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Edgar Wallace

BOSAMBO

tradução de BASÍLIO DE MAGALHÃES

Segunda edição

Do original inglês: Sanders of the River

1962

Direitos para a língua portuguesa adquiridos pela

COMPANHIA EDITORA NACIONAL

Rua dos Gusmões, 639 São Paulo que se reserva a propriedade desta tradução, e cedidos, para esta edição, à EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA S. A. Rua Sete de Setembro, 97 Rio de Janeiro

ÍNDICE

1 - Como se educa um rei

3

2 - Os guardas da pedra

20

3 - Bosambo de Monróvia

32

4 - O "doente-do-sono"

43

5 - O correspondente especial

55

6 - A dança sobre pedras

69

7 - A floresta dos-sonhos-felizes

82

8 - O missionário negro dos Akasavas

93

9 - A mata-dos-demônios

107

10 - Os amores de M'Lini

119

11 - O médico-feiticeiro

135

12 - O Solitário

148

13 - O Vidente

159

14 - Cães de Guerra

172

VOCABULÁRIO

182

1 - Como se educa um rei

SANDERS FORA PROMOVIDO AO comando da África Ocidental Britânica por estágios tão favoráveis, que nem sequer se lembrava mais de quando começara a familiarizar-se com as regiões da costa. Tempos atrás, o governo britânico encarregara-o de tomar conta de um quarto de milhão de canibais, que dez anos antes olhavam para os homens brancos do mesmo modo por que nós outros olhamos para o unicórnio. E foi então que ele se encontrou com os Bassutos, Zulus, Fingos, Pondos, Matabeles, Mashonas, Barotses, Hotentotes e Bechuanas. A curiosidade e o interesse levaram-no a esse tempo, para o norte e para o oeste: dirigindo-se para o norte, atingiu ao Congo; e, dirigindo-se a oeste, chegou até Massai. Finalmente, depois de ter estado também entre o povo de Angola, veio, pela terra dos Pygmeus, até ao próprio país dos mesmos. Note-se que há uma diferença sutil entre todas essas raças, uma diferença que somente pode ser conhecida por homens da espécie de Sanders. Não se trata, precisamente, de variedades de cor, embora uns sejam pardos, outros amarelos e alguns muito poucos sejam de cor de azeviche. A diferença essencial está no caráter. Pelo código de Sanders, podeis confiar em todos os indígenas da África, acima referidos, da mesma forma por que confiais em crianças, com poucas exceções notáveis. Os Zulus e os Bassutos, esses eram homens, ainda que infantis em sua fé ingênua. Os negros, que usavam o fez, eram astutos, porém dignos de confiança. Mas os pardos da Costa-do-Ouro, que falavam inglês, usavam roupas européias e se tratavam por "Mister", eram aqueles a quem Sanders mais abominava. Vivendo tanto tempo com "crianças grandes", era natural que ele próprio assimilasse algumas das suas qualidades pueris. Uma vez, achando-se ele de licença em Londres, pregaram-lhe uma peça atrevida, e somente a sua ingênita honestidade pôde tirá-lo de um embaraço ridículo. Porque, quando o negociante lhe ofereceu uma pesada barra de ouro, todos os nervos morais de Sanders se eriçaram, e ele correu do confiante mercador de metais à estação policial mais próxima, acusando-o, perante uma perplexa autoridade- do "I. G. B.", isto é, de compra e venda ilícitas de ouro. Sanders não duvidava de que a barra fosse do fulvo metal; estava, porém, convencido de que tal ouro não fora legalmente adquirido. A sua surpresa, quando averiguou que o "ouro" era batido na Casa da Moeda e, portanto, de curso legal no comércio, foi simplesmente comovedora. De Sanders, o que melhor podeis dizer é que ele era um estadista, — o que equivale a afirmar-se que não tinha opinião exagerada acerca do valor

individual da vida humana. Se via uma folha morta na árvore da civilização, arrancava-a; se via um joio a crescer entre flores, extirpava-o, não se preocupando com o considerar

o direito que o joio tinha à vida, tanto quanto as flores. Quando um homem, por mau exemplo, comprometia a paz do seu país, fosse ele "capita" ou fosse escravo, Sanders exterminava-o. Nos seus dias de rebelião, os Isisis chamavam-lhe "Ogani-Isisi", que significa "O Pequeno Açor", e, certamente, naquele tempo, Sanders estava disposto a enforcar meio mundo. Governava um povo que ficava a trezentas milhas dos limites da civilização. Hesitação em agir, demora em determinar a forma de punição, qualquer dessas coisas poderia ser tomada por fraqueza entre os indígenas que não tinham capacidade de raciocínio, nem hábito de perdoar, nem espécie alguma de benevolência. Na região que faz curva ao longo das margens do Togo, o povo compreende a punição como dor e morte, e nada mais. Houve certo comandante sem tino, saturado de idéias humanitárias, que tendo ido a Akasava, — nome da citada região, — resolveu experimentar ali a persuasão moral. Tratava-se de invasão armada. Alguns indivíduos de Akasava tinham atravessado o rio e penetrado em Ochori, onde roubaram mulheres e cabras. Creio que houve também um ou dois homens mortos; mas isso era o de menos importância. As cabras e as mulheres estavam vivas e clamavam por vingança. Gritavam tanto, que foram ouvidas lá embaixo, no quartel-general inglês, e o comandante Niceman (não era este o seu verdadeiro nome, mas servirá para o caso que estou contando) subiu imediatamente a averiguar a causa de todo aquele barulho. Encontrou o povo de Ochori tomado de cólera

e talvez ainda mais assustado do que furioso. — Se os invasores, — disseram a Niceman os seus emissários, — devolverem as nossas cabras, podem ficar com as mulheres, porque as cabras têm, para nós, mais valor do que elas. Então o comandante inglês, teve uma longa, muito longa conferência, que durou dias e dias, com o chefe do povo de Akasava e respectivos conselheiros, e, por fim, a persuasão moral triunfou: o soba prometeu que, em certo dia, a certa hora, quando a lua estivesse em tal fase e a maré em determinada altura, as mulheres seriam devolvidas ao povo de Ochori e as cabras também. Após o quê, mister Niceman voltou ao quartel-general, ancho de admiração por si mesmo, e escreveu um estirado relatório acerca do seu gênio, de suas habilidades administrativas e do seu conhecimento dos indígenas da África. E isso foi dado à estampa no "Livro Azul (África)", 7.943 - 1896. Mas aconteceu que, logo depois, mister Niceman foi gozar uma licença

na Inglaterra, o que não lhe permitiu ouvir as reiteradas queixas e os tristes gemidos do povo Ochori, por não haver este recuperado nem as suas mulheres, nem as suas cabras. Sanders, que, nessa ocasião, trabalhava às margens do Rio Isisi, tendo apenas 10 Houssas e um ataque de malária, recebeu a seguinte ordem:

— "Vá a Akasava e resolva aquela infernal questão de mulheres —

Administração". Sanders imediatamente apertou o cinturão sobre os rins, tomou 25 grãos

de quinino, e, adiando a sua boa ocupação, — a da captura de M'Beli, o médico feiticeiro, que havia envenenado a um amigo, — rumou para Akasava. Não tardou a avistar a aldeia, cujo chefe lhe saiu prontamente ao encontro.

— Que é que há aqui a respeito de umas certas mulheres? — perguntou ele, antes de mais nada, ao soba.

— Teremos sobre isso uma conferência, — respondeu o outro. —

Convocarei hoje mesmo os meus conselheiros.

— Convocará coisa nenhuma! — gritou-lhe Sanders, sem mais aquela.

— Restituam já as mulheres e as cabras, que você e os seus guerreiros

roubaram do povo de Ochori!

— Ouvi-me, senhor! — disse o chefe negro. — Por ocasião da lua cheia,

como é nosso costume, quando a maré também estiver cheia e todos os sinais de deuses e demônios nos forem propícios, eu farei como me ordenais.

— Soba, — berrou-lhe Sanders, batendo de leve no peito de ébano do

outro, com a ponta da fina bengala, — eu não tenho nada com a lua e rio,

nem com deuses e demônios! As mulheres e as cabras têm que voltar para a gente de Ochori hoje mesmo, ao pôr do sol. Se não, eu amarro você a uma árvore e açoito-o, até você soltar o último suspiro!

— As mulheres, senhor, — declarou, afinal, o chefe negro, — serão restituídas hoje mesmo.

— E as cabras também — acrescentou Sanders.

— Quanto às cabras, — ponderou humildemente o soba, — morreram,

pois foram abatidas para um banquete, que realizamos aqui.

— Você falas-á voltar à vida, — ponderou-lhe Sanders, firmemente.

— Pensais, então, senhor; que eu sou mágico? — perguntou ao

comandante inglês o chefe dos Akasavas.

— Eu o que penso é que você não passa de um grande mentiroso, —

disse-lhe Sanders, peremptòriamente. E assim terminou a conversa. Naquela mesma noite, as mulheres e as cabras foram devolvidas ao povo de Ochori, e Sanders preparou-se para partir.

Chamou o soba de Akasava para um canto da aldeia, pois não desejava envergonhá-lo em público, nem diminuir-lhe a autoridade perante os seus súditos.

— Chefe, — disse ele ao outro, — do meu quartel-general até Akasava a

viagem é bastante comprida, e eu sou um homem muito atarefado. Espero

que você não me obrigue a voltar outra vez aqui

— Senhor, — respondeu-lhe o cacique negro com sinceridade, — creia

que não desejo vê-lo nunca mais aqui! Sanders não pôde deixar de sorrir, ao escutar semelhante declaração. Reuniu os seus 10 Houssas e regressou ao Rio Isisi, a fim de continuar as

suas pesquisas para a captura do M'Beli. Por diversas causas, não era um trabalho agradável, e havia também sérias suspeitas de que o próprio rei do Isisi era o protetor do assassino. — Confirmou-se isso certa manhã, quando Sanders, acampado perto do Grande-Rio, tomava uma singela refeição de leite condensado e torradas. Chegou ali, inesperadamente, Sato-Koto, irmão do rei, o qual parecia muito aflito, pois que estava fugindo, segundo dizia, à ira do soberano. Tagarelou a mais não poder dando toda sorte de notícias, pela maior parte das quais não tomou Sanders o menor interesse. Mas, quando ele afirmou que o médico- feiticeiro vivia à sombra do rei e estava escondido por este, Sanders foi todo ouvidos e despachou logo um mensageiro ao quartel-general. Do quartel- general, conforme prontamente se divulgou, não tardou a partir para a aldeia de Isisi mister Niceman, — que, a esse tempo, expirada a licença, havia retornado à África, — a fim de "moralizar", por persuasão, ao rei do povo do Grande-Rio. Ora, como é lícito inferir do testemunho de Sato-Koto, o soberano não andava de bom humor.

E tanto não andava, que a pobre cabeça de Niceman, espetada numa

estaca, erguida em frente à cabana do cacique negro, proclamou aos quatro

ventos aquele fato indisputável. De Simonstown vieram logo H. M. S. St. George, H. M. S. Trush, H. M.

S. Philomel e H. M. S. Phoebe, tendo também descido de Serra-Leoa H.M.S. Dwarf; e, meno de um mês depois de haver o rei de Isisi matado aquele seu hóspede, por certo que estava arrependido de o ter feito.

A administração enviou para ali o comandante Sanders, a fim de que este

aclarasse e resolvesse o lado político do conflito. Mostrou-lhe o imediato do St.-George o que restava da aldeia, dizendo- lhe, num tom apologético:

— Será necessário cavar para este povo um novo rei, pois nós não tivemos outro remédio senão matar o antigo. Sanders meneou a cabeça, ponderando-lhe:

— Pode estar certo de que eu não tomarei luto

Não houve dificuldade alguma em achar candidatos para o trono vacante.

Sato-Koto, irmão do rei morto, exprimiu, com louvável presteza, o seu consentimento em assumir as responsabilidades do alto cargo.

— Que dizeis a isto? — perguntou a Sanders o comandante da expedição

naval.

— Discordo, senhor, — respondeu-lhe Sanders, sem a menor hesitação.

— O falecido rei tinha um filho, um menino de nove anos. A este é que deve caber a realeza. Quanto a Sato-Koto, pode exercer à vontade a regência.

E assim se acomodaram as coisas, tendo Sato-Koto, entretanto, assentido

de mau humor a semelhante deliberação. O novo rei foi encontrado na selva, escondido em meio do pessoal

feminino. Quando descoberto, tentou fugir; mas Sanders o agarrou pela orelha e desse modo o levou para a aldeia.

— Meu menino, — perguntou-lhe Sanders carinhosamente, — como é

que este povo te chama?

— Pedro, senhor, — choramingou o rapazinho, todo nervoso, — é como

me chamam aqui, à maneira da gente branca. — Muito bem! — disse-lhe o comandante inglês. — Tu serás o rei Pedro, e governarás este país sabiamente e justamente, de acordo com a lei e

a moral. Não farás mal a ninguém, não envergonharás a ninguém, não

matarás a ninguém, nem invadirás terras e aldeias alheias! Tratarás somente de praticar as coisas que tornam a vida digna, porque, se tu errares, salve-te

Deus, que eu não sei o que te poderá acontecer! Eis aí como foi proclamado monarca do povo de Isisi o menino Pedro.

Sanders voltou ao quartel-general, com o seu pequeno exército de Tommies

e Houssas. M'Beli, o médico-feiticeiro, tinha morrido na tomada da aldeia, de sorte que a tarefa de Sanders, quanto a esse assassino, estava também encerrada.

A história da tomada da aldeia de Isisi e da coroação do rei-menino saiu

a lume nos jornais de Londres, onde nada se perdeu de tão interessantes

episódios. Foi de tal modo descrita a matança dos negros, — pois muitos correspondentes das folhas londrinas acompanharam a expedição naval, — que muitas distintas senhoras de Bayswater verteram lágrimas copiosas e muitas mocinhas de Mayfair exclamaram:

— Como é comovente!

Das inúmeras emoções que o fato provocou, proveio partir da Inglaterra para a África a senhorinha Qinton Calbraith, M. A., jovem extraordinariamente bela.

O seu intuito era "servir de mãe" ao reizinho órfão, de quem esperava ser

amiga e conselheira. Pagou ela a sua própria passagem. Mas os livros, que

levou, e os demais petrechos didáticos, destinados ao ensino do rei-menino,

e que enchiam dois grandes caixotes, foram-lhe fornecidos pelos bondosos

leitores da revista infantil "Tiny Toddlers", editada na capital da Inglaterra.

Sanders foi esperar no cais a sua compatriota, curioso por ver com que se parecia aquela mulher branca. Pôs uma cabana à disposição dela e mandou a esposa do seu ordenança cuidar da mesma.

— E agora, miss Calbraith, — perguntou ele à jovem, durante o jantar, naquela mesma noite, — que é que espera fazer de Pedro?

A moça levantou seu lindo queixo, pensativamente, e afinal lhe

respondeu:

— Principiaremos com as lições mais elementares, quais as mais simples

de um "jardim de infância", e iremos subindo gradualmente. Assim é que eu

Mas,

espero ensinar ao pequeno rei calistenia e, um pouco de botânica mister Sanders, o senhor está rindo

— Não, senhorinha, não estou rindo, — apressou-se o comandante a

afirmar-lhe. — Faço sempre uma cara que parece de riso, principalmente à noite. Mas diga-me primeiro: fala o idioma Suaholi-Bomongo-Fingo?

ela,

meditativamente.

— Aí

está

para

mim

uma

grande

dificuldade

proferiu

— Quer ouvir um bom conselho? — indagou ele.

— Com todo o prazer.

— Pois bem, aprenda a língua! (A moça meneou a cabeça). Volte para

Londres e aprenda-a! (Ela franziu o sobrecenho). Levará cerca de um quarto de século

— Mister Sanders, — obtemperou ela, com dignidade, — o senhor está a

agourar-me

— Perdoe-me Deus, — disse Sanders, compungidamente, — se acaso

pensei jamais em fazer coisa tão ruim! O fim de tudo isto, no que respeita à linda pessoa de miss Clinton

Calbraith, foi que ela partiu para Isisi, ficou lá três dias e voltou desatinada.

— Pedro não é propriamente uma criança! — exclamou ela,

estouvadamente. — Ele é um

o senhor está zombando de mim

um demoniozinho!

— Bem dizia eu

— ponderou Sanders, filosòficamente.

— Aquilo então é um rei? Que coisa horrorosa! Mora numa cabana suja

e não usa roupa de espécie alguma

— É um filho da natureza, — proferiu Sanders, sentenciosamente. A

senhorinha não esperava encontrar aqui uma espécie de Luís XV, não é

verdade?

— Eu mesma não sei o que é que esperava, — replicou a jovem,

desiludidamente. —- O que sei é que me foi impossível ficar

Ah! se eu tivesse sabido!

absolutamente impossível!

— Evidentemente, — murmurou Sanders, entre os dentes. — Que ele

havia de ser preto, eu bem sabia, — continuou miss Calbraith. -r- E também

sabia que

— O fato é, — observou-lhe finalmente, Sanders, — que Pedro não é tão

pitoresco, quanto a senhorinha o imaginou. Não é uma criança gentil, um pobre orfãozinho de olhos suplicantes. E vive sem higiene alguma, não é verdade? Não foi essa a única tentativa em prol da educação de Pedro. Alguns meses depois, — quando miss Calbraith já havia regressado para o seu país e escrevia diligentemente o seu famoso livro "Sozinha na África — Por uma dama inglesa, — ouviu Sanders falar de outra invasão educativa, da qual era também alvo o reizinho de Isisi. Dois membros de certa missão etíope entraram em Isisi pelo litoral. Tal missão etíope é composta de pretos cristãos, os quais, com muita razão, baseando a sua crença nas Sagradas- Escrituras, pregam o evangelho da Igualdade. Um negro é tão bom quanto um branco, em qualquer dia da semana, infinitamente melhor aos domingos, se por acaso é membro da Igreja Etíope reformada. Chegaram a Isisi e ali granjearam imediatamente considerável popularidade, porque a forma de conversação, de que usavam, era muito do agrado de Sato-Koto, regente do reino, e dos conselheiros do rei. Sanders não tardou a mandar chamar os missionários à sua presença. À primeira intimação, recusaram-se a obedecer; mas, recebida a segunda, acudiram prontamente ao chamado, porquanto a mensagem, que Sanders lhes enviou, era ao mesmo tempo peremptória e ominosa. Vieram ao quartel-general os dois apóstolos. Eram negros americanos, cultos, de boa aparência e conversação agradável. Falavam inglês

irrepreensivelmente e eram, em todos os sentidos, dois perfeitos cavalheiros.

— Não podemos compreender o motivo de vossa ordem, — disse um

deles, em nome de ambos, a Sanders, — a qual prova um tanto de interferência em nossa liberdade individual

— Compreender-me-eis melhor, — declarou-lhes Sanders, que conhecia

os seus homens, — quando eu vos disser que não posso permitir que pregueis ao meu povo idéias sediciosas!

— Idéias sediciosas, mister Sanders? — regougou o negro, em tom ofendido. — Fazeis-nos uma acusação muito grave!.

Sanders tirou um papel da gaveta de sua secretária, pois a entrevista se realizava no seu escritório, — e explicou-lhes:

mas, ah! foi

foi horrível!

— Em tal data, dissestes isto; em tal outra data, dissestes aquilo

E, enumerando-lhes os sermões, acusou-os formalmente de ultrapassar o credo da Igualdade e de penetrar na perigosa fronteira da agitação política.

— Mentiras! — bradou o mais velho dos dois, sem hesitação.

— Verdades ou mentiras, — decidiu categoricamente Sanders, — não

ireis mais a Isisi!

— Então quereis que aqueles pobres pagãos continuem nas trevas em

que vivem? — perguntou a Sanders, em tom de censura, o negro que

primeiro havia falado. — Será porque brilha muito a luz que acendemos ali?

— Não! — retrucou-lhe imediatamente Sanders. — É porque ela é

quente demais! Assim, cometeu o comandante inglês o ultraje de afastar os etíopes daquele cenário dos seus fervorosos labores, e, em conseqüência disso, houve interpelações ao governo, em pleno parlamento britânico. A educação de Pedro foi, então, empreendida pelo soba do povo de Akasava, — um velho amigo do reizinho, — como ele se dizia. O território de Akasava juntou-se ao território de Isisi, e, por isso, o chefe daquele entendeu de dar sugestões militares ao regente deste. Chegou ali ao toque de tambores, levando presentes de peixe, bananas e

sal.

— Sois um grande rei! — disse ele ao menino de olhos sonolentos, que

se sentava desajeitadamente num trono, olhando-o com ávido interesse. — Quando andais, o mundo se abala ao som dos vossos passos; o rio caudaloso,

que corre precipite para o mar imenso, divide-se em duas partes, à vossa palavra; as árvores da floresta agitam-se e as feras fogem, buscando esconderijos, quando Vossa Majestade passa!

— Oh! ko! ko! — riu desarticuladamente o reizinho, agradavelmente lisonjeado.

— Os brancos temem-vos! — continuou o chefe dos Akasavas. — Eles

tremem e ocultam-se, mal soltais o vosso grito de guerra! Sato-Koto, que estava em pé, ao lado do pequeno rei, e que era um homem prático, interrompeu os cumprimentos do recém-chegado, perguntando-lhe:

— Que é que quereis de nós, chefe?

Então o soba de Akasava lhe falou numa aldeia povoada por gente fraca e rica de tesouros da terra, assim como de cabras e de mulheres.

