Você está na página 1de 16

Sociedade Brasileira de Sociologia XIII Congresso Brasileiro de Sociologia Universidade Federal de Pernambuco

A intelectualidade negra de São Paulo e o projeto Unesco: a construção de uma contra-ideologia racial

Comunicação apresentada ao Grupo de Trabalho “Emancipação, Cidadania e Reconhecimento” do XIII Congresso Brasileiro de Sociologia por Diogo Valença de Azevedo Costa (valencadiogo@hotmail.com), doutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (PPGS-UFPE).

Recife-PE, 29 de maio a 1 de junho de 2007

Introdução

A idéia de escrever um trabalho sobre a Frente Negra Brasileira surgiu de uma pesquisa exploratória realizada entre os meses de maio e julho de 2006 junto ao arquivo particular de Florestan Fernandes, localizado na Biblioteca Comunitária da Universidade Federal de São Carlos. Dentre as anotações deixadas por Florestan em suas numerosas fichas de estudo, pode-se encontrar o abundante material produzido no início da década de 1950 por ocasião do Projeto Unesco sobre as relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. Parte bastante substantiva desse material se refere às reuniões organizadas por Roger Bastide e Florestan Fernandes com representantes da comunidade negra paulistana, nas quais compareciam antigos militantes da extinta Frente Negra Brasileira (1931-1937). Tais reuniões foram denominadas de mesas-redondas, sendo um de seus intuitos coletar dados para servir de base à investigação sobre o preconceito de cor e a discriminação racial na cidade de São Paulo. Os debates então travados pelos diferentes setores da intelectualidade negra nas referidas mesas-redondas receberam registro taquigráfico e foram devidamente catalogadas, de acordo com a designação da técnica de coleta de dados empregada, sob o título geral de “observação em massa (situação grupal)”. Ao todo ocorreram onze mesas-redondas, cujos registros ocupam um conjunto de 204 folhas; as reuniões sétima, oitava, nona e décima não foram, porém, localizadas no arquivo de Florestan. Havia também reuniões específicas destinadas ao setor feminino, cujo propósito principal era discutir os problemas das mulheres negras. Dessas últimas reuniões restaram, infelizmente, poucos registros taquigrafados e delas só se pode ter um conhecimento mais preciso a partir das observações pessoais, manuscritas, deixadas por Florestan. O objetivo desta comunicação será analisar o conteúdo desse material como uma manifestação concreta da diversidade de posições assumidas pela coletividade negra paulistana, pertencente a uma dada época e contexto da sociedade brasileira, em seu movimento de tomada de consciência do preconceito e discriminação raciais e construção de uma ideologia própria, libertária e autônoma. O foco central é a intelectualidade negra participante das reuniões do Projeto Unesco em São Paulo, seus conflitos internos, divergências, mas também suas aproximações quanto à percepção do preconceito, da discriminação e da situação desfavorável aos afro- descendentes no País. No entanto, antes de proceder à análise propriamente dita do material encontrado no acervo de Florestan Fernandes, foi necessário realizar uma breve reconstrução histórica do panorama ideológico da Frente Negra Brasileira (FNB) e esclarecer o uso associado dos conceitos de “intelectual” e “contra-ideologia”. A exposição estará dividida, portanto, em três partes. A primeira delas se presta à elucidação das noções de “intelectualidade negra” e “contra-ideologia racial”, a segunda à caracterização da FNB

como um amplo movimento reivindicatório, de massas, que sinaliza a primeira experiência moderna do protesto negro contra o preconceito e a discriminação no alvorecer da sociedade urbana e industrial no Brasil e a terceira à descrição e análise das situações grupais vivenciadas pelos pesquisadores da Unesco e pela intelectualidade negra paulistana, suas opiniões, conflitos, divergências e aproximações. Caberia, enfim, dizer que as reflexões a seguir apresentadas se encontram nos seus primeiros passos e, por isso, os trabalhos acadêmicos mais recentes sobre a FNB, apesar dos avanços à investigação histórica por eles representados, não puderam ser aproveitados 1 . Dado que o mérito maior desta comunicação seria o de recuperar uma documentação no momento pouco acessível e quase inédita, de grande relevância para os estudiosos da questão racial no Brasil, penso que a lacuna anteriormente apontada poderá ter suas falhas interpretativas corrigidas em aprofundamentos futuros.

Intelectualidade negra e contra-ideologia racial

O processo de formação de quadros intelectuais entre as camadas populares e subalternas está sujeito a um conjunto de circunstâncias desfavoráveis, em parte explicadas pelas ausências de recursos materiais e disponibilidade de militantes profissionais dedicados aos trabalhos de estudo, arregimentação e organização conscientes de pessoas empenhadas na luta pela transformação dos padrões de dominação e exploração de que são as principais vítimas. A maior barreira diz respeito, contudo, à oposição dos estratos sociais hegemônicos que, decididos em manter suas posições de controle nas estruturas de distribuição da riqueza, do prestígio e poder, acabam por realizar um peneiramento dos indivíduos provenientes de categorias inferiores a partir de suas concepções dominantes e ideologias mistificadoras. Nesse sentido, o sujeito passa a aderir a uma visão de mundo que não é a de seu grupo de origem e, assim, se torna um defensor aberto do status quo das elites das categorias sociais dominantes. A possibilidade de tal forma castradora e acéfala de peneiramento individualista decorre da própria diferenciação interna das camadas subalternas, a qual acaba por originar interesses diversos apesar da origem social comum e da necessidade de lutar contra os mesmos tipos de injustiça. Na teia das ideologias dominantes caem, portanto, os componentes das mais diversas categorias sociais, de modo que a seleção de seus quadros intelectuais não se restringe apenas aos membros das elites e aos estratos superiores, sendo também feita com grande empenho nas camadas médias e em bem menor escala nos níveis mais inferiores e subalternos. Sob esse prisma, o elemento ideológico se erige numa verdadeira fortaleza que, edificada por uma gama

1 Um balanço bastante significativo das teses acadêmcias sobre a FNB pode ser encontrado na parte introdutória da dissertação de mestrado de André Côrtes de Oliveira (2006).

