ciedade global espanhola.

A divisão natural do trabalho (por sexo e por idade)

pressupõe a inexistência de mecanismos de acumulação como os constituídos na Europa. “Toda a população missioneira tra- balhava para o bem comum da redução, sem receber remune- ração alguma.” (NEUMANN, 1996, p. 60). Daí não existirem “classes” sociais, como diz Kern.

Neumann (1996, p. 61) comenta, a esse propósito, que nas oficinas das reduções A organização

Neumann (1996, p. 61) comenta, a esse propósito, que nas oficinas das reduções

A organização do trabalho (

semelhança com a organização das similares no medievo europeu, apresentando uma estrutura

hierárquica de aprendizes, oficiais e mestres (al- caide), e a propriedade comunal das ferramentas

de trabalho. A transposição do modelo europeu re-

sulta do fato de que a estruturação do modelo de trabalho nas reduções é fruto de uma sociedade de contato e fortemente influenciado pelo sistema de trabalho mais organizado. No entanto, mesmo as-

sim criavam-se moldes de trabalho próprio, corres- pondendo a outras estruturas sociais provenientes

guarda grande

)

da experiência guarani.

Já os mecanismos políticos constituem uma imposição da “sociedade global espanhola”. A direção das reduções cabe a dois padres em cada povo – um com funções religiosas e outro com funções administrativas – apoiados por um con- selho de caciques reunidos em um cabildo à moda espanhola. Os caciques são escolhidos pelos padres dentre as lideranças indígenas originais que pudessem colaborar com a tarefa je- suítica. Os cabildos “governam em nome dos governadores de Assunção ou Buenos Aires” (KERN, 1994, p. 22). As casas dos índios também são uma demonstração des- sa síntese. Dispostas segundo o traçado definido pelas “Leyes de Indias”, como já comentado, elas se constituem de constru- ções retangulares com alpendres que a cercavam nos quatro la- dos. A casa era uma forma revista da grande habitação coletiva indígena (oka) em que viviam famílias extensas, onde, porém, devido aos necessários escrúpulos religiosos, se fez introduzir divisórias internas que separassem as famílias nucleares.

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5 As reduções e suas relações com a sociedade espanhola

Os objetivos dos padres são, antes e acima de tudo, reli- giosos e, portanto, comprometidos com a conversão ao cristia- nismo. Porém, há o mundo concreto da colonização espanho- la, com o qual os jesuítas vão procurar integrar suas ambições evangelizadoras. Neste sentido, se defrontam com problemas de toda ordem, resultantes de uma realidade multifacetada. De um lado, a obediência devida ao Estado espanhol e às Leyes de Índias; de outro, os princípios doutrinários da Ordem e o respeito à hierarquia religiosa. À sua frente, uma multidão de indígenas a ser retirada de seu modo de vida e introduzida no mundo cristão; por trás, o poderoso Império espanhol que os usa nas regiões fronteiriças para deter o avanço português. Por outro lado, os jesuítas se defrontavam com a neces- sidade de “proteger” os indígenas do contato com a socieda- de espanhola. Visitantes espanhóis em geral não eram muito bem-vindos (excetuando-se, evidentemente, as autoridades), tanto que o local de abrigo para viajantes – o “tambo” – ficava nas áreas periféricas do aglomerado urbano. Os indígenas reduzidos são súditos do rei da Espanha e, como tal, eram, quando necessário, recrutados para o serviço de sua majestade. Kern (1994, p. 25) comenta que eram cons- tantes as “atividades bélicas das milícias Guarani a serviço dos reis da Espanha contra portugueses, contra tribos nômades do Pampa e do Chaco (Charruas, Minuanos e Guaicurus) e mes- mo contra brancos revoltados em Assunção (Revolta do Bispo Cárdenas e Revolta dos Comuneros”. As atividades bélicas não eram as únicas. Na região do Rio da Prata, os indígenas são convocados com frequência. Neumann (1996, p. 76) sintetiza as convocações de trabalho em três grupos: facções de guerra, obras públicas e transporte e construção naval. Desta forma, os Guarani das reduções deixaram uma marca bem-definida no cenário econômico-social da América espanhola.

6 A Guerra Guaranítica e a decadência das reduções Em 1750, o Tratado de Madri

6 A Guerra Guaranítica e a decadência das reduções

Em 1750, o Tratado de Madri vai regularizar os limites das áreas que cabiam a Portugal e Espanha na região. Portugal entrega à Espanha a Colônia de Sacramento e, em troca, rece- be a região dos Sete Povos. Os missionários jesuítas procuram atuar junto à Coroa espanhola no sentido de anular a decisão do Tratado. Não o conseguindo, e, por estarem ligados politi- camente ao Estado, os missionários iniciam um processo de transferência para a outra margem do Rio Uruguai. O Tratado definia o prazo de um ano para a retirada das reduções. Por- tugal e Espanha organizam uma comissão de demarcação de limites a cargo de Gomes Freire de Andrade e do Marquês de Valdelírios. A comissão inicia suas atividades em 1752. Os jesuítas solicitam a ampliação do prazo, pois consideravam necessário pelo menos três anos para deslocar mais de 30 mil pessoas e 700 mil cabeças de gado. Além disso, ainda não havia espaço nos povoados missionários da Argentina que pudesse ser ocu- pado por eles. Valdelírios não admite alteração nos prazos e os padres não têm alternativa, a não ser tentar convencer os Guarani a se retirarem. Um número muito grande de indígenas não acata tais decisões, particularmente nas reduções de São Nicolau e São Miguel, e vai se armar. Em 1753, iniciou o conflito. Em 1756, Sepé Tiaraju, principal liderança indígena, cai morto e, três dias depois, 1.500 Guarani são mortos em Caibaté. Aos pou- cos, a resistência se desfez, as reduções foram ocupadas e a população, deportada para a outra margem do Uruguai. Pouco tempo depois, em 1761, Carlos III, da Espanha, rescinde o Tratado de 1750 e os Guarani voltam ao território dos Sete Povos, ocupando as povoações semidestruídas. Os anos 1700 se caracterizam, ainda, pela ascensão, na Europa, do despotismo esclarecido.

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As palavras de ordem agora seriam ‘seculariza- ção’ e ‘modernização’, e seu significado, amplo na conjuntura reformista do século XVIII, viria a ser a abolição da influência e dos controles ideológi- cos de natureza eclesiástica, para efetivar o plano político, qual seja, a visão do Estado como procu- rador dos interesses do bem comum. (QUEVEDO, 1998, p. 53)

O Marquês de Pombal, ministro de D. José I, inicia o processo de reforma política em Portugal, tendo como alvo a Companhia de Jesus. Em 1759, os jesuítas são expulsos de Portugal e, em seguida, do Brasil, da França, da Espanha. Pressionando o papado, as monarquias europeias consegui- ram que o papa Clemente XIV extinguisse a Companhia em 1773. Somente na Rússia dos czares, os jesuítas sobreviveram no período. A Companhia só veio a ser restaurada em 1805. Nesse período, as reduções entraram em declínio acen- tuado. Inicialmente, as reduções foram entregues a outros grupos religiosos. Porém, pouco foi feito. Os Sete Povos não chegaram a ser reconstituídos plenamente após a Guerra Gua- ranítica e as demais reduções, entregues à própria sorte, aos poucos foram definhando. Nos inícios dos anos 1800, os rela- tos dos viajantes mostram as reduções em ruínas.

7 Conclusão

Inseridas em um contexto de exploração colonial, as reduções acompanharam o processo de ocupação de terras americanas levada a cabo pela Coroa espanhola. Sua atuação implicou não apenas a conversão religiosa dos indígenas, mas sua inserção em modo de vida “europeizado”. O modo de pro- dução foi radicalmente alterado, com a introdução de novas técnicas, de uma reorganização do tempo produtivo em mol- des europeus, e de novas formas de trabalho. As novas tecno- logias são apenas um adendo a essas mudanças.

As relações familiares também se alteraram à medida que novos padrões de casamento e organização

As relações familiares também se alteraram à medida que novos padrões de casamento e organização familiar fo- ram instituídos nas reduções. Da mesma forma, diversos ou-

tros padrões culturais e, naturalmente, religiosos presentes na sociedade Guarani foram alterados ou simplesmente extintos. As populações indígenas missioneiras, que haviam sido preparadas pelos jesuítas para viver nas reduções segundo os padrões cristãos europeus, viram-se após a Guerra Guaraníti-

ca em uma situação peculiar. Oscilando entre os interesses es-

panhóis e portugueses, os Guarani não chegaram a constituir uma força suficientemente capaz de se impor de forma autô- noma. E não poderia ser de outra forma. As reduções foram constituídas no sentido de enquadrar-se no projeto coloniza-

dor europeu. A autonomia missioneira tinha limitações e a ca- pacidade de se diferenciar dos estados colonizadores também.

A derrota na guerra guaranítica é a comprovação disso.

Retirados de seu hábitat original, com seu sistema so- ciocultural e econômico desorganizado para que pudessem viver uma nova vida nas reduções, os indígenas viram tam- bém estas serem destruídas. O resultado é que acabaram por ser relegados a segundo plano tanto por espanhóis quanto por portugueses. Após a derrota na guerra, impossibilitados de uma atuação autônoma e sem apoio dos jesuítas após a expul- são destes do território colonial, os indígenas passam a viver à margem da sociedade colonial e pós-colonial.

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

A OCUPAÇÃO IBÉRICA DO TERRITÓRIO E AS DISPUTAS PELAS FRONTEIRAS DO CONTINENTE DE RIO GRANDE

1 Introdução

* Edison Bisso Cruxen

A fundação do presídio (guarnição) de Jesus-Maria-José, pelos portugueses, em 1737, serve como ponto de referência para iniciar, “oficialmente”, a historiografia do Rio Grande do Sul. Este assentamento funcionou como base da colonização europeia efetiva do litoral e para criação da cidade de Rio Grande. Mas as terras situadas junto às fronteiras Oeste e Sul do atual Rio Grande do Sul já se integravam na chamada Re- gião Platina, que, muito antes de 1737, era ocupada e explo- rada por grupos de portugueses, espanhóis, luso-brasileiros e hispano-americanos. Estancieiros, contrabandistas, missionários religiosos, caçadores de gado selvagem, militares, tropeiros e etc. transi- tavam entre os territórios divididos por tratados entre as duas Coroas Ibéricas, no “Além-mar”, sem grande respeito pelas possíveis fronteiras, que se caracterizavam por serem extre- mamente difusas e móveis. Esta situação passou a mudar no momento em que assentamentos cada vez melhor estrutura- dos passaram a fazer parte da paisagem. Com o tempo, a fun- dação e o desenvolvimento do que podem ser definidos como “centros urbanos”, ligados ao manejo do comércio, à caça do gado, à exploração dos recursos naturais, ao controle de rotas e bases para o avanço seguro no território, acirraram a tenta- tiva de divisão entre os “espaços” de domínio luso e hispânico na parte meridional americana.

* Professor. Mestre do Curso de Licenciatura em História da FAPA.

Embora essas fronteiras jamais tenham se configura- do enquanto limes 1 ostensivo e intransponível, configurando

Embora essas fronteiras jamais tenham se configura- do enquanto limes 1 ostensivo e intransponível, configurando muito mais um dinâmico espaço de contato, troca e intera- ção, durante séculos Portugal e Espanha disputaram, através da diplomacia e das armas, o território que viria a constituir o atual estado do Rio Grande do Sul. A complexa contradição do funcionamento da região fronteiriça rio-grandense, o pro- cesso de ocupação do território e a constituição dos primeiros assentamentos, que viriam a dar origem aos futuros núcleos urbanos, na região então conhecida como “Continente de Rio Grande”, será revisitada neste capítulo.

2 A fronteira

Para Kühn (2007, p. 23), a historiografia tradicional desenvolveu uma concepção de fronteira sul-rio-grandense onde se privilegiam, em excesso, as disputas e exclusões entre os povoados hispânicos e lusitanos, e na constituição de uma imagem heróica e idealizada do conquistador e colonizador dos “novos” territórios em disputa. Seguindo a lógica tradi- cional, o território do Rio Grande do Sul desde sempre seria português, passando posteriormente a ser brasileiro, obede- cendo ao “fluxo natural” da história, negando a presença ou influência castelhana. “O Rio Grande sempre foi, desde sua origem, um pedaço do Brasil, o Brasil que cresceu de si mes- mo” (VELLINHO, 1975, p. 207).