— E por que não ides vós mesmo tomar tudo isso? — inquiriu dele o regente.

— Porque sou um escravo, — replicou-lhe lamentosamente o outro, —

um escravo de Sândi, que me espancaria—Ao passo que vós, senhor, pertenceis ao número dos grandes, sois o regente do rei, e, por causa de tal grandeza vossa Sândi não vos espancaria

Seguiu-se a esta confabulação preliminar uma conferência, que durou dois dias.

— "Terei de entender-me com Pedro, — escrevia desesperadamente

Sanders ao general encarregado da administração inglesa da África, — pois

o miseravelzinho foi à guerra contra os infelizes Ochoris. Ficar-vos-ia eu muito agradecido, se me enviásseis 100 homens, uma ou duas metralhadoras

e um feixe de canas-da-índia. Receio bastante ter que cuidar, eu mesmo, da educação de Pedro".

— Senhor, não vos falei a verdade? — dizia a Pedro o soba dos

Akasavas, triunfante. — Sândi não nos fez coisa alguma! Devastamos a

aldeia dos Ochoris, tomamos-lhes todas as suas riquezas, e o branco está na moita até agora, tudo por causa da vossa grandeza! Esperemos, agora, que a lua apareça novamente nos céus, pois eu vos mostrarei outra aldeia para

assolarmos!

— Sois um homem extraordinário, — baliu o reizinho, — e algum dia haveis de construir a vossa cabana à sombra do meu palácio.

— Ah! senhor! Em tal dia, — disse o chefe Akasava, com magnífica

resignação, — morrerei, certamente, de alegria! A lua cresceu e minguou; quando ela veio de novo, — um aro argentino de luz no céu do oriente, — reuniram-se na praça pública da sua aldeia os

guerreiros de Isisi, armados de lanças e espadas de largas lâminas, com "ingola" no corpo e barro no cabelo. Dançaram uma grande dança, à luz de enorme fogueira, enquanto todas

as mulheres da tribo lhes faziam círculo, batendo palmas compassadamente. Estavam eles em meio de tal folgança, quando ali chegou um mensageiro, vindo em canoa pelo rio, o qual imediatamente se prostrou diante do rei, dizendo-lhe:

— Senhor! Sândi está a um dia de viagem daqui! Traz ele consigo cinco vintenas de soldados e um canhão de cobre que faz: Ha-ha-ha-ha-ha!

Reinou logo um grave silêncio nos círculos da corte, o qual foi, todavia, quebrado pela voz trêmula do soba de Akasava:

— Não posso deixar de ir para casa, — disse ele ao rei.

— Estou adoentado, e, além disso, é esta a quadra do ano em que as

minhas cabras costumam parir.

— Não tenha medo! — gritou-lhe Sato-Koto, brutalmente.

— A sombra do rei paira sobre você, e, como você foi o primeiro a dizer,

o nosso rei é tão poderoso, que a terra se abala ao seu passo, as águas do Grande-Rio se separam, quando ele o quer atravessar, e todos os homens brancos o temem

— disse o chefe Akasava, com visível

agitação. — Mas o certo é que eu preciso ir para casa, porque meu filho mais

— É

tudo isso é verdade

novo está atacado de febre e chama a todo instante por mim!

Fique! — vociferou-lhe o regente.

E

o soba compreendeu bem o que significava o tom de voz de Sato-

Koto. Sanders não veio no dia seguinte, nem no imediato. Marchava ele vagarosamente, pois atravessava um país onde havia então muitas dissensões, que necessitavam de apaziguamento. Quando chegou à aldeia do rei Pedro, tendo mandado adiante um mensageiro, para dar a notícia da sua vinda, encontrou ali toda a gente entregue a trabalhos e folguedos pacíficos. As mulheres pilavam milho, os homens cachimbavam e as crianças brincavam, correndo alegremente pelas ruas. Sanders parou nos limites da aldeia, numa pequena colina que lhe dominava a rua principal, e mandou chamar ó regente à sua presença.

— Então é preciso que eu mande chamar a você? — bradou Sanders ao

regente. — E por que é que o rei se deixa ficar lá na aldeia, quando eu chego aqui? Vocês dois não têm vergonha na cara? — Senhor, — ponderou-lhe Sato-Koto, —não é conveniente que um grande rei se humilhe assim Sanders não estava para graças. Tratava com um povo rebelde, e, por isso, os seus próprios sentimentos bons deviam ser recalcados em benefício

da paz daquele território.

— Pelo que estou vendo, Pedro tem tido maus conselheiros, — proferiu

ele, como se estivesse refletindo em voz alta, levando muita inquietação ao

espírito de Sato-Koto. — Vá-se embora, já, para a aldeia, e diga ao rei que venha imediatamente ter comigo, pois que eu sou um amigo dele!

O regente partiu sem demora, mas voltou sozinho, novamente, e disse

asperamente a Sanders:

— Senhor, ele não quer vir!

— Ah! É assim? Então, vou eu buscá-lo regougou Sanders. O reizinho,

sentado à frente da sua cabana, limitou-se a cumprimentar, de olhos baixos, ao comandante inglês. Enfileirados em semicírculo, os soldados de Sanders, atrás deste, continham à distância o povo da aldeia, que se juntara todo ali.

— Levante-se, rei Pedro! — ordenou Sanders ao soberanozinho.

O comandante inglês levava na destra uma cana-da-índia, de forma

comum, e, enquanto falava, agitava-a no ar, produzindo um sussurro muito ligeiro.

Para quê? interveio Sato-Koto, ao ouvir tal ordem.

Você vai ver já para quê, — respondeu-lhe Sanders.

O

regulo levantou-se, com evidente relutância, e Sanders agarrou-o logo

pela sujeira do pescoço

Suish!

A vara sibilou no ar e alcançou-o o mais indesejavelmente que para ele

era possível, tanto que ele pulou, soltando um grito de terror.

Suish! suish! suish!

A vara continuou a sibilar, e o rei Pedro, dançando e gritando, agitando

as mãos selvagens, a fim de defender-se dos açoites, chorou a mais não poder, implorando misericórdia, até que as faces se lhe incharam.

— Senhor! — estentorou Sato-Koto, com a cara decomposta pela raiva e enristando a lança de que estava armado. Sanders, sem soltar o rei, deu aos seus soldados a seguinte ordem:

Atirem neste homem, se ele ousar intervir!

O

regente, vendo tantas carabinas apontadas contra si, recuou

precipitadamente.

— Agora, — disse Sanders a Pedro, soltando-o das garras e lançando em terra a cana-da-índia, — vamos conversar um pouco!

— Uú-uú-oh-ko! — suspirou sua majestade.

— Volto para a floresta, — disse-lhe Sanders, — e, logo depois, um

mensageiro meu virá ter aqui com você, a quem dará a notícia de que o comandante inglês está a caminho da aldeia. Entendeu?

— Yí-hi! — sibilou o reizinho.

— Você, então, sairá, daqui, com todos os seus conselheiros e cortesãos,

e irá esperar-me, como de costume com todas as honras que me são devidas.

Compreendeu?

— Si-im se-nhor! — gemeu o menino.

— Muito bem! — exclamou Sanders, satisfeito, e retirou-se, com toda a sua tropa.

Menos de uma hora mais tarde, veio à presença do soberanozinho do Isisi um mensageiro sisudo, ouvido o qual, a corte saiu imediatamente para a pequena colina, a fim de dar as boas-vindas ao homem branco.

Tal foi o começo da educação do rei Pedro, a quem se ensinou o dever

da obediência.

Sanders, então, dirigiu-se para a casa que lhe era destinada oficialmente em Isisi, e para ali convocou toda a corte. Tendo-se entendido com alguns indivíduos dela, disse no segundo dia das suas audiências, ao regente:

— Sato-Koto, conhece você a aldeia de Ikan?

— Sim, senhor! Está daqui a dois dias de viagem, dentro da mata.

Sanders meneou afirmativamente a cabeça e declarou-lhe o seguinte:

— Você levará suas mulheres, seus filhos, seus servos e seus trastes para

a aldeia de Ikan, e ficará lá, até que eu lhe dê licença para voltar. A minha

audiência com você está terminada. Veio, em seguida, à presença de Sanders o soba de Akasava, o qual,

muito envergonhado e cabisbaixo, foi logo declarando ao comandante inglês:

— Senhor, se algum homem vos disser que eu procedi mal, podeis estar certo de que mente!

— Nesse caso, — berrou-lhe Sanders, — eu sou um mentiroso, porque

afirmo que você é um perverso, cheio de mil astúcias!

— Se vos fosse possível, — suplicou humildemente o chefe negro, —

ordenar que eu vá para a minha aldeia, como procedestes com Sato-Koto, eu iria de bom grado, uma vez que vós, que sois meu pai, não estais contente comigo.

— Melhor será que eu também ordene, — disse-lhe Sanders, — tome

você vinte açoites de vara, para bem de sua alma! Além disso, faço lembrar a

você que abaixo daqui, perto de Tembeli, no Grande-Rio, há uma aldeia, onde os homens trabalham acorrentados, porque foram infiéis ao meu governo e praticaram abominações. E, sem mais aquela, o chefe do povo de Akasava teve que partir para o ponto designado, a fim de cumprir a pena. Havia ainda outros negócios, pendentes de deliberação, mas eram menos importantes que os acima assinalados. Quando ficaram todos eles solucionados, com plena satisfação de Sanders, embora a contragosto da

gente da aldeia de Isisi, volveu o comandante a sua atenção para o melhor meio de educar o rei.

— Pedro, — declarou ele ao soberano negro, — amanhã, quando o sol

nascer, volto para d meu quartel, deixando você aqui, sem conselheiros.

— E como é, senhor, que posso governar sem conselheiros, pois que sou

ainda um meninozinho? — perguntou ele a Sanders, revelando no tom de voz que ainda estava abatido pelo castigo.

— Dizendo a si mesmo, quando um homem vier a você pedir justiça: — "Se eu fosse este homem, como é que desejaria a justiça do rei?"

O regulo não se sentia bem.

— Sou ainda muito jovem, — repetiu ele, — e hoje mesmo virão aqui

muitos homens de aldeias distantes, buscando desagravo contra os seus inimigos.

— Tanto melhor! — exclamou Sanders. — Sentar-me-ei hoje à direita do rei e espero aprender muito da sua sabedoria.

O menino, embaraçado e vacilante, nada mais teve que dizer, limitando-

se a olhar de esguelha para Sanders. Atrás da aldeia de Isisi, há uma pequena colina. Vai-se até lá por um caminho muito batido e no topo dela ergue-se uma cabana coberta de colmo, sem paredes laterais. Do alto daquela pequena colina, descortina-se o largo rio, com os seus baixios arenosos, onde os crocodilos dormem de boca

aberta; vêem-se dali, no solo que se vai elevando para Akasava, lombadas que surgem, como que umas por cima das outras, cobertas de um aranhol de verde vivo

Naquele galpão rústico é que o rei se assenta para julgar, chamando com

a cabeça a um por um dos litigantes. Sato-Koto, na sua qualidade de regente, era quem costumava falar pelo rei, distribuindo justiça. Mas, naquele dia, Sato-Koto estava em preparos de partida para a aldeia de Ikan, e quem se sentou à direita do rei foi Sanders. Quando a sessão de julgamento começou, já era considerável ali o número de litigantes. Havia certo sujeito, que tinha comprado uma esposa, pela qual dera nada menos que mil canas e duas sacas de sal. Depois de três meses de coabitação, ela foi-se embora.

— Ela foi-se embora, — explicou filosòficamente ò homem ao rei, —

porque tinha um amante. Em tal caso, Poderoso Sol de Sabedoria, reclamo a restituição de minhas canas e de meu sal.

— Que diz você a isto? — perguntou Sanders a Pedro.

— Não será melhor ouvirmos o pai da mulher? — interrogou

hesitantemente o reizinho ao comandante inglês. Sanders meneou a cabeça, aprovativamente:

— Aí está uma providência muito acertada!

E chamou o tal pai, que era um velhote agitado e impaciente. Ó rei, — foi ele dizendo logo, apressadamente, a Pedro, — é verdade

que vendi minha filha a este homem. Mas de que modo poderia eu conhecer sua intenção futura? Cumpri integralmente o contrato, desde que ela foi para

a companhia do esposo. Como é que poderá predominar um pai, quando um marido falha?

Sanders olhou novamente para o rei, e o menino tomou um largo fôlego.

— Parece-me, M'Bleni, — falou ele ao velhote, — que se a mulher deste

homem, sua filha, viveu muitos anos na sua cabana, e você não lhe conhece

a moral, ou você é um grande parvo ou ela é uma grande velhaca. Estou

certo, portanto, de que você vendeu sua filha, conhecendo-lhe bem as faltas. Em todo caso, o marido também não devia ter comprado a rapariga sem informações seguras de estranhos. Você, por conseguinte, levará consigo sua filha, devolvendo ao marido enganado 500 canas e uma saca de sal; e, se sua filha casar novamente, você terá que entregar a este homem metade do dote que ela receber. Esta sentença, proferiu-a ele muito devagar, hesitando, ansioso, olhando de relance, e de quando em quando, para o homem branco como que a aliciar-lhe a aprovação. Saiu-se você muito bem! — disse-lhe Sanders, e chamou imediatamente

a um novo litigante.

— Senhor rei, — disse o outro querelante, — peço-vos justiça contra um homem mau, que rogou certa praga sobre mim e a minha família, do que resultou adoecermos todos nós. Ai estava uma causa bastante árdua para o pequeno juiz, a qual se

embrenhou em silêncio no mérito dela, sem que Sanders lhe oferecesse o menor auxílio.

— Que espécie de praga rogou ele em você e em sua família? — inquiriu finalmente do queixoso o soberanozinho.

— Foi a praga da morte, — respondeu o outro, numa voz tranqüila.

— Então, você deve também rogar sobre ele e a família dele uma praga

de morte, — decidiu o rei, — pois assim se verá qual das duas tem mais poder. Sanders escondeu o rosto atrás das mãos em concha, para rir à vontade, e

o reizinho, vendo-lhe o gesto, riu também. Dali por diante, o progresso de Pedro foi rápido. Ao quartel-general, de

tempos em tempos, chegavam notícias de um pequeno rei da África central,

o qual era um novo- Salomão em discernimento. Tão sábio era ele (quem é que conhecia as fórmulas que aplicou a cada caso?), tão bondoso, tão pacífico, que o soba de Akasava, de quem

periodicamente recebia o tributo, aproveitou-se-lhe das tendências benévolas

e não lhe mandou mais nada dos impostos, nem milho, nem peixe, nem

cabras. O referido cacique assim começou a proceder, depois de uma viagem

à longínqua aldeia de Ikan, onde conferenciou com o tio do rei Pedro, Sato-

Koto, tendo ajustado ambos agirem, dali em diante, de comum acordo. Como as colheitas de Isisi tinham sido muito boas, o rei Pedro lhes relevou a primeira falta; mas o segundo tributo ficou também em débito, pois nem Akasava nem Ikan o pagaram, e o povo de Isisi, irritado por semelhante insolência, entrou a murmurar acerbamente. O rei Pedro recolheu-se à solidão da sua cabana, a fim de pensar sobre o melhor modo de proceder, com justiça e eficácia, no tocante aos seus súditos de Akasava e de Ikan.

— "Estou realmente contristado por ter que novamente incomodar-vos,

— escrevia Sanders ao general encarregado da administração inglesa da África central, — pois não posso deixar de pedir-vos emprestados os vossos

Houssas, dos quais preciso para uma séria diligência no país de Isisi. Houve

lá uma questão de pagamento de impostos. Pedro desceu a Ikan e trucidou o

tio; em seguida, dirigiu-se a Akasava e deu naquele povo a maior pancadaria

que o mesmo tomou, desde que existe até agora. Aprovo inteiramente tudo que Pedro acaba de fazer, porque sinto que ele é apenas movido pelo mais

vivo senso de justiça e pelo desejo de fazer as coisas direitas e na devida oportunidade. Já era tempo de Sato-Koto ser morto, embora tenha eu que repreender a Pedro, para salvar as aparências. O soba de Akasava meteu-se no mato, onde anda oculto até hoje." Pedro, depois da sua curta, mas sanguinolenta excursão, voltou para a aldeia de Isisi, deixando atrás de si dois territórios que melhoraram consideravelmente, em conseqüência da sua visita, embora ficassem algum tanto magoados.

O jovem rei reuniu logo todas as notabilidades da sua corte, — anciãos,

cabos de guerra e médicos-feiticeiros.

— De acordo com as leis dos homens brancos, — disse ele, — errei

contra Sândi, porque ele me proibiu de guerrear, e eu, apesar disso, liquidei

meu tio que era um cão, e obriguei o soba de Akasava a refugiar-se na floresta. Mas Sândi disse-me também que eu devo fazer tudo quanto for justo. Ora, foi isso o que eu fiz, de conformidade com as minhas luzes, porque exterminei um homem, que havia exposto a opróbrio o meu povo.

Parece-me, agora, que só me resta uma coisa a fazer: é ir ter com Sândi, dizer-lhe a verdade e pedir-lhe que julgue o meu procedimento.

— Senhor rei, — ponderou-lhe o mais sisudo dos seus anciãos, — que será de nós, se Sândi vos puser em cativeiro? — Nada tenho que ver com o dia de amanha, — declarou terminantemente o rei.

E deu ordens para que se aprestasse tudo quanto fosse necessário à sua

viagem. No meio do caminho para o quartel-general, encontraram-se os dois: o rei Pedro, descendo, e Sanders, subindo. E foi ali que ocorreu o grave

incidente. Antes do pôr do sol, nenhuma palavra trocaram sobre as faltas ou acertos de Pedro. Quando, porém, se levantou para os ares o fumo azul das fogueiras dos Houssas e dos guerreiros de Isisi, e o pequeno acampamento, naquela clareira de mato, era todo uma tagarelice incessante, Sanders tomou o pequeno rei pelo braço e conduziu-o pelo trilho que levava áo interior da floresta. Pedro contou-lhe então toda a sua história, que o comandante inglês ouviu pacientemente.

— E que fim levou o soba de Akasava? — perguntou ele a Pedro?

— Senhor, — respondeu-lhe o rei, — ele escapuliu para a selva, amaldiçoando-me, e em sua companhia eu sei que foram muitos homens maus. Sanders meneou a cabeça, com inquietação, Falaram ainda de muitas outras coisas, até que o sol espalhou longas

sombras. Então, retrocederam. Estavam à distância de meia milha do acampamento. O fraco ruído do riso dos homens e o cheiro acre das fogueiras já chegavam até eles, quando o soba de Akasava saiu de detrás de uma árvore e postou-se-lhes em frente, no meio do trilho. Acompanhavam- no oito homens robustos e bem armados.

— Senhor rei, — disse a Pedro o chefe negro, — estou aqui à vossa

espera!

O soberano de Isisi não lhe deu trela, nem fez movimento algum. Mas

Sanders empunhou imediatamente o revólver. Sua mão já apertava a arma engatilhada, quando recebeu uma pancada na

cabeça e caiu de borco ali no chão.

— Agora, mataremos tanto o rei de Isisi, quanto o homem branco!

A voz erário cacique de Akasava; mas Sanders não pôde tomar interesse

algum por semelhantes palavras, porque, além de uma dor confusa, parecia zumbir-lhe na cabeça uma colméia de abelhas selvagens. Sentia-se mal.

— Se me matarem, — bradou-lhes o rei, — pouco adiantarão vocês com

isso, porque não faltarão homens que ocupem o meu lugar. Mas, se vocês matarem a Sândi, matarão o pai do povo, e ninguém o poderá substituir.

— Ele vos açoitou, reizinho! — obtemperou-lhe o soba de Akasava, em

tom de mofa. E, depois de um curto intervalo, continuou: — Mandarei jogá-

lo no rio, e assim não se encontrará nenhum vestígio dele, e não haverá ninguém que nos possa atribuir a sua morte.

— Mas que é que faremos do rei? — perguntou outro. Nisto, ouviram-se

estalidos de galhos e vozes de homens, que se aproximavam dali.

— São os soldados, que estão à procura dos dois, — cochichou uma voz. — Rei, se vós nos denunciardes, eu vos matarei!

— Pois mate! — disse-lhe Pedro, com voz firme, e começou a gritar pelos seus: — M'Sabo! Beteli! Venham! Sândi está aqui! E foi tudo quanto Sanders pôde ouvir.

Dois dias mais tarde, Sanders sentou-se na cama e pediu informações. Quando ele acordou, estava ali a seu lado um jovem médico militar, que providencialmente havia chegado, havia pouco, do quartel-general.

— Quer o sr. saber que fim teve o rei? — respondeu-lhe o médico, como

que hesitando. — Pois vou contar-lhe tudo: deram-lhe cabo do canastro.

Antes disso, porém, ele salvou í vida do senhor. Presumo que o sr. sabe disso, não?

— Sim, — disse Sanders, sem revelar emoção.

— Um mendigozinho altivo, — sugeriu o doutor.

— Justamente! — concordou Sanders. E imediatamente: — E o soba de

Akasava, conseguiram agarrá-lo? — Sim, pois ele estava com tanta gana de dar cabo do senhor, que retardou a fuga. O pequeno rei lançou-se sobre o corpo do senhor e defendeu-lhe assim a vida. — É bastante! Nos bons tempos, a voz de Sanders era áspera e as suas maneiras eram arrebatadas. Naquele momento, porém, a sua rudeza era brutal. — Agora doutor, saia da cabana, pois eu quero dormir! Mal o médico se retirou, mal lhe ouviu o barulho dos passos fora da porta da cabana, Sanders voltou o rosto para a parede e chorou copiosamente.

