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EDUARDO KENEDY IVO DA COSTA ROSÁRIO MARIANGELA RIOS ANA BEATRIZ ARENA BETHANIA MARIANI LUCÍLIA SOUSA

EDUARDO KENEDY IVO DA COSTA ROSÁRIO MARIANGELA RIOS ANA BEATRIZ ARENA BETHANIA MARIANI LUCÍLIA SOUSA ROMÃO VANISE MEDEIROS SILMARA DELA SILVA

ORGANIZAÇÃO

ROBERTO PAES

1ª edição

rio de janeiro

2013

Conselho editorial

mariangela rios de oliveira, paula caleffi, roberto paes de carvalho ramos, rosaura de barros baião

bethania sampaio correia mariani, magda ventura,

Organizador do livro

roberto paes de carvalho ramos

Autores dos originais

rosário (capítulo 2), mariangela rios de oliveira e ana beatriz arena (capítulo 3), bethania sampaio correia mariani e lucília maria sousa romão (capítulo 4), vanise gomes de medeiros e silmara cristina dela da silva (capítulos 5 e 6)

eduardo kenedy nunes areas (capítulo 1), ivo da costa

Projeto gráfico e desenho didático

paulo vitor fernandes bastos

Redação final e desenho didático

roberto paes de carvalho ramos

Revisão linguística

aderbal torres bezerra

Com a colaboração de

jarcélen thaís teixeira ribeiro

daniela ferreira reis, flavia oliveira teófilo da silva,

Site de apoio ao projeto editorial

vilar goulart dos santos, rafael de freitas alvarez jourdan, tainara oliveira da rocha e thiago lopes amaral.

andré renato fernandes lage, danielle

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por quaisquer
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou
transmitida por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e
gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão
escrita da Editora. Copyright seses, 2013.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)
l755 Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras
Roberto Paes [organizador].
— Rio de Janeiro: Editora Universidade Estácio de Sá, 2013.
128 p
isbn: 978-85-60923-05-2
1.
Língua portuguesa, estudo e ensino 2. Linguagem 3. Texto
4.
Discurso 5. Comunicação escrita I. Título.
cdd 469.09

Diretoria de Ensino – Fábrica de Conhecimento Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa Rio Comprido – Rio de Janeiro – rj cep 20261-063

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Sumário

Prefácio

7

1. Linguagem, sociedade e cognição

9

A

linguagem humana

 

10

Linguagem e língua

 

12

Língua = fenômeno cognitivo e sociocultural Aquisição da linguagem Formas e funções linguísticas Arbitrariedade

15

17

21

24

Iconicidade

 

25

A linguagem humana em ação

 

27

A enunciação

 

30

Função referencial x metáfora Para concluir

 

32

 

33

2. Língua e variação linguística

35

Papel e status dos interlocutores na comunidade linguística Propósitos da língua: exemplificando pela modalização Transformações na trajetória da língua: mudança e variação Variação linguística Por que a mesma língua é, também, diferente? Explorando mais o tema: variações dialetais

36

37

38

39

40

42

 

Variação diatópica (dialetal) Variação diastrática (sociocultural)

 

42

 

42

Língua padrão e língua culta Língua culta

 

44

 

47

E

as outras formas de uso?

 

48

Preconceito e poder no uso da língua

 

49

3. Linguagem, unidade e diversidade

53

Língua vernacular Propriedades do texto falado Propriedades do texto falado: a fragmentação Propriedades do texto falado: a situacionalidade Propriedades do texto falado: a reiteração Propriedades do texto escrito Propriedades comuns da fala e da escrita

55

57

58

59

61

62

65

4.

Gênero, tipologia e sentido

69

O

gênero discursivo

 

72

Do gênero para o funcionamento do discurso Tipologia discursiva

 

75

 

77

 

Discurso lúdico

 

77

Discurso polêmico

 

79

Discurso autoritário

 

79

Situações de oralidade Homofonia

 

80

81

Das tramas orais para a análise da conversação Linguagem em contextos midiáticos: o caso do blog Blog e jornalismo

82

85

86

5. Texto: coesão e coerência

89

Referência e referenciação Da referência para a coesão Coesão referencial endofórica

 

91

 

93

 

95

Coesão por elipse Coesão sequencial Organização da estrutura textual Argumentação e texto argumentativo Argumentação e ironia Intertextualidade

96

97

99

101

104

105

6. Texto, discurso e interpretação

109

Do texto ao discurso

 

113

Retomando o conceito: condições de produção

116

O

não-dito e os sentidos

 

121

O

não-dito e o silêncio

 

124

O

dizer e o já-dito

125

Sujeito e sentido

 

127

Prefácio

Durante muito tempo, atrevo-me a dizer que estivemos trabalhando a língua, as situações de linguagem, de forma quase “estática”, enfatizando somente um aspecto da língua: o aspecto formal ou a forma de prestígio, como hoje é denominada essa formalidade da lín- gua. Essa denominação, na verdade, parece ser a mais adequada, já que a referida forma

é extremamente considerada e serve como determinante de um “bom falar” e de “saber se

comunicar”. Será que é assim? Diversas atividades nos mostram a língua sendo utilizada de forma extremamente versá- til, não só em relação a vocabulário específico e à forma de falar de cada região mas também em relação às situações com as quais nos deparamos. Bem, estamos falando de atividades de linguagem que, como tais, pressupõem a existência de “sujeitos” para se efetivarem. Logo, estamos falando de interações sociais, troca de mensagens, e os sujeitos que atuam nesses

cenários são diferentes, porque têm formações diferentes, histórias diferentes, experiências diferentes. Isso nos dá enormes possibilidades de trocarmos mensagens de várias maneiras,

o que não significa que, necessariamente, teremos comunicações superiores a outras. Claro que podemos, sim, ter comunicações mais claras, mais organizadas que outras. Na busca de melhor entendimento dessa questão, diria que a consciência da necessida- de de adequação das mensagens funciona como fator de fundamental importância para

o bom andamento da interação. Melhor dizendo, cada situação necessita de adequação da

linguagem, o que inclui formalidade, informalidade e semiformalidade. Essa imagem fica mais clara quando falamos de festas: algumas exigem roupas a rigor, outras, como festas ou reuniões com amigos, jantares ou almoços com familiares, por exemplo, permitem rou- pas e cores diferentes. Enfim, para cada situação, concordamos que há uma vestimenta adequada. Pois bem, o mesmo se dá com a organização de nosso discurso, de modo que adquirir o aspecto formal da língua também faz parte das habilidades do falante. Dito isso, podemos anunciar o objetivo deste livro: focalizar a linguagem em movimento, dando ênfase à formalidade e à semiformalidade através de várias possibilidades de organi- zação do discurso e práticas textuais, sem desconsiderar o potencial linguístico de cada um. Mas como fazer isso? Trabalhando com a habilidade de leitura e a produção escrita, refle- tindo sobre a relação dos elementos que compõem o texto, pois este é tomado como ponto de partida por ser lugar de interação, de interpretação e produção de mensagens, onde há produção de sentido. Entendemos que trabalhar atividades de linguagem focalizando a lín- gua em movimento potencializará as habilidades dos leitores, enfatizará um comportamen- to maduro em relação ao uso linguístico, podendo, com isso, auxiliar na tarefa de desfazer preconceitos e alargar a noção de língua — algo muito maior que, essencialmente, as regras gramaticais. Estas, juntamente com contextos socioculturais que integram a noção de mun- do de cada um, constituem esse fenômeno que possibilita diversas formas de comunicação. Celebramos, juntamente com os autores que fizeram parte do início dessa conquis- ta, o nascimento de um livro que pretende conduzir à reflexão de assuntos urgentes em termos de linguagem, mesmo considerando que alguns assuntos ou conceitos, pela própria dificuldade de tratamento que trazem, não são muito acessíveis. Se a “leveza” com que pretendemos tratar tais assuntos for percebida e digerida por você, teremos dado um grande passo.

rosaura de barros baião

1

Linguagem, sociedade e cognição

eduardo kenedy

1 Linguagem, sociedade e cognição

1 Linguagem, sociedade e cognição CURIOSIDADE Sons da linguagem: É com base em apenas três ou

CURIOSIDADE

Sons da linguagem:

É com base em apenas três ou quatro

dúzias de sons que nós, falantes de uma língua natural qualquer – como o português, por exemplo –, consegui- mos dominar dezenas de milhares de palavras, as quais, quando combinadas entre si de maneira ordenada, permi- tem-nos a produção e a compreensão de um número potencialmente infinito de frases e textos.

de um número potencialmente infinito de frases e textos. CURIOSIDADE Língua de surdos: O Brasil possui

CURIOSIDADE

Língua de surdos:

O Brasil possui a Língua Brasileira de

Sinais (libras). Ao contrário do que muitos pensam, a libras não é uma gestualização da língua portuguesa; na verdade, é uma língua à parte. Tanto é que, em Portugal, a língua de sinais é diferente da brasileira.

eduardo kenedy

Linguagem, sociedade e cognição

A linguagem humana

A linguagem humana é um fenômeno impressionante. Ela se faz pre-

sente em quase todos os momentos da vida de uma pessoa: desde o seu nascimento, quando recebe um nome e é inserida em uma comu-

nidade de fala, até a maturidade, quando transita diariamente pelos complexos sistemas de comunicação e interação social modernos. Concretizada em uma das milhares de línguas hoje existentes no mundo, a linguagem humana nos surpreende porque é capaz de fazer muito a partir de pouco.

A posse da linguagem, com seu ilimitado poder expressivo, faculta

aos humanos a organização e a veiculação de pensamentos, ideias, con- ceitos, valores e, dessa forma, insere cada indivíduo que domina (pelo menos) uma língua no dinâmico e intenso fluxo comunicativo das socie- dades contemporâneas. Com efeito, os poucos sons da linguagem oral podem ser substituídos por algumas letras em um sistema de escrita ou por centenas de sinais em uma língua de surdos sem que, com isso, o

poder mobilizador da linguagem seja significativamente alterado. Seja na fala, na escrita ou na sinalização, a experiência humana se faz rica e ilimitada com a linguagem e pela linguagem. Para que você tome consciência da complexidade social e cogni- tiva subjacente a um simples ato da linguagem humana, pense no seguinte exemplo:

simples ato da linguagem humana, pense no seguinte exemplo: EXEMPLO Um homem caminha distraído pela cidade,

EXEMPLO

Um homem caminha distraído pela cidade, aproveitando os momentos que ainda lhe

sobram de seu horário de almoço. Subitamente, ele se dá conta de que pode estar

atrasado para o retorno ao trabalho e diz para si mesmo, com aquela voz interna e

silenciosa que, muitas vezes, ordena os nossos pensamentos: “Devo estar atrasado!”.

Com essa impressão, o homem se dirige a um transeunte e pergunta:

— Com licença. O senhor pode me informar as horas?

O transeunte, por sua vez, compreende o estado mental de seu interlocutor –

sua intenção de ser informado a respeito do horário – e busca o comportamento

adequado para a situação: olha para o relógio de pulso e dele retira a informação

necessária, que é codificada na frase-resposta:

— São doze e trinta!

A aparente banalidade de um evento como esse esconde sob si

um fenômeno extraordinário: a interação entre a mente humana e a

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

realidade sociocultural na tarefa de produzir e compreender estru- turas e significados linguísticos. Podemos não nos dar conta, mas, na comunicação humana, o indivíduo que fala executa trabalho so- ciocognitivo muito complexo. Ele deve codificar os seus pensamen- tos e as suas ideias em palavras, que, por sua vez, devem ser combi- nadas entre si em frases, as quais, por fim, são pronunciadas para um interlocutor em um dado contexto discursivo. Da mesma forma, a tarefa do indivíduo que compreende é também engenhosa: ele deve decodificar os sons da fala que lhe são dirigidos no ato do discurso, de modo a identificar palavras e frases para, assim, conseguir interpretar os pensamentos e as ideias de seu colocutor.

interpretar os pensamentos e as ideias de seu colocutor. REFLEXÃO Ora, podemos perguntar: como os humanos

REFLEXÃO

Ora, podemos perguntar: como os humanos fazem isso? De que maneira essa

sequência de codificação e decodificação de formas e significados linguísticos

ocorre? Pense bem, pois as respostas para essas perguntas não são nada

fáceis ou simples.

para essas perguntas não são nada fáceis ou simples. CURIOSIDADE Ciências da linguagem: Essas ciências vêm

CURIOSIDADE

perguntas não são nada fáceis ou simples. CURIOSIDADE Ciências da linguagem: Essas ciências vêm alcançando um

Ciências da linguagem:

Essas ciências vêm alcançando um extraordinário desenvolvimento ao longo das últimas décadas e, assim, muitos segredos a respeito da estrutura e do funcionamento das línguas naturais estão sendo rapidamente revelados. Algumas dessas descobertas serão apresentadas a você neste livro.

Lembre-se de que as estruturas das frases e dos textos nas línguas naturais são, geralmente, muito complexas. Mesmo se analisássemos uma frase simples, como “O senhor pode me informar as horas?”, encontraríamos nela regras de ordenação de palavras, concordância, regência, seleção de pronomes… Enfim, verificaríamos a existência de uma suntuosa maquinaria gramatical a serviço da comunicação e da interação social. Entretanto, a despeito de toda essa complexidade, nós, huma- nos, somos capazes de produzir e compreender frases e textos com extrema facilidade. Em uma conversa qualquer, produzimos e com- preendemos dezenas, centenas, milhares de enunciados, um após o outro, em uma velocidade incrivelmente rápida, muitas vezes me- dida em milésimos de segundo.

rápida, muitas vezes me- dida em milésimos de segundo. REFLEXÃO Em circunstâncias normais, fazemos isso de

REFLEXÃO

Em circunstâncias normais, fazemos isso de maneira inconsciente e sem esforço

cognitivo aparente. Ora, como somos capazes disso? De que maneira nossas

mentes se tornam aptas a estruturar nossos pensamentos em frases e textos

codificados em sons, socialmente compartilhados?

Ao formularmos essas perguntas, acreditamos ter despertado em você a consciência do complexo mundo sociocognitivo que se escon- de sob cada uso cotidiano que fazemos da linguagem. De fato, espe- ramos ter também aguçado o seu interesse pelos estudos linguísti- cos. Você deve saber que encontrar respostas para tais perguntas é tarefa das ciências da linguagem.

Linguagem, sociedade e cognição

Linguagem, sociedade e cognição AUTOR Ferdinand de Saussure: Saussure (1857-1913) é considerado o “pai da

AUTOR

Linguagem, sociedade e cognição AUTOR Ferdinand de Saussure: Saussure (1857-1913) é considerado o “pai da

Ferdinand de

Saussure:

Saussure (1857-1913) é considerado o “pai da Linguística”. Nascido na Suíça, seu pensamento exerceu grande influência na Litera- tura e nos Estudos Culturais, princi- palmente para o desenvolvimento do Estruturalismo no século xx.

para o desenvolvimento do Estruturalismo no século xx . CURIOSIDADE Linguagem: Para entender melhor isso, pensemos

CURIOSIDADE

Linguagem:

Para entender melhor isso, pensemos no seguinte: você acha que animais não humanos, como cachorros, gatos, maca- cos, pássaros etc., possuem algum tipo de linguagem? A resposta é um tanto óbvia: é claro que sim. A maior parte dos animais possui algum sistema de co- municação que permite a expressão de seus estados internos e a interação com

o seu ambiente. Embora as mensagens

que cães e gatos possam transmitir se- jam um tanto limitadas (com seus ruídos característicos, com a posição do corpo, do rabo e com a emissão de certos odores), não há dúvidas de que se trata de um tipo de linguagem que permite a comunicação tanto entre os membros daquelas espécies animais quanto entre eles e os seres humanos.

espécies animais quanto entre eles e os seres humanos. Por exemplo, se você possui um cão

Por exemplo, se você possui um cão ou gatinho, certamente é capaz de perceber

o tipo de latido (ou miado) que ele produz quando está com fome, com dor, quando se sente em perigo ou está alegre.

Neste capítulo inicial, vamos aprender alguns conceitos funda- mentais e indispensáveis ao estudo da linguagem. Começaremos pelas noções de linguagem e língua. Os termos parecem se referir a conceitos aproximados, mas teremos uma seção inteira para enten-

dermos que se trata, na verdade, de duas realidades diferentes. Com base no que estudaremos sobre a noção de língua, seguiremos para

a seção em que diferenciaremos a dimensão cognitiva da dimensão

sociocultural da linguagem. Aprenderemos que uma língua sempre existe simultaneamente no interior do indivíduo que a fala e no seio da sociedade em que esse indivíduo se encontra inserido, sendo, por isso, um fenômeno sociocognitivo (ou cognitivossocial). Logo em seguida, trataremos do fantástico fenômeno da aquisição da linguagem. Vamos analisar alguns aspectos da árdua tarefa das crian- ças, que, de maneira inconsciente e compulsória, devem criar em suas mentes uma versão do sistema linguístico que a elas se revela indireta- mente na fala das pessoas que as circundam. Também teremos, neste capítulo, uma seção dedicada às diferenças entre as formas e as funções linguísticas. Estudaremos para que serve a linguagem humana e como ela dá conta de seus diversos ofícios. Por fim, apresentaremos os principais fatos imbricados no uso da linguagem pelos indivíduos adultos que, em tempo real, precisam pro- duzir e compreender frases e textos, codificando e decodificando men- talmente informações nas diversas formas de comunicação e expres- são que se tornam possíveis pela língua. Esperamos que você tenha

apreciado esse roteiro, pois nossa viagem pelo mundo da linguagem está apenas começando!

