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FARMÁCIA DA TERRA – Globo Repórter – 16/10/1009

Lavrador surpreende cientistas com pomada


natural
Mistura de ervas ajuda a curar problemas de pele. Primeiros testes dizem que produto é cicatrizante,
antibacteriano e antifungos.
BEATRIZ THIELMANN Brumadinho (MG) e Campinas (SP)

Ouro, pedras preciosas e minério são riquezas de montanhas que estimularam a família imperial a
percorrer as trilhas e os atalhos de um pedaço de Minas Gerais. Isso foi há 200 anos. O trecho da
estrada que liga Minas Gerais ao Rio de Janeiro é uma rota que mantém a tradição da fortuna e dos
segredos escondidos pela terra, ou melhor, que brotam da terra. É interminável a variedade de
plantas medicinais já encontradas na região. E o remédio do mato, o remédio da raiz, o remédio da
tradição, que fazem parte da cultura popular, não param de surpreender a ciência.

Uma das descobertas veio das terras do lavrador Dario Moreira Dinis, de 79 anos. Ele, que mora em
Joatuba, distante 70 quilômetros de Belo Horizonte, se orgulha de contar que é dono de uma receita
"tiro e queda" para problemas na pele. E o teste mais importante foi feito nele mesmo. "Eu sofri
com uma micose na perna durante dois anos. Não curava de jeito nenhum", conta.

Remédio de farmácia, benzedeiras, nada resolvia. Até que, em um dia de muita dor, voltava para
casa quando uma coisa estranha aconteceu. Ele conta que parece ter tido uma visão: "Quando eu
virei para descer para minha casa, passou tudo pela minha testa: o que eu fizesse curaria minha
perna".

E o santo remédio estava muito perto, em canteiros, de onde ele tirou a receita que considera divina.
"A pomada tem transagem, alcanfor e assa-peixe", descreve. E mais: ele acrescentou bálsamo e
marcelinha. Feliz da vida, saiu receitando a pomada para a vizinhança. Mesmo assim, levou sua
invenção para os pesquisadores conhecerem.

"Ele veio e pediu que nós o ajudássemos com esses estudos, uma vez que não teria condições. Ele
havia desenvolvido uma fórmula que não pode ser comercializada da maneira como preparou", diz
a doutora em ciência Tania Toledo de Oliveira, da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Seu Dario procurou o lugar certo. A pomada está sendo analisada pela equipe de Tania Toledo. O
remédio já está sendo testado em humanos, e os resultados não deixam dúvidas: a pomada de seu
Dario é cicatrizante, antibacteriana e mata os fungos. Será patenteada em breve. "Ela não pode ficar
no ar", diz o lavrador.

Laranja combate o colesterol


Cientistas acreditam que, além da fruta, o repolho roxo, a uva e o urucum seriam detergentes
naturais para limpar o sangue. Pesquisadores descobrem planta contra as rugas e o envelhecimento.
BEATRIZ THIELMANN Viçosa (MG)

A Universidade Federal de Viçosa (UFV) foi inaugurada em 1926. Além de estimular o


conhecimento, se transformou em forte aliada do desenvolvimento agrícola de Minas Gerais. Há 20
anos começou a se destacar também nas pesquisas na área da saúde. Hoje está entre os centros mais
importantes de estudos do Brasil.

Como é rica a farmácia da terra estudada na UFV. "De frutos cítricos, como a laranja, nós extraímos
um flavonóide denominado naringina. Ele serve para reduzir gordura e açúcar no sangue. Baixa
tanto o colesterol quanto diminui o diabetes. Temos pesquisas na fase pré-clínica, com animais de
laboratório, e na fase clínica, com humanos, comprovando seus efeitos", afirma a doutora em
ciência Tania Toledo de Oliveira, da UFV.

Além da laranja, o repolho roxo e a uva, seriam os detergentes naturais para limpar o sangue? Os
cientistas acreditam que sim. Já conseguiram extrair da uva e do repolho roxo uma substância que
reduz em mais de 70% a gordura no sangue. E mais outra grata surpresa: o urucum também pode
ajudar a combater o colesterol ruim.