Moysés Velinho construiu uma narrativa que tinha como idéia subjacente a noção da lusitanidade da

1 Conforme Nunes (2005, p.140-141), pode-se definir como limes

uma estrada estratégica ao longo da fronteira ou da linha a defender, apoiada, espaçadamente, por fortes, muralhas e campos fortificados. Destinava-se a constituir uma barreira à entrada das forças inimigas numa vasta região ou país, em conjugação com o dispositivo e atuação das tropas amigas. O conceito de limes foi utilizado em Portugal nos primórdios da nacionalidade, quando a defesa do território se fez, de norte para sul, apoiada nos rios, ou, posteriormente, em concentrações de fortificações ao longo da fronteira, que passou a constituir uma linha fortificada”.

um sistema que consistia em construir

Releituras da História do Rio Grande do Sul

formação do Rio Grande. Em Fronteira

sonagens escolhidos são altamente significativos e estão encadeados em uma seqüência que não per- mite contestações. Ela se inicia com o fundador de Rio Grande, o brigadeiro Silva Pais, que simboliza a conquista do território; na seqüência, vem An- dré Ribeiro Coutinho, uma figura notável por sua experiência a serviço do Império português, que consolidou o povoamento do território. O terceiro personagem é Gomes Freire, o todo poderoso go- vernador do Sul do Brasil, que com sua atuação in loco, assegurou os interesses lusitanos no Con- tinente; em seguida, vem a dupla Francisco e Ra- fael Pinto Bandeira, pai e filho, que se destacaram como militares e fazendeiros a serviço de uma úni- ca causa: a posse do Rio Grande. O último elo des- sa cadeia de grandes personagens é José Marcelino, governador do Rio Grande durante o período em que os espanhóis estavam ocupando militarmente metade do Continente. (KÜHN, 2007, p. 23)

os per-

A sequência de personagens relevantes, que respeita uma lógica altamente encadeada, termina por constituir uma história unicamente lusitana e brasileira do Rio Grande do Sul. Esta ótica de grandes fazendeiros e oficiais militares, que tomam o destino do Continente em suas mãos, praticamente não deixa espaço para a aceitação da presença e participação de espanhóis ou hispano-americanos na constituição e no funcionamento da fronteira meridional portuguesa, durante o período colonial e imperial. A perspectiva assumida pela tradicional historiografia sul-rio-grandense foi da fronteira intransponível, onde eram deixadas de lado as aproximações e trocas que ocorreram en- tre os dois lados da fronteira. A partir deste ponto de vista, o território do atual Rio Grande do Sul era definido como “espaço vazio”, “terra de ninguém”, ocupado tardiamente. Tal proposta minimizava ou negava a presença e intervenção

constante de espanhóis e hispano-americanos no Continente 2 (REICHEL, 2006, p.61). Em entrevista a uma

constante de espanhóis e hispano-americanos no Continente 2 (REICHEL, 2006, p.61). Em entrevista a uma escritora nordestina, que conside- rava os gaúchos acastelhanados, o romancista Erico Verissimo definiu, de forma pungente, dentro dos cânones tradicionais, a situação da fronteira e o processo de ocupação do território do Rio Grande do Sul, confirmando a “raiz lusitana” e a inegável “nacionalidade brasileira” da região desde tempos imemoráveis.

Somos uma fronteira. No século XVIII, quando sol- dados de Portugal e Espanha disputavam a posse definitiva deste então “imenso deserto”, tivemos de fazer nossa opção: ficar com os portugueses ou com os castelhanos. Pagamos um pesado tributo de sofrimento e sangue para continuar deste lado da fronteira meridional do Brasil. Como pode você acusar-nos de espanholismo? Fomos desde os tem- pos coloniais até o fim do século um território cro- nicamente conflagrado. (VERISSIMO apud OLI- VEN, 2006, p. 63-64)

Durante o século XVIII, as Coroas espanhola e portu- guesa disputaram as fronteiras da Região Platina em diversos conflitos armados. Essa noção de fronteira, como espaço de constante separação e belicosidade, não leva em conta a ine- xistência de estados nacionais unificados e territorialmente definidos, bem como a falta da noção de nacionalidade, tal como existe atualmente. Os embates não estavam fundamen- tados no nacionalismo, que surge somente com a criação dos Estados Nacionais latino-americanos no século XIX. A noção de “Pátria”, para um homem do século XVIII, significava o pertencimento a uma cidade ou região e não a uma nação ter- ritorialmente constituída (KÜHN, 2004, p.52).

2 “A expressão Continente ou Continente de Rio Grande referia-se, segundo Guilherme Cesar, a uma vasta porção de terra contínua situada entre a capitania de Pero Lopes de Sousa (que abrangia o território cata- rinense até a altura de Laguna) e o estuário do Prata.” (KÜHN, 2007, p.50)

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Ruben Oliven (2006) apresenta interessante exemplo que vem ao encontro das questões de nacionalismo e patrio- tismo tratados de forma anacrônica. Em 1955, a Comissão de História e Geografia do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul emitiu um parecer negativo à construção de um monumento, em Porto Alegre, em homenagem a Sepé Tiaraju (na comemoração do bicentenário de sua morte). O historiador Moysés Vellinho foi um dos signatários a vetar a homenagem. O argumento se apoiava no fato de que Sepé “se bateu e morreu por uma causa que não era nossa, que era, pelo contrário, abertamente oposta à causa que teve como efeito histórico a integração do Brasil meridional em suas divisas atuais” (VELLINHO apud OLIVEN, 2006, p.72). Na medida em que as ações de Sepé Tiaraju eram contrárias à integração das terras dos Guarani às posses portuguesas, ele não poderia ser aceito como um herói brasileiro, muito menos gaúcho. Nos registros paroquiais da freguesia de Viamão, está registrada uma expressiva presença de espanhóis e hispano- -americanos. O livro de batismo utilizado entre 1747 a 1759 conta com mais de 10% de indivíduos de origem hispânica. “Eram castelhanos, galegos, andaluzes e valencianos, além de indivíduos de diversas procedências sul-americanas”. Cerca de 40 indivíduos de origem hispânica habitavam os Campos de Viamão nas primeiras duas décadas de existência da fre- guesia. A fronteira, que a priori deveria separar, ao mesmo tempo permitia a passagem, o contato, o “contágio”. Em vez de exclusão, havia a situação de convivência e articulação en- tre zonas produtoras e mercados consumidores. “Uma intensa circulação de homens e mercadorias, em um contexto demo- gráfico heterogêneo e numa conjuntura de instabilidade po- lítica” (KÜHN, 2007, p. 24). Isso possibilitou o estreitamento de laços comerciais, culturais e matrimoniais entre espanhóis e lusitanos na América Meridional. O conceito de limite, linha político-territorial extrema, que define parte da natureza de um Estado-nação de forma

objetiva, não pode ser utilizado quando se trata de fronteiras, as quais devem ser compreendidas

objetiva, não pode ser utilizado quando se trata de fronteiras, as quais devem ser compreendidas como faixas (ou zonas), em um determinado território. A linha divisória, formulada

e prevista em mapas e acordos diplomáticos, estaria inserida

nessa zona de difícil precisão (GOLIN, 2002, p.14). Os riscos de viver nessa instável região eram compen- sados com as possibilidades de acesso a terras, cargos e negó- cios. Possivelmente, as pessoas que habitavam a divisa entre o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina, durante o perío- do colonial, percebiam a fronteira enquanto “linha divisória”, zona de aproximação e alternativa de sustento e prosperidade.

A primeira constatação que aparece relacionada

com a definição das fronteiras no interior da Re- gião Platina é a de que, ali, os conflitos foram uma constante durante quase todo o período colonial. Entretanto, os avanços e recuos dos limites divisó- rios dos Impérios português e espanhol na América meridional afetaram os seus habitantes não só em tempo de guerra, mas nos de paz. A indefinição das linhas demarcatórias levava-os a perceber a fron- teira como uma possibilidade de estabelecer redes

de trocas, contatos, de concretizar desejos, de reagir

a dificuldades. Com isso, a fronteira atuava não só como uma linha que define até onde um território

se estende e outro inicia, mas como uma zona de

intercâmbios, em que predominam interações entre grupos sociais. (REICHEL, 2006, p. 48)

As fronteiras, na América Meridional colonial, existiram

e foram importantes, mas estavam no interior de um espaço

maior, a região Platina. Essas fronteiras internas se caracteri-

zavam pela mobilidade e indefinição e atuaram muito mais como “zona” de estímulo de contatos e intercâmbios entre os indivíduos, do que limes separando sociedades e culturas. Para Fábio Kühn (2007, p. 27), a emancipação política das colônias ibéricas e a estruturação dos estados nacionais la-

Releituras da História do Rio Grande do Sul

tino-americanos, no século XIX, deterioraram o panorama de “tolerância”, a convivência e a articulação existente nas fron-

teiras do século XVIII. O estado de guerra que se instaurou entre as novas nações (Argentina, Uruguai, Paraguai e Bra- sil) deu origem a uma representação historiográfica que pri- vilegiou o conflito e a tensão permanente na região raiana. O pesquisador Tau Golin (2002, p. 15) define que, atualmente, o conceito abrangente para definir o espaço limítrofe entre o Rio Grande do Sul e seus vizinhos “castelhanos” é de “uma área compartilhada, moldada por uma história comum”. Mas tal se trata de um compartilhamento onde historicamente ocorre- ram “crises, conflitos e ódios mútuos”. O imaginário do com- partilhamento teria sido construído ao longo do século XX, depois de definidas as fronteiras e terminados os conflitos de estruturação dos novos estados nacionais. Nesse período, as relações de boa vizinhança se fizeram sentir com mais força. A ideia de “formação de um espaço transfronteiriço” seria o fruto de uma imagem histórica depurada dos conflitos trans- nacionais decorridos ao longo do século XIX.

A fronteira compreendida apenas como divisão geopo-

lítica impossibilita uma compreensão ampla de seu complexo funcionamento e dos diversos processos que nela se desenvol-

vem. A fronteira, como resultado de relações de poder, tanto existe de forma tangível, visível e concreta, marcada por rios, montanhas, campos, florestas, muros, cercas, postos de vigi- lância, guardas, fortificações, quanto em pensamento, como um símbolo, um conceito, estando carregada de ambiguidade. Um claro exemplo se encontra no princípio do utis possidetis, segundo o qual o estipulado pelos tratados das Coroas de Por- tugal e Espanha nem sempre foi seguido pelos habitantes da colônia, ou seja, a prática não obedecia a teoria.

A noção que prevaleceu para constituição dos espaços

na Região do Prata não foi do direito natural sobre um territó-

rio. A construção do território colonial obedeceu ao princípio

do uti possidetis, que postulava ações concretas na ocupação de terras, criando direitos sobre as

do uti possidetis, que postulava ações concretas na ocupação de terras, criando direitos sobre as mesmas. No caso do Rio

Grande do Sul, a fronteira foi um produto desse princípio, um processo paulatino de conquista e ocupação, transcendendo o estipulado pelo direito natural e pelos tratados diplomáticos. A raia rio-grandense foi fruto da “criação humana, interven- ção do Estado e grupos regionais” durante o período colonial

e imperial (GOLIN, 2002, p. 50). Conforme Rui Cunha Martins (2000), “a fronteira é um espaço em incorporação ao espaço global que é o espaço urbanizado, e sua incorporação se efetua através do núcleo urbano, condição chave da ordenação do espaço territorial e social” (p. 141-142). Desde o período medieval, na Península Ibérica, a legitimidade da ocupação e posse de um território fronteiriço estava diretamente relacionada à criação de povo- ados, devidamente estruturados. A grande maioria desses as- sentamentos fronteiriços tinha por base a construção de uma fortificação ou de uma povoação amuralhada. A partir deste “ponto de proteção” e vigilância passavam a se constituir os futuros centros urbanos, com a principal função de organizar

a exploração dos recursos naturais da região. Durante os séculos XIII e XIV se percebe, junto à fron-

teira luso-castelhana Ibérica, uma verdadeira explosão urba-

na. A construção, reocupação ou reforma de fortificações nes-

ses espaços limítrofes atraíam novos povoadores, a segurança

possibilitava o aumento demográfico. Desde o final do século

XIII desenvolveu-se um “jogo”, como em um tabuleiro de xa-

drez, tanto do lado português como no castelhano, na busca

por lugares estratégicos para construção de fortalezas, visando

à futura constituição de centros urbanos, que viriam a legiti-

mar a posse do território. Iniciar um povoado de um lado da

fronteira tinha como reflexo, tão rápido quanto fosse possível,

a constituição de um novo povoado também do outro lado (ANDRADE, 2001).

Releituras da História do Rio Grande do Sul

3 Os Campos de Viamão

A ocupação dos Campos de Viamão era mais antiga do que a criação do presídio de Rio Grande, mas tratava-se de um empreendimento particular, no qual os habitantes estavam mais preocupados com o lucro do comércio e a criação de gado, sem assumirem o papel de defensores dos interesses lusitanos na região. Os Campos de Viamão, nas décadas iniciais (1730 e 1750), ocupavam praticamente todo o Continente, exceto a povoação de Rio Grande, onde se estabeleceram os primeiros povoadores portugueses. Com a ocupação espanhola da vila de Rio Grande em 1763, a freguesia de Viamão passou a ser a sede do poder lusitano, com o estabelecimento do Governa- dor e da Câmara na povoação. Entre 1763 e 1772, o povoado serviria como centro da política expansionista portuguesa no extremo sul da América. Somente com a transferência da ca- pital para Porto Alegre, em 1773, e com a reconquista de Rio Grande, em 1776, Viamão perdeu sua centralidade. Conforme Künh (2007, p.47), os Campos de Viamão

abrangiam uma imensa área no nordeste do

atual Rio Grande do Sul. Os tais campos corres- pondiam às terras situadas ao sul do rio Mampi- tuba, tendo ao leste o oceano Atlântico e a oeste e a sul a baliza fluvial do Guaíba e da lagoa dos Patos. Para os paulistas e lagunistas que explora- vam o Rio Grande a partir do “Caminho da Praia”, os campos eram todas as planícies despovoadas à margem esquerda do Rio de São Pedro. Nessa re- gião se estabeleceram os mais antigos povoadores do Continente. Posteriormente, com o desenvolvi- mento populacional, foi criada a freguesia de Via- mão (1747), desmembrada de Laguna. A freguesia de Viamão deu origem, nas décadas seguintes, a diversas outras freguesias, como Triunfo (1756), Santo Antônio da Patrulha (1763) e Porto Alegre (1772), entre outras.

