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A barbárie da reflexão: o alerta da Scienza Nuova de Giambattista Vico

Giambattista Vico (1668 – 1744) faz-nos um alerta sobre os perigos do


excesso de racionalidade levar a humanidade a uma nova experiência de
barbárie. Nesta exposição, a fim de facilitar a compreensão dividi-a em quatro
tópicos: o primeiro intitulado Sobre o viver social; o segundo As duas primeiras
barbáries na História; o terceiro intitulei-o de A barbárie da reflexão: o alerta
de Vico; o quarto e último tópico denominado de Os sinais de internalização da
barbárie racionalizada.
Entre os pensadores importantes de tal período, destacam-se Galileu,
Newton, Bacon e Descartes. Era uma época de revolução no domínio do saber
em que se propunham reformulações, quer científicas, quer filosóficas. Daí a
necessidade de se abandonar as antigas formas de procedimentos e de saberes,
sob o argumento de estarem ultrapassados e, em alguns casos, representarem
um obstáculo para as novas conquistas científicas.
Vico, a princípio, mostrou-se entusiasta das novas idéias oriundas do
cartesianismo, mas em seguida assume uma postura oposta às propostas de
reformulação do saber com base no pensamento cartesiano (Cf. BURKE, Peter.
Vico [1985]. Trad. br. Roberto Leal Ferreira, São Paulo: UNESP, 1997, p.29.). Daí
principiar o seu projeto de um novo método e, consequentemente, de uma nuova
scienza: uma resposta aos novos rumos tomados pela ciência. A scienza
viquiana, construída como nuova arte crítica, (Cf.VICO, Giambattista. Ciência
Nova [1744]. Trad. port.Jorge Vaz de Carvalho. Portugal: Edições da Fundação
Calouste Gulbenkian, 2005, p.8.) retomava o diálogo com os Antigos, por
reconhecer a relevância da erudição. Era preciso recuperar, antes de qualquer
coisa, o patrimônio retórico e poético, pois a nuova scienza viquiana buscava
compreender as origens da vida civil das nações.
Como herdeiro da tradição humanista, Vico reconhecia a importância da
cultura clássico-humanista, visto que considerava a filosofia crítica cartesiana não
apta para um saber orientado para o conhecimento da vida civil. Daí ele, ao
escrever a sua mais importante obra, a Scienza Nuova (1725; 1730 e 1744),
resgatar uma parte significativa do saber dos Antigos, apresentando uma nova
concepção de erudição. Tal obra reflete a sua preocupação com o excesso de
formalismo, racionalismo e ceticismo que limitava, naquela época, o potencial
criador do homem: uma crítica aos rumos tomados pelo saber.
Vico protestou com veemência contra toda uma sabedoria sem expressão
e, em especial, contra uma sabedoria vazia. Segundo ele, as sociedades se
degeneravam quando pensadores, tais como os cartesianos, esqueciam de como
comunicar ou como os retóricos da corrente manierista, que procuravam tão
somente brincar com a linguagem: buscavam apenas serem astutos e não
verdadeiros. Ao citar Cícero, Vico dizia ser sinal da total decadência social o fato
dos homens, ainda que em grande ajuntamento, viverem em profunda solidão de
espírito (Cf. GUIDO, Humberto A. de Oliveira. Giambattista Vico: a filosofia e a
evolução da humanidade. Petrópolis: Vozes, 2004, pp.33-35.). Por diversas
vezes, Vico advertiu contra a “ética individualista” dos epicuristas, de modo como
ele incluía os pensadores cartesianos na moral de filósofos “monásticos e
solitários” (Cf. MOONEY, Michael. La primacia del lenguaje en Vico; in:
TAGLIACOZZO, Giorgio et al. Vico y el pensamiento contemporáneo [1976]. Trad.
Esp. Maria Aurora Ruiz. Canedo y Stella Mastrongelo, México: Fondo de Cultura
Ecumênica, 1987, pp. 188-189.).

1.1 A sociabilidade natural


Retomando a questão da natureza sociável, na Idéia da Obra, pertencente
à Scienza Nuova, Vico destaca a relevância do mundo civil e a sua relevância no
estudo das primeiras sociedades. Para o autor, o mundo civil tem início com as
religiões, representado no frontispício da sua obra pelo altar. Ele considerava a
natureza sociável do homem a sua principal propriedade. Tal natureza subjaz até
à condição de animalidade em que caíram após o dilúvio universal. Foi esta
natureza sociável que reconduziu os homens à civilidade, abandonando o
isolamento que a bestialidade os haviam conduzidos (Cf.VICO, Giambattista.
Ciência Nova, p. 200.).

