Em Debate 02 (2005) PUC-Rio http://www.maxwell.lambda.ele.puc-rio.

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História, meio ambiente e cultura: a contribuição teórica de Fernand Braudel Luís Corrêa Lima1
Resumo: O historiador francês Fernand Braudel (1902-1985), um dos mais importantes de sua geração, é bastante conhecido por sua obra sobre o Mediterrâneo do século XVI e por sua história mundial da vida material e do capitalismo. Ele buscava uma história globalizante, uma explicação de totalidade que abrangesse todos os aspectos relativos ao seu objeto, articulando mudanças e permanências, o que muda e o que não muda. Sua pesquisa recorria a outras ciências, como a geografia, a sociologia, a economia e a antropologia, a fim de construir pela historiografia uma explicação o mais abrangente possível. Braudel nunca foi propriamente um ambientalista e nem foi considerado como tal, no entanto a sua obra possui um forte enraizamento geográfico e ambiental, e notáveis incursões no domínio da cultura, de tal maneira que a explicitação e a sistematização desses conteúdos constituem uma valiosa contribuição para os estudos sócioambientais e culturais. Palavras-chave: geo-história, civilização, longa duração, meio ambiente, desenvolvimento sustentável. Abstract: The french historian Fernand Braudel (1902-1985), one of the most important of his generation, is quite known for his work about the Mediterranean of the XVI century and for his world history of material life and capitalism. He looked for a globalizing history, na explanation of totality which covered all the aspects related to its object, articulating changes and maintanances, what changes and what does not. His research referred to other sciences like geography, sociology, economics, anthropology, in order to constructit the most wide-ranging possible. Braudel was never necessarily na environmentalist and was never considered as such, however his work hás a strong geographical and environmental basis, and remarkable passages in the domain of culture, in such a way that his explications and systemization of these contents, constitute a valuable contribution for the sócio-evironmental and cultural studies. Key words: geo-history, civilization, long duration, environment, sustainable development.

1 Os estudos sócio-ambientais e culturais A questão ambiental é relativamente recente. Na segunda metade do século XX, a humanidade expandiu seis vezes a sua economia, fato absolutamente inédito em toda a história. Nos últimos 25 anos, a população cresceu mais de dois bilhões de habitantes. Isto coloca novos problemas e perspectivas, novas questões e urgências. Os limites do planeta e dos recursos naturais se tornaram mais próximos.

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Doutor em História pela UnB e professor do Departamento de Serviço Social da PUC-RIO.

enquanto que o norte-americano consome cerca de 25 vezes mais energia que o indiano e 103 vezes mais que o cidadão de Bangladesh2. O europeu utiliza em média 10 a 30 vezes mais energia comercial que o habitante de um país em desenvolvimento. a vida de um automóvel prossegue ao longo de sua utilização. culminando com os efeitos nas florestas. Denise. na disposição das partes não aproveitadas em aterro sanitário. a existência de um automóvel começa com a exploração do minério de ferro e pode terminar quando o produto é pago e sai da revendedora. O ciclo da gasolina iniciou-se muitos milhões de anos antes com a decomposição de plantas e animais. Para um economista. As nações da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). finalmente. a incorporação do meio ambiente nos programas políticos. alumínio e cobre – e 76% da madeira comercializada. entre outras coisas. Para o ambientalista. 75% dos metais utilizados e possuem 78% de todos os veículos. a criação. cultura e desenvolvimento sustentável: somando . SIQUEIRA. no clima global e na saúde das pessoas. “Considerações sobre desenvolvimento sustentável”. nas vias pavimentadas para o tráfego. Tudo isto com os respectivos impactos ambientais. 73% do comércio internacional. O ciclo de vida de uma mercadoria é muito maior para a ecologia do que para a economia. A partir daí. Há sinais que apontam nesta direção. A cada ano consomem cerca de 90% da produção mineral mundial dos metais mais usados – ferro. na sua transformação em sucata. Elas respondem por 72% do produto mundial bruto. ampliação e aperfeiçoamento de leis ambientais. Carlos Raja Gabaglia. a dicotomia entre o social e o ambiental era uma realidade concreta muito presente há 40 anos. na sua permanência na paisagem por muitos anos e. Josafá. O aparecimento dos movimentos ambientalistas. Há uma dependência dos sistemas econômicos em relação aos sistemas naturais que tornam possível a vida na Terra.2 A isto se somam as disparidades de produção e consumo dos países ricos e pobres. que engloba mais de vinte países ricos. e continua através das emissões de poluentes da sua combustão. a universalização das informações dos processos de devastação e dos crimes cometidos contra a natureza. In: FONSECA. são fatores 2 PENNA. Novos valores devem ser assimilados para uma complementaridade satisfatória entre o capital natural e o capital feito pelo homem. 75% do consumo de energia. ele apenas fará parte de estatísticas. Paralelamente. entretanto. Meio ambiente. o crescimento de organizações não-governamentais. totalizam 21% da população e ocupam 24% das terras do planeta. o ciclo da gasolina se encerra no tanque de algum veículo. Na sociedade brasileira.

