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Universidade Católica de Pernambuco

Curso de Direito 2º Período


Introdução ao Direito II
Prof. João Chaves
02 SET. 2009
Horário
Declaro para todos os fins que o texto que segue abaixo é de minha autoria, pelo que
assumo a responsabilidade por seu conteúdo. Recife, ___/___/2009.

Assinatura: ______________________________________

Gustavo Henrique Amariz C. Cruz

Constitucionalização do Direito Civil: uma breve explanação

LÔBO, Paulo Luiz Neto. Direito Civil: parte geral – São Paulo: Saraiva 2009.

Em sua obra sobre o Direito Civil, Paulo Lôbo, doutor em Direito pela USP,
advogado, professor dos programas de Mestrado e Doutorado em Direito da UFPE,
UFAL e UnB, membro do Conselho Nacional de Justiça, abre uma discussão sobre um
fenômeno relacionado com o direito civil que, como uma matéria de síntese, se dedica
não só a aspectos singulares do direito, mas sim a uma pluralidade de ramos que se
destacam desde sua epistemologia. Podemos citar o direito público, o privado e dentro
deles, sobretudo, o Constitucional que é o mais moderno dos direitos, ou seja, muitos
dos valores cíveis herdaram influência dos seus valores, princípios e normas. Para
entender o texto do Jurista, basta ter um breve conhecimento introdutório sobre as
matérias cíveis e constitucionais e, assim, o conhecimento do mesmo ser mais
facilmente assimilado.
Quando princípios fundamentais do direito civil se encontram no mesmo
patamar hierárquico do direito constitucional, poderemos chamar esse fenômeno de
constitucionalização do direito civil ao passo que caem no cotidiano de todos os
cidadãos quando exercemos cidadania e somos tutelados pelos direitos fundamentais.
Os Princípios constitucionais são amplamente influenciadores no ordenamento
jurídico, sobretudo, pelo fato de que são formados por direitos fundamentais
expressando uma sociedade justa, igualitária e democrática. Esses direitos acabam
sendo até confundidos com princípios cíveis, que afetam também a vida social. E só
afetam por causa da evolução da sociedade que deixou de lado relações mais simples.
Ocorreu, na sociedade contemporânea, uma transformação superestrutural do Estado
Liberal para o Estado Social ¹ , ou seja, conferindo direitos do trabalho, da previdência,
da educação, bem como quando intervém na economia, regula o salário, a moeda e os
preços, combate o desemprego, etc. A sociedade moderna passou, então, a participar
com mais vigor da vida social,ou seja, o fenômeno chamado de alteridade ou das
relações jurídicas ².Muitos civilistas Brasileiros, entretanto, não são a favor da relação
entre a matéria constitucional e a civil, acreditando que o direito civil passaria a ser
mero figurante do direito constitucional, acreditando também que o direito civil não
passou por tantas transformações durante a história moderna continuando assim, a ser
uma matéria de conteúdo próprio sem qualquer tipo de inferioridade.Apesar dessa
diversidade de opiniões observa-se que antes, muito do que era discutido,
exclusivamente, no Direito civil, com toda essa evolução da sociedade, passou a ser
também discutido no Direito constitucional.
Cristiano Chaves de Farias3 diz:
“Na medida em que se detectou a erosão do Código Civil, ocorreu uma
verdadeira migração dos princípios gerais e regras atinentes às instituições privadas para
o Texto Constitucional. Assumiu a Magna Charta verdadeiro papel reunificador do
sistema, passando a demarcar os limites da autonomia privada, da propriedade, do
controle de bens, da proteção dos núcleos familiares, etc.”
Diante disso, o ordenamento jurídico passou a conceber uma relação de
princípios cíveis e constitucionais, entretanto, mesmo com categorias de leis
semelhantes , os direitos constitucionais ,em consenso geral,se tornaram claros que as “
regras constitucionais são dotadas de uma superioridade evidente com respeito às
demais normas jurídicas da coletividade estatal” 4
De acordo com Luís Roberto Barroso, “a interpretação constitucional é uma
modalidade de interpretação jurídica. Tal circunstância é uma decorrência natural da
força normativa da Constituição, isto é, do reconhecimento de que as normas
constitucionais são normas jurídicas, compartilhando de seus atributos. Porque assim é,
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¹aplicam-se
Comazzi, Vicente Ferrari. Revista
à interpretação Jus Vigilantibus
constitucional os elementos tradicionais de interpretação do
² Sílvio de Salvo Venosa, Direito civil, parte geral, p. 4
Direito, de longa data definidos como o gramatical, o histórico, o sistemático e o
³Cristiano Chaves de Farias, Direito civil, parte geral, p. 48
teleológico”.
4 Pinto Ferreira, Da Constituição, p 171
Fica claro nas idéias de Paulo lôbo que o direito constitucional por ser mais
recente e, como já foi dito, superior, faz uma releitura dos institutos fundamentais do
Direito Civil, a saber, a família, a propriedade e o contrato, com uma nova valoração
determinada pela constituição. Por outro lado, muito do conteúdo do direito civil,
matéria não-constitucional por natureza, é incluído, por exemplo, numa constituição
formal como as que figuram nos parágrafos do art 226 da Constituição Federal sobre o
casamento. Mas esta, porque inscritas na constituição adquirem a natureza de normas
constitucionais, em virtude do instrumento a que aderem.
Segundo Georges Burdeau, é um erro considerar essas normas como estranhas
ao conteúdo lógico da constituição, porque esta, em nossos dias, não se destina apenas a
definir o estatuto orgânico do Estado, mas, também, a exprimir a idéia de Direito como
diretiva da atividade estatal. E Pontes de Miranda, salientando o caráter social e a
rigidez das constituições contemporâneas, onde as normas de caráter programático
aparecem a miúde, refere o fracasso do liberalismo econômico, que esvaziou de fins
preciosos o Estado: a “direção nova refletiu-se na própria técnica constitucional, e as
constituições contemporâneas receberam a sugestão da necessidade, por todos sentida,
de se inserir nos textos constitucionais alguma coisa que dissesse para onde e como vai
” 5.
O texto de Lôbo é, pois, um grande marco no conhecimento jurídico nacional. É
de grande importância destacar como ele conseguiu transmitir de maneira clara, concisa
e objetiva de como as influências constitucionais, causa do Estado Social, conseguiram
hierarquizar ao topo da pirâmide os princípios cíveis. Fica observado que tudo isso
ocorreu por causa das transformações da sociedade ao longo da história, mas, precisa
ficar evidente que o processo ainda não acabou. A sociedade ainda vai passar por muitas
“mutações” em sentido que ocorrerão mais evoluções para, definitiva, afirmação da
prática e exercício do que é direito. Por isso, indica-se o texto, recorte da obra Direito
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5Pontes de Miranda. Comentários à constituição de 1967,t 1/ 127
Civil - Parte Geral, para estudantes de 2º período de Direito que estão dispostos a se
introduzir com mais aprofundamento nas matérias não só de Civil e Constitucional mas
Também nas de Introdução ao Estudo do Direito.