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AUTO-

AUTO-RETRATO
Dá-se o nome de auto-retrato, quando o retratista procura descrever o seu aspecto e o seu
carácter, revelando o que captou da expressão mais profunda de si mesmo. O auto-retrato
constitui um exercício que permite revelar traços do criador artista. O mestre da pintura
holandesa Rembrandt (1606-1669), através dos seus auto-retratos, permite, por exemplo,
conhecer o percurso da sua vida, desde a juventude à velhice, mostrando-nos o homem de
vontade indomável, mas solitário.
No auto-retrato, o artista procura mostra-se (ou descobrir-se) de uma forma mais nítida,
mais verdadeira e pode mesmo não gostar daquilo que vê, pode não aprovar, e, por isso,
pode modificar a imagem que de si encontrou.
Assim, um auto-retrato é um retrato, uma imagem, que o artista se faz de si mesmo. Muito
usado na pintura, na literatura ou na escultura, o auto-retrato nem sempre representa a
imagem real da pessoa, mas sim como o artista se vê: aceita e assume ou tenta mudar e isso
depende de cada pessoa ou mesmo de cada momento.
Alguns artistas afirmam que existe sempre algum temor em cada auto-retrato, pintura, foto-
grafia ou escultura. Teme-se a análise introspectiva, teme-se o conhecimento que ultrapasse
a barreira da fantasia, que faça desmoronar um ideal. Como não é um desafio fácil para o
artista, ele tende a esconder alguns traços físicos ou psicológicos. Por isso, o auto-retrato, tal
como a auto-biografia ou o livro de memórias, tende a ser uma mentira.

Actividade:
1. Fazer um poema auto-retrato apenas com adjectivos.
2. Redigir um pequeno texto de apresentação. Trata-se de um auto-retrato. Inspire-se,
por exemplo, em Bocage, Ary dos Santos, Natália correia ou Alexandre O’Neill.
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão de altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,


Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades


(Digo de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,

Eis Bocage em quem luz algum talento;


Saíram dele estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.

Manuel Maria Barbosa du Bocage


1765-1805
Poeta pré-romântico português nascido em Setúbal, conhecido por seu estilo rebelde e
satírico e considerado o maior poeta da língua no século XVIII. Filho de um advogado
sem recursos e de mãe francesa. Foi preso ao divulgar o poema Carta a Marília (1797),
passou meses nas masmorras da Inquisição, de onde saiu para o convento dos oratoria-
nos, onde se curvou às convenções religiosas e morais da época.
Auto-retrato

Poeta é certo mas de cetineta


fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
marciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes


suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã


que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate


palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

Ary dos Santos, in 'Fotosgrafias'

Ary dos Santos


1937-1984
Poeta português, natural de Lisboa. Saiu de casa aos 16 anos, exercendo várias actividades
como meio de subsistência. Em 1969, colaborou na campanha da Comissão Democrática
Eleitoral e, mais tarde, filiou-se no Partido Comunista Português, tendo tido uma intervenção
politizada, mas muito pessoal.
Ficou sobretudo conhecido como autor de poemas para canções do Concurso da Canção da
RTP. Personalidade entusiasta e irreverente, muitos dos seus textos têm um forte tom satírico e até panfletá-
rio, anticonvencional, contribuindo decisivamente para a abertura de novas possibilidades para a música popu-
lar portuguesa.
Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular

Tinha o tamanho da praia Largou o sonho nos barcos


o corpo era de areia. que dos seus dedos partiam
E ele próprio era o início que dos seus dedos paisagens
do mar que o continuava. países antecediam.
Destino de água salgada
principiado na veia. E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
E quando as mãos se estenderam só ficou tranquilidade
a todo o seu comprimento na linha daquele além.
e quando os olhos desceram Guardada na claridade
a toda a sua fundura do olhar
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Natália Correia
1923-1993
Natália Correia nasceu na Ilha de São Miguel, nos Açores. Muito cedo iniciou a sua actividade
literária. Poetisa, ficcionista, ensaísta, tradutora, dividiu a sua criatividade pelo teatro e pela
investigação literária.Empenhada politicamente, viu vários dos seus livros serem apreendidos
pela censura, chegando a ser condenada a três anos de prisão com pena suspensa, acusada de
abuso de liberdade de imprensa.
O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sobre a ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...

Alexandre O'Neill
1924-1986
Dedicou-se à publicidade e desde cedo se juntou às primeiras manifestações do Surrea-
lismo em Portugal. Afasta-se do grupo surrealista e colabora nos Cadernos de Poesia.