Linguagem e língua

Ferdinand de Saussure foi um importante linguista franco-suíço que ainda hoje é considerado o pai das modernas ciências da linguagem. Foi Saussure quem formulou, explicitamente e com grande clareza, uma importante distinção entre aquilo que compreendemos por linguagem e por língua. Vamos entender do que se trata. De acordo com Saussure, “a língua não se confunde com a linguagem,

pois é somente uma parte determinada e essencial dela” (1916: p.17).

O que o mestre genebrino nos ensina nessa passagem é que a lingua-

gem é um fenômeno muito mais geral e abrangente do que uma lín- gua. Comparada com a linguagem, diz-nos Saussure, uma língua pos- sui um caráter muito mais específico. Na verdade, alguns animais chegam a possuir sistemas de lin- guagem impressionantemente complexos, como é o caso das abe- lhas. As abelhas possuem um complicado sistema de dança em zi- guezagueado que permite a indicação da direção e da distância em que se encontra uma fonte de néctar que tenha sido descoberta por

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

alguma delas. As abelhas que, durante alguns minutos, observam a

abelhinha que localizou o néctar dançar para lá e para cá, chacoa- lhando o seu corpo de maneira frenética, são capazes de “entender”

a informação que está sendo transmitida e, logo ao fim da dança,

rumam para a fonte do néctar com bastante precisão. Ora, esse exemplo ilustra, claramente, a existência de uma “linguagem dos animais”, ou, mais precisamente, a linguagem específica de cada espécie animal em particular. Você já deve ter entendido que a linguagem é um conceito bas- tante abrangente, que se refere a todo e qualquer sistema de comu- nicação e expressão. É por isso que podemos falar em “linguagem dos animais”, “linguagem das cores”, “linguagem dos cheiros”, “lin- guagem corporal”, “linguagem da arte” (incluindo a “linguagem da dança”, “linguagem da moda”) etc. Pois bem, se linguagem é qualquer sistema de comunicação e ex- pressão, então o que é uma língua? Com efeito, língua é um tipo espe-

cífico de linguagem, como o próprio Saussure já havia dito. Afinal, uma língua também é um sistema de comunicação e expressão e, assim, é uma forma de linguagem. Acontece que a língua é uma forma singular de linguagem, com características próprias que a distinguem de todas as demais linguagens animais ou humanas não verbais. Você deve estar se perguntando que características são essas. Trata-se de dois fatores sociocognitivos muito importantes. Veja- mos cada um deles a seguir.

O primeiro fator que distingue uma língua humana qualquer –

como o português, o inglês ou o xavante – dos demais sistemas de lin- guagem é a existência de um léxico. No léxico, encontramos uma coleção de formas (significantes) que são associadas, sistematicamente, a certos conteúdos (significados). Assim, por exemplo, em português, possuímos o significante [kaza]

(representado na escrita pela grafia “casa”) que será sempre associa- do ao significado [tipo de moradia] todas as vezes que usarmos essa palavra. Também temos no léxico de nossa língua o significante [a], sufixo presente ao fim da forma [menina], ao qual está associado o significado [pessoa do sexo feminino]. Da mesma maneira, temos o significante da expressão [dar uma mãozinha] que se associa, em lín- gua portuguesa, ao significado [oferecer ajuda].

O número total de palavras e expressões existentes em um léxico

é bastante variável de língua para língua. Pois bem, nos sistemas ge-

rais de linguagem, não existe nada parecido com o léxico das línguas humanas. Afinal, quantos tipos de latido, miado ou canto podem ser discriminados pelos cães, pelos gatos ou pelos pássaros? Quantas “palavras” poderíamos transmitir com a linguagem corporal, com a linguagem dos cheiros ou pela dança? Ainda que consigamos catalo- gar um grande número delas, não encontraríamos algo tão organiza- do, sistemático e vasto como o léxico de uma língua.

do, sistemático e vasto como o léxico de uma língua. CONCEITO Léxico: O léxico pode ser

CONCEITO

Léxico:

O

léxico pode ser compreendido como

o

conjunto de palavras e expressões

que são socialmente compartilhadas pelos falantes de uma dada língua.

compartilhadas pelos falantes de uma dada língua. CURIOSIDADE Número: A título de ilustração, saiba que um

CURIOSIDADE

Número:

A título de ilustração, saiba que um

falante escolarizado do português do Brasil domina, pelo menos, 50.000 itens, sem contar as formas flexionadas das palavras (como as diversas expressões do verbo “estudar”: estudo, estuda, estudamos, estudava, estudarei, estudaria etc.), mas os dicionários da língua portuguesa chegam a registrar de 200.000 a 400.000 palavras. Trata-se de números bem impressionantes, não?

Linguagem, sociedade e cognição

Linguagem, sociedade e cognição CONCEITO Sistema combinatório: Esse sistema é capaz de combinar entre si, de

CONCEITO

Sistema combinatório:

Esse sistema é capaz de combinar entre si, de maneira ordenada e contro- lada por regras, as unidades do léxico, de modo a construir expressões, como as frases e os textos. Por exemplo,

o léxico do português possui unida-

des como “casa”, “bonita”, “comprar”, “você”, “mais”, porém, é a gramática dessa língua que permitirá a criação de expressões complexas como “que casa mais bonita você comprou!”.

complexas como “que casa mais bonita você comprou!”. CONCEITO Recursividade: A recursividade é justamente a

CONCEITO

Recursividade:

A recursividade é justamente a capa-

cidade de criar um número infinito de frases e textos com base no número

finito de palavras existentes no léxico.

A recursividade emerge, portanto, da

combinação entre os dois compo- nentes fundamentais de uma língua:

o léxico e o sistema combinatório (gramática).

O segundo fator que distingue uma língua dos demais tipos de

linguagem é o mais importante: as línguas humanas possuem um sistema combinatório, que chamamos gramática.

O interessante é que, se o número de itens existentes em um léxico

qualquer já é consideravelmente grande, ele não é quase nada quando pensamos no número de expressões que o sistema combinatório de uma língua pode gerar utilizando suas

regras computacionais. De fato, o número de frases e textos que po- demos construir em uma língua ao combinarmos léxico e gramática é ilimitado. Se compararmos as línguas humanas com os sistemas mais

gerais de linguagem (humanos ou animais), poderemos deduzir que a principal diferença entre eles é a recursividade – também denominada infinitude, criativi- dade ou produtividade –, que existe somente nas línguas. Neste momento, você talvez tenha curiosidade de saber se existe algum tipo animal não humano que possua língua (e não apenas linguagem). Muito bem, os cientistas ainda não conseguiram regis- trar nenhuma espécie de vida, além dos humanos, que use algum sistema de comunicação remotamente parecido com uma língua natural. Por tudo o que até hoje sabemos, somente nós, humanos, conseguimos usar um sistema de linguagem com recursividade.

Quando falamos uma língua, somos capazes de produzir e compreender um número infinito de frases e textos.

e compreender um número infinito de frases e textos. RESUMO É por isso que as línguas

RESUMO

É por isso que as línguas parecem ser um verdadeiro patrimônio da humanidade,

algo que nos distingue, claramente, de todas as formas de vida conhecidas pela

ciência. A posse da linguagem, na forma de uma língua, é de fato uma das carac-

terísticas mais distintivas e mais importantes do homo sapiens.

Não obstante, existem muitos cientistas que vêm tentando ensi- nar uma língua humana a animais inteligentes, como os chimpanzés e algumas espécies de papagaios e de golfinhos. No entanto, alegar que macacos ou papagaios são realmente capazes de aprender e usar uma língua humana é um flagrante e descomunal exagero, o qual se motiva muito mais por questões ideológicas (por exemplo, conferir maior importância ao aprendi- zado sociocultural em oposição à natureza biológica humana na aquisição de conhecimento) do que linguísticas.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras MULTIMÍDIA No link abaixo, você verá um exemplo que

MULTIMÍDIA

No link abaixo, você verá um exemplo que registra as tentativas de ensino de

línguas entre espécies.

as tentativas de ensino de línguas entre espécies. Alex Papagaio cinza africano que conseguia comunicar-se

Alex Papagaio cinza africano

que conseguia comunicar-se

usando várias palavras do inglês.

conseguia comunicar-se usando várias palavras do inglês. Você provavelmente ficará encantado com as proezas

Você provavelmente ficará encantado com as proezas linguísticas desse animal

raríssimo e genial. Mas acreditamos que não ficará convencido de que ele, de fato,

“aprendeu” a usar uma língua e que demonstra domínio de um léxico e de um sis-

tema combinatório. O máximo que podemos dizer é que esse adorável bichinho é

capaz de aprender, após intensos anos de treinamento, um sistema de linguagem

bastante complexo e avançado, inspirado no léxico das línguas humanas – algo

fantástico que, por si só, já é merecedor de destaque científico.

que, por si só, já é merecedor de destaque científico. CURIOSIDADE Capacidade linguística: Essa capacidade

CURIOSIDADE

só, já é merecedor de destaque científico. CURIOSIDADE Capacidade linguística: Essa capacidade permanecerá na

Capacidade linguística:

Essa capacidade permanecerá na mente da criança no curso de sua vida saudável e será modificada, na adoles- cência e na vida adulta, de acordo com suas experiências particulares.

Até o momento, com efeito, a linguagem, na forma de um sistema combinatório que opera recursivamente sobre um léxico, é um fenôme- no identificado somente na espécie humana e ainda irreproduzível nos sistemas de inteligência artificial desta segunda década do século xxi . Muito bem, agora que você já sabe distinguir linguagem e língua, fique atento às expressões “linguagem” ou “linguagem humana”. Mui- tas vezes, essas expressões querem dizer “língua” (léxico e gramática) e não apenas “linguagem” (qualquer sistema de comunicação). É bem verdade que podemos usar esses termos de maneira um tanto livre e mais ou menos metafórica, no dia a dia ou mesmo ao longo de um livro mais especializado – como, de fato, já o fizemos e tornaremos a fazer aqui –, mas, sempre que necessário, devemos distinguir tais conceitos.

Língua = fenômeno cognitivo e sociocultural

As línguas humanas são uma autêntica maravilha do mundo natu- ral e sociocultural. Talvez você já se tenha dado conta de que, desde que estejam inseridos em um ambiente de interação social, todos os indivíduos saudáveis, de todos os tempos da história e de todas as culturas humanas, desenvolvem, de maneira natural e espontâ- nea, a habilidade de produzir e compreender oralmente palavras, frases e textos na língua de seu ambiente. Por exemplo, uma criança que nasça no Brasil desenvolverá, já nos primeiros anos de vida, a capacidade linguística de produção e

Linguagem, sociedade e cognição

Linguagem, sociedade e cognição CONCEITO Línguas humanas: Sempre que ocorre o fenômeno lin- guagem humana, temos,

CONCEITO

Línguas humanas:

Sempre que ocorre o fenômeno lin- guagem humana, temos, de um lado, o indivíduo particular que possui a capaci- dade mental de produzir e compreender expressões linguísticas e, do outro, a sociedade em que esse indivíduo se insere, a qual lhe forneceu não só os contextos de uso da linguagem em interação com outros humanos mas também os sons e as palavras necessá- rios à expressão verbal.

os sons e as palavras necessá- rios à expressão verbal. AUTOR Noam Chomsky: Avram Noam Chomsky

AUTOR

e as palavras necessá- rios à expressão verbal. AUTOR Noam Chomsky: Avram Noam Chomsky (1928) é

Noam Chomsky:

Avram Noam Chomsky (1928) é um linguista americano, conside- rado uma das figuras acadêmicas mais proeminentes (durante 12 anos, foi o cientista vivo mais citado em trabalhos científicos no mundo). É conhecido como o pai da Linguística Moderna, especialmente por sua Teoria da Gramática Universal.

compreensão de enunciados em português, em uma de suas moda- lidades socioculturais – se não o português, então, uma das línguas

minoritárias do país (por exemplo, uma língua indígena) –, que será, assim, a língua ambiente dessa criança. Como maravilha do mundo natural e sociocultural, o fenôme- no das línguas humanas comporta necessariamente duas dimen- sões: uma dimensão individual e mental e uma dimensão coleti- va e sociocultural.

O influente linguista norte-americano Noam Chomsky formu-

lou dois importantes conceitos para dar conta da diferença entre

a dimensão individual e psicológica das línguas e a sua dimensão

social e cultural. Chomsky propôs que a dimensão mental e cog- nitiva do fenômeno da linguagem seja sintetizada pelo conceito

de Língua-i, em que “i” significa interna, individual. Já a dimensão sociocultural das línguas é denominada por Chomsky como Lín- gua-e, em que “e” quer dizer externa, extensional. Vejamos melhor esses conceitos.

A noção de Língua-e corresponde, grosso modo, ao que comu-

mente se interpreta como língua ou idioma no senso comum. Por exemplo, o português é uma Língua-e no sentido de que é esse fenô- meno sociocultural, histórico e político que compreende um con- junto de sons, palavras, regras gramaticais e um sistema de escrita que, juntamente, permitem a comunicação e a interação entre os

seus falantes. Trata-se de um fenômeno supraindividual, na verdade, exterior ao indivíduo.

A noção de Língua-i, por sua vez, corresponde ao conjunto

de habilidades mentais que permitem ao indivíduo a produção

e a compreensão de um número potencialmente infinito de ex-

pressões na sua língua ambiente. Uma Língua-i diz respeito, portanto, àquilo existente no interior da mente das pessoas, que lhes faculta a aquisição e o uso cotidiano de uma língua natural. Nesse sentido, entende-se que uma língua seja parte do sistema cognitivo humano. Uma Língua-i é uma faculdade psicológica ou, por assim dizer, um órgão mental. Todo indivíduo humano sem deficiências neurop- sicológicas graves é capaz de manipular, em sua língua, diversos re-

cursos gramaticais e textuais que veiculam significados do indivíduo para o mundo exterior e desse para a consciência do indivíduo. Essa competência cognitiva para a manipulação das estruturas e dos sig- nificados da linguagem é individual e inconsciente. É a ela que nos referimos com o conceito de Língua-i.

Às vezes, quando pensamos sobre a linguagem humana, precisa-

mos ter clareza se estamos discutindo aspectos cognitivos ou aspec- tos socioculturais da língua – ou mesmo se estamos considerando ambos os aspectos em interação. Fique, portanto, sempre atento a esse particular.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras RESUMO É muito importante que você compreenda que uma

RESUMO

É muito importante que você compreenda que uma língua é, ao mesmo tempo, um

fenômeno cognitivo e individual (uma Língua-i) e um fenômeno coletivo e sociocul-

tural (uma Língua-e). Embora nem sempre usemos os termos chomskianos, essa

dualidade está lá inevitavelmente todas as vezes em que falamos sobre as línguas.

Aquisição da linguagem

Para que você compreenda a dramática situação sociocognitiva em que se encontra um bebê na fase de aquisição da linguagem, vamos liberar a imaginação com a seguinte história fantástica:

liberar a imaginação com a seguinte história fantástica: EXEMPLO Suponha que você seja abduzido por alienígenas.

EXEMPLO

Suponha que você seja abduzido por alienígenas. Você acordaria em uma galáxia

distante, cercado de criaturas diferentes, cujos comportamentos você não com-

preende. Apesar de toda a estranheza inicial, não lhe seria difícil notar que tais

criaturas possuem uma espécie de orifício em sua extremidade superior (algo

como uma boca), de onde certos sons são regularmente emitidos.

Com um pouco de observação, você consegue perceber que esses estra-

nhos seres parecem se comportar de alguma maneira relacionada aos sons que

trocam entre si. Por exemplo, você vê um ser alto emitindo sequências de sons

enquanto um baixinho o observa. Ao final da produção de sons, o baixinho se

desloca no espaço, toma um objeto para si e o leva até o altão, como se tivesse

cumprido um pedido ou uma ordem.

Para você, parecerá coerente concluir que os sons compartilhados entre es-

ses alienígenas sejam uma espécie de sistema de comunicação e, para conseguir

descobrir o que aconteceu consigo, onde está, quem são essas criaturas etc., você

terá de aprender a usar esse sistema. Tal tarefa não será nada fácil, pois você não

contará com nenhum professor de “alienígena para terráqueos”, nenhum livro ou

curso preparatório e, além disso, o aparente sistema de comunicação usado por

aquelas criaturas não é semelhante a nenhum outro que você já tenha visto antes

é semelhante a nenhum outro que você já tenha visto antes CURIOSIDADE Idioma: Quando dizemos que

CURIOSIDADE

Idioma:

Quando dizemos que o russo é a língua da Rússia ou que o chinês é a língua da China, entendemos língua como esse fenômeno desincorporado dos falantes, a Língua-e. Da mesma forma, essa língua se refere a um fenômeno cuja existência é externa às pessoas e, nesse caso, do qual elas devem se apropriar: as línguas do ambiente.

do qual elas devem se apropriar: as línguas do ambiente. Uma criança nascida no Paraguai pro-

Uma criança nascida no Paraguai pro- vavelmente aprenderá a falar espanhol e guarani, ou seja, as línguas do ambiente.

falar espanhol e guarani, ou seja, as línguas do ambiente. CURIOSIDADE Bebês: Já ao nascer, os

CURIOSIDADE

Bebês:

Já ao nascer, os bebês parecem ser muito espertos e, para eles, não é difícil deduzir que os sons emitidos pelas cria- turas que o circundam constituem, na verdade, um sistema de comunicação.