"A população, naturalmente, já consome essa substância em grandes quantidades em algumas


regiões, principalmente Norte e Nordeste, e ela tem esse efeito benéfico", comenta Tania Toledo.

E as novidades ainda mais surpreendentes estão para ser anunciadas pela equipe da doutora Tânia
Toledo. "Nós temos pesquisas com mais oito medicamentos para câncer, diabetes e nível alto de
colesterol no sangue", revela.
Outra conquista está para ser anunciada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A
substância que pode se transformar em remédio é uma casca encontrada em mangues. Até agora, os
testes feitos em animais comprovaram que no caso de úlcera gástrica o resultado do mangue
vermelho é o mesmo do tratamento convencional, aquele que utiliza medicamentos já conhecidos.
Só que existe uma diferença muito importante: a dose para a cura da úlcera é 60 vezes menor.

"Sabemos que quanto maior a dose utilizada de determinado medicamento maior é a quantidade de
efeitos colaterais possíveis. No caso do mangue vermelho, nós usamos doses extremamente baixas.
Portanto, a chance de encontrarmos efeitos colaterais acaba sendo menor", esclarece a doutora em
farmacologia Alba Monteiro, da Unicamp.

Desde 2006 o mangue vermelho vem sendo estudado pelos pesquisadores da Unicamp. Os testes
em humanos devem começar em breve.

"O conhecimento popular conta em todas as fases. É um bem extremamente valioso. O que fazemos
não é questionar o conhecimento popular, e sim reconhecê-lo", ressalta o biólogo Felipe Meira de
Faria, da Unicamp.

Dizem que a natureza é pródiga. E as plantas confirmam o poder ela tem. Até para nos deixar mais
jovens. A pariparoba, uma planta nativa da Mata Atlântica, está tendo suas qualidades
cientificamente comprovadas pelos pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP).

"Na luz verde, conseguimos ver uma mancha escura. É um composto antioxidante já conhecido da
pariparoba. Ela não é um filtro solar, e sim um antioxidante. Precisamos 25 vezes menos desse
extrato do que da vitamina E para fazer a mesma reação", explica a doutora em farmácia Cristina
Dislich Ropke, da USP.

E os cientistas nos alegram: com a paribaroba, também conhecida como caopeba ou água-xima,
quem sabe podemos encontrar a fonte da juventude um adeus às rugas?

Caju se transforma em poderoso cicatrizante


Película feita a partir do suco da fruta é indicada para queimaduras e feridas. Pesquisadora revela os
segredos da medicina popular e ensina quem não tem dinheiro a colher remédios no quintal.
BEATRIZ CASTRO Baía da Traição (PB)

Uma paisagem tropical. Quem olha, percebe logo uma fruta bastante conhecida de todos os
brasileiros, saborosa, rica em vitamina C e ferro. Mas o que nem todo mundo enxerga no caju é um
poderoso tratamento natural, já confirmado pela ciência, que recebeu o nome de acajumembrana:
uma película feita a partir do suco de caju, indicada para queimaduras e feridas.
"Foi um remédio muito bom que purificou e sarou", conta a dona de casa Valdete de Andrade
Cavalcanti, que há pouco mais de dois meses mal conseguia andar. Sofria com um ferimento
crônico, provocado pelas varizes. Foi diariamente ao hospital, para fazer curativo, durante dois
anos, sem resultado. A vida dela mudou depois do tratamento natural. Ela conta que em menos de
dois meses o ferimento fechou com a acajumembrana.
Além de dona Valdete, outras 45 pessoas já se trataram com a película natural do caju, que tem
propriedades cicatrizante, antiinflamatória e analgésica.

A acajumembrana foi descoberta pela pesquisadora e professora da Faculdade de Enfermagem de


João Pessoa Salete Horácio da Silva, que há mais de 20 anos se dedica a descobrir e comprovar
cientificamente o poder das plantas. "Leva de 15 dias a um mês para ficar pronto. É um processo
natural da fermentação", diz.

O processo tem de ser no laboratório, mas a aplicação é simples. É só cortar a película do tamanho
que quiser e colocar em cima do machucado. A membrana do caju vai aderir como uma segunda
pele. E o melhor de tudo: não pesa no bolso.

