se bem me lembro...

Tudo o que era guardado à chave permanecia novo por mais tempo. Mas meu propósito não era conservar o novo, e sim renovar o velho.
Walter Benjamin

Cenpec Fundação Itaú Social Ministério da Educação

Apresentação
Bem-vindo à Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro! Ela é resultado da parceria entre o Ministério da Educação (MEC), a Fundação Itaú Social e o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). A união de esforços do poder público com a iniciativa privada e a sociedade civil visa um objetivo comum: proporcionar ensino de qualidade para todos. O MEC encontrou no Programa Escrevendo o Futuro a metodologia adequada para realizar a Olimpíada — uma das ações do Plano de Desenvolvimento da Educação, idealizado para fortalecer a educação no país. Este Caderno do Professor vai ajudá-lo na preparação dos seus alunos para a Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro. É uma ferramenta que poderá ser incorporada ao dia-a-dia escolar, contribuindo para que os alunos escrevam textos cada vez melhores e ampliem o domínio da leitura e da escrita. O tema proposto para o concurso é “O lugar onde vivo”. Escrever sobre a comunidade onde se vive estimula novas leituras, pesquisas e estudos, proporcionando um outro olhar sobre a realidade e uma perspectiva de transformação social. O envolvimento de todos na Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro é fundamental para ampliar e enriquecer o trabalho nas nossas escolas e para que sejam produzidos melhores textos por crianças e jovens dos vários cantos do Brasil. Desejamos a você um ótimo trabalho! Cenpec Fundação Itaú Social Ministério da Educação

Copyright © 2008 by Cenpec e Fundação Itaú Social Coordenação téCniCa Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária – CENPEC Créditos da publiCação Coordenação Sonia Madi Autoras Regina Andrade Clara Anna Helena Altenfelder Colaboradoras Beatriz Cortese Dileta Delmanto Maria Antonieta A. R. de Oliveira Maria Aparecida Laginestra Maria Tereza A. Cardia Zoraide Faustinoni Silva Leitura crítica Isabel Cristina Santana Edição Adriano Quadrado Organização da publicação Alice Lanalice Projeto gráfico e capa Criss de Paulo e Walter Mazzuchelli Ilustração Criss de Paulo Editoração e revisão AGWM Editora e Produções Editoriais

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Clara, Regina Andrade Se bem me lembro... / Regina Andrade Clara, Anna Helena Altenfelder — São Paulo : Cenpec : Fundação Itaú Social ; Brasília, DF : MEC, 2008. Bibliografia. ISBN 978-85-85786-68-7 1. Memórias (Gênero literário) 2. Olimpíada de Língua Portuguesa 3. Textos I. Altenfelder, Anna Helena II. Título. 08-00403 Índices para catálogo sistemático: 1. Olimpíada de Língua Portuguesa : Escolas : Educação 371.0079 CDD-371.0079

Contato Rua Dante Carraro, 68 05422-060 — São Paulo — SP Telefone: 0800-7719310 e-mail: escrevendofuturo@cenpec.org.br www.escrevendofuturo.org.br

Professor,
Você está recebendo este Caderno do Professor — Orientação para produção de textos porque se inscreveu na Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro. O conjunto de cadernos é composto por Poetas da escola (4 a e 5a séries do Ensino Fundamental ou 5o e 6o anos do Ensino Fundamental de Nove anos — Categoria I), Se bem me lembro... (7a e 8a séries ou 8o e 9 o anos do Ensino Fundamental de Nove anos — Categoria II) e Pontos de vista (2o e 3o anos do Ensino Médio — Categoria III). Aparentemente é apenas um concurso de textos, mas, na realidade, a Olimpíada constitui uma estratégia de mobilização que oferece aos professores oportunidade de formação. Apostamos na idéia de que os professores possam vivenciar uma metodologia de ensino de língua que trabalha com gêneros textuais por meio de seqüências didáticas. Essa metodologia, anteriormente adotada pelo Programa Escrevendo o Futuro, tem despertado o interesse dos alunos e melhorado os textos que eles escrevem, tornando evidentes sua evolução e conquistas. A Olimpíada inclui os participantes numa rede de conhecimento, oferecendo publicações periódicas com análise e divulgação dos textos dos alunos e dos relatórios dos professores. A rede também inclui uma comunidade virtual de aprendizagem e cursos on-line. O ponto de partida é o roteiro de atividades deste Caderno. Ele foi preparado com muito cuidado e utilizado por milhares de professores e alunos de todo o país. Convidamos você a mergulhar neste material e a preparar a realização das oficinas que se seguem. Explore bem o Caderno antes de iniciá-las. Veja quanto tempo você vai precisar para realizar cada uma delas. Faça um plano de trabalho. Você ficará satisfeito em descobrir que muitos dos conteúdos didáticos abordados nas oficinas estão contidos no seu planejamento anual. Portanto, é importante desenvolver as atividades com todos os alunos da classe. Poderão ser incluídas atividades e feitas adaptações de acordo com as necessidades e oportunidades que surgirem. Mas recomendamos que a ordem das oficinas seja mantida, porque elas estão organizadas numa seqüência didática. Nessa Olimpíada, não estamos em busca de talentos, nosso propósito é contribuir para a melhoria da escrita de todos os alunos das turmas participantes. O que importa é que cheguem ao final dessa caminhada sabendo se expressar no gênero estudado. Isso fará do aluno um cidadão mais bem preparado. E é você, professor, que possibilitará essa conquista. Antes de começarmos, mais um recadinho: no final deste Caderno há um texto chamado “Para saber mais ainda”, no qual você pode encontrar as concepções de língua, ensino e aprendizagem em que este trabalho se apóia. Bem-vindo à Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro. Um ótimo trabalho para você e sua turma!
Equipe da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro

Sumário
Introdução

Toda memória tem uma história

8

1 Naquele tempo •

11

Sensibilizar os alunos a respeito do valor da experiência das pessoas mais velhas. • Compreender o que é memória. • Entender como objetos e imagens podem trazer a história de um tempo passado.

4 •Viagem no tempo

21

Apresentar ao aluno textos de memórias de pessoas mais velhas.

2 Vamos combinar?

• Explicar como será o trabalho,
a produção dos textos de memória e a organização de uma coletânea. • Apresentar a situação de produção.