extremamente variada de tipos intelectuais, detém a função de resguardar a ordem social e os interesses dos grupos dominantes. Essa caracterização teórica exige, à maneira de Gramsci (2000, p. 21), “uma ampliação muito grande do conceito de intelectual”. Não se trata de buscar uma definição levando em conta o sentido intrínseco da atividade intelectual, porém o de sua função no contexto de uma determinada formação social. Só assim o conceito de intelectual se torna sociologicamente operativo, porque sua utilização permitirá interpretar a inserção de suas diferentes categorias nos processos de manutenção e transformação da estrutura social. Do ponto de vista dos grupos dominantes, os intelectuais são os seus “prepostos” ou agentes responsáveis pelo “exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político” 2 (GRAMSCI, 2000: 21). Para desempenhar essa dupla função, de hegemonia (ou direção) e coerção, são necessários diferentes tipos intelectuais, hierarquizados segundo o ponto de vista intrínseco anteriormente deixado de lado. Em outras palavras, para exercer seu papel dirigente sobre o conjunto do tecido social os grupos dominantes estabelecem uma divisão do trabalho no campo intelectual, no topo se destacando aquelas categorias responsáveis pela produção da própria ideologia dominante (os grandes intelectuais) e nos níveis intermediários estando situados os indivíduos (os intelectuais subalternos) cuja tarefa seria de reproduzir, difundir e inculcar nas camadas populares a concepção de mundo já existente, a ser aceita de modo acrítico. Nesses termos, a solidificação da ideologia dominante acaba por dispor de todo um conjunto de instituições como a escola, a família, os jornais, as editoras, as fundações, a igreja, o Estado, a polícia, o exército etc. Do lado das camadas populares e subalternas, o processo de formação dos seus quadros intelectuais é muito mais complexo e seu êxito depende, naturalmente, da sua capacidade de se opor a todo esse aparato ideológico das categorias sociais hegemônicas. Como nos interessa mais diretamente uma categoria social definida em termos raciais, o que se pretende analisar é a construção de sua ideologia autônoma e independente a partir do processo de formação de seus próprios quadros intelectuais. O caso escolhido foi o da intelectualidade negra paulistana situada mais ou menos em meados do século passado. Ao se lançarem à tarefa de combater o preconceito de cor e a discriminação racial em São Paulo e no Brasil, esses intelectuais, das mais variadas origens

2 Em linguagem gramsciana, hegemonia significa “consenso” e governo político, “aparelho de coerção estatal”. Como se lê nos Cadernos do cárcere, os “intelectuais são os ‘prepostos’ do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto é: 1) do consenso ‘espontâneo’ dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à vida social, consenso que nasce ‘historicamente’ do prestígio (e, portanto, confiança) obtido pelo grupo dominante por causa de sua posição e de sua função no mundo da produção; 2) do aparelho de coerção estatal que assegura ‘legalmente’ a disciplina dos grupos que não ‘consentem’, nem ativa nem passivamente, mas que é constituído para toda a sociedade na previsão dos momentos de crise no comando e na direção, nos quais desaparece o consenso espontâneo” (GRAMSCI, 2000: 21).

sociais e políticas, construíram uma ideologia autônoma que, apesar de seu caráter diversificado, heterogêneo e de tendências conflitantes, concorreu para desmascarar o pensamento racial dominante, monolítico e incontestável. Nesse sentido, por se opor à ideologia racial dominante, o conjunto de idéias construído pela intelectualidade negra mereceria a definição mais precisa de contra-ideologia racial 3 . As raízes históricas desse importante capítulo do protesto negro podem ser buscadas na forma como se deu a desagregação da produção escravista. Com a emergência do sistema de livre concorrência e o surgimento do Estado Republicano, a real situação econômica e social dos ex-agentes do trabalho escravo não sofrera qualquer transformação substancial. O negro permaceu vítima de uma estratificação racial extremamente desigual, preservando-se toda sorte de estereótipos negativos contra sua cor e raça de maneira a justificar seus constantes insucessos na nova ordem social, jurídica e legalmente aberta a todos. Como uma tentativa de mascarar o verdadeiro significado da Abolição, feita exclusivamente para concretizar a transição ao regime de trabalho livre e, por isso, tendo sido o ex-escravo abandonado à sua própria sorte pelas elites da classe social dominante como “um simples bagaço do antigo sistema de produção” (FERNANDES, 1989, p. 13), surge então o “mito da democracia racial”. A dupla função desse mito era apaziguar a consciência das elites raciais brancas, que não se sentiam responsáveis pelo destino da população negra, e evitar que as vítimas do preconceito e da discriminação se revoltassem e exigissem autênticas transformações das suas condições de existência. A afirmação da intelectualidade negra em suas diferentes ramificações desponta, portanto, como uma contestação do mito e simultânea elaboração de uma autônoma contra-ideologia racial 4 .

Breve panorama histórico da Frente Negra Brasileira

A ideologia racial dominante se caracteriza pela noção de que, no Brasil, o negro não enfrentava problemas. Essa visão era bastante difundida tanto à direita, quanto à esquerda, entre os mais variados meios políticos, conservadores, progressistas e mesmo comunistas. Um exemplo fortemente elucidativo pode ser encontrado no texto de José Carlos Mariátegui

3 Esse o modo como Florestan Fernandes define a ideologia racial construída pelos movimentos negros na cidade de São Paulo das décadas de 1930 e 40 (FERNANDES, 1978, p. 87-115).

o mito floresceu sem contestação, até que os próprios negros ganharam condições materiais e

intelectuais para erguer o seu protesto. Um protesto que ficou ignorado pelo meio social ambiente, mas que teve enorme significação histórica, humana e política. De fato, até hoje, constitui a única manifestação autêntica de populismo, de afirmação do povo humilde como agente de sua autoliberação. O protesto negro se corporificou e floresceu na década de 30, irradiando-se pouco além pela década subseqüente. Foi sufocado pela indiferença dos brancos, em geral; pela precariedade da condição humana da gente negra; e pela intolerância do Estado Novo diante do que fosse estruturalmente democrático”. “O principal feito do protesto negro configura-se na elaboração de uma contra-ideologia racial” (FERNANDES, 1989, p. 15) (grifos meus).

4

“[

]

redigido para a Primeira Conferencia Comunista Latinoamericana, realizada em junho de 1929 em Buenos Aires. Ao tratar do problema das raças na América Latina, o marxista peruano se baseou no seguinte informe do companheiro brasileiro para sugerir a inexistência de uma questão negra no Brasil:

Grande parte da população do litoral brasileiro está composta por mulatos; o tipo do negro puro é, hoje, muito raro. O cruzamento se faz cada dia mais intensamente, produzindo tipos cada vez mais claros, já que não ingressam no país há cerca de meio século imigrantes negros.