2 - Os guardas da pedra

HÁ UM POVO QUE VIVE EM OCHORI, na selva africana, às margens do rio Ikeli, e é conhecido, na língua indígena, pela denominação de "Os Guardas da Pedra". Consoante antiga lenda, possuía ele, desde muitos anos, cala-cala, uma pedra vinda de fora, achatada, "com sinais insculpidos pelos demônios" (na frase de um autorizado historiador local) a qual era grandemente estimada e adorada ali, em parte por seus poderes mágicos e em parte por causa dos dois fantasmas que tomavam conta dela. Era um fetiche de extraordinário valor para o povo pacífico que habitava aquela ínvia selva. Mas os Akasavas, que não eram pacíficos nem reverentes e, além disso, sofriam carestia de deuses, caíram sobre os Ochoris, numa rubra manhã, e só se retiraram da aldeia subjugada, levando a pedra miraculosa, assim como outros bens móveis. Custou-lhes não pequeno esforço o apoderarem-se da pedra, porque estava ela embutida numa laje cinzenta de sólida rocha, de sorte que muitas pontas metálicas de lanças foram quebradas, antes que o fetiche pudesse ser arrancado do respectivo nicho. Mas, após muitos e mui penosos trabalhos, foi arrebatada, e, por diversos anos, constituiu-se a glória dos Akasavas, os quais tiraram muitos benefícios de tão sagrada possessão. Mas, certo dia, a pedra desapareceu de repente da aldeia dos Akasavas, e, com ela, toda a próspera ventura dos seus donos. Porque o sumiço da pedra coincidiu com a chegada, ali, das autoridades britânicas, e isto era uma coisa ruim para os Akasavas. Entrou ali, naquelas priscas eras (1895?), um indivíduo ridículo, vestido de branco e acompanhado por seis soldados. Trazia uma bela mensagem de paz e fraternidade, falava de um novo soberano e de uma nova lei. Os Akasavas escutaram-no, atônitos de assombro. Quando, porém, voltaram a si, cortaram-me a cabeça, o mesmo fazendo com os homens da escolta. Parecia-lhes que era a única coisa que podiam fazer, naquela conjuntura. Então, certa manhã, o povo de Akasava acordou, para achar a sua aldeia repleta de gente branca, estrangeira, que subira o rio rapidamente, em barcos a vapor. Era muito grande o número dos invasores, e, por isso, o povo indígena se sentou quieto, um pouco assustado e muito curioso, enquanto dois soldados pretos, às ordens dos brancos, amarravam o chefe dos Akasavas de pés e mãos, a fim de pendurá-lo de uma árvore, onde ele não tardou a morrer. O caiporismo daquele povo não terminou aí. Sobreveio-lhe um ano

pobre, em que a raiz da mandioca estava ruim e cheia de água mortífera (*).

(*) Contém a mandioca uma formidável quantidade de ácido hidrônico (ácido prússico). — (Nota do autor).

Em tal ocasião, não só lhes morreram muitas cabras, como também suas exíguas colheitas foram estragadas por um inesperado furacão. Para eles, entretanto, havia sempre um remédio à mão, a fim de se ressarcirem de tais prejuízos. E, quando a gente não consegue, por bem, o que se pode, vai-se e toma-se. Assim, imitando inúmeros precedentes, os Akasavas fizeram uma visita aos Ochoris, apoderando-se de muitos grãos e deixando atrás grande quantidade de homens mortos e de vivos que suplicavam a morte. Mas os brancos não tardaram a vir de novo à aldeia de Akasava, trazendo, em seus ligeiros barcos, a vapor, pequenos canhões de bronze, bem como grossas cordas, que amarraram indígenas à mesma árvore, para o mesmo fim inevitável.

— Parece, — disse o novo chefe dos Akasavas (o qual foi enforcado

mais tarde, por causa da morte do rei de Isisi), — que a lei dos homens brancos é feita para permitir que os fracos triunfem à custa dos fortes. Isto, à primeira vista, é insensato, mas deve lisonjeá-los. O primeiro ato do novo soba foi cortar a árvore-forca, ato sem dúvida muito notável e significativo* Consagrou-se, em seguida, ao afã de descobrir a causa de todas as calamidades que estavam recaindo sobre Akasava. Ora, tal causa não demandou longo exame. A pedra miraculosa tinha sido roubada dali, como todo o povo sabia, e o remédio único, portanto, era descobrir-se o ladrão. E de quem haviam, desde logo de suspeitar, senão dos infelizes Ochoris? — Se os atacarmos, — disse o caudilho dos Akasavas, com muita ponderação, — de certo nos será preciso matar muito poucos, porque talvez nos baste expô-los ao fogo, para que logo nos contem onde foi que ocultaram a pedra-ídolo. E, assim, é de crer que o Grande-Ser nos perdoe o que lhes fizermos. — No tempo longínquo da minha mocidade, — observou um conselheiro muito idoso, — quando homens perversos não nos queriam contar onde haviam enterrado coisas roubadas, punhamos-lhes cinza quente nas mãos, depois de os termos amarrado sòlidamente.

— Aí está um bom processo! — exclamou outro macróbio, abanando a

cabeça, em sinal de aprovação. Mas, para fazer qualquer ladrão indicar onde

está o que furtou, também se pode estendê-lo, amarrado, em cima de um formigueiro de saúvas.

— Penso, todavia, que nada nos adiantará acometer os Ochoris, —

ponderou ainda o soba, — e isso por diversas razões, a principal das quais é

que, se a pedra estiver em poder deles, não conseguiremos subjugá-los, visto

contarem com os dois espíritos que tomam conta dela

acrescentou, com certos visos de esperança, — quando a pedra estava

conosco, parece que eles não a souberam defender como lhes cumpria.

A incursão armada, que se seguiu a este conciliábulo, e a inútil procura

da pedra são contadas resumidamente pelos relatórios oficiais da época. Foi realmente infrutífera a pesquisa do precioso fetiche, e a gente de Akasava teve que contentar-se com os despojos de que rapidamente se assenhoreou. De como mister Niceman, o então comandante, e depois o próprio Sanders se meteram em tais alhadas, — já fiz clara referência, em linhas

atrás. E tudo isso ocorreu há muito tempo, — cala-cala, como dizem os indígenas, — tendo acontecido, posteriormente, muitas outras coisas, que tiraram da mente do povo de Akasava toda e qualquer preocupação a respeito da pedra divina. Transcorrido algum tempo, o soba dos Akasavas foi morto, por motivo de várias faltas que havia cometido, e a paz desceu de novo às terras que margeiam o rio Togo.

Apesar de que, —

Sanders teve duas surpresas em sua vida. A primeira foi em Ikoli, que, na língua indígena, quer dizer "rio pequeno". Pois não é, absolutamente, um rio pequeno, e sim muito pelo contrário uma caudal larga, violenta, sombria, que gira, redemoinha e espuma, fazendo vibrar as sinuosidades das terras, banhadas pelo seu tortuoso curso em direção ao mar. Sanders sentou-se numa cadeira de bordo colocada sob o toldo do seu pequeno barco a vapor, e

observou o rio á precipitar-se para trás. Achava-se ele satisfeito, porque todo o território, confiado ao seu comando, estava tranqüilo e as colheitas eram boas. Além disso, não tinha ele notícia de crime algum. Só o que havia era doença-do-sono em Botafi e beribéri em Akasava; e, no país de Isisi, alguém tinha descoberto um novo deus, constando, conforme as narrações que vinham rio abaixo, que o novo fetiche era ali adorado dia e noite.

A Sanders não contrariava nunca a notícia do descobrimento de novos

deuses, porque ele acreditava que os deuses de toda e qualquer espécie

fossem sempre benfazejos. Milini, o sucessor de Pedro em Isisi, tinha-lhe mandado um recado, que assim lhe interpretou o mensageiro:

— "Senhor, este novo deus habita uma caixa, a qual é conduzida aos ombros dos sacerdotes. Tem ela o mesmo comprimento e a mesma largura, com quatro encaixes, aos quais se adaptam as estacas. O deus, que mora dentro dela, é muito poderoso e sobranceiro".

— Oh-ko! — respondeu Sanders, com polido interesse. — Diga ao rei,

seu senhor, que, enquanto este novo deus obedecer à lei, poderá ficar no país

de Isisi, sem pagar imposto. Se ele, porém, aconselhar os moços a fazerem

guerra, eu irei lá com um deus muito mais forte e destruirei o de vocês. Está terminada a audiência. Com as costas na cadeira e os pés estirados sobre a amurada do barco, pôs-se Sanders a pensar, indolentemente, no novo deus de Isisi. Qual a data do aparecimento do último? No país de N'Gombi, anos atrás, havia um deus mau, que vivia numa cabana, da qual homem algum ousava aproximar-se; depois, surgiu outro, vindo entre trovões, e que exigia sacrifícios, e, o que era pior, sacrifícios humanos. Esse deus excepcionalmente maléfico, custara ao governo britânico 600.000 libras esterlinas, porque correu sangue em combates na selva e a vida do distrito ficou bastante transtornada. Mas, em sua maior parte, os deuses ali eram bons; não causavam prejuízo a ninguém, porquanto o caso comum dos novos deuses era fazerem sua aparição depois das colheitas e antes de principiar a estação chuvosa. Assim pensava Sanders, à sombra de um toldo listrado e à proa do pequeno Zaire. No dia seguinte, antes do nascer do sol, fez ele o barco abicar para cima, preocupado com o bem-estar do tímido povo de Ochoris, que morava muito perto do de Akasava. Aquela gente precisava de consolo e, além disso, necessitava de alimentos. Muito vagarosa era a marcha do pequeno barco a vapor, pois que estava navegando contra a corrente impetuosa. Depois de dois dias de viagem, Sanders chegou a Lukati, onde o seu imediato, o jovem Carter, era o comandante do posto. Desceu ele à praia, em pijama, com um grande capacete de cortiça inclinado para trás da cabeça, e saudou ruidosamente ao seu chefe.

— Vai tudo bem aqui? — perguntou-lhe Sanders.

E Carter deu-lhe imediatamente todas as notícias. Havia um litígio sobre terras em Ebidi; Otako, de Bofabi, tinha mor-rido de doença-do-sono; dois leopardos andavam causando prejuízos nas aldeias distantes; e

— Que é que sabe você a respeito do novo deus dos Isisis? — interrompeu-o Sanders, que lhe contou então o que lhe havia informado o rei Milini.

— O tal deus, — respondeu-lhe Carter, — é coisa antiga nestes rincões.

O povo daqui me contou que a caixa-ídolo não contém senão a velha pedra dos Ochoris.

— Oh! — exclamou Sanders, com súbito interesse. Almoçou com o seu

imediato, inspecionou a guarnição de Lukati, composta de trinta homens, e percorreu toda a vasta horta de Carter, admirando-lhe a plantação de batatas e de tomates.

Voltou em seguida para bordo, onde escreveu um curto despacho, com a letra mais miúda possível e no mais trivial pedaço de papel.

— murmurou Sanders consigo mesmo. E, de repente,

gritou: — Abiboo! Traga-me o 14! O servente não tardou a aparecer, com um pombo na mão.

— Agora, avezinha, — disse Sanders ao pombo, enquanto enrolava

cuidadosamente o papel em redor da perna vermelha do pequeno

mensageiro, atando-o com uma liga de borracha, — tens duzentas milhas a

vencer, antes que nasça o sol amanhã! Mas

Ergueu então o pombo na destra, caminhou para a popa 'do barco e lançou-o aos ares. A equipagem, composta de doze homens, estava, naquele momento, sentada em volta da panela, uma panela que ferve eternamente.

— Yoka! — chamou ele, acudindo-lhe de pronto à voz o maquinista, um

negro seminu. — Navegue!! Tome lenha mais adiante. Toque para Isisi! Não havia mais dúvida alguma de que o tal novo deus era extremamente poderoso. A três horas de distância da aldeia, o Zaire aproximou-se de uma canoa comprida, com quatro homens, os quais empunhavam os remos, cantando tristemente. Lembrou-se então Sanders de que havia passado por uma povoação, onde as mulheres, com o corpo adornado de folhas verdes,

choravam à margem do rio. Sanders fez o barco descer devagar, até atingir à canoa, em cujo fundo avistou estendido um homem morto.

— Para onde é que estão vocês levando este cadáver? — perguntou ele

aos da canoa.

— No caso de

cuidado com os gaviões!

— Para Isisi, senhor! — foi a resposta.

— O fundo do rio e as ilhotas são lugares mais próprios para os mortos,

— disse-lhes Sanders, subitamente. — É loucura levar os mortos para o meio dos vivos!

— Senhor! — explicou-lhe o homem que lhe falara antes, — em Isisi há

um deus que ressuscita os mortos. Este homem (e apontava para o fundo da

canoa) é meu irmão e morreu repentinamente, vítima de um leopardo. Morreu tão depressa, que não nos pôde contar onde é que tinha escondido as suas armas e o seu sal. Portanto, se o estamos levando para Isisi, é só a fim de que o novo deus lhe dê alguns instantes de vida, para ele não prejudicar aos seus parentes. — Olhe ali no meio do rio! — disse-lhe Sanders tranqüilamente, apontando para uma ilha solitária, toda coberta de emaranhada vegetação verde. — Ali está o cemitério. Como é que você se chama? —Senhor, meu nome é N'Kema, — respondeu o homem, de mau humor.

— Vá, então, N'Kema! — ordenou-lhe o comandante inglês.

E conservou o vaporzinho em movimento vagaroso, enquanto a canoa

virava o beque para a ilha e ali desembarcava a sua fúnebre carga. Só depois disso foi que mandou tocar a máquina com o vento em proa,

navegando ao largo de um banco de areia, e retomou a rota para Isisi. Estava verdadeiramente preocupado com todos aqueles sucessos.

A pedra era algo de excepcional em fetiches, e aquele caso devia ser

resolvido com muita delicadeza. Que a pedra existia, era coisa que ele sabia

desde muito tempo. Conheceu também inúmeras lendas a respeito dela, e um explorador europeu, munido de bons óculos, vira-a ainda recentemente. Tinha igualmente ouvido falar, com assombro, dos dois fantasmas "vestidos de bronze", — avejões belicosos, que faziam os homens pacíficos sair para o combate, todos exceto apenas os Ochoris, que nunca foram de índole marcial e aos quais número algum de espíritos podia incitar a atos de violência. Tereis notado que Sanders tomava muito a sério tudo quanto concernia ao povo indígena, confiado ao seu comando, e Isso, — observo-o aqui, de passagem, — era o segredo do seu bom governo. Um homem que não pensasse assim, ter-se-ia apenas divertido com aqueles casos; Sanders, porém, não se divertia com os mesmos, porque tinha ali uma grande responsabilidade. Chegou a Isisi à tarde, e percebeu, mesmo à distância, que algo de

anormal ocorria então ali. A sua chegada não atraiu, como costumava, a multidão de mulheres e crianças, quando ele deu volta pelo meio do rio. Seguiu, pois, sem a habitual galeria feminina e infantil, o curso da água, em demanda do banco de areia. Esperavam-no somente o rei e um punhado de macróbios. O rei estava evidentemente nervoso e desassossegado.

— Senhor, — foi ele dizendo logo a Sanders, sem mais aquela, — não

sou mais rei nesta aldeia, por causa do novo deus. O meu povo abandonou- me. Agora, não sai mais de lá da encosta do morro, onde, de dia e de noite,

está em adoração ao deus que mora na caixa! Sanders mordeu os lábios, pensativamente, e não lhe disse coisa alguma.

— A noite passada, — continuou o rei, — os "Guardas-da-Pedra" apareceram aqui, caminhando à vontade por toda a aldeia E, ao referir isso, tremia, brotando-lhe o suor da testa abundantemente, pois um fantasma era coisa que mesmo de longe o terrificava.

— Essa visão de "Guardas-da-Pedra" não passa de loucura! — disse-lhe

Sanders, calmamente. — Decerto, eles só foram vistos pelas mulheres e pelas crianças

— Senhor, eu os vi, eu mesmo, com os próprios olhos que a terra há de comer! — murmurou o rei, tremulamente ainda.

E Sanders não pôde deixar de ficar abalado, porque o rei era um sujeito

certo das faculdades mentais.

— É o diabo! — exclamou em inglês o comandante; mas, depois,

perguntou ao rei, na língua nativa: — E como é que estavam trajados os tais

espíritos que você diz ter visto?

— Senhor, — replicou o soberano, — eram de rosto branco, como vós.

Traziam bronze em cima da cabeça e sobre o peito. As pernas deles estavam descobertas, mas em sua parte inferior havia também bronze.

— Já não é fácil a gente acreditar em qualquer espécie de espírito —

regougou Sanders, irritadamente. — Agora, acreditar em fantasmas de bronze, é que por forma alguma fará o filho de meu pai!

Tudo isso disse ele, novamente, em inglês, como era hábito seu, quando falava consigo mesmo. O rei, que não o entendera, conservava-se em silêncio.

— E que mais sabe você a respeito deles? — inquiriu o comandante. — Tinham espadas, — prosseguiu Milini, — largas e curtas,

semelhantes às que são usadas pelos caçadores de elefantes do povo de N'Gombi. Além disso, traziam grandes escudos no braço esquerdo. Sanders estava perplexo.

— E gritavam: "Guerra"! — acrescentou o rei. — Ora, isto é o que mais

me está preocupando, porque os meus moços não fazem outra coisa senão

dançar a dança da morte, pintar o corpo e falar vaidosamente em combates.

— Vá para a sua cabana, — ordenou-lhe Sanders. — Logo mais, irei ter com você.

O comandante inglês pensou e repensou naquele complicado caso, fumando cigarros ininterruptamente. Afinal, chamou por Abiboo, o seu sargento.

— Abiboo, — disse-lhe carinhosamente, — segundo creio, tenho sido

para você um bom patrão.

— Assim é, senhor! — respondeu-lhe Abiboo, risonho.

— Agora, por isso, eu vou confiar a você uma importante missão, qual é

a de descobrir os deuses em que acreditam todos os homens da equipagem deste barco. Se eu próprio os interrogar, mentir-me-ão por polidez, inventando ora este, ora aquele deus, pensando que assim me agradam. Abiboo escolheu a hora da refeição, quando o sol já se havia posto, a terra ficara cinzenta e as árvores pareciam imóveis. Voltou com a

informação, quando Sanders estava tomando a suâ segunda xícara de café, na solidão da sua pequena câmara de convés.

— Comandante, — relatou o sargento, — três homens não adoram deus

nenhum; três outros têm uma casta especial de ídolos; dois são mais ou

menos cristãos; e os quatro Houssas São da minha fé.

— E qual é a de você?

Abiboo, o rapaz de Kano, sorriu à simulação de inocência de Sanders, dizendo-lhe afinal:

— Senhor, eu sigo a lei do Profeta, acreditando somente em um deus, beneficente e misericordioso.

— Assim, está tudo bem! — exclamou Sanders. — Agora, diga aos

homens que carreguem a lenha para dentro do barco e a Yoka que tenha a máquina pronta para a partida, quando nascer a lua. Eram dez horas no seu relógio-pulseira, quando ele mandou aos seus quatro Houssas que se pusessem em forma, entregando a cada qual uma carabina e uma cartucheira. Logo após, desembarcou em companhia dos

mesmos.

O rei estava sentado, pacientemente, à porta da sua cabana, onde Sanders

o encontrou, dizendo-lhe:

— Você continuará sentado aqui, Milini, porque, assim, nenhuma culpa lhe advirá se acontecer qualquer coisa esta noite com o seu povo. — Que é que poderá acontecer, senhor? — perguntou o rei, algo inquieto.

— Quem sabe lá? — retrucou-lhe Sanders, filosòficamente. Reinava nas

ruas da aldeia uma escuridão de breu. Abiboo, porém, erguendo na destra uma lanterna, iluminava o caminho. Exceto uma cabana alugada, pela qual o

grupo passou ocasionalmente, todas as demais choças estavam vazias, pois que no interior delas só se enxergava o brilho frouxo de achas, que queimavam lentamente. Em certo ponto, mais adiante, uma rapariga, que se

dizia doente, chamou por eles, de passagem. Disse-lhes ela que estava próxima a dar à luz e que não havia ali por perto ninguém para ajudá-la no momento supremo da sua angústia.

— Deus a ajude, irmã! — disse-lhe Sanders, sempre reverente quanto ao

mistério augusto do nascimento. — Enviarei mulheres que tomem conta de você. Qual é o seu nome?

— Chamo-me Ifabi e sou casada com Adako, — respondeu a voz

queixosa. — Mas as mulheres não virão ajudar-me, senhor! À noite, os

homens partem para a guerra e as mulheres esperam pela grande dança da morte.

— À noite?

— À noite, sim, senhor! Porque foi assim que mandaram os fantasmas de bronze.

Sanders deu um muxoxo, semelhante a um ruído do tique-taque, dizendo em seguida:

— Pois vamos ver isso!

E

prosseguiu o seu caminho.