15

5 •Sentidos e sentimentos

25

dentificar os recursos utilizados pelos autores I nos textos de memórias literárias.

• Entender como se faz a descrição de um
acontecimento e como expressar sentimentos por meio das palavras

3 Primeiro ensaio •

19

Produzir o primeiro texto individual. • Planejar como intervir no processo de aprendizagem do aluno com base no diagnóstico inicial.

6 •Ponto-e-vírgula

29

Estudar e aprender a usar sinais de pontuação.

7 Nem sempre foi assim •

33

Sensibilizar os alunos para as emoções dos relatos de memórias. • Observar como os autores comparam o tempo antigo com o atual. • Identificar palavras e expressões usadas para remeter ao passado.

11 •Ensaio geral

53

Produzir um texto coletivo.

8 No pretérito

37

• Observar o uso do pretérito perfeito e do imperfeito.

12 •Agora é minha vez

57

Escrever individualmente o texto final.

9 Marcas do passado

• Identificar palavras e expressões que marcam o tempo passado.

43

13 •Últimos retoques

59

azer a revisão e o aprimoramento do texto. F

Critérios de avaliação Textos recomendados

64 66 82 83 88

10 A entrevista •

47

Recado final Para saber mais ainda Referências bibliográficas

Planejar e realizar entrevistas com pessoas mais velhas da comunidade.

Introdução
Toda memória tem uma história
A proposta deste Caderno é que os alunos resgatem memórias de pessoas mais velhas, relacionando-as com o lugar onde vivem. Assim, terão a chance de ter contato com outras gerações e com isso sentir-se parte da comunidade. Ao participar das oficinas, o aluno poderá relacionar seu tempo e seu ambiente com o tempo e o ambiente de pessoas mais velhas. São as histórias passadas às gerações mais novas pelas palavras, pelos gestos, pelo sentimento de pertencimento que ligam os moradores de um mesmo lugar. Para isso, o aluno fará entrevistas com moradores antigos, ouvirá a narrativa do entrevistado e recolherá as lembranças dele. Em seguida, reescreverá essas lembranças como se fosse o próprio entrevistado. Nessa escrita, terá como referência o gênero de texto que chamamos de “memórias literárias”.

Se bem me lembro...
O título deste Caderno, Se bem me lembro..., foi emprestado da obra de mesmo nome da escritora e educadora Alaíde Lisboa de Oliveira. Nascida em Lambari (MG), no dia 22 de abril de 1904, publicou cerca de trinta livros, entre literários, didáticos e ensaios na área de educação. No livro Se bem me lembro... Alaíde narra suas lembranças em prosa e verso. 

memórias

Memórias literárias
A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.
Gabriel García Márquez. Viver para contar.

Memórias literárias são textos que recuperam uma época com base em lembranças pessoais. Quem as produz, em geral, são escritores convidados por editoras para narrar suas memórias de modo literário. Esse texto tenta despertar as emoções do leitor por meio da beleza e da profundidade da linguagem. Quem escreve quer envolver quem lê com as memórias que estão sendo contadas. Nas memórias literárias, o que é contado não é a realidade exata. A realidade dá base ao que está sendo escrito, mas o texto também traz boa dose de inventividade. Algumas marcas comuns aos textos de memórias são as seguintes:

• Expressões em primeira pessoa usadas pelo narrador, como “eu me
lembro”, “vivi numa época em que”.

• Verbos que remetem ao passado, como “lembrar”, “reviver”, “rever”. • Palavras utilizadas na época evocada, como “vitrola”, “flertar”, “baratinha”.

• Expressões que ajudam a localizar o leitor na época narrada, como
“naquele tempo”, “em 142”.

• Participação de outros personagens; de pessoas presentes nas lembranças dos entrevistados. Para ajudar o aluno a se familiarizar com o gênero das memórias literárias, faremos oficinas de escrita de modo que os alunos aprendam a identificar suas características e peculiaridades. Entrevistaremos pessoas mais velhas da comunidade que tenham histórias interessantes para contar, e iremos incentivá-los a produzir um texto que encante o leitor.

memórias 

O tempo das Oficinas
Cada oficina foi organizada para tratar de um tema, de um assunto; algumas delas poderão ser feitas em trinta ou quarenta minutos e ou­ tras levarão três ou quatro aulas. Por isso, é essencial que você, professor, leia todas as ati­ vidades com calma. Aproprie­se dos objetivos e estratégias de ensino, providencie o material e estime o tempo necessário para que sua turma faça o que foi proposto. Enfim, é preciso planejar cada passo, pois só você, que conhece seus alunos, conseguirá determinar qual a forma mais eficiente de trabalhar com eles.

10

memórias

Naquele tempo
ObjEtIvOS

oficina

• Sensibilizar os alunos a respeito do valor
da experiência das pessoas mais velhas. • Compreender o que é memória. • Entender como objetos e imagens podem trazer a história de um tempo passado.

memórias

11

Atividades
1ª etapa Inicie a conversa com seus alunos fazendo perguntas. Quem se lembra de alguma coisa que costumava fazer quando era criança? Quem se recorda de um acontecimento marcante de quando era bem pequeno? Explique-lhes que todos temos lembranças, episódios de vida para lembrar: uma festa, uma travessura, um passeio, uma viagem, um costume. Converse com seus alunos sobre o significado da palavra “memória”. Pergunte o que eles acham e anote as definições na lousa.

Memórias ou lembranças?
Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, memória é “aquilo que ocorre ao espírito como resultado de experiências já vividas; lembrança, reminiscência”. No plural — memórias —, pode ser uma narrativa que alguém faz, na forma de obra literária, com base no depoimento de uma pessoa mais velha, como seus alunos serão convidados a fazer no final deste Caderno.

Lembre aos alunos que fotografias também podem nos ajudar a recuperar lembranças do passado. É possível encontrar fotos antigas da cidade e dos moradores na prefeitura, museus, casa da cultura, igrejas e até mesmo em estabelecimentos comerciais. Faça uma pesquisa na comunidade para localizar e tomar emprestados alguns materiais. Se não for possível, converse com sua turma a esse respeito, incentivando os alunos a visitar os lugares onde pode haver fotos antigas. Objetos antigos também podem resgatar o passado. Pergunte aos alunos se eles têm em casa objetos que foram guardados pela família, converse sobre seu uso atual e em outras épocas. Explique que, além de fotos e objetos, as pessoas são fontes importantes de memória — na verdade, a mais rica delas. 12 memórias

2ª etapa Leia para a classe trecho do livro Velhos amigos, de Ecléa Bosi.