técnica e operacional. à conservação e à proteção ambiental. com forte acento no poder econômico. In: FONSECA. o termo funcionava esforços.3 fundamentais na tomada de consciência dos problemas ambientais e de suas implicações na própria sociedade. é mais sólida do que os interesses econômicos dos blocos. é mais robusta que o protecionismo transitório. Portanto ele não deve pôr em risco a atmosfera. Desta maneira. outra. Para esta comissão. 3 SIQUEIRA. SIQUEIRA. a União Mundial pela Conservação da Natureza (UICN). preocupada com aspectos qualitativos. A reflexão ética se volta para o meio ambiente. D. fazendo surgir o conceito de ‘desenvolvimento sustentável’. A palavra ‘sustentável’ se referia à preservação. cit. Uma. Os resultados foram publicados quatro anos depois.. pp. operava-se com o conceito de desenvolvimento sustentável dando ao termo ‘desenvolvimento’ a capacidade dos países de produzir mais. em um livro intitulado Nosso futuro comum. exposto à vulnerabilidade histórica de uma racionalidade consumista e prepotente. este tipo de desenvolvimento “é aquele que atende às necessidades do presente sem compormeter a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias”. 93-106. . marcada pela dimensão quantitativa. Em 1983.. Josafá Carlos de. denominada racionalidade axiológica ou de valores3. onde é possível distinguir duas racionalidades a respeito da questão ambiental. aceitando desafios. considera desenvolvimento sustentável aquele que contempla a melhoria das comunidades humanas respeitando a capacidade de carga dos ecossistemas. 2002. a água e o solo. 107-113. ainda que com risco de se enfraquecer. J. a ONU criou a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente. No princípio da década de 1990. Rio de Janeiro: Sette Letras. Esta forma de desenvolvimento não pode se basear no crescimento econômico permanente. Houve também uma internacionalização solidária das questões ambientais. pp. Uma outra instituição ambiental. culturais e éticos. op.. ligando-o diretamente ao campo da economia. Meio ambiente e desenvolvimento sustentável: avanços e recuos no processo de consolidação entre o social e o ambiental. preservando o que for fundamental à vida na Terra. há ricas referências bibliográficas sobre o assunto. Acredita-se que a consolidação do processo de construção de uma ética de solidariedade de alcance universal entre o social e o ambiental é mais forte que as fragilidades das posições isolacionistas. Atualmente. com o objetivo de analisar os conflitos entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental e propor soluções. Historia y Vida.

único que supostamente merecia preservação. Há risco de que o desenvolvimento sustentável se torne uma quimera. sobretudo nos Balcans. Este patrimônio imaterial pode ser fomentado e se tornar fonte de valores não-predatórios da natureza. É um novo instrumento de propaganda para modelos de desenvolvimento que podem ser antigos e danosos. sobretudo a que ameaça o retorno e a eficiência dos investimentos econômicos. D. Autoridades econômicas falam de ‘crescimento sustentável’ para se referirem a um crescimento econômico modesto convivendo com juros altos. seus consultores forjaram o conceito de “patrimônio imaterial da humanidade”. Inicialmente este legado foi chamado de ‘intangível’. o desenvolvimento sustentável é incorporado à retórica desenvolvimentista. ibidem. em um mundo frequentemente sujeito à pobreza. no entanto. Acredita-se que a revalorização e a re-significação de identidades culturais locais possam contribuir para a idéia de sustentabilidade e para uma ética sócio-ambiental de alcance mundial. às convulvões sociais. mas supostamente protegido da alta inflação e de seu poder desestabilizador. 169-184. que lhe atribuiria a desejável qualidade de incólume à natureza e. Denise Pini Rosalem da. ao terrorismo e à guerra. principalmente sob a forma arquitetônica. para opô-lo à idéia de legado materializado. o tema da identidade cultural tem sido objeto de atenção crescente dos cientistas sociais4. Anthony Giddens. como os de Benedict Anderson. Samuel FONSECA. 4 . J. O fim da guerra fria coincidiu com a emergência de novos conflitos étnico-religiosos. passou a significar também a proteção contra a insegurança. Nas duas últimas décadas. Identidade cultural e desenvolvimento: uma experiência comunitária de sucesso. In: FONSECA. em discursos que pregam o crescimento econômico constante. surgiram importantes trabalhos envolvendo a antropologia e a história. incentivando concepções de desenvolvimento sustentável.4 como um adjetivo de desenvolvimento. O adjetivo ‘sustentável’. sem apresentar riscos à sobrevivência das gerações futuras. SIQUEIRA. portanto. No âmbito dos estudos culturais... Quando a UNESCO se empenhou em propagar uma “cultura internacional da paz”. Há formas de pertença e identidade às vezes distintas dos laços nacionais que desempenham um papel relevante nesses conflitos e não podem ser ignoradas. que impelia ao reconhecimento e à valorização de formas e conteúdos de incontáveis identidades culturais. Dessa forma. que remetem a antigas disputas. pp.