É com base na preocupação com a natureza sociável que o autor da


Scienza Nuova nos alerta contra o perigo de uma nova “barbárie”, pois esta põe
em risco justamente as vantagens advindas da vida em comunidade, visto que os
principais “motivos do justo” não são respeitados. As religiões que são os

2
fundamentos das comunidades políticas têm a sua legitimidade posta em dúvida.
Ademais, se as bases da vida civil são postas em dúvida, a vida civil corre grande
perigo de se conservar.
É certo que Giambattista Vico, na sua Scienza Nuova, argumenta sobre os
perigos da humanidade ante uma nova experiência da barbárie. Conforme já
havia ocorrido em duas épocas anteriores: a primeira em tempos ainda bem
remotos, após o dilúvio narrado na Bíblia1; e a segunda, ocorrida no período
medieval, denominada de barbárie regressada (barbarie ritornata). Nesta barbárie
os homens haviam caído em um embrutecimento do intelecto, pois, mergulhados
em um estado de natureza, retornaram à civilidade mediante uma particularidade
que os havia dotado a Providência: a sociabilidade natural.

1.2 As duas primeiras barbáries na história humana


Conforme o autor, os homens, que após o dilúvio mergulharam em uma
“barbárie dos sentidos” (barbarie dei sensi), vão aos poucos, com o auxílio da
Providência, retornando à civilidade, dado que inerente ao seu espírito. Ao
atingirem um estado de aguda bestialidade, abalados e despertos pelo grande
temor a uma Divindade, por eles imaginada e crida, os homens passam a se
esconder com as suas mulheres nas cavernas e lá iniciam um processo de
refreamento de seus instintos, conforme podemos verificar nesta passagem:

(...) e, assim dispersas, para encontrar pasto e água e, por tudo isto, ao
fim de longo tempo, tendo chegado a um estado de animalidade –
então, em certas ocasiões ordenadas pela providência divina (que por
esta Ciência se meditam e se descobrem), abaladas e despertas por um
terrível pavor de uma divindade do Céu e de Júpiter por elas própria
inventadas e crida, finalmente, uns tantos detiveram-se e esconderam-
se em certos lugares; onde, estabelecidos com ce3rtas mulheres, pelo
temor da divindade perseguidora, às escondidas, com ligações carnais
religiosas e pudicas, celebraram os matrimônios e fizeram filhos certos,
e assim fundaram as famílias2.

1
Diz o autor sobre o surgimento desta primeira barbárie: O que se deve entender para a língua
dos povos do Oriente, entre os quais Sem propagou o gênero humano. Mas para as nações de
todo o restante mundo a questão devia se passar de outra maneira. Porquanto as raças de Cão e
Jafeth devem ter se dispersado pela grande selva da terra, num errar ferino de duzentos anos;
desnudadas de toda a fala humana e, portanto, num estado de animais selvagens. E foi
necessário precisamente transcorrer tanto tempo para que a terra, dessecada da humanidade do
dilúvio universal, pudesse mandar para o ar as exalações secas para se poderem gerar os
relâmpagos, devido aos quais os homens, aturdidos e assustados, se abandonaram às falsas
religiões de tantos Júpiteres, (...). Cf. VICO, Giambattista. Ciência Nova, p. 65.
2
Cf. VICO, Giambattista. Ciência Nova, p.14.

3
A segunda barbárie, que Vico denomina de “barbárie retornada” (barbarie
ritornata), é a Idade Média, caracterizada pelo feudalismo. Segundo ele, em tal
barbárie tem origem todas as repúblicas, pois o sistema feudal estaria apoiado em
“princípios eternos”, que sempre retornam (Cf. VICO, Giambattista. Ciência Nova,
p. 431.). Tal barbárie teria sido mais obscura do que a primeira: “esclarece-se a
história dos novos reinos da Europa, surgidos nos últimos tempos bárbaros, que
resultaram mais obscuros que os primeiros tempos bárbaros de que falava
Varrão” (Cf. VICO, Giambattista. Ciência Nova, pp. 27- 431.).
A segunda barbárie teria sido debelada também com uma religião severa,
mas foi importante também o papel da Filosofia. No entender de Vico, esta surge
providencialmente para que os homens já estivessem com o intelecto bem
aguçado pelas artes e ciências e que, quando já não se sentissem persuadidos a
praticar boas ações, fossem ao menos dobrados pela reflexão a se
envergonharem de práticas ilícitas:

