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Somos uma sociedade de Lugares Paulo Ross mulher sou eu para aceitar tamanha desfeita? Eu costumo
Somos uma sociedade de Lugares
Paulo Ross
mulher sou eu para aceitar tamanha
desfeita?
Eu costumo cumprir o que prometo,
o combinado em nome dos meus
valores, do respeito ao outro ..
Assim, nós precisamos ocupar e
mostrar claramente qual é o lugar
que ocupamos.
Este lugar é chamado de ética. Então,
ética aqui é a percepção de quais são
os valores que nutrem o lugar que
ocupo, as demandas que enfrento.
Ética aqui é a tomada de consciência
que a vida pode ser boa se as pessoas
fizerem a escolha por esses valores.
A ética aqui é um ato consciente,
semelhante à pessoa que ama. E
quem ama não se esconde diante do
amor. Quem ama abre os braços e
faz do amor momentos de calor.
Só enxergamos espelho, o igual a
nossas vontades e desejos.
Quando não ocupamos nossos
lugares, o outro ocupa por nós.
Lugar não significa apenas um
espaço físico. Lugar é um espaço
simbólico: nesse espaço são postas
expectativas, responsabilidades,
reciprocidades, trocas.
Quando nos colocamos com
vergonha, medo, ciúme,
comunicamos a fragilidade do nosso
lugar, a possibilidade de sermos
substituídos.
O ciumento está morrendo de medo
de perder o lugar para outra pessoa.
Quem tem vergonha não quer ocupar
o lugar.
Então permite que outras pessoas o
ocupem.
Quem permite ser protegido, aceita a
infantilização, a dependência, o
poder do outro.
Quem se coloca como vítima
comunica que são outros os atores,
Uma terra sem sal não fertiliza, não
reage para transformar a semente em
árvore, o trigo em pão, a flor em mel.
Uma pessoa sem sal não entra em
movimento para transformar sua
energia em um pouco de poder ao
outro: saber o que precisa, ouvir suas
necessidades.
O professor é desautorizado a falar
sobre o aluno. Não importa conhecer
sua trajetória. Não nos importa lutar
para que ocupe seu lugar de aluno,
seu lugar de pessoas, seu lugar de
Não aprendemos a amar. E quero
levantar hipóteses com vocês.
Por que não aprendemos a amar?
sujeito de direito, seu lugar de
potência. Não nos importa autorizar
seu alinhamento com seus
pensamentos, seus sentimentos,, suas
ações, suas finalidades, seu viver
bem.
Ele não é nosso espelho, logo, não
preciso dar-lhe atenção. Na verdade,
nem o enxergo, pois só enxergo
igualdade, reflexo, formas acabadas.
Sabemos ensinar, mas não sabemos
sobre o aluno.
Não conhecemos nada sobre o
sofrimento psíquico.
Não nos interessa o “batismo
patológico”, pois todos temos
sofrimento psíquico.
Tornamo-nos seres apáticos.
enxergamos o que é nosso reflexo:
os heróis, os vencedores.
nossa igualdade.
Uma pessoa que seja traída em um
combinado, uma reunião, uma
obrigação e, depois de alguns dias, a
outra vem com umas desculpas
assim:
Nós somos mimados, infantilizados.
Só aceitamos o que nos dá prazer.
Só aceitamos a igualdade: o que for
igual ao nosso desejo: a coisa
desejada, a pessoa que for igual a
nós, as ideias que correspondam ao
que pensamos.
Somos frágeis diante da diferença,
das limitações e das adversidades do
mundo.
Uma pessoa que não ocupa o lugar
que se lhe espera aceita o fracasso
escolar como natural, a rotulação do
outro.
Quem não conhece qual é seu lugar
não se pergunta sobre o sentido do
seu trabalho, logo, não ressignifica o
valor atribuído ao outro excluído,
aquele que não se beneficiou nem do
conhecimento escolar nem de suas
interações.
Centrados no próprio prazer, na
ilusão das coisas prontas, não
enfrentamos o que precisa ser
enfrentado. Se a coisa não está
pronta, então, não me agrada. Não
me agrada fazê-la. Não me agrada
esperar. Não me agrada a frustração
nem a alegria de cultivá-la. Não me
agrada a dor da falta nem a emoção
de conhecer o processo de aprender,
de atender a uma necessidade de um
colega.
- “eu perdi o celular. Eu quebrei meu
carro. Eu fiquei doente. O celular
estava sem área, caiu na privada ” ....
Este é o momento de você ocupar
seu lugar:
Você sabe quem sou eu? Você sabe
que tipo de pessoa, de homem, de
Somos “sem sal”.
Já que não me agrada, então, não vou
fazer.
Não conhecemos o poder de
alavanca daquilo que fazemos.
Simplesmente alegamos não ter
vontade.
O mundo da cultura da diversidade
não entrou em nós.
Sofrimento psíquico é uma água
morna.
Não queremos percebê-la para não
ocupar o lugar da escuta, o lugar do
afeto, o lugar do outro, o lugar do
amor.
Não escolhemos fazer a escola, o
trabalho, os encontros como lugares
do Viver bem, lugares da vida de
alegria, lugares da ética da diferença
e da ética dos afetos.
Paulo Ross – 22 03 2014
profpauloross@gmail.com

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