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A Solidão e seus Enganos

Muito já foi dito sobre o amor. Diz-se que temos o amor em sua essência quando
minha solidão encontra a sua solidão.
Mas e a solidão? Essa vândala de almas, que anda noturnamente pelas ruas
iracundas da cidade. O que se pode dizer dela? Muito ou pouco, mas, é sabido, que,
silenciosamente, pessoas solitárias saem de casa todas as noites tentando encontrá-la e,
assim, preencher os vazios que habitam suas existências.
Caminhar pelas ruas centrais das cidades adormecidas durante a madrugada é quase
um desafio de guerra. Encontra-se de tudo. Assaltantes, alguns mercadores de corpos, uns
sócios do ócio, outros mendigos, e, ainda, alguns benfeitores sociais. Há, não raro, pessoas
perdidas. Não aquelas que se perderam momentaneamente tentando encontrar um endereço
certo, mas aquelas que ainda não descobriram o que vieram fazer nesse mundo, e
permanecem presas a uma eternidade de incertezas.
Um dia desses, chegando de viagem, muito cedo para transportes coletivos, decidi ir
a pé para casa. Caminhando, mochila nas costas, não demorou muito para que eu visse
alguns dos personagens acima apresentados. Cada um, a seu modo, sublimando as dores de
ser o que estavam sendo naquele momento, escondendo isso de si mesmos sob um sorriso
meio falso, meio verdadeiro, mas perfeitamente reconhecível.
Percebi, logo, que um carro passou lentamente no quarteirão em que eu estava e
virou a esquina. Quando eu mudava de quarteirão, lá estava o automóvel me seguindo.
Duas ou três quadras depois, o motorista tomou coragem, e parou um pouco mais adiante.
Não pude, entretanto, e apesar da luz fraca da iluminação pública, deixar de perceber um
adesivo bem grande no vidro traseiro do veículo. Era um símbolo nazista.
Devido ao contexto, não tive dúvidas. Um homem, usando brincos de metal, careca
e sozinho, de madrugada, rondando um rapaz solitário, dirigindo um carro com um adesivo
nazista, pára o carro e ainda fica me esperando com um pedaço de ferro na mão. Pronto!
Pensei, vou meter-me em apuros.
Na incerteza da minha percepção e, até mesmo por medo de recuar, pois estava
orientado apenas pela força do meu preconceito, continuei, embora hesitante, caminhando
na mesma direção. Já bem próximo do motorista, respondi gaguejando o cumprimento
sorumbático de boa noite emitido por ele. No que ele já emendou.
– Moço, graças a deus! Sou de fora, estou em trânsito, e vi que minha gasolina está
acabando. O carro já começou a engasgar e o pneu furou, além do que eu não conheço nada
por aqui.
Não pude deixar de perguntar-lhe o que estava fazendo no centro da cidade àquela
hora. E também o que fazia aquele adesivo no vidro. Ele me disse que entrou na cidade
para jantar, os caixas eletrônicos fecharam, gastou o dinheiro que tinha disponível pagando
a conta e que agora tinha de abastecer o automóvel em algum posto que aceitasse seu cartão
de crédito ou cheque fora da praça. Quanto ao adesivo confidenciou, enquanto guardava a
chave de rodas, que nem o houvera percebido ainda, pois adquirira o carro numa
concessionária de outra cidade e que a única coisa que o preocupava no momento era
chegar em casa o mais breve possível.
Disso tudo, a conclusão a que se chega é a seguinte. Primeira, é a de que nem tudo o
que parece, é. Segunda, que a solidão de cada um, a cada um pertence e faz-se dela o que
quiser. A terceira, última, e mais importante conclusão, é que, às vezes, por temer os
fantasmas da própria solidão, acabamos vendo na solidão dos outros os maiores desafios.