(...) ordenando assim a providência: que em seguida, não conseguindo


através dos sentidos da religião fazer mais (como se tinham feito até aí)
acções virtuosas, a filosofia fizesse compreender as virtudes na sua
idéia, reflexão por força da qual, se os homens não possuíssem virtude,
ao menos que se envergonhassem dos vícios, pois somente pode
conformar ao dever os povos adestrados nas más acções3.

Por último viria em socorro da Religião e da Filosofia a Eloqüência. Esta


atraída pela idéia de justiça, apressa-se a inflamar os povos a fim de se
conduzirem por leis justas. A Religião teria surgido algum tempo depois da
primeira barbárie, e a Filosofia surgiu com os gregos. A Eloqüência, por sua vez,
teria surgido com os romanos, de acordo com esta passagem:

(...) a providência permitiu que as plebes, durante muito tempo a seguir,


competisse com a nobreza na piedade e na religião das contendas
heróicas, a fim de que a natureza tivesse que transmitir aos plebeus os
auspícios...Deste modo, imiscuindo-se cada vez mais entre essas
ordens civis a ordem natural, nasceram as repúblicas populares...para
que o acaso ou o destino não reinassem ali, a providência ordenou que
o censo fosse a regra das honras; e, assim, os industriosos e não os
preguiçosos, os parcos e não os pródigos, os próvidos e não os
ociosos, os magnânimos e não os avarentos de coração e, numa
palavra, os ricos com alguma virtude ou com alguma imagem de virtude
3
Cf. VICO, Giambattista. Ciência Nova, p. 839.

4
e não os pobres com muitos e desavergonhados vícios, seriam
considerados óptimos para o governo. De república assim referidas – os
povos inteiros, que aspiram em comum à justiça, ordenam leis justas,
porque universalmente boas (...) surgiu a filosofia (...) E das filosofias
permitiu que surgissem a eloqüência, que a partir da mesma forma
dessas repúblicas populares, donde se ordenam boas leis, fosse
apaixonada pelo justo4.

1.3 A barbárie da reflexão: o alerta de Vico


A terceira é a “barbárie da reflexão” (barbarie della reflessioni). Para Vico,
esta seria a pior das barbáries. A primeira teria sido arrefecida pela religião severa
dos primeiros pais da gentilidade, que acreditavam observados pela divindade do
altíssimo céu. Por isso passaram a esconder-se nas grutas e, estabelecidos com
as suas mulheres, puderam apascentar os seus instintos animais e
gradativamente retornar à humanidade (Cf.VICO, Giambattista. Ciência Nova, pp.
27-28.).
Como podemos observar, Vico reforça nesta passagem, a necessidade de
princípios ético-políticos, necessários para que o homem se mantenha firme na
trilha que o conduz à civilidade. Trata-se da necessidade de o homem educar-se
para manter-se longe dos vícios: daí a riqueza e a abundância desempenharem
papéis que auxiliam na elevação espiritual do homem. Se nas duas primeiras
barbáries, a Religião, a Filosofia e a Eloqüência lhe ajudaram a conter o seu
avanço da barbárie sobre o mundo civil, caberia a nós modernos procurar o
antídoto para esta barbárie, que aos poucos se instala no mundo moderno 5.
O autor reitera que a humanidade, para que não se afaste da retidão dos
costumes, deve manter-se presa a três princípios básicos responsáveis pelo
surgimento da vida civil: a religião, fundamento da piedade; o casamento,

