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Óbidos

Viajar nem sempre tem de implicar


grandes distâncias, sendo a Região do
Oeste um dos mais acabados exemplos
desta definição. Fica no centro do país,
tem boas acessibilidades, para quem
vem do norte, sul, ou mesmo do interior.
Claro que isto não chega, pois os
excelentes acessos não promovem
sozinhos um destino turístico, e a forma
raramente sobrevive sem conteúdo. Mas
aqui ele existe. Ainda que não se
apresente com a sumptuosidade de
outras paragens, a região tem uma
diversidade de características que não
permite que seja olhada apenas como
mero ponto de passagem, escondido por
entre o asfalto da A8 e da A1. O mercado
a céu aberto das Caldas da Rainha; os
inúmeros museus e obra de Rafael
Bordalo Pinheiro; a Serra de Montejunto,
que se ergue abruptamente entre o litoral
e o Vale do Tejo; a surpreendente
quantidade de vinhas e bons vinhos e,
claro, Óbidos, são razões mais do que
suficientes para uma demorada e
relaxada visita.

Dia 1
Óbidos Restaurante Cozinha das Rainhas e Mariana, responsável pelo
Começamos precisamente por Óbidos. hotel Casa das Senhoras Rainhas, em Óbidos; Museu José
Malhoa, nas Caldas; Serra de Montejunto; e licores típicos de
Uma vila demasiado turística? Talvez, Óbidos
mas a verdade é que, no caso, não
podemos avaliar o grande fluxo turístico
de forma negativa. Goste-se ou não de
dar de caras com excursões de manhã
até à noite, aprecie-se ou não o apelo ao
consumo e o omnipresente souvenir, na
verdade, estas pessoas só cá vêm porque este é um dos mais assinaláveis casos de
preservação do nosso património histórico, arquitectónico e cultural. A eleição do Castelo de
Óbidos como uma das sete maravilhas nacionais não veio acrescentar nada a esta ideia.
Apenas confirmá-la. Um castelo de origem romana conquistado por D. Afonso Henriques em
1147, tendo sido reerguido e o burgo repovoado, e que teve em 1210 uma das datas mais
importantes da sua história: foi entregue por D. Afonso II às rainhas de Portugal, passando a
ser o local de refúgio e de férias das soberanas nacionais e dos casais régios ao longo da
Idade Média e da Idade Moderna. A História pode mostrar que foram os homens quem mais
construiu ao longo dos tempos, mas a sensibilidade (mesmo a masculina), sabe que as
mulheres são melhores a preservar, por isso, em muito se deve a elas a dinamização da vila e
o facto de se ter desenvolvido com estas características. Quase nove séculos depois muito
mudou, mas a verdade é que Óbidos soube envelhecer sem se degradar. Destaca-se desde
logo a fortaleza, lá no topo, completamente restaurada e porto de abrigo de uma Pousada de
Portugal, a primeira em território luso a ser construída num monumento nacional. Mas o castelo
não “vive” sozinho.
Onde ficar
Casa das Senhoras Rainhas – Ir a Óbidos e
ficar alojado da parte de fora das muralhas perde
metade do encanto. Este pequeno hotel, com
apenas 10 quartos e, por isso, garantia de
tranquilidade absoluta, proporciona-lhe a
A sua longa muralha – que é possível possibilidade de desfrutar na perfeição de toda a
percorrer na íntegra –, o casario caiado, magia da vila, uma vez que fica situado paredes-
salpicado a tons de azul e amarelo, a telha meias com as muralhas, formando uma espécie
mourisca, e os canteiros e os vasos de casa/retiro secreto. A decoração é cuidada e
repletos de coloridas buganvílias e oferece vários espaços de leitura, um jardim
sardinheiras que se multiplicam por entre interior encantador e um tratamento super
as suas ruas estreitas, formam um personalizado.
poderoso e elegante conjunto, uma Diárias: quarto duplo a partir de €144, com
cidadela com uma beleza ímpar. pequeno-almoço incluído.
Contacto: Rua Padre Nuno Tavares, 6, Óbidos;
Compreende-se que se multipliquem os tel. 262 955 360; www.senhorasrainhas.com
autocarros com turistas.
Onde comer
E compreende-se que em quase todas as Solar dos Amigos, Ilha do Paraíso – É sem
ruas, essencialmente na Rua Direita, haja dúvida um paraíso para todos aqueles que
quase tantas lojas como casas. Artesanato, gostam de gastronomia. Uma ilha “perdida” na
rendas, bordados feitos à mão, há todo o aldeia do Guisado (para lá chegar siga pela
tipo de recordações, mas é a ginjinha a estrada da Tornada, no sentido Caldas-
verdadeira senhora e rainha da vila, bebida Alcobaça), com uma decoração verdadeiramente
sem corantes nem conservantes e de típica e uma cozinha de cariz regional. Uma
origem conventual, que continua a ser experiência de 23 anos a servir requeijão com
produzida artesanalmente com ginjas doce de abóbora, morcela de sangue, morcela
colhidas na região. “Beba a Ginja e coma o de arroz, alheira de Mirandela, polvo na telha,
copo”, pode ler-se em quase todas as enguias fritas, tiborna de bacalhau, costeleta e
vitrinas. Sim, não é erro, já que o copo é de lombo de novilho, secretos ou plumas de porco
chocolate, numa deliciosa conjugação que preto... entre muitos outros pratos. Tudo em
fica apenas ao alcance de €1. Difícil é quantidades industriais: na quantidade e na
parar, mas como é vendida em garrafinhas qualidade.
de 4cl, garrafas de 50 e 70 cl e em Contacto: Rua Principal, 49, Guisado, Caldas da
garrafões (qualquer uma das formas Rainha; tel. 262 877 135;
conservando os seus respeitáveis 19º), tem www.solardosamigos.com
a possibilidade de levar e saborear em Cozinha das Rainhas – Para entrada gaspacho
casa. do mar, beringela ao gratin ou travesseiros reais.
Para prato principal um risotto de beterraba ou
Entre nas lojas, um borrego à provençal e para sobremesa um
procure, dueto de chocolate ou uma medalha de sidra.
pesquise, Estas são algumas das sugestões deste
pergunte, restaurante que fica instalado no Hotel Casa das
porque, além de Senhoras Rainhas e que apresenta uma cozinha
muitos produtos diversificada, internacional, e um ambiente
para turista bastante acolhedor, longe da aura turística de
comprar e outros restaurantes da vila.
português ver, há Contacto: Rua Padre Nuno Tavares, 6, Óbidos;
verdadeiros tel. 262 955 360; www.senhorasrainhas.com
produtos típicos, Alcaide – Consegue o compromisso entre um
caseiros. Como restaurante tipicamente turístico e uma cozinha
os licores e as de qualidade.
compotas da D. Contacto: Rua Direita 60, Óbidos; tel. 262959220
Amélia, que pode encontrar, por exemplo,
na Loja do Vinho, na Rua Direita.