Se você conseguiu compreender o quão dramática seria essa situa- ção, está apto a entender que a aquisição da linguagem pelos bebês e pelas crianças é um autêntico milagre do mundo biocultural. Note bem:

os bebês chegam a um mundo completamente desconhecido, retirados que foram do aconchegante útero materno. Esse mundo é povoado por seres estranhos ao bebê (os seres humanos) cujo comportamento pare- ce estar estreitamente relacionado aos sons que todos trocam entre si. Tais sons mais parecem ao bebê uma grande confusão, um continuum de ruídos quase indecifráveis. Afinal, como um bebê poderia identificar, no fluxo da fala humana, onde um som termina e o outro começa?

Linguagem, sociedade e cognição

Linguagem, sociedade e cognição AUTOR Steven Pinker: Steven Arthur Pinker nasceu em Montreal (1954), é linguista

AUTOR

Linguagem, sociedade e cognição AUTOR Steven Pinker: Steven Arthur Pinker nasceu em Montreal (1954), é linguista

Steven Pinker:

Steven Arthur Pinker nasceu em Montreal (1954), é linguista e psicólogo da Universi- dade de Harvard. Escreve sobre lingua- gem e ciências cognitivas e foi nomeado uma das 100 pessoas mais influentes pela revista Times.

Talvez tenha sido em razão disso que o famoso psicólogo de Har- vard, o canadense Steven Pinker, denominou tal fenômeno como instin- to para a linguagem: um bebê humano rapidamente “compreende” que precisa dominar esse sistema para descobrir o que os seres ao seu redor dizem e também para que ele próprio possa dizer alguma coisa e comu- nicar-se com as outras pessoas. Mas bebês e crianças estão, em grande parte, quase sozinhos no interior de suas mentes durante a odisseia pela descoberta e pelo do- mínio da língua do seu ambiente. Eles não possuem um professor particular de “língua humana para bebês recém-nascidos” e, o que é mais grave, o seu cérebro é ainda um protocérebro, ou seja, apenas um rascunho do potente processador de informações que é o cérebro de um indivíduo maduro. Usamos a palavra “milagre” para descrever a aquisição da lingua- gem pelos bebês e pelas crianças porque, apesar de todas as dificul- dades que descrevemos, os pequenos humanos conseguem dominar a língua de seu ambiente, para a compreensão e a produção da lin- guagem, com extrema eficiência e em um intervalo de tempo incrivel- mente pequeno, que não ultrapassa três ou quatros anos. As crianças pequenas sequer parecem fazer esforço cognitivo para adquirir a sua língua materna. De fato, a aquisição da lingua- gem é muito mais algo, que simplesmente, acontece com os bebês e com as crianças – e não algo que elas façam deliberadamente com o seu pequeno cérebro em formação.

deliberadamente com o seu pequeno cérebro em formação. RESUMO A par de ser um fenômeno sociocognitivo

RESUMO

A par de ser um fenômeno sociocognitivo extraordinário, a aquisição da língua

do ambiente (ou das línguas do ambiente, no caso das comunidades bilíngues ou

multilíngues) é um dos eventos mais importantes na vida de um ser humano. Esse

fenômeno é, ao mesmo tempo, a porta de entrada para as relações sociais huma-

nas, que são quase sempre mediadas pela linguagem, e a janela para o aperfei-

çoamento cognitivo individual, uma vez que grande parte da cognição humana se

utiliza da linguagem como instrumento de desenvolvimento e de complexificação.

Na verdade, o que chamamos de aquisição da linguagem é um fenô- meno duplo que envolve a aquisição de dois diferentes tipos de habili- dades sociocognitivas. Vejamos isso com mais detalhes. Um tipo particular de aquisição da linguagem é aquele que denomina- mos aquisição em sentido amplo ou aquisição da linguagem lato sensu. Em seu sentido amplo, adquirir linguagem significa apropriar-se das habilida- des de comunicação, expressão e interação social. Esse tipo de aquisição demanda dos bebês e das crianças a absorção dos aspectos mais gerais da linguagem, tais como a interação sociocomunicativa, a organização de conceitos e de pensamentos, e envolve, também, o desenvolvimento das noções de autoconsciência e de individualidade nas relações humanas.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

O outro tipo de aquisição da linguagem é muito mais específico e, por isso mesmo, denomina-se aquisição em sentido restrito ou aquisição da linguagem stricto sensu. Em seu sentido restrito, adquirir linguagem significa apropriar-se do léxico e do sistema combinatório existentes na língua do ambiente. Esse tipo de aquisição demanda dos bebês e das crianças a habi- lidade de discriminação perceptual e de articulação intencional de toda a maquinaria gramatical necessária ao funcionamento da lín- gua. Na aquisição stricto sensu, a criança adquire, de fato, o aparato linguístico formal que estará a serviço das interações sociais e da or- ganização cognitiva do indivíduo em desenvolvimento. Se você já entendeu a diferença entre aquisição da linguagem lato sensu e stricto sensu, podemos, agora, falar um pouco mais so- bre a aquisição em sentido restrito. Um dos fatos mais intrigantes a respeito do processo de aquisição do léxico e do sistema combinatório da língua do ambiente é que ele parece ser universal. As fases pelas quais passam os bebês e as crian- ças durante a aquisição stricto sensu são muito semelhantes em todas as culturas do mundo, seja qual for a língua do ambiente e o nível de inteligência geral da criança. Isso quer dizer que todas as crianças parecem atravessar as mesmas etapas nos mesmos estágios de de- senvolvimento biológico, desde o nascimento até o domínio comple- to da língua, estejam onde estiverem, em qualquer classe social e sob qualquer tipo de cultura. Não obstante, o grande salto qualitativo na produção linguística dos bebês ocorre aos 12 meses, quando eles já são capazes de produ- zir suas primeiras palavras reconhecíveis como tais. Essas são, na ver- dade, mais do que simplesmente “palavras”, pois sempre assumem o valor de uma frase completa inserida em um contexto discursivo. In- dependente da língua do ambiente, as primeiras palavras produzidas por uma criança são sempre monossilábicas e seguem uma estrutura [consoante + vogal]. Em pouco tempo, essa estrutura vai tornando-se cada vez mais complexa e caminha em direção à complexidade exis- tente na fala adulta.

em direção à complexidade exis- tente na fala adulta. EXEMPLO Por exemplo, uma criança brasileira pode

EXEMPLO

Por exemplo, uma criança brasileira pode dizer algo como “bó” para significar uma

frase inteira, como “olhe, a bola”, conforme o contexto permita compreender. Pou-

cos meses depois, “bó” ganhará complexidade fonológica e tomará a forma con-

vencional de “bola”. O mesmo fenômeno pode ser observado com as centenas

de outras palavras que as crianças adquirem durante essa fase, que os linguistas

nomeiam de fase holofrástica.

essa fase, que os linguistas nomeiam de fase holofrástica. CURIOSIDADE Universal: Na aquisição da linguagem lato

CURIOSIDADE

Universal:

Na aquisição da linguagem lato sensu, a criança adquire, na verda- de, os fundamentos da interação entre os humanos: os valores e as ações imbricados nos usos da linguagem, a própria noção de si, a percepção do(s) outro(s), os modos de interagir social- mente e assim por diante.

os modos de interagir social- mente e assim por diante. Já ao nascer, todas as crianças

Já ao nascer, todas as crianças nor- mais balbuciam no ritmo da sua língua ambiente. Na verdade, algumas pesqui- sas recentes descobriram que o choro de bebês recém-nascidos transcorre conforme o ritmo e a melodia da língua que a circunda (Wermke et al., 2011). Esses fatos parecem indicar que a aquisição da linguagem tem início ain- da no útero materno, quando aspectos sonoros da língua do ambiente (como o ritmo, a entoação e o acento) já pare- cem ser discriminados pelo feto.

e o acento) já pare- cem ser discriminados pelo feto. MULTIMÍDIA Seu bebê chora em que

MULTIMÍDIA

já pare- cem ser discriminados pelo feto. MULTIMÍDIA Seu bebê chora em que língua? Roberto Lent

Seu bebê chora em que língua?

Roberto Lent – ufrj

Seu bebê chora em que língua? Roberto Lent – ufrj Com pouco menos de 24 meses,

Com pouco menos de 24 meses, as crianças já atingem a fase de duas palavras (também chamada de fase sintagmática). Nessa etapa

Linguagem, sociedade e cognição

Linguagem, sociedade e cognição CURIOSIDADE Conteúdo referencial: As partículas gramaticais (como a preposição, por

CURIOSIDADE

Conteúdo referencial:

As partículas gramaticais (como a preposição, por exemplo), que pos- suem conteúdo puramente formal, só emergem na fala das crianças, de modo consistente, a partir dos 36 meses de vida – embora haja intensas variações individuais sem causa aparente regis- tradas pelos cientistas.

de seu desenvolvimento linguístico, frases com estruturas do tipo sujeito e predicado semelhantes às dos adultos começam a ser pro- duzidas pelos bebês. São frases como “qué papá”, “mais colinho”, “meia papai” e “banho não”. O interessante é que os enunciados produzidos pelos bebês durante a fase sintagmática não são apenas

uma combinação entre duas palavras soltas. Pelo contrário, tal como ocorre na fase holofrástica, essas palavras também assumem o valor de um ato comunicativo completo, cuja interpretação é dependente do contexto interacional e comunicativo. Por volta dos 30 meses de vida, as crianças já conseguem criar frases com extensão ilimitada, compostas por três, quatro, seis,

Interessantemente, ao longo dessa fase, cha-

mada de fase telegráfica, artigos, preposições, conjunções e pro- nomes estão ainda ausentes na fala infantil. Com efeito, até o ter- ceiro ano de vida, as palavras que as crianças inserem em frases e textos são sempre itens de conteúdo referencial, como substantivos, adjetivos e verbos. É possível dizer que, por volta dos 4 anos de vida, a língua que uma criança domina para a produção e para a compreensão da linguagem é indistinguível da língua de um adulto. As únicas diferenças, é claro, dizem respeito aos aspectos linguísticos que envolvem letramento, escolarização e certas regras de comportamento social que se desen- volvem posteriormente, na adolescência e na vida adulta.

nove, dez palavras

PRIMEIROS MESES 1 ) Fase inicial – a criança se comunica pelo choro (dor, fome,
PRIMEIROS MESES
1
) Fase inicial – a criança se comunica pelo choro (dor, fome, frio etc.);
2) 6 semanas – choros diferenciados e sons guturais/primitivos. É quando aparecem as
primeiras vogais;
3
) 18 semanas – aparecem as primeiras consoantes (p, b, k, g) e o balbucio;
4
) Até os 8 meses – o balbucio se caracteriza pelo dobramento de sílabas (“mama”, p. ex.) e
pela imitação de sons produzidos por adultos.
DE 12 A 24 MESES
1
) Utilização das primeiras palavras, ainda sem o mesmo formato das pronunciadas por
adultos (“papá”, p. ex.);
2 ) Reconhecimento de nomes de alguns objetos, compreensão de ordens simples;
3 ) Vocabulário passa de 50 palavras e a aquisição de novos vocábulos é diária;
4 ) Produção de frases curtas (“qué papá”, p. ex.);
5 ) Adaptação das palavras aos sons que conhece (como “tapéu” para “chapéu”, p. ex.).
DE 24 A 36 MESES
1
) Uso constante de linguagem telegráfica;
2 ) Utilização de partículas gramaticais (artigo, preposição etc.);
3 ) Forte expansão do vocabulário;
4 ) Distinção de singular/plural, masculino/feminino;
5 ) Produção de todos os fonemas;
6 ) Tomada de consciência quanto ao ritmo de fala, à entonação (frases interrogativas, p. ex.).
AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Infelizmente, parece exis- tir um fim para o período da aquisição da linguagem. Isto é, os humanos não podem ad- quirir a língua do ambiente tão rapidamente e sem esfor- ço em qualquer momento de sua vida, da infância à velhi- ce. O neurocientista alemão Eric Lenneberg denominou período crítico (ou idade críti- ca) a fase de desenvolvimento físico e cognitivo humano no limite da qual a aquisição da linguagem deve acontecer. Há muitas discussões sobre qual seria o fim des-

O conceito de aquisição opõe-se ao de aprendizado porque a aquisição da linguagem ocorre na infância de maneira espontânea, natural e mesmo involuntária, enquanto o aprendizado de línguas estrangeiras demanda do adolescente e do adulto esforço consciente e instrução mais ou menos formal.

sa fase, mas, como existem muitas variações individuais no desenvolvimento humano, não é pos-

sível defini-lo com precisão. A maioria dos estudiosos aponta a puber- dade, por volta dos 12 ou 13 anos, como o momento em que “a janela automática” para a aquisição da linguagem se fecha.

A partir de então, a aquisição da linguagem não é mais possível, e

tudo o que podemos fazer para dominar uma (nova) língua é aprendê-la por meio de estudos formais em escolas ou cursos de idioma. A linha divisora entre aquisição e aprendizado é justamente a idade crítica.

Formas e funções linguísticas

Muito bem, já sabemos diferenciar linguagem e língua, compreende- mos as dimensões cognitiva e sociocultural de uma língua natural e te- mos noção da pequena epopeia que cada ser humano atravessa, em ten-

ra infância, ao longo da aquisição da(s) língua(s) de seu ambiente. Mas e se perguntassem a você para que serve uma língua (como o português), qual seria a sua resposta? Muito provavelmente, você diria algo como "para permitir a comunicação entre as pessoas". Em essência, tal res- posta está correta. Contudo, a pergunta é mais complexa do que parece, de tal modo que é preciso esmiuçá-la um pouco mais. Façamos isso.

A questão para que serve uma língua pressupõe dois conceitos fun-

damentais: (1º) as línguas possuem um conjunto de formas e (2º) cada uma dessas formas “serve” para algum fim, isto é, cada forma linguísti- ca possui uma dada função ou um conjunto de funções. As formas exis- tentes em uma língua podem ser também denominadas estrutura. Quando estudamos linguística e falamos dos aspectos formais de uma língua, estamos fazendo referência exatamente a essa aparato

estamos fazendo referência exatamente a essa aparato AUTOR Eric Lenneberg: Eric Heinz Lenneberg ( 1921 -

AUTOR

estamos fazendo referência exatamente a essa aparato AUTOR Eric Lenneberg: Eric Heinz Lenneberg ( 1921 -

Eric Lenneberg:

Eric Heinz Lenneberg (1921-1975), alemão, foi um linguista e neurocientista pionei- ro nos estudos de aquisição da lingua- gem e psicologia cognitiva, em especial do inatismo. Curiosamente, residiu no Brasil durante sua adolescência, quando sua família fugia do nazismo.

sua adolescência, quando sua família fugia do nazismo. CONCEITO F SN SV Det N V o

CONCEITO

F

SN SV Det N V o automóvel derrapou
SN
SV
Det
N
V
o automóvel derrapou

Estrutura:

Trata-se da superfície ou do meio concreto, material, pelo qual uma língua se realiza nos atos de fala humanos. Por exemplo, uma palavra (como “casa”) e uma estrutura sintática (como “esta é minha casa”) são ilustrações de formas que usamos quando produzimos e com- preendemos enunciados em uma língua.

Linguagem, sociedade e cognição

Linguagem, sociedade e cognição CURIOSIDADE Função: O escritor Graciliano Ramos ( 1892 - 1953 ) compreendeu

CURIOSIDADE

Linguagem, sociedade e cognição CURIOSIDADE Função: O escritor Graciliano Ramos ( 1892 - 1953 ) compreendeu

Função:

O escritor Graciliano Ramos (1892-1953) compreendeu isso perfeitamente ao afirmar que “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer”. No caso, “o dizer da palavra” é justamente a sua função. Em outras palavras, uma forma linguística não existe senão para provocar algum efeito de significado ou de sentido, isto é, uma forma não existe senão pela sua função.

estrutural que precisamos utilizar para que a língua tome vida em um ato linguístico qualquer. Por outro lado, sabemos que as formas de uma língua não existem por si mesmas. Com efeito, a razão de ser de cada forma linguística é desempenhar determinada função. Para que você entenda melhor a dualidade entre forma e função, veja o quadro a seguir:

OCORRÊNCIA

FORMA

FUNÇÃO

   

Contraste na significação

FONÉTICA

a) Ex.: forma [s]

b) Ex.: forma [f]

c) Ex.: forma [m]

a) [sorte]

b) [forte]

c) [morte]

   

a) Formular pergunta

PROSÓDIA

a) Ascendente

“João saiu?”

b) Descendente

b) Formular declaração

 

“João saiu!”

