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II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e

II Simpósio de Pós-Graduação em Relações Internacionais do Programa "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP) 16, 17 e 18 de Novembro de 2009

ISSN 1984-9265

AGENDA BRASILEIRA PARA UMA ARQUITETURA SUL-AMERICANA DE

DEFESA SOB UMA PERSPECTIVA MILITAR

MEDEIROS FILHO, Oscar Doutorando em Ciência Política USP

Apesar da ideia geopolítica de “projeção continental do Brasil” existir desde

as primeiras décadas do século XX (Mário Travassos, 1935), só recentemente, nas

últimas duas décadas observa-se um esforço brasileiro para levar adiante uma

estratégia de sul- americanização de sua agenda externa. A criação de

organizações regionais como o Tratado de Cooperação Amazônico, o Mercosul e

mais recentemente a Unasul tem sido vista como parte desse processo. A partir

dessa experiência cooperativa, especialmente com a mudança paradigmática na

relação com a Argentina, temas de interesse militar (defesa e segurança) passou a

compor a agenda de negociações em âmbito regional. Apesar de, ao longo dos

primeiros movimentos nesse sentido, os acordos ligados a questões de natureza

econômica terem recebido maior destaque, é inegável o desenvolvimento

paralelo de um processo cooperativo regional com base numa “diplomacia militar”,

tema da primeira seção deste texto.

O presente ensaio visa analisar as percepções de militares brasileiros sobre

o processo de construção de uma arquitetura regional de defesa e segurança.

Interessa-nos compreender como esse processo de sul-americanização tem sido

percebido por esses militares que, até recentemente, haviam sido doutrinados com

base na ameaça oriunda de “forças antagônicas do sul” (Golbery do Couto e

Silva, 1981), onde vizinhos, especialmente a Argentina, constavam em nossas

hipóteses de guerra.

Serão analisados textos produzidos por militares brasileiros no período

compreendido entre o fim da Guerra Fria e a consolidação do Conselho de Defesa

Sul-americano (CDS), em dezembro de 2008. Dentre esse textos, merecem

destaque: artigos publicados em revistas especializadas, como Defesa Nacional e

Premissas; teses de oficiais concluintes da Escola de Comando e Estado-Maior do

Exército (ECEME); além de palestras e textos publicados por centros de estudos

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estratégicos da ECEME e do Estado-Maior do Exército.

Como pano de fundo aos textos analisados, apresentaremos, na segunda

parte deste trabalho, uma tipologia de agendas para a integração regional

compostas por três modelos: a mercosulina, a brasileira e a bolivariana. Por fim, na

quarta e última parte, serão discutidas as demandas que justificariam a

institucionalização de políticas compartilhadas de defesa e segurança na região, tais

como o combate ao narcotráfico e a defesa dos recursos naturais comuns, por

exemplo. Dados preliminares nos mostram que diferentes finalidades são propostas

para uma instituição dessa natureza, variando desde um efetivo militar regional para

defesa coletiva até um simples espaço para interlocução de ideias entre ministérios

de defesa.

I. Cooperação regional: o papel da diplomacia militar

Antes de discutirmos a dimensão político-militar do processo de integração

regional na América do Sul, faz-se necessário breves comentários sobre o papel

atuante dos militares como agentes de política externa.

Na América do Sul, os militares têm desempenhado um papel político central, com

elevado grau de autonomia institucional. Para Félix Martin (MARTIN, 2001: 75), os

militares sul-americanos são “suficientemente poderosos para decidir

unilateralmente se devem ou não perseguir objetivos políticos nacionais por meio do

uso da força externa em nível intra- regional” 1 .

Por mais paradoxal que possa parecer, a identidade militar constitui fator de

aproximação entre vizinhos 2 . Os padrões compartilhados de caráter tornam o

1 Para Felix Martin (MARTIN, 2001: 77), “A análise da história política da América do Sul nos últimos

sessenta anos revela que a instituição militar foi capaz de tomar decisões e desenvolver ações políticas independentes, em particular a de declarar a guerra. Dois são os fatores que propiciaram ao

Em primeiro lugar, a instabilidade política e as convulsões

sociais fizeram com que a história política destes países seja muito fragmentária. (

lugar, as instituições governamentais em regime democráticos têm sido tradicionalmente frágeis e

carentes de consenso geral acerca das regras apropriadas para processar os conflitos internos. Portanto, a debilidade institucional na América do Sul derivou em uma organização política não preparada para satisfazer as demandas políticas do momento. Com estes elementos, a instituição castrense se mostra como o único setor que possui suficiente força de organização institucional capaz de enfrentar a instabilidade social, econômica e política da época.”

setor militar tal grau de autonomia (

Em segundo

).

)

2 O paradoxo proposto aqui deve-se ao traço realista que caracteriza a mentalidade militar e que pressupõe Estados nacionais em competição (HUNTIGTON, 1996: 81-83). Desse traço deriva uma visão conspirativa, segundo a qual todo vizinho, independente do padrão de amizade, pode

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diálogo entre os segmentos militares mais direto e objetivo, permitindo-os, por

vezes, atuar como agentes da diplomacia (AMARAL, 2004: 31). A amizade e

camaradagem que tem envolvido nos encontros entre militares da região contribui

muito para esse diálogo 3 .

A “diplomacia militar” na região ganha mais relevância quando se considera

o fato de que a “análise da história política da América do Sul nos últimos sessenta

anos revela que a instituição militar foi capaz de tomar decisões e desenvolver

ações políticas independentes” (MARTIN, 2001: 77). No contexto da Guerra Fria,

por exemplo, “as forças armadas começaram a perceberem-se umas às outras

como membros de uma liga informal supra- nacional, envolvida principalmente na

competição política pelo controle do governo em seus respectivos Estados” (Idem:

89). Na ocasião, o canal multilateral por excelência onde essa diplomacia era

praticada se dava por meio da Conferência dos Exércitos Americanos (CEA) 4 .

O grau de repercussão dessa “diplomacia militar” parece ser tão alto a ponto

de se cogitar que a ausência de guerras na América do Sul se deve, em boa

medida, à “paz armada” – acordos tácitos entre as Forças Armadas da região

(MARTIN, 2001).