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Em 1738, foram doadas 11 sesmarias para constitui- ção de fazendas de criação de gado

Em 1738, foram doadas 11 sesmarias para constitui- ção de fazendas de criação de gado e mulas. A princípio, para constituição dos rebanhos, o gado foi pilhado na Vacaria do Mar e nas estâncias missioneiras. A península ao norte do ca- nal até Mostardas foi reservada para organizar a estância Real do Bojuru, que forneceria carne e montarias à guarnição da comandância. Mas necessidades de abastecimento de alimen- tos e animais de carga na região de exploração das Minas Ge- rais geraram a integração do Sul ao mercado interno colonial. Os Campos de Viamão continham uma gigantesca reserva de gado que podia ser adquirida e posteriormente comercializa- da no Centro do Brasil. Na primeira metade do século XVIII, por meio dos tropeiros, iniciava-se a integração, dos Campos de Viamão, com as regiões mineradas coloniais (FLORES, 1997, p. 50 - 51). As terras eram concedidas aos povoadores por meio das sesmarias (em média 3 x 1 léguas) 3 e datas (1/4 de légua qua- drada), doadas às famílias chamadas de “casais de número”, que voluntariamente povoaram o Continente de Rio Grande. As primeiras sesmarias foram concedidas na região dos Cam- pos de Viamão, antes da ocupação oficial do Continente pelos portugueses, em 1732. Em 1750, ocorreu uma intensificação das concessões de sesmarias, quando se iniciou a apropriação das terras da bacia do Jacuí, obtidas por Portugal no Tratado de Madri e protegidas pela fortificação de Rio Pardo (tran- queira invicta). 4 Em 1764, assumiu o governo do Continente o coronel José Custódio de Sá e Faria. Em seu “Regimento”, constaram as principais preocupações da Metrópole e, dentre

3 Aproximadamente 6.600 metros. Uma légua de frente por três de fundo. 4 Segundo Moacyr Flores (1997, p.60) “Vertiz y Salcedo chegou à margem direita do Jacuí e intimou a ren- dição do forte de Rio Pardo em 1775. Pinto Bandeira não aceitou e fingiu que recebia um grande exército e o governador, disparando salvas com os pequenos canhões de diversos pontos, desfraldando bandeiras, ordenando que os soldados disparassem para o ar, enquanto a banda tocava. Uma nuvem de poeira se levantou por trás das árvores, como se fosse produzida por um grande exército. Eram apenas soldados que arrastavam galhos galopando em várias direções. Enganado, Vertiz y Salcedo retrocedeu para Rio Grande, sofrendo ataque de guerrilhas ao durante a longa marcha.”.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

elas, a necessidade de defesas mais capacitadas, com a cons- trução de fortins no rio Taquari para a manutenção dos Cam- pos de Viamão (CESAR, 1970). Conforme explica Mônica Diniz (2005), as sesmarias 5 eram terrenos incultos e abandonados, entregues pela Monar- quia portuguesa, desde o século XII, às pessoas que se com- prometiam a colonizá-los dentro de um prazo previamente es- tabelecido. Esse sistema de aquisição de terras era apropriado em regiões e épocas em que prevalecia o estado de guerra e uma baixa densidade populacional, originando terras ociosas e com possibilidade de serem invadidas pelos inimigos. No con- texto das descobertas marítimas portuguesas, a obra política e comercial da colonização tinha como ponto de apoio a distri- buição de terras. A Monarquia portuguesa, na tarefa de povo- ar o imenso território americano, encontrou, nas bases de sua tradição medieval, um modelo: as sesmarias. A orientação da

distribuição das sesmarias pregava o retorno das terras que não eram devidamente aproveitadas para as mãos da Coroa, fican- do claro o sentido de ocupação, povoação, cultivo e exploração dos devidos recursos oferecidos pelo território cedido. Um dos principais efeitos da invasão espanhola de Rio Grande, em 1763, foi a aceleração do processo de militariza- ção da sociedade rio-grandense, que levou ao impedimento do desenvolvimento da agricultura e a dificuldades nas demais atividades produtivas, devido à mobilização de mão de obra e

à expropriação da produção agrícola, em função do abasteci- mento do Exército. Como fatores complicadores das preten-

sões da Coroa, pode-se citar, ainda, o aumento da deserção, em função do recrutamento compulsório, o que fez crescer

o contingente de vagabundos e vadios, e o fortalecimento do

poder local dos estancieiros-militares. O poder do grupo de soldados-estancieiros se consolidou a partir de 1764, justa-

mente com a invasão espanhola (KÜHN, 2007).

5 O vocábulo “sesmaria” é derivado do termo medieval português “sesma”, que significava 1/6 do valor estipulado para compra de um terreno; o verbo “sesmar” significava, ainda, estimar, calcular, avaliar.

As sesmarias dadas aos militares que vinham viver na zona fronteiriça serviam como prêmio ou

As sesmarias dadas aos militares que vinham viver na zona fronteiriça serviam como prêmio ou estímulo, mas tam- bém como ponto de partida para outras apropriações por parte de seus beneficiários, dando origem a grandes propriedades. Os soldados de profissão convocados para servir junto à fron- teira, que recebiam sesmarias e datas como recompensa, geral- mente não tinham interesse nem condições econômicas para explorar os campos recebidos. Desta forma, criou-se o costu- me de vendê-las a outros proprietários, contribuindo para a concentração e o aumento do tamanho das propriedades. Na fronteira, ao mesmo tempo em que militares se tor- navam estancieiros, civis, buscando defender suas proprieda- des, terminavam envolvidos nas atividades de defesa do ter- ritório. Como recompensa pelos serviços prestados à Coroa portuguesa, passaram a ser condecorados com patentes mili-

tares. O estancieiros-militares constituíram o grupo dominan-

te da zona fronteiriça, “aproveitaram-se da distância em que se

encontravam dos órgãos do poder para mesclar o público com

o privado e submeter terras e trabalhadores ao seu domínio”

(REICHEL, 2006, p. 54). Quase sem controle estenderam suas propriedades, transformando-as em grandes estâncias, difi- cultando a sobrevivência da população comum.

A partir dos dados demográficos tornou-se possível entrever uma sociedade típica do Antigo Regime Português nos trópicos, baseada na existência de uma nítida hierarquia social e marcada pela pre- sença expressiva da escravidão. Longe do cenário que enxerga o passado colonial como terra de gaú- chos, vivendo envoltos em lides guerreiras, o que se descortina é uma sociedade extremamente ex- cludente, onde uma pequena minoria de famílias detém uma grande parte da riqueza existente, fos- se na forma de terras, gados ou homens. (KÜHN, 2004, p. 48)

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Fabio Kühn (2004, p. 53-54), utilizando como fonte de pesquisa os róis de confessado (recenseamentos paroquiais), indica que, em 1751, a freguesia de Viamão apresentava 42% de sua população composta por cativos de origem africana. Os cativos indígenas perfaziam somente 3%, o que indica o pleno declínio da “administração particular” do “trabalho” in- dígena entre os povoadores. O número de escravos africanos demonstra ser muito elevado, tanto para o um período tão re- cuado no processo de colonização quanto para uma economia totalmente voltada ao mercado interno. Dentre as unidades domésticas analisadas, 62% apresentavam posse de escravos, uma média de quatro cativos africanos por casa. Outro dado infere que os 12 maiores senhores da freguesia detinham, con- juntamente, 132 escravos, ou seja, 46% do total. Os grandes estancieiros mantinham uma posse média de 11 escravos; os lavradores, maioria da população, manti- nham entre dois a três escravos em suas propriedades, perfa- zendo 56% de cativos. A extensa freguesia foi dividida em dez “distritos” ou “bairros rurais”, que compunham os Campos de Viamão. A localidade mais populosa era a “Guarda de Via- mão”, com 31 unidades domésticas, local de concentração dos maiores plantéis de escravos, com de 104 cativos, correspon- dendo a 36% do total da freguesia. Os três maiores “bairros rurais”, Guarda de Viamão, Morro Santa Anna e Estâncias de Fora, concentravam 51% dos fogos, possuindo 202 escravos, mais da metade do total de cativos computados na freguesia. Apenas em 1750, após a celebração do Tratado de Madri, passou a existir, efetivamente, certa definição sobre as posses meridionais portuguesas. Esta “estabilidade” possibilitou que a Coroa portuguesa consolidasse seus interesses políticos e econômicos na região do atual Rio Grande do Sul. Entre fi- nais da década de 1740 e princípios de 1750, o povoamento de Viamão passou por sensível aumento de habitantes. Povoado- res enviados por determinação da Coroa portuguesa ou novos

habitantes provindos de migração espontânea, em busca das possibilidades oferecidas pela fronteira, mudaram, em pouco

habitantes provindos de migração espontânea, em busca das possibilidades oferecidas pela fronteira, mudaram, em pouco tempo, a demografia da capela e, posteriormente, a freguesia de Viamão.

4 A disputa pela Colônia do Sacramento e a criação de Rio Grande

A fundação de Buenos Aires, pela Coroa de Espanha,

em 1580, fez crescer o interesse dos portugueses pelo extre- mo sul do continente americano. Durante o período da União Ibérica (1580-1640), a cidade passa a receber comerciantes lusitanos, que percebem a importância da região como entre- posto comercial.

O fim da União Ibérica, em 1640, levou à expulsão dos

portugueses de Buenos Aires e os comerciantes lusitanos, acostumados com os lucros provindos da região, pressiona- ram a Coroa para fundação de um posto avançado português, uma colônia no Prata. Em 1680, com o patrocínio dos grandes comerciantes do Rio de Janeiro e sob a liderança de seu governador, Manuel Lobo, foi fundada, pela primeira vez, a Colônia do Santíssimo Sacramento, em frente a Buenos Aires, do outro lado do rio da Prata. Desta forma, os portugueses marcavam nitidamen- te sua presença e se mantinham nesta região de intenso fluxo comercial. O Rio da Prata era o limite natural entre os domí- nios de Portugal e Espanha. Uma vez fundada a Colônia do Sacramento, existia um grande espaço entre a nova cidadela portuguesa e São Paulo, região que o governo de Portugal se esforçou para promover a ocupação (KÜHN, 2007). A Coroa espanhola reagiu imediatamente, enviando uma grande força militar que expulsou os portugueses. Mas, em 1681, após a celebração do Tratado de Lisboa, Portu-

gal conseguia reaver a Colônia. Pelo Tratado de Tordesilhas (1494), o território pertencia à Espanha, mas Portugal apli-

Releituras da História do Rio Grande do Sul

cou o princípio de uti possidetis, que previa o direito às terras a quem as ocupasse, construísse e povoasse, um direito que não se encontrava na divisão prevista pelos tratados, mas no uso efetivo do espaço. Os portugueses, usando deste princípio, concederam sesmarias a civis com a intenção de forçar o avan- ço da linha demarcatória para o Oeste (REICHEL, 2006, p.50). Em 1683, as fortificações da Colônia são reabilitadas a mando do governador do Rio de Janeiro, novas tropas, arma- mentos e povoadores. Mas, entre 1707-1705, Sacramento é sitiada pelos espanhóis, que expulsam novamente os portu- gueses, os quais se mantêm por uma década fora da região. Em 1715, com o Tratado de Utrecht, a fortificação volta para mãos lusitanas, mas a povoação fica circunscrita ao território ocu- pado pela cidadela. Nesta fase, a Colônia desenvolve-se muito economicamente, atraindo novos habitantes. Em 1722, sob o governo de Antônio Pedro de Vasconcelos, a fortaleza contava com aproximadamente 1.800 habitantes, sendo 400 militares. Buscando limitar a expansão portuguesa na Banda Oriental, em 1726 os espanhóis fundaram a cidade de Montevidéu. Após um longo cerco espanhol, entre 1735 e 1737, muitos dos 2.600 habitantes da Colônia fugiram da cidadela sitiada. Na busca por abrigo, viriam a se tornar os primeiros povoadores da vila do Rio Grande, fundada em 1737, pela expedição do Brigadeiro Silva Paes, que procurava criar um ponto de apoio para tentar salvar a Colônia (KÜHN, 2007).

Em 18 de Junho de 1736, o governador do Rio de janeiro, Gomes Freire de Andrada, deu instruções ao brigadeiro José da Silva Paes para tomar posse do território rio-grandense, defender a colônia do Sacramento, expulsar os espanhóis das ilhas de São Gabriel, ocupar e fortificar Montevidéu, examinar a posição de Maldonado e promover a ocupação e fortificação do porto do Rio Grande de São Pedro. (SANTOS, 2006, p.66)

O Brigadeiro José da Silva Paes, governador do Rio de janeiro, recebeu instruções da Coroa

O Brigadeiro José da Silva Paes, governador do Rio de

janeiro, recebeu instruções da Coroa portuguesa para fundar

uma povoação que pudesse dar apoio à constantemente ata- cada Colônia do Sacramento. Para justificar juridicamente a posse do território, em 06 de agosto de 1736 foi criada a fre- guesia de S. Pedro de Rio Grande. Os portugueses aproveita- ram justamente o momento em que os espanhóis mantinham o cerco à Colônia do Santíssimo Sacramento e protegiam Montevidéu e Buenos Aires. Silva Paes rumou para o canal de Rio Grande, onde desembarcou, em fevereiro de 1737, com 254 soldados, armamentos e todas as ferramentas para cons- trução de uma fortaleza. Encontrou, à sua espera, 160 homens do coronel de ordenanças Cristovão Pereira de Abreu e uma tropa de gado. Abreu havia se adiantado, por terra, e reunido alimentos, além de constituir as bases estruturais para a recep- ção do contingente, enquanto os navios eram equipados nos portos de Rio de Janeiro e Santos. No mesmo ano de 1737, o engenheiro militar Silva Paes começou a construção do Forte Jesus Maria José, na margem direita da Barra do Rio Grande (atual Lagoa dos Patos), junto ao povoado do Porto (futura Vila do Rio Grande).