sustentam redes sociais de solidariedade intracomunais. Texto mimeografado. Manuel. Discutindo os termos de uma equação de congruências: cultura e desenvolvimento sustentável. As redes de interesses compartilhados. Eles procuram entender a natureza dos laços de lealdade e do sentido de pertença que animam as sociedades na entrada do terceiro milênio. religiosas. As redes religosas conferem certa legitimação social e oportunidades sociais extra-familiares. 6 CASTELLS. Outra maneira de se classificar as associações identitárias é a adotada por Manuel Castells6.5 Huntington e Manuel Castells. Esta forma de identidade não tem sido capaz de desenvover práticas renovadoras em termos dos movimentos sociais mais recentes. das igrejas e das associações de corte geográfico. com seus laços de lealdade e seu sentido de pertança. São Paulo: Paz e Terra. As redes de vizinhança atuam nos limites físicos que definem inserções sócio-econômicas e percepções políticas. Foram estas as estruturas que ao final do século 20 mais perderam a sua capacidade de manter vínculos vivos com os valores das pessoas. Cada umas dessas formas de associação identitária possui uma lógica própria de integração entre os seus membros e um código de conduta que garante a sua força como sujeito coletivo. II. estéticos. No interior destas formas de existir coletivo. 1-11. . O poder da identidade. no qual o paradigma nacional vem constantemente perdendo relevância e capacidade de promover coesão social. a capacidade de ação dos membros será tanto maior. As identidades culturais. educacionais e comportamentos especiais que vão além dos âmbitos da família. de vizinhanças e de interesses compartilhados. grupos étnicos ou religiosos. 1999. Vol. legitima a cada um dos seus membros e define limites desta identidade. cuja origem está ligada às instituições e organizações da sociedade civil. A primeira delas é a 'identidade legitimadora'. os partidos políticos e as associações sindicais. pp. por fim. 3 vols. As redes familiares são as principais responsáveis pelas práticas de proteção física e sobrevivêndcia material. 2004. afetiva e espiritual de seus membros5. São redes de diversas naturezas: familiares. 5 FONSECA. 418-427. Cada tipo de pertença responde por aspectos particulares da existência material. Dentre elas estão a 'identidade nacional'. Elas se dividem em três formas. A era da informação: economia. respondem por valores éticos. Denise. sociedade e cultura. pp. quanto mais estruturados estiverem os liames e os códigos éticos da rede. pois elas surgiram e se constituíram em torno do Estado democrático e do contrato social entre capital e trabalho.