"É uma economia estupenda no bolso do usuário, porque uma pomadinha custa entre R$ 15 e R$
20, e isso aqui praticamente fica de graça", ressalta a pesquisadora, que não pretende ganhar
dinheiro com a descoberta. O tratamento é distribuído de graça para as pessoas mais necessitadas,
que contribuem doando matéria-prima, ou seja, caju.

"Do cajueiro, tudo se aproveita – desde a raiz até a folha mais novinha. A folha mais tenra serve
para afta. É preciso fazer uma infusão e bochechar. A raiz serve para problemas intestinais e
respiratórios. A casca serve para tosse", descreve a pesquisadora.

De chá a pasta de dente, muitas riquezas são extraídas dessa árvore, que já foi muito disputada. "Os
índios faziam guerras para ocupar os espaços onde havia mais cajueiros, para festejar, casar,
brincar", conta Salete Horácio da Silva.

Muito antes de o Brasil ser descoberto, os índios potiguara habitavam o litoral da Paraíba, onde
permanecem até hoje e guardam com eles um conhecimento ancestral sobre o uso da plantas
medicinais. É esse saber popular, repassado de geração em geração, que despertou o interesse dos
pesquisadores que têm muito o que aprender com os índios.

E foi justamente em uma aldeia potigara que a professora Salete Horácio da Silva descobriu a
acajumembrana, dez anos atrás. Hoje ela retorna uma vez por semana para distribuir remédios
caseiros e ensinar princípios básicos de saúde e higiene. Mas, acima de tudo trocar, experiências.

"À medida que conversamos com o povo aprendemos e ensinamos", diz a pesquisadora.

A casa da índia potiguara Lenita da Silva, mulher do cacique Vicente, funciona como ponto de
encontro dos moradores. No local, gente simples, sem condições de comprar medicamentos
convencionais, se reúne para aprender com a pesquisadora. "Mastruz é bom para tosse", ensina.

A sabedoria desse povo é herdada junto com muitas tradições. O costume é antigo e em quase toda
casa da aldeia se encontra um cantinho com ervas medicinais. É como se fosse uma pequena
farmácia, sempre ao alcance dos moradores. Dona Lenita põe para secar as plantas que ela mais usa
junto à imagem de Jesus Cristo.

"A flor da sabugueira é para febre; o feijão-gandu, para tosse; a colônia, para depressão", relata.

Quando recebe visita, dona Lenita costuma ir para a cozinha fazer um chá. "Chá de hortelã miúda é
bom para digestão e abre o apetite. Eu acredito no efeito curativo das plantas. Se não fossem minhas
plantas, não sei o que seria de mim. Planta é um santo remédio, nunca há de faltar na minha casa.
Em todo canto eu planto", diz.
Para Salete Horácio da Silva, essa comunhão entre os conhecimentos popular e científico virou uma
missão de vida. "Eu tenho admiração pelos índios, porque eles amam a natureza. Eu dou minha vida
por isso. Eu vivo para isso. Essa é a minha missão", conclui.

Copaíba é nova aposta da medicina


fitoterápica
Remédio popular usado contra mais de 50 tipos de doenças, o óleo de copaíba ganhou respaldo
científico. Substância combate leishmaniose, câncer, bactérias e inflamações.
DANIELA ASSAYAG Manaus

Conhecimento cientifico significa aventura no meio da Floresta Amazônica. A Reserva Ducke é


uma espécie de laboratório vivo do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). No
caminho em busca da copaíba dá para entender por que a Amazônia é chamada de farmácia viva.

"O principal uso do breu é para dor de cabeça. Eles fazem um tipo de incenso e usam para dor de
cabeça", conta o pesquisador Valdir Veiga Jr., da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

O leite-de-amapá cura até tuberculose. É docinho e tem gosto de leite. Mas e a copaíba? Depois de
três horas, chega-se a uma das matrizes. "Atualmente temos um método de extração em que
furamos até o centro da árvore, coletamos o óleo e depois colocamos um cano de PVC. Fazemos
uma rosca em cada uma das extremidades e acoplamos na árvore. Assim, na próxima coleta, não
precisamos furar de novo. Isso protege a árvore contra a entrada de agentes causadores de doenças,
como fungos e cupins", explica a pesquisadora Raquel Medeiros, do Inpa.