A Comandância Militar do Continente de Rio Grande

de São Pedro tinha como objetivos auxiliar a Colônia do Sa- cramento, povoar a região e regular as relações entre os dife- rentes elementos povoadores. O novo povoado de Rio Grande recebeu reforços de habitantes vindos da região do Minho, Açores e Madeira (Portugal), mas também de Laguna (Santa Catarina). Uma década após sua fundação, em razão de seu desenvolvimento e sua prosperidade, em 17 de julho de 1747, Rio Grande foi elevado à Vila, com instalação da Câmara em 16 de dezembro de 1751. A fundação do presídio (guarnição) e da povoação de Rio Grande foi situada estrategicamente no canal de entrada da Lagoa dos Patos, cujo controle dava acesso ao interior do Continente (FLORES, 1997, p.48-49).

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Em carta a Gomes Freire, em 20 de agosto de 1737, o Brigadeiro Silva Paes enfatizava a importância do povoamen- to e a fortificação de Rio Grande, destacando que este pon- to estratégico oferecia mais vantagens e era mais interessante do que a própria Colônia do Sacramento ou Montevidéu. De qualquer forma, em sua carta, percebe-se que a fortificação e o povoado de Rio Grande continuavam sendo encarados como bases para a mais ampla ocupação do território na direção do Prata, principalmente no que concerne a tomada da cobiçada Montevidéu e a manutenção sobre a Colônia do Sacramento.

E estou tão firme que o Rio Grande é tanto melhor

para se conservar que Montevidéu, e ainda a Colô- nia (por ficar místico [anexo] ao nosso continente) que, se pusesse em questão, e fosse preciso largar

este ou aquele presídio, votara se devia largar aque-

le por conservar e adiantar este, pois daqui se po-

dem tirar os mesmos interesses que do outro, e para se conservar não necessita das enormes despesas que agora temos visto se fizeram para a Colônia,

e ainda para a socorrer só daqui se pode formar o

corpo que possa fazer e ainda inquietar os inimi- gos, fazendo-lhe tal diversão que os obrigue a le- vantar o bloqueio ou perderem Montevidéu. (PAES apud FORTES, 1980, p. 61)

Em Carta Régia de 1742, o governo do Continente do Rio Grande de São Pedro do Sul, juntamente com o de Santa Catarina, foi reunido administrativamente ao da capitania do Rio de Janeiro. Somente em 1760 seria criada a capitania de Rio Grande de São Pedro, tendo a vila de Rio Grande como capital. As capitanias 6 eram grandes extensões de terras distri- buídas entre indivíduos da pequena nobreza, grandes homens de negócios, altos funcionários burocratas e militares de altas patentes. A capitania desenvolvia a função de defesa militar

6 Constituídas nas bases político-administrativas do reino, assentavam-se sobre as cartas de doações e foral.

e estímulo de atividades econômicas em regiões de expansão territorial. O capitão-mor podia fundar vilas

e estímulo de atividades econômicas em regiões de expansão

territorial. O capitão-mor podia fundar vilas e desenvolver o comércio. O governador tinha funções jurídicas e administra- tivas. D. João III, o Colonizador, adotou no Brasil, o sistema de capitanias, tratando de promover a ocupação da terra sem

onerar a Coroa, uma vez que todos os gastos ficavam a cargo do donatário. A sesmaria era uma subdivisão da capitania com o ob- jetivo de que essa terra fosse aproveitada. A proposta buscava incentivar a ocupação das terras e estimular a vinda de colo- nos. As sesmarias não eram de domínio total dos donatários ricos, mas apenas lhes tocavam as partes de terras especifi- cadas nas cartas de doações. Os donatários se constituíram em administradores, achando-se investidos de mandatos da Coroa para doar as terras e, tendo recebido a capitania com

a finalidade colonizadora, cabia-lhes cumprir as ordens de

Portugal. A terra continuava a ser patrimônio do Estado por- tuguês. Os donatários possuíam apenas o direito de usufruir

a propriedade, mas não eram donos. Os capitães-donatários

detinham efetivamente apenas uma pequena porcentagem de sua capitania, sendo obrigados a distribuir o restante, na forma de sesmarias. Nesse momento, perdia qualquer tipo de poder ou direito sobre as mesmas (DINIZ, 2005). Segundo Moacyr Flores (1997, p. 72-73), a divisão ad- ministrativa do Continente do Rio Grande, durante o século XVIII, correspondia a estâncias e fazendas de cunho familiar, comunal, mas com espírito/função militar. Estas eram conce-

didas e constituídas além da linha divisória do Tratado de Tor- desilhas (1494), empurrando pouco a pouco a fronteira com

a Espanha, mais a Sul e mais a Oeste, tendo como principal

atividade a caça e a criação de gado. Desde o início ficou claro para os povoadores a impor- tância dos rebanhos para abastecimento dos núcleos habita- cionais iniciais e do contingente militar. O gado vacum, para a

alimentação, e o cavalar e muar, para a montaria e transporte.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Buscando preencher as necessidades das tropas e da popula- ção, com menor custo para a Fazenda Real, em 1737 foram constituídas as Estâncias Reais de Capão Comprido e Boju- ru, ao norte do Rio Grande. Bojuru prosperou ao receber o grande rebanho selvagem existente entre a lagoa Mirim e o

oceano, calculado por Silva Pais em mais de 8 mil cabeças.

O gado faltante era comprado de particulares ou confiscado

dos espanhóis, desde que os animais “invadissem” o território português (SANTOS, 2006). Retornando à divisão administrativa definida por Flo- res (1997), as chácaras se caracterizavam por serem pequenas propriedades produtivas rurais, próximas a povoações, onde moravam pessoas ricas. As capelas correspondiam a povoa- dos, que se organizavam ao redor de uma praça e de um pe- queno templo. A capela curada tinha padre permanente com missa aos domingos e dias santos, enquanto a capela filial só tinha missas quando recebia o padre da Igreja Matriz. As ca- pelas estavam integradas ao território de uma freguesia. As freguesias (paróquias), além de servirem como sub- divisão administrativa de um município, tinham como princi- pal característica possuir um povoado com praça e Igreja Ma- triz, nesta se registravam os casamentos, batizados e óbitos. Os fregueses estavam registrados por fogos (moradias, casas, habitações). O registro de fogos tinha fins administrativos, por meio dos quais a administração da capitania cobrava os impostos e realizava o recrutamento militar. O município era a divisão administrativa da capitania e em sua sede funcionava a Câmara Municipal com funções ad-

ministrativas e de se fazer cumprir a justiça. Aos finais do sécu-

lo XVIII existiam três vilas na capitania (as demais povoações

eram sede de freguesia): N. Sra. Madre de Deus de Porto Alegre,

onde funcionava a sede do governo e a única câmara municipal; N. Sra. do Rosário de Rio Pardo e S. Pedro de Rio Grande. Concluindo, os trabalhos de Corcino Santos (2006), Moacyr Flores (1997) e Fábio Kühn (2007) podem auxiliar na

produção de uma síntese sobre o complexo enredo, diplomático e bélico, em que o atual

produção de uma síntese sobre o complexo enredo, diplomático

e bélico, em que o atual estado do Rio Grande do Sul esteve en- volvido, desde meados do século XVIII até princípios do XIX. O Tratado de Madri (1750) assegurava aos portugueses

a posse da vila de Rio Grande (pelo menos até 1763), os Cam-

pos de Viamão e as Terras do Vale do Jacuí. Por meio deste mesmo acordo diplomático realizava-se a troca dos Sete Povos das Missões (até então espanhol) pela Colônia do Santíssimo Sacramento (portuguesa), afastando o perigo da presença lu- sitana na região do Prata. A capitania do Rio Grande de São Pedro foi criada em 1760, tendo a vila de Rio Grande como capital. Em 1761, o Tratado de Madri foi anulado pelo de El Pardo, uma vez que as relações entre Portugal e Espanha es- tavam se deteriorando, tendo em vista o estado de guerra que perdurava na Europa. Inglaterra e França se enfrentavam, ten- do como aliados, respectivamente, Portugal e Espanha. Em 1763, Rio Grande foi invadida pelos espanhóis, fa- zendo o governador e grande parte da população fugir para os Campos de Viamão e a capital ser transferida para a vila de Viamão. O tratado de Paris (1763) suspendeu as hostilida- des e a Colônia de Sacramento foi devolvida aos portugueses. Em 1773, a sede da capitania do Rio Grande de São Pedro foi, novamente, transferida – desta vez, para a freguesia de São Francisco do Porto dos Casais (Porto Alegre). Três anos de- pois (1776), os lusitanos reuniram uma grande força militar e reocuparam a vila de Rio Grande, ato que levou a uma imedia- ta retaliação dos espanhóis, que reconquistaram a Colônia de Sacramento e invadiram a ilha de Santa Catarina. Em 1777, o Tratado de Santo Ildefonso determinava a entrega definitiva da Colônia aos espanhóis, recebendo a acei- tação de Portugal, que, em desvantagem bélica, temia perder bem mais do que a cidadela de Colônia, sempre percebida como riquíssimo entreposto comercial e base de expansão territorial. A principal intenção seria garantir a posse do Con- tinente do Rio Grande.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

A subordinação da capitania do Rio Grande de São Pe-

dro à capitania do Rio de Janeiro perdurou até 1807, quando aquela foi elevada à Capitania-Geral, com o nome de São Pe- dro do Rio Grande do Sul. A nova Capitania-Geral compre- endia todo o território ao Sul de São Paulo, ficando, a partir de então, administrativamente independente.

5 Conclusão

A constituição e o funcionamento das fronteiras do atu-

al estado do Rio Grande do Sul, ao longo dos séculos XVII e XVIII, constituem um processo complexo que abre a possi-

bilidade para diversas reflexões. A multiplicidade de fatores que configuram esta trama que abrange política, diplomacia, conflito e economia fez a fronteira do Continente avançar e recuar incontáveis vezes, respeitando e desrespeitando trata- dos. Esta zona ou faixa de complicada determinação se carac- teriza por sua contraditoriedade. Existe de forma tangível e visível, encontra-se registrada e detalhadamente descrita em documentos oficiais e estudos da geopolítica, mas também é um conceito, apresenta valor simbólico.

A fronteira sul-rio-grandense dos séculos XVII e XVIII,

tal como um conceito, podia ser adaptada e reinterpretada, atu- ando como uma força divisória e, ao mesmo tempo, possibili- tando, de diferentes formas, o “contágio” humano, político e co- mercial (permitido ou não). Obviamente, com o exposto não se

pretende diminuir ou esquecer o quanto a raia luso-castelhana americana foi verdadeiramente conturbada e belicosa. Como exemplo, tem-se a recorrente presença da arquitetura militar (fortificações), indicando uma forma de garantir o assentamen- to e assegurar a posse do território e a formação de uma socie- dade militarizada, representada pelos estancieiros-militares. Se, por um lado, a fronteira poderia significar, tanto para a população militar quanto para a civil, um risco, em tro- ca eram oferecidas possibilidades de prosperidade através de

terras, promoções e comércio. Por meio da contraditoriedade de funcionamento da fronteira do Continente, passaram

terras, promoções e comércio. Por meio da contraditoriedade de funcionamento da fronteira do Continente, passaram (e passam), desprezando as linhas traçadas em mapas e defini- das em acordos diplomáticos, pessoas, animais, mercadorias, informações e histórias que, combinadas, auxiliaram na cons- tituição do que hoje é conhecido como o território, a tradição e a cultura do Rio Grande do Sul.

Referências

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

DE COMANDÂNCIA MILITAR À PROVÍNCIA:

A ADMINISTRAÇÃO DO RIO GRANDE DE SÃO PEDRO (1737-1824)

* Marcia Eckert Miranda

O sistema de governo por capitanias até aqui ado- tado no Brasil é conforme o despotismo, homo- gêneo à tirania e incompatível com um sistema constitucional, e por conseqüência deve ser abolido imediatamente; e nem pode dignamente o Brasil ser representado em Cortes antes desta medida, que se deve ter no Brasil por necessidade pública. (CHAVES, 2004, p.44)

Esta avaliação era a apresentada pelo charqueador José Gonçalves Chaves em suas Memórias ecônomo-políticas so- bre a administração pública do Brasil, publicadas no Rio de Janeiro a partir de 1822 e destinadas aos representantes bra- sileiros nas Cortes Gerais e Extraordinárias da Nação Portu- guesa. Vivia-se um período de agitação: a política ganhava as ruas de diversas capitanias. O mesmo acontecia no Rio Gran- de de São Pedro, onde as tropas e o “povo” tomaram as ruas e a câmara de Porto Alegre, expondo projetos políticos distintos sobre as formas de governo a serem adotadas pelo Governo central brasileiro e pela Província. Era um momento de infle- xão, no qual as ideias e as revoluções liberais abriram espaço para o questionamento das estruturas associadas ao absolutis- mo, dentre elas o poder dos governadores e capitães-generais. Como nas demais capitanias do Brasil, a administração do Rio Grande de São Pedro, desde seu início, seguiu as dire- trizes traçadas pelas Ordenações Filipinas (1603). No entanto,

* Doutora em Economia Aplicada (IE/Unicamp). Professora Adjunta do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

sua condição de fronteira em disputa conferiu-lhe algumas es- pecificidades. A passagem de posto militar

sua condição de fronteira em disputa conferiu-lhe algumas es- pecificidades. A passagem de posto militar avançado à Capita- nia Subalterna e, mais tarde, à Capitania Geral foi concedendo maior poder de decisão aos governantes locais e diversifican- do a estrutura administrativa por meio da criação de órgãos específicos, como a Junta da Fazenda e a Junta da Justiça. Por outro lado, a Revolução do Porto e o processo de Independên-

cia do Brasil abriram espaço para a maior participação da elite no governo da Província.