Atualmente, apesar da criação dos ministérios de defesa, do controle civil

sobre os militares e do esforço de adaptação destes às regras democráticas, o fato

é que as es truturas militares dos países da região dispõem de uma considerável

transformar-se, a qualquer momento, de amigo em inimigo. Tal visão, em forte medida, ainda serve de bússola aos militares da região na orientação das decisões estratégicas de seus países. 3 Considerando o histórico da relação entre os militares dos exércitos brasileiro e argentino, torna-se interessante a declaração a seguir, realizada no início da década de 1990 por um oficial da reservado do Exército Brasileiro: “Quanto à área militar, em que pese o ativo condicionamento profissional, influente e persistente, o fato é que já perdura uma tradição de ótimo relacionamento, seja a nível institucional e organizacional, seja mesmo em caráter pessoal e familiar. Não é um paradoxo. É mais uma decorrência. Sou testemunha e integrante desse quadro, que aparenta ser surpreendente. Digo de mim que venho mantendo ótimo contato com os militares argentinos, durante quase 50 anos” (CORREIA NETO, 1994: 112).

4 A Conferência dos Exércitos Americanos foi criada em 1960, um ano após a Revolução Cubana, por iniciativa dos EUA, com a finalidade declarada de constituir-se num fórum de debates para a troca de experiências entre os exércitos do continente. A CEA é um organismo militar de caráter internacional, integrado e dirigido por exércitos do continente americano, com autorização dos governos dos seus respectivos países. Seu objetivo não é impor soluções aos exércitos americanos, mas apresentar propostas de pontos considerados de interesse comum. A CEA dispõe de uma base doutrinária e sua sede é itinerante, selecionada mediante manifestação voluntária dos países que a integram (AMARAL, 2004: 14-15).

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autonomia 5 para a formulação de sua políticas setoriais (GAITÁN, 2007: 24-5). Tal

peculiaridade acaba por garantir a esses agentes posição de destaque em fóruns

de discussão e elaboração de políticas de defesa.

Nesse sentido, o desenvolvimento de mecanismos de confiança mútua

tornam-se cada vez mais importante. Parece haver entre os militares da região

uma percepção compartilhada de que a possibilidade de conflitos na América do

Sul provocada por ações militares é remota ou quase inexistente, “uma vez que o

relacionamento entre militares brasileiros com os demais de todos os países do

subcontinente é cada vez mais próximo, solidário e receptivo. A tendência é que

essa fonte de conflito doravante seja mais e mais remota.” (SOUZA, 2008: 3). Ações

da “diplomacia militar” como instrumento para reduzir a possibilidade de conflitos no

entorno estratégico, parece ser uma realidade entre os países sul-americanos:

“Esses instrumentos são utilizados de modo contínuo e duradouro há muito

tempo e traduzem-se pelas iniciativas, sobretudo das FA b rasileiras, para

estreitarem laços e promover intercâmbios regulares e efetivas medidas de

cooperação” (Idem: 5). Nesse sentindo, a elevada confiança adquirida no meio

militar tem sido interpretada, pelos próprios militares, como base para uma futura

integração militar regional (RABELLO, 2006: 18).

II. Demandas e agendas para a integração regional: tipologias

Os arranjos multilaterais de defesa e segurança predominantes na segunda

metade do Século XX entre os países sul-americanos possuíam caráter

eminentemente panamerican 6 7 (hemisférico). Com o fim da ordem bipolar, a eficácia

desses mecanismos passou a ser questionada.

5 Há um conjunto de explicações para isso. Uma das explicações para a relativa autonomia militar é o desinteresse que o tema defesa provoca entre classe política, inclusive pelos reduzidos ganhos eleitorais gerados pelo tema na região (PION-BERLIN; TRINKUNAS, 2007). Além disso, a especialização funcional desenvolve entre os militares habilidades e conhecimentos específicos, difíceis de serem compreendidos e compartilhados (MARQUES, 2008: 5), o que acaba conferindo às agências de defesa considerável grau de autonomia consentida para a auto-definição de suas missões e estrutura. 6 Denominamos aqui de panamericanismo o movimento de tentativa de construção, ao longo do Século XX, de uma arquitetura hemisférica de defesa e segurança, liderada pelos Estados Unidos. Podemos dividir esse movimento em 3 fases: 1ª) Sistemadedefesahemisférico: aliança contra uma

pós-Segunda Guerra; 2ª)

ameaça externa ao continente, que perdurou

Doutrinadesegurançanacional: cooperação visando neutralizar as influências do perigo comunista; e 3ª) Sistemadesegurançahemisférica: respostas cooperativas e multilaterais a ameaças à segurança transnacional (“novas ameaças”).

até

o

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Na verdade, os primeiros sinais de uma reação ao panamericanismo são

anteriores ao fim da Guerra Fria e corresponde às reações dos militares brasileiros

em relação à postura do Governo de Carter 7 . A “declaração de independência” em

relação aos Estados Unidos ocorreu concomitantemente a uma acelerada ofensiva

diplomáticas em direção à América do Sul. De fato, à medida que o Brasil procura

se afastar da esfera geopolítica norte-americana, percebe- se um movimento no

sentido contrário – de aproximação – em relação ao seu, até então, principal

concorrente regional: a Argentina. “O rompimento formal de aliança Brasil-Estados

Unidos em março de 1977 convenceu ainda mais muitos oficiais brasileiros de que

uma acomodação com a Argentina era desejável” (TAMBS, 1979: 145).

As pretensões “panamericanas” tornam-se ainda mais remotas com o fim da

Guerra Fria. Nesse novo contexto, as percepções sobre defesa e segurança

ganham diferentes conotações entre os países que compõem a OEA, tornando

inviável o estabelecimento de estratégicas comuns em nível hemisférico. O

envolvimento ou não das Forças Armadas no enfrentamento das chamadas “novas

ameaças” é apenas um dos exemplos das controvérsias existentes.

Nesse sentido, a proposta de institucionalização de um arranjo propriamente

subregional, como o recente Conselho de Defesa Sul-americano (CDS) 8 rompe

com essa longa tradição panamericana, revestindo-se de um interessante

ineditismo geopolítico na América do Sul.

7 A política de defesa dos direitos humanos e uma possível tentativa de rompimento do acordo nuclear Brasil- Alemanha, passavam a ser percebidos pelos militares como uma ameaça aos projetos estratégicos brasileiros.

A proposta para a criação do Conselho de Defesa Sul-americano foi apresentada durante um encontro entre os presidente Lula, Hugo Chávez e Néstor Kirchner, realizado em 19 de janeiro de 2006, na Granja do Torto, em Brasília. Passados alguns meses após os debates iniciais, a proposta parecia condenada ao “engavetamento”. O tema foi retomado, porém, em outubro de 2007, quando o novo Ministro da Defesa Nelson Jobim encampou a idéia de que era necessário estabelecer “algo que se possa discutir como um plano latino-americano de defesa”. Dois objetivos principais eram apresentados em seus discursos: a construção de uma identidade regional de defesa e criação de uma indústria bélica sul-americana. No primeiro semestre de 2008 dois acontecimentos deram relevância à discussão do tema: o conflito envolvendo Colômbia, Equador e Venezuela e a reativação da Quarto Frota norte-americana. Tais acontecimentos impulsionaram o debate e promoveram uma rodada de negociações entre autoridades de defesa dos países da região. Finalmente, em 16 de dezembro de 2008, durante a Reunião Extraordinária de chefes de Estado da Unasul, realizada em Costa do Sauípe (Bahia - Brasil), o Conselho de Defesa Sul-americano foi criado como uma instância de consulta, cooperação e coordenação em matéria de Defesa.

