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Capoeira Angola é Patrimônio Cultural

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O estudo da Capoeira Angola possibilitou o entendimento desta enquanto


um traço cultural intransferível do povo brasileiro e sobremaneira das
camadas mais populares da população. A Capoeira Angola com
fundamento é uma das representações culturais mais ricas do povo
brasileiro. E para assegurar a sua continuidade devemos entende-la
enquanto Patrimônio Cultural, e não enquanto esporte. O Patrimônio
Cultural no Brasil teve grande desenvolvimento com o interesse de D.
Pedro II pela antropologia , colocando coleções africanas e européias no
Museu Nacional. Esta relação com a cultura negra, mesmo que política,
possibilitou o uma maior aproximação dos afro-brasileiros, com este
Imperador. Tal foi que na Guardo pessoal deste estavam os maiores
capoeiristas da época. Com o advento da República os Museus Emílio
Goeldi (Pará), Museu Paulista (SP) e Museu Nacional (RJ) empreenderam
buscas de artefatos em sítios arqueológicos nacionais, principalmente os
Sambaquis litorâneos do norte a sul do Brasil, afastando-se da cultura
negra e incentivando a captura e prisão dos capoeiristas através de um
instrumento legal. Para entendermos o que é patrimônio Cultural
devemos discutir o que é patrimônio cultural. O destaque na atitudes
governamentais para a questão do patrimônio cultural surgiu com o
Decreto Lei 25, de 30 de novembro de 1937, no qual , em seu artigo
primeiro declarava: Constitui o patrimônio histórico e artístico nacional o
conjunto dos bens móveis e imóveis existentes no País e cuja
conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação a fatos
memoráveis da história do Brasil, quer por seu valor arqueológico, ou
etnográfico, bibliográfico ou artístico. Sendo que estes bens deveriam ser
inscritos em um Livro Tombo para que recebesse a devida proteção. Tal
inscrição criava uma série de limitações a destruição dos remanescentes
culturais, pois o Tombo impede a destruição, demolição ou mutilação do
bem , mas deve este ser tombado. Começam a atuar profissionais
oriundos principalmente da arquitetura. O patrimônio cultural já vinha
sendo discutido internacionalmente desde a década de 20, e em 1931,
em Atenas é lançada pela Sociedade das Nações os primeiros princípios
internacionais em relação ao patrimônio. A partir destas considerações, e
com o Estado Novo, no Brasil, a preocupação com o patrimônio se
intensificou. A partir de 1950, o trabalho em relação ao patrimônio, fruto
da necessidade que a lei ajudou a instalar, passa a ser realizado com
maior profissionalismo, buscando o uso de técnicas documentais mais
aprimoradas e precisas, no Brasil. Foram firmados convênios com
instituições estrangeiras e criaram-se vários projetos com universidades
e instituições nacionais e a pesquisa em relação ao patrimônio passa a
ser desenvolvida por todo o país. Em 1956, no Conferência Geral da
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura -
UNESCO, é elaborada a Carta de Nova Deli indicando a necessidade de
Estado, enquanto principal interessado na história de seu país, deve
apoiar o estudo, preservação, coleta e guarda dos bens de valor cultural.