O presente capítulo busca analisar o governo da região,

seus limites, seus poderes e suas transformações entre 1737 e

1824, ou seja, do início da ocupação formal portuguesa, quan- do a região era apenas uma Comandância Militar, à posse do primeiro Presidente da Província, em 1824.

A ocupação do território do que é hoje o estado brasilei-

ro do Rio Grande do Sul foi iniciada pela necessidade de a Co- roa portuguesa socorrer, com recursos humanos e materiais,

a sua praça meridional às margens do Rio da Prata, ou seja, a Colônia do Sacramento, fundada em 1680 e que enfrentava seguidas investidas e invasões das tropas espanholas. Entre 1735 e 1737, a Colônia de Sacramento sofreu o

“grande sítio”; a destruição das plantações e de benfeitorias fora da fortificação impôs a fome à população confinada na fortaleza. Com o objetivo de socorrer Sacramento, foi orga- nizada uma expedição pelo Governador e Capitão-general do Rio de Janeiro, Gomes Freire de Andrade, em atendimento à ordem do Conselho Ultramarino. Essa expedição também ti- nha por incumbência tomar a Ilha de São Gabriel, retomar Montevidéu e fundar uma fortaleza no Rio Grande. Frustrado no intento de acudir a praça meridional, o Comandante da expedição, Brigadeiro José da Silva Paes, fundou o Forte Jesus-Maria-José, em Rio Grande, em 19 de fevereiro de 1737. Poucos meses após, em 11 de dezembro do mesmo ano, Silva Paes retornou ao Rio de Janeiro, ficando

o comando militar do Rio Grande de São Pedro a cargo do

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Mestre-de-Campo André Ribeiro Coutinho. Coube a este mi- litar promover a construção das benfeitorias essenciais para viabilizar a segurança da possessão e o estabelecimento dos primeiros moradores, casais enviados da Colônia do Sacra- mento e alguns procedentes de Laguna, que, a partir de 1738, dariam forma à nova povoação. O relato do Comandante Militar permite perceber como eram amplas suas atribuições nesses primeiros anos de colonização:

levantei cazas á maior parte dos Povoado-

res; dei aos lavradores terras, sementes e instru- mentos de agricultura. A alguns ajudei com gado proporcionado ás suas familias; a todos sustentei com mantimentos de farinha e carne e dei mate- riaes para casas. Assisti com justiça natural a seus muitos letigios; ajustei muitas diferenças, para não chegarem a ser contenciosas; tratei os Povoadores com benevolência; protegi os mais pobres e cuidei na conservação de todos, e para pôr na ordem e socego das povoações antigas, que formei no porto e Estreito daquele Dominio que em breve tempo se fizeram consideraveis; expedi muitas ordens e pu- bliquei vários bandos, para observância dos quaes fui inflexível, o que pareceria duro só aquelles, que para dissolução de seus costumes, não couberão nas diferentes terras, donde sahirão. (MEMÓRIA, 1936, p. 238)

Assim, observa-se que o início do povoamento portu- guês e o estabelecimento da administração colonial estiveram intimamente vinculados à ocupação militar da região. Cabia ao Comandante, auxiliado por um conselho de oficiais, a ad- ministração da justiça, as decisões relativas à distribuição de terrenos, a gestão dos recursos da Fazenda Régia, a criação e manutenção de estruturas necessárias para a segurança do enclave e a expansão do território, além das negociações com os indígenas.

] [

Entre 1737 e 1740, Ribeiro Coutinho estabeleceu uma série de regimentos que normatizavam os procedimentos

Entre 1737 e 1740, Ribeiro Coutinho estabeleceu uma série de regimentos que normatizavam os procedimentos a serem observados por vários militares e civis encarregados da defesa, da arrecadação dos direitos régios, entre outras fun- ções; homens que trabalhavam nas diversas estruturas criadas para viabilizar a manutenção e a segurança do povoado (ME- MÓRIA, 1936). 1 A partir do Presídio Jesus-Maria-José e da povoação que se formava, André Ribeiro Coutinho ocupou-se em criar guar- das, fortes e registros, estabelecendo o controle sobre o trânsi- to de animais, mercadorias e homens na região, demarcando o avanço lusitano. 2 Estas estruturas, ao lado das sesmarias, for- mavam um sistema de defesa e de consolidação da ocupação. A doação de terras privilegiou militares, comerciantes de animais e pessoas ligadas à administração colonial, ori- ginando as grandes estâncias controladas por homens que consideravam a manutenção e a expansão do território não apenas sua obrigação para com a Coroa, mas uma imposição para a segurança de sua propriedade e para a expansão de sua riqueza e influência. 3 Assim, entre 1737 e 1761, período da Comandância Mi- litar, o forte e o território sobre o qual era estendido o do- mínio português foram governados por quatro comandantes militares subordinados ao Governo da Capitania do Rio de Janeiro pela Provisão de 11 de agosto de 1738 (SILVA, 1968, p. 215; SALGADO, 1985, p. 430). Os membros da administração

1 Sobre os regimentos das guardas, fortes e outros, ver MIRANDA, 2000.

2 Foi criado, nos primeiros anos, um sistema de defesa compreendido pelo Forte de São Miguel, pelas guardas do Taim, do Chuí, do Albardão, do Passo da Mangueira, do Capão Comprido, do Norte e de Tramandaí; além da formação das estâncias régias do Torotama e do Bojuru, cuja função era fornecer animais para o abastecimento do presídio e da Vila de Rio Grande e para a remonta das tropas regulares. O Registro de Viamão teria sido instalado aproximadamente em 1737 e localizava-se próximo à margem esquerda do Rio dos Sinos, na localidade de Guarda Velha, para o controle o pagamento dos direitos régios (MIRANDA, 2000, p. 32-33; MIRANDA, 2011).

3 Cabe observar que parte expressiva das terras apropriadas não teve por instrumento de concessão a carta de sesmaria. Sobre a apropriação de terras e a formação das estâncias no Rio Grande do Sul, ver OSÓRIO, 1990.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

da região eram, em sua maioria, aqueles que associavam às suas atribuições militares funções civis, como o Comissário de Mostras, responsável pela distribuição de mantimentos (fari- nha e carne) às pessoas que se encontravam a serviço de S.M.

e aos povoadores, mas também tinha a seu cargo o registro da

morte de animais reiunos que estavam sendo usados a servi- ço das guardas. Além dessas obrigações, devia ainda fazer a

escrituração do livro de receitas dos quintos dos couros e das ordens e portarias no Livro de Registro Geral da Vedoria do Rio Grande (Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul [AHRS]

Fundo Fazenda, códice F1197, fls. 31v-32r). Os Comandantes Militares tinham grande poder de de- cisão; suas ordens e portarias diziam respeito à distribuição de terras, à arrecadação de direitos reais e execução de despesas públicas, ao policiamento e à aplicação de penas (QUEIRÓZ, 1987, p. 53). No entanto, suas competências foram limitadas com a progressiva criação local dos ramos específicos da ad- ministração, como a Provedoria da Fazenda Real e a Câmara

da

Vila do Rio Grande. O primeiro Provedor da Fazenda Real no Rio Grande

de

São Pedro foi nomeado pelo Decreto de S. M., de 19 de no-

vembro de 1749, por meio da Provisão Régia de 21 de novem-

bro (AHRS – Fundo Fazenda, códice F1197, fls.132r-132v).

A ele cabia a administração da Fazenda Real, ou seja, era o

responsável pela arrecadação dos direitos régios e pela execu-

ção de despesas. Também servia como Vedor das Tropas da Capitania, sendo o responsável pelo pagamento da folha mili- tar e por outras despesas, como o munício de carne e farinha,

a aquisição de armamentos, munições e montaria. Tinha sob

suas ordens os almoxarifes, os administradores das estâncias régias e o escrivão da Fazenda Real. Formalmente subordina- do ao Provedor-mor do Brasil, 4 passou, a partir da década de

4 Alvará de 03 de março de 1770.

1770, a responder diretamente à Junta da Fazenda Real do Rio de Janeiro (SALGADO, 1995,

1770, a responder diretamente à Junta da Fazenda Real do Rio de Janeiro (SALGADO, 1995, p. 367).

A primeira Câmara estabelecida no território do Rio

Grande de São Pedro foi instalada em 1751, conforme as or- dens da Provisão, de 17 de julho de 1747, que determinava a elevação do povoado do Rio Grande à categoria de vila. As câmaras eram, ao mesmo tempo, os agentes de repressão e de manutenção da ordem, de fiscalização e veículos das rei- vindicações da população. Exerciam funções administrativas, judiciais, policiais e fazendárias. Ainda que as câmaras fos- sem subordinadas às autoridades régias na colônia, podiam representar-se diretamente ao rei quando considerassem que sua jurisdição estivesse sendo invadida (BANDECCHI, 1992, p. 217-219). Em 1760, por meio da carta régia de 09 de setembro, o Rio Grande de São Pedro tornou-se uma capitania, formando um governo independente do governo da capitania de Santa Cata-

rina, mas subalterno à Capitania Geral do Rio de Janeiro (SAL- GADO, 1985, p.434; CESAR, 1980, p. 165-166). A partir deste momento, o Rio Grande de São Pedro passou a ter governadores.

O governador era nomeado por carta régia e tomava

posse na câmara da capital da capitania. Suas funções asse- melhavam-se às dos governadores capitães-generais, mas seus poderes tinham algumas restrições. Era subordinado a um go-

vernador de uma Capitania Geral, que tinha inclusive o poder de destituí-lo. 5

A relação entre os governadores e as autoridades que

lhe eram superiores nem sempre foram pacíficas. Os atritos e a invasão de competências eram corriqueiros. Em 1809, o governador da capitania do Rio Grande, Paulo José da Silva Gama, foi alertado pelo governo da capitania do Rio de Ja- neiro para que se abstivesse de fazer concessões de sesmarias,

5 Para os regimentos dos capitães-generais e capitães-mores, ver POMBO (1905, p. 402-406).

Releituras da História do Rio Grande do Sul

uma vez que o governo do Rio Grande era subalterno àquela

capitania a quem competia privativamente a jurisdição sobre

a concessão de terras (AHRS – Fundo Documentação dos Go-

vernantes, maço 2). 6 Internamente ao governo da capitania, a inexistência de delimitações precisas das competências e a possibilidade dos servidores régios apelarem à Corte criavam novos confli- tos. Foi o que aconteceu em 1780, quando, por meio de vários ofícios, o provedor da Fazenda Real da capitania encaminhou ao vice-rei diversas denúncias sobre a interferência do Gover- nador José Marcelino de Figueiredo nas questões fazendárias, usurpando a jurisdição camarária e determinando a execução de despesas não autorizadas (ARQUIVO NACIONAL [AN], 1907, p.185-191). Em 1809, segundo Alcides Lima, os cons- tantes atritos e o autoritarismo do Governador Paulo José da Silva Gama, levara:

a tal estado de desgosto e de aborrecimento,

que de todos os ângulos da capitania concorreram assignaturas para um abaixo-assinado, que contra as violências do governador foi redigido e posto na presença do vice-rei do Brasil. Nesse abaixo- -assignado não se firmavam somente indivíduos estranhos á administração, mas lá appareciam até os nomes de auctoridades subordinadas ao próprio governador. (LIMA, 1935, p. 143)

O governador de uma capitania subalterna tinha funções

gerais, que abrangiam questões como a ocupação do território,

a distribuição de terras, o relacionamento com os indígenas, a

arrecadação das receitas e a execução das despesas, bem como o governo das tropas. Em linhas gerais, os governadores seguiam as determinações dos regimentos dos governadores gerais, as ordens e provisões emitidas por eles ou por órgãos metropo-

] [

6 Ordem Régia de 08 de março de 1809.

litanos (AHRS – Fundo Fazenda, códice F1243, fls.167r-173r). Era comum que o mesmo documento que

litanos (AHRS – Fundo Fazenda, códice F1243, fls.167r-173r). Era comum que o mesmo documento que nomeava o governa- dor apresentasse também o regimento específico que delimita- va as competências e os limites do seu poder. O regimento do Governador José Custódio de Sá e Fa- ria, de 23 de fevereiro de 1764, afirmava ser sua atribuição estabelecer castigos aos “vagabundos” e, quando necessário, determinar o envio desses ao Rio de Janeiro; zelar para que os índios não perturbassem os moradores e, se necessário, “mu- dar os ditos índios para alguma situação que lhe seja mais cômoda”; nomear responsáveis pelo governo dos índios; re- partir as terras entre os açorianos, verificando as distribui- ções anteriores e providenciando a criação de povoações; ze- lar para o abastecimento de alimentos, vestuário, ferramentas e sementes aos açorianos; determinar a arrecadação a parti- culares pela Fazenda Real dos couros do gado que mandar abater para a alimentação dos açorianos; efetuar o pagamento de capatazes e peões que trabalhavam nas estâncias reais; fo- mentar a cultura do trigo; enviar à Corte demonstrativo de despesas e mapa dos pagamentos feitos; ordenar despesas a serem efetuadas pela Fazenda Real por meio de portarias, com intervenção do Vedor Geral; conceder patentes militares de milícias e ordenanças, e determinar promoções; governar as tropas da capitania formadas por um Regimento de Dra- gões e duas Companhias de Artilheiros (AHRS – Fundo Fa- zenda, códice F1250, fls. 36v, 37r-37v). 7 Apesar da instabilidade característica dessa região, onde se dava o choque entre os movimentos expansionistas português e espanhol, os anos de 1780 marcaram o início de um período de paz armada, inaugurado pelo Tratado de San- to Ildefonso (1777). A relativa paz consolidou a expansão da