O preconceito contra o negro assume reduzidas proporções. No seio do proletariado, este não existe. Na burguesia, em certas camadas da pequena burguesia, este mal se deixa perceber.

] [

valor de seus ascendentes africanos. Deve-se notar, ainda, que há inumeráveis negros e mulatos ocupando cargos de relevo no seio da burguesia nacional. Deduz-se disso que não se pode falar a rigor, no Brasil, de preconceitos de raças. [ ] A situação dos negros, no Brasil, não é de natureza tal a exigir que nosso Partido [PCB] organize campanhas reivindicatórias para os negros, com palavras de ordem especiais. (apud MARIÁTEGUI, 1995, p. 233).

É comum, entretanto, ver a esse mesmo pequeno-burguês, nas festas nacionais, exaltar o

Os negros não teriam reivindicações específicas, dado que não haveria aqui propriamente preconceito de raça, e por isso deveriam limitar sua ação às conquistas de sua própria classe. Veja-se bem, contudo, que tais conclusões não pertencem a Mariátegui (que, em seu país, o Peru, superou as limitações do eurocentrismo marxista na consideração do problema indígena) e sim ao camarada por ele citado, sendo verdade, portanto, que a esquerda comunista brasileira não foi capaz de compreender a especificidade da questão racial. A tomada de consciência por parte dos negros de “sua existência como um grupo aparte e com problemas específicos dentro da nossa sociedade” 5 (MOREIRA e LEITE, p. 4) começa a tomar mais consistência na década de 1920. Como esclarece José Correia Leite no conjunto de informações que forneceu a um dos assistentes da Pesquisa Unesco:

Os movimentos de negros em São Paulo começam a tomar um conteúdo ideológico – de levantamento econômico e cultural dos negros – somente depois de 1927 quando se funda o Centro Cívico Palmares e depois de ter existido durante alguns anos um jornal – O Clarim d’Alvorada – com orientação de esclarecimento do negro em relação aos seus próprios problemas. Até então as organizações de negros tinham finalidades recreativas e beneficentes e acabaram se desvirtuando e se transformando em sociedades de bailes ou em “fachadas” que serviam para os seus dirigentes conseguirem contribuições de políticos; é excepção, nessa época o Grêmio Recreativo Kosmos que realizou seu programa educativo, tendo organizado, além de sessões culturais, um grupo dramático e um jornal. (MOREIRA e LEITE, p. 1).

Os negros passam, então, a contestar os contornos mais gerais da ideologia racial dominante, metarializada na crença segundo a qual não haveria preconceito de raças no

5 No arquivo particular de Florestan Fernandes, pode-se encontrar o estudo de caso, sobre os “movimentos sociais no meio negro”, realizado por Renato Jardim Moreira com depoimentos prestados por José Correia Leite. Esse estudo de caso, certamente preparado em 1951, será citado como um trabalho conjunto do pesquisador e informante.

Brasil devido às origens cristãs de nossa colonização e à acentuada diferença em relação à situação imperante nos Estados Unidos, de conflito aberto e segregação. No entanto, somente a partir de 1930 é que a organização do movimento negro passará a contar com feições políticas e ideológicas mais precisas de luta por conquistas econômicas, sociais e culturais da comunidade afro-descendente. A crise de 1929, com o conseqüente aumento do desemprego, e a não concretização das esperanças depositadas pelos negros na “revolução” de 30 concorreram para intensificar a precariedade de suas condições sociais de existência. Esses fatores, aliados às frustrações sofridas durante todo o período da República Velha, foram responsáveis pela fundação em 1931 da Frente Negra Brasileira. O conteúdo ideológico dessa organização era de teor nitidamente integracionista, voltando-se para a incorporação dos negros brasileiros às conquistas econômicas, morais, culturais e políticas da ordem social competitiva. Nesse sentido, a FNB passou a denunciar o emparedamento do negro na sociedade brasileira e a agitar a palavra de ordem da Segunda Abolição, pois a transição para a moderna sociedade de classes de fins do século XIX até as três primeiras décadas do XX não havia representado uma verdadeira universalização dos direitos de cidadania e de oportunidades coletivas de ascensão social para essa parcela específica da população nacional. Além do seu conteúdo autônomo de edificação de uma contra-ideologia racial, a FNB defendia a proposta nacionalista de uma comunhão brasileira entre os elementos das três raças, a negra, a índia e a branca. Na verdade, o processo de miscigenação havia criado uma nova raça, a raça brasileira, da qual iria surgir o representante de uma Pátria Nova ao mesmo tempo ancorada nas genuínas tradições do povo brasileiro e livre das influências dissolventes do internacionalismo 6 . No intuito de ampliar os horizontes da presente caracterização ideológica da Frente Negra Brasileira, seria oportuno recuperar o depoimento de Abdias do Nascimento a fim de sinalizar um limite da própria situação histórica da época em face de bandeiras só levantadas posteriormente pelo protesto afro-brasileiro. O futuro fundador do Teatro Experimental do Negro chegou a participar, embora não muito ativamente, da FNB:

A Frente, um movimento de massas, protestava contra contra a discriminação racial que alijava o negro da economia industrializada, espalhando-se para vários cantos do território nacional 7 . A segregação nos cinemas, teatros, barbearias, hotéis, restaurantes, enfim, em

6 Essa formulação mais acabada da ideologia frentenegrina não pode ser atribuída em sua forma pura à organização como um todo e muito menos à totalidade do movimento negro da época. O principal propugnador dessa ideologia de cunho exarcebadamente nacionalista, conhecida pelos nomes de patrionovismo ou também de orgânico-sindicalismo, foi o primeiro presidente da Frente Negra Brasileira, Arlindo Veiga dos Santos. Como será visto mais adiante, alguns grupos no interior da própria Frente, como o do jornal O Clarim d’Alvorada (liderado por José Correia Leite) e o que irá dar origem à Frente Negra Socialista (FNS), discordavam da presença de uma tal ideologia no seio do movimento negro e argumentavam que ela contribuía para desvirtuar seus objetivos específicos.