Para obter sucesso. Estes agentes precisam necessariamente ser mobilizadores de símbolos. A geografia abre um grande . gerada por agentes sociais em posição de exclusão. comum na modernidade. aglutinada em torno da revista Annales d’histoire économique et sociale. Para garatir a eficácia. fundada em 1929. uma historiografia em permanente diálogo interdisciplinar com outras ciências. eles devem se manifestar através dos meios da principal corrente cultural para subvertê-la em benefício de valores alternativos. sob discriminação ou que se sentem ameaçados. tomadas em sua evolução. as 'identidades de resistência' precisam se transformar em 'identidades de projeto'. e o meio físico e biológico em que se situam. É preciso dar visibilidade a conteúdos culturais historicamente silenciados. das quais os movimentos ambientalista e feminista representam bons exemplos. o meio ambiente e a cultura A obra de Braudel se liga a um grande movimento renovador da historiografia francesa oriundo da geografia. Os geógrafos anteciparam a nova história. Braudel. homossexual. colocando problemas mais pertinentes a partir do ponto de vista da ciência social. como o da relação entre as sociedades. no fim do século XIX e início do século XX. a terceira forma de associação identitária. ignorando conteúdos e premissas de outras redes correlatas e da teia maior que vai se formando ao seu redor. ambientalista e pela reforma agrária. As “identidades de resistência” precisam assumir uma estrutura descentralizada e integrada em rede. Este movimento deu origem à chamada nouvelle histoire (nova história). Uma 'identidade de projeto' se constrói quando os agentes sociais tratam de redefinir a sua própria posição na sociedade. a partir de legados culturais a que tiveram acesso. Há problemas quando uma destas vertentes de mobilização social se fecha sobre a sua própria rede identitária. como os movimentos feminista. para uma visão de mundo solidária e centrada na cultura. Trata-se de evoluir de uma perspectiva subjetivista e centrada no indivíduo. de modo a limitar a sua própria capacidade de ação e a permitir refluxos indesejados. re-significando-os e criando novos símbolos para representá-los. Nesta categoria se enquadram muitas formas de militância. as chamadas 'redes de mudanças sociais'.6 A segunda forma de associação identitária é a chamada 'identidade de resistência'.

Lieux de mémoire. pp. 1073-1097. Pierre (org. . Lucien Febvre. comparando-as. organizada por Ernest Lavisse. A geografia vidaliana tratava de grupos sociais em uma duração mais longa. A partir da geografia humana. que escreveu o primeiro tomo da monumental História da França. O seu ponto de partida era o território da França. cruzando-as e estabelecendo correlações. Raum é o meio geográfico físico e biológico. ter se tornado uma pátria e um Estado? Vidal rompe com o determinismo físico de certa geografia alemã e abre caminhos7. Como é possível um fragmento de superfície. Ele permite designar. Paris: Quarto Gallimard. pp. São Paulo: Paz e terra. 8 REIS. recortando o seu objeto de estudo pela definição de um espaço. densidade e lentidão. o espaço com todas as suas características físicas. 61-62. utilizando suas classificações habituais. Wirtschaft (economia) e Gesellschaft (sociedade). criando um ‘tempo-espaço’. Os geógrafos ofereceram aos historiadores a inspiração para uma nova concepção do tempo histórico.7 espaço às economias e às sociedades. Le ‘Tableau de la geographie de la France’ de Vidal de La Blache. mas oferecem uma resistência suficiente para impedi-los de ‘decolar’. todas as inúmeras forças que fazem o determinismo geográfico e as une 7 GUIOMAR. Marc Bloch e o próprio Braudel elaboraram uma 'geo-história'. em 1903. A escola dos Annales. Os historiadores encontram o espaço. engobando o espaço terrestre. 2000. riquezas e restrições. mantendo-os em um ‘chão’8. 3 vol. ligava os fatos a estruturas. O tempo dos homens encontrou o atrito do espaço e a resistência do meio geográfico. e o tempo histórico perde seu ritmo vertiginoso e efervescente. In: NORA. que era fundar um patriotismo e uma espiritualidade secular que legitimasse a República. Nos anos 1940. limitados e condicionados por circunstâncias objetivas. Estas não chegam a bloquear todos os seus impulsos. Braudel se apropria dos conceitos da geografia alemã. O mais conhecido e influente geógrafo daquela época foi Vidal de la Blache. que produziu os frutos mais importantes da nova história. líquido e aéreo. incluindo o presente. O seu interesse comungava com o conjunto da obra. para ganhar espessura. três dimensões do homem com todas as suas possibilidades. que não constitui uma unidade geográfica com limites naturais. Raum resume um complexo de fatores e de agentes geográficos. Para Braudel. Esta geografia elabora uma tríplice divisão: Raum (espaço). Jean-Yves. época da redação de O Mediterrâneo9. José Carlos.). com uma só palavra. obrigando-os a perceber o quanto são localizados. 1997.