7 Cabe observar que, apesar de datado de 1764, registrado na Provedoria da Fazenda Real do Rio Grande de São Pedro em 2 de janeiro de 1769, conforme a ordem de registro dada pelo Provedor da Fazenda Real de 8 de novembro de 1768.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

triticultura açoriana e o estabelecimento das primeiras char- queadas, estimulando o crescimento econômico, com o au- mento das relações comerciais com outras praças brasileiras (OSÓRIO, 1999; CHAVES, 2004). Este cenário e, possivelmente, os atritos que tivera com a Câmara da Capital levaram ao último governador da capitania subalterna, Paulo José da Silva Gama, a propor à Corte a cria- ção de quatro vilas (LIMA, 1935, p. 141). Em decorrência da invasão espanhola à Vila de Rio Grande, em 1763, nos primei- ros anos do século XIX, a única Câmara existente funcionava em Porto Alegre, desde 1773, com jurisdição sobre a totalida- de da capitania nos assuntos que lhe eram pertinentes (AHRS, 1998). 8 A criação de novas vilas implicava uma melhora na distribuição da justiça e de outros serviços já que as autori- dades e os oficiais camarários (vereadores, juízes ordinários, almotacés, tabeliães do público judicial e notas, juízes de De- funtos e Ausentes, Capelas e Resíduos, etc.) estariam mais próximos dos moradores. Ao mesmo tempo, a instalação das câmaras ampliaria os espaços de participação dos “homens bons” no governo local (MIRANDA, 2000). 9 Mas, somente em 1809, o alvará de 27 de abril determi- nou a criação dos municípios de Porto Alegre, Rio Grande, Rio Pardo e Santo Antônio da Patrulha. Apesar de já se en- contrar em funcionamento, a instalação formal da Câmara da Vila de Porto Alegre deu-se em 11 de dezembro de 1810. Este município passava a ser formado pelas freguesias de Nossa Se- nhora Madre de Deus de Porto Alegre, de Nossa Senhora da Conceição de Viamão, do Senhor Jesus do Triunfo e de Nossa Senhora dos Anjos (AHRS – Fundo Justiça, códice J.016, fls.3- -4v). 10 A Vila de Rio Grande passava a abranger as freguesias

8 Cabe observar que, após a invasão da Vila do Rio Grande, a Câmara reuniu-se novamente em Viamão em 1766, onde foram realizadas suas sessões até sua transferência para a nova capital, em 1773. 9 Sobre as câmaras no Sul do Brasil, ver KHÜN (2006) e COMISSOLLI (2006). 10 Auto de criação da Vila de Porto Alegre de 11 de dezembro de 1810; Auto de demarcação dos limites da Vila de Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre, em 13 de dezembro de 1810; e Auto de reconheci- mento das justiças em Porto Alegre, de 03 de dezembro de 1810.

do Rio Grande de São Pedro, da Capela da Conceição do Es- treito e da

do Rio Grande de São Pedro, da Capela da Conceição do Es-

treito e da Capela de São Luiz de Mostardas, sendo instalada

a Câmara em 12 de fevereiro de 1811 (AHRS– Fundo Justiça,

códice J.017, fls.4v-5v). 11 A Vila de Santo Antônio da Patru- lha, formada pelas freguesias de Santo Antônio da Patrulha, de Nossa Senhora da Oliveira de Cima da Serra e da Senhora da Conceição do Arroio, teve sua Câmara eleita e instalada em

03 de abril de 1811 (AHRS– Fundo Justiça, códice J.019, fls.4r- -5r). 12 A Vila do Rio Pardo, formada pelas freguesias de Nossa Senhora do Rosário, de Nossa Senhora da Cachoeira, de Santo Amaro e de São José de Taquari, teve sua Câmara instalada em 20 de maio do mesmo ano (AHRS– Fundo Justiça, códice J.018, fls.4r-6r). 13 Considerando a consolidação do domínio português e o aumento da importância econômica da região, foi determina- do pelo Aviso de Sua Majestade, de 09 de dezembro de 1796,

o estabelecimento de um governo independentemente no Rio

Grande do Sul, nomeando um governador (AHRS – Fundo Do- cumentação dos Governantes, códice B.1.002, fl.52 e anexo). No entanto, a decisão da elevação à Capitania Geral só foi formalizada pela Carta Patente de 19 de setembro 1807 e a sua efetiva execução só ocorreu em 1809, quando tomou posse como seu primeiro Governador e Capitão-General, d. Diogo de Sousa. Formalmente autônomo em relação à Capitania do Rio de Janeiro, esse Governador era subordinado ao Vice-Rei do Brasil. Nesta Carta Patente, apresentavam-se os fatores que haviam sido determinantes para a decisão:

] [

Rio de Janeiro a Capitania do Rio Grande de São

atendendo à grande distância em que fica do

11 Auto de Criação e o Auto de Demarcação dos seus limites da Vila do Rio Grande datam de 12 de fevereiro de 1811.

12 Auto de Criação e levantamento dos piloros e Auto de Demarcação dos limites da Vila de Santo Antônio da Patrulha.

13 Auto de Criação e levantamento dos piloros e Auto de Demarcação dos limites da Vila do Rio Pardo.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Pedro do Sul e o aumento que tem tido há anos em população, cultura e comércios, exigem pela sua importância que possa vigiar de perto sobre os interesses dos seus habitantes e da Minha Real Fa- zenda. Sou servido desanexar este governo da capi- tania do Rio de Janeiro a que até agora era sujeito e erigi-lo em capitania geral com a denominação da capitania de São Pedro, a qual compreenderá todo o Continente ao Sul da Capitania de São Paulo e as ilhas adjacentes e lhe ficará subordinado o governo da Ilha de Santa Catarina. (AHRS – Fundo Fazen- da, códice B.2.001, fls. 79v-80v)

As funções do governador e capitão-general mesclavam

a jurisdição militar, fazendária, judiciária e administrativa, sen- do o chefe supremo das tropas da capitania (SALGADO, 1985, p.301-302). 14 Com a criação da Junta da Fazenda Real e da Junta da Justiça Criminal, os governadores e capitães-generais tiveram seus poderes acrescidos, pois eram regimentalmente presidentes destes órgãos colegiados.

A Junta da Fazenda fora criada pela Carta Régia de 14

de junho de 1802 (AHRS – Fundo Fazenda, códice B. 2.001, fls. s.n.). Subordinava-se diretamente ao Erário Régio em Lis- boa; era responsável pelo pagamento das folhas civil, militar e

eclesiástica, pela realização e controle das despesas, pela ad- ministração das rendas régias da capitania, deliberando sobre

a arrematação dos contratos e sobre as propriedades régias. 15

A Junta da Justiça Criminal foi criada em 1816, pela Car-

ta Régia de 19 de julho (AHRS – Fundo Documentação dos

14 Obedecendo ao Regimento dos Governadores das Armas, de 1 o de junho de 1678. 15 Em 1774, por meio de ordem da Junta da Fazenda Real do Rio de Janeiro, de 02 de dezembro, fora criada uma Junta da Fazenda Real no Rio Grande de São Pedro visando atender às necessidades impostas pela Guerra para expulsão das tropas espanholas. Terminado o conflito, essa Junta foi extinta a partir de 1º de janeiro de 1780, subsistindo apenas a Provedoria da Fazenda (AHRS – Fundo Fazenda, códice F1244, fls.121r-121v; 171r-171v). A Junta novamente criada em 1802 era presidida pelo Governador e Capitão- -General, pelo Ouvidor da Comarca, por um procurador da Fazenda; por um tesoureiro-geral e por um escrivão.

Governantes, maço 4, códice B.2.02, fls.72-73v.; Fundo Justiça, códice J. 05, fls.56v.-58.). A essa Junta

Governantes, maço 4, códice B.2.02, fls.72-73v.; Fundo Justiça, códice J. 05, fls.56v.-58.). A essa Junta cabia julgar os crimes cometidos na capitania, exceto os crimes de lesa-majestade e aqueles que envolvessem militares e eclesiásticos. 16 O crescimento da economia e o alargamento da ocupa- ção portuguesa para além dos limites estabelecidos pelo Trata- do de Santo Ildefonso e decorrentes da intervenção na Banda Oriental (1811, 1816) também contribuíram para a criação de outra vila na capitania. Em 1819, pelo alvará de 26 de abril, foi criada a Vila de São João da Cachoeira. Segundo o docu- mento, este ato atendia a um pleito dos moradores da região, que afirmavam serem grandes “os incômodos e prejuízos que sofriam em irem repetidas vezes à dita vila” e por ter de “dei- xar por muito tempo ao desamparo as suas casas e negócios.” (AHRS – Fundo Justiça, códice J.015, fls.1v-4v.) Em 1808, a instalação da Corte portuguesa no Rio de Ja- neiro provocou grandes alterações na administração do Impé- rio luso-brasileiro. No entanto, os poderes e a organização dos governos das capitanias praticamente não foram alterados. O Rio de Janeiro, transformado em centro político do Império luso-brasileiro, passava a sediar as instâncias administrativas máximas. Assim, o governador e capitão-general do Rio Gran- de de São Pedro passou a se dirigir diretamente a cada uma das novas secretarias criadas no Brasil de acordo com a natureza do assunto a ser tratado: à Repartição dos Negócios do Con- tinente e Erário; à Repartição dos Negócios Estrangeiros e da Guerra; à Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Do- mínios Ultramarinos, ou à Secretaria do Estado (desanexada

16 Também era um órgão colegiado, tendo o governador e capitão-general por presidente, por um juiz re- lator, pelo Juiz de Fora e dois vereadores da Câmara de Porto Alegre, pelo juiz da Alfândega e um membro nomeado. A mesma Carta Régia que criou esse órgão nomeou Luiz Teixeira de Bragança para compor a Junta de Justiça Criminal. Tratava-se de um dos homens mais influentes do período, tendo exercido os cargos de Ouvidor da Comarca, de Juiz de Fora e Provedor dos Defuntos e Ausentes, Capela e Resíduos da Vila de Porto Alegre, além de esposo da viúva de Rafael Pinto Bandeira, possuidora de uma das maiores fortunas da capitania.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

de Secretaria dos Negócios de Marinha e Domínios Ultrama-

rinos pelo Decreto de 11 de março de 1808) (AHRS – Fundo

Documentação dos Governantes, códice B.1.005, fls. s.n.). 17

A década de 1820 começou com grande instabilidade

no governo central e na capitania. O movimento do Porto em

24 de agosto de 1820 e a organização das Cortes Gerais e Ex- traordinárias da Nação Portuguesa em Lisboa, convocando a

eleição de representantes de todas as províncias, obrigavam os portugueses nascidos no Brasil a tomarem posição e a D. João

VI

a aceitar a soberania daquela assembleia, jurando as bases

da

constituição a ser elaborada.

Nesse ano, tendo obtido uma licença para ir à Corte, o governador e capitão-general da capitania de São Pedro, o Conde da Figueira, ordenou à Câmara de Porto Alegre que fosse organizado um Governo Provisório (AHRS – Fundo

Autoridades Militares, maço AM 119). 18 Esta Junta Provisória

foi instalada em 22 de setembro de 1820 e era composta por

três membros: pelo Ouvidor Joaquim Bernardino de Sena Ri-

beiro da Costa, pelo vereador mais velho da Câmara da Vila

de Porto Alegre, Antônio José Rodrigues Ferreira, e pelo Te-

nente-general Manuel Marques de Sousa, que exercia a função

de Presidente do Governo Interino (CÉSAR, 1980). Foi esse

triunvirato que enfrentou as primeiras manifestações que plei- teavam a aceleração das mudanças políticas e administrativas, estimuladas pelas ideias de cidadania e direitos.

A primeira grande manifestação deu-se em torno da

questão do juramento da constituição. Apesar de D. João VI já haver jurado as bases da constituição portuguesa e ordenado que o mesmo fosse feito por todos os governos das províncias, 19 a Junta Governativa do Rio Grande de São Pedro procrastinava

17 Aviso do Governo, de 22 de junho de 1808.

18 Conforme previa o Alvará de 12 de dezembro de 1770 (Ofício de 18 de setembro de 1820, segundo ofício da Câmara de Porto Alegre aos membros do Governo Provisório em 30 de setembro de 1820).

19 Conforme o Decreto de 21 de fevereiro de 1821.

este ato. Atitude que motivou a rebelião de tropas de primeira linha em Porto Alegre

este ato. Atitude que motivou a rebelião de tropas de primeira linha em Porto Alegre e em Rio Grande, pleiteando a imedia- ta obediência às ordens do monarca (PICCOLO, 2005, p. 571- 613). Em Porto Alegre, as tropas amotinadas desfilaram pelas ruas e coagiram a reunirem-se em praça pública diversas auto- ridades: os membros do Governo Provisório, o ouvidor-geral, quatro deputados da Junta da Fazenda, o intendente da Mari- nha, o escrivão da mesma intendência, o almoxarife da Real Fazenda, o cônego da Capela Real e o Vigário-geral Antônio Vieira da Soledade e os demais membros da Câmara de Porto Alegre. As tropas só dispersaram depois de obrigá-los a prestar o juramento. A Junta Provisória foi mantida no poder até 20 de agosto de 1821, 20 quando João Carlos de Saldanha e Daun, último go- vernador e capitão-general do Rio Grande, nomeado pela Or- dem Régia de 13 de abril de 1821, chegou a Porto Alegre (AHRS – Fundo Documentação dos Governantes, maço 5, códice B. 2.002, fls.370- 370v.). O novo governador e capitão-general se declarava adepto da causa constitucional e fiel a D. João VI. O retorno do Rei para Portugal e as decisões da Corte agitaram ainda mais o cenário político da Capitania. Em 29 de setembro de 1821, um decreto das Cortes de- terminou a criação de juntas provisórias de governo nas pro- víncias ainda governadas por capitães-generais. O Rio Grande de São Pedro voltou a se agitar. A eleição das juntas gover- nativas provisórias estabelecia a constituição de unidades po- líticas, transformando as antigas capitanias em “províncias”. As juntas a serem eleitas pelos eleitores paroquiais de cada província deviam subordinar-se diretamente a Lisboa, o que reduziria o poder do Príncipe Regente e dos órgãos centrais estabelecidos no Rio de Janeiro.