De framboesa, de maçã, de limão, de café, de figo, de doce de tomate ou abóbora e de pêra


rocha – um fruto que se tem tornado um dos embaixadores da Região do Oeste – há sabores
para todos os credos. ---- Os mais gulosos podem preparar-se já para o famoso Festival de
Chocolate, que não está longe, com início no dia 14 de Fevereiro do próximo ano.

Apesar de alguma confusão que possa reinar nas ruas, não tenha pressa em ir embora. Aqui
existem hotéis de qualidade – a Casa das Senhoras Rainhas, onde pernoitámos, é um dos
melhores exemplos – e a maior parte dos turistas deserta assim que a noite cai. Ficam os
poucos habitantes, permanecem alguns restaurantes abertos, dos quais o Alcaide, a Cozinha
das Rainhas ou o bar Petrarum Domus
são boas sugestões, mas a partir das 22
horas quase todas as portas fecham.

Sobra o silêncio e Óbidos fica


completamente para si. É hora de mais
um passeio, de percorrer as mesmas
ruas, voltar a subir à muralha e observar
uma outra vila que, devido ao silêncio a
excelente iluminação, ganha uma alma e
aura incomensuráveis.

Dia 2
Caldas da Rainha > Nazaré >
Serra de Montejunto
Há alguns anos era no mercado que se
media o pulso a uma cidade.

Se assim fosse, hoje em dia poucas


seriam as cidades pulsantes, já que
actualmente quase todos os mercados
espalhados pelo país são locais
assépticos e bem cuidados, mas situados
em espaços fechados, carentes de cor e
vida. Ora, nas Caldas da Rainha o
O restaurante Solar dos Amigos e a Serra de Montejunto; mercado
mercado é à antiga... Situado na Praça ao ar livre nas Caldas da Rainha e as famosas trouxas de ovos
da República, ao ar livre, é um verdadeiro
hino às cores, aos cheiros, aos sentidos.
“Toda a gente gosta. Ainda há pouco
tempo andavam a filmar uma telenovela
em Sintra, mas na altura de filmar o
mercado vieram gravar para cá” –
palavras orgulhosas de uma vendedora.

Não é de estranhar, pois já se tornam raros e preciosos locais como este. A caravana do pão e
dos bolos, que parece saída de um filme; os doces, os suspiros, as ferraduras, os beijinhos e
as famosas cavacas das Caldas; as nozes, as tâmaras, os figos, o figo-moscatel, as castanhas
gigantes, a abóbora cor de abóbora, a alface com cor de verdadeira alface, os tomates, o
pepino, uma imensa variedade de fruta, de legumes, e ainda... galinhas e coelhos. Vivos, é
claro. Há de tudo. E o que não é vivo, é fresco.

Normal para quem cá está, surpreendente para quem cá passa.