FORMAÇÃO

Acréscimo de sufixo diminutivo Ex.: [casa], [casinha]

a) Demonstrar afeto

DE PALAVRAS

b) Demonstrar desprezo

 

a)

Voz ativa

 

Ex.: “João cometeu erros”

a) Destacar o

VOZ VERBAL

responsável

b)

Ex.: “Erros foram cometidos”

Voz passiva

b) Esconder o

responsável

Uma forma linguística (um som, uma entonação, um sufixo, uma voz verbal etc.) é a maneira pela qual uma dada função se realiza materialmente na língua.

Se você compreendeu o que são formas e funções linguísticas, tal- vez possa, agora, repensar a sua resposta à questão para que serve uma língua (como o português)? Na verdade, as formas existentes em uma língua se prestam a inúmeras funções. Não é possível descre- ver todas elas neste capítulo, mas podemos dizer a você que, em sua maioria, as funções a que se destinam as formas linguísticas são emi- nentemente comunicativas. É por isso que importantes estudiosos, como o já citado Steven Pinker, acreditam que as línguas “servem” para a comunicação huma- na. Não obstante, cientistas não menos ilustres, como o também já men- cionado Noam Chomsky, um dos linguistas mais influentes de todos os tempos, destacam outras funções linguísticas que são tão importantes

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

ou ainda mais vitais do que a comunicação, tais como a organização do pensamento e a criação do conhecimento individual. Isso quer dizer que, ainda que a comunicação possa ser a primeira

e mais fundamental fun-

ção das línguas, não pode- mos desprezar as outras funções, tais como a meta-

cognitiva, isto é, a função de organização do pensa- mento, e a instrumental, ou seja, a função de ad- quirir e organizar outros tipos de cognição, como o conhecimento matemáti- co, o conhecimento sobre

a História, o conhecimento sobre as relações sociais etc. Atento à natureza comunicativa das línguas, Karl Bühler foi um dos primeiros a tentar sintetizar, de maneira esquemática, as corre- lações entre linguagem e comunicação. Foi ele que destacou que os usos da linguagem pressupõem (1) um emissor, (2) uma mensagem e (3) um destinatário. Esse modelo tripartido de comunicação se tornou mais complexo na

análise do linguista russo Roman Jakobson, que introduziu as noções de (4) referente, de (5) canal comunicativo e de (6) código linguístico. É desse modelo de Bühler e Jakobson que se derivam as famosas funções da linguagem, que são amplamente estudadas no ensino es- colar: (1) a “função emotiva”, em que o emissor da mensagem se des- taca; (2) a “função poética”, em que a própria mensagem transmitida

é destacada; (3) a “função conativa”, na qual o destinatário da mensa-

gem assume a função central; (4) a “função referencial”, em que o re- ferente é o foco da comunicação; (5) a “função fática”, em que o canal comunicativo é meramente testado e (6) a “função metalinguística”, em que se estabelece quando é o próprio código linguístico (a língua) o fator de destaque na comunicação.

De fato, muitas vezes, nós, humanos, usamos a língua internamente, em voz alta ou em silêncio, como se falássemos com o nosso próprio eu – e isso, é claro, não pode ser considerado literalmente comunicação.

não pode ser considerado literalmente comunicação. RESUMO AUTOR Karl Bühler: Karl Bühler ( 1879 - 1963

RESUMO

pode ser considerado literalmente comunicação. RESUMO AUTOR Karl Bühler: Karl Bühler ( 1879 - 1963 ),

AUTOR

ser considerado literalmente comunicação. RESUMO AUTOR Karl Bühler: Karl Bühler ( 1879 - 1963 ), linguista

Karl Bühler:

Karl Bühler (1879- 1963), linguista e psicólogo alemão, sistematizou as funções da linguagem tomando como ponto de partida a representação – característica, por excelência, da língua.

– característica, por excelência, da língua. AUTOR Roman Jakobson: Roman Osipovich Jakobson ( 1896 - 1982

AUTOR

– característica, por excelência, da língua. AUTOR Roman Jakobson: Roman Osipovich Jakobson ( 1896 - 1982

Roman Jakobson:

Roman Osipovich Jakobson (1896-1982) foi um pensador rus- so que se tornou um dos mais renomados linguistas de todos os tempos, cujos conceitos ainda são usados e pesquisados. Jakobson esteve no Brasil nos anos 1970.

Na realidade, as funções linguísticas, entendidas como as funções que determi-

nadas formas podem desempenhar nos usos da língua, são muito mais nume-

rosas do que essas seis. Todavia, tal modelo parece ser um bom caminho para

começarmos a entender as funções comunicativas e expressivas que as formas

da linguagem humana podem desempenhar.

Se você for uma pessoa curiosa, talvez tenha pensado: será que exis- te alguma relação natural entre determinada forma e sua respectiva função? Ou será que formas e funções linguísticas são associadas de

Linguagem, sociedade e cognição

uma maneira um tanto imprevisível que precisam ser memorizadas pelos falantes de determinada comunidade? Boa pergunta.

pelos falantes de determinada comunidade? Boa pergunta. IMAGEM A Escola de Atenas é uma das mais
pelos falantes de determinada comunidade? Boa pergunta. IMAGEM A Escola de Atenas é uma das mais

IMAGEM

A Escola de Atenas é uma das mais famosas pinturas do renascentista italiano Rafael e representa a Academia de Platão. Foi pintada entre 1509 e 1510 sob encomenda do Vaticano.

Na verdade, esse é um questionamento milenar que remonta à antiga Grécia clássica. Os filósofos gregos que se dedicavam ao es- tudo da linguagem dividiam-se, basicamente, entre os analogistas e os anomalistas. Em termos muito simples, os analogistas afirmavam que as formas da linguagem eram análogas às suas funções e era so- mente em razão da passagem do tempo que, para as novas gerações de falantes, a analogia entre forma e função deixava de ser percebida. Por seu turno, os anomalistas sustentavam que as relações entre forma e função sempre foram totalmente acidentais e improvisadas, um verdadeiro acordo social tacitamente estabelecido entre os falan- tes de uma língua humana. Contemporaneamente, a controvérsia entre analogistas e anomalistas é reanalisada na oposição iconicida- de versus arbitrariedade. Vejamos o que é isso.

Arbitrariedade

Dizer que uma forma está arbitrariamente associada a uma função signi- fica assumir que não é possível deduzir espontaneamente a que função determinada forma se presta. Sendo assim, torna-se preciso aprender e memorizar, caso a caso, a correspondência entre cada forma e sua respec- tiva função em uma dada língua, tal como apregoavam os anomalistas.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Um bom exemplo disso é a relação existente entre o significante (forma) e o significado (conteúdo) de cada uma das palavras do léxico do português. Só sabemos que a forma [kaza] (que escrevemos “casa”) deve ser associada ao conteúdo [tipo de moradia] porque aprendemos isso durante a aquisição da linguagem. Mas a relação entre forma e

conteúdo nessa palavra é totalmente arbitrária, isto é, não é natural ou motivada por algum princípio lógico. Isso tanto é verdade que, em outras línguas, o mesmo significa- do (conteúdo) pode ser codificado por outro significante (forma), tal como o termo “house”, que em inglês é a forma correspondente do conteúdo [tipo de moradia].

Por exemplo, a aparência física de uma “casa” não se assemelha em nada à forma [kaza], em portu- guês, ou à forma [hauz], em inglês. Com efeito, a língua portuguesa, no curso de sua história, poderia ter escolhido arbitrariamente qual- quer outra forma para expressar o conceito [tipo de moradia]. A esco- lha por [kaza] foi arbitrária. Vejamos outros exemplos de ar- bitrariedade entre forma e função. Em língua portuguesa, a forma de entonação ascendente ao fim da frase desempenha a função de

formular perguntas. Dizemos que a relação entre essa forma e essa função é arbitrária porque não há nada natural entre uma subida melódica e a “expressão de pergun- tas”. Trata-se de uma associação arbitrária que todos os falantes do português precisam aprender e memorizar. Também a sequência “sujeito > verbo > objeto” (svo) é uma for- ma arbitrária de codificar, em uma dada frase, a relação entre um agente, uma ação e um paciente. Embora a nós, falantes de portu- guês, pareça razoável pensar em codificar os participantes de uma ação na ordem “quem fez o que a quem”, não existe nada que torne essa ordem “mais natural” do que outra: trata-se, novamente, de uma arbitrariedade.

Em outras palavras, ao afirmarmos que uma forma

é arbitrária em

relação à sua função, estamos dizendo que não existem semelhanças entre o feitio de determinada forma

e o seu respectivo

conteúdo.

o feitio de determinada forma e o seu respectivo conteúdo. CURIOSIDADE Sequência: De fato, a maioria

CURIOSIDADE

Sequência:

De fato, a maioria das línguas do mundo apresenta a ordenação “sujeito > objeto > verbo” (sov) e, assim, codifica na frase os participantes de uma ação na sequência “quem fez a quem o quê”, em outro tipo de seleção arbitrária. A título de curiosidade, o japo- nês é uma língua sov; o mandarim, svo.

Iconicidade

Pelo que expusemos, você talvez já possa deduzir que a iconicidade é o justo oposto da arbitrariedade. Sendo assim, uma forma é icônica quan- do reflete, com clareza, a função a que se destina, conforme pensavam os analogistas. Um rápido exemplo pode bem ilustrar o conceito.

Linguagem, sociedade e cognição

Linguagem, sociedade e cognição CURIOSIDADE Onomatopeias: A forma “tique-taque” possui uma ex- pressão fonética

CURIOSIDADE

Onomatopeias:

A forma “tique-taque” possui uma ex- pressão fonética parecida com o som das batidas de um relógio. Da mesma maneira, “miar” é um verbo inspirado na forma acústica do miado dos gatos.

é um verbo inspirado na forma acústica do miado dos gatos. “Tim-tim” é um substantivo que,

“Tim-tim” é um substantivo que, iconi- camente, representa o som produzido pelo rápido toque entre taças quando se faz um brinde.

Imagine que uma pessoa lhe tenha apresentado desculpas por determinado incômodo. Essa pessoa teria discursado por um lon- go tempo, mas, ao fim e ao cabo, não teria dito nada que, de fato, reparasse o problema. Você poderia descrever a tediosa conversa com essa pessoa dizendo algo como “Fulano falou, falou, falou e não disse nada”. Ora, nessa frase a repetição do verbo “falar” é pra- ticamente um ícone, isto é, um representação evidente do fato de a pessoa ter falado repetidamente. Trata-se, portanto, de uma forma (um verbo repetido) que, com clareza, reflete a sua função (indicar a repetição de um ato). Outro exemplo de iconicidade é o alongamento de vogais que podemos usar em determinada palavra quando queremos enfati- zar o tamanho ou a duração de algo. Se você quer dizer que alguma coisa é exageradamente grande, pode dizer algo como “Era muito graaaaaaaaaaande”. Mais uma vez, a forma (alongamento da vogal) reflete, claramente, sua função. Também no plano do léxico, na re- lação entre significante e significado, existem casos de iconicidade. Trata-se das famosas onomatopeias: palavras cuja forma se asseme- lha ao conteúdo representado. As relações icônicas entre forma e função são bastante regula- res, tanto que há muitos estudiosos, não por acaso denominados funcionalistas, que defendem a ideia segundo a qual as formas exis- tentes nas línguas, em grande medida, refletem as funções a que se destinam. A motivação funcional para a existência de certas formas pode ser, de fato, encontrada em todos os domínios de uma língua, tal como vemos nos seguintes exemplos do português:

EXEMPLO  

EXEMPLO

 

Fonologia

Morfologia

Semântica

Sintaxe

Pense na palavra

 

Pense, por exemplo, nas palavras compos- tas, como “saca-rolha”, “guarda-roupa”, cujas funções são rapidamente dedutíveis pela análise de suas formas constituintes.

Lembre-se de expres- sões como “pé-da- mesa” ou “braço da ca- deira”, que transferem para objetos a estrutura do corpo humano e, assim, iconicamente, permitem a codificação formal de suas funções.

Tal como se vê na famo- sa sequência atribuída ao romano Júlio César, “Vim, vi e venci”, que re- flete, de forma icônica, a sequência temporal com que os atos se deram:

o general primeiro veio, depois, viu para, enfim, vencer.

“sussurrar” que se parece com os sons emitidos quando

alguém su

ssu

rra.

 

Se você está curioso para saber quem vence a batalha entre analogis- tas e anomalistas, saiba que temos, aqui, um empate técnico. As línguas humanas estão repletas de casos claros de arbitrariedade e casos eviden- tes de iconicidade. Ambos os fenômenos são encontrados em todas as línguas quando cotejamos formas e funções.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Com efeito, a análise mais interessante que os cientistas da lingua- gem vêm apresentando ao longo dos últimos anos é interpretar a rela- ção entre arbitrariedade e iconicidade em uma espécie de continuum, isto é, como uma sequência gradual de várias etapas que separam um extremo de arbitrariedade, de um lado, e um extremo de iconicidade de outro – mais ou menos como representamos a seguir:

[+ icônico] [+/- icônico] [+/- arbitrário] [+ arbitrário]

Sendo assim, não devemos pensar que as relações entre forma e função em uma língua sejam sempre uma questão de tudo ou nada; ou temos arbitrariedade ou temos iconicidade. A escalaridade parece ser uma boa chave para entendermos a dualidade forma e função. Pense, por exemplo, que, no uso de uma língua como o português, podemos desli- zar rapidamente da forma dos substantivos para a forma dos adjetivos, dependendo da função de um item no interior de um contexto sintático. Em suma, você deve ter em mente que a gradiência no mapeamen- to entre formas e funções linguísticas ocorre de maneira generalizada tanto no léxico quanto na gramática de uma língua.

tanto no léxico quanto na gramática de uma língua. EXEMPLO Contexto sintático: Vemos isso acontecer na

EXEMPLO

Contexto sintático:

Vemos isso acontecer na célebre ci- tação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis:

em [um autor defunto], “autor” é substantivo e “defunto” é adjetivo, mas, em [um defunto autor], “defunto” é substantivo e “autor” é adjetivo. Do mesmo modo, formas como “furado” podem ser analisadas como adjetivos ou como verbos (na forma de particí- pio), dependendo de sua função na frase, tal como vemos acontecer em “isso é papo furado” versus “a roupa foi furada pelo alfinete”, respectivamente. Na verdade, mesmo certas formas verbais, dependendo de sua função na frase, podem ser reanalisadas como substantivos, tal como acontece na expressão “sala de jantar”.

A linguagem humana em ação

Para finalizarmos este capítulo, passemos a descrever e analisar alguns fenômenos sociocognitivos que ganham vida todas as vezes em que colocamos a língua em ação nas inúmeras tarefas comuni- cativas e interacionais de nossa vida cotidiana. Antes de iniciarmos essa análise, devemos explicitar que existem duas modalidades fun- damentais no uso da linguagem humana: a produção e a compreen- são. Além disso, não podemos nos esquecer de que, em sociedades letradas, como é o caso da maior parte das comunidades brasilei-

ras, a língua pode se realizar pelo canal oral ou pelo canal escrito. Sendo assim, as quatro habilidades sociocognitivas envolvidas no uso de uma língua natural são a produção oral, a compreensão oral,

a produção escrita e a compreensão escrita. Comecemos pela produção linguística. Essa habilidade de- manda do falante (ou do escritor) uma série de tarefas cognitivas que se articulam dinamicamente ao contexto social da interação

linguística. Por exemplo, para produzir a fala (ou a escrita), uma pessoa deve, primeiramente, selecionar de sua memória de lon- go prazo os itens lexicais que expressarão os conceitos que deseja veicular no ato de linguagem. Essa seleção de palavras na mente é

o que os psicolinguistas chamam de planejamento de fala ou plane- jamento conceitual. Vejamos como isso ocorre.

Linguagem, sociedade e cognição

Linguagem, sociedade e cognição Esquematicamente, podemos representar a produção linguística oral pela sequência

Esquematicamente, podemos representar a produção linguística oral pela sequência ilustrada a seguir:

Plano Conceitual Seleção Lexical Combinação Sintática Expressão Fonética

Você deve ter notado que acabamos de descrever a produção da fala fazendo com que ela parecesse semelhante à produção da escrita. Pelo que sugerimos, a diferença entre essas duas modalidades residiria no simples fato de que, na escrita, usaríamos grafemas para representar a expressão fonética do texto. No entanto, essa descrição é, na verdade, uma supersimplificação. De fato, a produção oral é muito diferente da produção escrita. De uma maneira bem re- sumida, podemos dizer que as pessoas, quando escrevem, estão muito mais conscientes do uso que fazem da linguagem, sendo, por isso mesmo, bem mais atentas e vigilantes tanto em relação ao que dizem quanto em relação a como dizem.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

A tomada de consciência e a vigilância, comuns na produção es- crita, estão em flagrante contraste com o caráter mais espontâneo e automático da fala natural. Não é por outra razão que a escrita fluen- te, típica das pessoas bem escolarizadas e treinadas nessa arte, de- manda muitos anos de aprendizado formal, desde a alfabetização até o letramento profundo na vida adulta. Por sua vez, a produção fluente da fala emerge já em crianças bem pequenas e se torna visível em qualquer conversa oral entre humanos, independente da escolarização ou do letramento dos sujeitos falantes.

da escolarização ou do letramento dos sujeitos falantes. RESUMO Portanto, atente para essa ressalva: apesar de

RESUMO

Portanto, atente para essa ressalva: apesar de os mecanismos básicos envolvi-

dos na produção oral e escrita serem semelhantes, falar e escrever são fenôme-

nos sociocognitivos dramaticamente diferentes.