Vol. 73. 1997. como uma pedra que ricocheteia na água indefinidamente10. Acima desta. A geo-história é o estudo de um duplo vínculo. para examinar as partes. conseguindo vencê-lo. a economia será o domínio do homem no seu conjunto ou mesmo o de um grupo. lutando contra ele ao longo de sua dura vida de penas e esforços. A qualidade e o volume deste esforço obrigam a inverter a abordagem habitual do geógrafo11. fragmentálo. mais ainda suportá-lo. 11 Ibidem. para Braudel. e o social por sua vez comanda as duas outras realidades. 1984. misturadas. O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. A geo-história. A economia modela o social e o espaço. "a sociedade na qual a geografia deveria estudar a ação sobre o solo. A incorporação da geo-história em O Mediterrâneo se faz através de uma engenhosa divisão dos processos históricos segundo suas diferentes velocidades. à custa de trabalhos a serem sempre renovados. 2 vols. pp. É um mundo de ações. São Paulo: Martins Fontes. sem deixar de considerar o imprensamento da economia entre o social e a natureza. confusas. recomeçando sem cessar na realidade cotidiana. os Estados e as sociedades. do indivíduo.8 em mesmo feixe. Les ambitions de l’histoire. minimizando sua influência. tendo já sofrido a ação deste mesmo solo". sendo que muitas modificações são despercebidas ou negligenciadas na frágil e curta medida do homem. . onde entram as economias. O homem é ao mesmo tempo causa e efeito. é a história que o meio impõe aos homens por suas constantes ou leves variações. o espaço comanda a economia e o social. reações e interações. para depois oscilar novamente e retornar. como a ação oscila de um fator a outro e retorna ao seu passo ao longo dos anos e séculos. Em relação ao espaço. desenvolve-se uma outra história com um ritmo menos lento. onde cada uma pretende explicar o conjunto. por fim. Braudel se propõe a mostrar como estas realidades variam umas em relação às outras na linha do tempo. sua maneira mais ou menos ativa de conquistar e possuir. II. dos grupos e agrupamentos. A terceira parte. O resultado são três partes. Paris: Fallois. o estudo de uma ação e de uma reação. 10 Les écrits de Fernand Braudel. quase imóvel. é a história ‘tradicional’. uma 9 BRAUDEL. 63-64. É o peso do todo que muitas vezes importa enxergar. da natureza ao homem e do homem à natureza. A primeira trata da história lenta. Há uma tendência frequente no debate de quebrar o todo. a história social. A geo-história é a história do homem na apreensão do seu espaço. Fernand. do homem nas suas relações com o meio que o rodeia.

rápidas e nervosas. Chega-se. p.I. sem lhe darem este nome. Lucien Febvre dedicou-se a analisar a ‘ferramenta mental’ do pensamento francês na época de Rabelais. 14 Ibidem. Outros já a haviam estudado estas permanências. Vol. . bem antes de Rabelais e muito tempo depois dele. uma história com oscilações breves.. das rotas e das cidades. do homem nas suas relações com o meio. foi novamente tematizada por Braudel sob o título de ‘longa duração’15. distinguindo-se no tempo histórico um ‘tempo geográfico’. 25-26. da relação com as coisas inanimadas. op. p. o Atlântico e os istmos. assim. das atividades agrícolas e das flores que se mostram rapidamente e depois não mais se fala. Aí ele se lança em novos campos além da geo-história. dos confins mediterrânicos: o Saara. quase imóvel. É uma história quase fora do tempo. A história lenta. a uma decomposição da história em planos sobrepostos. A geografia. Ele pretende utilizá-la de modo diferente das então tradicionais introduções geográficas à história. Para Braudel. tal como os contemporâneos a sentiram. torna-se um instrumento para encontrar as realidades estrutuais mais lentas e para organizar uma perspectiva segundo uma linha do mais longo prazo13. de pensar e de crer. das ondas levantadas pelo poderoso movimento das marés. O Mediterrâneo. e também a mais perigosa. inutilmente lançadas no princípio de cada livro. um ‘tempo social’ e um ‘tempo individual’12. a primeira parte de O Mediterrâneo trata das penínsulas com suas montanhas. descreveram e viveram. para Braudel. Das três. Fernand. que muda com as estações do ano14. 12 13 BRAUDEL. dos mares com suas orlas e ilhas.. como se os navios não navegassem em um mar real. pp. O tempo geográfico. Deste modo. um conjunto de concepções que.cit. Ibidem. dos deslocamentos de populações e rebanhos. segundo o ritmo de suas próprias vidas. comandou as artes de viver. planaltos e planícies. é feito de lentas transformações. com descrições do meio físico. A idéia de cruzada. Tudo em busca das realidades estruturais mais lentas e do mais longo prazo. como se as flores não regressassem todas as primaveras. de ciclos sempre recomeçados. da ‘agitação da superfície’. 33.. dominada pelas permanências. 25. é necessário desconfiar desta história ainda quente. como se os rebanhos cessassem as suas migrações.9 história de acontecimentos. do clima e sua relação com a história. muitas vezes de retrocessos. e limitou duramente a aventura intelectual dos espíritos mais livres. ela é a mais apaixonante.