Velhos amigos
De onde vêm as histórias? Elas não estão escondidas como um tesouro na gruta de Aladim ou num baú que permanece no fundo do mar. Estão perto, ao alcance de sua mão. Você vai descobrir que as pessoas mais simples têm algo surpreendente a nos contar. Quando um avô fica quietinho, com o olhar perdido no passado, não perca a ocasião. Tal como Aladim da lâmpada maravilhosa, você descobrirá os tesouros da memória. Se ter um velho amigo é bom, ter um amigo velho é ainda melhor.
Ecléa Bosi. Velhos amigos. São Paulo, Companhia das Letras, 2003, p. 11.

Conversa com os idosos
Ecléa bosi, em seu livro Memória e sociedade, escreve memórias de pessoas mais velhas que moram na cidade de São Paulo. Ecléa nos ensina que não devemos perder a oportunidade de conversar com os idosos, pois com certeza eles têm muito que nos contar.

Proponha aos alunos que se organizem individualmente ou em pequenos grupos para conversar com pessoas mais velhas. Podem ser pessoas da própria escola ou de casa — pode ser um vizinho, um parente. Eles podem começar fazendo perguntas. O(a) senhor(a) tem algum objeto antigo ou foto que lembre alguma passagem da sua vida nesta cidade? O que a foto ou objeto lembra? Os alunos devem anotar as respostas e guardar as anotações. Em classe, cada aluno conta o que ouviu e, se possível, traz um objeto antigo para mostrar para a turma. Convide seus alunos a montar uma exposição na escola com fotos e objetos antigos. Eles podem trazer cartas, utensílios domésticos, ferramentas, máquinas antigas, roupas, discos etc. memórias

13

Registrar é importante
O registro é muito importante para você, professor, aperfeiçoar seu trabalho. No entan­ to, muitas vezes precisamos desenvolver esse hábito e vencer a falta de tempo. Mas to­ mar nota ajuda a fazer questionamentos e a descobrir soluções que nos fazem crescer. Registre as oficinas. Escreva sobre as atividades desenvolvidas, suas impressões, as dificulda­ des e as reações do grupo. Como nos diz a educadora Madalena Freire (1996): “O registrar de sua reflexão cotidiana significa abrir­se para seu processo de aprendizagem”. Lembre­se de que cada professor de aluno semifinalista da Olimpíada deverá, com base em seus registros, escrever um “relato de experiência” e com ele concorrerá a prêmios. Esse é mais um motivo para você registrar o percurso vivido em sala de aula!

Decida com a turma onde as peças serão expostas: sala de aula, biblioteca, pátio ou algum outro lugar da escola. As peças precisam ser organizadas e identificadas. Por isso, prepare com eles placas ou cartazes com informações sobre os objetos e os donos deles. Você pode distribuir as tarefas entre os alunos. Um grupo ficará responsável por preparar as placas; outro, por organizar objetos e fotografias; outro, por fazer convites e cartazes de divulgação; outro, por dar explicações durante a exposição. Os alunos poderão convidar colegas de outras turmas, professores e familiares para visitar a exposição.

14

memórias

Vamos combinar?
ObjEtIvOS

• Explicar como será o trabalho,

oficina

a produção dos textos de memória e a organização de uma coletânea. • Apresentar a situação de produção.

memórias

15

Atividades
1ª etapa Memórias podem ser escritas e conhecidas por outras pessoas, não apenas por quem as viveu. Seus alunos serão estimulados, a partir de agora, a coletar lembranças de moradores antigos da comunidade e escrevê-las para que sejam lidas por muitos. Sua turma será convidada a ocupar o lugar de memorialista, aquele que escreve as memórias de outro. Para isso, os alunos vão se colocar no lugar do entrevistado e escrever um texto em primeira pessoa. Essas lembranças devem estar relacionadas ao lugar onde vivem e destacar acontecimentos, histórias, costumes interessantes e pitorescos do passado. O texto deve mostrar o olhar particular do entrevistado sobre aquilo que viu e viveu. Portanto, não trará apenas fatos, mas também sentimentos, sensações e impressões. Lembre aos alunos que, na oficina anterior, discutiram o que são memórias e como objetos antigos e fotos podem ajudar a revivê-las. Viram também como pessoas mais velhas podem ter muitas coisas para contar. Apresente a proposta de escrever um texto de memórias baseado em lembranças de uma pessoa mais velha. Isso para que possam compartilhar com vários leitores aquilo que descobriram. Explique-lhes que irão entrevistar as pessoas, selecionar e organizar as informações mais interessantes e, finalmente, se colocar no lugar do entrevistado para escrever suas memórias.

16

memórias

Esclareça aos alunos que apenas um texto será escolhido para representar a escola na Olimpíada de Língua Portuguesa Escre­ vendo o Futuro, mas os demais não ficarão guardados na gaveta. Reúna os textos em uma coletânea e entregue-a às bibliotecas da escola e da cidade. Se houver textos muito parecidos, talvez seja necessário fazer uma seleção. Os alunos que não tiveram textos escolhidos para compor essa coletânea poderão participar de diferentes formas: ilustrando o livro, organizando um sarau, divulgando o evento de lançamento da publicação.

2ª etapa Faça com os alunos um plano de trabalho. Prepare um cartaz com a lista das atividades das próximas aulas. Depois de pronto, leia o cartaz em voz alta e o coloque num lugar de destaque da sala de aula. Você também poderá usar o calendário da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro. Assim a turma poderá acompanhar cada etapa e marcar as tarefas já realizadas. Plano de trabalho • Ler e analisar textos de memórias.