O

pequeno bando não tardou a chegar aos limites da aldeia. Diante deles,

esfumada num céu cor de bronze, avultava a massa escura de uma colinazinha, que rodearam. Aquela cor de bronze se tornou vermelha, rósea e voltou depois ao matiz primitivo, à medida que as chamas, que produziam tais gradações cromáticas, aumentavam ou diminuíam. Contornando a base do morro, deparou-se logo a Sanders uma vista completa da cena que se representava ali. Entre a orla da floresta e o declive da colina, estendia-se uma larga faixa de terreno plano. À esquerda, corria o rio, e, à direita, sucediam-se pântanos e novamente a selva. Bem no centro do terreno plano, cintilava uma enorme fogueira. Em frente desta, sustentada por suas quatro estacas e em cima de dois altos cavaletes, ostentava-se uma caixa quadrada. E quanto povo ao redor dela! Era um vasto círculo, de cócoras, imóvel e silencioso: — homens, mulheres, crianças, as menores das quais agarradas aos quadris maternos. Era uma sólida roda humana tendo a caixa-ídolo e a fogueira por centro. Havia, entretanto, naquela enorme roda uma pequena solução de continuidade, através da qual podia um homem chegar até à fogueira e até à caixa: era uma pequena ala, ao longo da qual passava constantemente, indo e vindo, uma procissão de homens nus. Eram estes os que mantinham o lume sempre aceso, pois Sanders os viu conduzindo lenha para tal fim. Chegando perto da multidão acocorada, dirigiu-se para aquela estreita passagem. Parou ali, olhando primeiramente para os seus Houssas, aos quais disse, no curioso árabe do povo de Kano:

— Está escrito que nós havemos de retirar daqui este falso deus, levando-o conosco à força. Agora, quanto àqueles de nós, que viverão ou morrerão nesta aventura, isso é com Alá que é quem sabe todas as coisas. Arrojou-se, então, sem temor, pela ala adiante. Sanders, antes de desembarcar, havia trocado as suas calças brancas por um uniforme azul-ferrête, de modo que escapou aos reparos da maioria da multidão, até aproximar-se da caixa-ídolo, com os seus quatro Houssas. O calor do fogo era ali espantoso, opressor. De mais perto, pôde ver que a veemência das labaredas havia arqueado as tábuas toscas da caixa, e, por uma das frinchas da mesma, pôde lobrigar, à luz da fogueira, um ângulo da pedra. — Levantem a caixa depressa e corram com ela! — ordenou ele aos seus quatro soldados. Os Houssas seguraram as estacas e levantaram-nas aos ombros. Até então, aquela grande assembléia permanecera em silencioso pasmo. Quando, porém, os soldados de Sanders se apoderaram do precioso fardo, partiu de cinco mil gargantas um grito de furor, e os homens saltaram para retomá-la.

Sanders, ereto em frente da fogueira, ergueu uma das mãos, ordenando silêncio, e o ímpeto iniciado cessou como por encanto, pois a curiosidade dominou o ressentimento da multidão.

— Povo de Isisi! — bradou-lhes Sanders. — Que nenhum homem se

mova, até que a caixa-divindade tenha acabado de passar, porque a morte

vem depressa para os que ousam atravessar-se no caminho dos deuses! Tinha ele uma pistola automática em cada mão, e a divindade particular, em que estava pensando no momento, não era positivamente a da caixa.

O povo não sabia o que fazer, agitando-se, qual um mar encapelado.

Os Houssas, apressando-se o mais que podiam, levaram o seu precioso

fardo pela ala adiante, e já estavam quase a transpô-la, quando uma velha avançou para Sanders e lhe segurou com força o braço, guinchando-lhe:

— Senhor! senhor! Que é que ides fazer com o nosso deus?

— Levá-lo para o lugar próprio! — respondeu-lhe o comandante. — E o governo escolherá as pessoas que o devem guardar.

— Dai-me, então, um sinal de que o nosso deus não nos abandonará — grasnou ela.

E toda aquela turba agitada, que estava ali perto, repetiu, aos gritos:

— Um sinal, senhor! um sinal!

— Eis o sinal, — disse-lhes Sanders, lembrando-se repentinamente da

mulher que se queixara de estar sozinha, com dores de parto: — Por mercê do deus da caixa, nascerá esta noite a Ifabi, mulher de Adako, um menino. Daí em diante, ouviu Sanders a sua declaração do favor divino repetida pelas inúmeras bocas daquela turba irrequieta; escutou tagarelices infindáveis; viu um grande grupo de mulheres voltando para a aldeia. Foi então que ele deu aos seus quatro Houssas a ordem de continuarem a marcha. Houve murmúrios, e um dos homens da aldeia chegou a começar o canto de guerra, em voz alta e clara, mas ninguém o acompanhou. Outro, — ou talvez, o mesmo homem, — percutiu com a lança o seu escudo de junco, mas este gesto belicoso também não encontrou imitadores. Sanders e os seus Houssas chegaram, portanto, sem mais incidentes, à rua principal da aldeia. Aglomeravam-se-lhes ao redor tantos homens e tantas mulheres, que era com dificuldade que transportavam, por entre aquela multidão, a caixa-ídolo.

Já avistavam o rio, e a lua cheia, um globo pálido e tristonho, alçando-se por cima das árvores, prateava a água da caudal. Foi então que daquela enorme massa humana irrompeu uma celeuma de furor:

— Ele mentiu! ele mentiu! Ifabi, a mulher de Adako, teve uma menina!

Sanders voltou-se rapidamente, como um cão perseguido, a fim de enfrentar o novo perigo. Os lábios encresparam-se-lhe num rosnado, mostrando os dentes alvos e regulares.

— Alto lá! — gritou ele, falando muito rapidamente, aos que o

ameaçavam. — O primeiro homem, que erguer a lança contra mim, morrerá

imediatamente!

De novo pararam, irresolutos, os capitaneadores da turba, e Sanders, por cima dos ombros, deu uma ordem aos seus Houssas. Mas a hesitação do povo indígena durou apenas um momento, porque, quando os soldados de Sanders agarraram outra vez as estacas da caixa- divindade, nova gritaria selvagem encheu os ares e os chefes do bando negro saltaram para a frente, a fim de tentarem retomar o seu fetiche. Mas, dentre eles mesmos, uma voz sussurrou qualquer coisa, que foi logo repetida por toda a turba, e como por súbita magia, o tumulto cessou, precipitando-se a multidão para trás ou para os lados, caindo uns por cima dos outros, no frenético desejo de escapar. Sanders, empunhando ainda na destra a pistola engatilhada, permanecia boquiaberto, sem compreender a causa daquela fuga. Ficara ele sozinho ali, apenas com os seus quatro Houssas, e então viu Pelo meio da rua, vinham dois homens. Vestiam-se do mesmo modo:

curtos saiotes vermelhos, que lhes deixavam os joelhos descobertos; enormes capacetes de bronze, que quase lhes escondiam o rosto; e couraças, também de bronze, que lhes cobriam o peito. Sanders observava-os atentamente, e, quando se aproximaram bastante dele, murmurou:

— Ou estou delirando de febre ou enlouqueci!

Porque o que ele avistou ali — eram dois centuriões romanos com gládios pesados, que lhes pendiam da cintura. E, como o comandante inglês

continuasse imóvel, os dois homens passaram por junto dele, tão ao alcance dos seus olhos, que estes, à luz do luar, puderam ler no relevo de um dos escudos dos centuriões as mal modeladas letras:

"Augustus cae."

— Estou positivamente delirando de febre! — regougou Sanders,

enfaticamente, e acompanhou o pequeno bando de Houssas que conduziam para o barco a caixa-ídolo.

Quando o Zaire alcançou a aldeia de Lukati, Sanders ainda nutria certas dúvidas quanto à sua higidez psíquica, porquanto, sendo normal a sua temperatura, nem a febre nem o sol podiam ser responsável por aquela visão singular, que ele tivera. Além disso, os seus quatro Houssas tinham visto também a mesma coisa. Encontrou em Lukati os reforços, que pedira pelo pombo-correio, e que agora lhe eram desnecessários.

— Pode-se lá acreditar numa coisa destas? — perguntou ele a Carter,

depois de contar-lhe toda a história. — Mas é melhor tirarmos a pedra da

caixa. Talvez ela nos forneça alguma explicação. Centuriões, bah!

Exposta à luz do sol, viu-se que a pedra, achatada dos quatro lados, era de granito cinzento, como Sanders não se lembrava de ter encontrado nunca por aquelas bandas.

— Eis aqui as marcas dos demônios! — exclamou ele, virando a pedra

por todos os lados. — É possível que

Não era de estranhar que ele assobiasse, porque, insculpidos grosseiramente na pedra, havia grande número de caracteres romanos.

Soprando o pó, que os recobria, começou Sanders a ler:

fiu-fiu!

Marius et Augustus

Cen .

 

.

.

.

Neronis

Imperat .

. in deorum

.

.

.

.

.

.

.

dulce

Naquela mesma noite, Sanders, polindo com grande esforço o seu enferrujado latim, e preenchendo ao mesmo tempo as lacunas da inscrição, fez a tradução seguinte:

— "Mário e Augusto, centuriões de Nero, César e imperador, dormem

docemente no seio dos deuses. Pertencemos ao número daqueles que vieram

Marcus Septimus

voltou para o Egito, indo em sua companhia Decimus Superbus. Nós, porém, pela vontade de César e com o favor dos deuses, navegamos pelo mar tenebroso abaixo. Tendo naufragado aqui o nosso navio, não pudemos sair mais desta terra, onde vivemos adorados pelos selvagens, aos quais

levai a Roma

ensinamos a arte da guerra

ter às terras incultas, descobertas por Hanno, o cartaginês

Vós, os que aqui vierdes depois

saudações nossas a Cato Hippocritus, que mora junto da porta " Sanders sacudiu a cabeça, ao concluir a tradução, e disse aos seus botões que aquilo era, positivamente, "um caso divertido".

3 - Bosambo de Monróvia

POR MUITOS ANOS O POVO DE Ochori constituiu uma espécie de relevo na tragédia da colonização inglesa da África, o qual teria sido cômico, se não o envolvessem tantas tristezas. Agora, entretanto, pode bem acontecer que não riamos mais dos Ochoris. Nem mais, nas horas curtas da noite, — quando esmorece a conversa no pequeno círculo, formado ao redor da fogueira, num acampamento de pescadores, — os sonolentos serão excitados à alegria pelas histórias da mansidão dos Ochoris. Tudo isso aconteceu por culpa do governo liberiano, embora, até ao presente, o governo liberiano não seja sabedor do fato. Com todo o respeito que devo à República da Libéria, digo eu que os monrovianos são, por natureza, mentirosos e ladrões. Certa ocasião, para que aumentasse ainda mais o brilho daquele Estado, adquiriu o mesmo um navio de guerra, embora tenha eu uma vaga lembrança de que foi presenteado à República da Libéria por um desinteressado armador norte-americano. O governo, sem perda de tempo, nomeou para a belonave 3 almirantes, 6 vice-almirantes, 9 contra-almirantes e tantos outros oficiais da escala hierárquica, quantos podia conter o barco. Recebeu a numerosa oficialidade uniformes suntuosos, os quais, entretanto, não ficavam nunca bem assentados no corpo de nenhum dos guapos marujos. O governo teria também, necessariamente, contratado para o mesmo uma tripulação: mas o navio não era bastante grande para que coubesse nele um número maior de pessoas do que o dos seus oficiais reunidos. A pequena nau de guerra da república negra saiu ao mar uma única vez. Os seus almirantes, vice-almirantes e contra-almirantes, cada qual por seu turno, fizeram-na cortar as águas do Atlântico, bem perto da costa africana, desempenhando cada qual o posto de comando por certo número de horas. Verificaram todos que era muito agradável aquela sensação nova de dirigir um barco. Regressando a belonave ao ponto de partida, o mais velho dos almirantes disse o seguinte:

— Agora, eu quero dirigir sozinho o navio! E tomou imediatamente a roda do leme. Mas o barco, apenas abicou a proa para a saída, bateu logo num rochedo, junto à entrada do porto de Monróvia, e soçobrou. Os oficiais ; salvaram-se com extrema facilidade, porque todo monroviano nada qual um peixe. Somente os seus belos uniformes é que ficaram estragados pela água do mar. À sugestão de que deviam ser empreendidas, sem detença, operações destinadas a fazer a nau de guerra flutuar de novo, — o governo

da república negra declarou, muito prudentemente, que não, que pensava não convir — Sabemos onde ela está, — ponderou-lhes o presidente, que, sentado a um dos ângulos da sua secretária, no palácio do governo, comia sardinhas, servindo-se dos dedos como garfos — e isso é quanto basta. Se em qualquer ocasião viermos a precisar dela, consolar-nos-emos com o fato de achar-se ela tão perto de nós! Teria aí ficado encerrado o incidente, se o Almirantado Britânico, logo após, não houvesse decidido que aquele barco ali naufragado era um perigo para as manobras da esquadra inglesa, reclamando, por isso, do governo liberiano a imediata colocação de uma bóia no lugar onde soçobrara o seu único navio de guerra. Mas o governo liberiano deixou, a princípio, de atender ao governo britânico, alegando que para o dito serviço não possuía verba alguma orçamentária. Feita, porém, certa pressão sobre a república negra (eu suspeito bastante do comandante do H. M. S. Dwarf que era homem de linguagem e gestos rudes), uma bóia de sino não tardou a ser ancorada sobre o casco da belonave submergida. Que som agudo e que bonita algazarra não fazia aquele sino! O povo de Monróvia estava encantado, sentindo-se bem recompensado do dinheiro que fora forçado a despender com a aquisição daquela bóia. Monróvia, porém, não foi povoada somente pelos escravos americanos, que, libertados por instituições filantrópicas, tinham sido mandados para aquele ponto da costa africana em 1821. Havia ali também os aborígenes que se descreviam altivamente como os "verdadeiros monrovianos", e os principais deles são os Kroomen, que não pagam impostos, pouco se importando com o governo, e, por intervalos, beliscam o nariz oficial da República. Dois dias depois de colocado o sino no lugar, acordou Monróvia espantada ante o completo silêncio que reinava em sua baía, não obstante a grande marulhada, que havia então. O sino não tocava. Por isso, dois ex- almirantes, que já estavam a vender peixe ali na praia, pediram emprestado o bote de um amigo, e, remando para a entrada do porto, foram investigar a causa de tal silêncio. A explicação era simples: — o sino tinha sido roubado! — Agora, — gritou o presidente da República da Libéria, quase a arrancar desesperadamente o topete da carapinha, — que Belzebu, pai e autor de tudo quanto é pecado, desça sobre estes Kroomen ladrões! Foi adquirido e posto no lugar outro sino, e na mesma noite foi roubado. Um terceiro sino foi ligado à bóia, tendo-se incumbido uma pequena frota, dirigida pelos ex-almirantes, de montar-lhe guarda ali. Durante toda a noite, os barcos da esquadrilha permaneceram alerta, subindo e descendo com a

marulhada. Aos ouvidos da tripulação dos mesmos era uma verdadeira música aquele incessante e monótono "clan-jangle-clong". Toda a noite se ouviu essa música; mas, pela madrugada, na hora do lusco-fusco que precede ao nascer do sol, pareceu que a voz do sino, tangesse este ainda muito embora, se ia tornando mais fraca, mais fraca

— Camaradas, — bradou um dos ex-almirantes, — estamos a afastar-

nos do sino! Mas a explicação era outra: — o sino é que se havia afastado deles, porquanto, cansados de meias medidas, os Kroomen tinham chegado ali e tinham levado tudo consigo, bóia e sino, de sorte que, até hoje, não há mais

sinal algum que indique onde foi que um navio de guerra, pertencente à República da Libéria, naufragou no porto de Monróvia. A hábil criatura, que planejou e executou tal furto, foi um certo Bosambo, que tinha três esposas. Uma delas, conguesa de nascimento e traidora ao marido, deu à polícia denúncia do fato. Com dificuldade não pequena Bosambo foi preso; julgado depois pela Corte Suprema, condenou-

o esta a dez anos de servidão penal pelo crime de "roubo e alta traição". Levaram para a prisão a Bosambo, o qual no mesmo dia teve com o carcereiro negro a seguinte entrevista:

— Meu amigo, — disse ele, — tenho um grande ju-ju lá na floresta. Se

você não me soltar esta noite mesmo, você e sua mulher morrerão em grande tormento.

— De seu ju-ju não tenho medo algum, — disse-lhe o carcereiro

filosoficamente. — Mas recebo dois dólares por semana, para guardar os presos; e, se eu os deixar fugir, perderei o meu bom emprego.

— Conheço certo lugar, não muito distante daqui, onde existe escondida

muita prata, — disse-lhe Bosambo sem perda de tempo. — Iremos, você e eu, a tal lugar, e ficaremos ricos.

— Se você sabia onde estava oculta tanta prata, por que é que roubava

sinos, que são de bronze e de muito menor valor? — perguntou-lhe o atilado guardião.

— Vejo que você tem um coração de pedra, — atirou-lhe Bosambo às

bochechas. E, no dia seguinte, marchou, com outros presidiários, para a Colônia-da- Floresta, a fim de cortar árvores destinadas às obras públicas do Estado. Quatro meses depois, Sanders, o comandante chefe das forças britânicas

nos territórios de Isisi, Ikeli e Akasava, recebia, inter alia, a seguinte comunicação estereotipada:

"A quem possa interessar — Procura-se, a pedido de S. Ex. o Sr.

Presidente da República da Libéria, o indivíduo chamado Bosambo Krooboy, que se evadiu da Colônia Correcional de Monróvia, depois de

haver matado um guarda. Acredita-se que se haja encaminhado para as possessões britânicas da África Central". Seguia-se uma descrição do fugitivo.

Sanders pôs de lado esse papel, ao lado de outros que tais, — pois não eram raras semelhantes ocorrências, por aquela época, — e entregou o espírito a novas cogitações sobre o eterno problema dos Ochoris. Naquele momento, como sempre, achava-se o povo de, Ochori em sérios embaraços. Não havia em toda a África outra tribo tão indefesa, quanto a dos pobres Ochoris. Os Fingos, escravos por nome e tradição, eram ferozes, como os Massais, quando comparados com os Ochoris. Sanders andava então algo irritadiço, de sorte que uma comissão de três Ochoris, vinda da sua aldeia até ali, ao quartel-general, a fim de expor ao comandante inglês os agravos que o seu povo havia sofrido, o encontrou de má catadura. Deu-lhes audiência na varanda.

— Senhor, — disse-lhe um deles, — ninguém mais nos deixa em paz! A

gente de Isisi e até a de N'Gombi, que mora mais longe, vem constantemente à nossa aldeia, pedindo isto e aquilo, e nós lhes damos, com medo! — Com medo de quê? — perguntou-lhe Sanders, de sobrecenho carregado.

— Nós temos medo da dor e da morte, assim como de incêndio e de

captura de nossas mulheres! — gemeu o outro.

— Qual de vocês é o chefe? — indagou deles Sanders, fingindo não o

conhecer.

— Sou eu, senhor, — respondeu o mais idoso, recoberto por uma pele de leopardo.

— Volte já para o meio do seu povo, chefe, — bradou-lhe Sanders, — se

é que você é realmente chefe e não um maricas sem-vergonha! Volte e leve consigo um fetiche, um fetiche poderosíssimo, o qual ficará, do mesmo modo que eu, velando por todos vocês e protegendo a todos vocês. Este ídolo, que eu vou entregar a você, deverá ser colocado à entrada da aldeia, no ponto em que melhor bater o sol do meio-dia. Você primeiro abrirá o buraco onde ele terá que ser fixado, e à meia-noite, com a conveniente cerimônia, o colocará no lugar, sacrificando-lhe uma cabra nova. Asseguro que correrá, depois disso, grande perigo, quem quer que seja que ouse maltratar ou roubar a vocês! Sanders disse-lhes isto com tal gravidade, que os três homens de Ochori ficaram profundamente impressionados. E ainda mais impressionados ficaram quando, antes de regressarem pouco depois à sua aldeia, o comandante inglês lhes pôs nas mãos uma pesada estaca, em cuja larga extremidade superior estava pregada uma tábua lisa, cheia de certos sinais

bem gravados. Gastaram seis dias de viagem através da floresta e quatro em canoa pelo Rio-Pequeno, até chegarem com o seu precioso fardo a Ochori. Ali, à luz da

lua, com o sacrifício de duas cabras (por seguro), fincaram em terra a estaca, à entrada da cubata, e de modo que a tábua, repleta de caracteres misteriosos, ficasse voltada para o sol do meio-dia. Correram logo rápidas as notícias, tanto pelas terras do litoral, quanto pelas aldeias dos Isisis, e dos Akasavas, de que os Ochoris estavam agora protegidos pela magia de uma divindade branca. Ora, protegidos sempre foram eles, e muitos negros tinham morrido às mãos dos brancos, porque entre os indígenas se havia tornado irresistível a tentação de fazer mal aos Ochoris. Tendo ouvido tal nova, disse o soba dos Akasavas aos seus homens de guerra:

— Não creio que Sândi tenha feito tal coisa! Atravessemos o rio e vamos

ver o novo ídolo com os nossos próprios olhos! Se for mentira, espancaremos os Ochoris com varas, mas sem matar a nenhum deles, por causa de Sândi e da sua crueldade. Assim, no mesmo dia transpuseram o rio e marcharam por terra até Ochori. O povo de Ochori, sabendo que o povo de Akasava se aproximava,

fugiu para o mato e escondeu-se ali, como era seu costume. Os Akasavas chegaram, portanto, sem embaraço algum, até perto da estaca, que estava ali enterrada no solo, e olharam a tábua, em que havia os sinais postos pelo demônio. Cheios de temor, permaneceram algum tempo em silêncio diante do ídolo, ao qual sacrificaram um frango (que, aliás, era propriedade legal dos Ochoris); e, fazendo-lhe em seguida uma profunda reverência, retrocederam para a sua aldeia. Mal chegados, não tardou a aparecer-lhes um numeroso bando de gente de Isisi, o qual precisou de atravessar o território de Akasava. Trouxeram presentes aos Akasavas, com os quais se hospedaram por uma noite.