7 Como nos informa Oliveira (2006, p. 11), a “FNB nasceu em São Paulo, em 1931, com reuniões na Praça da Sé e, logo, atingiu não só o Estado, mas também Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul”.

todo o elenco de espaços brasileiros em que o negro não entrava, constituía o alvo prioritário da Frente, maior expressão da consciência política afro-brasileira da época. Minha participação na Frente Negra era limitada pela minha condição de militar. Combatia a discriminação em todas as oportunidades, fui várias vezes preso e, finalmente, expulso do Exército. A repressão à luta anti-racista era brutal

A Frente Negra Brasileira representava, sem dúvida, a maior expressão da consciência

política afro-brasileira da época, consciência essa formada ao reagir contra o mais evidente aspecto do racismo, a sistemática segregação e exclusão à base de critérios raciais. Tratava- se de uma consciência e uma luta de caráter integracionista, à procura de um lugar na sociedade ‘brasileira’, sem questionar os parâmetros euro-ocidentais dessa sociedade nem reclamar uma identidade específica cultural, social ou étnica. (NASCIMENTO e NASCIMENTO, 2000, p. 204-6) (grifos meus).

] [

A questão do resgate de uma identidade cultural ou étnica específica não participava do programa de reivindicações da FNB, porém uma opinião bastante insustentável seria a de que o movimento frentenegrino teria passado a renegar “as tradições culturais afro- brasileiras, responsabilizadas pelos estereótipos que marcavam os negros” (GUIMARÃES, 2002, p. 87). É verdade que a proposta do movimento de lutar pelo levantamento econômico, social, cultural, educacional e moral da raça estava fortemente marcado pelos ideais de uma crescente “classe média” negra, então preocupada em se diferenciar da massa de seus patrícios pobres, de seus vícios e defeitos como “a relação promíscua entre os sexos, o alcoolismo, o modo de vestir, a licenciosidade de linguagem, de gestos e modos” (GUIMARÃES, 2002, p. 91), considerados as fontes de todos os estereótipos negativos contra o conjunto da comunidade afro-brasileira. Isso não implicava, contudo, uma rejeição da tradição cultural do negro. Como se pode notar numa passagem da história de vida de Francisco Lucrécio 8 , elaborada pelo então assistente da Pesquisa Unesco, Renato Jardim Moreira, pode-se perceber a ligação do antigo militante da FNB com um forte elemento da tradição sincrética afro-brasileira, a Umbanda:

Encontrei F.L. [Francisco Lucrécio] pela primeira vez na porta de um bar e pizzaria na Freguesia do Ó. Tinha um companheiro falante e vazio – o Vitalino – e discutia com um branco as qualidades de um candidato (branco), nas vésperas das eleições suplementares à deputação estadual. Um dos argumentos que usava era de que o A. Campanela (o candidato referido) não tinha preconceito de cor. Isto chamou-me a atenção; aproximei-me dizendo que havia gostado das idéias que expunha e ofereci alguma cousa para beber. Entrei na conversa e bebi com o grupo. Foi então que fiquei sabendo que estavam lá em campanha política e que voltariam para a cidade em seguida.

8 Francisco Lucrécio assume a secretaria da FNB em 1934, quando a entidade foi presidida por Justiniano Costa. Lucrécio se posicionava à época como um nacionalista radical, sua preocupação estando voltada para a valorização do negro brasileiro, o resgate de sua história e suas tradições de luta: “Na Frente Negra não tinha essa discussão de volta à África. Tínhamos correspondência com Angola, conhecíamos o movimento de Marcus Garvey, mas não concordávamos. Nós sempre nos afirmamos como brasileiros e assim nos posicionávamos, com o pensamento de que os nossos antepassados trabalharam no Brasil, se sacrificaram, lutaram desde Zumbi dos Palmares aos abolicionistas negros, então nós queríamos, nos afirmaríamos, sim, como brasileiros. Não queríamos perder nossa identidade de brasileiros. Seguimos, portanto, a linha dos nossos antepassados” (BARBOSA, 1998, p. 46). Como indivíduo bastante integrado na FNB, não se nota em Francisco Lucrécio qualquer posição aberta de repúdio às tradições afro-brasileiras – o que leva a pelo menos relativizar a opinião acima defendida por Antonio Sérgio A. Guimarães (2007, p. 87).

Estando de automóvel (com uma moça branca – T.P.) ofereci-me para trazê-los, o que

aceitaram. Me interessando voltar ao tema do preconceito de cor, procurei orientar a conversa nesse sentido; passados os minutos difíceis de um primeiro contacto com pessoas até então desconhecidas, passamos a falar do negro. F.L. logo procurou mostrar suas ligações com pessoas que se ocupam desse problema (Bastide, Pierson), assim como expor algumas opiniões desses professores. O assunto foi até Umbanda e como T.P. tinha algum

Deixamos T.P. em

conhecimento da questão a conversa ficou polarizada entre ela e F.L. [

sua casa, embora o Vitalino insistisse para que ela nos acompanhasse a um terreiro de Quimbanda. Nesse terreiro, encontramos apenas brancos, os quais nos receberam muito

bem. [

Na ida para o terreiro de Quimbanda paramos em um bar a fim de providenciar o

“negócio” – uma garrafa de pinga. Houve relutância para se falar no que era o “negócio” e só fiquei sabendo ante o inevitável que foi ver a garrafa. Neste caso, ao contrário de outro que conheço, a pinga não é evitada por ligar-se a uma representação do negro, mas simplesmente por ser sinal de classe baixa. (MOREIRA, p. 1-2)

]

]

Outra questão bem mais controversa estaria associada à acusação de nacionalismo

xenófobo dirigida à Frente Negra. Referindo-se ao discurso da entitade, afirma Guimarães (2002, p. 92) ter este se tornado “cada vez mais nacionalista, [com] as acusações de preconceito [transformando-se] em explicação para a pobreza negra, oriunda do desemprego dos artesãos e artistas negros e sua substituição por imigrantes estrangeiros”. É certo, mais uma vez, que o pensamento de um dos nomes de maior notoriedade no seio da FNB, Arlindo Veiga dos Santos, em muitas ocasiões dava exemplos de referências pejorativas ao imigrante e, em especial, ao judeu. Também é patente a aproximação de seu discurso ao nacionalismo exacerbado e conservador do integralismo 9 . No entanto, a menção ao imigrante nos discursos da FNB tinha muito mais o caráter de seguir seu exemplo particular e tê-lo como modelo de conduta do que propriamente encará-lo como um inimigo

o imigrante é o símbolo perfeito do problema a ser enfrentado pelos

ou bode expiatório. “[

frentenegrinos. O imigrante não é o bode expiatório da FNB, ao contrário, sua luta para vencer numa nova terra e a união de suas associações são um exemplo para o negro” (OLIVEIRA, 2006, p. 50). A luta da FNB não era contra o imigrante, mas contra as influências externas, o internacionalismo e os ideais de “arianização” da autêntica raça brasileira, essa sim fruto da miscigenação de negros, índios e brancos. Só depois de