O mesmo sucede em relação à cerâmica. É um lugar comum, mas


torna-se incontornável que a atenção dos visitantes não se centre
nesta arte de moldar o barro e o vidro – especialmente este último
–, uma vez que foi aqui onde Rafael Bordalo Pinheiro viveu e criou
muitas suas mais famosas obras. Criações que pode ver no Museu
da Cerâmica e, sobretudo, na casa-museu do homem que inventou
o famoso Zé Povinho e o seu controverso manguito. Apenas uma
entre muitas e surpreendentes peças, essencialmente para quem
não conhece em profundidade o seu trabalho. Há muitos desenhos
originais e inúmeras obras de vidro repletas de cor, desde pratos e
Espelho de água no Parque D.
jarros decorados com frutos, lagartos, sapos (seguindo a tradição Carlos, nas Caldas da Rainha,
naturalista), gatos, e muitas peças com crítica de cariz político e local de passagem obrigatória na
social, como o penico e escarrador John Bull, ou um pequeno cidade
homem de barriga proeminente e um chapéu em lugar na cabeça,
numa representação sarcástica e mordaz dos políticos da altura.
Referência especial para um estranho e quase assustador
escaravelho gigante, uma entre várias criações que actualmente
são reproduzidas na fábrica de Faianças Artísticas B. P., contígua à casa, fundada pelo filho,
Manuel Gustavo, em 1908.

A cidade é pequena e está tudo


concentrado, por isso basta atravessar a
rua para entrar no Parque D. Carlos, um
agradável jardim com um lago e alguns
cisnes, que vive paredes-meias com a
unidade termal das Caldas da Rainha,
mandada construir pela Rainha D. Leonor
devido à qualidade das suas águas
sulfurosas, ainda hoje muito apreciadas.
Também ali ao lado, na pastelaria
Machado, a mais afamada da cidade,
pode enganar-se a fome com uma
cavaca, mas na hora da refeição o
melhor é seguir em direcção à freguesia
de Guisado para desfrutar da qualidade
do restaurante Solar dos Amigos, um
verdadeiro achado.

Um achado que, ainda assim, não é um


segredo, pois para comer ao fim-de-
semana convém marcar com uma
semana de antecedência. E não é difícil
perceber o porquê... Com uma decoração
tradicional, mas extremamente cuidada –
repleta de madeira, e pés de alho,
cebolas e espigas de milho presas no
tecto –, oferece uma cozinha regional A Nazaré, vista a partir do Sítio; a Casa-Museu Bordalo Pinheiro,
extraordinária, graças à qual comer nas Caldas da Rainha; a Quinta dos Loridos, perto do Bombarral; e
prato de bacalhau no Solar dos Amigos
nunca será uma moda, mas sim sempre
um verdadeiro prazer.

Às vezes esquecemo-nos, mas estamos


muito perto do mar, por isso, e mesmo
apesar de a época balnear já estar longe,
parar para observar o Atlântico é sempre um bálsamo para qualquer corpo. À escolha estão
locais como a Nazaré, o Sítio, ou a Foz do Arelho, praia que devido a estar acoplada à Lagoa
de Óbidos é dona e senhora de uma beleza que se conserva durante todo o ano.

Para que o passeio seja completo, depois da praia, vem a montanha, nomeadamente a Serra
de Montejunto. Não é das maiores de Portugal, nem possui a beleza de outras, mas merece
ser descoberta. O seu cume, repleto de pedra e quase sem vegetação, tem qualquer coisa de
paisagem lunar, sendo que a visão de inúmeras antenas de comunicação, das rádios e
televisões portuguesas, lhe empresta uma aura algo surrealista. Para terminar em beleza
sugerimos uma visita pelo mundo dos vinhos.

É que esta é uma região vinícola que se vem afirmando cada vez mais no panorama nacional.
Terminadas as vindimas ficam as quintas, como a do Sanguinhal, Cerejeiras ou de Loridos
(adquirida por Joe Berardo, que aí está a construir o seu megalómano jardim oriental).

Por isso, enquanto não chegam os Budas gigantes, pode continuar a fazer hossanas a Baco, já
que qualquer das quintas oferece provas de vinhos.
CONTA-QUILÓMETROS
Dia 1 | 0 km Óbidos
Deixe o carro à entrada da vila, ou dentro
das muralhas caso tenha um dístico
cedido pelo hotel, e conheça a vila a pé.
Todos os caminhos vão dar ao Castelo

Dia 2 | 80 km
Caldas da Rainha > Nazaré á Bombarral
> Serra de Montejunto
Saindo
do
centro
de
Óbidos,
na
primeira
rotunda
vire à esquerda em direcção às Caldas da Rainha, cidade que
alcançará cerca de 5 km depois. A partir das Caldas da Rainha
tome a A8, em direcção a Leiria e saia 24 km depois, para a
Nazaré. Saindo da Nazaré volte à A8, siga em direcção a Lisboa e saia para o Bombarral. Depois
siga as indicações para a Serra de Montejunto.

Texto: João Ferreira Oliveira

Fotos: Pedro Sampayo Ribeiro

In: Rotas e Destinos

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