As copaibeiras estão dispersas pela mata, mesmo em uma área onde a espécie é abundante, as
árvores podem estar até um quilômetro distantes umas da outras. O óleo produzido lá dentro é um
mecanismo de defesa contra pragas naturais, como cupim. É como se a árvore fabricasse o próprio
remédio.

Entender a dinâmica das copaibeiras, como elas crescem e se desenvolvem, é o primeiro passo para
preservar a espécie. Afinal, ela vem demonstrando ser uma importante matéria-prima para a ciência.

"Temos encontrado substâncias muito interessantes nas cascas, como o ácido betulínico, que está
em fase de testes para o tratamento do vírus HIV", revela Valdir Veiga Jr.

Remédio popular usado contra mais de 50 tipos de doenças, o óleo de copaíba ganhou respaldo
cientifico. Na Ufam, o professor Valdir Veiga Jr. coordena um grupo que estuda há dez anos os
benefícios desse óleo valioso. "Já conseguimos comprovar atividade contra leishmaniose. Algumas
copaíbas têm efeito antimicrobiano e um dos principais achados foi a atividade anticancerígena",
diz.

Mas atenção: nem todos os óleos de copaíba são iguais "Os óleos do Rio de Janeiro e de Minas
Gerais não têm a mesma composição química e, portanto, não vão ter as mesmas ações
farmacológicas do óleo da região de Manaus, por exemplo. Mas existe uma atividade comum a
todas as espécies de copaíba: a ação antiinflamatória", explica o pesquisador.

Antiinflamatório poderoso que a mãe da funcionária pública Mary Jane Almeida receitava para a
filha, que cresceu e começou a receitar para seus filhos. O remédio está logo na cozinha. Afinal, o
tratamento é à base de óleo de copaíba.

"De manhã, o tempo é muito curto para fazermos várias coisas. Deixamos uma bancada com o óleo
à mão para fazer o que tem que ser feito e não deixar de dar a gororoba, como nos chamamos",
conta Mary Jane.

E para onde vai a "gororoba"? As crianças se animam, mas logo a empolgação acaba. O remédio é
eficaz, mas o método um pouco aflitivo: é preciso passar o dedo com uma gaze embebida no óleo
na garganta. E nem os adultos escapam.

"A copaíba tem um gosto forte, mas não é tão incômodo assim. O pior é a maneira de passar", diz a
enfermeira Andréa Rodrigues. "Funciona mesmo. Em dois ou três dias já estamos bem. É ruim, mas
vale a pena. Se não valesse, não deixava enfiarem o dedo na minha garganta".

Bom para garganta e breve será um poderoso tratamento para os dentes. Pesquisadoras da Ufam
descobriram que a copaíba pode ser usada na composição de produtos odontológicos. A proposta
das cientistas é usar a copaíba no tratamento de canal que, segundo elas, vai ficar mais eficiente e
barato.

"O tratamento chega a ficar seis vezes mais econômico", calcula a pesquisadora Ângela Garrido, da
Ufam.

Com um futuro tão promissor, a copaíba tem conquistado aliados importantes. "Naquele tempo eu
não tinha esclarecimento e derrubava muita madeira sem necessidade. Daqui para frente eu quero é
preservar", afirma o agricultor Serafim de Abreu.

Plantar ao invés de desmatar. Seu Serafim sabe o bem que está fazendo. Ele é voluntário de um
projeto do Inpa que incentiva o replantio de árvores em áreas desmatadas de um assentamento
agrícola. Sozinho, ele limpa o terreno e espanta lembranças do passado. "Quanto mais eu encher
toda a área que eu desmatei melhor para mim", diz.

Plantando copaíba junto com a lavoura, em lugar de pouca ou nenhuma sombra, ele tem
surpreendido os pesquisadores, que acompanham, entusiasmados, o crescimento das árvores de seu
Serafim.