— Que história é essa do novo ídolo dos Ochoris? — perguntou o chefe dos Isisis ao seu colega de Akasava.

— Pode você poupar-se ao incômodo da viagem, com toda esta sua

gente, — respondeu-lhe o outro, — porque a notícia é verdadeira: nós já vimos o ídolo.

— Não caio nessa! — bradou-lhe o cacique dos Isisis. — Eu só

acreditarei no tal ídolo, quando eu mesmo o tiver visto!

— Isto agora é demais! — berrou um guerreiro Akasava, que estava à

frente do povo, assistindo à entrevista. — Estes cães de Isisis chamam-nos de mentirosos!

Não houve, todavia, derramamento de sangue. Na manhã seguinte, os Isisis prosseguiram o seu caminho. Viram-nos chegar os Ochoris, que logo se refugiaram no mato; mas podiam ter deixado de tomar semelhante precaução, porque os guerreiros de Isisi, dando de cara com o fetiche, puseram imediatamente sebo nas canelas. Outras peregrinações, semelhantes a essas, foram ainda feitas à aldeia de Ochori: a dos N'Gombis, a dos Bokelis e a do Povo-Pequeno da selva, o qual era tão tímido, que realizou a sua incursão à noite. Então o povo de Ochori começou a compreender o valor do seu novo ídolo e a capacitar-se da sua própria importância.

Foi nessa ocasião que ali apareceu em cena Bosambo, um Krooman e um aventureiro inato. Atravessara oitocentas milhas de terra selvagem, na dupla esperança de que o tempo embotasse um dia a memória do governo liberiano

e de que ele mesmo pudesse achar uma Canaã de leite e mel. Bosambo tinha sido, em sua vida, um cabide de coisas e capacidades. Fora despenseiro numa barca a Elder Dempster; estudara na Escola da Missão e era orgulhoso possuidor de um exemplar encadernado da "Vida dos Santos", — prêmio da sua aplicação escolar; e, entre os seus predicados intelectuais, contava-se, finalmente, um regular conhecimento da língua inglesa. Receberam-no afavelmente ali os hospitaleiros Ochoris, que lhe deram a comer mandioca assada e cana-de-açúcar, referindo-lhe, em seguida, como se sentiam então sossegados, graças à magia de Sanders. Acabada a sua frugal refeição, Bosambo foi ver o ídolo e nele leu apenas a seguinte inscrição, feita no idioma britânico:

Transgressores, acautelai-vos!"

Sem sentir a menor impressão, vagueou ali pelos arredores e voltou para

o centro da aldeia, pensando profundamente em seu destino.

— Esta magia, — declarou ele ao soba, — é muito eficaz. Eu sei disso,

porque tenho sangue de branco em minhas veias. E, em apoio, de semelhante declaração, prosseguiu difamando um oficial britânico, que estivera em Serra-Leoa, e ao qual, embora inocente, atribuía a sua vinda ao mundo. Os Ochoris ficaram arraigadamente persuadidos do valor do seu novo ídolo, graças às palavras de Bosambo. Contaram-lhe então as inúmeras perseguições que haviam sofrido, — uma história que começava em épocas imemoriais, desde quando Tigano-Beni, o grande rei, descera do norte e devastara todas aquelas regiões até às margens do Isisi. Bosambo teve que levar duas noites e a maior parte de um dia ouvindo aquela longa história, porquanto o narrador oficial dos Ochoris tinha um método todo seu de contá-la, e terminada ela, o evadido de Monróvia falou

aos seus botões:

— Este é o povo que eu tenho ansiosamente procurado. Ficarei aqui. Depois, em voz alta, perguntou ao chefe:

— Quantas vezes por ano vem Sândi ter aqui com vocês?

— Ele vem aqui uma só vez por ano, senhor, — respondeu-lhe o soba, — e isso na décima segunda lua ou um pouco depois.

— E quando foi que ele veio pela última vez?

— Quando esta lua de agora estava cheia, isto é, há três luas, pois ele chegou aqui depois das grandes chuvas.

— Então, — disse Bosambo novamente aos seus botões, — por nove

meses posso eu ficar tranqüilo aqui. Diante da deliberação, expressa depois em voz alta por Bosambo, de deixar-se ficar ali com eles, os Ochoris construíram-lhe uma cabana e ao lado da mesma plantaram-lhe um bananal, dando-lhe sementes de cereais. Pediu ele, então, a filha do chefe, para sua esposa, e, embora nada pudesse ele dar em pagamento para obtê-la, o casamento foi efetuado. Souberam logo as outras tribos que um estrangeiro estava morando na cubata principal dos Ochoris, porque notícias de tal jaez prontamente se espalham naquelas regiões. Mas, depois de ter Bosambo casado com pessoa da família do soba, propalou-se que o homem devia ser mesmo da gente dos

Ochori, e a história, assim contada, chegou sem alteração ao quartel-general de Sanders. Logo depois, morreu o soba dos Ochoris; morreu repentinamente, de certa dor que o acometeu; mas tais falecimentos não causam estranheza a ninguém, e seu filho assumiu imediatamente as rédeas do governo. O filho, entretanto, depois de um reinado muito curto, acompanhou o pai para baixo da terra. Bosambo, à vista disso, convocou o povo, — os mais velhos, os sábios e os guerreiros da aldeia, — para que se elegesse o novo soba de todo aquele povo.

— Parece, — discursou-lhes ele, — que os vossos inúmeros deuses estão

descontentes convosco, pois que, em breve prazo, vos arrebataram dois reis. Ora, foi-me revelado por um sonho que eu agora é que serei o vosso chefe. Por conseguinte, ó anciãos, sábios e guerreiros de Ochori, curvai-vos perante mim, como é costume, e eu farei de vós um grande povo! A característica dos Ochoris era que a ninguém diziam "não", embora ali, na sua assembléia-, houvesse pelo menos três homens que, de acordo com a tradição e os costumes da tribo, pudessem reclamar a coroa real. Logo que Sanders ouviu falar da aclamação do novo rei, ficou preocupado. —Etabo? — repetiu ele o nome pelo qual se fazia conhecer Bosambo. — Não me lembro de homem algum assim chamado. Se ele, contudo, puder dar espinha dorsal àquele povo, pouco importa quem seja!

Espinha dorsal ou astúcia, ou tudo isso junto, o certo é que Bosambo estava bem instalado ali.

— Ele põe em vigor ali muitas práticas estranhas, — relatou a Sanders

um dos seus espiões indígenas. — Reúne todos os dias os homens válidos da aldeia e fá-los caminhar sobre um pelebi (tabuleiro) em cima do qual se acham muitos ovos. Cada homem, por ordem sua, ao passar correndo sobre o pelebi, deve apanhar tão rapidamente um dos ovos, que olho algum humano

o veja apanhá-lo. E, se o homem errar, ou quebrar o ovo, ou for vagaroso, o novo rei envergonha-o açoitando-o.

— É um divertimento! — ponderou Sanders, mas, em toda a sua vida,

nunca soubera de jogo semelhante, por aquelas bandas. Chegavam-lhe constantemente notícias das loucuras do novo cacique dos Ochoris. Algumas vezes, obrigava os infelizes indígenas a exercícios noturnos, ensinando-lhes coisas, que nunca haviam eles feito antes. Assim foi que os instruiu na maneira de agarrarem uma cabra, de tal jeito que o animal não pudesse gritar. Mostrou-lhes também como é que poderiam arrastar-se em terra, deitados sobre o ventre, de modo que não fizessem o menor ruído, nem deixassem o menor vestígio. Tudo isso os Ochoris aprenderam a fazer, embora se queixassem dos esforços desenvolvidos, ou se lamentassem dos castigos recebidos.

— Raios me partam, se eu for capaz de entender isto! — exclamou

Sanders, franzindo o sobrecenho, quando se inteirou da informação derradeira. — Se isto se passasse com qualquer outro povo, eu diria que se

tratava de preparação para guerra. Mas, com os Ochoris, não é possível semelhante hipótese! Não obstante o seu desdém pela incapacidade bélica dos Ochoris,

conservou Sanders de prontidão o seu contingente de Houssas. Não lhe chegou, entretanto, notícia de guerra alguma. O que ele recebeu foi uma queixa do povo de Akasava de que na selva, próxima de sua aldeia principal, "havia muitos leopardos".

— Os leopardos que esperem um pouco, — pensou Sanders, — pois os

Akasavas são caçadores bastante hábeis e corajosos, para liquidá-los a todos, independentemente de auxílio de fora. Mas a notícia seguinte foi alarmante: em duas semanas, os tais leopardos tinham arrebatado de Akasava 60 cabras, 20 sacos de sal e muito marfim.

— Que os leopardos comem cabras, é coisa sabida, — refletiu Sanders;

— podiam mesmo ser uns leopardos de estômago tão delicado, que não pudessem digerir cabras sem um pouco de sal. Mas leopardo algum carrega dentes de marfim, nem mesmo para palitar os próprios dentes que

mastigaram a carne caprina ensalmourada Sanders, por isso, preparou-se para viajar rio acima, visto como as

menores coisas se tornavam consideráveis naquelas primitivas regiões do mundo, onde o povo tira moscas da comida, mas engole caravanas inteiras.

— Senhor, — disse a Sanders o soba de Akasava, com certa emoção, —

as nossas cabras têm-nos sido furtadas noite a noite, embora nós as vigiemos atentamente. Agora, quanto ao sal e ao marfim, esses nós não vigiávamos.

— Mas leopardo algum carrega sal e marfim! — ponderou-lhe Sanders, irritadamente. — Isto é negócio de ladrões!

O cacique indígena fez um gesto vago, após o qual obtemperou ao

comandante inglês:

— Mas quem é que se atreveria a vir roubar-nos tais coisas? O povo de

N'Gombi habita muito longe daqui, assim como o de Isisi. Quanto aos Ochoris, nossos vizinhos, esses são tolos e, além do mais, muito medrosos. Sanders lembrou-se então do tal brinquedo dos ovos e das manobras noturnas dos Ochoris, sob o novo rei. E tomou uma resolução repentina.

Vou visitar o novo soba dos Ochoris, — disse ele ao chefe Akasava.

E,

naquele mesmo dia, atravessou o rio.

Tendo mandado adiante um mensageiro anunciar-lhe a chegada, esperou que o povo de Ochori viesse dar as boas-vindas a duas milhas da aldeia. E, de fato, ali foram ter os cortesãos e sábios do país, levando-lhe presentes de peixe e frutas.

— E o vosso chefe, por que foi que não veio, convosco? — perguntou- lhes Sanders.

— Porque está doente, senhor! — responderam-lhe gravemente.— Hoje,

foi ele acometido por um mal repentino, e caiu no chão, gemendo. Carregamo-lo para a sua cabana. Sanders sacudiu a cabeça, desconfiado, e disse-lhes asperamente:

— Vamos vê-lo!

Conduziram-no até à porta da cabana do rei, e Sanders foi entrando. Reinava ali completa escuridão, e, precisamente no canto mais escuro, jazia

um homem prostrado. Sanders curvou-se sobre ele, apalpou-lhe o pulso levemente e procurou ver, cautelosamente, se o enfermo tinha algum tumor

no pescoço, atrás das orelhas, o que seria sinal da doença do sono. Não achou, porém, esse indício. Entretanto, no ombro descoberto, enquanto seus dedos passavam sobre o corpo do homem, sentiu uma cicatriz de regularidade singular, e, procurando outra de igual conformação, também a achou, dando-lhe ambas um elemento seguro para proceder, pois que lhe era familiar o ferrete dos degredados do governo monroviano.

pensou Sanders, e, vibrando no

homem, que gemia, um vigoroso pontapé, ordenou-lhe: — Saia para a luz,

Bosambo de Monróvia! E Bosambo levantou-se, obedientemente, seguindo o comandante inglês

— Não pode deixar de ser ele

para a porta da cabana. Por alguns minutos, permaneceram ali, olhando um para o outro. Por fim, falando no dialeto da Costa-Pimenta, Sanders regougou para o mestiço:

— A vontade que eu tenho, Bosambo, é de mandar enforcar a você!

— E eu nada mais tenho a fazer, senão curvar-me à vontade de Vossa

Excelência! — respondeu-lhe o evadido. Sanders, batendo ligeiramente na bota com a ponta da bengala, ficou

pensativo, a olhar para baixo. Depois de um momento de concentração, assim perguntou ao mestiço, encarando-o severamente:

— Por que foi que você fez dos Ochoris uns ladrões, em vez de fazê-los homens?

— Creia Vossa Excelência, — replicou-lhe Bosambo, — que eles agora

podem combater, pois estão bufando de orgulho, por terem roubado aos Akasavas!

Sanders mordeu a extremidade superior de sua bengala, como quem está imerso em dúvidas.

— Mas é preciso que você fique sabendo que eu não admito roubo, nem

homicídios! — bradou-lhe, pouco depois, energicamente. — Nem quero ter mais notícias de chefes, ou filhos de chefes, mortos aqui repentinamente

— acrescentou significativamente.

— Senhor! Far-se-á tudo, como Vossa Excelência deseja e ordena!

Quanto às cabras, que vocês roubaram, podem guardá-las, bem como o marfim e o sal. Porque, se vocês devolverem tais coisas aos Akasavas, lhes

redobrarão o furor, e daí surgiria inevitavelmente uma guerra. Bosambo meneava a cabeça, lentamente e aprovativamente. E o comandante inglês continuou:

— Pode você, então, ficar aqui, no governo deste povo, pois vejo que é

um homem sagaz, e os Ochoris precisam de um caudilho como você. Mas, se

— Senhor! Juro, pela salvação de minha alma, que cumprirei rigorosamente todas as ordens e obedecerei cegamente aos desejos de Vossa Excelência! — exclamou alegremente Bosambo. — Creia Vossa Excelência que sempre tive vontade de ser chefe num território destas regiões, sob o comando do governo britânico! Sanders achava-se já a meio caminho, de regresso ao seu quartel-general,

quando deu por falta do binóculo, que trazia sempre consigo, e não podia recordar-se de ponto algum, onde acaso o tivesse deixado por esquecimento. Naquele mesmo instante, achava-se Bosambo a exibir ao seu povo, maravilhado, o precioso objeto do comandante inglês. E dizia aos Ochoris:

— De hoje em diante, não faremos mais roubos de cabras, nem roubos

de quaisquer coisas que sejam. Foi o que eu prometi, em meu nome e em

nome de vocês, ao grande Sândi. E, como símbolo de nossa amizade, vejam vocês, deu-me ele esta coisa mágica, que devora o espaço!

— Senhor, — perguntou-lhe, com reverente temor, um dos seus mais velhos conselheiros, — conhecíeis já o Grande-Branco?

— Tenho razões sobejas para conhecê-lo, — retrucou-lhe Bosambo,

modestamente, — porque sou filho dele! Afortunadamente para o audacioso mestiço, Sanders nada soube de semelhante declaração.

4 - O "doente-do-sono"

HAVIA CERTAS OCASIÕES, — principalmente quando o comandante inglês esbarrava com quaisquer embaraços que lhe provinham do mundo exterior, — em que Sanders, meditando nas regiões sitas além das mais longínquas florestas, além daquele agitado mar azul, pensava nos homens e nas mulheres que viviam em casas confortáveis e cuidadosamente interdiziam confabulações sobre mortes violentas e outros acontecimentos de tão horrível jaez, quais os que lhe caracterizavam, ali na África, a sua atividade de cada dia. Tinha ele que tratar com gente, que, pela maior parte, era ilógica e acreditava em fetiches. Ora, para lidar com gente assim, para governar raças assim influenciadas, são puramente inúteis quaisquer conhecimentos de direito constitucional ou de economia política. Há um tipo de homem, que pode governar sabiamente províncias indígenas, ali ou alhures, e esse tipo é òtimamente representado por Sanders. Há, entretanto, outros tipos bem diferentes, como aquele a que me vou referir particularmente agora. Certa feita, chegou ali, enviado da Inglaterra, um jovem de fama. Foi mandado pelo Departamento Militar das Colônias, para superintender, como subcomandante, um distrito subordinado a Sanders. Era bacharel em direito; estudara ciências; e adquirira também, de forma bastante metódica, alguns conhecimentos práticos de suaheli, bacteriologia e medicina. Distinguia-se pela sua seriedade, e, na primeira noite em que chegou ali, impediu que Sanders (o qual não podia deixar de bocejar furtivamente) fosse para a cama, pois não se cansava de parolar, tentando expor, nos seus mais desenvolvidos fundamentos, um sistema admirável, pelo qual o aborígene poderia ser facilmente convertido, — não convertido religiosamente, isso não! — da vadiagem estéril, em que vivia, para uma condição superior de boa cidadania. Sanders, que se limitara a usar para com ele as expressões habituais de polidez convencional, nada lhe disse que importasse em aprovação ou desaprovação do pasmoso plano. E, dando-lhe a bênção oficial, despachou logo o sábio moço e sua formidável bagagem para um posto setentrional do território sujeito ali ao protetorado britânico. Torrington, — este era o nome do erudito rapaz, — estabeleceu-se em Entoli e imediatamente começou a insinuar na rude mente dos pagãos os princípios elementares de mecânica aplicada. Por outras palavras: tentou ensinar-lhes, por intermédio da língua suaheli, — que eles compreendiam

imperfeitamente, — e de uma pequena caldeira de estanho, o que vinha a ser

o vapor da água. A função da caldeira, isso eles não ignoravam: mas não

puderam saber que espécie de alimento estava o europeu cozinhando nela; e, quando o branco lhes explicou, pela quadragésima vez, que estava apenas cozinhando água, olharam de relance uns para os outros, significativamente, e concordaram todos em que ele não estava muito certo da bola. Não lhe disseram isto ali nas bochechas, porque os canibais têm maneiras corteses, embora o seu código de bom-tom deixe bastante a desejar. Mister Torrington realizou perante eles diversas experiências de química,

demonstrando-lhes, por exemplo, como era que o ácido sulfúrico, aplicado ao açúcar, produzia Su 2 , Su 4 , ou expressões semelhantes. O resultado de tudo isso foi que ganhou fama de mágico, e, em mais de uma cabana, considerado

e adorado como um Grande e Hábil Demônio, — o que, até certo ponto, não

deixava ele de ser. Mas, na primeira ocasião em que teve de decidir certo fato contra o espírito e o costume do povo, — a sua ciência, o seu direito e as suas teorias, por mais claras que fossem estas, caíram ruidosamente por terra. E aí foi que lhe apareceu Sanders, aquele Sanders, que havia esquecido toda a química, aprendida na mocidade, e que, como estudante de direito constitucional, tinha sido um desastre completo.

Eis como se passaram as coisas, que exigiram a intervenção de Sanders. Certo feiticeiro de Isisi havia profetizado que ali, em tal dia e tal hora, o rio subiria e afogaria o povo. Quando mister Torrington soube de tal previsão, achou graça nela e, a princípio, não fez caso algum da mesma. Ocorreu-lhe, porém, pouco depois, que ali estava uma esplêndida oportunidade para ele revelar aos bárbaros um pouco da maravilhosa ciência de que era tão plenamente dotado. Dirigindo-se, então, à aldeia de Isisi, exibiu aos olhos dos sábios da mesma um plano de seção, que havia caprichosamente traçado em papel apropriado, e no qual se encontravam:

a) o leito do rio;

b) a altura das margens;

c) a máxima elevação do rio;

d) a altitude da aldeia circunvizinha.

E demonstrou-lhes, tão claramente quanto lhe era possível, o palpável absurdo da profecia. Pois, apesar de tudo isso, aquele ignaro povo não quis convencer-se da verdade e começou abandonar a aldeia, quando Sanders apareceu em cena. Mal chegado ali, mandou logo chamar o profeta, que era um rapaz de tendências nevróticas. Fez construir, de madeira, uma jaula-prisão, no ponto mais baixo da margem do rio e trancafiando nela ao jovem vidente declarou-

lhe Sanders:

— Você ficará aqui, até o rio subir; e, quando o rio subir, você deverá

profetizar que ele baixará, senão, com certeza, você morrerá afogado!