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Arquitetura regional de defesa e segurança na América do Sul: agendas e propósitos

À medida que a agenda hegemônica foi cedendo lugar a novos acordos

subregionais, começaram a surgir diversas propostas de arranjos autóctones de

defesa e segurança entre os países sul-americanos, culminando com a

formalização do CDS, em dezembro de 2008. As finalidades desse arranjo,

entretanto, não são claras e parecem obedecer a diferentes interesses e

preferências. Para a análise dos diferentes propósitos implicitamente relacionados

às iniciativas que resultaram na criação do CDS, adotaremos uma tipologia

composta por três diferentes “agendas”: bolivariana, mercusolina e brasileira.

a) Agenda bolivariana

Sob uma perspectiva bolivariana, a ideia de um arranjo sul-americano de

defesa e segurança corresponde a uma solução necessária para fazer frente a

ameaças externas à região. Essa ideia já estava presente no pensamento de

Simon Bolívar, nas primeiras décadas do Século XIX (KACOWICZ, 2005: 50-51).

Atualmente, a perspectiva bolivariana possui caráter nitidamente ideológico –

para o qual o “Socialismo do Século XXI” do presidente Hugo Chavez é a sua

melhor expressão – e se caracteriza por mesclar tendências socialistas, populistas,

nacionalistas e, principalmente, anti-americanas.

As propostas de uma agenda bolivariana variam de uma “integração militar” 9

sul- americana até um “exército regional” 10 . Sua retórica é notadamente anti-

americanista. Durante o processo de negociação para a implantação do CDS, por

exemplo, uma das exigências do governo venezuelano era a de que os Estados

Unidos fossem citados entre as possíveis ameaças externas à região 11 .

Tal agenda, porém, tende a enfrentar fortes resistências na região, a começar pelos

9 Em novembro de 2003, durante o IV Foro Iberoamérica, realizado em Campos de Jordão (SP), o então chefe da Casa Civil José Dirceu defendeu“a integração da América do Sul como prioridade da política externa brasileira”, citanto inclusive a idéia de uma “integração militar”. (Cf. PEREIRA, Merval. União por um poderio bélico. O Globo, 10 de novembro de 2003, p. 3).

Em 4 de julho de 2006, após a reunião de presidentes do Mercosul que aprovaram a entrada da Venezuela no Bloco, o presidente venezuelano Hugo Chavez declarou que o Mercosul “deberá tener algún día una organización de defensa conjunta, una estrategia propia para proteger la soberanía de sus países”. (Cf. ELIAS, Jorge. Chávez propuso crear un ejército del Mercosur. Jornal LA NACION, Sección Política, 6 de julio de 2006).

11 Na ocasião, todos os demais países se manifestaram contrariamente à ideia de Chavez. Cf. REZENDE, P. P. Chávez e Uribe “adiam” acordo. Correio Brasiliense, 18 de setembro de 2008.

10

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próprios militares que tendem a enxergar na proposta bolivariana, uma espécie de

reedição da “ameaça comunista” da Guerra Fria.

b) Agenda Mercosulina

A agenda aqui proposta se refere a ideia de construção, sob uma perspectiva

liberal, de um organismo sul-americano como parte da ampliação da integração

regional a partir do Mercosul. A finalidade da integração regional sob essa

perspectiva está geralmente relacionada à ampliação do comércio intra-regional e,

especialmente no caso sul-americano, à manutenção dos regimes democráticos.

Neste caso, o objetivo do CDS estaria relacionado à necessidade de estabilidade

regional, esta entendida como pré-condição para a manutenção dos regimes

democráticos na região.

A proposta aqui defendida encontra respaldo na mudança de padrão de

relacionamento entre as duas principais lideranças regionais (Brasil e Argentina)

nas últimas décadas. Aparentemente, a agenda mercosulina domina os debates em

torno das finalidades do CDS. Não obstante, as diferentes prioridades nacionais,

tanto em termos de ameaças como em relação ao papel das Forças Armadas em

cada país, constituem sérios obstáculos ao avanço do projeto.

c) Agenda brasileira

O fato do CDS ter tido como principal propagador o ministro brasileiro Nelson

Jobim contribuiu para que se levantassem suspeitas sobre a possibilidade do

conselho refletir um projeto estratégico brasileiro de liderança do subcontinente. Os

sinais do esforço brasileiro para liderar o processo de integração regional no campo

da defesa e da segurança se tornam mais evidentes a partir da criação do Ministério

da Defesa, em 1999 12 .

Uma outra evidência de que haveria uma agenda brasileira por trás do

projeto do CDS seria a “coincidência” de datas entre a publicação do documento

que originou o CDS e a apresentação da Estratégia Nacional de Defesa (BRASIL,

12 Naquele ano, o então ministro Geraldo Quintão defendeu, perante a Câmara dos Deputados, a idéia de estratégia regional sul-americana, através da promoção do diálogo no nível da concepção de políticas de defesa. Esse tema voltou a ser defendido no início do Governo Lula, pelo ministro José Viegas, a partir da ideia de integração das indústrias de defesa dos países sul-americanos.

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2008) que trata da reestruturação do sistema de Defesa do País. Nesse sentido, o

CDS poderia ser entendido como uma espécie de plataforma para a exportação dos

planos militares do Brasil 13 . Sendo assim, a proposta apenas refletiria a estratégia

de “sul-americanização” do Brasil, segundo a qual o País tenderia a maximizar

seus ganhos ampliando suas relações com a América do Sul. Sob tal perspectiva, a

construção de uma comunidade sul-amerciana para o Brasil poderia não ser um

fim, em si mesma, mais um meio para o sua projeção.

III. A integração regional na América do Sul sob a ótica militar brasileira

Discorreremos agora a respeito das percepções de militares brasileiros sobre

o processo de integração regional na América do Sul nos últimos anos. Para isso,

serão analisados textos (artigos, palestras, teses) produzidos por militares

brasileiros entre o final da Guerra Fria e a assinatura do CDS, em dezembro de

2008.