• Usar expressões que marcam o tempo passado. • Preparar e fazer as entrevistas. • Selecionar as informações coletadas. • Produzir um texto coletivo de ensaio para a produção final. • Produzir o texto individual. • Revisar o texto. • Selecionar os textos que farão parte da coletânea de memórias. • Elaborar as ilustrações, a capa e a contracapa do livro.
memórias 17

1

memórias

Primeiro ensaio
oficina
ObjEtIvOS

• Produzir o primeiro texto individual. • Planejar como intervir no processo
de aprendizagem do aluno com base no diagnóstico inicial.

memórias

1

Atividades
Neste momento, é importante pedir aos alunos que escrevam um primeiro texto no gênero memórias. Talvez você esteja pensando: Por que pedir uma produção escrita logo no início? Não vai ser difícil? Pode ser, mas a idéia é fazer a comparação entre o que cada um consegue fazer antes e depois de desenvolver a seqüência de atividades sugeridas neste Caderno. Isso deixará evidente tanto para você quanto para os alunos o que foi aprendido com as oficinas. O primeiro texto será feito com base na pesquisa sugerida na Oficina 1, quando os alunos recolheram objetos antigos e conversaram com pessoas mais velhas da comunidade. Retome com a turma o que foi feito e peça a ela que escolha um dos depoimentos. Sugira aos alunos que escrevam as memórias de uma das pessoas com quem conversaram, colocando-se no lugar dela, como se fosse o entrevistado. Explique a eles que vocês vão guardar esse primeiro texto para comparar com o que será feito no final.

Primeira escrita
A produção inicial aponta o que os alunos já sabem sobre o gênero e dá pis­ tas para que o professor possa melhor intervir no processo de aprendiza­ gem. Esse primeiro texto também é importante para que os alunos avaliem a própria escrita. Com sua ajuda eles podem perceber o que é preciso me­ lhorar e poderão envolver­se mais nas atividades das oficinas. Além disso, será possível comparar essa produção com o texto final e identificar os avanços, constituindo um processo de avaliação continuada. Atenção: se você for semifinalista da Olimpíada precisará levar a primeira produção para o encontro regional.

20

memórias

oficina

Viagem no tempo
ObjEtIvO

• Apresentar ao aluno textos de
memórias de pessoas mais velhas.

memórias

21

Atividades
1ª etapa Dependendo da experiência da turma, a leitura pode ser um grande desafio. É preciso ensinar a ler para além das linhas, desenvolver as capacidades de compreensão, apreciação e reflexão sobre o sentido do texto. O importante agora é que eles tomem contato com as memórias que estão no final deste Caderno (em “Textos recomendados”), ouçam o texto lido por você em voz alta e, se possível, escolham um deles para reler com mais atenção. Reproduza alguns textos e deixe-os disponíveis para leitura. Você pode colocá-los na biblioteca da sala ou organizar um canto de leitura. Comece lembrando aos alunos que pessoas mais velhas têm muitas coisas para contar, diga-lhes que irá ler um trecho de uma das memórias que eles conhecerão no decorrer das oficinas. Explique que esse texto foi escrito por Antonio Gil Neto. Ele descobriu que o sr. Amalfi Mansutti tinha muitas histórias. Leia em voz alta para eles o trecho do texto apresentado a seguir.

Lá pelos idos de 1929, com cerca de sete anos de idade, era menino feito. Minha vida era um misto de cowboy com Tarzan. Onde hoje fica o Shopping Center Norte era só mato, água e muita, muita terra. Era lá meu paraíso. Meu e dos meus amigos: o Vitorino, o Zacarias... Vivia para jogar futebol, nadar, pescar e caçar passarinhos. Uma brincadeira de que gostávamos muito era “chocar o trem”. Sabe o que é isso? Era subir rapidinho no trem em movimento. Ele andava bem devagar, é claro, levando pedras lá da Serra da Cantareira para construir a cidade. Com o tempo seu trajeto se encheu de bairros: Tucuruvi, Jaçanã, Vila Mazzei, Água Fria e mais o que há agora. Lembra aquela música do Adoniran? Tem a ver com esse trem...
22 memórias

Depois de ler, pergunte aos alunos: • Que fato o autor resgata das memórias do entrevistado nesse trecho? • Qual o significado da expressão “chocar o trem”? • O que mais lhes chamou a atenção na história do sr. Amalfi? Esse foi apenas um trecho das memórias do sr. Amalfi. Que outras aventuras e lembranças será que o autor nos reserva? Para descobrir, leia o texto, na íntegra em “Textos recomendados”.

2ª etapa Nesta etapa o objetivo é explorar outros textos de memórias. Pegue as cópias de alguns dos textos (em “Textos recomendados”) e distribua-as entre os alunos. Leia os títulos e faça perguntas: • O que cada título sugere? • Do que podem tratar os textos? • Qual deles despertou maior curiosidade em cada um? Proponha aos alunos que escolham um dos textos e agrupem de acordo com a preferência. Cada grupo deve ler o texto e comentá-lo. • Quem é o autor? • Qual o motivo de escolha do texto? • Do que fala o texto? • Qual o trecho que desejam destacar e ler para os colegas?

memórias

23

Se achar necessário, adapte a proposta. Escolha com a turma um texto, leia-o em voz alta e, ao final, faça as perguntas sugeridas na página anterior. Os outros textos poderão ser lidos ao longo das demais oficinas. Para concluir, esclareça que as memórias podem falar sobre vários aspectos: o modo de vida das pessoas, como era a escola, as brincadeiras da infância, a transformação da cidade ou do lugar, as festividades, os episódios pitorescos ou os acontecimentos marcantes.

Visitando o passado
Memórias literárias costumam ser escritas com base em lembranças do próprio autor e não numa entrevista com outra pessoa. Embora a situação de produção seja diferente, as características são muito semelhantes às do texto que seus alunos vão produzir: rememoram sentimentos, emoções, acontecimentos, histórias e costumes interessantes e pitorescos do passado. Em “textos recomendados” há tanto memórias relatadas pelo próprio autor quanto escritas com base em entrevistas. Chame a atenção dos alunos para que busquem no final do texto essa informação.

24

memórias

oficina

Sentidos e sentimentos
ObjEtIvOS

• Identificar os recursos utilizados pelos
autores nos textos de memórias literárias. • Entender como se faz a descrição de um acontecimento e como expressar sentimentos por meio das palavras.

memórias

25

Atividades
É importante que a classe acompanhe com atenção a leitura do texto. Providencie cópia para cada aluno (ou para cada dupla). Se não for possível, você poderá copiar o texto na lousa e fazer a leitura coletiva. Leia, a seguir, trecho do livro Transplante de menina, de Tatiana Belinky.