No eixo da compreensão linguística, o ouvinte (ou leitor) deve per- ceber as formas manifestadas no sinal da fala (ou da escrita) de seu interlocutor para, então, acessar, em sua memória de longo prazo, os conteúdos por elas evocados. Podemos dizer que a compreensão é o espelho invertido da produção. Vejamos por quê. Na produção linguística, começamos com um plano conceitual.

Esse plano nos leva a dizer certas coisas por meio de dadas palavras,

as quais são inseridas nas frases que conduzem os textos. Já na compreen- são da linguagem, tudo começa pela detecção, nos textos, dos elementos do ato linguístico, tais como frases e palavras. É com base na identificação desses elementos que se torna possí- vel compreender o plano conceitual e os valores comunicativos que move- ram a produção do interlocutor. Mais uma vez, as semelhanças en- tre oralidade e escrita estão aqui exa- geradas. No caso, a especificidade da

compreensão da escrita diria respeito, de maneira muito simplifica- da, apenas à decodificação ortográfica (leitura) que faria a função da percepção fonética. Infelizmente, não podemos tratar de tantos detalhes no espaço li- mitado deste capítulo, mas, se você estiver interessado em compreen- der as minúcias que diferenciam oralidade e escrita, sugerimos a leitu- ra do excelente livro Os neurônios da leitura (2012), do neurocientista francês Stanislas Dehaene. Para sintetizar o que acabamos de dizer sobre a produção e a compre- ensão linguística, a figura a seguir parece ser um bom recurso didático.

Na realidade, porém, a compreensão linguística pela leitura é muito mais complexa do que a “decodificação ortográfica” sugere.

complexa do que a “decodificação ortográfica” sugere. LEITURA Os neurônios da leitura: Segundo o autor, as

LEITURA

Os neurônios da leitura:

ortográfica” sugere. LEITURA Os neurônios da leitura: Segundo o autor, as pesquisas realizadas pela psicologia

Segundo o autor, as pesquisas realizadas pela psicologia cognitiva experimental comprovaram o centro de reconhecimento da palavra escrita no cérebro. Tal descoberta afeta profundamente as metodologias em- pregadas nas escolas, que deverão rever suas abordagens.

Linguagem, sociedade e cognição

Linguagem, sociedade e cognição AUTOR Émile Benveniste: Émile Benveniste ( 1902 - 1976 ) foi um

AUTOR

Linguagem, sociedade e cognição AUTOR Émile Benveniste: Émile Benveniste ( 1902 - 1976 ) foi um

Émile Benveniste:

Émile Benveniste (1902-1976) foi um linguista francês, cuja principal obra, Problè- mes de linguistique générale, ressalta a ideia de ocorrência de dois planos de enunciação – o da história e o do dis- curso –, através dos quais demonstra a oposição entre a “não pessoa” (terceira) e as “pessoas” (eu-tu).

EXEMPLO A B
EXEMPLO
A
B

Note que as setas que correm da esquerda para a direita indicam que o “plano

conceitual” presente na mente de A é transformado na informação linguística vei-

culada para B. Por sua vez, B recebe essa informação linguística e, rapidamen-

te, consegue interpretar os conceitos ali representados. A figura é interessante,

também, porque, nela, podemos perceber que a produção e a compreensão da

linguagem são automaticamente intercambiáveis no fluxo da fala normal. Pelas

setas que correm da direita para a esquerda, notamos que, agora, é B quem produz

a informação linguística que será veiculada para A.

A enunciação

Na dinâmica da produção e da com- preensão da linguagem, o intercâm-

bio de posições entre aquele que fala

e aquele que ouve dá origem ao fenô- meno conhecido como enunciação. Na enunciação, a pessoa que pro-

duz a fala (ou a escrita) é o enunciador

– a primeira pessoa do discurso. Já a

A enunciação deve ser compreendida como o ato de criação de um enunciado linguístico.

pessoa que compreende a fala (ou a escrita) é o enunciatário – a segunda pessoa do discurso, a quem a fala (ou a escrita) se destina. Chamamos de terceira pessoa, ou de não pessoa – em um termo interessante formu- lado pelo linguista francês Émile Benveniste –, os objetos e as pessoas sobre os quais falamos (ou escrevemos) durante a enunciação. Em termos linguísticos e comunicativos, é interessante notar que, na enunciação explícita na produção da linguagem, as chamadas pessoas do discurso (os pronomes pessoais que você, certamente, conhece das aulas de português) são, justamente, categorias linguís- ticas que indicam a figura da primeira pessoa (eu, nós), da segunda pessoa (você, vocês) e da terceira pessoa (ele, ela, eles, elas e todas as expressões referenciais, como os substantivos).

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras ATENÇÃO É com base na existência do enunciador, do

ATENÇÃO

É com base na existência do enunciador, do enunciatário e dos referentes do

discurso que diversas expressões linguísticas são colocadas sob perspectiva du-

rante a enunciação.

Por exemplo, pronomes como [meu/minha/nosso/nossa] indicam

a posse de algo em relação à primeira pessoa do discurso, enquanto

pronomes como [seu/seus/sua/suas] indicam a posse relativa à segun- da pessoa, e expressões como [dele/deles/dela/delas] denotam a posse

da terceira pessoa. Na verdade, mesmo o espaço ocupado pelas pessoas do discurso é posto em perspectiva durante a enunciação. Assim, ter- mos como [aqui/este] indicam o espaço da primeira pessoa, enquanto [aí/esse] denotam o espaço da segunda pessoa, e [lá/aquele] apontam

o espaço do referente, o lugar da terceira pessoa. De maneira muito interessante, o próprio tempo que utilizamos quando produzimos e compreendemos a linguagem só assume algu- ma interpretação coerente quando é colocado sob perspectiva duran- te a enunciação. Desse modo, sabemos que [ontem] é um termo que denota um momento anterior ao tempo da enunciação, ao passo que [hoje] indica o momento que coincide com a criação do enunciado, enquanto [amanhã] marca um tempo futuro que acontecerá depois de a enunciação ter sido concluída.

acontecerá depois de a enunciação ter sido concluída. EXEMPLO CURIOSIDADE Tempo futuro: Por que a frase

EXEMPLO

depois de a enunciação ter sido concluída. EXEMPLO CURIOSIDADE Tempo futuro: Por que a frase “Fiado,

CURIOSIDADE

Tempo futuro:

ter sido concluída. EXEMPLO CURIOSIDADE Tempo futuro: Por que a frase “Fiado, só amanhã” é engraçada?

Por que a frase “Fiado, só amanhã” é engraçada? Pela perspectiva da enun- ciação, esse dizer, na prática, torna a venda a crédito impossível: o “amanhã”, seja quando for lido, sempre desloca para o dia posterior – e assim por dian- te, ad infinitum.

Para que você tenha uma boa noção de como pessoa, espaço e tempo são ca-

tegorias linguísticas cujas referência e interpretação dependem, crucialmente, da

enunciação, imagine que você esteja andando pelo centro de sua cidade, quando, de

repente, encontra um bilhete que flutua em sua direção.

Como pessoa curiosa, você abre o bilhete e encontra a seguinte mensagem:

“Eu estive aqui hoje.” Ora, você será capaz de compreender o significado básico

dessas expressões (afinal, é possível depreender do bilhete que “alguém esteve

em algum lugar, em algum dia”), mas não será possível identificar o sentido do

enunciado, justamente porque você não participou da enunciação – e, portanto,

não conseguirá encontrar o referente da primeira pessoa (eu) nem poderá deduzir

o

lugar (aqui) que ela ocupava ao produzir o bilhete, tampouco descobrirá qual foi

o

tempo presente (hoje) naquela enunciação.

Algo totalmente diferente aconteceria se o bilhete contivesse uma frase como

“A presidente Dilma esteve na Prefeitura do Rio de Janeiro em 04 de maio”. Nesse

caso, a identificação referencial da pessoa, do espaço e do tempo do enunciado

não são totalmente dependentes do contexto estabelecido na enunciação. Sabemos

apenas que a produção dessa frase ocorreu depois da visita da Presidente à Prefei-

tura – e deduzimos isso em função do tempo verbal passado expresso em “esteve”.

Linguagem, sociedade e cognição

Linguagem, sociedade e cognição CONCEITO Referente discursivo: O já citado linguista Roman Jackob- son havia destacado

CONCEITO

Referente discursivo:

O já citado linguista Roman Jackob- son havia destacado a existência da não pessoa ao batizar com o termo “referencial” a função da linguagem que privilegia a terceira pessoa como o referente do discurso.

Das pessoas do discurso que são acionadas sempre que usamos a lin- guagem para a produção e a compreensão, a mais curiosa, em termos

científicos, é a terceira. Como dissemos, a terceira pessoa é, na verdade,

a não pessoa, isto é, é a ausência da primeira e da segunda pessoas. Tra- ta-se do referente discursivo de um dado uso da língua. A função referencial é, muitas vezes, considerada a mais pro- eminente dentre as funções da linguagem, já que os humanos ti- picamente usam a língua para falar do mundo, seus objetos, suas ações e pessoas. Todavia, a proeminência da “função referencial” pode nos passar a falsa ideia de que a linguagem humana, quando colocada em ação, seja essencialmente referencial. É bem verdade que muitos usos linguísticos são objetivos, isto é, focam-se no obje- to (terceira pessoa) de maneira puramente referencial. Entretanto, grande parte da experiência linguística humana é metafórica. Vejamos

o que isso quer dizer.

Função referencial x metáfora

Nossa tradição escolar se esforça para nos fazer crer que o uso co- tidiano e comum da linguagem seja referencial, isto é, somos ensi- nados que, quando produzimos e compreendemos a fala e a escrita, fazemos referências a coisas e pessoas de maneira mais ou menos

objetiva. A linguagem metafórica seria, então, característica dos usos linguísticos mais elaborados e artísticos, como a poesia e os roman- ces. Essa ideia é reforçada quando, na escola, estudamos as “figuras de linguagem” e ficamos com a impressão de que elas só acontecem nos textos literários. Na verdade, o uso metafórico da linguagem não é exclusividade da arte. Com efeito, todos os seres humanos comuns, no dia a dia, também utilizam metáforas ao produzir enunciados linguísticos. Por exemplo, quando di-

zemos alguma coisa como “Decidirei se vou casar ou não só mais à frente ao longo da minha vida” esta- mos fazendo referên- cia a uma realidade temporal (a passagem da vida) por meio de uma categoria espa-

cial (a localização no espaço — “à frente”). Quando produzimos frases assim, estamos, na verdade, cruzando domínios de sentidos para fazer referência àquilo que queremos dizer.

No exemplo, estamos transferindo propriedades do espaço para fazer referência à noção de tempo. Precisamente é esse o princípio de toda a linguagem metafórica: a transferência de domínios de significados.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

A linguagem metafórica é, na verdade, generalizada nos usos linguísticos. Podemos di- zer que ela é a regra, e não a exceção, quando produzimos e compreendemos a linguagem humana. Um uso de linguagem estritamente objetivo e referencial é raro. Só o encontra- mos em abundância no discurso científico das áreas da natureza, como a Física, a Química e a Biologia. Mesmo em outras áreas da ciência, como a Economia, encontramos fartos exemplos de linguagem metafórica em frases como “O mercado está aquecido”, “Os preços estão nas alturas”, “Esperamos uma queda brusca na taxa de juros” etc. Para os cidadãos comuns, em seu cotidiano linguístico, a metáfora é muito mais do que uma mera figura de estilo: ela é um produtivo recurso natural de pensamento e de linguagem.

Para concluir

Neste primeiro capítulo, começamos nossa pequena incursão pelo fantástico e complexo mun- do da linguagem humana. Aprendemos, aqui, diversos conceitos importantes, como a dife- rença entre linguagem e língua, a distinção entre Língua-i e Língua-e, as noções e as fases da aquisição da linguagem, a oposição entre formas e funções linguísticas e os fundamentos da linguagem em ação. Nosso objetivo, ao longo do capítulo, foi apresentar a você uma visão pano- râmica dos principais temas e figuras do estudo científico da linguagem, o qual tem em conta a interação dinâmica entre sociedade e cognição. Você terá boas oportunidades de ampliar seus conhecimentos sobre o assunto ao consultar os vídeos e os livros que indicamos. Bons estudos!

os vídeos e os livros que indicamos. Bons estudos! REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CHOMSKY, N. O conhecimento da

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHOMSKY, N. O conhecimento da língua. Sua natureza, origem e uso. Lisboa: Caminho, 1986.

DEHAENE, S. Os neurônios da leitura. Pará: Pense, 2012.

PINKER, S. O instinto da linguagem: como a mente cria a linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

SAUSSURE, F. [1916]. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2004.

WERMKE, K. et al. Cry Melody in 2 Month Old Infants With and Without Clefts. The Cleft Palate-Craniofacial Journal,

v. 48, n. 3, p. 321–330, 2011.

Journal, v. 48 , n. 3, p. 321–330 , 2011 . IMAGENS DO CAPÍTULO p. 11

IMAGENS DO CAPÍTULO

p. 11

Tainara Oliveira · Estácio

Cloud

p. 12 Ferdinand de Saussure

Autor desconhecido · Wikimedia . cc

p. 12 Nice dog

Michael Sagmüller · stock.xchng

p. 15 Quatro

Paulo Vitor Bastos · Estácio

p. 16 Noam Chomsky

Duncan Rawlinson · Wikimedia . cc

p. 17 Bandeira do Paraguai Domínio público

p. 18 Steven Pinker

Charles Gauthier · charlesgauthier.com

p. 19 Bebês

Paulo Vitor Bastos · Estácio

p. 20 Pequeno

Paulo Vitor Bastos · Estácio

p. 20 Médio

Paulo Vitor Bastos · Estácio

p. 20 Grande

Paulo Vitor Bastos · Estácio

p. 21 Eric Lenneberg

Autor desconhecido

p. 22 Graciliano Ramos

Autor desconhecido · Wikimedia . cc

p. 23 Karl Bühler

Autor desconhecido · cmu

p. 23 Roman Jakobson

Autor desconhecido · Wikimedia · cc

p. 24 A Escola de Atenas

Rafael Sanzio · Wikimedia · cc

p. 26 Champagne Chin Chin

Roger Kirby · stock.xchng

p. 29 Os neurônios da leitura Stanislas Dehaene

p. 30 Émile Benveniste

Autor desconhecido · Jacket Magazine

p. 31 Fiado

Tainara Oliveira . Estácio

2

Língua e variação linguística

ivo da costa do rosário

2 Língua e variação linguística

2 Língua e variação linguística AUTOR Antônio Gonçalves da Silva: Patativa de Assaré (Assaré, ce, 1909

AUTOR

2 Língua e variação linguística AUTOR Antônio Gonçalves da Silva: Patativa de Assaré (Assaré, ce, 1909

Antônio Gonçalves da Silva:

Patativa de Assaré (Assaré, ce, 1909- 2002) alfabetizou-se aos 12 anos e, a partir de então, come- çou a fazer repentes e poemas. O nome “Patativa” faz referência a uma ave amazônica de canto triste e melódico. Antônio Gonçalves da Silva escreveu diversos livros, também foi nomeado cinco vezes Doutor Honoris Causa em universidades brasileiras.

ivo da costa do rosário

Língua e variação linguística

Neste capítulo, vamos discutir as relações entre língua e usuários da língua. Para iniciar a abordagem desse assunto, leia o texto a seguir:

Não tenho sabença, pois nunca estudei, apenas eu sei o meu nome assiná. Meu pai, coitadinho, vivia sem cobre e o fio do pobre não pode estudá.

Você já conhecia esse texto? Consegue reconhecer o estilo de escrita des-

se poeta? Quem escreveu esses versos foi Antônio Gonçalves da Silva,

mais conhecido como Patativa do Assaré, um dos mais aplaudidos poetas e

compositores brasileiros, reconhecido inclusive internacionalmente.

À primeira vista, você deve ter estranhado a linguagem empregada pelo poeta. Afinal, há várias palavras e construções que não estão em conformidade com a ortografia oficial da língua portuguesa, ou seja, com a linguagem exigida, por exemplo, pelas gramáticas normativas. Você acha que, por conta disso, Patativa do Assaré falava errado? Existe uma maneira certa de falar e escrever? São essas questões, entre ou- tras, que vamos discutir neste capítulo.

Papel e status dos interlocutores na comunidade linguística

A língua é, sem dúvi- da, o meio mais efi- caz de comunicação

entre as pessoas. Por meio da língua, os seres humanos, de todos os tempos e lugares, estabeleceram e estabelecem relações sociais de diferentes manei- ras. Sendo assim, podemos afirmar que o uso da língua reflete, em parte, a estruturação de uma dada sociedade.