Quando chegaram, as mudas tinham pouco mais de um palmo. Três anos depois, estão com mais de
1,80 metro. Na floresta as árvores atingem mais de 30 metros de altura. Só vão produzir o óleo na
fase adulta, daqui a cerca de 30 anos. O que levam alguém a gastar tempo e suor em um
investimento a tão longo prazo?

"Plantar pau-rosa, amapá, copaíba é uma caderneta de poupança para o futuro. Eu pensei muito isso.
Não plantei mais porque não tinha muda. Se mais eu tivesse, mais teria plantado", finaliza seu
Serafim.

Aroeira é utilizada no pós-parto e na higiene


íntima da mulher
Árvore tem tradição na medicina popular do Nordeste. Horta medicinal ajuda brasileiros a trocar
remédios químicos por naturais.
BEATRIZ CASTRO Fortaleza (CE)

As civilizações mais antigas já buscavam na natureza os remédios para curar suas doenças. Mas a
imensa farmácia que brota na terra não oferece matéria-prima apenas para fazer pomada, xarope,
tintura, elixir, sabonete. Em verso, fica mais fácil ensinar que a aroeira do sertão cura ferida e
inflamação. E, mais do que uma rima, essa é uma verdade científica.
A aroeira foi a primeira árvore a ganhar versos. A musa inspiradora é alta, forte e tem uma tradição
importante na medicina popular do Nordeste: é uma das plantas de uso mais frequente e mais antigo
entre as mulheres. Utilizada na higiene íntima e no pós-parto, a aroeira ganhou amparo científico e
hoje os médicos já prescrevem.
Da poderosa planta são extraídos dois medicamentos. "Um é um xarope, que nós chamamos de
elixir. O segundo é uma pomada para problemas ginecológicos", diz o doutor em agronomia Sérgio
Horta Mattos, da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Outro remédio cantado em verso e prosa é o alecrim. Da folha é extraído um óleo essencial, onde
está concentrado o princípio ativo: o timol, um poderoso antisséptico natural. A planta é usada na
fabricação de três produtos.

"Fazemos um antisséptico bucal; um sabonete, que serve para problemas de pele; e também uma
tintura, que tem função antisséptica para ferimentos", conta Sérgio Horta Mattos.

O alecrim combate uma série de problemas de pele e outros que incomodam bastante. É bom para
acabar com a frieira e até o chulé. "Pano branco, impinge, frieira, mau cheiro dos pés, das axilas,
para acne, seborreia, caspa", descreve o doutor em agronomia.

Aroeira, alecrim, confrei. O povo já sabia e a ciência só confirmou. Hoje as mudas das 40 plantas
mais usadas na medicina popular são repassadas para cerca de 50 Farmácias Vivas no Ceará, uma
retribuição aos ensinamentos colhidos em aldeias, quilombos, junto a rezadeiras, curandeiros, aos
moradores mais antigos do interior.

"A informação era sistematizada, e as plantas eram selecionadas para estudo", diz a engenheira
agrônoma Francisca Simões Cavalcanti, da UFC.

Professora da UFC e doutora em química de produtos naturais por profissão e poeta por vocação,
Mary Anne Bandeira, há mais de 20 anos se dedica a estudar e a propagar o uso das plantas
medicinais. Ela coordena o Projeto Farmácia Viva, que leva medicamentos naturais e ensina o poder
das plantas aos cearenses.

"Nós cientistas aprendemos muito mais do que ensinamos", avalia a cientista, que teve um
excelente professor. É impossível falar sobre plantas medicinais no Ceará e no Nordeste brasileiro
sem mencionar um pioneiro, um semeador de conhecimentos extraídos da natureza desde os anos
60: o professor Francisco José de Abreu Matos deixou para sempre o nome gravado entre os
grandes pesquisadores que souberam aliar a ciência à sabedoria popular.

O professor Matos morreu há um ano. Da terceira geração de farmacêuticos, ele plantou a semente
das Farmácias Vivas que hoje estão em 28 municípios do Ceará e servem de modelo para o país.

O horto matriz, único banco de plantas medicinais do país, também é herança do professor Matos.
No local, cada planta tem a certificação botânica: a garantia de que foi cientificamente identificada
e os efeitos das substâncias ativas foram comprovados.