À vista disso, o povo, reanimado, voltou novamente para os seus lares,

esperando que o rio afogasse primeiro ao profeta para comprovar-lhe a previsão. Mas o rio, ao invés de subir, minguava cada vez mais, como acontecia sempre naquela quadra do ano, e o pobre rapaz da jaula-prisão, à semelhança de muitos outros profetas, deixou de o ser na sua própria terra. Sanders regressou tranqüilo ao seu quartel-general, e, embora algum tanto desanimado, mister Torrington recomeçou as suas experiências

científicas. Primeiro de tudo, escolheu a "doença-do-sono", gastando três meses de trabalhos vãos sobre ela, a ninguém impressionando, senão a certo cavalheiro, de quem tratarei mais detidamente em páginas adiante. Pouco depois, abandonou repentinamente tais pesquisas e entregou-se a outras. Tinha ele idéias muito acertadas a respeito da vacina. Mas o primeiro bebê, a quem ele vacinou, morreu de crupe, e Torrington veio voando pelo

rio abaixo, a fim de contar a Sanders uma história muito longa da correria de toda uma população enfurecida que exigia o sangue do subcomandante

vacinador

— "O território, confiado ao meu comando, goza presentemente de pleno

sossego, — escrevia Sanders, com certa ironia, ao governador-geral da África Britânica. — Há numerosas questões pendentes de julgamento; nenhuma, porém, de qualquer importância particular. O povo de Isisi está extraordinariamente tranqüilo. E Bosambo, o monroviano, — sobre quem já tenho escrito por vezes a Vossa Excelência, — constitui um chefe modelar para os Ochoris. Há três meses que estes não praticam roubo algum. Ficarei

muito agradecido a Vossa Excelência, se me puder fornecer uma informação completa quanto a uma expedição que atualmente está sendo feita neste território, sob a denominação de Sindicato de Exploração de Isisi, e a qual acaba de atravessar esta zona." Era bem singular que Torrington se houvesse esquecido de que um dos membros da referida expedição fora, ali em Entoli, um dos mais interessados nos seus estudos sobre os indivíduos atacados pela "doença-do-sono".

O Sindicato de Exploração de Isisi, Limitado, tinha nascido, entre a sopa

e a sobremesa, em casa de um cavalheiro cujo nome cristão era Isidoro e que vivia no Vale de Maida. Jantando, certa noite, com um amigo muito querido, — o qual se chamava Mac-Pherson todos os dias do ano, exceto em Yum- Kippur, quando francamente admitia que fora batizado por Isaac, — surgiu entre ambos uma questão sobre bons títulos de companhias, e Mac-Pherson contou então a Isidoro que, havia muitos anos, trazia em mente a Exploração de Isisi. Com o auxílio de um mapa, descobriram ambos todo o território de

Foi em conseqüência disso que Torrington voltou para a Europa.

Isisi. Era um mapa daqueles que traziam gravadas as principais produções das terras. E sobre a superfície de Isisi havia as seguintes indicações, bem claras: "Borracha", "Cola", "Cana-de-açúcar" e "Tabaco". Recomendo aos leitores que não se esqueçam deste "Tabaco".

— Há por aquelas bandas um soba com quem tenho mantido alguma

correspondência, — disse a Isidoro mister Mac-Pherson, mastigando o charuto, meditativamente, — poderíamos obter dele uma espécie de concessão. Mas isso terá de ser feito em absoluto segredo, porque Isisi pertence ao Protetorado Britânico. Se pudéssemos descobrir um homem, capaz de conseguir a coisa conforme desejamos, isto é, escondidamente, e enviá-lo à África a fim de firmar o documento de concessão, possuiríamos o começo de uma companhia, destinada a dar enormes e seguros lucros. Uma investigação judiciosa não tardou a descobrir o homem que se procurava em Claude Hyall Cuthbert, plutocrata ainda bastante jovem, o qual, jactanciando-se constantemente de ter atirado em um leão, que quase matou em Uganda, era tido em conta de autoridade em assuntos da África por um grande número de pessoas. Cuthbert, que chafurdava em muito metal sonante e em muitos títulos de bolsa, era excelente aquisição para qualquer sindicato. Muito lisonjeado com a confiança, de que fora alvo, para ir pessoalmente à África obter a

concessão secretamente, ele financiou, alegremente, o novo sindicato até a soma de 7.000. libras esterlinas, 4.000 das quais lhe foram restituídas pelos srs. Isidoro e Mac-Pherson para cobrir as despesas da expedição. As outras 3.000 ficaram especialmente consignadas para despesas oficiais.

— Seja o que for que venha a acontecer-nos, meu rapaz,.— disse Mac-

Pherson a Cuthbert, — estamos, por enquanto, navegando em mar de rosas!

E isso era perfeitamente verdadeiro. E pouco antes de Cuthbert fazer-se à vela, ainda Mac-Pherson lhe deu o seguinte pequeno conselho:

— Em tudo quanto você fizer, guarde sempre absoluto segredo e

sobretudo evite aquele danado de comandante Sanders! É um sujeito ladino, intrometido — Conheço bem semelhante raça, — obtemperou-lhe Cuthbert, sabiamente. — Demais, não é esta a primeira expedição que faço à África. Eu não lhe contei já, que quase matei um leão em Uganda? Uma semana mais tarde estava ele sulcando as águas do Atlântico, em demanda do Continente Negro.

Pouco tempo depois, começou a atravessar o território subordinado ao comando de Sanders um estranho homem branco. Tal homem branco, que era Cuthbert, estava trilhando o caminho verde para a morte, mas não sabia

do perigo a que se expunha. Virou o rosto para a selva como dizem os indígenas, e riu. E o povo da aldeia de O'Tembi, em frente das suas cabanas de colmo, observava-o em silenciosa admiração. Era aquele um caminho largo entre árvores enormes, e o musgo verde, que tapizava o chão, era apenas salpicado pela luz solar. Aquele caminho verde sem dúvida era belo de ver-se, pouco divergindo de uma, avenida de parque das cidades adiantadas. N'Beki, soba da aldeia dos O'Tembis, era um velho muito bom. Quando o homem branco ia reencetar dali a sua viagem, N'Beki foi ter com ele, à beira do caminho, e assim lhe falou solenemente:

— Homem branco, este é o caminho do inferno, onde vive toda espécie

de demônios. Se fores por ele adiante, a noite te trará remorsos e a aurora te

trará a aversão por ti mesmo, o que é pior do que a morte. Cuthbert, cujo suaheli era deficiente e cujo conhecimento da língua

bomonga era nulo, riu impacientemente, enquanto o seu guia lhe interpretava de forma pitoresca as palavras do velho chefe:

— O negro danado diz este ser mau lugar não bom. Diz mais que vós

viveis para morrer.

— Diga-lhe que vá para o inferno! — proferiu Cuthbert, ruidosamente.

— Mas, olhe aqui, Flagstaff! Pergunte-lhe onde é que há borracha por aqui,

compreende? Conte-lhe que nós estamos bem informados de que há muita riqueza na selva. Indague dele também onde é que se encontram elefantes por estas bandas.

Cuthbert era largo de ombros e robustamente constituído; sob o amplo capacete de cortiça seu rosto estava muito corado e cheio de camarinhas de suor.

— Diga ao homem branco, — respondeu tranqüilamente ao intérprete o

velho cacique, — que, dentro de sete dias de marcha, ele não encontrará borracha e que aqui não existe marfim algum. Havia aqui elefantes, cala-

cala; agora, não.

— Ele não passa de um mentiroso! — foi o comentário único de

Cuthbert. — Faça esses mendigos levantar-se para ir-nos embora, Flagstaff!

Hi! alapa! avanti! trek! Os tais "mendigos", em fila, retomaram as cargas sem queixa alguma. Eram bons carregadores, encarados apenas como carregadores, e só dois

deles tinham morrido, desde que a marcha começara. Cuthbert continuou parado à beira do caminho, para vê-los passar, e ainda aplicou desapiedadamente a sua chibata nas costas dos retardatários. Só então se dispôs a acompanhá-los. Mas, antes de partir, ainda ordenou ao intérprete:

— Pergunte ao velho por que é que ele chama a este caminho de

"caminho do inferno"!

O velho sacudiu a cabeça, respondendo com a maior simplicidade

possível:

— Por causa dos demônios!

— Diga-lhe que ele é um asno chapado! — rugiu Cuthbert, e apressou-se

para alcançar o seu bando de carregadores. Aquela vereda natural, que a expedição tomou, estendia-se quase numa linha reta, através da floresta. Era um caminho singular, por causa da sua perfeita igualdade, e o único inconveniente, que apresentava, consistia em ser o foco de moscas horrivelmente incômodas, — umas moscas pretas, tão

grandes quanto a mosca doméstica de forma comum, senão um pouco maiores. Aterrorizavam aos indígenas por muitas razões, mas principalmente porque lhes davam ferroadas. Não atemorizavam tanto a Cuthbert, porque

este vestia roupas de fibras grossas; havia, entretanto, ocasiões em que as tais moscas negras lhe descobriam alguma fenda por entre as peças do traje, e encolerizavam-no a mais não poder.

O caminho verde prolongava-se por cerca de dez milhas, tornando

agradável a viagem, exceto quanto às ferroadas das moscas. Ao fim dele, o chefe da expedição penetrou em plena selva, seguindo outro trilho, bem batido, porém, mais difícil. Por atalhos esconsos, chegou mister Cuthbert ao coração dos territórios confiados ao comando de Sanders. Foi, sem dúvida, bem sucedido, evitando qualquer encontro com o famoso comandante inglês. Cuthbert tinha uma caravana de 60 homens e um guia-intérprete, e, sem incidente algum, atingiu ao seu objetivo., que era a aldeia de um grande chefe, o qual governava uma província notável; Bosambo, rei dos Ochoris, nada menos, aquele mesmo Bosambo, antigamente Krooman, despenseiro a bordo do Elder Dempster, e, agora, soba dos Ochoris por permissão de Sanders. Bosambo era,

incontestavelmente uma figura interessante, e, podeis estar certos, saiu logo ao encontro do seu visitante, a fim de apresentar-lhe as boas-vindas. — Diga-lhe, — ordenou Cuthbert ao seu intérprete, — que eu me orgulho de vir encontrar aqui o grande chefe!

— Senhor chefe, — disse o intérprete a Bosambo, no vernáculo dos Ochoris, — este homem branco é um tolo e tem muito dinheiro.

— Estou vendo, — respondeu-lhe Bosambo.

— Diga-lhe também, — ordenou Cuthbert ao intérprete, com toda a

dignidade de um embaixador, — que vim trazer-lhe lindos presentes!

— O branco diz, — traduziu o intérprete para Bosambo, — que se fordes

bom para com ele, dar-vos-á muitos presentes. E agora, — continuou o intérprete, cautelosamente, — como sou aqui o único homem que posso falar

em nome do branco e em nome de vós, façamos nós dois um acordo. Se me entregardes uma terça parte de tudo quanto o branco vos oferecer, eu persuadirei a este que continue a fazer-vos presentes, pois ele é um verdadeiro "pai-de-pançudos"

— E você, — disse-lhe Bosambo subitamente, — é o pai dos velhacos!

Fez Bosambo um sinal à sua guarda, a qual, agarrando imediatamente o infeliz intérprete, o levou para a aldeia. Cuthbert, suando de medo, engatilhou o revólver.

— Senhor! — disse-lhe Bosambo, pomposamente, — não atire! Aquele

negro danado é um canalha: fez o senhor dizer coisas ruins. Eu falo inglês

regularmente. Sente-se e conversemos. Dirigiu-se Cuthbert, em seguida, para a aldeia dos Ochoris, onde, durante três dias, houve uma larga troca de presentes, terminada pela assinatura de concessões. Bosambo concedeu ao sindicato de que era representante Cuthbert, todo o país dos Ochoris, o que era uma coisa de nonada. Concedeu direitos sobre a floresta de Isisi, vendeu os Akasavas, alienou as terras dos Lulungos, bem como "os produtos indígenas dos mesmos", conforme está escrito no documento original, ora arquivado no Departamento Militar das Colônias e trazendo a firma garatujada de Bosambo. E a tudo quanto acabo de mencionar, ajuntou ele ainda, de choro

ou como uma altiva intenção reservada, o distrito de Ikeli. — E quanto aos direitos de navegação do rio? — perguntou-lhe Cuthbert, encantado.

— Quanto é que o sr. me poderá dar por eles? — inquiriu Bosambo do europeu, cautelosamente.

— Servem-lhe quarenta libras esterlinas? — sugeriu Cuthbert.

— Aceito, — declarou prontamente Bosambo. Foi uma negociação admiravelmente simples. Um homem mais instruído

e sagaz do que Cuthbert estaria assustado por aquela facilidade, que

encontrou ali. Mas Cuthbert achava-se radiante com o seu êxito e consigo próprio, para se amedrontar com qualquer coisa. Conta-se que a sua despedida de Bosambo foi uma cena comovedora: o chefe dos Ochoris chorou desabaladamente e beijou os pés do seu benfeitor. Seja lá como for, Cuthbert retornou logo em direção à costa, com as "concessões" no bolso, e sempre evitando qualquer encontro com Sanders. Chegando a Etebi, achou ali um subcomandante, que o recebeu de braços abertos. Ali, resolveu Cuthbert ficar toda uma semana. Mister Torrington, por aquele tempo, estava terrivelmente ocupado em traçar um quadro esquemático de sintomas, para a caracterização perfeita da "doença-do-sono". Cuthbert, até aquele momento estava sob a impressão de que se tratava de uma doença agradável, cujo sintoma principal era um coma

indolor. Fascinado pelas pesquisas de Torrington, prolongou a sua estada ali por quinze dias, tendo presenciado muitos espetáculos horríveis, porque Torrington estabelecera em seu quartel uma espécie de clínica de amador, de sorte que diariamente tinha que atender a cerca de uns cem casos.

— É verdade que esta doença resulta da picada da mosca tsé-tsé? —

perguntou Cuthbert a Torrington. — Mostre-me uma tsé-tsé! Torrington atendeu-lhe o pedido, e, quando o outro viu o pequeno inseto negro, empalideceu até aos lábios.

Meu Deus! — gemeu Cuthbert. — Eu já fui picado por um bichinho

destes!

— Daí não se segue que

— começou a explicar-lhe Torrington.

Mas Cuthbert, desatinado, presa de um medo atroz, saiu, tropeçando, do

quartel do subcomandante em demanda do acampamento de seus carregadores.

— Vamos! Depressa! Peguem já as cargas! — foi ele gritando. —

Precisamos de sair o mais depressa possível desta terra maldita! Torrington correu a procurá-lo e com uma calma filosófica, tentou tranqüilizá-lo. Mas Cuthbert não estava disposto a ser apaziguado. Deixou Etebi aquela mesma noite e foi acampar na floresta. Uns três dias depois, chegava a uma Casa de Missão, onde se queixou de dores de cabeça

e dores no pescoço (não fora à toa que ele assistira à clínica de Torrington).

O missionário, julgando, pela aparência do enfermo, que à cor macilenta

juntava uma apatia generalizada, tratar-se de um ataque de malária, aconselhou-o a descansar ali por uns poucos dias. Cuthbert, porém, estava todo aflito para chegar à costa. A vinte milhas da Casa de Missão, ordenou

aos seus carregadores que seguissem sem ele para o litoral, pois pretendia cobrir sozinho as últimas cem milhas da jornada de regresso. Os indígenas atenderam-lhe prontamente àquela ordem singular, e, desde

tal momento, não lograram mais pôr-lhe a vista em cima.

Sanders seguia por um curto atalho através da floresta, para evitar as intermináveis sinuosidades do rio, quando chegou, repentinamente a uma aldeia morta, — quatro tristes cabanas, construídas apressadamente no meio

de uma emaranhada mata de corte. Chamou, mas ninguém lhe respondeu.

Tinha ele bastante prudência, para não entrar, sem mais aquela, em qualquer daquelas taperas. Conhecia bem tais pequenas malocas levantadas e abandonadas em clareiras da selva. Era costume dos indígenas levar os velhos e os moribundos, — especialmente os atacados da "doença-do-sono", — para lugares distantes, fora do alcance humano, e deixá-los lá, com alimento

suficiente para uma semana e fogo aceso, a fim de expirarem em conveniente solidão. Sanders chamou de novo, mas somente lhe respondeu o eco da floresta, daquela floresta tagarela, barulhenta, toda um estalar de movimentos de seres ocultos. Ninguém acudiu ao chamado do comandante inglês, mas em frente de uma das cabanas havia uma fogueira fumegante, que denunciava ali a impulsão de vida. Sanders recomeçou a sua jornada; antes, porém, mandou preparar uma certa quantidade de alimentos, que foram colocados em lugar visível, para o morador da choça diante da qual havia fogo. Achava-se em mais uma diligência para descobrir o paradeiro de Cuthbert. Era a quarta viagem de tal natureza que empreendia. E já tinha pedido a muita gente notícias do seu compatriota. Bosambo, soba dos Ochoris, tinha restituído, com grande tristeza, os presentes que recebera de Cuthbert e confessado a Sanders as suas faltas. — Senhor! — dissera ele, — quando eu estava entre os brancos do litoral, aprendi a arte da escrita, e a esse maldito dom é que devo todas as calamidades que acabam de sobrevir-me. Porque, desejando mostrar a meu povo quão grande homem era eu, escrevi uma carta em inglês, sobre a minha boa sorte aqui, e a enviei, por mensageiro, a um amigo residente em Serra- Leoa. Ele, decerto, comunicou a notícia para a Inglaterra e foi assim que o povo de Londres soube dos tesouros existentes nesta região. Sanders, em poucas, mas claras palavras, exprimiu o seu juízo sobre a índole de Bosambo, dizendo-lhe:

— Por que foi que você, escravo e filho de escravo, a quem, em lugar de uma prisão, entreguei o governo dos Ochoris, enganou ao homem branco, vendendo-lhe terras que não eram suas? — Senhor! — respondeu-lhe Bosambo, com a mais natural das simplicidades, — eu não tinha mais nada que pudesse vender Ali, porém, não havia indicação alguma do rumo derradeiro que tomara Cuthbert, nem na Casa de Missão, nem entre os carregadores, detidos por suspeita. Só um homem é que podia ter projetado luz sobre aquele desaparecimento e esse homem era Torrington. Mas Torrington estava então em sua pátria, desempenhando o cargo de professor-assistente de mecânica em South Kensington (ali, sim, achava-se ele no seu verdadeiro elemento) e ocupava as horas vagas no preparo de um livro sobre "A emigração dos povos da raça banto". Assim, o resultado da quarta pesquisa de Sanders não foi mais feliz do que o da terceira, ou o da segunda, ou o da primeira, e ele, então, resolveu voltar para o quartel-general, sentindo-se bastante desanimado. Veio pelo mesmo atalho que havia tomado na ida, e chegou de surpresa

ao Acampamento-da-Morte, antes de anoitecer. A fogueira ainda estava acesa, e os alimentos, que ele havia; mandado pôr ali perto, tinham sido retirados do lugar. Chamou por alguém da cabana, em idioma indígena, mas

não obteve resposta alguma. Depois de mais alguns instantes de espera, deu ordem para que pusessem ali no chão mais alimentos, destinados ao ser humano que habitava a choça.

— Pobre diabo! — exclamou Sanders e tocou-se, com os seus Houssas,

para diante. Mal havia dado meia dúzia de passos, deteve-se subitamente. A seus pés, brilhava alguma coisa, em que se refletia a luz amortecida do poente. Parou,

abaixou-se e apanhou. Era um cartucho vazio de bala de carabina. Examinou-o cuidadosamente, tendo verificado, pelo cheiro, que havia sido queimado recentemente. Olhando em redor, não tardou a achar outro nas

mesmas condições. Eram de fuzil Lee-Metford e traziam a data de "1907", o que significava terem menos de um ano. Estava ainda meditando, com os pequenos cilindros de cobre na palma da mão, quando Abiboo veio ter com ele.

— Senhor, — perguntou-lhe o Houssa, — quem é que anda amarrando

macacos, com cordas, às árvores?

— Você deu agora para fazer enigmas? — inquiriu-lhe Sanders, mal

humorado, pois que trazia o cérebro preocupado somente, naquela ocasião, com os cartuchos que havia achado. Abiboo limitou-se a acenar-lhe com a mão, chamando-o para certo ponto. A uns cinqüenta metros da cabana, havia uma árvore, amarrados ao tronco da qual, guinchando, choramingando e tagarelando, numa atitude de ignóbil terror, estavam dois macaquinhos pretos. Cuspiram e trejeitearam incessantemente, quando o comandante inglês se aproximou deles. Sanders olhou dos cartuchos para os macacos e dos macacos para os cartuchos. Depois, começou a investigar atentamente a

relva que ali atapetava o solo. Não levou muito a achar mais dois cartuchos vazios e uma lanceta enferrujada, das que só se podem encontrar no estojo de algibeira de um explorador de terras selvagens. Dirigiu-se então para a cabana, em frente à qual ardia a fogueira, e chamou amistosamente:

— Mister Cuthbert!

Nada de resposta. Sanders, então, chamou novamente, agora em tom enérgico:

— Mister Cuthbert!

Do interior da choça veio um longo gemido, ouvindo-se logo depois uma voz fraca, que dizia:

— Deixe-me só! Vim aqui para morrer!

— Venha cá para fora e seja mais cortês! — disse-lhe Sanders, serenamente. — Pode morrer depois.

Após alguns momentos de demora, surgiu à porta da cabana a ruína de um homem, de cabelo comprido e barba intensa, o qual se deteve de mau humor diante do comandante inglês.

— Posso perguntar-lhe, — arrumou-lhe Sanders, sem mais aquela, — que brincadeirazinha é esta sua?

O outro sacudiu a cabeça fatigadamente. Era um quadro lastimoso. As

roupas caíam-lhe em farrapos e ele estava sujo e denegrido. Afinal, disse em

voz cansada:

— Doença-do-sono! Senti que estava cada vez pior, sei que coisa

horrível ela é, e não quis ser um fardo para ninguém. Ah! Deus meu! Que doido que fui em vir a este país imundo!

— Creio bem que tenha feito mal em vir a estas regiões, — disse-lhe Sanders. — Mas quem foi que lhe diagnosticou a "doença-do-sono"?