O uso da língua é elemento fundamental para a construção da sociedade.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras RESUMO Em outras palavras, só existem as línguas porque

RESUMO

Em outras palavras, só existem as línguas porque existem seres humanos que as

falam em sociedade, com propósitos diversos. E, ao estabelecer relações sociais

– no trabalho, na escola, na igreja, no sindicato, na conversa informal e em várias

outras instâncias –, a língua vai se moldando às necessidades comunicativas dos

falantes e ao contexto da fala.

De fato, as mudanças na sociedade costumam provocar mudanças tam- bém nos sistemas linguísticos, pois todas as línguas naturalmente existem no seio de uma sociedade, que a (re)processa e a (re)elabora continuamente.

Propósitos da língua:

exemplificando pela modalização

Até o momento estamos falando de aspectos relacionados à língua e à sociedade. Para começar a aprofundar o tema, traremos uma breve noção sobre modalidade, que o ajudará a entender como o falante utiliza a língua para se relacionar com o contexto que o cerca.

a língua para se relacionar com o contexto que o cerca. RESUMO CURIOSIDADE Sistemas linguísticos: Com

RESUMO

para se relacionar com o contexto que o cerca. RESUMO CURIOSIDADE Sistemas linguísticos: Com o advento

CURIOSIDADE

se relacionar com o contexto que o cerca. RESUMO CURIOSIDADE Sistemas linguísticos: Com o advento da

Sistemas linguísticos:

Com o advento da tecnologia, por exemplo, muitas pessoas inseriram em seus vocabulários palavras até então inexistentes ou de pouca frequência de uso. Assim, caminhando pela rua ou conversando, é comum ouvirmos que Fulano acessou a web”, “torpedos foram trocados”, “novos tablets foram lançados”, “dá um google para ver” etc.

Entende-se por modalidade os recursos da língua utilizados para expressar a

atitude do locutor, nos conteúdos, em relação ao interlocutor. Há dois tipos prin-

cipais de modalidades: a epistêmica e a deôntica.

Na modalidade epistêmica, com base no grau de conhecimento que possui, um falante expressa sua atitude em relação à verdade ou à falsi- dade do conteúdo de seu enunciado. Os valores epistêmicos podem ser de certeza, probabilidade ou possibilidade. Vamos a um exemplo?

probabilidade ou possibilidade. Vamos a um exemplo? EXEMPLO O estudante foi aprovado na disciplina.

EXEMPLO

O

estudante foi aprovado na disciplina.

 

CERTEZA

o

locutor se compromete com a veracidade da informação

O

estudante deve ter sido aprovado na disciplina.

 

PROBABILIDADE

o

uso de “deve” condiciona a verdade, o locutor infere que tenha ocorrido

O

estudante pode ter sido aprovado na disciplina.

 

POSSIBILIDADE

o locutor não assume compromisso em relação à verdade

Língua e variação linguística

Língua e variação linguística CURIOSIDADE Mudança: A expressão vossa mercê, como sabemos, não é mais utilizada

CURIOSIDADE

Mudança:

A expressão vossa mercê, como sabemos, não é mais utilizada no português atual. Atualmente utiliza- mos o pronome você para substituir essa expressão. Portanto, houve um processo de mudança, transformando, ao longo do tempo, a expressão vossa mercê em você.

Na modalidade deôntica, um locutor exprime juízos, procurando agir sobre o seu interlocutor, impondo, proibindo ou autorizando a realização de algo em um tempo necessariamente posterior ao dis- curso. Estabelece-se uma relação hierárquica entre locutor e interlo- cutor. Tradicionalmente, a modalidade deôntica divide-se em valores de obrigação e valores de permissão. Veja:

em valores de obrigação e valores de permissão. Veja: EXEMPLO “Saia daqui, agora!” “Agora, você não

EXEMPLO

“Saia daqui, agora!” “Agora, você não vai sair.”

“Saia daqui, agora!” “Agora, você não vai sair.”

O

valor modal de obrigação ocorre quando o locutor impõe

ou proíbe a realização de uma ação ao interlocutor.

ou proíbe a realização de uma ação ao interlocutor.

“Só sai, se terminar antes.” “Se terminar, você pode sair.”

“Só sai, se terminar antes.” “Se terminar, você pode sair.”

O

valor modal de permissão ocorre quando o locutor define

e/ou oferece escolhas ao interlocutor para realizar uma ação.

e/ou oferece escolhas ao interlocutor para realizar uma ação.

A modalidade, tanto epistêmica quanto deôntica, serve para aten- der, como vimos, a necessidades comunicativas. Afinal, informar, descrever, contar, ordenar, permitir, proibir, impor etc. são ações típicas veiculadas pelas línguas humanas. Elas dependem da situação comunicativa e, muitas vezes, da intencionalidade do falante.

e, muitas vezes, da intencionalidade do falante. RESUMO Usamos a língua não só para nos comunicarmos

RESUMO

Usamos a língua não só para nos comunicarmos e articularmos informações

mas também para agirmos sobre nossos interlocutores e até mesmo para con-

trolar o nível de comprometimento ou de verdade usado nas declarações que

fazemos cotidianamente.

Transformações na trajetória da língua:

mudança e variação

Esse processo de adap- tação da língua aos propósitos do falante, que não está restrito somente à modalida-

de, provoca dois fenômenos naturais atestados em todos os lugares e em todos os tempos. Trata-se da mudança e da variação linguística (iremos enfatizar a variação ao longo deste capítulo).

Por mudança, devemos entender as transformações sofridas pelas línguas ao longo do tempo.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Pesquisadores vêm estudando já há muito tempo essas transfor- mações na trajetória da língua, gerando um número bastante expres- sivo de publicações acerca desse assunto. Esses estudos, que têm como objetivo analisar as mudanças da língua ao longo do tempo, são chamados estudos diacrônicos. Veja o exemplo a seguir:

chamados estudos diacrônicos. Veja o exemplo a seguir: EXEMPLO “Este rrey Leyr nõ ouue filho, mas

EXEMPLO

“Este rrey Leyr nõ ouue filho, mas ouue tres filhas muy fermosas e amaua-as

mujto. E huu dia ouuve sas rrazõoes com ellas e disse-lhes que lhe dissessem

uerdade quall dellas o amaua mais”.

Você conseguiu ler o texto anterior? Qual foi a sua sensação? Se você ima- gina que se trata de um texto antigo, acertou! Esse texto, cujo título é Lenda do Rei Lear, é datado do século XIII ou XIV. Ele serve para ilustrar como a língua muda ao longo do tempo, basta verificar como era a escrita séculos atrás…

Variação linguística

Voltando ao exemplo dado no início deste capítulo, no poema de Patativa do Assa- ré vimos palavras como

sabença, assiná e estudá. Você deve ter percebido que, no português formal, gramatical, essas palavras equivalem a sabedoria, assinar e estudar. Aí está a ideia de va- riação, que pode ser compreendida como a face heterogênea da língua. Assim, da mesma forma como Patativa do Assaré utiliza a forma saben- ça para se referir a sabedoria, há outras formas que variam, e não somente em termos de ortografia, mas inclusive em termos vocabulares. Cariocas, por exemplo, falam chuva fina enquanto paulistas falam garoa. O português do Brasil utiliza o termo ônibus, enquanto em Portugal falam autocarro. O tópico da variação, devido à sua relevância, chegou a ser poeti- zado pelos modernistas brasileiros. Manuel Bandeira, por exemplo, foi um crítico do modo artificial como alguns brasileiros tentavam imitar os estilos lusitanos, nas primeiras décadas do século xx :

No uso da língua em sociedade, muitas vezes há várias formas de se dizer a mesma coisa.

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros Vinha da boca do povo na língua errada do povo Língua certa do povo Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil Ao passo que nós

O que fazemos

É macaquear

A sintaxe lusíada

que nós O que fazemos É macaquear A sintaxe lusíada CURIOSIDADE Português do Brasil: Nossas favelas

CURIOSIDADE

que fazemos É macaquear A sintaxe lusíada CURIOSIDADE Português do Brasil: Nossas favelas são conhecidas como

Português do Brasil:

Nossas favelas são conhecidas como Nossas favelas bairros de lata em Portugal. Em Angola, que também tem a língua portuguesa como bairros de lata em Portugal. Em Angola, que também tem a língua portuguesa como oficial, utiliza- se o termo musseque. Para saber mais sobre diferenças entre o português brasileiro e o português europeu, recomendamos uma visita ao site do Instituto Camões.

recomendamos uma visita ao site do Instituto Camões. AUTOR Manuel Bandeira: Manuel Carneiro de Sousa Bandeira

AUTOR

recomendamos uma visita ao site do Instituto Camões. AUTOR Manuel Bandeira: Manuel Carneiro de Sousa Bandeira

Manuel Bandeira:

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (1886-1968) nasceu em Recife (pe). Juntamente com Oswald de Andrade e Mário de Andrade, formou o grupo de escritores mais importantes da Primeira Fase Modernista de nossa literatura.

BANDEIRA, Manuel Estrela da vida inteira. 2 ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.

Língua e variação linguística

Língua e variação linguística CURIOSIDADE Escolarização formal: Somente após 300 anos, com a che- gada da

CURIOSIDADE

Escolarização formal:

Somente após 300 anos, com a che- gada da família real, que a educação superior começou a fazer parte da nossa realidade: em 1808, surge o Colégio Médico-Cirúrgico da Bahia. A elite bra- sileira (membros da Corte, membros da Igreja e filhos de grandes latifundiários), até então, só tinha por opção estudar na Europa. A primeira universidade brasileira surgiu em 1920, e foi chamada de Universidade do Rio de Janeiro (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro).

de Janeiro (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro). CURIOSIDADE Mudanças: Um bom exemplo para vermos

CURIOSIDADE

Mudanças:

Um bom exemplo para vermos as mudanças é a inserção de palavras estrangeiras, como shopping. O uso da forma original (em inglês) dessa palavra é tão disseminado entre nós que praticamente não se utiliza uma forma correspondente em português (como “centro comercial”, por exemplo). Em outros casos, uma palavra estrangeira acaba sendo incorporada à língua. É o famoso “aportuguesamento”, como na forma ballet (francês) para balé.

Em busca de uma língua essencialmente marcada por traços da cultura brasileira, os modernistas costumeiramente defendiam, de forma ávida, usos linguísticos característicos do Brasil, mesmo que não estivessem de acordo com o “português correto”. É por isso que Manuel Bandeira afirma que a “a língua errada do povo” era a “língua certa do povo”. Parece paradoxal, mas não é.

“língua certa do povo”. Parece paradoxal, mas não é. RESUMO O português vivo falado pelos brasileiros

RESUMO

O português vivo falado pelos brasileiros é, na opinião do modernista, a verdadeira língua

do Brasil, que traduz um falar “gostoso”, segundo suas palavras. Enfim, mesmo que sem

os termos técnicos que utilizamos, defendia-se a legitimidade da variação linguística.

Voltando ao nosso tema, os estudos de variação linguística são sempre feitos dentro de um recorte temporal específico, ou estudos sincrônicos. Sincronia, portanto, designa um estado específico da língua.

portanto, designa um estado específico da língua. EXEMPLO Se um pesquisador se ocupar do estudo do

EXEMPLO

Se um pesquisador se ocupar do estudo do pronome você no português do Brasil atual

(ou até mesmo em todos os lugares da comunidade lusófona onde esse item é utilizado),

dizemos que esse é um estudo sincrônico. Por outro lado, se analisa um determinado

uso linguístico ao longo de décadas ou séculos, com o objetivo de descrever transfor-

mações do item ao passar do tempo, então estamos diante de um estudo diacrônico.

Por que a mesma língua é, também, diferente?

A língua portuguesa era a língua falada/escrita pelas classes escolariza-

das de Portugal. Aqui encontrou as línguas indígenas que, na fase inicial da colonização, formaram uma “língua de intercurso”: mistura de por- tuguês e línguas indígenas, que promovia a comunicação entre o coloni- zador europeu e os nativos indígenas. Em seguida, o povo que aqui se encontrava – índios, negros escraviza- dos e mestiços, praticamente todos sem acesso à escolarização formal

ia adquirindo o idioma de Portugal. Esse idioma, aqui no Brasil, tornou-se

também “mestiço”, sendo passado de pai para filho, com gerações apren- dendo e ensinando, de forma empírica, a língua portuguesa. Como se pode perceber, por falta de um ensino sistematizado para to- dos, grande parcela da população utilizava a língua oficial conforme suas próprias “regras”, de acordo com suas necessidades, e foi, pouco a pouco, promovendo variações na língua portuguesa. Surgia, assim, uma variante daquele português das elites escolarizadas: a língua falada pelo povo. Após mais de 500 anos de uso do português no Brasil, nada mais na- tural que a língua tenha passado por mudanças e apresente variações

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

conforme a região, a classe social e, até mesmo, conforme a idade dos falantes. Nesse contexto de mudanças e variações, há palavras e construções linguísticas que, embora ainda em uso, são cada vez mais escassas ou restritas a uma situação de alta for- malidade. Mesmo assim, tais usos são ensinados nas escolas, estão presentes em todas as gramáticas, são cobrados em exames, concursos etc. Vamos a um exemplo:

EXEMPLO 1: “O ônibus já passara quando chegamos ao ponto”

Caso em questão Regra gramatical Uso mais comum Emprego do pretérito mais-que-perfeito Emprega-se o

Caso em questão

Regra gramatical

Uso mais comum

Emprego do pretérito mais-que-perfeito

Emprega-se o pretérito mais-que-perfeito para assinalar um fato passado em relação a outro, também no passado

A forma composta, com uso de verbo auxiliar:

“O ônibus já tinha passado quando chegamos ao ponto”

EXEMPLO 2: “Amanhã, pegá-lo-emos no horário”

Caso em questão

Regra gramatical

Uso mais comum

Colocação pronominal

Emprega-se a mesóclise quando o verbo estiver no futuro do presente ou no futuro do pretérito do indicativo, desde que não se justifique a próclise.

O uso de próclise em vez de mesóclise ou uso de pronome reto em vez de oblíquo:

“Amanhã, o pegaremos no horário”. “Amanhã, pegaremos ele no horário”.

Por outro lado, há momentos em que estamos com nossos amigos, nossos familia- res, nossos grupos sociais. Nessas situações, é comum haver um uso menos formal da língua, que comumente é acompanhado por gírias, expressões populares etc. Esse uso, ao contrário do que muitos pensam, não é errado. Trata-se apenas de um uso diversifi- cado do idioma. Portanto, esses usos são naturais, seguem uma lógica própria e preci- sam ser respeitados, já que são igualmente úteis à comunicação. Assim como as culturas são diversas, as línguas (que são parte da cultura) também o são: os diversos domínios sociais atestam e influenciam o modo de fala e de escrita dos cidadãos. Assim, podemos afirmar que, em geral, os eventos de uma sala de aula ou de uma reunião de trabalho costumam ser mais monitorados do que as conversas espontâneas no seio familiar, por exemplo. Nessas situações práticas do dia a dia, invariavelmente se atesta o fenômeno da variação. Pense em como você se comunica com o professor na universidade e como você conversa com seus amigos ou com seus familiares. Não é diferente?

com seus amigos ou com seus familiares. Não é diferente? EXEMPLO Imagine um cartão de apresentação

EXEMPLO

Imagine um cartão de apresentação profissional com erros gramaticais. Inconcebível, não é? Pois então, em con- textos “monitorados”, o uso que um falante faz da língua oral ou escrita é “analisado” pelo ouvinte/leitor, como parte de um processo de legitimidade, de adequação e de pertinência do conteúdo ao sujeito que fala/escreve.

capítulo 2 41

Língua e variação linguística

Língua e variação linguística CONCEITO Dialetos: Dialeto é a forma como uma língua é falada em

CONCEITO

Dialetos:

Dialeto é a forma como uma língua é falada em uma região específica. Podemos considerar, por exemplo, que o português brasileiro e o português euro- peu são variedades dialetais. O mesmo pensamento vale dentro do Brasil, onde temos subvariedades: o grupo dialetal carioca, gaúcho, baiano etc.

Explorando mais o tema: variações dialetais

Para nos aprofundar- mos no conceito de variação, falaremos agora das variações dialetais. Dentre os

dialetos que mais chamam a atenção dos estudiosos da língua, estão os usos que se dão conforme a região (diatópicos) e conforme o estrato sociocultural (diastráticos).

Para o estudo científico da linguagem, a variação é um fenômeno normal, natural, inerente a todas as línguas.

Variação diatópica (dialetal)

No Rio de Janeiro, chama a atenção o “chiado” caracterís- tico da população ao pronunciar o “s” em determinadas posi-

ções na palavra, como em “misto” ou “mais” (com som de x). Por outro lado, é próprio do fa- lar nordestino a abertura das vogais “e” e “o” antes da sílaba tônica, em palavras como “receita” e “morena”. Em São Paulo, o uso da palavra “guia” corresponde ao uso de “meio-fio” no Rio de Janeiro. Todos es- ses são exemplos de variação diatópica.

Pessoas que residem em localidades diferentes, distantes, tendem a ter pronúncia e vocabulário também diferentes.