O início das discussões entre os militares brasileiros sobre a restruturação

das Forças Armadas envolvendo temas de segurança internacional em escala

subcontinental ocorre a partir do início dos anos 1990, em um contexto marcado

pelo fim da Guerra Fria e o início de um novo período unipolar. Até então, os textos

produzidos pelos militares brasileiros voltavam-se majoritariamente para a

restruturação do papel constitucional das forças armadas.

Textos produzidos por militares brasileiros: (des)construindo identidades

Inicialmente, merecem destaque dois artigos publicados pela revista A

Defesa Nacional em 1994. O primeiro, de autoria do Gen R1 Jonas de Morais

Correia Neto, tinha por título “Integração Brasil-Argentina”. Nele, o autor discorre

sobre uma percepção que lhe parece comum entre militares brasileiros e argentinos

de que existe “uma acentuada convicção de que nossas nações precisam, além

de viver em paz, ser e conservar-se boas amigas e sólidas parceiras, em união

compatível, estável e vantajosa.” (CORREIA NETO, 1994: 110). Percebe-se, ao

longo do seu texto, a tentativa de desconstrução do estoque de identidade negativa

13 SEQUEIRA, Claudio Dantas. Brasil busca alinhamento militar na América do Sul. Jornal Folha de S. Paulo, 22 de março de 2009.

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até então mutuamente compartilhado: “As relações brasílio-argentinas são

pontilhadas de imagens falseadas. De tanto repetidas, ficam parecendo reais,

embora sejam, na maioria absolutamente mentirosas” (Idem: 111). Sobre a

possibilidade de uma possível “integração” militar, o autor parece otimista: “Ela é

bastante viável, com a condição de ser entendida como o intercâmbio cultural

profissional, tanto técnico como operacional. Se ampliada, poderá ser entendida,

também, como a procura e o aproveitamento de atividades e missões que se

possam executar conjuntamente, inclusive em situações aproximadas de certo grau

de realismo bélico (Idem: 112-3).

O segundo texto é Perspectivas para um futuro sistema de segurança

hemisférica, de autoria do General Gleuber Vieira, na ocasião o 2º Subchefe do

Estado-Maior do Exército Brasileiro. Nele, o autor sugere uma nova proposta de

segurança hemisférica com base em associações sub-regionais – nações vizinhas

que dividem o mesmo espaço geopolítico (VIEIRA, 1994: 10). Nesse sentido, o

Brasil possuiria nítida consciência de identidade sul- americana: “Considero o Brasil

especialmente vocacionado para inserir-se em organismos sub-regionais de

segurança, justamente porque faz parte do dia-a-dia de sua política externa o

desenvolvimento de relações de harmonia e de cooperação com dez vizinhos

imediatos” (Idem: 11).

Um outro texto marcante, ainda em 1994 e também de autoria do Gen

Gleuber Vieira, foi La variable estratégica en el proceso de constitución del

Mercosur, publicado pela Revista Fuerzas Armadas y Sociedad 14 . Neste, aparece

pela primeira vez entre os militares brasileiros a proposta de uma arquitetura

regional de defesa. De acordo com o autor, “un sistema colectivo de seguridad”

pode ser pensado a partir de “un núcleo militar que se asocie a un centro de

prevención de conflictos que podrá establecerse en el futuro en conformidad a la

voluntad política de los países interesados” (VIEIRA, 1994b: 18-9). Diante de tal

possibilidade, Vieira aponta algumas iniciativas possíveis, sobretudo entre os

Exércitos Brasileiro e Argentino. Dentre essas iniciativas, sugere: o

“establecimiento de foros permanentes y/o periódicos para análisis y evaluación

14 Na realidade, esse artigo reproduz uma palestra apresentada pelo Gen Gleuber durante o

Seminário "Hacia las fuerzas armadas del año 2000", realizado em Buenos Aires, em agosto de

1993.

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conjunta de amenazas y concepciones estratégicas, e intercambio de informaciones

dinámicas” (Idem: 18).

Os textos seminais apontam para dois aspectos centrais no contexto

geopolítico sul- americano do pós-Guerra Fria: a aproximação estratégica entre os

até então rivais (Brasil e Argentina), de um lado, e a reação às pretensões

hegemônicas dos EUA em mundo aparentemente unipolar. Em um contexto

notadamente marcado pela ideia de globalização, restava aos países periféricos

lutar por espaços de autonomia estratégica. Tal cenário encontra respaldo na

perspectiva realista segundo a qual “os Estados soberanos consideram seu inimigo

o pretendente à hegemonia, isto é, que deseja privá-los da sua autonomia, da sua

faculdade de decidir livremente” (ARON, 1982: 125). Nesse sentido, a exclusão dos

Estados Unidos da composição de novos órgãos regionais deve ser entendido como

estrategicamente necessário à ampliação da autonomia brasileira no sistema

internacional: “Num mundo globalizado e marcado por crescente interdependência,

a presença constante de ator hegemônico impondo limites à liberdade de ação aos

demais pode ser interpretada como ameaça à implementação de estratégias de

inserção internacional” (NASCIMETO, 2008: 4)

Considerando tais aspectos, merece destaque o artigo Integração sul-

americana: segurança regional e defesa nacional, publicado pelo Caderno

Permissas, em 1996, de autoria do Almirante Armando Amorim Ferreira Vidigal,

então Diretor da Escola de Guerra Naval. Nele, o autor sugere uma espécie de

pacto pela autonomia regional ante o panamericanismo hegemônico. Para o

Almirante Vidigal, naquele contexto os princípios de auto-determinação e não-

intervenção estavam sendo postos de lado pelas grandes potências e passavam a

ser a maior ameaça militar aos países subdesenvolvidos. Nesse sentido, a

integração regional passava a ser visto como um instrumento de dissuasão: “ela

fortalece a capacidade dissuasória de cada um e do conjunto” (VIDIGAL, 1996: 111-

4). Para o autor, a criação do Grupo do Rio, em dezembro de 1986, constituia um

marco político-estratégico, pois pela primeira vez países latino-americanos haviam

se reunido para dar solução aos seus problemas, sem a interveniência da nação

hegemônica. Defensor da intesificação da cooperação na área política, Vidigal

sugere que os “países da América do Sul devem procurar um estreitamento da

cooperação no setor militar, por mais difícil que sejam os primeiros passos” (Idem:

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128-9). Nessa empreitada, os militares são chamados a “se tornarem os apóstolos

da causa da integração regional, vencendo finalmente a fixação da guerra contra

os vizinhos” (Idem: 134-5).