"Eu costumo dizer que o horto matriz foi o casamento feliz entre o saber popular e o saber
científico", constata Francisca Simões Cavalcanti.

A mais recente Farmácia Viva foi implantada em uma das comunidades mais pobres da capital
cearense, no bairro Jangurussu, periferia de Fortaleza. As crianças cuidam dos canteiros, onde cerca
de 800 famílias da região podem buscar as plantas com efeitos medicinais. Muita eficácia e
baixíssimo custo. Os moradores vibram com a novidade.

"O remédio da Farmácia Viva é muito melhor do que o da farmácia comum porque a gente faz com
as próprias mãos e dá resultado", comenta a dona de casa Maria Lucimar Teixeira.

Em Horizonte, município da Região Metropolitana de Fortaleza, as plantas medicinais


encontraram um terreno fértil. Os canteiros se multiplicam por quatro hectares, onde crescem
dezenas de espécies diferentes. A matéria-prima dá e sobra para manter o pequeno laboratório. No
local são fabricados 14 tipos de produtos fitoterápicos. Todas as fórmulas foram desenvolvidas pela
UFC. Mas os pesquisadores enfrentam um novo desafio: quando a ciência comprova o poder das
plantas, a natureza mostra que está seriamente ameaçada.

Os pesquisadores já deram o sinal de alerta: o país com uma das maiores biodiversidades do mundo
corre o risco de ver desaparecer de suas matas algumas das principais plantas medicinais. É o caso
da aroeira, que já foi muito comum por todo o semiárido brasileiro, principalmente na Caatinga, e
hoje está em extinção. A fama da árvore – de madeira pesada e resistente, muito usada na
construção de casas e na fabricação de móveis – foi como uma sentença para a aroeira. Se a árvore
sumiu das matas, o remédio é plantar. Agrônomos foram convocados para estudar o ciclo da aroeira
e ensinar a cultivar as mudas.

"Nós desenvolvemos uma tecnologia que não precisa de duas coisas. Primeiro, esperar que a aroeira
vire uma árvore, o que demora cerca de 20 anos. Segundo, não vamos matar a planta de forma
nenhuma", revela Sérgio Horta Mattos.

Os cientistas descobriram que o princípio ativo encontrado na entrecasca da aroeira é o mesmo que
está no broto da planta. "Essas substâncias têm um poder antiinflamatório e adstringente muito
grande. E essas mesmas substâncias estão na mesma concentração do broto", diz Sérgio Horta
Mattos.

E pensar que outras plantas que a ciência nem sequer estudou já estão ameaçadas. "É um exemplo
importante. Outras árvores como o cumaru e o juazeiro também estão nesta lista das plantas
vulneráveis ou extintas", alerta Mary Anne.

Para a aroeira ameaçada depois de tanto socorrer a população, os versos de agradecimento: "Aroeira
do sertão, em nossas mãos servistes de experiência. Agora tu és ciência, a ti a nossa gratidão",
declama a doutora em química.

Cientistas aprendem com o conhecimento


popular
Professora universitária aprova ervas indicadas por mateiros mineiros para a cura de diversos males.
Plantas que eles conhecem realmente são eficazes.
BEATRIZ THIELMANN Catas Altas (MG)

Encontrá-las pode ser tarefa árdua. A busca por plantas medicinais raras requer olhar de mestre e
esforço físico. O "ali" parece longe à beça! Na região de Maquiné, na Serra do Caraça, fica Catas
Altas. O mateiro Manoel Serpa conta que percorre o mesmo caminho há 40 anos. Já o mateiro
Expedito Batista tem 25 anos de estrada.

Seu Manoel e seu Expedito já desvendaram todos os mistérios da área. A montanha ainda é rica em
minérios e cristais. Mas o que faz esses mateiros chamarem a serra de
"lugar da fortuna" está à flor da terra.

Por volta de 1820 a vegetação já despertava a atenção de naturalistas estrangeiros. Muitos passaram
por lá. A riqueza das plantas medicinais impressionou em especial ao francês Saint Hilaire. As
amostras coletadas por ele na região hoje estão depositadas no Museu de História Natural em Paris.