324. que a ligavam estreitamente a Roma. p. 15 BRAUDEL. Polônia. Hungria. No sul. II. e as insuficiências de uma devoção demasiado terra-a-terra. aplicável a todos os lugares. 1989. A longa duração estaria presente na Reforma Protestante e na Contra-Reforma Católica. Península Escandinava e Grã-Bretanha. consumou a ruptura. 1992. menos apegada à sua hierarquia religiosa. São Paulo: Martins Fontes. no início do século XX. que tornou o fiel atento aos abusos e às desordens da Igreja. F. a todas as sociedades. 75-76. Uma reação nacional estava em curso17. A poderosa análise social do marxismo pode reencontrar sua força na longa duração. Sob o peso destas águas. Gramática das civilizações. A longa duração. Seria por acaso que a antiga fronteira do Império Romano — o Reno e o Danúbio – da velha Europa e da Europa recentemente ‘colonizada’. O gênio de Marx. rompeu-se.. Esses modelos podem ser adaptados. de explicação prévia. automática. entretanto. permaneceu. Esses modelos foram congelados na sua simplicidade ao lhes ser dado o valor de lei. matizados por outras estruturas e definidos por outras regras e modelos. pondera Braudel.cit. mais mesclada. difundiu-se a Contra-Reforma e em seguida a civilização barroca18. constituiu em grande parte a fronteira que dividiu o mundo católico e o mundo protestante? Não se nega à Reforma. Pierre Francastel assinala a permanência de um espaço pictural geométrico desde o Renascimento florentino até o cubismo. vol. No norte. p. Só que a velha Europa era mais apegada às suas tradições religiosas antigas. deve-se ao fato de que ele foi o primeiro a fabricar verdadeiros modelos sociais a partir da longa duração histórica. Depois de A Guerra dos Cem Anos.10 estudada por Alphonse Dupront. toda a cristandade teria experimentado. 41-78. o modelo pelo modelo16. op. pp. o segredo de seu poder prolongado. como uma árvore estalando a casca.. 17 BRAUDEL. História e ciências sociais. 127. Este sentimento. pp.. Escritos sobre a história. mais jovem. 16 Ibidem. F. O Mediterrâneo. feita mais de gestos do que de verdadeiro fervor. a cristandade teria sofrido o assalto de uma emersão de águas religiosas. São Paulo: Perspectiva. O risco do marxismo é o mesmo de toda ciência social apaixonada pelo modelo em estado puro. segundo Braudel. . A nova Europa. Por isso manteve o vínculo.. O universo aristotélico se mantem quase sem contestação até Galileu. atravessou sociedades e tocou os homens desde a Idade Média até o século XIX. 18 Idem. razões puramente religiosas: a subida visível de águas espirituais em toda a Europa. a Reforma se espalhou pela Alemanha.

Pierre. bancos de areia e obstáculo. Civilização material. A história seria não só o que muda. A imobilidade da estrutura. As próprias revoluções não seriam rupturas totais20. 10 e 50. A mudança sempre compõe com a não-mudança. A mudança adere à não-mudança. da repetição e da insistência. onde se trata de um sistema de relações abstratas. O passado. entretanto. sobretudo o passado antigo. 20 BRAUDEL. assevera Braudel. o inconsciente da história. ‘estrutura’ seria o que na massa de uma sociedade resiste ao tempo. A estrutura em questão não é a mesma do estruturalismo. Uma revolução tão profunda quanto a Francesa está longe de ter mudado tudo de um dia para outro. Vol. Assim como as águas de um rio condenado a correr entre duas margens. é a chave indispensável para qualquer compreensão séria do tempo presente. porém muito afastadas umas das outras no tempo. e o passado. segue suas 19 Idem. é de certa forma inumana. São Paulo: Martins Fontes. Fernand Braudel: uma biografia. não é absoluta. nunca afetariam toda a arquitetura estrutural de uma sociedade. por mais importantes que sejam. invade o presente e de certo modo toma nossa vida. . a mudança é surpreendida numa cilada. diferenças e semelhanças. entre permanência e mudança. que é a dialética permanente entre estrutura e não-estrutura. escapa das vicissitudes e sobrevive com obstinação e sucesso. 1995. O presente em grande parte é a presa de um passado que teima em sobreviver. mas também o que não muda. Se consegue suprimir parte considerável do passado. O passado lambuza o tempo presente. C. não há mudanças sociais rápidas. A história estrutural faz parte da história global. Por mais que nos esforcemos. economia e capitalismo: séculos XV-XVIII. Este movimento não é uma força consciente. por suas regras. está sob o signo da duração. F. pp. A história voltada para este passado distante que persiste. In: DAIX. As rupturas.11 Nos movimentos que afetam a massa da história atual haveria uma fantástica herança do passado. pois nem tudo se quebra de um só golpe. entrevista a J. como pensava Marc Bloch. perdura. Bringuier. pp. 1999. também chamada história estrutural. Para a história. Rio de Janeiro: Record. Toda sociedade é atingida pelas águas do passado. passando por ilhas. A estrutura está sujeita a rupturas. é necessário que esta parte não tenha uma resistência forte demais e que já esteja desgastada por si mesma. Ela é imóvel em relação a tudo que evolui ao seu redor mais ou menos depressa. 457 e 646. III. Em geral. somos arrastados pela massa19.