[...] Na Avenida Rio Branco, reta, larga e imponente, embicando no cais do porto [...] tivemos a nossa primeira impressão — e que impressão! — do carnaval brasileiro. [...] O que nós vimos, no Rio de Janeiro, não se parecia com nada que eu pudesse sequer imaginar nos meus sonhos mais desvairados. [...] Aquelas multidões enchendo toda a avenida, aquele corso — desfile interminável e lento de carros, pára-choque com pára-choque, capotas arriadas, apinhados de gente fantasiada e animadíssima. Todo aquele mundaréu de homens, mulheres, crianças, de todos os tipos, de todas as cores, de todos os trajes — todos dançando e cantando, pulando e saracoteando, jogando confetes e serpentinas que chegavam literalmente a entupir a rua e se enroscar nas rodas dos carros... E os lança-perfumes, que que é isso, minha gente! E os “cordões”, os “ranchos”, os “blocos de sujos” — e todo o mundo se comunicando, como se fossem velhos conhecidos, se tocando, brincando, flertando — era assim que se chamavam os namoricos fortuitos, a paquera da época —, tudo numa liberdade e descontração incríveis, especialmente para aqueles tempos tão recatados e comportados... [...] Vi muitos carnavais depois daquele, participei mesmo de vários, e curti-os muito. Mas nada, nunca mais, se comparou com aquele primeiro carnaval no Rio de Janeiro, um banho de Brasil, inesquecível...
Tatiana Belinky. Transplante de menina. São Paulo, Moderna, 2003, pp. 101-103.

26

memórias

Tatiana
tatiana belinky nasceu na Rússia. Aos dez anos, emigrou para o brasil, onde mora até hoje. É considerada uma das maiores escritoras de nossa literatura infanto­juvenil. Em seu livro Transplante de menina, ela narra memórias de sua terra natal, a viagem para o brasil, as pri­ meiras impressões, sua infância e juventude no novo país.

Em seguida, converse com seus alunos sobre o acontecimento que a autora rememora e pergunte por que ela o considera marcante. Comente que, ao contar o que viu, Tatiana usa e abusa da descrição. Com riqueza de detalhes, descreve a Avenida Rio Branco, o desfile dos carros, as multidões, a forma como se vestiam. Peça aos alunos que releiam o texto com você para identificar os trechos em que ela descreve o que viu. Solicite a eles que sublinhem esses trechos.

Descrição
Para fazer uma boa descrição é importante reparar no objeto descrito como se o olhássemos pela primeira vez. Devemos trazer à lembrança sensações, impressões e informações capta­ das pelos nossos sentidos: cheiros, sabores, formas, cores, texturas, sons. A descrição pode ser utilizada como recurso para envolver o leitor e aproximá­lo ainda mais da experiência trazida pelo autor do texto.

memórias

27

Mostre que, além de descrever, ela também conta o que sentiu, já que o carnaval não se parecia com nada do que tinha visto antes e, mesmo depois de ter presenciado outros carnavais, nada se comparou com aquele, inesquecível. Peça a eles que sublinhem, com uma cor diferente da que usaram para marcar a descrição, trechos em que Tatiana conta seus sentimentos e impressões. A autora descreve o que presenciou com tantos detalhes que podemos até imaginar o carnaval daquela época. Explique aos alunos que essa forma de descrever aproxima o leitor do acontecimento narrado.

2

memórias

Ponto-e-vírgula
oficina
ObjEtIvO

• Estudar e aprender a usar sinais
de pontuação.

memórias

29

Atividades
1ª etapa — Vírgulas Quando estamos conversando, usamos a entonação para expressar o que queremos. Por exemplo: elevamos a voz, usamos pausas, fazemos gestos e mímica, mudamos nossa expressão facial. Mas, quando escrevemos, não dispomos desses recursos. Na escrita, são os sinais de pontuação que organizam o pensamento e facilitam a compreensão de quem lê. A pontuação marca as diferenças de entonação e contribui para dar significado ao texto. É importante que os alunos sejam despertados para a necessidade de prestar atenção aos sinais de pontuação, componentes que vão ajudar a organizar as idéias e o texto. Escreva na lousa a frase retirada de Transplante de menina:

Todo aquele mundaréu de homens, mulheres, crianças, de todos os tipos, de todas as cores, de todos os trajes — todos dançando e cantando, pulando e saracoteando, jogando confetes e serpentinas que chegavam literalmente a entupir a rua e se enroscar nas rodas dos carros...
Peça aos alunos que observem os sinais de pontuação usados. Que sinais de pontuação aparecem na frase? Por que eles foram usados? Faça as perguntas dando dicas. Transcreva agora sem as vírgulas o fragmento do texto de Antonio Gil.

O disco ia rodando feito parafuso apressado com seu chiado característico e eu “viajava” pra valer. Meu sangue gelava, minha respiração boiava no peito, meus músculos tiniam... Entrava na floresta, morria de medo do Lobo, torcia pela Chapeuzinho, tinha um dó gigante da vovozinha e achava o caçador um campeão valoroso... Relembro o terror ansioso que sentia quando a história parava num trecho duvidoso ou premente. A Neguinha, meticulosa para virar o disco, limpava-o bem e minuciosamente, com flanela e álcool, fazendo olhos arabescados de Carmem Miranda levantando, ao bel-prazer, suspeitas de que o pior estava por acontecer e que teríamos de ter a coragem suficiente para continuar.

30

memórias

Proponha aos alunos que copiem o trecho no caderno. Em dupla, eles vão colocar as vírgulas que faltam. Depois vão contar à classe o que descobriram. Se tiverem dificuldade em explicar o uso da pontuação, ajude-os. Diga que a vírgula pode ser utilizada tanto para separar elementos de uma enumeração: Meu sangue gelava, minha respiração boiava no peito, meus músculos tiniam... como para introduzir uma explicação a mais sobre quem faz a ação, por exemplo: A Neguinha, meticulosa para virar o disco. Ou Carmem Miranda levantando, ao bel-prazer, suspeitas. Aproveite também para verificar se percebem por que o autor utilizou as reticências.

2ª etapa — Travessão Tatiana Belinky usa outro sinal de pontuação importante: o travessão. Ele serve — entre outras coisas — para destacar trechos ou explicar termos desconhecidos do leitor. Para ajudar os alunos a pensar sobre o uso do travessão, copie na lousa mais alguns trechos de Transplante de menina.