— Eu mesmo a conheço, eu a conheço bem, — respondeu o homem, negligentemente.

Sente-se aí! — ordenou-lhe o comandante inglês.

O

outro obedeceu, e Sanders pôs-se logo a examiná-lo, superficialmente

embora, mas de acordo com os conhecimentos que possuía daquela enfermidade.

— Se você contraiu a "doença-do-sono", — declarou-lhe Sanders,

acabado o exame, — então eu estou sofrendo de mania religiosa! Homem, quer saber de uma coisa? Você o que está é doido! Havia, entretanto, qualquer coisa, inquietante na expressão fisionômica de Cuthbert. Estava lerdo, desanimado, estúpido. Seus movimentos eram vagarosos, como que letárgicos. Sanders viu-o tirar do bolso esfarrapado um cachimbo de madeira negra

e, com doloroso vagar, enchê-lo de certa massa escura, esfiapada aos poucos de uma bolsa de couro. Acendeu o cachimbo por meio de um graveto que meteu na fogueira e começou a resmungar lentamente:

— Pois é! Estou liquidado (puff)! Fiquei certo disto (puff), desde que

aquele meu velho camarada Torrington (puff) me descreveu os sintomas da

moléstia (puff)! Senti-me pesado, sonolento (puff). Peguei um casal de

macacos (puff) e injetei neles meu sangue (puff), e eles se tornaram também sonolentos (puff), — sinal certo da coisa

— Onde foi que você obteve esse tabaco? — perguntou-lhe Sanders, de súbito, compreendendo agora tudo. Cuthbert levou algum tempo para poder responder-lhe:

— Foi um meu antigo camarada, um camarada que hoje é soba,

Bosambo. Disse-me ele que é tabaco indígena. E não é mau. Comprei-lhe por bom preço o diabo de um lote.

— Que é uma coisa diabólica, também direi eu, — regougou Sanders, e, abaixando-se, apanhou a bolsa de couro e guardou-a consigo.

Depois que Sanders viu mister Cuthbert em segurança a bordo de um vapor que seguia para a Inglaterra, reuniu os seus vinte Houssas e seguiu com eles para a cubata dos Ochoris, a fim de prender Bosambo. Esperava que Bosambo fugisse, ao vê-lo aproximar-se dali; mas o imperturbável mestiço aguardava a chegada do comandante inglês e prestou-lhe as honras do costume. — É verdade que vendi o cânhamo ao branco, — confessou ele a Sanders. — Mas eu mesmo o fumei, não tenho sentido incômodo algum. Como é que podia eu saber que isso o faria dormir?

— Mas por que foi que você lhe vendeu o cânhamo? — perguntou-lhe

Sanders. Bosambo levantou intrepidamente os olhos para o rosto do comandante inglês, dizendo-lhe:

— Na última lua, Senhor, viestes perguntar-me por que foi que dei ao

homem branco o país de Isisi e os direitos de navegação sobre o Rio- Pequeno, quando nem um nem outro eram meus para dar. Agora, Senhor, vindes ter comigo, para perguntar-me por que foi que dei tabaco ao homem branco. Senhor, que é que havia eu de fazer, se, de todas as coisas que dei ao homem branco, o tabaco era realmente a única que me pertencia?

5 - O correspondente especial

O HON. GEORGE TACKLE TIVERA a felicidade de ser filho de pai alcaide; cabe-me, porém, declarar, aqui, que ele não possuía nenhuma virtude

particular. Sendo o pai, entretanto, proprietário do jornal Courier and Echo (ao qual estavam incorporadas não sei quantas estrelas extintas ou apagadas

do firmamento da Fleet Street), gozava George de uma "popularidade", com

a qual nenhuma soma real de méritos ousaria competir, e, quando

começaram a propagar-se as histórias de atrocidades, perpetradas no distrito africano de Lukati, e sobre as mesmas foram feitas no parlamento interpelações ao governo, abriu o jovem o seu Gazetteer ricamente encadernado, verificou que o distrito de Lukati estava no território britânico e imediatamente pediu ao pai a missão de ir investigar aqueles crimes, que constituíam mancha indelével em nossa excelsa civilização. O pai concordou com a idéia, pois fazia um alto conceito, completamente errado, do gênio do filho e a este sugeriu que fosse ao escritório do jornal, a fim de obter "informações sobre todos os fatos concernentes às atrocidades". George, com um sorriso amável, achando graça no simples pensamento de querer alguém instruí-lo sobre coisas em que se julgava tão cabalmente versado, prometeu fazer o que o pai lhe recomendara; mas o escritório do Courier and Echo ficou sem a honra de o ver, e o bibliotecário do jornal, que havia preparado um maço, realmente valioso, de recortes, panfletos, mapas e sugestões diversas, até relativas à saúde dos exploradores de terras africanas, — tudo destinado à orientação do rapaz, — ficou desanimado (ou, talvez, aterrado), ao saber que o ousado jovem partira sem as necessárias instruções sobre o assunto que ia investigar, levando apenas as precárias informações colhidas da apressada leitura dos "sueltos", que apareciam diariamente na imprensa matutina de Londres. Para estas questões de correspondentes especiais, apresento, com alegria mal reprimida, o caso do Hon. George Tackle, como terrível advertência a todos os proprietários de jornais, que permitem suas afeições paternas primarem sobre uma boa e acertada escolha. Tudo que o Hon. George Tackle sabia era que em Lukati tinha havido quatro casos autênticos de atos bárbaros, de crueldades infligidas aos indígenas, e que o comandante do distrito era o responsável pelos açoites e torturas, de que os mesmos tinham sido vítimas. Pensava o moço que isso era tudo quanto se lhe fazia necessário conhecer. Mas aí foi que cometeu ele o seu maior erro. Lá pelas bandas de Lukati aconteceu um mundo de coisas, como veio a

saber, à custa do seu próprio sossego, o comandante Sanders. Entretanto, já havia ele, naquele ano, visitado uma vez o referido distrito e deixara-o tranqüilo, sob a direção do seu imediato Carter, para quem os indígenas construíram uma belíssima cabana, rodeada de jardins, tudo isso por espontaneidade dos mesmos. Mas, certo dia, — exatamente quando Carter acabara de escrever um relatório entusiástico da índole pacífica daquele povo e da boa vontade com que acolheram e obedeciam ao novo regime, — o chefe da aldeia, a quem Carter chistosamente chamava de O'Leary (o seu nome de batismo era realmente Olari), veio procurá-lo. Carter, na ocasião, estava passeando pela bem varrida rua da aldeia, com as mãos nos bolsos do casaco e o grande capacete branco, de cortiça, a

cobrir-lhe a parte posterior da cabeça, porquanto o sol lhe batia no toutiço.

— Pai, — disse-lhe o chefe Olari, — eu trouxe aqui estas pessoas para ver-vos.

E apontou com a mão para seis guerreiros estranhos, armados de escudo e lança, os quais olhavam serenamente para o branco. Carter sacudiu afirmativamente a cabeça.

— Desejam eles, — continuou Olari, — ver o pequeno e prodigioso

fetiche negro, que trazeis no bolso, para que possam contar os poderes do

mesmo ao povo a que pertencem.

— Diga-lhes, — ponderou-lhe Carter, bem humorado, — que eu não

trouxe hoje o fetiche aqui comigo; se eles forem à rainha cabana, lá eu lhes

mostrarei os poderes do mesmo. Olari, sem mais nada, ergueu a lança e feriu com ela a Carter, contra quem se arremessaram, ao mesmo tempo, os seis guerreiros de fora. Carter, apesar de desarmado, bateu-se bravamente com todos eles. Quando Sanders recebeu a notícia da morte do seu subordinado, não desmaiou, nem teve nenhum frenesi de maldições insanas. Estava sentado na

larga varanda do seu quartel-general, quando ali chegou o mensageiro, todo coberto de pó. Levantou-se com os lábios contraídos e o sobrecenho carregado, virando ê revirando entre os dedos a carta, — a qual lhe fora dirigida por Tollemache, inspetor de polícia em Bokari, — e mediu a passos largos toda a extensão da varanda.

— Pobre rapaz! pobre rapaz! — foi tudo quanto achou para exclamar.

Não mandou dizer nada a Olari, nem fez preparo algum para uma jornada de castigo. Continuou a assinar documentos, a inspecionar os seus Houssas e a comparecer a jantares, como se Carter nunca houvesse vivido ou morrido. Todas essas coisas foram relatadas a Olari pelos espiões deste, que ficou agradecido e tranqüilo. Achando-se Lukati a duzentas milhas do quartel-general, não era

empresa fácil uma expedição para lá, através de terras selvagens e montanhosas; e o governo britânico, apesar de sua riqueza, não pode despender cem mil libras esterlinas só para vingar a morte de um oficial subalterno. De tudo isso era Sanders bem sabedor; e, por conseguinte, empregou o tempo em colher e autenticar os nomes dos assassinos de Carter. Quando estava completo o rol, dirigiu-se, numa viagem de setenta milhas pelo interior da mata, ao grande médico-feiticeiro Kelebi, cujo nome era bem conhecido por todo o litoral daquela região da África, desde Daka até às fronteiras orientais da Togolândia. — Eis aqui os nomes de homens que me afrontaram, — disse ele a Kelebi, — e o principal deles foi Olari, soba do povo de Lukati. — Porei em Olari um feitiço muito mau, — declarou-lhe o mandingueiro, — e um feitiço menor nos outros homens. O preço de tudo será de seis libras inglesas. Deu-lhe Sanders a quantia pedida, à qual juntou duas garrafas de bojo quadrado e um pedaço de pano novo. E voltou para o quartel-general. Logo depois, certa noite, houve grande reboliço na maloca de Lukati. Com frêmitos de medo e olhando cautelosos para todos os lados, os homens sussurravam a notícia:

— Olari, o chefe, está enfeitiçado! Olari, por suas mulheres, soube da nova que se estava então divulgando ali, e saiu da cabana para a rua, banhada de luar, não tardando a delirar horrivelmente. No dia seguinte, caiu de cama, sofrendo dores terríveis, que lhe prenunciavam a morte próxima. Ao mesmo tempo, tombaram também enfermos, atacados por cruéis padecimentos, os seis homens que haviam tomado parte no assassinato de Carter. Se todos eles não morreram, — declarou o médico-feiticeiro não ser culpa da sua mandinga e sim da grande distância que mediava entre ele e os seus castigados. Quanto a Sanders, ficou contente com o que soubera, dizendo que as dores sofridas pelos sete homens lhe haviam custado barato e que ele esperava ainda ter a satisfação de escrever a palavra "fim" com relação a Olari pelas suas próprias mãos. Uma semana depois desses acontecimentos, caiu doente Abiboo, o criado favorito de Sanders. Não tinha febre, nem apresentava sintoma algum de qualquer doença grave; apenas, por assim dizer, começou a definhar. Procedendo a investigações, veio Sanders a saber que Abiboo tinha ofendido ao médico-feiticeiro Kelebi, pelo quê, este enviara ao seu ofensor a mensagem da morte. Sanders, acompanhado de cinqüenta Houssas, penetrou de novo na mata e foi ter com o mandingueiro, a quem disse:

— Tenho razão para crer que a mandinga feita por você é um malogro completo, pelo menos quando se trata de matar gente.

— Senhor, — replicou-lhe Kelebi, desculpando-se, — a minha magia

não pode atravessar montanhas. Se não, Olari e os seus seis amigos já teriam morrido.

— Não estou discutindo isso, — retrucou-lhe Sanders. — Estou agora a

referir-me a um feitiço aqui de perto, cabendo-me avisar a você de que, no

dia seguinte ao em que Abiboo morrer, virei outra vez aqui e enforcarei a você.

— Pai, — bradou-lhe Kelebi, enfaticamente, — juro-vos que, uma vez

que assim o desejais, Abiboo viverá! Sanders deu-lhe uma moeda de ouro e virou as rédeas do cavalo para o quartel-general, onde já encontrou o seu Houssa em vias de completo restabelecimento. Se vos narro esse fragmento de história de Sanders, é porque estou certo de que ele vos habilitará a compreender o ambiente singular em que o sobredito comandante inglês consumiu a maior parte de sua vida e também porque apreciareis muito melhor a ironia da situação que ali criou a chegada do Hon. George Tackle. Sanders tinha mandado que lhe servissem o almoço na varanda da casa. Do ponto em que se achava sentado, dominava, por sobre as lindas flores do seu jardim, um largo trecho de mar oleoso, como que a enrolar uma chama dourada de luz por sob o sol abrasador. Avistou um barco a vapor a três milhas de distância (somente a cinco braças de água), e Sanders, tomando o óculo-de-alcance, reconheceu-o como o Elder Dempster, que trazia a mala mensal. Desde que não havia cartas em cima de sua mesa e o barco tinha estado ali por duas horas, inferiu que o mesmo não lhe trouxera correspondência alguma e ficou aliviado, pois já havia transposto aquele período sentimental da vida em que as cartas são sempre possibilidades agradáveis. Não recebera cartas, nem esperava visitas, de modo que lhe causou verdadeiro espanto quando deu com os olhos no Hon. George Tackle, transportado numa rede, por dentro, ali, do seu jardim.

O recém-chegado desceu da rede cuidadosamente, ajustou bem sobre o

coco o capacete branco, de cortiça, alisou os frisos das suas imaculadas calças de linho alvo e subiu com aprumo os degraus que conduziam ao pórtico da varanda.

— Como vai passando? — perguntou a Sanders, e, sem esperar resposta, continuou: — Meu nome é Tackle, George Tackle.

E sorriu, como se dizer mais fosse um insulto à inteligência do seu

ouvinte.

curvou-se um pouco,

cerimoniosamente. Percebeu que era isto que o seu visitante queria.

— Vim aqui no desempenho de certa missão, — prosseguiu o Hon.

George Tackle. — Como sem dúvida deve saber, meu pai é o proprietário do Courier and Echo. Pensou ele que o melhor era eu partir para aqui e ver as coisas com os meus próprios olhos. Não vacilo em admitir que as notícias publicadas o têm sido com algum exagero.

— Ainda bem! — disse-lhe Sanders, a quem aquelas últimas palavras

esclareceram, como uma luz subitânea. — Então, pelo que vejo, é uma espécie de correspondente de jornal?

Sanders,

sem

lhe

dizer

palavra

alguma,

— Exatamente.

— E veio aqui a fim de inquirir sobre

— O tratamento dos indígenas e matérias correlatas, — disse o Hon. George Tackle, tranqüilamente.

— E sobre o que está errado na maneira por que são tratados os indígenas? — perguntou-lhe Sanders, delicadamente.

seguida,

declarou-lhe:

O

jornalista

respondeu-lhe

por

um

gesto

vago,

mas,

em

— O senhor bem sabe

São coisas de jornais missionários

Tais palavras foram por ele proferidas rapidamente, pois que se sentia

embaraçado pela compreensão de que o homem responsável, fosse por que

modo fosse, pelas atrocidades noticiadas, estava ali em pé, diante dele.

— Não leio nunca os jornais, — ponderou-lhe Sanders, — e

— Mas, interrompeu-o o Hon. George Tackle, ansiosamente, — não

tenho dúvida em admitir que hajam sido injustas as acusações feitas ao

senhor.

— Oh! muito agradecido! — E, com excessivo reconhecimento, Sanders

ofereceu-lhe a mão, acrescentando em seguida:

— Bem! Desejo que seja feliz em sua missão. Permita-me, entretanto,

perguntar-lhe: Onde é que vai aboletar-se aqui?

O Hon. George Tackle estava visivelmente acanhado para responder-lhe. Afinal, disse:

— Desculpe, senhor! Onde que hei de alojar-me?

Vejo-me em talas infernais! Onde é

como

— Aqui em casa?

— Sim! A minha bagagem está lá na praia. Pensava eu que

— Então pensava que eu lhe daria hospitalidade?

— Sim! Pensei

— Pensou também que eu lhe cairia nos braços e lhe daria as boas- vindas?

— Não exatamente isso. Mas

— Ora, acabemos com isto! — disse-lhe Sanders, dobrando

cuidadosamente o guardanapo. — Não tenho motivo algum para estar

contente de vê-lo aqui e de ouvi-lo.

— Creio-o bem! — bradou-lhe o Hon. George Tackle, impertigando-se

todo.

— Porque o senhor é uma responsabilidade, e eu detesto

responsabilidades estranhas ao meu serviço. Pode levantar a sua tenda em

qualquer lugar que lhe agrade por aqui. Mas eu não lhe posso oferecer a hospitalidade que deseja. — Contarei tudo isto ao governador, — obtemperou-lhe, ameaçadoramente, o Hon. George Tackle.

— Pode contar tudo isto até à tia solteira de sua avó! — disse-lhe

Sanders, polidamente. Meia hora depois, via ele o Hon. George Tackle dirigindo-se de novo para o navio que o trouxera a Isisi-Bassam, e riu-se. O jornalista iria logo ao palácio do governador, e teria uma recepção, ao lado da qual uma tempestade do Saara não passaria de um zéfiro da Arábia. Sanders, entretanto, não deixou de ficar algum tanto perturbado, — embora não propriamente estomagado, — com o que acabava de chegar-lhe ao conhecimento. Nunca, em seu distrito, houvera questão alguma de

atrocidades contra os indígenas. Assim, não sabia como julgar os rumores que induziram aquele "correspondente especial" à sua viagem de investigação. Seria, acaso, uma narração falsificada do castigo imposto a Olari? —Venha cá! — chamou ele a um dos Houssas, que rodavam ali por perto. — É preciso que você vá depressa levar um papel ao indivíduo que acaba de sair daqui.

E, enquanto dava essa Ordem, concluiu o seguinte bilhete:

— "Receio ter sido um pouco rude com o senhor, pois não entendi bem

que diabo pretendia fazer aqui. Mas uma curiosidade opressiva aconselha- me a que o convide para hóspede de meu bangalô, até que o tempo lhe permita dirigir-se para qualquer ponto em que tenha de realizar as suas investigações".

O Hon. George Tackle leu tal convite com um afetado sorriso de íntima

satisfação.

— O melhor modo de lidar a gente com estes sujeitos, — disse ele ao

capitão do Elder Dempster, — é tratá-los por cima dos ombros. Eu estava certo de que ele havia de chegar ao rego.

O comandante do Elder Dempster, que conhecia, por tradição, o feitio

moral de Sanders, sorriu discretamente, sem nada ponderar ao jornalista. Uma vez mais, a montanha de malas do correspondente especial do Courier

and Echo foi metida no bote costeiro e o Hon. George Tackle acenou uma despedida aos amigos que ficaram no vapor.

O capitão do Elder Dempster, inclinando-se sobre o costado da ponte e

depois de observar o bote a subir e descer marulhada em fora, ponderou ao seu imediato:

— Ali vai um homem que está procurando sarna para se cocar! Eu nem

por quinhentas libras do melhor ouro aceitaria a metade do trabalho que ele

vai ter.

— Devemos continuar ainda ancorados, mister Simmons? — perguntou o imediato.

Não! Dirija-se, à meia-proa, para o poente exato!

O

Hon. George Tackle, ao pôr os pés em terra, teve como um sorriso de

triunfo. Não só havia ali na praia dez policiais uniformizados, à sua espera, para lhe transportarem a bagagem, como o próprio Sanders descera ao portão do jardim, a fim de recebê-lo.

— O motivo disto é

Mas o magnânimo jovem, estendendo-lhe a destra, interrompeu-o:

— começou Sanders, acanhadamente.

— Lance um véu sobre o passado, sr. Comandante! Águas passadas não

moem moinhos Sanders sentiu-se inexplicavelmente incomodado diante de tal manifestação de generosidade. E ainda mais preocupado ficou, quando o

correspondente especial se recusou a reabrir a questão das atrocidades.

— Como seu hóspede, — disse-lhe solenemente o Hon. George Tackle,

— compreendo que, em tudo quanto lhe diz respeito, não poderei fazer uma sindicância imparcial. Creia que me esforçarei, tanto quanto me for possível, por me colocar em seu lugar, tomando em linha de conta todas as circunstâncias atenuantes

— Oh! o senhor de certo bebeu gin swizzle demais! — bradou-lhe

Sanders, rude e impacientemente. — O senhor, com o que me está dizendo,

longe de agradar-me, apenas me aborrece! Mas permita-me que lhe faça só duas perguntas. Onde é que o senhor supõe que foram cometidas as atrocidades?

— No distrito de Lukati, — respondeu-lhe o Hon. George Tackle.

— Olari! — disse Sanders aos seus botões; e, depois, em voz alta: — E qual foi a vítima?

— Houve mais de uma, — replicou-lhe o correspondente especial,

tirando do bolso o seu livro de notas. — O senhor bem compreenderá que seria melhor não discutirmos este assunto. Mas, uma vez que insiste, eu vou ler os nomes das vítimas. A primeira foi Efembi de Wastambo.

— Oh! — exclamou Sanders, e suas sobrancelhas se ergueram.

— A outra foi Kabindo de Machembi

— Oh, senhor! — regougou Sanders. E o Hon. George Tackle leu ainda

seis outros nomes, a cada um dos quais se apagava um vinco da testa de

Sanders.

Acabando de ouvir a enumeração das vítimas, o comandante inglês disse vagarosamente ao jornalista:

—Posso fazer-lhe uma exposição, que lhe poupará uma grande perda de trabalho desnecessário.

— Acho melhor não a ouvir, — obtemperou-lhe o Hon. George Tackle,

com o tom de um juiz circunspeto.