À longa duração. São Paulo: Martins Fontes. 1986. Posteriormente. vão e se aglomeram ao sabor dos ventos. 162. F. o que teima em ficar no mesmo lugar. São como as dunas. já não se ligam mais a uma origem particular e se tornaram bens coletivos da civilização23. Não se trata somente de escolher uma e se “casar” com ela. O fogo. Braudel associa o conceito de ‘civilização’. de um lado. e duração muito longa. rigidamente fixas e ao mesmo tempo móveis e vagabundas. instante e duração. Gramática das civilizações. civilizações. mas de viver em “concubinato” com todas as ciências do homem22. ainda que desigualmente. Une Leçon d’histoire de Fernand Braudel: Chateauvallon / octobre 1985. e a duna continua lá. pp. Nelas se encontram estrutura e conjuntura. e qualidades opostas: são fraternas. o cálculo. Surgido no século XVIII. originária de um passado inesgotável ao mesmo tempo difícil de perceber e impossível de dominar. . 356-357. Nesse âmbito das profundezas. a escrita. Na divisão constante entre o a favor e o contra. visitam as outras e são por elas visitadas. Para Braudel e o grupo dos Annales. a revista Annales muda de título. A história global é uma história abastecida por todas as ciências do homem. uma grande orquestração. há. Ao lado de querelas e conflitos. Reflexões sobre a história. há compromissos. são pacíficas e guerreiras. 23 BRAUDEL. e ao mesmo tempo exclusivas e caprichosas. civilização é o bem comum partilhado. coexistências e ajustes. ainda 21 22 BRAUDEL. é “aquilo que o homem não esquece mais”. Marcel Mauss afirma que civilização são “todas as conquistas humanas”. seria irrisório dizer que o homem faz a história. Existindo tanto no singular quanto no plural. 1992. p. F. ou seja. 1989. a domesticação das plantas e dos animais. depois da Segunda Guerra Mundial.12 fragilidades e utiliza suas linhas de menor resistência. São Paulo. As civilizações do Mediterrâneo são para Braudel personagens complexos e contraditórios. ele a sofre21. incorporando: economias. liberais. sociedades. Uma civilização não consegue ‘beliscar’ sensivelmente o domínio da outra. em permanente interdisciplinariedade. Martins Fontes. Elas possuem determinadas qualidades. A dificuldade residiria em incorporar-lhe a massa inconsciente dessa história oceânica. pp. mas os inumeráveis movimentos têm uma soma imóvel. do outro. agarradas aos acidentes encobertos do solo: os seus grãos de areia voam. E é interessante notar que. o conceito de civilização logo vai se opor à barbárie. a história é globalidade. A civilização é uma encarnação e uma amostra da própria longa duração. por todas as civilizações. o que se move. vêm. Paris: Arthaud. 25-29.