[...] e todo o mundo se comunicando, como se fossem velhos conhecidos, se tocando, brincando, flertando — era assim que se chamavam os namoricos fortuitos, a paquera da época —, tudo numa liberdade e descontração incríveis, especialmente para aqueles tempos tão recatados e comportados... Aquelas multidões enchendo toda a avenida, aquele corso — desfile interminável e lento de carros, pára-choque com pára-choque, capotas arriadas, apinhados de gente fantasiada e animadíssima.
Em seguida, faça perguntas. O que quer dizer “flertando”? O que é “corso”? Onde descobriram essas informações? O que Tatiana Belinky faz para explicar ao leitor o significado dessas palavras? Por que ela acha necessário dar essa explicação ao leitor? O travessão serve para intercalar explicações que o autor pensa que o leitor desconhece. O exemplo abaixo mostra que o travessão pode ser usado também para enfatizar uma passagem. Nesse caso, a impressão marcante do seu primeiro carnaval.

[...] Na Avenida Rio Branco, reta, larga e imponente, embicando no cais do porto [...] tivemos a nossa primeira impressão — e que impressão! — do carnaval brasileiro. [...]
memórias 31

E se os alunos fossem descrever comidas e danças típicas de sua região para quem não as conhece? Ajude-os a selecionar palavras e explicações. Por exemplo: arroz-ferrado — arroz cozido com lascas de carne-seca —; quadrilha — dança típica das festas juninas. Peça a eles que, em dupla, criem frases utilizando o travessão para intercalar as explicações. Se necessário, dê um exemplo:

Os festejos prestavam homenagem a Santo Antônio — santo cultuado pelas moças por sua fama de casamenteiro.

3ª etapa — Ponto de exclamação Os dois autores citados nesta oficina também transmitem ao leitor suas impressões. Para dar ênfase, indicar surpresa, usam outro sinal de pontuação: o ponto de exclamação. Por exemplo:

E os lança-perfumes, que que é isso, minha gente! Quantas gostosuras! Pipoca, pé-de-moleque, cajuzinho, milho verde e um quentão delicioso.
Peça aos alunos que observem, nos fragmentos reproduzidos acima, a pontuação utilizada e sua finalidade. Aproveite para deixar claro à turma que o ponto de exclamação é usado para transmitir ao leitor sentimentos como espanto, admiração, surpresa ou alegria. Agora, mostre para os alunos fotos de alguma festa típica da cidade. Caso não seja possível, procure fotos de festas populares em livros e revistas ou na internet. O importante é que elas sejam nítidas e dêem uma visão geral da festa. Em duplas ou trios, os alunos vão observar as fotografias. Chame a atenção para alguns elementos presentes nas fotos: cenário, objetos, cores, formas, luminosidade, movimento, vestuário, semblante das pessoas. Incentive os grupos a trocarem suas impressões, para então elaborarem um pequeno texto, de dois ou três parágrafos. Lembre aos alunos que devem cuidar da forma como vão trazer as informações e impressões sobre a festa, para que realmente envolvam o leitor.

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memórias

Nem sempre foi assim
na
ObjEtIvOS

ici

• Sensibilizar os alunos para as
emoções dos relatos de memórias. • Observar como os autores comparam o tempo antigo com o atual. • Identificar palavras e expressões usadas para remeter ao passado.

of

memórias

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Atividades
Ao escreverem memórias, os autores se preocupam em caracterizar os lugares e as pessoas do passado. Eles também fazem a comparação entre o tempo antigo e o atual, mostrando as diferenças. Esse aspecto, próprio do gênero memórias, será ressaltado nesta oficina. Procure sensibilizar os alunos para as emoções associadas às lembranças do passado. Afinal, esse é um recurso utilizado pelos autores para atrair o leitor. É conveniente que os alunos tenham o texto em mãos. Providencie cópias para cada um deles (ou podem ler em duplas). Se isso não for possível, copie o texto na lousa ou numa folha grande de papel e faça a leitura coletiva. Apresente para os alunos a escritora Zélia Gattai, autora do livro de memórias Anarquistas graças a Deus.

Zélia
Zélia Gattai nasceu em São Paulo, em 1916. Casada com o escritor baiano jorge Amado, mora há vários anos em Salvador. Zélia foi eleita para a Academia brasileira de Letras em 2001. A autora escreveu vários livros de memórias. No primeiro, Anarquistas graças a Deus, conta a história de sua família de imigrantes italianos e relembra sua infância em São Paulo.

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memórias

Leia para a classe o trecho abaixo em voz alta e depois peça a cada aluno que o releia em silêncio.

Naqueles tempos, a vida em São Paulo era tranqüila. Poderia ser ainda mais, não fosse a invasão cada vez maior dos automóveis importados, circulando pelas ruas da cidade; grossos tubos, situados nas laterais externas dos carros, desprendiam, em violentas explosões, gases e fumaça escura. Estridentes fonfons de buzinas, assustando os distraídos, abriam passagem para alguns deslumbrados motoristas que, em suas desabaladas carreiras, infringiam as regras de trânsito, muitas vezes chegando ao abuso de alcançar mais de 20 quilômetros à hora, velocidade permitida somente nas estradas. Fora esse detalhe, o do trânsito, a cidade crescia mansamente. Não havia surgido ainda a febre dos edifícios altos; nem mesmo o “Prédio Martinelli” — arranha-céu pioneiro em São Paulo, se não me engano do Brasil — fora ainda construído. Não existia rádio, e televisão, nem em sonhos. Não se curtia som em aparelhos de alta-fidelidade. Ouvia-se música em gramofones de tromba e manivela. Havia tempo para tudo, ninguém se afobava, ninguém andava depressa. Não se abreviavam com siglas os nomes completos das pessoas e das coisas em geral. Para que isso? Por que o uso de siglas? Podia-se dizer e ler tranqüilamente tudo, por mais longo que fosse o nome por extenso — sem criar equívocos — e ainda sobrava tempo para ênfase, se necessário fosse. Os divertimentos, existentes então, acessíveis a uma família de poucos recursos como a nossa, eram poucos. Os valores daqueles idos, comparados aos de hoje, no entanto, eram outros; as mais mínimas coisas, os menores acontecimentos, tomavam corpo, adquiriam enorme importância. Nossa vida simples era rica, alegre e sadia. A imaginação voando solta, transformando tudo em festa, nenhuma barreira a impedir meus sonhos, o riso aberto e franco. Os divertimentos, como já disse, eram poucos, porém suficientes para encher o nosso mundo.
Zélia Gattai. Anarquistas graças a Deus. Rio de Janeiro, Record, 1986, p. 23.