O tempo passa e as revelações do nosso tesouro natural se multiplicam. "Pau-magro serve para
emagrecer. Cipó-prata é bom para o fígado e para o rim. Já tomei chá dele. Serve para mulher que
está de resguardo se fortalecer. O cipó-prata tem esse nome porque as costas da folha são brancas
igual à prata", explica seu Manoel.

O cipó-prata é um poderoso fortificante. Prata que anda valendo ouro aos olhos da ciência. A
maioria das plantas medicinais de Catas Altas é protegida pelo Dataplamt, órgão da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais. Junto com outras espécies vindas de outros países,
são analisadas cientificamente. A professora de fitoterapia Maria das Graças Brandão, da
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) mostra uma valiosa farmácia de plantas medicinais
nascidas na Serra do Caraça e em outras regiões vizinhas.

"São plantas nativas do Brasil, como a sucupira. É uma planta do Cerrado com ação
antiinflamatória. Entre as plantas importadas muito conhecidas hoje está o sene, que é laxante. Só
que o uso exagerado ou por tempo prolongado pode causar danos ao intestino. E tem muitas pessoas
fazendo uso de sene para emagrecer, o que não tem nada a ver. A sálvia é indicada para problemas
de boca, como afta e gengivite. A pessoa deve fazer o chá sem ferver", explica a professora.

A 1,5 mil metros de altitude, as raridades são ainda mais poderosas. Mandioquinha-do-mato é usada
para dor de barriga e disenteria. O chá da casca da quina-rosa é usado para combater verminoses. E
os guias do mato garantem: é mais um remédio – e dos bons.

A professora Maria das Graças aprova as indicações de seu Manoel e seu Expedito. As ervas que
eles conhecem são eficazes.

"A cainca é uma planta muito especial, usada como depurativa do sangue", diz seu Expedito.

Especial e difícil de achar. "Demora um pouco, mas a gente encontra. Ela é muito procurada. Serve
para sífilis, erisipela. A gente arranca a raiz dela", conta seu Expedito.

Na farmácia da professora Maria das Graças são encontradas outras plantas medicinais que já têm o
valor curativo comprovado cientificamente. A babosa é mesmo cicatrizante e pode ser usada em
queimaduras leves. A calêndula e o barbatimão também servem como cicatrizantes. Mas a
professora recomenda prestar atenção nos boldos: o único bom para os males estomacais é o boldo-
do-chile. O chá da espinheira-santa pode ser recomendado para gastrite. A arnica só deve ser usada
externamente em hematomas e contusões. Outro cuidado que se deve ter é com a citronela: indicada
só como repelente. O capim-cidreira ou capim-santo é ótimo para acalmar e aliviar dores. Mas
atenção: não pode ser fervido.

Outra planta consagrada pelo uso popular está sendo testada pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC), no
Rio de Janeiro: o chapéu-de-couro. Os estudos científicos estão avançados. O extrato encontrado na
planta, e que pode se transformar em remédio, já foi identificado. Há cinco anos o chapéu-de-couro
vem sendo pesquisado, e o remédio só deve ficar pronto daqui a dois anos.

"Ele pode ser eficaz e ter uma indicação no tratamento da hipertensão arterial, principalmente em
associação a outros medicamentos utilizados para tratar hipertensão arterial", esclarece o
pesquisador de saúde púbica Eduardo Tibiriçá, da Fundação Oswaldo Cruz.

"Antes de tudo, a pessoa deve procurar saber como essa planta é, que parte que se usa, porque não é
toda parte da planta que vai ter o princípio ativo", orienta Maria das Graças.

A professora de ciências farmacêuticas Silvia Berlanga, da Universidade de São Paulo (USP),


reconhece a sabedoria popular como a base de seus estudos sobre plantas medicinais, mas, adverte:
elas também podem ser tóxicas, principalmente se associadas a tratamentos com remédios
industrializados. "Se a pessoa estiver sob tratamento convencional não deve usar essas plantas,
esses chás e extratos, sem orientação médica ou pelo menos informar ao médico que também está
fazendo uso de outros medicamentos", alerta.

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