A partir do ano de 1997 a temática “integração regional” passa a despertar o

interesse entre os oficiais alunos da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército

(ECEME). O trabalho pioneiro sobre o tema coube, sugestivamente, a um aluno

argentino: o Major de Infantaria Eduardo Luis Doval. Em Reflexos nos processos de

integração regional (Mercosul) no âmbito militar, Doval conclui ser “preciso avançar

no caminho da integração militar em termos de segurança, embora, mantendo a

soberania e independência de emprego da força” (DOVAL, 1997).

No ano seguinte, o então Coronel de Artilharia José Mário Facioli, aluno do

Curso de Política, Estratégia e Alta Administração do Exército (desenvolvido na

ECEME) defendeu a tese “A integração sul-americana”, onde são abordadas as

perspectivas militares dessa integração. Para ele, as Forças Armadas dos países da

região não seriam obstáculo à integração regional (FACIOLI, 1998: 40).

Notadamente marcado pelo discurso anti- globalização da época, o autor ressalta

que falta à América do Sul “somente a conscientização da existência de um perigo

que ameace todos seus povos, como pode ser, por exemplo, uma condenação ao

eterno subdesenvolvimento num processo monitorado pelos 'ricos', ou o

questionamento da soberania sobre parte de seus territórios” (Idem: 43).

Destacando as riquezas naturais e o peso geopolítico da América do Sul integrada

no contexto internacional, o autor considera que “a integração pode diminuir a

extrema vulnerabilidade a que cada país está sujeito quando atuando isoladamente

num cenário onde há uma superpotência hegemônica” (Idem: 44).

A ideia de defesa coletiva do subcontinente contra uma suposta cobiça

internacional continuou presente em textos militares sobre a integração regional nos

anos seguintes. Nesse sentido, a integração equivale a dissuasão. Em Palestra

proferida no IV Encuentro Nacional de Estudios Estratégicos, Buenos Aires, em

2001, Coronel (R1) Raymundo Guarino Monteiro, abordou a possibilidade de

capacidade dissuasória um sistema coletivo sul-americano contra possíveis

intromissões. Para ele, a “generalização das intervenções militares, levadas a cabo

sob os mais variados pretextos (direitos humanos, narcotráfico, etc) pelos EUA e

seus aliados contra nações da periferia, indica a necessidade de montar um

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Sistema Coletivo de Segurança na América do Sul para dissuadir tais intromissões

na Região” (MONTEIRO, 2001: 3).

Em 2002, a Revista da ESG publicou o artigo A integração sul-americana, de

autoria do Cel Paulo Roberto Costa e Silva. Nela o autor alerta sobre uma “perigosa

e danosa cobiça estrangeira”. Para ele, a estratégia das grandes potências seria

“transformar as Forças Armadas destas nações em gendarmerías ou forças

policiais, ao mesmo tempo em que procurariam impor novos conceitos e doutrinas

que atendessem a seus interesses, tais como “soberania limitada”, “direito de

ingerência”, “internacionalização” de áreas estratégicas, exércitos “transnacionais”,

dentre outros (SILVA, 2002: 187). Para o autor, os problemas comuns, como a

cobiça estrangeira pela Amazônia e o combate aos crimes transnacionais, seriam

motivos de aproximação, pois incentivariam a busca de soluções conjuntas, levando

a uma crescente integração estratégica dos países sul-americanos (Idem). Nesse

sentido, a integração sul-americana “deve ser encarada como um urgente

imperativo geopolítico, para que os países sul-americanos possam prover com

plena soberania nacional e dignidade para os seus povos a sua inserção no mundo

do século XXI.” (Idem: 210).

A percepção dos EUA como uma ameaça parece marcante nos primeiros

anos do novo século. Em 2002, o Cel José Alberto da Costa Abreu defendeu a

tese A presença militar dos Estados Unidos na América do Sul. Mapeando a

presença militar dos Estados Unidos na América do Sul (pelo menos 6.300 militares

norte-americanos teriam realizado operações no continente entre 2001 e 2002), o

autor questiona os fins, “ainda não declarados”, do que para ele representava um

verdadeiro “cinturão” de forças norte-americanas em torno das fronteiras brasileiras,

particularmente na área amazônica (ABREU, 2002: 40). Além disso, para o

Coronel Abreu, “os EUA diminuem a capacidade brasileira de assumir a natural

liderança a si destinada na América do Sul e impedem que nosso País exerça

projeção do Poder Nacional sobre seus vizinhos do subcontinente” (Idem: 37)

Recusa a uma força militar supranacional permanente

À medida que o tema vai sendo discutido, começa a ficar claro que uma

concepção de força supranacional permanente não atenderia aos interesses

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estratégicos do Brasil (SILVEIRA, 2003: 4). Apesar de buscar uma maior

aproximação com outros exércitos, particularmente dos países sul-americanos, por

meio do entendimento e da cooperação em áreas de interesse comum no campo

militar, o Exército Brasileiro considera inadequadas as propostas de organização de

força de segurança supranacional (Idem: 5). Em boa medida, essa decisão

estratégica dos militares brasileiros possui forte relação com a pressão dos EUA

para a transformação das Forças Armadas latino-americanas em “guarda

hemisférica”, com as missões de combate ao crime organizado, em especial ao

narcotráfico, de defesa do meio ambiente, e que pudesse participar de missões de

paz (Idem).

No caso específico do Mercosul, havia no início da década uma percepção

política de que, do ponto de vista estratégico, o ideal para o bloco seria seguir o

modelo europeu (união militar: Eurofor e Força Franco-Alemã). Dentre os militares

brasileiros, o texto mais otimista e ambicioso sobre as possibilidades de integração

militar na região foi escrito pelo Capitão- de-Corveta Carlos Chagas Vianna Braga.

Em um artigo publicado em 2000 pelo caderno O Anfíbio, intitulado “Integração

militar no Cone Sul: uma conseqüência natural do Mercosul”, Braga considera a

possibilidade de criação de uma Força de Defesa do Cone Sul (ForDefCS). Para

ele, “As tropas, oriundas das Forças Armadas dos países membros, seriam

periodicamente classificadas como “forças disponíveis” para emprego na ForDefCS.

Esta solução seria bastante semelhante à implementada na EUROFOR” (BRAGA,

2000). Na ocasião o Exército Brasileiro se posicionou contrário a tais propostas, por

vários motivos: interesses nacionais divergentes, não havia inimigos comuns e

custos financeiros considerados altos. Questionava-se também a operacionalidade

de um instrumento como esse – como e onde ele seria empregado? A atuação em

questões de defesa civil, catástrofes e missões de paz não constituiria justificativa,

pois tais empregos já vinha sendo realizados com sucesso através de acordos

bilaterais. Nesse sentido, não haveria ganhos em termos de potencial. Além do

mais, poderia haver o risco de se ter que empregar essa força, por pressão de

países desenvolvidos, em contextos não desejáveis, como no caso de uma

intervenção internacional a um dos países da região 15 .