Para ajudar seus alunos a entender o texto, pergunte a eles: • Como eram os carros? E o trânsito? • Como eram as construções? • O que a autora quer dizer com a expressão “imaginação voando solta”? • Como era a vida das pessoas? E seus valores? Como se divertiam? Observe os detalhes do texto. Neles Zélia Gattai faz muitas comparações entre os dias de hoje e o tempo em que era menina. Continue a conversa, retomando as perguntas e incentivando os alunos a procurar no texto essas comparações. memórias 35

A autora descreve a cidade e explica como ela era. Para escrever, parece que fez várias perguntas a si mesma e depois as retirou, deixando só algumas e as respostas. É interessante mostrar isso aos alunos porque, de certa forma, é o que eles farão para escrever o texto final, com base nas entrevistas. Proponha aos alunos que fechem os olhos, fiquem em silêncio e pensem em algum lugar a que costumavam ir quando pequenos. Como era esse lugar? O que ele tem de peculiar? Que sentimentos ele despertava? O que os moradores faziam nesse lugar? Relembra alguma ocasião, algum fato marcante? Solicite a eles que escrevam um pequeno trecho relatando essas lembranças. Em seguida, farão a leitura do texto produzido para os colegas. Ressalte que essa leitura deve ser preparada com uma atenção especial ao tom de voz e ao ritmo para envolver e emocionar os ouvintes. Você pode ainda convidar a turma a dramatizar alguns dos textos produzidos. Para isso, os alunos podem se organizar em pequenos grupos e trazer para a escola objetos, peças de vestuário, instrumentos musicais ou canções que enriqueçam a apresentação. Por fim, peça aos alunos que façam comentários sobre os textos e as apresentações dos diferentes grupos.

Biblioteca
A visita a uma biblioteca pode ampliar ainda mais o repertório de seus alunos. Se na cidade em que você mora ou na escola em que você leciona há uma biblioteca, leve sua turma para conhe­ cer o acervo e descobrir outros textos de memórias. Aproveite a oportunidade para ensiná­los a localizar e consultar livros na biblioteca: pelo título, autor, assunto, gênero. Incentive­os a se cadastrarem para que possam retirar materiais para leitura.

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memórias

No pretérito
oficina
ObjEtIvO

• Observar o uso do pretérito
perfeito e do imperfeito.

memórias

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Atividades
1ª etapa O autor de memórias usa verbos no passado para marcar um tempo do qual se lembra e já se foi. Esta oficina trata dos tempos verbais essenciais no gênero memórias: pretérito perfeito e pretérito imperfeito. Escreva na lousa o seguinte fragmento:

[...] Eu era uma meninota cheia de saúde, alegre e festejada por todos pela cara de anjo que Deus me deu com olhos azuis e um cabelo louro cacheado. Mas meu pai, um agricultor da região, caiu em desgraça. De repente, perdeu toda a safra com a seca que, de tempos em tempos, expulsava gente para a Capital ou outras regiões do País.
Ariadne Araújo. Histórias da velha Arigó.

Pergunte para a turma se é possível identificar o tempo em que os fatos se deram. Há expressões que marcam o momento exato em que as ações ocorreram? Pelos verbos usados, é possível saber se a ação ocorre no presente ou no passado? Avise então que você vai lançar um desafio maior. Escreva na lousa outro trecho de memórias reproduzidas em “Textos recomendados”, desta vez de Rostand Paraíso:

Usávamos “bolas de meias”, preparadas por nós mesmos com papel de jornal compactado e colocado dentro de uma meia de mulher, mas já começávamos a usar bolas de borrachas e as “bolas-de-pito”, que eram bolas de couro, com pito para fora e que tínhamos o cuidado de envergar para dentro, para evitar arranhaduras.
Rostand Paraíso. Antes que o tempo apague...

3

memórias

E agora? Em que tempo ocorreram os fatos relatados? Também no passado? Peça aos alunos que comparem os dois textos e expliquem a diferença entre os tempos verbais do passado. Observe se percebem que, no primeiro fragmento, predomina o pretérito perfeito e, no segundo, o pretérito imperfeito. O pretérito perfeito indica uma ação pontual, completamente terminada no passado, como, por exemplo: deu, caiu, perdeu. Ele é adequado para relatar ações “fechadas”, que ocorreram em uma situação pontual. O pretérito imperfeito indica ação habitual no tempo passado, fato cotidiano que se repete muitas vezes. Ele é adequado para a descrição de situações que ocorriam “com freqüência”. Por exemplo: usávamos, tínhamos, começávamos.

Verbos nos textos
verbos são palavras variáveis que têm a propriedade de localizar o fato no tempo em rela­ ção ao momento em que se fala. Podem ser flexionados em três tempos básicos: presen­ te, passado e futuro. O presente indica uma ação, estado ou fenômeno da natureza que ocorre no momento em que se fala; o futuro, algo que irá ocorrer após o momento em que se fala; e o pretérito, por sua vez, se aplica a fatos anteriores ao momento da fala. Sempre que o autor quer marcar o grau de certeza de que um fato realmente ocorreu, está previsto ou prestes a ocorrer, utiliza o modo indicativo, que retrata situações consideradas reais por parte de quem fala.

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2ª etapa Escreva na lousa o trecho abaixo, também retirado de um dos textos inseridos no final deste Caderno:

Em fins de 1913 um tenente do Exército Nacional recém-chegado a Cruz Alta foi proposto por um colega de armas para sócio do Clube Comercial, baluarte da burguesia local. Não sei por que o motivo não foi aceito. O fato causou sensação na cidade. Falou-se em represálias da parte da guarnição federal contra a sociedade. Nada, porém, aconteceu. Chegou dezembro, os jasmins-do-cabo floresceram no nosso pequeno jardim.
Érico Veríssimo. Solo de clarineta, v. 1.

Pergunte: • Quando ocorreu o fato que o autor narra? Como podemos saber? Além da data, o autor usa outras palavras que indicam o passado? Quais são elas? Para melhor visualização, circule os verbos com giz colorido. Em seguida, questione: • Em que tempo estão os verbos? Por que o autor usou esse tempo verbal? Mostre que Veríssimo usou os verbos “causar”, “falar”, “acontecer”, “chegar” no pretérito perfeito, porque eles indicam ações pontuais terminadas no passado. Escreva na lousa o trecho abaixo e faça o mesmo exercício anterior.