4
Cf. VICO, Giambattista. Ciência Nova, pp. 838- 839.
5
Vico reforça a necessidade de refletirmos sobre tal problema. Posteriormente outros pensadores
se dedicaram a estudá-lo, por exemplo, Nietzsche, Walter Benjamin, Horkheimer, Adorno e
Levinas. Tis autores se mostraram, conforme Mattei, preocupados com a escalada de uma nova
barbárie. Jean-Francois Mattei nos esclarece que desde épocas remotas vinha sendo percebido
por diversos autores sob as mais diversas perspectivas o problema da barbárie. Em determinados
momentos e circunstâncias tal problema era visto como algo externo, como particularidade de
determinados povos. Segundo Mattei, a barbárie seria, porém, algo interno ao próprio ser humano:
a barbárie não remete a uma invasão da violência que viria do exterior revirar nossa intimidade, e
sim a essa própria intimidade a partir do momento em que ela se apresenta como autônoma e
arrogante. Cf. MATTÉI, Jean-François. A barbárie interior: ensaio sobre o i-mundo moderno
[1999]. Trad. br. Isabel Maria Loureiro. São Paulo: Editora Unesp, 2002, p.12.

5
fundamento da sociabilidade e os sepultamentos, fundamentos da preservação de
uma humanidade já conquistada 6:

Concluamos tudo aquilo que se divisou geralmente sobre o


estabelecimento dos princípios desta ciência: que, uma vez que os
princípios dela são providência divina, moderação das paixões com os
matrimônios e imortalidade das almas humanas com as sepulturas; e o
critério que usa é que aquilo que é sentido por todos ou pela maior parte
dos homens como justo deve ser a regra da vida social (princípios e
critério com os quais concorda a sabedoria vulgar de todos os
legisladores e a sabedoria secreta dos mais reputados filósofos): estes
devem ser os limites da razão humana. E quem quer que deles se
queira apartar, veja se não se aparta de toda a humanidade 7.

Também é preciso que as famílias mais nobres conservem os rituais


sagrados, pois neles se conserva os fundamentos da humanidade. Ora, quando
as famílias abastadas passam a desprezar os rituais e os costumes sagrados,
sinalizam, com efeito, que as nações, já se encontram perto de seu ocaso, estar
em vias de mergulhar na barbárie. Conforme o autor nos adverte:

Assim os pais de família aprontaram a subsistência às suas famílias


heróicas com a religião, para que com a religião elas se devessem
conservar. Donde foi perpétuo costume dos nobres o serem religiosos,
como observa Giulio [Cesare] Scaligero, na Poética: de modo que deve
ser um grande signo de que de que uma nação esteja a acabar, quando
os nobres desprezam sua religião nativa8.

6
Segundo o autor da Scienza Nuova, o curso que fazem as nações manifesta-se na própria
personalidade dos indivíduos que o vivenciam. Envolvendo na própria existência deles um caráter
da Providência que se utiliza de seus vícios e virtudes. Vico escreve: No gênero humano, primeiro
surgem imanes e desajeitados, como os Polifemos; magnânimos e orgulhosos, como os Aquiles;
logo, valorosos e justos, como os Aristides, os Cipiões Africanos; mais próximos de nós, os que
aparecem com grandes imagens de virtudes acompanhadas de grandes vícios, que junto do Vulgo
fazem o estrépito de verdadeira glória, como os Alexandres e os Césares; mais adiante, os tristes
e reflexivos, como os Tibérios; finalmente, os furiosos, dissolutos e desavergonhados, como os
Calígulas, os Neros, os Domicianos. Cf.VICO, Giambattista. Ciência Nova, p.142.
7
Cf.VICO, Giambattista. Ciência Nova, pp. 190-191.
8
Cf. VICO, Giambattista. Ciência Nova, p. 379.

6
Segundo Vico, todos os povos em seus inícios foram bárbaros, e da
barbárie só foram libertados ou “domesticados pelas leis” 9. A seguinte passagem
diz:

Seguramente, Aristóteles disse-nos, nas dignidades, que, não só nas


antigas repúblicas, mas também no estado das famílias, que existiram
antes das cidades, não existiam leis para reparar os agravos e punir as
ofensas, com as quais os cidadãos se ultrajassem privadamente entre si
(...) e, por isso, também nos disse Aristóteles, nas dignidades, que esse
costume era próprio dos povos bárbaros, porque, como ali advertimos,
nos seus inícios, os povos são bárbaros, precisamente porque não
estão domesticados pelas leis10.

