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QUIVY, Raymond & CAMPENHOUDT, Lucvan. Manual de investigação em ciências sociais. A construção do modelo de análise (pp 119-151). Lisboa: Gradiva Publicações, 1992.

O modelo de análise é a ligação entre a “problemática fixada pelo pesquisador” e “o seu trabalho de elucidação de um campo de análise forçosamente restrito e preciso” p. 119

Como elaborar e quais são as suas características principais?

Exemplo - “O Suicídio” de Durkheim

definição de duas categorias - suicídio e taxa de suicídio - situadas em uma idea teórica - “dimensão social do suicídio”

- duas categorias complementares que delimitam investigação e que têm operacionalidade - por isso são conceitos

o

objeto

de

“À elaboração de conceitos chama-se conceitualização” - uma das dimensões principais da construção de um modelo de análise;

Sozinhos, os conceitos não dizem nada sobre como estudar o fenômeno. Por isso, assegura-se essa função às hipóteses - “possíveis respostas às perguntas postas ao pesquisador”;

No exemplo, Durkheim, num primeiro momento, pressupõe que o fenômeno tem causas ligadas ao funcionamento da sociedade, procura as causas sociais do suicídio;

Em um segundo momento, sugere que as taxas de suicídio de uma sociedade está ligada ao grau de coesão dessa sociedade: quanto menos forte for a coesão social, mais elevada será a taxa de suicídio. Chega assim na hipótese que permite a seleção dos dados estatísticos serem analisados;

Durkheim configura a hipótese na relação entre dois conceitos - taxa social de

suicidio (já definido) e conceito remete?);

coesão social (não definido - a que tipo de dados esse

Operacionaliza o conceito de coesão social pelas dimensões da coesão religiosa e coesão familiar; as dimensões podem ser medidas pelos determinados indicadores - que são traços facilmente observados;

Na medida em que os conceitos relacionados apresentados na hipotese se operacionalizam pelos indicadores, eles se tornam variáveis;

Já que a variação da coesão social explicam a variação da taxa de suicídio, aquela é variável explicativa, esta variável dependente;

Para além da hipótese do suicídio egoísta, Durkheim apresenta outra duas hipóteses: a do suicídio altruísta e do suicídio anômico;

Assim, Durkheim constrói o seu modelo de análise como “um sistema coerente de conceitos e de hipóteses operacionais”.

Quadro analítico proposto

Conceitos

Hipótese central

Dimensões

Variáveis

Indicadores

Variação empírica

Exemplo do estudo “Marginalidade e Deliquência”

Conceitos: relação social e ator social;

Assentados na perspectiva da sociologia da ação e na ideia teórica de que a deliquencia é “efeito de uma exclusão social” e “processo de resposta a essa exclusão”. Ainda, “o deliquente vai cultivará a sua exclusão e sua deliquência” e assim constitui-se como ator social;

Duas hipóteses operacionalizadas na “forma como são estruturadas as relações sociais”, sustentadas por um sistema conceitual que articula os conceitos e clarifica as hipóteses (uma hipótese central - pergunta central e hipóteses complementares - conceitos auxiliares);

Por que as hipóteses são estruturantes do modelo de análise?

Por ser o trabalho de investigação um vaivém entre a reflexão teórica e o trabalho empírico, as hipóteses (como critérios para seleção de dados) exprimem

como um modelo de análise pode ser testado, assim contribuindo pela coerência entre esses movimentos do particular - geral/geral- particular.

Como construir o modelo?

  • - pergunta central de investigação

  • - hipótese - como resposta provisória a pergunta

como um modelo de análise pode ser testado, assim contribuindo pela coerência entre esses movimentos do

“O modelo prepara-se ao longo de toda a fase exploratória”

  • - Conceitualização:

criar um conceito é determinar as dimensões que o compõem e

depois precisar os indicadores pelos quais essas dimensões serão medidas.

“Os

indicadores

são

dimensões dos conceitos”.

manifestações

objetivamente

observáveis

e

mensuráveis das

  • - Duas formas de elaborar o modelo: começando pelas hipóteses ou ao contrário. A

forma indutiva cria 1. “conceitos operatórios isolados” e a forma dedutiva, 2. “conceitos

sistemáticos”;

  • 1. “conceitos operatórios isolados”

É um conceito construído empiricamente, a partir das observações diretas ou de informações reunidas por outro. Da variação de aspectos do fenômeno, configura as dimensões do conceito.

  • 2. “conceitos sistemáticos” construção assenta-se

“A

sua

na

lógica das

relações

entre

os elementos de

um

sistema”. É construído por raciocínio abstrato. Geralmente, se articula com um quadro de

pensamento mais geral, um paradigma. Das dimensões definidas, extraem-se os componentes e os indicadores.

Esses dois conceitos, para além da forma indutiva ou dedutiva, também se diferenciam pelo grau de ruptura com as pré-noções, cada um a seu modo. Se o primeiro fica sujeito à influência dos preconceitos ou esquemas mentais preconcebidos. Já o segundo o indicador acaba sendo uma consequência lógica de um raciocío anterior; não é um estado de coisas, mas uma categoria mental.

Entretanto,

o

conceito

sistêmico

é

a

“forma

mais

apta

para

romper

com

os

preconceitos, pois “o empirismo do procedimento indutivo torna [o conceito operatório] mais

vulnerável aos preconceitos”.

Como definir as hipóteses?

“Não há observação ou experimentação que não se assente em hipóteses”.

Podem ter duas formas diferentes:

1. a que o conceito já apresenta uma formulação implícita de uma hipótese sobre o real (relação entre conceito e fenômeno); 2. a mais frequente - relação entre dois conceitos ou relação entre dois tipos de fenômenos que os designam;

A

hipótese

deve

ser

expressa

de

forma

observável.

A

verificação

empírica

é

a

confrontação da hipótese e dos dados de observação.

 

É

difícil

falar

em

hipótese sem

tratar ao mesmo tempo o modelo implicado pela

problemática.

Quadro 1 - Hipóteses e modelos

Conceito

Hipótese

Modelo

sistêmico

teórica ou deduzida

téorico

operatório

induzida e empírica

mimético

(pré-noções)

(sem interesse e perigosa)

(sem objeto)

Quadro 2 - Método e modelo de análise

Método hipotético - indutivo

 

Método hipotético-dedutivo

 

A

construção

parte

da

observação.

O

A construção parte de um conceito

Este modelo gera, a partir de trabalho

indicador é de natureza empírica. A parti

postulado como modelo de

dele constroem novos conceitos, novas hipóteses e o modelo que será

interpretação do fenômeno estudado.

submetido ao teste dos fatos.

lógico, hipóteses,

conceitos

e

indicadores que se procurará

correspondente no real.

Refutabilidade de hipóteses?

Uma hipótese pode ser testada quando existe a possibilidade de decidir em que medida ela é falsa ou verdadeira. O debate epistemológico traz que, mesmo com todo o rigor na pesquisa, uma hipótese não pode ser definitivamente verdadeira.

Duas condições para critério de cientificidade: para ser refutável uma hipótese deve ter

caráter de generalidade (não pode ser um dado relativo a uma situação particular, não é interpretação de uma acontecimento particular); ainda, só pode ser refutada se admitir

enunciados contrários que sejam suscetíveis de

verificação.

.