20 Segundo ofício da Câmara de Porto Alegre ao Governo Provisório da Capitania em 18 de agosto de 1821 (AHRS – Fundo Autoridades Militares, maço AM. 119). De acordo com Aviso do Governo de 1º de outubro de 1821, a data da posse seria o dia 20 (AHRS – Fundo Documentação dos Governantes, códice B. 1.017).

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Pelo decreto, a Junta da Província do Rio Grande de São Pedro deveria ser formada por um presidente, um secretário e outros cinco membros. Estavam sob sua jurisdição as questões

civis, econômicas, administrativas e de polícia. Dissociava-se

o poder civil e militar, pois este último passava a ser da al-

çada de um governador das armas, o qual era independente da Junta Provisória de Governo e diretamente subordinado ao Governo do Reino e às Cortes (CARREIRA, 1980, p. 20-23). Em Porto Alegre, as posições eram contraditórias e ocorreram debates na Câmara em torno de qual a melhor composição do novo governo. 21 Poucos dias após haver che- gado à Província a notícia de que D. Pedro decidira permane-

cer no Brasil, contrariando as ordens das Cortes, a Câmara de Porto Alegre, novamente reunida, recebeu cerca de 53 pessoas representadas pelo cidadão Antônio Bernardes Machado. Este grupo se declarava contrário à composição de cargos determi- nada pelo decreto das Cortes, afirmando que “quer este povo ser governado por uma Junta Administrativa e Representativa com atribuições mais amplas e uma Superintendência-Geral sobre todas as Repartições da Província”. 22 Dessa forma, a Junta Provisória eleita em 22 de fevereiro de 1822 não seguia as diretrizes do Decreto das Cortes. Era

o Governo composto por nove membros: um Presidente, o

Brigadeiro João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun; um Vice-presidente, o Marechal-de-campo João de Deus Mena Barreto; um Secretário dos Negócios Políticos, Manuel Ma- ria Ricalde Marques, um Secretário dos Negócios da Guerra,

o Brigadeiro José Inácio da Silva; e outros cinco membros: o

Brigadeiro José Félix de Matos Pereira de Castro, o comercian-

te Manuel Alves dos Reis Louzada, o Padre Fernando José de

Mascarenhas Castelo Branco e o Desembargador José Teixei-

21 Ata da Câmara de Porto Alegre de 30 de janeiro de 1822 (CORUJA FILHO, 1962, p. 63-64); ata da Câ- mara de Porto Alegre de 23 de janeiro de 1822 (CORUJA FILHO, 1962). 22 Ata da Câmara de Porto Alegre, de 30 de janeiro de 1822 (CORUJA FILHO, 1962, p. 63-64).

ra da Mata Bacelar. A associação entre o poder civil e militar fora mantida, pois

ra da Mata Bacelar. A associação entre o poder civil e militar fora mantida, pois o Presidente acumulava a função de Go- vernador das Armas, além dos cargos de Presidente da Junta da Fazenda e da Junta de Justiça. Ao novo governo estavam sujeitas estas juntas, as tropas de primeira e segunda linha,

todas as mais autoridades civis e eclesiásticas. Na mesma ses- são, fora determinado que o membro do Governo Francisco Xavier Ferreira fosse envido à Corte do Rio de Janeiro para prestar a D. Pedro a admiração e o respeito do novo Gover- no (ARCHIVO PUBLICO DO RIO GRANDE DO SUL, n. 7, set. 1922, p. 41-42; CARREIRA, 1980, p. 38-40 e 43). Assim, a Junta reconhecia e colocava-se diretamente sob a autoridade do Príncipe Regente. A Junta Governativa eleita caracterizava-se por uma ruptura com o modelo das Cortes, mas, ao mesmo tempo, esse era um rompimento parcial, que restringia as mudanças propostas por aquela assembleia. Contraditoriamente, a elei- ção de Daun mantinha o forte vínculo com D. João VI, que

o nomeara. Ao mesmo tempo, a concentração de poderes na

figura do Presidente da Junta, acumulando diversas funções,

inclusive o Governo das Armas, preservava as características dos governos das antigas capitanias-gerais. Atendia-se às aspi- rações do “povo”, mas também eram pacificadas as tropas de linha, fiéis às Cortes. Mas, a crescente oposição entre as ordens das Cortes e as medidas tomadas pelo Regente no Brasil refletia-se na ad- ministração da Capitania. Visando estabelecer a subordina- ção dos poderes provinciais ao Governo do Rio de Janeiro,

o Príncipe Regente determinou que o Governo Provisório da

Província do Rio Grande de São Pedro do Sul não aceitasse ou desse posse a empregados civis, eclesiásticos ou militares que tivessem sido despachados de Portugal. Afirmava que essas nomeações eram-lhe privativas (AHRS – Fundo Documenta-

ção dos Governantes, códice B. 1.018). 23

23 Decreto de 22 de abril de 1822.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Tais embates tinham outros reflexos sobre a Junta Go- vernativa da Província. O Presidente do Governo Saldanha e Daun e o Ouvidor José Antônio de Miranda eram contrários

à ruptura entre Brasil e Portugal e discordavam da decisão do

Príncipe Regente de convocar uma assembleia constituinte para o Brasil pelo Decreto de 03 de junho de 1822. Por isso, requereram a demissão dos seus cargos (ARCHIVO PUBLI- CO DO RIO GRANDE DO SUL, n. 7, 1922, p. 59-60, 63-65,

147.). 24 A Junta aceitou a demissão do Ouvidor, mas negou-a a Daun, alegando que a sua presença era requisito para a manu- tenção da ordem. Sendo Daun eleito Governador das Armas, os membros da Junta afirmavam temer que seu afastamento provocasse um levante dos seus partidários, especialmente nas tropas de primeira linha (ARCHIVO PUBLICO DO RIO GRANDE DO SUL, n. 7, 1922, p. 68-73). Após vários pedidos encaminhados por Daun, que ha- via manifestado seu apoio a D. João e às Cortes, e contrário

à causa do Príncipe Regente, sua demissão foi aceita em 27

de agosto de 1822 (ARCHIVO PUBLICO DO RIO GRANDE DO SUL, n. 7, 1922, p. 227-255). Com o afastamento de Daun, assumiu a presidência da Junta o Marechal João de Deus Mena Barreto, que exercia também os cargos de Comandante das Armas e de Presidente da Junta da Fazenda. O acúmulo desses cargos foi alvo de desacordo logo após a Independência brasileira. No início de 1822, um mem- bro do Governo Provisório da Província, Antônio Bernardes Machado, defendeu, por meio de ofício a D. Pedro I, a sepa- ração entre o poder civil e militar, algo instituído pelo decreto das Cortes, mas que ainda não acontecera na Província de São Pedro. Machado defendia a nomeação interina de um militar para exercer o Governo das Armas, enquanto fosse aguardada uma decisão do Príncipe Regente. Alegava que:

24 O primeiro pedido de demissão de Daun foi encaminhado em 13 de julho de 1822. Negada, esta repre- sentação foi reiterada em 16 de julho, 23, 25 e 28 de agosto daquele ano.

sendo da atribuição do chefe do Poder Execu- tivo a direção da força armada, e

sendo da atribuição do chefe do Poder Execu-

tivo a direção da força armada, e por conseguinte a nomeação de generais, ou governadores de armas seria absurdo, e até usurpação inconstitucional su- por que o governo popular podia dar essa comissão a quem o mesmo Governo quisesse, e menos ainda reunir em um só indivíduo a presidência civil e o comando das armas. (Arquivo Visconde de São Leopoldo, n. 0163, p. 4) 25

Perseguido pela Junta Governativa, Machado foi demi- tido de seu cargo e enviado à Corte (REVISTA DO ARCHI- VO PÚBLICO DO RIO GRANDE DO SUL, n. 7, 1922, p. 98; IHGRGS – Arquivo Visconde de São Leopoldo, n. 0163). 26 Apesar disso e independente da representação enviada pelo ex-membro do Governo Provisório, a decisão do Imperador de nomear o Marechal José de Abreu para o exercício interino do Governo das Armas já havia sido tomada pala Carta Régia de 08 de agosto de 1822. Pouco tempo depois de o novo Co- mandante das Armas entrar em exercício, foi encaminhada à Junta Governativa a Instrução estabelecendo limites entre o governo civil e o militar, atendendo reclamações da Provín- cia do Rio Grande do Sul, datada de abril de 1823. Segundo essa Instrução, o Governador das Armas era subordinado ao Governo Civil da Província, mas era da sua alçada tudo o que dissesse respeito às tropas (baixas, disciplina, arranjos econô- micos, destacamentos, guardas de fronteiras, etc.), além da escolha dos comandantes das fronteiras e distritos, a defesa do território, a ereção de fortes e outras estruturas defensivas, além da administração do Trem de Guerra (Biblioteca Nacio- nal [BN] – Seção de Manuscritos, II – 35,36,9). Apesar de formalmente ter seus poderes diminuídos na esfera militar, o Presidente do Governo, o Marechal-de-campo

] [

25 Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul (IHGRGS). 26 Ofício de 28 de setembro de 1822.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

João de Deus Mena Barreto indiretamente mantinha um gran- de poder sobre as tropas da Província. O que ficou evidente na liderança exercida pelos seus filhos, o Tenente-coronel Gaspar Francisco Mena Barreto e o Major José Luís Mena Barreto, no levante das tropas em Porto Alegre a 19 de junho de 1823 – o que motivou nova modificação do Governo Provisório. Na- quela data, as tropas sediadas em Porto Alegre reuniram-se para jurar fidelidade ao Imperador, demonstrando apoiar seu poder de veto absoluto (PICCOLO, 1985, p. 36). Para a Assem- bleia Constituinte, tratou-se de um “ato atentatório e formal usurpação das atribuições do Poder Legislativo”, daí determi- nar que o Imperador expressasse seu desacordo com esses atos, suspendesse o exercício dos cargos e enviasse ao Rio de Janeiro os dois chefes militares, o Presidente e o Secretário da Junta de Governo (BN – Setor de Manuscritos, II – 36,1,9). 27 Assim, afastados João de Deus Mena Barreto e Bernardo Avelino Ferreira de Sousa, assumiu a presidência do Governo Provisório do Rio Grande de São Pedro o Brigadeiro José Iná- cio da Silva e, como Secretário Militar, o Major José Joaquim Machado de Oliveira (VARELA, 1935, v. 1, p. 311-312). O novo Governo assumiu em 29 de novembro de 1823, contan- do ainda com Francisco Xavier Ferreira e os padres Fernando José de Mascarenhas Castelo Branco e Tomé Luís de Sousa. Mas esta Junta governou por pouco tempo, já que a Car- ta de Lei de 20 de outubro de 1823 aboliu os governos pro- visórios, substituídos por presidentes provinciais escolhidos pelo Imperador. A mesma Carta criou os conselhos admi- nistrativos provinciais com seis membros eleitos, cabendo ao membro mais votado o cargo de vice-presidente (PICCOLO, 1998, v. 1, p. 19-23). 28 Limitava-se, assim, a participação polí- tica, uma vez que era negada àqueles que poderiam ser con-

27 Parecer sobre os acontecimentos ocorridos no Rio Grande do Sul, da Proclamação de opinião pública feita pelas Forças Armadas submetendo o governo da Província. 28 Eram elegíveis homens maiores de 30 anos e que residissem na Província há pelo menos seis anos.

siderados eleitores a possibilidade de escolha do presidente da Província. O exercício eletivo na esfera

siderados eleitores a possibilidade de escolha do presidente da Província. O exercício eletivo na esfera local se resumia à escolha dos membros do Conselho Administrativo, um órgão consultivo; era um primeiro movimento de centralização de poderes em relação à abertura propiciada pelas Cortes portu- guesas (PICCOLO, 1985, p. 38). Conforme a lei, eram atribuições dos presidentes das províncias:

fomento da agricultura, educação, estabeleci-

mento de câmaras, proposições de obras, censos, fiscalização das contas e receitas das comarcas, decisão sobre os conflitos de jurisdição dos distri- tos, vigia sobre a infração das leis, cuidados com os escravos, determinação de receitas extraordinárias, sendo também responsáveis pelas Juntas da Fazen- da Pública. Dessa forma, a lei dotava os mesmos presidentes de amplos poderes, ainda que estabele-

cesse limites para sua atuação mediante a institui- ção do Conselho. (SLEMIAN, 2007, p. 27)

Mas, antes que essas mudanças fossem implementa- das, a decretação da dissolução da Assembleia Constituinte, a criação do Conselho de Estado e a suspensão da liberdade de imprensa 29 mudaram os rumos da distribuição do poder no novo estado, centrado na pessoa do Imperador, por meio do Poder Moderador (CARREIRA, 1980, p. 119). Ainda que o projeto de Constituição, elaborado pelo Conselho de Estado, tenha sido concluído em dezembro de 1823, somente em 25 de março do ano seguinte a Carta foi outorgada e jurada pelo Imperador. Em Porto Alegre, o juramento deu-se na Igreja Matriz em 10 de abril de 1824, sem a ocorrência de manifes- tações contrárias.

