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A República do Judiciário - Caderno de Direito & Justiça do Jornal Es

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A República do Judiciário

Thalles Henrique Rocha Claves - 4º período de direito do Unileste-MG

Publicação: 13/12/2013 04:00

Em tempos de insatisfação popular e insegurança do povo brasileiro, o Judiciário tem se destacado por suas decisões, ora para alívio dos populares, ora para consumição de juristas e políticos. Em julho, o ministro Joaquim Barbosa, em decisão monocrática, deferiu liminar na ação direta de inconstitucionalidade proposta pela Associação de Procuradores Federais (Anpaf) sobre a criação dos novos tribunais regionais federais, suspendendo a Emenda Constitucional 73 até a decisão do mérito sobre a ADI.

A separação dos poderes, nos moldes pensados por Montesquieu, não parece que se aplica no sistema

brasileiro. Tem sido praxe as intervenções de um poder no outro, quando interesses corporativos ficam em

xeque. Observe-se outra decisão, sobre tema vastamente difundido e comentado na imprensa, na qual novamente o ministro Joaquim Barbosa estipulou um prazo de 10 dias para o Poder Executivo explicar sobre a Medida Provisória 621/13, que institui o programa Mais Médicos. Essa medida foi fruto de um mandado de segurança do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ), que questiona os requisitos legais sobre a existência de urgência ou emergência, necessários para caracterizar uma edição desse tipo de norma.

Há outros casos para exemplificar o intervencionismo judicial na gestão pública nacional, porém, os dois citados servem ao objetivo proposto. Enquanto se discute a constitucionalidade e os interesses das mais diversas parcelas do poder público, o alvo e verdadeiro detentor desse poder – o povo – continua à mercê da morosidade da Justiça, com a má prestação de serviços públicos, o exílio abissal da atenção dos agentes políticos (estes designados pelo entendimento de eminente administrativista Hely Lopes Meirelles).

Atualmente, vê-se o Judiciário intervindo na gestão pública e na atividade legiferante do país. Tal atitude, muitas vezes incentivada pelos próprios poderes Executivo e Legislativo. No caso da Medida Provisória 621/13, um próprio deputado é autor do mandado de segurança. Pergunta-se se não seria mais viável aguardar o próprio trâmite da MP, que para virar lei precisa passar pelo crivo do Congresso Nacional, momento oportuno em que o deputado poderia fazer suas ponderações.

No site do Ministério da Saúde tem-se tutorial para impetrar uma ação, com direito a jurisprudências e pareceres contra o Sistema Único de Saúde (SUS), para obtenção de remédios e outros direitos já assegurados na Lei do SUS 8.080/90 e na própria Carta Magna.

Percebe-se que o abarrotamento do Judiciário é motivado muitas vezes pela própria administração pública. Atitudes que levam aquele próprio poder a chamar para si situações que a priori não lhes caberia.

O ministro Luís Roberto Barroso, quando de sua sabatina no Senado, ao ser perquirido sobre o ativismo

judicial, afirmou: “Quando há uma manifestação política do Congresso ou do Executivo, o Judiciário não deve ser ativista, deve respeitar a posição política. Mas se não há regra, o Judiciário deve atuar”. Tal posição do ministro, que, de logo, mostra-se pertinente, não tem sido a que efetivamente ocorre no sistema jurídico brasileiro.

O Judiciário não só tem interpretado leis. Tem solucionado casos na falta delas, como também, intervindo

na elaboração e validade das mesmas. Cesare Beccaria, na sua atemporal obra Dos delitos e das penas, diz que “cabe ao juiz aplicar a lei, a qual a recebe do representante da sociedade, depositário legítimo da atual vontade de todos; a ele não cabe legislar, pela razão mesma que não são legisladores”.

É de conhecimento geral que, saindo do mundo filosófico, muitas vezes as leis não são resultado da

vontade de todos, mas meio de consecução de interesses minoritários. Porém difícil se torna a explicação

a um cidadão que a decisão de um único juiz possa se sobrepor a uma norma emanada de um órgão com 594 legisladores.

Evidentemente, o bom senso deve ser ponderado em todas as relações dos poderes públicos e entre estes

e seus administrados, para que a independência e harmonia entre os poderes, preconizada no artigo 2º da

Constituição Federal de 1988, sejam efetivamente cumpridas. O Supremo, como guardião da Constituição,

efetivamente deverá se manifestar em determinados assuntos. O que não se concebe é chamar para si a responsabilidade da condução do país.

Salutar que a harmonia e a separação dos poderes (ou funções) sejam respeitadas, e que o princípio de acesso à Justiça não carregue nesta última palavra o sinônimo de Judiciário, mas seu significado ético-filosófico, seja na justiça aristotélica, seja na perspectiva utilitarista de John Stuart Mill e Jeremy Bentham, seja na ótica comunitarista defendida por Michael Sandel.

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