Recomendou-se que cada Estado Membro da UNESCO submete-se a
pesquisa e exploração do patrimônio ao controle de órgão competente. A
pressão da UNESCO se fez sentir nos diversos países do mundo e o Brasil,
já em contato com pesquisadores estrangeiros, atua no sentido de dar
mais peso a organização do patrimônio nacional. O órgão responsável na
atualidade pela preservação do patrimônio cultural é o Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e no Rio Grande do Sul
existe a 12a Superintendência Regional do IPHAN, a qual deve fazer
cumprir as leis referentes ao patrimônio. Os trabalhos de consolidação
dos remanescentes culturais começaram com o estabelecimento do
Decreto Lei 25, de 1937, Estes novos profissionais, formados na prática
da preservação, continuaram desenvolvendo pesquisas históricas já
imbuídos da recomendação da UNESCO em relação a necessidade de
integração com outros profissionais . A Carta de Burra , de 1980, propõe
uma série de definições que deveriam ser seguidas, as quais gostaria de
destacar: - o termo bem designará um local, uma zona, um edifício ou
outra obra construída, ou um conjunto de edificações ou outras obras
que possuam uma significação cultural, compreendidos, em cada caso, o
conteúdo e o entorno a que pertence. Devemos entender a capoeira
angola é um bem e cuja significação cultural ainda não foi plenamente
estudada, mas já reconhecemo-la com de grande importância para o
Patrimônio Nacional. - a substância será o conjunto de materiais que
fisicamente constituem o bem. A substância da capoeira está não
somente nos artefatos musicais utilizados pelos praticantes da angola,
mas o fundamento, a vivência, as outras expressões culturais que a
acompanham, a estrutura identitária e o valor de resistência. - o termo
conservação designará os cuidados a serem dispensados a um bem para
preservar-lhe as características que apresentem uma significação
cultural. De acordo com as circunstâncias, a conservação implicará ou
não a preservação ou a restauração, além da manutenção; ela poderá,
igualmente, compreender obras mínimas de reconstrução ou adaptação
que atendam às necessidades e exigências práticas. A capoeira angola
vem sendo conservada pelos mestres mais antigos da Bahia que não
estão sendo respeitados pela Legislação da Educação Física que pretende
dominar o mercado de trabalho sem a mínima preocupação com a
questão cultural que mesma expressa. - o termo manutenção designará a
proteção contínua da substância, do conteúdo e do entorno de um bem e
não deve ser confundido com o termo reparação. A reparação implica a
restauração e a reconstrução, e assim será considerada. A manutenção
da capoeira angola deve ser assegurada não somente como um bem mas
como um valor a ser difundido, ela não pode ser reconstruída , adaptada ,
ou reparada, ela deve ser mantida, e para isso devemos respeitar os
mestres angoleiros, e toda a filosofia que a angola traz a restauração
será o restabelecimento da substância de um bem em um estado anterior
conhecido. Esta restauração tem se tornado possível somente pelo
estudo e confrontação da capoeira desenvolvida nas academias do Rio
Grande do Sul e verificando as perdas que esta vem sofrendo, e que
poderão sofrer com esta ação da Confederação de Educação Física com
base na nova lei da Educação Física. - o uso compatível designará uma
utilização que não implique mudança na significação cultural da
substância, modificações que sejam substancialmente reversíveis ou que
requeiram um impacto mínimo. A capoeira angola deve manter seu uso,
ou seja, o de resistência cultural, o de transmissor de valores populares o
que a Constituição Federal nos proporciona. Constituição da República
Federativa do Brasil - 1988, foi promulgada por Assembléia Nacional
Constituinte, sendo Presidente da República, José Sarney. De uma
maneira geral, a nova Constituição descentraliza o poder e devolve ao
Legislativo a exclusividade de legislar, ao suprimir o mecanismo dos
decretos-leis, embora mantenha a possibilidade do Presidente legislar
mediante medidas excepcionais. Muitas normas jurídicas da lei ordinária,
que figuravam antes somente no Código Penal, Código Civil e
Consolidação das Leis do Trabalho, passaram a constar, agora, da
Constituição, que em seu conjunto, é bastante explícita. No tocante à
cultura e aos bens culturais, nunca antes um texto constitucional
brasileiro lhes dedicou tanto espaço. Pela primeira vez surge a
denominação patrimônio cultural e sua definição. Outra novidade é a
distinção entre patrimônio cultural e natural, este último sob a
denominação ambiental. O meio ambiente, aliás, passa a constar de
capítulo especifico. A ação popular tem explicitado, no novo texto, seu
papel na defesa do patrimônio cultural e do meio ambiente. Em destaque
na Constituição da República temos o seu artigo 5o onde todos somos
iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do
direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade. Este
pressuposto deveria ser o norte de toda ação do brasileiro capoeirista
pois a igualdade e a liberdade não poderiam ser violados. Mas o que
acontece em relação a capoeira neste país, os que professam uma
capoeira onde o corpo tem mais valor que a filosofia que ela engendra,
uma dita "capoeira objetiva" (Instrutor "Montanha" do Grupo Abadá)-
"capoeira contemporânea" ("Coelha" Grupo Abadá) - "capoeira
helicóptero" - "capoeira jiu jitsu", vemos este princípio básico da
sociedade sendo violado, onde não existe mais a segurança do corpo e
mesmo o direito a vida. Onde a superioridade física de um indivíduo pode
ser utilizada para a desagregação da liberdade e igualdade de outro, sem
o respeito ao limite do ser. A capoeira que prezamos é a que
consideramos um bem patrimonial de valor cultural . Devemos então
cobrar isto de nossos representantes legais pois que nós do ACCARA
temos esta consciência do bem público. Pois segundo esta constituição
compete a União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios (Art.