]

9 A associação entre as idéias de Arlindo Veiga dos Santos e o integralismo é constantemente lembrada no depoimento prestado por José Correia Leite: “Ao se fundar a Frente Negra, em meados de 31, São Paulo via o entusiasmo com que a colónia italiana abraçava e pregava as novas idéias políticas surgidas na Itália com o advento do fascismo. As reuniões em organizações dessa colônia eram presididas por pessoas de camisa negra, fazendo-se, aí, a saudação fascista; nos círculos de trabalhadores já falava-se muito em Dopolavoro. Os alemães, de seu lado, entusiasmavam-se com a

subida de Hitler ao poder. Apareciam, aqui, os primeiros pruridos da ação integralista, semelhante em muitos pontos ao movimento patrionovista dirigido pelo dr. Arlindo Veiga dos Santos.” “Por este motivo, a escolha do dr. Arlindo Veiga dos Santos para a presidência da Frente Negra foi aceita com restrições por vários negros, inclusive pelo grupo que se formara em torno do Clarim da Alvorada. Logo na elaboração dos estatutos, os quais deram à organização um caráter nitidamente

fascista, surgiram as primeiras divergências [

A identificação da orientação da Frente com os

ideais direitistas fica bem evidenciada através do fato – ocorrido mais tarde, quando da realização do Primeiro Congresso Negro da Ação Integralista – de haver o dr. Arlindo Veiga dos Santos feito um discurso no qual hipotecava ao referido partido a solidariedade da Frente e seus 200.000 negros” (MOREIRA e LEITE, p. 16-7).

].

consolidada essa nova raça, é que o problema da imigração poderia ser resolvido a partir de critérios estritamente nacionalistas, brasileiros, respeitando-se o lugar do negro na edificação da Pátria. Em outras palavras, “não [havia] ódio contra outras raças, mas contra o fato de todos progredirem no Brasil, menos o negro. Portanto, [a crítica questionava] o desmerecimento do negro frente a sua participação histórica na construção da nação e de sua raça” (OLIVEIRA, 2006, p. 50). O principal inimigo da FNB era, na realidade, a Primeira República, pela sua política racista de branqueamento e europeização, bem como pelo descaso com que a população negra tinha sido tratada durante todo seu período de pouco mais de três décadas. Essas seriam as posições hegemônicas no interior da FNB e sustentadas pelo seu veículo oficial de imprensa, A Voz da Raça (1933-1937). A divergência mais importante da Frente Negra surgiu com o grupo do jornal Clarim d’Alvorada, editado por José Correia Leite. Fundado em 1924 inicialmente como uma publicação de propósitos literários por Jayme de Aguiar e Correia Leite, aos poucos seu conteúdo vai se aproximando das idéias de reivindicação econômica, social, política e cultural da raça negra. Sob tal aspecto, o Clarim d’Alvorada se antecipou à fundação da própria Frente Negra. A ruptura entre, de um lado, José Correia Leite e o pessoal do Clarim e, de outro, o grupo liderado por Arlindo Veiga dos Santos ocorre logo nos primeiros momentos de construção da FNB, por ocasião da votação dos estatutos 10 da nova organização política do movimento negro. Correia Leite não concordava com o uso que, segundo ele, Arlindo Veiga dos Santos estava fazendo da Frente Negra, de instrumentalizá-la para defender seus ideais políticos patrionivistas e monarquistas. Correia Leite, dizendo-se republicano, democrático e socialista (LEITE e CUTI, 1992, p. 94), não concordava, entretanto, que o movimento negro devesse ter uma orientação política definida em termos de filiação a ideologias (integralistas, trabalhistas, socialistas, comunistas ou quaisquer outras) e a partidos. A principal preocupação de Correia Leite era, em última instância, com a autonomia e independência do movimento negro para que ele pudesse definir seus objetivos específicos sem a tutela externa de uma ou outra corrente política, fosse ela conservadora ou se pretendesse revolucionária. Outras dissidências marcantes na FNB foram a Legião Negra de São Paulo e a já mencionada Frente Negra Socialista, delas não se tratando aqui por razões de espaço. Por fim, cumpriria lembrar que a Frente Negra Brasileira, após ter conseguido seu registro como partido político – episódio esse, aliás, que deu margem ao debate sobre a inconstitucionalidade da existência de uma organização partidária voltada para a raça negra – foi proibida de funcionar em 1937 por determinação da ditadura do Estado Novo.

10 Para ter acesso aos estatutos da Frente Negra, consultar os anexos da dissertação de mestrado André Côrtes de Oliveira (2006). O estatuto pode também ser lido em Barbosa (1998, p. 110-1).

A intelectualidade negra de São Paulo e o Projeto Unesco

A parte final desta comunicação ficou reservada à análise dos debates ocorridos sob os auspícios da Unesco, entre os intelectuais negros nas Mesas Redondas da pesquisa sobre preconceito racial no Brasil. No relatório final redigido em conjunto por Roger Bastide e Florestan Fernandes, pelo menos uma referência direta ao modo como tais encontros eram organizados por comissões com atribuições específicas pôde ser encontrada:

Antes mesmo de iniciar o nosso estudo e conforme o sistema preferido por certos sociólogos norte-americanos, que recomendam o preparo de pesquisas pessoais por uma reunião coletiva, a fim de que todos possam compreender o interesse e as razões das perguntas feitas, reuniram-se numa mesa redonda os representantes mais qualificados dos paulistas de cor. O êxito dessa primeira reunião foi tal que pediram para trabalhar no inquérito. Tratou-se então de organizar sucessivamente: 1. º) uma comissão para o estudo das relações raciais entre brancos e pretos em São Paulo, composta dos pesquisadores escolhidos e dos representantes negros, com reuniões quinzenais no salão da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo, graciosamente posto à disposição pelo seu diretor, Prof. Eurípides Simões de Paula, que a todos muito animou e ajudou durante todo o trabalho. 2.º) uma comissão especial de alguns intelectuais de cor para preparar as reuniões da sociedade precedente e examinar de modo mais profundo certos problemas particularmente delicados. 3.º) uma comissão feminina encarregada de examinar os característicos do preconceito de cor relativamente à mulher e à criança, e que se reunia quinzenalmente no gabinete da I Cadeira de Sociologia. Essas diversas sociedades, criando um clima de camaradagem, contribuíram particularmente para o êxito da investigação. Mostraram como o preto vê a sociedade, como considera as relações entre brancos e pretos em São Paulo e quais as ideologias que elabora. (BASTIDE e FERNANDES, 1955, p. 11-2).