— Pois seja assim! — disse-lhe calmamente Sanders, que se afastou,

assobiando, para mandar que servissem o jantar. Durante a refeição, expôs ele ao correspondente especial do Courier and

Echo:

— São amigos meus quase todos os habitantes deste posto colonial. Não

devo encobrir ao senhor semelhante circunstância. Além de outros, o senhor

encontrará aqui O'Neill, capitão dos Houssas; o médico militar Kennedy; e o encarregado do depósito de material. Gostaria de interrogá-los?

— O senhor não acaba de dizer-me que são seus amigos?

— Sim, são meus amigos pessoais.

— Nesse caso, — obtemperou-lhe o Hon. George Tackle, gravemente, — é melhor que eu não os ouça.

— Como queira, — limitou-se a dizer-lhe Sanders.

Com uma escolta de quatro Houssas e cinqüenta carregadores, estes

recrutados nas aldeias vizinhas, o correspondente especial do Courier and Echo estava de partida para o interior, e Sanders ia tê-lo bem longe dali. À hora da despedida, disse-lhe o comandante inglês:

— Não posso, naturalmente, responder pela vida do senhor e devo

também preveni-lo de que o governo britânico em nada poderá ser responsabilizado por qualquer mal que ao senhor venha a acontecer.

— Bem o sei, — disse-lhe intencionalmente o Hon. George Tackle, —

mas não sou homem que possa ser dissuadido de tão importante missão, qual

a que me foi confiada. Além disso, pertenço a um tronco

— Atrevo-me a referir-lhe, — cortou-lhe Sanders, de repente, as

reminiscências genealógicas, — que o último viajante, devorado aqui nesta

selva, foi um D'Arcy, cujos ascendentes se entroncavam em Guilherme-o- Conquistador. O jornalista mandou tocar a sua tropa em direitura para Lukati, e, ao fim

do terceiro dia de viagem, chegou à aldeia de Mfabo, na qual morava Kelebi,

o famoso médico-feiticeiro. O viajante acampou fora da habitação, e, acompanhado de quatro Houssas, fez uma visita ao soba. Foi esse um dos primeiros erros que

cometeu, porque devia ter mandado chamar o chefe à sua presença; e, se tivesse que visitar a alguém, seria ao médico-feiticeiro, que valia por mais de quarenta chefes indígenas. Entretanto, pouco depois, achava-se ele de cócoras, no terreiro em frente à porta da choça do célebre mandingueiro, com quem mantinha animada confabulação por intermédio de um intérprete, que obtiveram em Serra- Leoa.

— Diga-lhe primeiramente, — recomendou o jornalista ao seu intérprete,

— que eu sou um grande chefe branco e que meu coração sangra por todos os desventurados indígenas da África. Pergunte-lhe, depois, se Sanders é um

homem bom. O médico-feiticeiro, que estava ainda bem lembrado da recente ameaça que lhe fizera Sanders, respondeu prontamente:

— Não!

— Por quê? — inquiriu ansiosamente o jornalista. — Sanders manda bater nos indígenas?

— Não manda somente espancar os negros — explicou, com prazer, o

médico-feiticeiro, — mas já houve ocasiões em que mandou queimar vivos a

alguns dos indígenas.

— Eis aí uma acusação muito séria! — exclamou o Hon. George Tackle, careteando desaprovativamente.

E escreveu rapidamente o seguinte, em seu "Diário de viagem à África":

— Entrevistei a Kelebi, respeitado médico indígena, que me prestou a

informação que se segue: — "Tenho vivido neste distrito, desde que me entendo por gente, e jamais conheci a um homem tão cruel quanto Sândi (Sanders). Recordo-me de uma vez em que ele deu ordem para que um pobre negro fosse afogado no rio, embora haja eu esquecido o nome da vítima. Em outra ocasião, fez queimar vivo a um infeliz indígena, por se ter recusado este a guiá-lo, bem como aos seus Houssas, através da floresta. Ainda me lembro bem de que ele fez incendiar uma aldeia, não longe daqui, causando grande prejuízo e muito sofrimento ao povo da mesma. Todos quantos

habitam neste distrito, sujeito ao comando de Sândi, gemem sob suas tremendas opressões, porque ele vem sempre exigindo dinheiro e víveres, e, quando não lhe entregam imediatamente o que ele reclama, açoita os infelizes negros, até que eles chorem bem alto". — Suponho ser verdadeira esta última declaração, porque Sanders encontra não pequena dificuldade, quando sai a recolher o imposto das cabanas, legalmente estabelecido pelo governo britânico. Acabando de escrever a nota acima, o Hon. George Tackle meneou a cabeça, exclamando:

— Sanders vai ficar em maus lençóis!

Apertou, em despedida, a mão do velho preto, o que causou grande surpresa ao mandingueiro, não avezado a tais gestos de polidez, e que logo perguntou algo ao intérprete, em sua língua nativa.

— O senhor pode dar-lhe alguma coisa? — perguntou o intérprete ao jornalista, a quem traduziu o desejo de Kelebi.

— Dar-lhe alguma coisa?

— Um presente qualquer: moeda ou, por exemplo, uma garrafa de

genebra.

— Não! — disse o Hon. George Tackle. — Ele que fique satisfeito com

o saber que está prestando um bom serviço à humanidade e que está

auxiliando a causa de um povo oprimido! Ouvindo isto do intérprete, o médico-feiticeiro disse qualquer coisa em réplica, que muito prudentemente deixou de ser traduzida para o conhecimento do jornalista inglês.

— Como é que vão as sindicâncias do jornalista? — indagou de Sanders

o capitão dos Houssas, três semanas mais tarde.

— Tanto quanto posso inferir das notícias recebidas, — respondeu-lhe o

comandante inglês, — o nosso amigo está colecionando uma lista de óbitos,

ao lado da qual a estatística da Peste-Grande figurará como boa recomendação de um concurso de saúde

— Onde é que se encontra ele presentemente?

— Já chegou a Lukati, — replicou-lhe Sanders, — o que não pode deixar

de pôr-me aflito.

E

Sanders simulava, ironicamente, uma grande perturbação.

O

capitão dos Houssas meneou a cabeça, porquanto ao seu conhecimento

tinham chegado muitos boatos, vindos das bandas de Lukati. Por lá, haviam sido boas as colheitas, e boas colheitas significavam ociosidade subseqüente,

e ociosidade equivalia quase sempre a barulhos de toda espécie. Tanto que já tinham sido realizadas lá muitas danças diabólicas, e o povo pacífico do distrito de Bokari, vizinho de Lukati, perdera muitas mulheres.

— Tenho plenos poderes para jugular rebeliões em início, — ponderou

Sanders, tristemente, ao capitão dos Houssas, — e tudo está indicando que

vai haver rebelião em Lukati. Que é que pensa você? Devemos fazer um

relatório ao governador e esperar reforços, ou marchar já e arriscar-nos a

tudo?

Isto é o diabo! — exclamou o capitão dos Houssas, coçando a cabeça.

— Não me atrevo a aconselhar-vos, porque, se o trunfo vos sair às avessas,

estou certo de que só receberei. pontapés. Mas, se fosse eu o comandante, iria como um raio, naturalmente

— Bastam 140 homens? — interrompeu-o Sanders.

— E duas metralhadoras, — sugeriu o outro.

— Pois vamos lá! — decidiu Sanders.

Meia hora depois, uma trompa de caça atroava os ares, por cima das linhas dos Houssas, e Sanders escrevia um relatório ao governador britânico

da África Ocidental, então nos Lagos longínquos.

O Hon. George Tackle não tinha outra idéia, — pode-se afirmá-lo, —

senão a de que seria recebido como um anjo salvador, caído do céu, na aldeia de Lukati. Olari, o soba, saudara-o amistosamente e logo lhe foi contando histórias

da brutalidade de Sanders, — histórias que, conforme escreveu o jornalista itinerante, "se verdadeiras, deveriam fazer soar o dobre de finados sobre a civilização britânica nas nossas possessões da África". Não estou disposto a adivinhar o que tais palavras queriam exatamente dizer.

O Hon. George Tackle passou ali um mês inteiro, como hóspede de

Olari. Tencionava ficar, quando muito, três dias, mas foram surgindo sempre motivos diversos, que o forçavam a adiar a partida. Uma vez, eram os seus carregadores, que haviam desertado; outra vez, eram as estradas que estavam perigosas; e, ainda outra vez, era Olari, que lhe

pedira que ficasse mais um pouco, a fim de assistir às danças dos moços da aldeia. O correspondente especial do Courier and Echo ignorava que a sua escolta de quatro Houssas se sentia inquieta, porque o seu intérprete (um tolo tão grande quanto o seu patrão!) não sabia traduzir expressões de presságios.

O Hon. George Tackle nada deduzia de uma dança, em que tomavam parte

não menos do que seis médicos-feiticeiros, nem compreendia a história de uma cabana desabada, que permanecia solitária em uma das extremidades da aldeia. Tivesse ele tomado o incômodo de visitar aquela choça em ruínas, lá houvera encontrado uma pequena mesa, uma cadeira e um leito de rodas, e sobre a mesa se lhe depararia um relatório, manchado de pó e gotas de chuva, o qual começava assim:

"Tenho a honra de informar-vos que os indígenas deste distrito continuam em sua anterior atitude, operosa e pacífica". Porque aquela cabana era a em que morava, quando vivo, Carter, o imediato de Sanders; e os pretos, em razão do seu supersticioso respeito pelos mortos, dali não tiraram nada. Aproximava-se o fim do mês da sua estada ali, quando o Hon. George Tackle começou a perceber em seu hospedeiro uma certa insolência de tom, mal disfarçada, e no procedimento dos negros da aldeia algo mais ameaçador ainda. As danças guerreiras realizavam-se então toda noite, e o compassado

bater de pés no chão, o entrechocar de lanças contra escudos e a ininterrupta celeuma dos cânticos dos dançarinos não deixavam o jornalista inglês conciliar o sono. Olari recebia diariamente mensageiros, vindos de cubatas longínquas. Certa vez, o Hon. George Tackle despertou, a horas caladas da noite, em conseqüência de uma tremenda gritaria. Saltou da cama, afastou a esteira movediça, que lhe servia de porta à tenda, e avistou meia dúzia de mulheres nuas, que, soltando bramidos horrorosos, estavam sendo arrastadas pela rua da aldeia, — resultado de uma incursão dos Lukatis contra os inofensivos Bokaris. Vestiu-se rapidamente, suando ao mesmo tempo de medo e indignação, e dirigiu-se à cabana do cacique, afortunadamente sem levar consigo o seu intérprete, porque, se ele tivesse entendido o que Olari lhe respondeu, houvera ficado sem pinga de sangue. Na manhã seguinte (após aquela entrevista, inteiramente inútil), ordenou aos seus quatro Houssas e aos carregadores que lhe foi possível encontrar, que se preparassem imediatamente para a partida.

— Senhor, — disse-lhe Olari, quando, pelo intérprete, soube de tal

resolução, — ainda é cedo para a sua partida. O senhor fará melhor em ficar aqui mais uns dias. Os caminhos andam cheios de pessoas perigosas e eu ainda tenho muita coisa que lhe contar a respeito da maldade de Sândi. Além de tudo isso, — concluiu o soba, — esta noite vai haver uma grande dança

em sua honra.

E apontou para onde três escravos estavam ocupados em fincar um

grande moirão, ao centro da rua da aldeia.

O jornalista inglês olhou, sem saber o que dizer, para o ponto indigitado.

— Acabada a festa, — declarou Olari, — deixarei então o senhor ir, porque o senhor é meu pai e minha mãe.

O Hon. George Tackle continuava hesitante, quando de súbito, em cada

extremidade da rua, apareceram, como por arte mágica, vinte Houssas, empoeirados da viagem. Estiveram parados por alguns momentos, observando o movimento da maloca, e, em seguida, abriram alas para os lados e no centro de cada destacamento brilhou o grosso suporte metálico de

uma possante metralhadora. Em face de tão inesperada visita, Olari nada disse. Olhou primeiro para um lado e depois para o outro, e o rosto pardo não tardou a tornar-se-lhe de um cinzento sujo. Em direção ao grupo, formado em frente da cabana do chefe por este, pelo viajante inglês e pelo intérprete, veio Sanders caminhando vagarosamente. Estava sem se barbear, com as roupas laceradas por espinhos das árvores da estrada, e trazia na destra um revólver de cano comprido.

— Olari! — chamou ele calmamente, ao aproximar-se. O soba deu logo um passo à frente.

— Penso, Olari, — disse-lhe Sanders, em tom muito brando, — que

você já tem sido chefe aqui por muito tempo.

— Senhor, — ponderou-lhe Olari, com as feições contraídas, — antes de

mim, meu pai também foi chefe aqui, e, antes de meu pai, o pai dele também foi chefe.

— Que fim levou Tagondo, amigo Olari? — perguntou-lhe Sanders,

falando de Carter pelo nome indígena que este tinha ali.

— Senhor, ele morreu, — retrucou Olari, com voz trêmula. — Ele

morreu de "mongo" e somente da moléstia mesmo.

— Está você bem certo disso? — inquiriu Sanders dele, meneando a

cabeça. — Pois é da mesma doença que você vai morrer! Olari circunvagou então o olhar para diversos pontos, à procura de um meio de escapar-se. Não achando para onde fugir, avistou, contudo, o Hon. George Tackle, que contemplava perplexo os dois homens, e arremessou-se aos pés do jornalista britânico.

— Senhor! — gritou-lhe, salve-me deste homem, que me odeia e que me

quer matar! O correspondente especial do Courier and Echo, se não compreendeu tais palavras, entendeu, pelo menos, o gesto de Olari, e seu intérprete o

inteirou do resto. E, por isso, quando um dos Houssas de Sanders, por ordem deste, estendeu a mão para agarrar Olari, o filho da casa aristocrática de Widnes, arvorando-se em campeão do senso da justiça, o impeliu para trás. Olvidando também todos os seus pressentimentos anteriores, todos os receios concernentes à atitude do soba de Lukati, não vacilou em dizer ao comandante inglês:

— Pare lá, mister Sanders! Permita-me dizer-lhe que já puniu bastante este pobre diabo!

— Leve daqui este negro, sargento! — disse Sanders asperamente ao Houssa, que agarrou Olari pelo ombro e o arremessou para trás.

— O senhor há de responder oportunamente por tudo isto! — rugiu o

Hon. George Tackle, tomado de impotente furor. — Que é que o senhor vai fazer com ele, Deus meu! Não! não! não o mate sem um julgamento! Proferidas estas palavras, saltou para diante, como que para impedir o fuzilamento sumário de Olari. Mas os Houssas o seguraram e contiveram.

Um mês depois destes acontecimentos, quando o Hon. George Tackle se dirigia para bordo do vapor em que ia regressar à Inglaterra, disse ele a Sanders, que o acompanhara amavelmente até à praia:

— Fique certo de que o senhor sofrerá bastante por tudo quanto acaba de

fazer!

— Isso em nada me preocupa, — respondeu-lhe Sanders. — O que eu

apenas desejo é mostrar-lhe que, se eu não tivesse chegado a Lukati no momento oportuno, o senhor é que teria chegado ao termo dos seus sofrimentos. O senhor ia ser sacrificado pelos indígenas, isto é, ia ser

queimado vivo, na noite em que cheguei lá. Não viu o moirão em que ia ser amarrado?

— Isso não passa de uma invenção sua! — bradou o outro. — Pode estar

certo de que tornarei toda a Inglaterra sabedora das suas crueldades! A maneira pela qual o senhor comanda este distrito é uma verdadeira mancha

para a civilização britânica!

— "É fora de dúvida, — disse o juiz, mister Keneally, relatando o processo-crime Sanders versus o Hon. George Tackle, como correspondente especial do Courier and Echo, então submetido a julgamento em plenário, — que o querelado Tackle escreveu certo número de artigos difamantes, prejudiciais, portanto, à bona existimatio do querelante; e, ao meu ver, o aspecto mais espantoso do caso é que, encarregado, como estava, pelo seu jornal, de investigar de acontecimentos presumidos irregulares ou delituosos no distrito de Lukati, o querelado nem sequer se deu ao incômodo de averiguar qual era semelhante localidade. Consoante já me ouvistes dizer, srs. jurados, há na África nada menos de quatro aldeias com o mesmo nome de Lukati. Entretanto, o querelado se dirigiu à aldeia de Lukati, da África Ocidental, quando deveria ter rumado para a aldeia de Lukati, pertencente à Togolândia. Qual a razão pela qual ele tomou a Lukati da África Ocidental Britânica pela Lukati da Togolândia Germânica, eu não sei dizer-vos. Mas, com o intuito de sustentar as suas acusações contra um oficial inglês de todo em todo inocente, apresentou não poucas declarações infundadas e insustentáveis, — cada uma das quais deve ser considerada, inquestionavelmente, como prejudicial aos créditos ilibados do querelante, e, acima de tudo, mais prejudicial ainda para o conceito do jornal, que, em sua colossal ignorância, deu a público tal acervo de sandices". O júri fez adjudicar a Sanders, como indenização, 9.750 libras esterlinas.

6 - A dança sobre pedras

OS HERÓIS DEVIAM SER ALTOS robustos e belos, de olhos relampejantes; Sanders não era alto, tinha o rosto amarelado e, além disso, seu cabelo já grisalhava. Os heróis deviam também possuir recursos verbais cavalheirescos cheios e frases corteses para com as mulheres ternas, que lhes aparecessem na linha de frente do horizonte da vida; Sanders, entretanto, era um homem de linguagem rude, que praguejava à mais ligeira provocação, e não revelava o menor interesse para com os rabos de saia. Quando colocais um homem num trono, — seja esse trono, embora, um banco de madeira, que, no mercado, valeria, quando muito, quatro pence, — assumis uma responsabilidade, que sobrepuja em muito a toda e qualquer satisfação pessoal, que vos possa produzir o vosso nobre feito. Em certo túmulo da cidade espanhola de Toledo há uma placa de bronze, a qual assinala à posteridade a existência de um célebre fazedor de reis, que viveu o bastante para provar a sua insignificância. O epitáfio, que se lê na citada placa de bronze, patenteia o verdadeiro conhecimento do que é, em fim de contas, todo esforço humano. — "Pulvis et nihil" — diz a referida inscrição tumular. E "Pó e Nada" — eis o destino definitivo de todos os fabricantes de reis. Sanders foi também, em começo, um criador de reis. Ajudou a subjugar uns poucos de monarcas africanos, e, em obediência às leis de compensação, tomava também parte no afã de substituí-los por outros. Destruiu Esindini, Matabini, T'Saki, — para citarmos apenas três, — e ajudou outrora, em outro distrito, a vencer Lo-Bengola, o "Grande-Touro". Criador de reis, ele o era, sem dúvida alguma, — apesar do republicanismo, escrito legivelmente, no riso cheio de ironia, com que ele os fabricava, — mas os reis, que fazia, eram pequenos. O sistema do governo anglo-africano, com efeito, consistia em subjugar a um grande rei e em colocar muitos reizinhos no lugar do mesmo, pois isso sempre e mais seguro. Algures, cerca de 12° de latitude norte e a 0 o de longitude, existe um território singular, pelo fato de ser britânico, francês, germânico e italiano, de acordo com qualquer mapa africano, pelo qual vós vos guiardes. Ao tempo em que escrevi estas páginas anteriores, não era, em verdade, de nenhum dos citados povos, mas governava-o soberanamente Mensiki- Limbili, o "Grande-Rei". Era o mais poderoso dos monarcas daquelas regiões, e, por isso mesmo, o mais cruel. O seu domínio estendia-se "do surgir da lua ao pôr do sol", consoante a expressão dos seus súditos, e gozava de enorme e evidente prestígio. Rodeava-se de uma numerosa corte;

sentava-se em trono de marfim; sobre a pele de leopardo, de uso geral, que lhe pendia dos ombros, trazia um manto, tecido de fios de ouro e de fios escarlates; e administrava justiça. Tinha 300 mulheres e 40.000 guerreiros.

As suas relações com os europeus começaram e terminaram com a vinda de certa missão francesa, a qual lhe deu os seguintes presentes: um chapéu alto, um órgão de canudos e 100.000 francos em ouro. Tal era Limbili, o rei de Yitingi. Os pequenos reis das terras meridionais falavam dele com a respiração diminuída; o nome dele era proferido em voz baixa, como o de um deus; era

o símbolo da majestade e da força. Os povos de Isisi, — uma nação de bastante importância e também vaidosa, — referiam-se a si mesmos injuriosamente, quando se comparavam com o reino de Yitingi.

À missão francesa seguiu-se a britânica. Sanders foi enviado a Limbili,

levando-lhe presentes de uma só qualidade e mensagem de boa vontade.

Uma vez dentro do território de Yitingi, foi escoltado por um grande exército indígena e alojado na capital do reino. Depois de dois dias de espera, foi informado de que Sua Majestade se dignava de recebê-lo, e foi então conduzido à "Presença".

A "Presença" era um velho, — um velho cheio de vícios (Se é que

Sanders podia bem ajuizar do caráter alheio), — o qual mostrou

inconfundíveis sinais de cólera e desdém, quando o comandante inglês lhe fez entrega dos presentes.

— Para quem é que são estes presentes, homem branco? — perguntou-

lhe carrancudamente o rei. — São enfeites para as minhas mulheres ou gratificações aos meus fâmulos?

— São para Vossa Grandeza, — respondeu-lhe Sanders, serenamente. —