15 Dados colhidos em entrevista realizada ao Gen Brig Cláudio Coscia Moura, autor da tese “Integração Militar

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Um balanço parcial (2004-2006)

Alguns textos produzidos em meados da década nos fornecem alguns

elementos para um breve balanço parcial sobre o processo de integração regional

sob a perspectiva militar. Àquela altura, consolidava-se entre as linhas mestras do

Exército Brasileiro a recusa por propostas de organização de força militar

supranacional permanente e a preferência por acordos bilaterais (AMARAL, 2004).

Ao mesmo tempo, torna-se recorrente a ideia da integração militar como

mecanismo de consolidação da liderança brasileira na América do Sul e de

fortalecimento das pretensões brasileiras de ocupar um assento permanente no

Conselho de Segurança da ONU (ECEME, 2004). De forma geral, a idéia

predominante era a de que o aprofundamento das relações de confiança entre suas

Forças Armadas vinha servindo para afastar a possibilidade de confrontação militar

entre os países do Mercosul, mas não conferia ainda, plenas condições para a

criação de uma força multinacional permanente na região (RABELLO, 2006: 15-6).

Governo Lula e a ideia de um Sistema Coletivo de Defesa

Em meados da década, ocorrem dois eventos conduzidos pelo Governo Lula

e diretamente relacionados ao tema que certamente tiveram repercussão na

percepção dos militares brasileiros sobre o processo de integração militar da

América do Sul. O primeiro deles, ocorrido em 2004, se refere a inclusão de um

“Sistema Coletivo de Defesa” entre os temas considerados estratégicos para o

futuro do Brasil pelo Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República

(NAE) 16 . No ano seguinte, em 2005, um grupo de oficiais do Estado-Maior do

Exército elabora os “Cenários Exército Brasileiro de 2022” (Cenários EB/2022),

onde são analisadas possíveis ocorrências no ano de 2022, dentre as quais a

possibilidade de estabelecimento do sistema coletivo de defesa no Mercosul. De

acordo com o documento, o estabelecimento desse sistema não deveria ocorrer.

Como elemento explicativo é citado a latente instabilidade política e social em

alguns países da região” (CORTÊS, 2007).

O segundo evento, ocorrido em janeiro de 2006, corresponde ao

surgimento da ideia de criação de um conselho de defesa sul-americano, durante

16 Projeto Brasil 3 Tempos 50 Temas Estratégicos, Núcleo de Assuntos Estratégicos, Presidência da República, 2004

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um encontro entre os presidente Lula, Hugo Chávez e Néstor Kirchner, realizado em

Brasília.

Em 2007 o Cel Walter Ribeiro Benvindo, membro do Centro de Estudos

Estratégicos do Exército, escreveu um artigo com o título instigante: Sistema

Coletivo de Defesa do MERCOSUL: a quem interessa? Para o autor, alguns

governantes sul-americanos, valendo-se do apelo nacionalista, teriam proposto

recentemente a criação de um tipo de arranjo (aliança militar) voltado para a defesa

do subcontinente. Entretanto, não existiria, no caso específico da América do Sul,

uma visão comum sobre prováveis ameaças ou inimigos, premissa necessária a

implantação de sistema coletivo de defesa. Diante desse quadro, para o autor,

deve-se buscar o fortalecimento dos dispositivos já existentes, uma vez que “a

adoção desse tipo de 'mecanismo' no momento não atende aos interesses

brasileiros” (BENVINDO, 2007: 2).

O papel catalizador do Brasil

Nos anos que antecedem a consolidação do CDS, alguns textos voltam a

destacar a importância geopolítica do processo de integração regional como

instrumento de realização dos interesses estratégicos brasileiros. Um artigo

escrito por alguns oficiais da ECEME, em 2007, merece destaque. Com o título de

Organização do Tratado de Cooperação Amazônica: Integrar é preciso!, o artigo

chama a atenção para a “grande cobiça da comunidade internacional” e para o

conceito de “soberania limitada” como uma ameaça para a porção amazônica da

América do Sul. Contra tais ameaças, defende-se a criação de uma “consciência

panamazônica”, a partir da integração regional como forma de diminuir a

possibilidade de intervenção internacional nos países que a integram. Os autores

concluem o artigo utilizando- se de uma expressão até então usada

exclusivamente em relação à Amazônia brasileira: “O imenso manto verde da

floresta amazônica, que recobre parte dos nossos territórios, não deve nos separar,

mas sim nos aproximar, para que juntos desenvolvamos esta extraordinária região,

pois a selva nos une e a Amazônia nos pertence!” (OKAMURA, et alli, 2007). Em

texto seguinte, os autores ressaltam que o caminho da segurança da Amazônia

passa pela integração regional com base na OTCA, “cabendo ao Brasil a

responsabilidade de manter a mesma iniciativa e liderança que outrora conduziu

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os países amazônicos à assinatura do TCA” (ARAUJO; OKAMURA, 2008: 18).

A campanha pessoal do Ministro da Defesa Nelson Jobim 17 pelo

estabelecimento de um organismo regional de defesa, a partir do final de 2007,

contribuiu para que, nos últimos anos, a ideia de integração militar da América do

Sul fosse diretamente relacionada a postura de liderança regional do Brasil. Em

Palestra proferida na Escola de Guerra Naval, em 2008, o Vice-Almirante Arnon

Lima Barbosa, Diretor do Departamento de Política e Estratégia da Secretaria de

Política, Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa, detalhou a

proposta brasileira para o denominado Conselho Sul-Americano de Defesa, que

segundo ele não se tratava de qualquer “arranjo militar de caráter permanente” 18 .

Para Barbosa, “O Brasil considera que tem a responsabilidade de participar como

elemento catalisador na América do Sul, buscando criar o ambiente de cooperação

e integração necessários à estabilidade, à paz e à segurança de todos, convivendo

harmonicamente com os seus vizinhos” (Idem: 6).