] [

29 Decreto de 12 de novembro de 1823.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Pela Constituição, consagrava-se a centralização de poder político e a redução da autonomia administrativa das províncias como estabelecida na Carta de Lei de outubro de 1823, mas também criava os conselhos gerais das províncias, enquanto órgãos representativos, com poder de propor, dis- cutir e deliberar sobre os negócios provinciais, sendo suas re- soluções encaminhadas ao Executivo central por intermédio do Presidente da Província. Essas resoluções poderiam vir a converter-se em projeto de lei a ser votado pela Assembleia Geral (PICCOLO, 1998, v. 1, p. 19-23). Buscava-se institu- cionalizar os vínculos administrativos entre as províncias e o centro político no Rio de Janeiro por meio da centralização do poder. Assim, apesar da extinção das juntas governativas eleitas, criavam-se outros canais de representatividade, como o Conselho Administrativo e o Conselho Geral da Província. O Conselho Administrativo da Província de São Pedro reuniu-se pela primeira vez em 1º de setembro de 1824, qua- tro meses após a posse de José Feliciano Fernandes Pinhei- ro, que foi nomeado seu primeiro presidente. Por se tratar de um órgão consultivo, realizava uma sessão ordinária por ano, debatendo questões relativas a tributos, arrematação de con- tratos, questões de fronteira, contas das câmaras municipais, entre outros temas (PICCOLO, 1998, v. 1, p. 19-23). 30 Sendo seus membros eleitos, a composição do grupo que primeiro formou o Conselho Administrativo era bastante heterogênea, integrado pelo comerciante Manuel Alves dos Reis Louzada, pelo Cônego Antônio Vieira da Soledade, pelo Desembarga- dor Luís Correa Teixeira de Bragança, pelo Brigadeiro José Inácio da Silva, pelo Capitão José Antônio Machado e pelo Dr. Américo Cabral de Melo (AHRS – Fundo Documentação dos Governantes, códice A.9.001, fls. 1-3). O Conselho Geral da Província, criado pela Constituição, só viria a reunir-se pela

30 Também denominado “Conselho da Presidência” ou “Conselho do Governo da Província”.

primeira vez em 29 de novembro de 1828, já que só foi regu- lamentado pela

primeira vez em 29 de novembro de 1828, já que só foi regu- lamentado pela Lei de 27 de agosto daquele ano (Biblioteca da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul [ALRS]. Livro de atas do Conselho Geral da Província, volume 1 [1828-1831]). Apesar do limitado poder formal desses conselhos, deve-se observar que, no Rio Grande do Sul, essas instâncias permi- tiram uma crescente articulação de grupos que manifestavam seu descontentamento, questionando as medidas emanadas do governo central e apresentando propostas alternativas e muitas vezes conflitantes àquelas. No longo do período analisado, as estruturas adminis- trativas e os governantes do Rio Grande de São Pedro transi- taram de poderes eminentemente militares para aqueles ca- racterísticos da administração colonial portuguesa: capitania subalterna e seus governadores, capitania geral e seus gover- nadores e capitães-generais. Mas, na década de 1820, a antiga capitania, transformada em Província, deixou de ser apenas uma divisão administrativa, tornando-se entidade política, elegendo representantes para as Cortes em Lisboa, para a sua Junta Governativa, para a Assembleia Constituinte no Rio de Janeiro e para a Câmara do Império. As experiências da eleição do Governo Representativo e as juntas de governo provisório criaram um espaço para a interferência direta da elite local no governo provincial. No entanto, a Constituição brasileira de 1824 implicou um movimento de centralização, por meio dos presidentes nomeados, mas, ao mesmo tempo, criou outros órgãos pelos quais esses homens poderiam expressar suas po- sições e participar do governo. Foram esses os espaços utiliza- dos durante o Primeiro Reinado para fazer frente às decisões da Corte e para expressar as aspirações da elite rio-grandense.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

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Releituras da História do Rio Grande do Sul

OS AÇORIANOS NO RIO GRANDE DO SUL:

UMA PRESENÇA DESCONHECIDA

* Véra Lucia Maciel Barroso

O exame da historiografia regional, especialmente a produzida nas três últimas décadas, permite constatar que, dos grupos formadores da sociedade gaúcha, os dos alemães

e dos italianos, sobretudo, foram especialmente os estudados. Os alemães, quando das comemorações do sesquicen- tenário (l974) de sua chegada, receberam, por parte dos pes- quisadores, grande atenção, do que resultaram importantes trabalhos publicados, naquele momento, e que muito contri-

buíram para clarear a atuação dos teutos na construção do es- tado do Rio Grande do Sul. Diferente não foi com relação aos italianos. Inúmeros trabalhos foram trazidos à luz em l975, quando do centená- rio da sua presença no Rio Grande do Sul, estimulados por concursos ou, mesmo, pela “onda de comemorações” que se vivia, então. Posteriormente, somando a estes esforços, a Academia deu a sua contribuição. Acadêmicos de cursos de pós-graduação, por meio das suas dissertações de mestrado

e teses de doutoramento, também, a partir da década de l970,

muitos deles escolheram, como seu objeto de pesquisa, os alemães e os italianos. Uma impressionante produção resul- tou nesta conjuntura, que esquadrinhou detalhes e recortes da imigração e colonização destes dois grupos, e, na sua es- teira, outros europeus ganharam igualmente estudos, como os poloneses, por exemplo. Importa destacar, para melhor entendimento, sobre o lugar dos açorianos na historiografia regional, que na “onda comemorativa” da década de 1970 e, na seguinte, por conse-

* Doutora em História pela PUCRS e Professora em Cursos de Graduação e Pós-graduação da FAPA.

quência, também vieram à lume muitas publicações conten- do fontes documentais, acerca não só dos

quência, também vieram à lume muitas publicações conten- do fontes documentais, acerca não só dos alemães e italianos, mas de outros tantos europeus que migraram para o extremo- -sul do Brasil, publicadas especialmente pela EST Edições, acessando aos historiadores o seu instrumental por excelên- cia, que são as fontes documentais. Com elas identificadas e transcritas, o pesquisador avança caminho, e ele foi transita- do por muitos, fora e dentro da Academia. O que é visível – desencadeou-se um processo de construção de identidade e de pertença às raízes, às origens familiares, nunca visto, sem esquecer-se da possibilidade de oficialização da dupla cida- dania, o que não é possível aos descendentes de açorianos no Rio Grande do Sul; o distanciamento de gerações promoveu rupturas com vários significados. O cenário descortinado aos alemães e aos italianos che- gados ao Rio Grande do Sul no século XIX, respectivamente a partir de l824 e l875, é de um tempo posterior à incorporação do Rio Grande do Sul ao seio brasileiro, depois de um século de conflitos bélicos e tratativas diplomáticas intermitentes. E, mais: o Brasil já estava emancipado de Portugal. O terreno, portanto, estava sedimentado, quando chegaram diferentes europeus em muitas levas e em diferentes etapas, que atraves- saram o século XIX ao XX. É sabido que passaram por muitas dificuldades, desde a viagem à sua acomodação e organização de suas vidas, em meio às promessas, em grande parte não cumpridas, para com os imigrantes, que a partir delas foram estimulados a partir para a América. Quer-se pontuar, aqui, as circunstâncias históricas vividas pelos açorianos trazidos à Capitania no século XVIII. A conjuntura setecentista é a da adversidade, pois os ilhéus foram deixados, de fato, ao aban- dono. E sem assistência foram feitos soldados em defesa do território em conquista. É nessa direção que se começa a justi- ficar e arrazoar o título em epígrafe. Assim, introduzido o tema, é de se esperar que pouco se saiba sobre os açorianos neste meio, cujas fontes, ao contrário

Releituras da História do Rio Grande do Sul

das demais, 1 estão esparsas. Afinal, em área palco de guerras contínuas, as dificuldades de registro deste tempo, sua guar- da e preservação, seriam grandes. Somando os limites, o que

é fato, a própria documentação gerada pelos órgãos na nas-

cente capitania foi gestada e catalogada de tal forma que os pesquisadores têm que realizar uma tarefa do tipo: “encontrar agulha no palheiro”. 2 Consequentemente, a produção do conhecimento acer- ca dos ilhéus é pobre, tanto é que existem mais perguntas/in- terrogações do que respostas acerca da dimensão da presença açoriana na formação do Rio Grande do Sul. Trabalhar, pois, sobre a sua participação na construção da sociedade regional, constitui um instigante desafio, especialmente na atual con- juntura, quando o olhar dos brasileiros se volta para Portu- gal, na tentativa de demarcar a dimensão de sua lusitanidade, onde os açorianos se encontram. Ou seja, o tempo da falta de autoestima por ser descendente de portugueses já é passado.

Na atualidade, é visível o interesse pela comprovação genealó- gica, de matriz açoriana, sobretudo. Para balizar a construção identitária de grupos sociais, importa ter o conhecimento sobre seus fundamentos. Afinal, ninguém ama o que não conhece, e ninguém reconhece o que não conhece. Assim, em seguimento, são apresentados os ali- cerces da inserção dos açorianos na história do Rio Grande do Sul, baliza de pertença e autoestima aos que deles descendem,

e deixa-se o convite para sobre eles alargar a investigação. 3

1 Sobre alemães e italianos, no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul há uma farta documentação, identificada e de fácil procura.

2 A documentação avulsa referente aos açorianos está espalhada em diversos maços, esparsos em diferentes origens ou proveniências, em meio a tantos outros documentos, o que dificulta a procura, pois há que se fazer a leitura paleográfica, de um a um, sobretudo dos Requerimentos da Provedoria e Junta da Real Fazenda, nos quais se pinçam ou se depreendem informes sobre os portugueses insulares. No Arquivo da Cúria Metropolitana, igualmente se encontram fontes, cuja pesquisa também requer paciência e persis- tência para decifrá-las.

3 Ajudará aos interessados, inicialmente, saber o que se tem publicado sobre os açorianos no Rio Grande do Sul. Fez-se um inventário, a respeito, que está publicado no sítio do GT Estudos Étnicos da ANPUH/RS.

1 Açorianos – os portugueses ilhéus na formação do Rio Grande do Sul Localizado no

1 Açorianos – os portugueses ilhéus na formação do Rio Grande do Sul

Localizado no extremo meridional do Brasil, o estado do Rio Grande do Sul tem uma história marcada por especi- ficidades e uma singularidade que o diferencia sobremaneira dos demais estados brasileiros. Conquistado tardiamente dos espanhóis (eis a sua sin- gularidade), os portugueses empreenderam a ocupação do es- paço sul-rio-grandense com empenho, especialmente a partir do século XVIII, por meio de uma disputa militar com suces- sivos confrontos, contracenados por tratados que objetivavam

conciliar os interesses dos dois estados europeus na América.

A arrancada deste processo se deu, sobretudo, com a fundação

da Colônia do Santíssimo Sacramento, por D. Manoel Lobo, em 20 de janeiro de 1680, um verdadeiro posto avançado por- tuguês em frente a Buenos Aires. Tratava-se de um ousado sonho, que se punha em prática, o de romper a fronteira bali- zada pelo Tratado de Tordesilhas (1494). 4 A intenção lusa era fazer do Rio da Prata o limite natural de sua possessão frente à

de Espanha, na América Meridional. Contestado de imediato pelos espanhóis, as lutas e os tratados se sucederam até a definição do Tratado de Madrid de l750, que parecia acomodar as coroas ibéricas em litígio. Ele determinava a entrega da área das Missões a Portugal e, em contrapartida, legitimava, à Espanha, a Colônia do Sacra- mento (Ilustração 1). Por consequência, os jesuítas a serviço dos espanhóis, com os índios missionados, deveriam liberar a

área, para entregá-la aos portugueses. Esta determinação aca- bou por cumprir um papel de álibi gerador de confrontos que

se sucederam e que respondem por dificuldades que os ilhéus irão vivenciar no espaço sulino.

4 Recordando, por este tratado, a linha imaginária terminaria em Laguna, Santa Catarina. Por consequên- cia, o território do Rio Grande do Sul era posse espanhola na América Meridional.

Releituras da História do Rio Grande do Sul

Ilustração 1 – Localização da Colônia do Sacramento, atual cidade de Colônia/Uruguai.

da Colônia do Sacramento, atual cidade de Colônia/Uruguai. Fonte: POLETTI, 2004, p. 44. Antes de vislumbrar

Fonte: POLETTI, 2004, p. 44.

Antes de vislumbrar a etapa seguinte, deve ser reconhe- cido que era um avanço para Portugal a definição do Tratado de Madrid, pois, ficando-lhe grande parte do território do Rio Grande do Sul, a ampliação da conquista pretendida seria feita com um passo mais curto. É o que vislumbrou Alexandre de Gusmão (natural de Santos/SP), representando a diplomacia portuguesa nas negociações, ao constatar que o Rio Uruguai seria um divisor natural de fronteiras, que tanto podia pro- mover a acomodação entre as partes, como seria uma ponta de lança rumo à foz do Rio da Prata, que mais facilmente en- feixaria a tomada de Colônia de Sacramento e seu entorno, território da futura Cisplatina, atual Uruguai. Assim, avançando na configuração do cenário anterior à chegada dos açorianos, a partir de então Portugal deveria cui- dar do espaço conquistado, e sem demora, pois se tratava de fronteira viva, passível de movimentações e ameaças de reto- mada. E foi o que fez. De imediato, projetou garantir as novas terras conquistadas com povoadores a seu serviço. Conforme sua percepção e política de povoamento, a área missioneira até

então reunia jesuítas a serviço da Espanha , p or meio de aldea- mentos indígenas

então reunia jesuítas a serviço da Espanha, por meio de aldea- mentos indígenas – os Sete Povos das Missões, q