Na Scienza Nuova, Vico relata enfaticamente sobre o papel ético-


moralizador da vida regrada que os primeiros pais obrigaram-se a conservar
dentro dos primeiros feudos rústicos. Durante longos tempos vivendo como
animais, os próprios males advindos destas condutas obrigaram os homens a
afastar-se da impiedade, impudicícia e debilidade. Eram ímpios, porque ainda não
acreditavam e nem temiam os deuses; eram impudicos, porque se relacionavam
os filhos com os pais carnalmente; eram débeis, porque errantes pelo mundo
sofriam perseguições dos mais fortes e violentos.
Sobre a “barbárie da reflexão”, temida pelo autor da Scienza Nuova mais
que as duas primeiras, pois os seus reflexos e potenciais de devastação já
haviam sido percebidos por ele nos princípio da segunda barbárie, ou seja, nos
últimos anos do Império romano (Cf. Vico, Giambattista. Ciência nova, p. 839
-840.). Conforme vemos neta passagem:

Mas – corrompendo-se também os estados populares e, portanto,


também as filosofias (que, caindo no cepticismo, puseram-se os doutos
estultos a caluniar a verdade), e nascendo, assim, uma falsa
eloqüência, disposta igualmente para apoiar nas causas ambas as
partes opostas – sucedeu que, usando mal a eloqüência (como os
tribunos da plebe na romana) e não se contentando já os cidadãos com
as riquezas para instituir a ordem, quiseram fazer dela poder; [e], como
9
No parágrafo 982, a respeito da Custódia das Fronteiras, Vico interpreta como sendo as
primeiras tentativas, mesmo barbaramente executadas, de empreendimento para se afastar dos
costumes mais ímpios e imanes. Servindo tais custódias para acabar com a infame comunhão dos
bens e posteriormente protegerem-se as cidades dos ataques umas das outras, visto que se viam
como perpétuas inimigas. A necessidade e utilidade de manutenção das fronteiras foram
necessárias para que, deste modo, os indivíduos semi-selvagens que nela adentrassem, nestas
permanecessem e nelas se desabituassem dos costumes imanes. Cf. VICO, Giambattista.
Ciência Nova, p. 465.
10
Cf. VICO, Giambattista. Ciência Nova, pp. 705-706.

7
austros furiosos o mar, agitando guerras civis nas suas repúblicas
conduziram-nas a uma desordem total e, assim, de uma perfeita
durabilidade, fizeram-nas cair debaixo de uma perfeita tirania ( que é o
pior de todas), que é a anarquia, ou seja, a desenfreada liberdade dos
povos livres11.

Como apresenta esta passagem, Vico reconhece a necessidade de uma


ordem restrita e fechada para que a mesma não desvaneça e perca-se na
dissolução dos costumes. Caso estes costumes cheguem a se dissolver, pondo
em risco a ordem civil das nações, providencialmente surgirão, porém, homens
altivos que, se esforçarão [como monarcas] para que as ordens civis permaneçam
vivas. Se isto não ocorrer as nações mais jovens e vigorosas derrubam aquelas
que se degeneraram. Na falta dos dois remédios anteriormente descritos, a
Providência aplicará um mais extremo, que seria um recomeço a partir da
decadência total (Cf.VICO, Giambattista. Ciência Nova, pp. 840-841.).

1.4 Os sinais da internalização desta barbárie


Para Vico, quando os homens chegam a total dissolução dos costumes e
dos vínculos sociais, ao individualismo extremado, onde cada um só pense única
e exclusivamente nas suas comodidades e não consigam mais conviver
pacificamente, já estará aqui bem interiorizada a nova forma da barbárie e todo o
potencial intelectual acumulado até então, será utilizado para destruírem-se uns
aos outros. Fingindo amabilidade, em verdade estão sendo falsos, e como ele
mesmo adverte “armam ciladas à vida e às fortunas” (Cf.VICO, Giambattista.
Ciência Nova, p.842) de seus pares. Destruindo-se uns aos outros, os poucos que
restarem agarrar-se-ão aos princípios eternos da religião, matrimônio e
sepultamentos para, como a Fênix, renascer das cinzas.
Tais argumentos podem ser confirmados nesta passagem da Scienza
Nuova, pois adverte Vico:

Se os povos apodrecem naquele mal-estar civil, que nem dentro


consentem um monarca nativo, nem chegam de fora nações melhores
para os conquistar e os conservar, então a providência, a este mal
extremo aplica este extremo remédio: que – uma vez que tais povos, à
maneira dos animais, se tinham acostumado a não pensar em mais
nada senão nos próprios interesses particulares(...) por tudo isto, com
11
Cf. VICO, Giambattista. Ciência Nova, pp. 839-840.