O futuro do CDS

Encerrando a análise dos textos militares, analisaremos agora dois

interessantes trabalhos escritos em 2008, ano da consolidação do CDS. O primeiro,

de autoria do Cel Paulo Roberto Laraburu Nascimento, do Estado-Maior do Exército,

traça uma relação entre a criação de um Conselho Sul-americano de Defesa e o

caráter mais ofensivo adotado atualmente pela política externa brasileira, onde

fóruns multilaterais são estrategicamente utilizados como espaços de minimização

das assimetrias de poder no sistema internacional, numa espécie de “estratégia da

autonomia pela diversificação” (NASCIMETO, 2008: 3). O autor reconhece a

existência de disputas estratégicas e de desconfianças mútuas “que ainda teimam

em persistir” entre os vizinhos, o que justificaria a persistência de uma dissuasão de

17 Em outubro de 2007, logo após assumir o cargo de Ministro de Defesa, Jobim iniciou uma campanha pelo estabelecimento de um conselho regional de defesa. Para tal, percorreu a partir do início de 2008 todos os países vizinhos, em uma missão que ele mesmo intitulou de "diplomacia militar". 18 Na ocasião, a proposta brasileira defendia os seguintes pontos: (1) Articulação de medidas de fomento da confiança, da transparência e da segurança na América do Sul; (2) Análise conjunta de aspectos da situação internacional e possibilidades de ação coordenada no enfrentamento de riscos e ameaças à segurança dos Estados, como, por exemplo, na recente crise entre a Colômbia e o Equador; e (3) Articulação e coordenação de posições em foros multilaterais sobre segurança e defesa, proporcionando a asserção de posições concertadas e evitando divergências entre os próprios representantes dos países da América do Sul naqueles foros (BARBOSA, 2008: 2-3).

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alcance regional voltada para oponente de poder militar igual ou inferior (Idem: 5).

Analisando, porém, um hipotético cenário de sucesso do CDS, o autor considera a

possibilidade de os membros do Conselho chegarem a tal ponto de entrosamento e

de confiança mútua “que a possibilidade de confronto militar entre Estados sul-

americanos estará afastada dos planejamentos estratégicos de defesa”. O principal

reflexo advindo de tal cenário seria a mudança na maneira pela qual a dissuasão

passaria a ser considerada nas concepções estratégicas de emprego: “Se no

presente a dissuasão olha com maior propriedade para o entorno regional, a

imagem futura impõe que se comece a pensá-la em termos extra- regionais”. Em

um cenário hipotético de plena integração política da América do Sul, portanto, a

“importância dada à dissuasão de âmbito estritamente regional cederá lugar,

paulatinamente, à necessidade por uma dissuasão de amplitude extra-regional”

(Idem: 7).

O segundo texto, uma tese de conclusão de curso de Estado-Maior na

Academia de Guerra do Exército do Chile defendida pelo TC Cristiano Pinto

Sampaio,apresenta duas constatações que parecem centrais para a sua defesa do

CDS. De um lado, a natureza dos conflitos (internos e externos) que envolvem os

Estados sul-americanos não sugerem emprego de FFAA (SAMPAIO, 2008: 21). Por

outro lado, a principal dificuldade enfrentada pela região para afirmar sua identidade

sul-americana se relaciona com sua condição geopolítica de subordinação à esfera

de influência norte-americana (SAMPAIO, 2008: 22). Dentre os principais óbices ao

conselho, o autor sugere: as diferentes visões de Brasil e Venezuela em matéria de

segurança e defesa; a posibilidade de que a proposta seja entendida pelos demais

membros como instrumento de projeção global do Brasil; e uma possível resistência

norte-americana ao projeto. Para o autor, a proposta de criação do CDS é coerente

com a percepção brasileira a respeito das múltiplas formas de vulnerabilidade que

lhe afetam, como por exemplo o tema da Amazônia, e as várias necessidades que

possui de longo prazo, como uma cadeira de membro permanente do Conselho

de Segurança da ONU. O autor conclui com a ideia de que “Buscar la unidad

entre los Estados de la región, más que un sueño bolivariano, representa una

necesidad en el nuevo concierto mundial” (SAMPAIO, 2008: 199).

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IV. Finalidades do CDS: perspectivas

Da análise dos textos apresentados podemos extrair evidências de

algumas ideias subjacentes às percepções militares sobre as finalidades da criação

de uma arquitetura sul- americana de defesa. Para fins de análise, dividiremos

essas ideias em três diferentes demandas: combate à violência social, construção

de uma identidade política sul-americana e consolidação da liderança regional do

Brasil.

a) Combate ao crime organizado e à violência social

Do ponto de vista de Segurança Internacional, a América do Sul tem sido

marcada por um paradoxo: ao mesmo tempo em que se destaca pela ausência de

guerras formais, a região possui um dos mais altos graus de violência social no

mundo. Entre os militares brasileiro parece predominar a ideia de que, apesar da

improbabilidade de guerra na região, as ameaças advindas de diferentes formas de

violência social, favorecidas em muitos casos por vazios populacionais e por

omissões dos Estados, podem ensejar a ocorrência de crises e eventualmente

conflitos entre países vizinhos do subcontinente (SOUZA, 2008: 4).

De fato, entre alguns países da região, percebe-se uma priorização de temas

de segurança (como crime organizado e delitos transnacionais) concomitante a um

certo afrouxamento em relação a temas tradicionais, como o controle de fronteiras.

Nesse sentido, os recentes acordos de vigilância compartilhada de zonas

fronteiriças, por meio de radares e satélites, envolvendo Brasil, Colômbia e Peru 19 ,

podem ser considerados geopoliticamente paradigmáticos.

Entre os países do subcontinente sul-americanos não há, entretanto,

consenso sobre o envolvimento dos militares em ações de segurança. Na Argentina,

por exemplo, a possibilidade de que as Forças Armadas participem na luta contra

as drogas é algo totalmente rejeitado 20 . Entre os militares brasileiros a posição

predominante é de recusa às proposta para o emprego do Exército no combate ao

narcotráfico (AMARAL, 2004: 33), o que descartaria essa demanda como

19 VAZ, V. Brasil-Colômia: espaço aéreo é compartilhado . Jornal Correio Brasiliense, 12 de março de 2009 e SEQUEIRA, C. D. Peru integrará seus radares aos do Sivam. Jornal Folha de S. Paulo, 22 de março de 2009.

20 SEQUEIRA , C. D. Analistas enxergam resistências para adoção de doutrina comum na região. Jornal Folha de S. Paulo, 22 de março de 2009.

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responsável pela finalidade do CDS sob uma perspectiva militar brasileira.

b) Construção de uma identidade política sul-americana

O ineditismo geopolítico que tem caracterizado a formação do CDS, citado

anteriormente, é permeado por um forte debate sobre a construção de um bloco

regional em busca de autonomia política. Sob essa perspectiva, o CDS seria um

instrumento de afirmação política e de soberania da região: “Durante muitos anos, a

América do Sul só disse sim. Agora é hora de dizer não também” 21 .