Os participantes de tais reuniões, como se pode ser informado pela leitura da introdução do relatório de pesquisa, “não podiam compreender senão líderes, intelectuais ou pessoas da classe média. Deixavam de lado a classe baixa, que constitui o grosso da população de cor” (BASTIDE e FERNANDES, 1955, p. 12). Mais adiante, os nomes dos referidos participantes são citados um por um, como agradecimento à colaboração prestada no andamento das investigações (BASTIDE e FERNANDES, 1955, p. 14). Uma descrição exaustiva das mesas redondas seria impraticável e ao mesmo tempo desnecessária em vista dos propósitos interpretativos a serem agora definidos. O material resultante dos registros taquigráficos dos encontros da intelectualidade negra paulistana pode ser analisado em múltiplas direções, porém o ponto de vista que aqui nos interessa mais especificamente é a possibilidade de caracterização de uma contra-ideologia racial, ou segundo Florestan Fernandes (1978, p. 87-115), de “uma ideologia de desmascaramento racial”. Nas intervenções ocorridas nos encontros da Pesquisa Unesco, pode-se perceber duas coisas anteriormente já sugeridas: 1.º) que, apesar da diversidade de posições, tendências e conflitos entre os intelectuais negros, haveria uma “situação de interesses comum” capaz de atuar como estímulo à elaboração de um conjunto de “reivindicações e palavras de ordem substancialmente idênticas” (FERNANDES, 1978, p. 92), de modo a

configurar uma ideologia racial de ampla aceitação e compartilhamento em alguns de seus elementos constitutivos; 2.º) as dissidências no interior da FNB foram de tal forma decisivas que desprezar as diferenças políticas irredutíveis entre os intelectuais negros implicaria não reconhecer variações típicas no conjunto multifacetado dessa contra-ideologia racial. Para dar conta de tal diversidade, pode-se pensar na hipótese de que algumas variações da ideologia racial divergente dos negros, mais do que outras de suas modalidades, estariam em melhores condições de realizar a crítica, a ruptura e o desmascaramento cada vez mais radicais e profundos da ideologia racial dominante. Atentando ao primeiro ponto, o da existência ou não de uma ideologia negra 11 , a reconstituição analítica das reuniões do Projeto Unesco seria o método mais adequado. Durante as mesas redondas – realizadas quase sempre quinzenalmente – vários temas eram discutidos de acordo com as escolhas feitas nas deliberações prévias da Comissão de Pesquisa, composta pelos pesquisadores e também representantes da comunidade negra.

O objetivo era atender tanto às necessidades dos trabalhos de investigação sobre o

preconceito racial em São Paulo, como aos interesses revelados pela intelectualidade negra

em debater e buscar soluções para seus próprios problemas. Geralmente, um dos participantes da comunidade negra ficava encarregado de discorrer sobre um determinado assunto, a exemplo do preconceito de cor nas escolas e parques infantis, de modo que a plenária pudesse depois desenvolver seus pontos de vista sobre as idéias do expositor

principal. Ao longo das intervenções eram colhidos depoimentos pessoais e relatos de casos

de preconceito e discriminação nas mais variadas circunstâncias 12 . A reconstituição analítica

11 Florestan Fernandes levanta essa questão, ao afirmar que “[

sugerem uma idéia falaciosa: que não existe uma ‘ideologia negra’ – nem mesmo variantes toscas de algo que pudesse merecer esse nome. No entanto, atrás das ambigüidades, das vacilações e das contradições (por vezes agravadas pelas lutas encarniçadas e sem quartel de líderes, de grupos ou de facções), havia uma situação de interesses comum. Por mais complexa e caleidoscópica que fosse essa situação de interesses, ela enredava os ‘agitadores’, comprometendo-os com reivindicações e palavras de ordem substancialmente idênticas. Essa realidade foi prontamente descoberta e apontada pelos principais expoentes da ‘imprensa negra’ (ainda que sem resultados práticos)” (FERNANDES, 1978, p. 92). Ou seja, as divergências não impediam a possibilidade de uma visão de mundo compartilhada.

12 Como uma rápida ilustração, a seguir um pequeno trecho de uma das reuniões com as mulheres negras, ocorrida em 14 de agosto de 1951, pode ser apresentado:

“Pergunta – A Senhora acha que existe o preconceito de cor?” “Resposta – (Profa. Maria Nascimento) – Existe. Não precisa explicação; basta ver por exemplo, andar pelas ruas da cidade e ver se encontra moças de cor trabalhando nas lojas e, mesmo as compradoras de cor, nem sempre são atendidas. É a ação do preconceito, naturalmente, em algumas casas. É o preconceito, por exemplo, do contacto entre brancos e pretos.” “Outro dia, entrei numa Loja da Rua Barão de Itapetininga, uma das 3a. ou 4a. casas do lado direito de quem vem da Praça da República. Esta casa vende a crédito; é uma casa de modas e eu queria mesmo obter um crédito. A pessoa que me atendeu, foi logo dizendo ‘não temos formulário’. Eu queria saber as condições das vendas e etc., mas não conseguindo obter o questionário e nem pelo menos uma explicação, saí da loja. Sente-se na maneira de ser tratada que há o preconceito. Isso se dá geralmente em casas de modas.”