8
obstinadíssimas facções e desesperadas guerras civis, passam a fazer
das cidades selvas e das selvas covis de homens; e, desse modo, ao
longo de vários séculos de barbárie, vão se enferrujar as grosseiras
subtilezas dos engenho e maliciosos, que tinham feito deles feras mais
imanes com a barbárie de reflexão do que tinham sido com a primeira
barbárie dos sentidos12.

A seriedade de tal problema suscita, e talvez seja um dos grandes temores


de Vico, o fato de esta última barbárie pôr em risco tudo o que já foi conquistado
durante os cursos e recursos da história da humanidade. A “barbárie da reflexão”
(barbarie della reflessioni) pode por em perigo não só uma determinada parcela
da humanidade, mas, sobretudo, o gênero humano13, e com ele o poder de
recomeçar, de seguir o curso providencial pelo qual passam todas as nações.
Talvez o grande temor de Vico fosse o de a barbárie pôr em risco o que
denominava “curso que fazem as nações”, visto que tal espécie de barbárie não
respeita nenhuma fronteira.

Não podemos dizer se este período de “barbárie reflexiva” estaria apenas


começando, ou se já se aproxima do seu ocaso. O importante é salientarmos que
Vico já, em sua época, identificava os sinais desta barbárie, manifestando-se na
política, nas artes e nas ciências. A oposição entre a “barbárie dos sentidos”
(barbarie dei sensi) e a “barbárie da reflexão” (barbarie della reflessioni), está no
fato de ser uma excessivamente “máscula” e a outra excessivamente
“efeminada”: a que se realiza na força e fealdade, a outra na astúcia e no engodo
(MATTÉI, Jean-François. A barbárie interior: ensaio sobre o i-mundo moderno, p.
113.). Ora, é como se a primeira barbárie, conforme o sistema viquiano de cursos
e recursos trouxesse parte dessa primeira barbárie de volta, mas sob uma
roupagem nova que a torna mais sutil que a primeira.

12
Cf.VICO, Giambattista, pp. 841-842.
13
Vico não imaginou o potencial criador do homem para armas de destruição em massa.

9
7. Referências bibliográficas

Obras de Giambattista Vico:

VICO, Giambattista. A Ciência Nova [1744].Trad. port.Jorge Vaz de Carvalho.


Portugal: Edições da Fundação Calouste Gulbenkian, 2005.
VICO, Giambattista. La Antiqüíssima Sabiduría de los Italianos Partiendo de los
Orígenes de la Lengua Latina [1710]. Trad. esp. Francisco J. Navarro Gómez, in:
Cuadernos Sobre Vico, Sevilla – España, 2000.

Obras sobre Vico:

BURKE, Peter. Vico. [1985]. Trad. br. Roberto Leal Ferreira, São Paulo: UNESP,
1997.
GUIDO, Humberto A. de Oliveira. Giambattista Vico: a filosofia e a evolução da
humanidade. Petrópolis: Vozes, 2004.
BERLIN, Isaiah. Vico e Herder [1976]. Trad. br. Juan Antônio Gili Sobrinho,
Brasília, 1982.
GUIDO, H. Aparecido de O. La niñez de Vico y la niñez en la filosofia de Vico, In:
Cuadernos Sobre Vico. Sevilla: Universidad de Sevilla. 2000, pp.149-162..
MOONEY, Michael. “La primacia del lenguaje en Vico”; in. TAGLIACOZZO,
Giorgio. et al. Vico y el pensamiento contemporáneo [1976]. Trad. esp. Maria
Aurora Ruiz. Canedo y Stella Mastrongelo, México: Fondo de Cultura Ecuménica,
1987 pp.184 -201.

Outros autores

MATTÉI, Jean-François. A barbárie interior: ensaio sobre o i-mundo moderno. Trad. br.
Isabel Maria Loureiro. São Paulo: Editora Unesp, 2002.
HORKHEIMER, Max; ADORNO, Theodor W. Dialética do esclarecimento:
fragmentos filosóficos [1969]. Trad. br. Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed. 1985.
BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza, in: Magia e técnica, arte e política;
Obras escolhidas: Brasiliense, São Paulo, 1985.

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