Variação diastrática (sociocultural)

A língua também varia conforme o grau de escolaridade do falante, pela cultura familiar, pela situação financeira, por grupos profissionais e so- ciais específicos e, até mesmo, por idade ou gênero, entre outros. Além do uso de gírias pelos mais jovens ou por pessoas em situação de grande informalidade e da falta de concordância de número (singu- lar-plural) entre os menos escolarizados, os jargões profissionais são também exemplos clássicos de variação diastrática. No universo do futebol, por exemplo, “ir para o chuveiro mais cedo” significa que o jogador foi expulso de campo ou substituído. No discur- so de advogados, há grande uso de expressões latinas, como data venia, que corresponde a “com o devido respeito” em português.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

  ATIVIDADE  
 

ATIVIDADE

 

Vamos fazer um teste? Veja as frases e as associe a um determinado perfil:

 
1
1

Mamãe, eu quero um au-au!

Pessoa com baixa escolaridade1 Mamãe, eu quero um au-au!

2
2

A coroa lá em casa tá bolada

Pessoa com alta escolaridade2 A coroa lá em casa tá bolada

3
3

A moçoila está uma teteia.

Uma criança3 A moçoila está uma teteia.

4
4

Que gracinha! Amei isso, é lindo!

Um idoso4 Que gracinha! Amei isso, é lindo!

5
5

É

mister ampliarmos o repertório vocabular do corpo discente.

Pessoa em conversa online5 É mister ampliarmos o repertório vocabular do corpo discente.

6
6

Os poliça pegou os bagulho lá do pessoal!

Pessoa do sexo feminino6 Os poliça pegou os bagulho lá do pessoal!

7
7

Vc ker tc comigo?

Um jovem7 Vc ker tc comigo?

Você provavelmente respondeu a seguinte sequência: 6, 5, 1, 3, 7, 4, 2. Repare que há, inclusive, certo determinismo na resposta, pois nem toda mulher fala usando diminutivo ou exageros e não há pessoa de alta escolaridade que não use gírias eventualmente. Mas podemos considerar que todas essas frases são bem características de alguns perfis de usuários da língua. Alguns usos são muito estigmatizados, como o exemplo 6, outros são considerados mais “neutros”, outros despertam ternura, despojamento, informalida- de etc. Todos esses usos linguísticos são continuamente praticados e avaliados pela sociedade.

De forma consciente ou não, nós reconhecemos essas variantes. Afinal, sempre que queremos nos dirigir a alguém, refletimos acerca da situação (se é apropriado ou não falar naquele momento), do interlocutor (não falamos com nossos amigos da mesma maneira como falamos com nosso chefe) e do ambiente (há lugares mais apropriados para piadas, para conversa espontânea, para ensinamentos morais etc.). Em outras palavras, utilizamos variantes distintas dependendo dos nossos propósitos e objetivos, em cada situação particular.

Teria o mesmo sentido se usasse as regras gramaticais e a ortografia oficial na letra da música?

ASA BRANCA

Luiz Gonzaga

Quando oiei a terra ardendo Qual fogueira de São João Eu perguntei a Deus do céu, ai Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornaia Nem um pé de prantação Por farta d’água perdi meu gado Morreu de sede meu alazão

Inté mesmo a asa branca Bateu asas do sertão Intonce eu disse: adeus, Rosinha Guarda contigo meu coração

Hoje longe, muitas léguas Em uma triste solidão Espero a chuva cair de novo Pra mim vortá pro meu sertão

Quando o verde dos teus óio Se espalhar na prantação Eu te asseguro, não chore não, viu Que eu voltarei, viu Meu coração

Asa Branca foi composta por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira em 1947.

Língua e variação linguística

Língua e variação linguística AUTOR Luiz Gonzaga: Luiz Gonzaga do Nas- cimento (1912-1989) nasceu no interior

AUTOR

Língua e variação linguística AUTOR Luiz Gonzaga: Luiz Gonzaga do Nas- cimento (1912-1989) nasceu no interior

Luiz Gonzaga:

Luiz Gonzaga do Nas- cimento (1912-1989) nasceu no interior de Pernambuco. É consi- derado um dos grandes divulgadores da música e cultura nordestinas.

Em Asa Branca, temos um claro exemplo de como a língua varia. Poeticamente, Luiz Gonzaga canta as características de sua terra, em- baladas pelo linguajar local. O uso da língua padrão, no caso dessa música, continuaria comunicando a mesma emoção que ela nos traz quando cantada em seu estilo original? Certamente, não! Um fato curioso sobre a variação é que os usos fortemente de- fendidos como corretos, no passado, muitas vezes invertem-se e passam a ser condenados. Por exemplo: nos século xvi e xvii , era comum registrar, em obras escritas na língua padrão, os vocábulos frauta, frecha, molher, entre outros. As variantes flauta, flecha, mu- lher, que hoje designam o padrão formal dessas palavras, eram fortemente estigmatizadas.

Língua padrão e língua culta

Como você já deve ter percebido, um usuá- rio do português pode ser altamente escola-

Há uma diferença entre saber falar uma língua, “dominar” as regras gramaticais e usá- la de forma erudita.

rizado, expressar-se bem, com correção, sem, necessariamente, empregar, a cada vez que fala ou escreve, as regras prescritas pela gramática tradicional. É pos- sível ainda que, por sua baixa escolaridade, um falante não conheça as normas gramaticais e deixe de fazer concordâncias ou pronuncie deter- minadas palavras em desacordo com a ortografia, por exemplo. Ainda assim, todos falam língua portuguesa.

por exemplo. Ainda assim, todos falam língua portuguesa. ATENÇÃO A variação linguística nos faz pensar em

ATENÇÃO

A variação linguística nos faz pensar em algumas questões: as regras gramaticais

são frequentemente usadas pelos falantes do português contemporâneo? São

mais comuns na fala ou na escrita? São empregadas apenas por pessoas escolari-

zadas? Qual seria a forma usada por aqueles com pouca escolaridade?

Se pensarmos em termos puramente científicos, não há erro no uso da língua. Ao utilizar a língua portuguesa, por exemplo, nas suas variantes, os falantes não a utilizam de forma errada, mas de forma diferente. Entretanto, existe, de fato, a necessidade de uma língua padrão para que haja unidade, no uso do idioma, em contextos mais monitorados, como nas situações escolares de ensino-aprendizagem, nos textos formais (científicos, acadêmicos, legislativos etc.), no am- biente de trabalho

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras ATENÇÃO A gramática tradicional – aquela usada em instituições

ATENÇÃO

A gramática tradicional – aquela usada em instituições de ensino – enquadra-se

no domínio do normativo, isto é, que define “certo” e “errado”, que prescreve

como a língua deve ser empregada e proscreve o que não deve ser dito.

A escola e a universidade precisam investir no ensino e aprendi-

zagem da língua padrão, pois é esperado que falantes escolarizados a dominem nas situações em que seu uso for necessário ou valorizado. Quanto a isso, não há discussão nem divergência. Nesse cenário, a gramá-

tica normativa se afigura como grande pilar da lín- gua padrão, posto que se enquadra no domínio do prescritivo, isto é, define o que é “certo” e “errado”, determina como a língua

deve ser empregada e aponta o que não deve ser dito. Entretanto, geralmente as gramáticas normativas apresentam como modelo de “português correto” escritores de séculos passados, pautando-se, na maioria das vezes, em textos literários. Vamos a um exemplo? Observe a construção a seguir, de Eça de Queirós, escritor português do século xix, retirada da Nova Gramática do Português Contemporâneo (CUNHA E CINTRA, 2001:364).

A

gramática normativa

contempla usos que, por

razões menos linguísticas

e mais socioculturais e

históricas, contam com maior prestígio social.

e históricas, contam com maior prestígio social. EXEMPLO “Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava

EXEMPLO

“Ao outro dia, ao almoço, Amélia estava pálida, com as olheiras até ao meio da face”

(Eça de Queirós, in CUNHA E CINTRA, 2001:69).

Ao longo dessa gramática, assim como em outras, encontramos trechos retirados de diversos outros escritores de diferentes perío- dos, incluindo-se brasileiros como Machado de Assis ou Érico Ve- rissimo. Porém, fica claro que todos são cânones de um português elitizado, ou até arcaico, distante do que usamos cotidianamente, mesmo entre os grupos mais escolarizados. Para confirmar essa tendência, vamos a outro exemplo retirado da mesma obra (CUNHA E CINTRA, 2001:231). Dessa vez, a constru- ção linguística analisada é apresentada por meio de texto literário de Machado de Assis, escritor brasileiro do século xix .

Machado de Assis, escritor brasileiro do século xix . EXEMPLO CURIOSIDADE Gramáticas normativas: Gramática é um

EXEMPLO

de Assis, escritor brasileiro do século xix . EXEMPLO CURIOSIDADE Gramáticas normativas: Gramática é um estudo,

CURIOSIDADE

Gramáticas normativas:

Gramática é um estudo, não um livro. Existem outras gramáticas além da normativa, como a descritiva (não determina regras, mas procura des- crever como a língua se dá para fins de investigação), a histórica (estuda a origem e a evolução de uma língua), a comparada (compara línguas de mes- ma origem, como as oriundas do latim, por exemplo), entre outras.

como as oriundas do latim, por exemplo), entre outras. AUTOR Eça de Queirós: José Maria de

AUTOR

como as oriundas do latim, por exemplo), entre outras. AUTOR Eça de Queirós: José Maria de

Eça de Queirós:

José Maria de Eça de Queirós (1845- 1900) foi um dos mais importantes escrito- res portugueses de todos os tempos, autor de obras como O Crime do padre Amaro (1875) e A relíquia (1887).

O Crime do padre Amaro (1875) e A relíquia (1887). AUTOR Machado de Assis: Joaquim Maria

AUTOR

Crime do padre Amaro (1875) e A relíquia (1887). AUTOR Machado de Assis: Joaquim Maria Machado

Machado de Assis:

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é o maior nome da literatura brasileira, também considerado por mui- tos estudiosos como um dos grandes gênios da literatura mundial. Foi autor de obras como Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e Dom Casmurro (1889). Foi fundador e eleito primeiro presidente, por unanimidade, da Acade- mia Brasileira de Letras.

“Vi-os felizes a todos quatro” (Machado de Assis, in CUNHA E CINTRA, op.cit., 1126).

Língua e variação linguística

Até mesmo fenômenos linguísticos já consagrados, presentes na fala e escrita de pes- soas escolarizadas, são tratados com reservas pela tradição gramatical. O uso do “você” combinado com pronomes de segunda pessoa, por exemplo, ou o emprego do “tu” com pronomes ou verbos de terceira pessoa, são alvos de críticas por parte dos puristas. Porém, no português brasileiro, o pronome “você” é de ampla aceitação, predomi- nando em praticamente todo o território brasileiro e ocupando, cada vez mais, o lugar do “tu”. Entretanto, por causa da sua origem como pronome de tratamento, a norma gramatical prescreve que “você” seja sempre acompanhado por verbos e outros prono- mes na terceira pessoa.

EXEMPLO A regra gramatical prescreve que “você” é um pronome de tratamento empregado para representar

EXEMPLO

A regra gramatical prescreve que

“você” é um pronome de tratamento empregado para representar o interlocutor (2º pessoa); entretanto, deve
“você”
é um pronome de tratamento empregado para representar o interlocutor
(2º pessoa); entretanto, deve concordar com a 3º pessoa, assemelhando-se a
outros pronomes de tratamento (Vossa Alteza, por exemplo). Sendo assim, o
pronome oblíquo tônico correspondente é “lhe” ( 3º pessoa).

Não sei mais o que fazer com você!

Vou

lhe

dar um castigo exemplar.

Mas o uso mais comum é

empregar o pronome oblíquo átono de 2º pessoa, concordando com “você”. Neste exemplo, temos duplo
empregar
o pronome oblíquo átono de 2º pessoa, concordando com “você”. Neste
exemplo, temos duplo erro gramatical: 1 ) o erro de concordância de pessoa; 2) o
emprego de pronome oblíquo átono (“te”) em vez de tônico, haja vista ocorrer
preposição, por causa da regência verbal.

Não sei mais o que fazer com você!

Vou

te

dar um castigo exemplar.

Partindo desse exemplo, muito do que é falado e ouvido nas ruas, dentro de casa, nas repartições públicas e até mesmo nas escolas e universidades, margeia a gramática normativa, posto que incorpora variantes linguísticas no seu uso.

Você sabia que, segundo a visão normativa, um famoso comercial veiculado pela mídia comete erros gramaticais? Vamos explorar?

A forma verbal no imperativo (“vem”) é referente ao pronome “tu”, não ao pronome “você”.
A forma verbal no imperativo (“vem”) é
referente ao pronome “tu”, não ao pronome
“você”. Logo, deveria ser “venha” para se
estabelecer concordância.
Você

Mas não é só isso… Você reparou na forma “pra”? Ela é própria da fala, mas não admitida na escrita, de acordo com a tradição gramatical. Assim, se a propaganda respeitasse a norma, ganharia em correção, porém perderia em expressividade, sonoridade e ritmo, não é mesmo?

Vem pra

a norma, ganharia em correção, porém perderia em expressividade, sonoridade e ritmo, não é mesmo? Vem

também!

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Língua culta

Você pode estar se perguntando qual seria a diferença entre língua pa- drão e língua culta. A língua padrão, como vimos, é aquela preconizada

pelas gramáticas normativas. A língua culta, por sua vez, representaria

português utilizado por pessoas letradas, das camadas mais escolari- zadas da sociedade. Estes,

pela lógica, seguiriam as normas gramaticais. Iniciemos, então, esta seção com um poema bas- tante conhecido, do escri-

o

A língua padrão é um ideal de correção, visto que nem mesmo falantes cultos seguem irrestritamente os seus ditames.

tor modernista Oswald de Andrade, que, já no início do século xx, trazia, em seu poema Prono- minais, questionamentos sobre o português “da gramática” e o usado, de fato, no Brasil:

“da gramática” e o usado, de fato, no Brasil: AUTOR Oswald de Andrade: José Oswald de

AUTOR

“da gramática” e o usado, de fato, no Brasil: AUTOR Oswald de Andrade: José Oswald de

Oswald de

Andrade:

José Oswald de Souza Andrade (1890-1954) per- tencia a um grupo de intelectuais e artistas envolvidos no Movimento Modernista, cujo objetivo era tentar “eliminar definitivamente da cultura brasileira qualquer vestígio da influên- cia lusitana” (Alambert, 1992:8).

Pronominais

Dê-me um cigarro Diz a gramática Do professor e do aluno E do mulato sabido Mas o bom negro e o bom branco Da Nação Brasileira Dizem todos os dias Deixa disso camarada Me dá um cigarro.

ANDRADE, Oswald. Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.

O primeiro verso do poema – “Dê-me um cigarro” – apresenta o

que qualquer gramática normativa recomenda, no capítulo dedicado

a tratar da colocação dos pronomes átonos: quando o verbo abrir o

período, ou iniciar qualquer das orações que o compõem, a posição dos pronomes átonos é depois do verbo (ênclise). Trata-se, portanto, de um uso que se enquadraria no conceito de língua padrão. Por sua vez, o último verso – “Me dá um cigarro” – reproduz um caso em que o pronome átono está em próclise, isto é, posiciona-se antes do verbo. Mesmo condenado pela tradição gramatical, certa- mente era o uso que Oswald de Andrade ouvia nas ruas e nas suas rodas de conversa no início do século xx. Mas, se tal uso foi defendido por uma pessoa letrada, com alta escola- ridade, o último verso poderia se enquadrar no conceito de língua culta? Aqui cabe outra questão: se a língua culta é o português utilizado por pessoas letradas e, por consequência, pelos grandes escritores, o

Língua e variação linguística

Língua e variação linguística AUTOR Guimarães Rosa: João Guimarães Rosa (1908-1967) foi um dos mais importantes

AUTOR

Língua e variação linguística AUTOR Guimarães Rosa: João Guimarães Rosa (1908-1967) foi um dos mais importantes

Guimarães Rosa:

João Guimarães Rosa (1908-1967) foi um dos mais importantes escri- tores brasileiros de todos os tempos, eleito por unanimidade à Academia Brasileira de Letras (apesar de eleito em 1963, assumiu somente em 1967, pouco antes de morrer). Veja como ele “brinca” com a língua em Grande Sertão: Veredas (1956): “Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães”.

que dizer de Guimarães Rosa? Há diversos trechos de suas obras que também não estão em acordo com a língua culta. Seria ele um “falante inculto” ou um mau escritor? Não se defende algo dessa natureza… Além dos casos trazidos à discussão, outros usos condenados pela norma padrão são considerados como próprios entre falantes esco- larizados. Até mesmo um professor de língua portuguesa, ciente das regras prescritas pela tradição gramatical, dificilmente declararia seu amor com um “Amo-te!”. O muito mais romântico e brasileiríssimo “Te amo!” é a preferência nacional.

e brasileiríssimo “Te amo!” é a preferência nacional. RESUMO A essa altura, você já deve estar

RESUMO

A essa altura, você já deve estar percebendo que a língua culta é a variedade

em uso por aqueles que têm acesso à variedade padrão, por aqueles que

provavelmente tiveram detalhadas lições sobre a gramática normativa, nas

aulas de língua materna, mas que não apresentam, na sua fala, o mesmo rigor

gramatical que têm quando escrevem ou quando falam em contextos formais,

monitorados. Ou seja, são usuários que sabem ajustar seu texto/fala à situ-

ação comunicativa.