23): - "proteger os documentos, as obras e outros bens de valor
histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais
notáveis e os sítios arqueológicos;" - E isto pressupõe proteger a
verdadeira capoeira, nos seus fundamentos e filosofia mais puros, pois
por bens podemos entender os gestos e pensamentos culturais
tradicionais apreendidos e perpetuados pela oralidade e pelas formas de
fazer. -"impedir a evasão, a destruição e a descaracterização de obras de
arte e de outros bens de valor histórico, artístico ou cultural;" - é contra
esta descaracterização da capoeira, com a inclusão de artes marciais
estrangeiras dentro do corpo de gestos técnicos e pensamentos da
capoeira, e contra sua destruição enquanto bem de valor histórico,
artístico e cultural, e condenando a sua visão enquanto atividade
desportiva, a qual consideramos que a capoeira não o é, lutamos contra
tudo isso. - " proporcionar os meios de acesso à cultura, à educação e à
ciência;" - procurar não falsear a verdade em relação a esta arte nacional
permitindo o verdadeiro conhecimento que vem sendo transmitidos pelos
velhos mestres baianos, do que é a capoeira, porque foi criada, como se
estruturou e como deve ser mantida. Assim como compete à União, aos
Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre a proteção
ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico;
responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e
direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico;
educação, cultura, ensino e desporto; (Art. 24). Bem como aos Municípios
compete "promover a proteção do patrimônio histórico-cultural local,
observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual" (Art.
30). Sendo assim importante que estes representantes estaduais,
federais e municipais orientem-se sobre quem vem tentando representar
a capoeira no Brasil, Rio Grande do Sul e no Município de Porto Alegre.
Questionarem-se sobre quem está preocupado em sua preservação
enquanto Patrimônio Cultural e quem está ligado a atuações de cunho
puramente desportivo e de auto-representação. Segundo o artigo 215 o
Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso
às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a
difusão das manifestações culturais, sendo que este protegerá as
manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras e das
de outros grupos participantes do processo cívilizatório nacional e a lei
disporá sobre a fixação de datas comemorativas alta significação para os
diferentes segmentos étnicos nacionais. Esta proteção pressupõe uma
ação imperativa por parte das autoridades no sentido de preservar a
capoeira, como uma arte genuinamente nacional, estando como um
direito cultural antes de qualquer ação que priorize um cunho desportivo,
o qual vem apenas para degradar este que é um dos maiores patrimônios
afro-brasileiro, ainda resistente perante esta sociedade globalizada. Os
artigos 220 e 221, referentes à comunicação social, expressam princípios
que interessam à questão cultural pois que ditam que a manifestação do
pensamento, a criação, a expressão, e a informação, sob qualquer forma,
processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o
disposto na Constituição e a produção e a programação das emissoras de
rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: preferência a
finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas, promoção da
cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que
objetive sua divulgação; regionalização da produção cultural, artística e
jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei. É uma pena que
isto não esteja sendo realizado, pois a mídia está voltada para aquela
capoeira de cunho puramente desportiva e que em nada vem a
acrescentar no desenvolvimento cultural de nossa Nação, e acaba
criando falsas imagens do capoeirista nacional, normalmente sendo visto
como um ser humano corpulento e com "cara de mau" o qual pode
destroçar todos os outros seres humanos, que se sejam seus oponentes.
A capoeira não busca oponentes, busca sim integração e resistência a
opressão cultural, manifesta no Neoliberalismo globalizante. Não
podemos nos render aos propagadores de tais idéias devemos resistir e
para tanto nos valer dos nossos direitos assegurados pela nossa lei maior
a Carta Magma. A Carta Magma propõe no seu artigo 5o nos seguintes
termos que "qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular
que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que
o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao
patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé,
isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência". Isto nos permite
agir junto ao Ministério Público Federal e ao Ministério da Justiça,
solicitando ações contra o Estado (Municípios, Estado ou Governo
Federal) caso a contínua agressão ao patrimônio cultural brasileiro, que é
a capoeira, venha a permanecer. Não gostaríamos que outros arcassem
com a responsabilidade de perpetuação de uma cultura, que visivelmente
desconhecem. Falamos aqui destes ditos capoeiristas da capoeira
helicóptero, capoeira jiu jitsu, capoeira objetiva, capoeira
contemporânea, entre outras novas titulações apresentadas para a
capoeira para mascarar as reais intenções destes mal feitores. Este é o
meu manifesto.

Texto: Autor e Foto disponíveis em Bibliografia.


Pg 06 www.capoarte.v10.com.br