De fato, “construir uma identidade sul-americana em matéria de defesa” é um

dos objetivos gerais apresentados no documento que cria o CDS. Um dos traços

compartilhados pelos países da região diz respeito a “defesa soberana dos

recursosnaturais de nossas nações”. Este estaria relacionado a uma outra

percepção compartilhada, especialmente entre os militares sul-americanos. Trata-se

da ameaça da cobiça internacional sobre os recursos minerais encontrados na

região 22 . Para esses militares, um dos mecanismos usados em favor dos

interesses geoestratégicos dos países mais desenvolvidos seria a defesa do

conceito de “soberania relativa”, segundo o qual a noção tradicional de soberania

seria incompatível com a atual interdependência internacional. Tais princípios e

percepções compartilhadas constituiriam demandas para a construção de uma

identidade política regional da qual o CDS seria instrumento de segurança coletiva.

c) Consolidação da liderança regional do Brasil

Como não poderia deixar de ser, em virtude do traço nacionalista que marca

a mentalidade militar (HUNTINGTON, 1996), a finalidade do CDS na perspectiva

dos militares brasileiros está diretamente relacionada a projeção internacional do

Brasil e a consolidação do País como líder regional. Nesse sentido, o processo de

sul-americanização poderia ser entendido como “uma alavanca 23 importante para

21 Palavras do Ministro de Defesa do Brasil, Nelson Jobim, durante o seminário “Rumo ao Conselho de Defesa Sul-americano”, realizado em Buenos Aires, em novembro de 2008:Cf. GUIMARÃES, M. Jobim defende soberania da América do Sul sobre defesa, OESP, 18 de novembro de 2008. 22 Vale destacar que a América do Sul possui uma geografia privilegiada: detém a maior biodiversidade e cerca de um quarto das terras potencialmente aráveis do Planeta, além de quantidades consideráveis de reservas de água doce e petróleo.

23 Do ponto de vista mais pragmático, a consolidação de um espaço regional de defesa representa um potencial para alavancar a indústria bélica - sobretudo a brasileira -, a partir do consumo de

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realizar o seu projeto de desenvolvimento nacional” (MONTEIRO, 2001: 2), na qual

“a segurança coletiva é uma complementação da segurança nacional, a cujo serviço

deverá estar” (Idem:4).

A pretensão brasileira parece justa e esperada. Porém, como já foi observado

em textos precedentes, a possibilidade de que a proposta seja entendida pelos

demais membros como instrumento de projeção global do Brasil pode se tornar um

óbice ao próprio CDS. De fato, desde a publicação de “Projeção Continental do

Brasil”, de Mário Travassos, alguns traços da geopolítica brasileira, tais como a

“marcha rumo ao Oeste” têm sido interpretados por países vizinhos como sinais de

ameaça. Mesmo com o processo de “sul-americanização” da política externa

brasileira, iniciada nas últimas décadas do Século XX, as elites desses países

continuam muito sensíveis a discursos e imagens do passado sobre as intenções

expansionistas do Brasil (VILLA, 2006) e criticam o caráter ambíguo da postura

brasileira. Acontecimentos recentes envolvendo o Brasil e países da região (Bolívia,

Equador e Paraguai), marcados por discursos que sugerem uma espécie de

“imperialismo brasileiro”, parecem corroborar as observações acima. Diante desse

desafio, caberia ao Brasil dimensionar uma capacidade militar desejável e sóbria, ao

mesmo tempo, “para não induzir suspeitas regionais ou internacionais”, de forma a

não “inspirar receios em seus vizinhos e nem justificar corridas armamentistas”

(AMARAL, 2004: 32).

Considerações finais

Da análise dos textos de militares brasileiros a respeito do processo de

integração militar na América do Sul, podemos destacar os seguintes tópicos

principais:

1. A dimensão estratégica do processo de integração regional teria origem na

necessidade de se estabelecer um espaço de autonomia relativa em um

mundo globalizado e envolveria, consequentemente, o afastamento da esfera

geopolítica dos EUA;

2. O início de qualquer projeto dessa natureza parece apontar necessariamente

materiais e serviços em escala regional. De fato, esse é um dos objetivos específicos do Conselho de Defesa Sul-americano é “Promover o intercâmbio e a cooperação no âmbito da indústria de defesa” (Cf. Letra “f” do Artigo 5 da Decisão para o Estabelecimento do Conselho de Defesa Sul-americano da UNASUL).

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para projetos de aproximação e de parceria estratégica com a Argentina;

3. Apesar de alguns textos mais ambiciosos, oficialmente as Forças Armadas

brasileiras mostram-se resistentes a arquiteturas regionais de defesa e

segurança permanentes. Especificamente sobre o terceiro tópico, faz-se

necessário mais alguns breves comentários.

Em 1994, ao defender a possibilidade de que os membros do Mercosul

viessem a construir um sistema coletivo de segurança, o General Gleuber Vieira

exigia prudência, de maneira que o “curso natural do processo” não fosse

atropelado. Em meados da década atual, quando perguntado se as forças armadas

da América do Sul estariam caminhando rumo a uma cooperação crescente em

operações reais, o então Comandante do Exército Gen Albuquerque respondeu ser

esse tema “bastante sensível e o processo deve avançar em ritmo compatível com

a cooperação nas demais áreas” 24 Tais posturas refletem o caráter cauteloso com

que oficialmente o Exército tem buscado dar a questão da integração militar na

América do Sul.

A percepção de que a integração constitui um importante instrumento de

projeção internacional para o Brasil, mas que, ao mesmo tempo, pela

persistência de desconfiança mútua entre os próprios países da região, não

estariam dadas as condições para a integração militar na América do Sul, coloca os

militares brasileiros diante de um dilema entre cooperação e dissuasão. O texto a

seguir resume parte do desafios dos militares brasileiros:

) (

melhoria da capacidade da Força Terrestre. Simultaneamente, o EB deve

cultivar junto às FA dos países da região o ambiente de confiança mútua,

com aproximação cada vez maior em intercâmbios, demonstrando

capacidade profissional, franqueza, cordialidade e respeito. Esse

posicionamento contribui para que se arrefeçam tensões militares (SOUZA,

reitera-se a necessidade de se reforçar o poder dissuasório pela

2008: 5).

origem desse dilema pode estar por trás da postura ambivalente da

liderança regional brasileira, que segundo estudiosos oscilaria entre seu projeto

A

24 Cf. GALASTRI, Leandro de Oliveira. A missão de observadores militares Equador-Peru – MOMEP (1995-1999) e a participação do Exército Brasileiro. Dissertação de mestrado. Campinas, Unicamp:

2005. p. 177.

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global – o interesse nacional – e seu projeto sul-americano – interesse coletivo

(SAMPAIO, 2008: 189-190).

Referência bibliográfica

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