Portanto, língua culta é aquela em que se enquadram os usos linguísticos da parcela letrada da sociedade, inserida nas práticas associadas a diferentes atividades sociais, científicas, religiosas, profissionais; enfim, manifestações culturais que requerem nível alto de escolaridade.

E as outras formas de uso?

Até aqui, você conheceu duas varie- dades da língua portuguesa: aque- la que é ensinada nas escolas por meio da gramática normativa, cujo foco é a escrita – a língua padrão; outra que circula entre as camadas mais escolarizadas e letradas da sociedade, detentoras de prestígio

social – a língua culta. Como vimos também, há usos externos à língua padrão que também são igualmente válidos, em termos comunicativos e ex- pressivos, mas que são condenados pela gramática. Em relação a isso, várias causas são alegadas para justificar a ocorrência de va- riedades não padrão: falta de cuidado com a língua, má qualidade do ensino, déficit cultural, perda da identidade nacional, falta do hábito de leitura etc.

A ideia de que há pessoas que “falam e escrevem de forma errada” está muito disseminada em nosso país.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras RESUMO Se uma perspectiva prescritivista é adotada, bem ao

RESUMO

Se uma perspectiva prescritivista é adotada, bem ao gosto dos famosos “consul-

tórios gramaticais” a que temos assistido na TV e em outros meios de comunica-

ção, todos os empregos linguísticos, em desacordo com a norma padrão, passam

a ser combatidos, como se fossem um mal à sociedade.

Um fato curioso é que, dentro da própria língua padrão, também há variação, ou melhor, posturas divergentes. Assim, os gramáticos as- sumem posições distintas quanto ao uso do infinitivo flexionado, da colocação pronominal (próclise, mesóclise e ênclise), dos conceitos de sujeito, da lista de orações adverbiais, da classificação de advérbios, entre tantos outros pontos. Na prática, não existe o falante idealizado pelas gramáticas e pe- los puristas, já que ninguém segue 100% as prescrições normativas em todos os momentos de sua vida. Embora a língua padrão seja a va- riedade linguística ensinada nas escolas, especialmente nas aulas de português, em que se prioriza o ensino das normas gramaticais e da língua escrita, não se deve concebê-la como melhor ou superior às de- mais variedades. Além disso, se considerarmos que os usuários do português de- vam falar, ou até mesmo escrever, seguindo somente os modelos da gramática normativa, estaremos diante de uma língua artificial, dis- tante da realidade dos diferentes falares presentes em toda a exten- são do Brasil. E o nosso pais é muito grande, comportando muitas variedades linguísticas.

muito grande, comportando muitas variedades linguísticas. CURIOSIDADE Falante idealizado: Sirio Possenti aponta

CURIOSIDADE

Falante idealizado:

Sirio Possenti aponta divergências no tipo de tratamento gramatical para erros sociais, como se fossem erros estruturais. Segundo o autor, a varia-

ção de [l] com [r], como em “flamengo/ framengo”, estruturalmente se situa em um processo histórico que derivou, entre outras, palavras como “praia”

e “prata” (se compararmos ao espa-

nhol, por exemplo, teremos “playa”

e “plata”). Mesmo explicáveis, tais

pronúncias são socialmente estigma- tizadas. Para Possenti, “dizer que é um erro (em língua) equivale a dizer que uma saia curta é um erro no campo da moda (ou em moralidade!). É uma avaliação social, não linguística (…). Às vezes, alguém diz que o som [fra] é horrível, mas ninguém o acha horrível em [fraco]. No entanto, trata-se do mesmo som, e no mesmo contexto.” (Coluna Palavreado, Instituto Ciência Hoje/uol, janeiro de 2012)

Preconceito e poder no uso da língua

De fato, não há nada de errado e feio no uso não padrão. O que ocorre, na verdade, é que esses usos consi- derados desviantes nada mais são do que diferentes dos usos linguís- ticos das elites socioculturais.

O preconceito linguístico origina-se das relações sociais estabelecidas.

origina-se das relações sociais estabelecidas. RESUMO Em síntese, o modo diferente de fala das classes

RESUMO

Em síntese, o modo diferente de fala das classes menos escolarizadas e, normal-

mente, menos abastadas, passa a ser alvo de preconceito por parte das classes

mais escolarizadas; portanto, mais influentes na sociedade. Assim, o poder da-

queles que gozam de mais prestígio, por conta de fatores políticos, econômicos e

culturais, transfere-se para a variedade linguística que utilizam. Essas variedades

passam a ser consideradas mais corretas, mais dignas.

Língua e variação linguística

Língua e variação linguística CURIOSIDADE Variante indigna: Um erro na grafia da placa causou estranheza aos

CURIOSIDADE

Língua e variação linguística CURIOSIDADE Variante indigna: Um erro na grafia da placa causou estranheza aos

Variante indigna:

Um erro na grafia da placa causou estranheza aos policiais que pararam o veículo em questão. Resultado: o erro mostrava, na verdade, um crime de estelionato. Mas não podemos es- quecer que há bandidos que também dominam a norma padrão…

que há bandidos que também dominam a norma padrão… CURIOSIDADE Relações econô- micas, políticas e sociais:

CURIOSIDADE

bandidos que também dominam a norma padrão… CURIOSIDADE Relações econô- micas, políticas e sociais: No livro

Relações econô- micas, políticas e sociais:

No livro Triste fim de Policarpo Quaresma, escrito por Afonso Enriques de Lima Barreto (1881-1922), a questão do na- cionalismo é discutida. A personagem principal do livro, Policarpo Quares- ma, em um dado momento, propõe à Assembleia Legislativa que a língua nacional deveria ser o tupi, a verdadeira língua nativa do país. Algo parecido ocorreu recentemente, mas na vida real. O então deputado federal Aldo Rebelo propôs um projeto que comba- tesse o estrangeirismo, para “proteção, promoção, defesa e uso da língua portuguesa” (cf. Faraco, 2001). Essa proposta, por exemplo, revela o quanto as nossas elites estão desinformadas em termos de língua, uso e variação.

Essa associação, se pensarmos bem, é muito perversa. Afinal, a lín- gua é um fator de identidade, um meio de acesso aos bens culturais

e o principal modo como nos comunicamos. Se assumirmos que há

pessoas que falam errado, que utilizam uma variante indigna, auto- maticamente podemos estender à ideia de que essas mesmas pessoas não têm direito aos bens culturais produzidos pela sociedade como um todo. Afinal, se elas “não sa-

bem sequer falar corretamente”, como vão ter acesso à cultura? Assim, a variedade culta é mais valiosa porque é falada por pessoas também mais prestigia-

das. As variedades não padrão, por sua vez, acabam sendo estigmatizadas porque as pessoas que as fa- lam também o são. O uso da língua, portanto, reflete o poder e a autori- dade (ou a falta deles) nas relações econômicas, políticas e sociais. O que fica mais claro ao longo dessas constatações é que, de fato,

o preconceito linguístico encontra espaço até mesmo em veículos que

gozam de prestígio na sociedade. Muitas vezes, o que é ainda pior, não há espaço para opiniões divergentes, o que cria a falsa imagem de um consenso em torno das questões levantadas. Sem dúvida, o espaço na mídia e a grande aceitação dessas questões pelo público em geral difi- cultam o trabalho de esclarecimento sobre questões da língua, fazendo permanecer o preconceito linguístico. A existência do preconceito linguístico é uma das maiores provas do quanto língua e sociedade são imbricadas. Afinal, esse tipo de preconceito está diretamente relacionado ao status dos interlocutores na comunidade linguística. Nesse contexto, a escola e a universidade devem integrar esfor- ços para que o preconceito linguístico seja paulatinamente combatido.

Na prática, uma variedade linguística acaba tendo o mesmo valor que as pessoas que a adotam.

acaba tendo o mesmo valor que as pessoas que a adotam. CONCEITO Preconceito linguístico: Marcos Bagno

CONCEITO

tendo o mesmo valor que as pessoas que a adotam. CONCEITO Preconceito linguístico: Marcos Bagno é,

Preconceito linguístico:

Marcos Bagno é, no Brasil, um dos maiores estudiosos do pre-

conceito linguístico. Um dos seus livros mais conhecidos é Pre-

conceito linguístico: o que é, como se faz?, obra que já conta

com dezenas de edições. Nele, o autor sintetiza em oito pontos

os principais equívocos veiculados quanto ao português do Brasil. A esses pontos,

o autor chama mitos, os quais você poderá ver mais detalhadamente no artigo.

Enfim, chegamos ao final de nossa reflexão sobre as relações entre língua e sociedade. Discutimos o papel e status dos interlocutores na co- munidade linguística, abordamos os conceitos de modalidade e eviden- cialidade, como também de variação e mudança. Também discutimos a questão do preconceito linguístico e suas nuances. Bons estudos!

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAGNO, M. Não é errado falar assim!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAGNO, M. Não é errado falar assim! Em defesa do português brasileiro. São Paulo: Parábola, 2009.

Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999.

BORTONI-RICARDO, S. M. Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola, 2009.

CAGLIARI, L. C. Alfabetização e Linguística. São Paulo: Scipione, 1991.

FARACO, C. (Org.) Estrangeirismos: guerras em torno da língua. São Paulo: Parábola, 2001.

GONÇALVES, S. C. L. Gramaticalização, modalidade epistêmica e evidencialidade: um estudo de caso no português

do Brasil. Campinas (sp), Instituto de Estudos da Linguagem da unicamp, 2003. Tese de Doutorado em Linguística.

LYONS, J. Linguagem e Linguística: uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1981.

MARTINS, A. Evidencialidade no discurso dos media. In: Estudos Linguísticos/Linguistic Studies. Lisboa: Edições

Colibri/cluni, 2010.

MOLLICA, C. A influência da fala na alfabetização. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1998.

OLIVEIRA, M. R. Preconceito linguístico. In: PERES, Deila Conceição; et al. (Org.) 1º seles Seminário sobre Leitura e

Escrita. Avaliação da redação no vestibular da uff. Niterói: EdUFF, 2006.

SCHERRE, M. M. P. Doa-se lindos filhotes de poodle: variação linguística, mídia e preconceito. São Paulo: Parábola, 2005.

TRAVAGLIA, L. C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática. São Paulo: Cortez, 2003.

para o ensino de gramática. São Paulo: Cortez, 2003 . IMAGENS DO CAPÍTULO p. 36 Patativa

IMAGENS DO CAPÍTULO

p. 36 Patativa de Assaré

Autor desconhecido · O Nordeste.com

p. 37 Mensagem

Tainara Oliveira · Estácio

p. 39 Favela

Eduardo Trindade · Estácio

p. 39 Manuel Bandeira

Autor desconhecido · abl

p. 44 Disco Forró do Gonzagão Divulgação · Sony/BMG

p. 45 O escritor Eça de Queirós em 1882

Photographia Contemporanea Domínio Público

p. 45 Machado de Assis

Autor desconhecido · abl

p. 47 Oswald de Andrade

Auto desconhecido · Domínio Público

p. 48 Guimarães Rosa

Revista Pájaro de Fuego – nº18 – agosto 1979

p. 50 Frorianópolis

Paulo Vitor Bastos · Estácio

p. 50 Lima Barreto

Autor desconhecido · Wikimedia . cc

3

Linguagem, unidade e diversidade

ana beatriz arena e mariangela rios

3 Linguagem, unidade e diversidade

3 Linguagem, unidade e diversidade PERSONALIDADE Lula: Luiz Inácio Lula da Silva (Caetés, pe , 1945

PERSONALIDADE

3 Linguagem, unidade e diversidade PERSONALIDADE Lula: Luiz Inácio Lula da Silva (Caetés, pe , 1945

Lula:

Luiz Inácio Lula da Silva (Caetés, pe, 1945) foi o 35º Presidente brasileiro (2003-2011). Além da carreira política, foi metalúrgico, líder sindical, co-fun- dador do Partido dos Trabalhadores (pt) e, atualmente, presidente de hon- ra do partido. É considerado por mui- tos o político mais popular da história brasileira. Ainda, foi condecorado com vários títulos de doutor honoris causa, dentre eles o da Fundação Scien- ces-Po (França, 2011). Foi o primeiro latino-americano a receber tal título.

ana beatriz arena e mariangela rios

Linguagem, unidade e diversidade

No capítulo anterior, ao final, abordamos o assunto preconceito lin-

guístico. Iniciamos este capítulo refletindo sobre um dos questiona- mentos linguísticos mais famosos de que se tem notícia no Brasil: o ex-Presidente Lula sabe ou não “falar” português, estaria ou não em condições de exercer a Presidência da República? Desde que se destacou no cenário político brasileiro como can- didato à Presidência da República, em 1989, Luiz Inácio Lula da Silva, ou simplesmente Lula, tem sido submetido a uma série de críticas por causa do seu português falado. Provavelmente, isso se deve ao fato de que, ao longo de seus dois mandatos, Lula sem- pre gostou de falar de improviso, “cometendo”, por vezes, desli- zes gramaticais, especialmente de concordância, e algumas ou- tras "impropriedades", se considerarmos a língua padrão. Seria isso o bastante para acusá-lo de

não saber português, ou estaria o ex-Presidente sendo alvo de pre- conceito linguístico, conforme já abordamos no capítulo anterior? As críticas vinham de todos os lados: dos gramáticos puristas, dos professores, especialmente

os de Língua Portuguesa, de jor- nalistas e também de cidadãos muitas vezes tão ou menos escola- rizados do que Lula. Era possível encontrarmos na mídia ironias do tipo: “Lula na coletiva só não convenceu no português”, ou ainda “O nosso Exmo. Presidente, com todo respeito, NÃO sabe falar português”. Os defensores do “português bom é português correto” não se orgulhavam de ter um Presidente, segundo eles, que não sabia falar a própria língua.

Naturalmente, em face da importância de seu cargo, ele teve seus discursos constantemente monitorados.

cargo, ele teve seus discursos constantemente monitorados. RESUMO Afinal, que português é esse que o ex-Presidente

RESUMO

Afinal, que português é esse que o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva fala?

Para refletirmos sobre tal assunto e chegarmos a uma resposta consistente e

objetiva, neste capítulo, vamos tratar dessas questões, abordando a variedade

mais estigmatizada, popular: a língua vernacular. Abordaremos, também, as di-

ferenças e as correspondências entre fala e escrita, considerando os recursos

linguísticos específicos a cada uma dessas modalidades.

Língua, uso e discurso: entremeios e fronteiras

Língua vernacular

Se você consultar o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portugue- sa, encontrará a seguinte abonação para vernáculo: “a língua própria de um país ou de uma região; língua nacional, idioma vernáculo”. Nos estudos linguísticos, vernáculo é todo uso linguístico conside- rado popular, incluindo gírias, regionalismos, e também aquilo que a tradição gramatical considera “erro”, como a falta de concordância, por exemplo, ou ainda o emprego de palavras socialmente desprestigiadas. Variações no léxico (vocabulário), na prosódia (forma de pronun- ciar) e na sintaxe (concordância, emprego dos pronomes oblíquos áto- nos, por exemplo), são comumente alvos de análise não só por parte de estudiosos da língua como também pela sociedade em geral.

estudiosos da língua como também pela sociedade em geral. EXEMPLO CURIOSIDADE Vernáculo: A palavra vernáculo deriva

EXEMPLO

da língua como também pela sociedade em geral. EXEMPLO CURIOSIDADE Vernáculo: A palavra vernáculo deriva da

CURIOSIDADE

Vernáculo:

A palavra vernáculo deriva da forma

latina verna, cujo significado é “escravo nascido na casa do senhor, em cativeiro; nativo”. Veja só que interessante! Podemos até fazer uma analogia com a relação existente entre o português brasileiro – que nasceu “escravo” – e o português

lusitano – idioma da casa do “senhor”,

o colonizador.

EXEMPLOS DE VARIAÇÕES DESPRESTIGIADAS (não padrão)

Variação no léxico Variação na prosódia Variação na sintaxe

“arribar”, em lugar de “melhorar de saúde”

“tauba”, em lugar de “tábua”

“nós vai”, em lugar de “nós vamos”

Normalmente, essas variações são mais frequentes entre as camadas mais pobres, menos

escolarizadas, não urbanas, e os falantes costumam sofrer forte preconceito linguístico.

As próprias gírias, tão expressivas e recheadas de criatividade, também não são merecedoras dos aplausos de muitos brasileiros. Há quem defenda, inclusive, que elas sejam banidas. Porém, observe que interessante: muitos jornais, propagadores dos usos próprios da língua padrão, na modalidade escrita, apresentam em suas páginas, em letras garrafais, manchetes como as seguintes:

páginas, em letras garrafais, manchetes como as seguintes: EXEMPLO Filho de Constância manda o funcionário do

EXEMPLO

Filho de Constância manda o funcionário do clube entregar um bilhete para a morena, e rola um clima entre os dois

Marquezine curte show e reclama de ‘excesso’ de namorados:

‘Encalhada?’

Perdeu, Albertinho! Gilda se encanta pelo capoeira Chico