com a fé islâmica. emprestar e recusar. .. Dentro da civilização. interagindo. assim como a ‘ferramenta mental’ de Febvre ao estudar Rabelais mostra as possibilidades e o nível intelectual do século XVI27. Uma civilização não se desloca com toda a sua bagagem. pp. mas apenas individualmente. pp. Mobilidade e imobilidade acompanham-nas. No fundo. 126 e 185. ‘economia-mundo’. realizar transferências e vencer entraves. 132 e 188. I. 119-120. que são regiões do planeta integradas pela atividade econômica. II. op. A civilização é ao mesmo tempo o paraíso e o inferno dos homens26. vol. abandonando-a. A África do Norte. os jogos são realizados antecipadamente.13 que use de força bruta ou do ensino amplamente difundido. Tratando-se de um grupo ou de uma massa social. com os desdobramentos das últimas cinco décadas. nas lutas de independência. mas desde o século 8º. até mesmo a ‘poeira’ de acontecimentos e os incidentes presentes em qualquer civilização viva24. Ibidem. 27 Idem. não teria ‘traído’ o ocidente em 1962. formando uma espécie de todo.. op. o indivíduo se expatria.. Foucault. 26 Ibidem. Atravessando a fronteira. pp. Incessantemente. O Mediterrâneo. toda civilização herda de si própria e escolhe os bens que os pais legam aos filhos25. As civilizações em relação às outras são capazes de dar. E ambas permitem a abordagem das civilizações. Para abordar as realidades estruturais neste campo. cit. Ele e seus bens materiais e espirituais podem empreender escaladas.. Ele ‘trai’. Braudel usou o conceito alemão de weltwitschaft. A longa duração também atinge a vida material e a história econômica. receber.. É também seu destino ‘partilharem-se’ a si próprias. filha do Oriente. ou talvez até antes de Cristo. o homem goza de liberdade. O Mediterrâneo. o movimento é mais difícil. A história econômica mostra certos limites e o poder do homem em determinada época. operando-se a si mesmas e deixando para trás parte de suas heranças e bagagens. Vol.. Ele é útil para explicar a dinâmica do capitalismo. como dizia M. Conclusão Quais podem ser as contribuições teóricas da obra de Braudel para as questões sócio-ambientais e culturais? Se a economia de fato está ‘imprensada’ entre o meio e a sociedade. cit. deixando para trás a sua civilização. com a fundação de Cartago. 401. os limites do meio 24 25 Idem. p.

São Paulo: Martins Fontes. é inevitável o encontro de culturas para pensar o meio ambiente. Nas diversas identidades culturais. F. BRAUDEL. cabe descobrir onde estão as fragilidades do éthos capitalista e de sua racionalidade instrumental. um futuro sem colapso. Gramática das civilizações. não será possível descobrir uma longa duração da contemplação e do apreço pela natureza. uma agenda mínima. 324. São Paulo. Cartago resiste ao Ocidente há mais de dois mil anos. BRAUDEL. Discutindo os termos de uma equação de congruências: cultura e desenvolvimento sustentável. São Paulo: Perspectiva. Reflexões sobre a história. FONSECA. fonte abundante para os valores do desenvolvimento sustentável? As ferramentas teóricas de Braudel são um aporte relevante. Vol. O poder da identidade. BRAUDEL. BRAUDEL. economia e capitalismo: séculos XV-XVIII. p.14 ambiente estão cada vez mais próximos e a sociedade está cada vez mais sensível à urgência de preservar o planeta. A geo-história humana precisar superar o nível da apreensão do espaço disponível para o seu uso não-predatório. prestando-se a “um concubinato entre todas as ciências do homem” e todas as ciências da natureza. 3 vols. Referências bibliográficas BRAUDEL. segue suas fragilidades e utiliza suas linhas de menor resistência. CASTELLS. pp. 356357. F. O desenvolvimento sustentável é uma forma de geo-história voltada o futuro. Se a mudança compõe com a não-mudança. História e ciências sociais: a longa duração. Vol. propor alternativas e chegar a um denominador comum. sociedade e cultura. II. Manuel. 1989. A era da informação: economia. 2004. Civilização material. São Paulo: Paz e Terra. 1992. Fernand. Este âmbito do conhecimento é inevitavelmente interdisciplinar. 2 vols. São Paulo: Martins Fontes. . 1984. F. F. Martins Fontes. 1992. 1995. III. Escritos sobre a história. Denise. O Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na época de Felipe II. Texto mimeografado. Como o planeta diz respeito a toda a humanidade. tantas vezes devastadora. 1999. São Paulo: Martins Fontes.

Une Leçon d’histoire de Fernand Braudel.15 FONSECA. 93-106. Fernand Braudel: uma biografia. 1997. Denise. REIS. pp. 1999. Paris: Arthaud. Josafá. SIQUEIRA. Pierre. 1986. 2000. Le ‘Tableau de la geographie de la France’ de Vidal de La Blache. Meio ambiente. Paris: Quarto Gallimard. São Paulo: Paz e terra. 2002.). . GUIOMAR. Rio de Janeiro: Sette Letras. Rio de Janeiro: Record. Chateauvallon /octobre 1985. A escola dos Annales. DAIX. aceitando desafios. In: NORA. 3 vol. Historia y Vida. Lieux de mémoire. Pierre (org. José Carlos. Jean-Yves. cultura e desenvolvimento sustentável: somando esforços.