é inegável que as aparências

]

do temário debatido nas mesas redondas permite verificar quais as opiniões mais freqüentes a respeito de cada um dos pontos da discussão, evidenciando em que medida haveria aproximações, disputas e divergências. Esse foi o procedimento adotado por Florestan Fernandes 13 ao analisar as reações dos intelectuais negros à promulgação da então chamada Lei Afonso Arinos, que tornava crime o preconceito de raça ou de cor. A referida lei, tendo sido promulgada em 1951, na mesma época da realização das reuniões do Projeto Unesco, foi amplamente debatida em várias sessões das mesas redondas, com o assunto voltando à tona em diferentes oportunidades. Vários outros temas e assuntos foram, então, discutidos em profundidade, dentre os quais, a existência ou não do preconceito de raça ou de cor, os reais propósitos da pesquisa realizada pela Unesco, a situação da mulher negra, as condições do negro na sociedade de classes, o comportamento da polícia em relação às pessoas negras etc. Enfim, uma gama muito complexa e abrangente de temas que às vezes se mesclavam no calor das discussões, de cuja análise poderá depender o delinemanto dos contornos mais gerais de uma ideologia do desmascaremento racial produzida por parcela da intelectualidade negra paulistana de meados do século XX. A análise completa dos temas abordados nas reuniões da Pesquisa Unesco não seria possível diante das limitações de espaço, porém uma rápida consideração do primeiro quesito lançado aos intelectuais negros presentes na mesa redonda de abertura poderá indicar a convergência de opiniões e atitudes. O encontro inicial ocorreu no dia 8 de maio de 1951, tendo como local o auditório da Biblioteca Municipal de São Paulo. Essa primeira reunião foi presidida por Roger Bastide e secretariada por Jorge Prado Teixeira 14 ; nela, foi pedido aos presentes para que eles dissessem se o preconceito de cor existia ou não, se afirmativa ou negativa a resposta deveria ser explicada e exemplificada. As opiniões quanto

13 “A sondagem das repercussões da lei [Afonso Arinos] não seria completa, todavia, se ficasse confinada àquilo que foi posto em relevo pelos jornais. Por isso, procuramos colher dados que

pudessem esclarecer melhor como a ‘lei contra preconceito de raça ou de cor’ foi recebida no ‘meio

por meio da coleta de depoimentos prestados por personalidades de cor,

publicamente, na Comissão de Estudo das Relações Raciais entre Brancos e Negros em São Paulo que organizamos para realizar as nossas pesquisas, com a colaboração direta e ativa dos elementos negros, conseguimos reunir indicações que permitem estabelecer uma espécie de quadro geral das reações provocadas pela referida lei. Naturalmente, as opiniões emitidas pelos informantes não poderão ser transcritas, pois isso exigiria muito espaço. Contudo, a exposição analítica das atitudes que se repetem com relativa freqüência e congruência dá ensejo a que o leitor seja informado de uma maneira completa, ainda que menos satisfatória” (FERNANDES, 1955, p. 216).

Cada Mesa Redonda era presidida por uma pessoa diferente, escolhida entre os próprios intelectuais negros. Para se ter uma idéia de como era feita a escolha dos presidentes em cada uma das reuniões, na ocasião da realização da Quinta Mesa Redonda (26/07/1951) o convite foi feito a Arlindo Veiga dos Santos por Florestan Fernandes da seguinte forma: “Hoje eu gostaria de seguir o nosso princípio de presidência rotativa. Cada reunião ou grupo indica um presidente. Como o Prof. Arlindo Veiga dos Santos está presente, e até hoje não nos deu o prazer de presidir as nossas reuniões, eu gostaria de sugerir ao Plenário o seu nome e gostaria que os Senhores se manifestassem. (Palmas)”. Jorge Prado Teixeira era um dos membros da Comissão de Pesquisa e foi o encarregado direto de realizar os convites e contatos com a intelectualidade negra de São Paulo para que ela se dispusesse a participar dos debates para a concretização da Pesquisa Unesco.

14

negro’ de São Paulo. [

]

a esse aspecto foram bastante convergentes e coerentes entre si. As mais diversas

personalidades negras, heterogêneas dos pontos de vista de suas origens sociais e posições políticas, eram quase unânimes em afirmar a existência do preconceito de raça ou de cor em São Paulo e no Brasil. Pessoas como Geraldo Campos de Oliveira, Sofia Campos

e Luiz Lobato, que seguiam uma orientação socialista 15 , e Arlindo Veiga dos Santos, que

carregava uma concepção de mundo conservadora e de fortes afinidades com o integralismo, eram peremptórias ao afirmar a existência do preconceito, embora em alguns, como Lobato, havia a ambigüidade de considerar se a origem da discriminação seria econômica ou racial. As posturas mais vacilantes em relação a admitir a existência do preconceito provinham de indivíduos que, por força do prestígio de suas atividades profissionais, podiam circular em meios sociais vedados aos negros mais pobres, como Edgard Santana (médico) e Ângelo Abaitaguara. Este último afirmava a não existência do preconceito porque no Brasil não havia negros, já que uma nova raça miscigenada estava em processo de formação. Apenas em poucas situações eles poderiam reconhecer a manifestação do preconceito. O que interessa a salientar, contudo, é que os conteúdos das representações sociais observadas nas Mesas Redondas, quanto a esse tema e muitos outros, eram mais ou menos convergentes, homogêneos e coerentes, evidenciando certa difusão de uma contra-ideologia racial entre a intelectualidade negra. O segundo ponto se coaduna mais diretamente com a questão do teor emancipatório da contra-ideologia racial, na medida em que esta não só reelabora a ideologia dominante e seu correlato “mito da democracia racial”, mas também provoca a crítica radical desta última e constrói sua autonomia pela noção de ruptura. Ao menos três variações da ideologia do desmascaramento racial podem ser identificadas no exame dos debates ocorridos por ocasião do Projeto Unesco em São Paulo, desde posições mais próximas ao fascismo (a ideologia do patrionovismo ou do orgânico-sindicalismo de Arlindo Veiga dos Santos), passando por uma postura marxista tendente a negar a especificidade do problema racial de modo a encará-lo como subordinado aos conflitos econômicos e de classe (o marxismo de Luiz Lobato), até uma atitude radical 16 de defesa da independência e autonomia políticas das lutas sociais dos negros (como em José Correia Leite). Nos casos de Arlindo Veiga dos Santos e Luiz Lobato, alguns dos pressupostos da ideologia racial dominante não são questionados até suas últimas conseqüências. É patente, no primeiro, a sedução pela idéia

15 Segundo nos informa José Correia Leite, “Lobato, Geraldo Campos, Lucrécio e Sofia Campos militaram no Partido Socialista” (LEITE e CUTI, 1992, p. 162).

O termo radical não deve ser entendido aqui como posição sectária ou extremista e, sim, como sinônimo de radicalismo (ou de pensamento radical), no sentido em que Antonio Candido (1990) propõe sua compreensão: como um estilo de pensamento visceralmente anticonservador e vinculado ao desejo de impulsionar as transformações sociais progressistas situadas nos seus contextos específicos. Para Candido, que vincula o radicalismo a posições de classe média, o pensador radical seria progressista e contra os conservadores, porém não poderia ser caracterizado propriamente como um revolucionário.

16

de que a miscigenação estava constituindo uma raça brasileira, composta pelo sangue de negros, brancos e índios, da qual iria surgir no futuro a solução dos problemas do preconceito e da discriminação. À gente negra 17 caberia apenas lutar para ter seu lugar reconhecido nessa vindoura comunhão nacional, não perdendo seu posto de direito para o imigrante e o elemento ariano. Tratava-se, em síntese, de uma inversão e reelaboração, no âmbito das lutas sociais do movimento negro, de componentes essenciais do “mito da democracia racial”. Já em Luiz Lobato 18 , a própria compreensão da especificidade das lutas raciais contra a discriminação ficava prejudicada pela idéia de que a origem do preconceito era econômica ou, no fim das contas, um mero problema de classe social. Em sua intervenção na Mesa Redonda da Pesquisa Unesco, de 7 de agosto de 1951, dirá:

Entendo que quando se trata de questão de classe social desaparece negro e branco. Surgem nada mais, nada menos do que elementos de uma classe e de outra classe [ ] Não posso discorrer sobre uma sociedade de classes se não abordar a sua estrutura, que é a sua economia. Ora, o elemento estrutural de uma classe é a sua economia. Só pode ser rico quem tem dinheiro, quem é dono de uma determinada produção. Só pode ser pobre quem não é dono de uma determinada produção e é trabalhador. Eu disse que quando pretos e brancos estão dentro de uma fábrica e que lutam por aumento de salários, desaparece preto e branco. É uma classe. [ ] É preciso que nós mesmos nos eduquemos; nós mesmos digamos a nós, aos nossos filhos e aos nossos amigos que o preconceito nada mais é que uma simples conseqüência de uma determinada situação econômica, social, que nós estamos vivendo. Que nós digamos aos nossos vizinhos, brancos ou pretos, que o preconceito nada mais é que uma simples decorrência de uma situação econômica, social, que nós estamos atravessando.

A idéia de que a questão do preconceito não seria racial, mas econômica e de classe, como constitutiva da ideologia dominante permanece intacta na intervenção de Luiz Lobato. Sob tal prisma, ele não consegue romper radicalmente com um dos pressupostos do “mito da democracia racial” mais difíceis de combater. A última posição, a de José Correia Leite 19 , ia bem mais longe na crítica e ruptura radicais com a ideologia racial dominante, ao defender de modo intransigente a especificidade do problema do negro e a necessidade de autonomia e independência em seus movimentos reivindicatórios. As relações que o movimento negro poderia ter com outras organizações iria sempre depender dessa sua postura autônoma. Nesse sentido, pode-se dizer que em Correia Leite a ruptura com a ideologia racial dominante mais se aprofundou, de modo que seu pensamento representa um grande legado para o projeto emancipatório da comunidade afro-brasileira.

17 Segundo José Correia Leite (1992, p. 19), Arlindo Veiga dos Santos não costumava falar raça e preferia dizer “gente negra”.

Caberia lembrar que Luiz Lobato não foi militante da Frente Negra Brasileira. Era proveniente do Maranhão e chegou a ter uma seção no jornal Vanguarda Socialista destinada a tratar de assuntos pertinentes ao negro. Seus artigos, que criticavam o movimento negro da época por não ser socialista, eram assinados com o nome de Imperador Jones (LEITE e CUTI, 1992, p. 148).

19 José Correia Leite freqüentou as Mesas Redondas, pois em diferentes momentos sua presença era mencionada. Entretanto, intervenções suas não foram encontradas. Como o material de algumas reuniões se perdeu, talvez isso possa explicar seu total silêncio nos debates.

18

Referências bibliográficas

BARBOSA, Márcio. (1998), Frente Negra Brasileira: depoimentos. São Paulo: Quilombhoje.

BASTIDE, Roger, FERNANDES, Florestan (Org.). (1955), Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. São Paulo: Anhembi.

CANDIDO, Antonio. (1990), Radicalismos. Estudos Avançados, São Paulo, v. 4, n. 8, p. 4-18, jan./abr.

FERNANDES, Florestan. (1955), A luta contra o preconceito de cor. In: BASTIDE, R., FERNANDES, F. (Org.), Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. São Paulo: Anhembi.

(1978), A integração do negro na sociedade de classes (No limiar de uma nova era). 3. ed. São Paulo: Ática. v. 2.

(1989), O significado do protesto negro. São Paulo: Cortez/Autores Associados.

GRAMSCI, Antonio. (2000), Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. v. 2.

GUIMARÃES, Antonio Sérgio Afredo. (2002), Classes, raças e democracia. São Paulo:

Editora 34.

LEITE, José Correia, CUTI, Luiz Silva. (1992),

E disse o velho militante José Correia

Leite. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura.

MARIÁTEGUI, José Carlos. (1995), El problema de las razas en la América Latina. In:

QUIJANO, A. (Org.). José Carlos Mariátegui: textos básicos. México: Fondo de Cultura Económica.

NASCIMENTO, Abdias do, NASCIMENTO, Elisa Larkin. (2000), Reflexões sobre o movimento negro no Brasil (1938-1997). In: GUIMARÃES, A. S. A., HUNTLEY, L. (Org.), Tirando a máscara: ensaio sobre o racismo no Brasil. São Paulo: Paz e Terra.

OLIVEIRA, A. C. de. (2006), Quem é a “Gente Negra Brasileira?”: Frente Negra Brasileira e A Voz da Raça (1933-1937). Campinas, 139 p., Dissertação de Mestrado em História, Universidade Estadual de Campinas.

Materiais consultados no arquivo particular de Florestan Fernandes

Estudo de caso sobre os movimentos sociais no meio negro, preparado por Renato Jardim Moreira com depoimentos prestados por José Correia Leite.

A história de vida de Francisco Lucrécio, elaborada por Renato Jardim Moreira.

Registros das Mesas Redondas da pesquisa Unesco sobre preconceito racial no Brasil, com a participação da intelectualidade negra paulistana (8 de maio de 1951, Biblioteca Municipal; 5 de junho de 1951, Salão Nobre da FFCL da USP; 26 de junho de 1951, Salão Nobre da FFCL da USP; 24 de julho de 1951, Salão Nobre da FFCL da USP; 26 de julho de 1951, Biblioteca Municipal; 7 de agosto de 1951, Salão Nobre da FFCL da USP; 17 de novembro de 1951, Salão Nobre da FFCL da USP).