Meu figurino era feito por minha mãe: uma camisa clara, bem limpa e passadinha com ferro de brasa. Com meus colegas ia ver o que estava em cartaz. [...] Também me recordo do cine Vogue e de Seu Carvalho, seu dono e operador, que, ao constatar a enorme fila na bilheteria, dizia para nós, garotos, com certo orgulho solene, só haver lugares em pé. Entrávamos mesmo assim. Depois de alguns minutos já tínhamos nossos lugares escolhidos e... sentados. No escurinho do filme começado, queimávamos um barbante malcheiroso que fazia todo mundo desaparecer de nosso lugar preferido. Comédia pura, não é?
Antonio Gil Neto. Como num filme.

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memórias

Saliente que o autor usa os verbos “ser”, “ir”, “dizer”, “entrar”, “ter” e “queimar” no pretérito imperfeito, porque eles exprimem o tempo cotidiano, que contém ações repetidas muitas vezes no passado. O autor quer mostrar que não foi uma única vez ao cine Vogue, mas muitas vezes. Explique aos alunos que você retirou o trecho abaixo das memórias de Ariadne Araújo (que se encontra também em “Textos recomendados”). Transcreva a passagem na lousa e desafie-os a completar as lacunas. Nossa família lados. Um deles (ir) morar nas margens de um igarapé. No meio das árvo­ (saber) que havia perigos de todos os (ser) as patrulhas de bolivianos que (estar) (passar) (ser) mesmo verdade, (chegar). No comando, uma res, da vida na selva, a gente

(andar) na área expulsando os brasileiros. Uma noite, nós já todos dormindo quando um desses grupos mulher boliviana. A notícia (ser) morte certa. Mas se isso naquela noite patrulha (ver) e se olhos azuis. Ela sobre minha cabeça e longe dali. (ser) que onde eles

(ser) salvos por uma espécie de milagre. Armas na mão, a (prender) toda minha família, mas a chefe me (encantar) comigo, com meu cabelo loiro, com meus (perguntar) meu nome, (passar) a mão (dizer) para meu pai que me levasse para

Pergunte aos alunos por que, na última frase, o autor utiliza um verbo no pretérito, mas do subjuntivo (“que me levasse para longe dali”). Veja se percebem que aí não há tom de certeza, mas de possibilidade de aquilo ocorrer. A mulher faz uma sugestão. Recomenda ao pai da narradora que a leve dali. O pai poderia ou não seguir esse conselho.

Perfeito ou imperfeito?
Nas memórias, o pretérito perfeito marca as ações que se destacam: “Uma dessas patrulhas chegou”. O uso do pretérito imperfeito, porém, marca o “tempo do relembrar”, que é o tempo das memórias.

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memórias

oficina

Marcas do passado
ObjEtIvO

• Identificar palavras e
expressões que marcam o tempo passado.

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Atividades
1ª etapa Nesta oficina, que complementa a anterior, os alunos devem identificar as palavras que ajudam a localizar o leitor na época em que os fatos ocorreram. Transcreva os trechos abaixo em tiras de papel. Organize os alunos em trios e distribua uma tira para cada grupo. Para facilitar seu trabalho, assinalamos as palavras que marcam o tempo passado. Mas, ao transcrever o texto para os alunos, você não deve destacá-las. Peça a cada trio que sublinhe todas as palavras — não só verbos — que mostram que os episódios ocorreram no passado. Em seguida, cada grupo faz a leitura das palavras assinaladas. À medida que forem lendo, registre as respostas corretas na lousa. Marcando o tempo passado

Os divertimentos, existentes então, acessíveis a uma família de poucos recursos como a nossa, eram poucos.
Zélia Gattai. Anarquistas graças a Deus.

Com o passar dos anos, veio o tempo do trabalho para valer. De aprendiz de químico tornei-me o titular na fábrica de perfumes dos libaneses. Fiz de tudo lá: brilhantina, rouge, pó-de-arroz, produtos muito usados na época. Veio também o tempo do namoro sério e, com ele, o cinema com sorvete a dois.
Antonio Gil Neto. Como num filme.

[...] e todo o mundo se comunicando, como se fossem velhos conhecidos, se tocando, brincando, flertando — era assim que se chamavam os namoricos fortuitos, a paquera da época —, tudo numa liberdade e descontração incríveis, especialmente para aqueles tempos tão recatados e comportados...
Tatiana Belinky. Transplante de menina.

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Em 1912 chegou-me, primeiro através dos comentário dos mais velhos e depois nas páginas das revistas do Rio de Janeiro, a notícia do naufrágio do Titanic.
Érico Veríssimo. Solo de Clarineta.

Naqueles tempos a vida em São Paulo era tranqüila.
Zélia Gattai. Anarquistas graças a Deus.

Convide os alunos a se colocarem no lugar de autores de memórias. Conte-lhes alguma situação que você, professor, viveu na sua infância (algo que seja bem diferente daquela dos dias de hoje). Peça aos trios que escrevam o episódio relatado por você usando uma das palavras escritas na lousa. Para finalizar, compartilhe a produção de cada grupo.

2ª etapa Agora, divida a classe em grupos de seis alunos. Para agilizar, você pode pedir aos trios que se juntem de dois em dois. Escreva na lousa as palavras e expressões abaixo: • gramofone de tromba e manivela • zagaia • lorota Peça a cada aluno que discuta o significado delas e escreva uma definição para as palavras e expressões apresentadas e, depois, leia para os colegas. Não vale consultar o dicionário neste momento. Explique que as palavras foram retiradas de textos de memórias e se referem a objetos ou costumes antigos. Lembre-lhes que, na Oficina 6, eles aprenderam o uso do travessão para explicar o significado das palavras.

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Transcreva na lousa as frases abaixo. Em seguida, pergunte aos alunos se agora conseguem explicá-las melhor do que fizeram antes.

Na minha ótica de primeira infância, o Pantanal me parecia mais perigoso que belo. Tinha medo de cobras (a jararaca, a cascavel e a sucuri) e das onças (parda e pintada), então abundantes nas várzeas e capões. A suprema forma de coragem era a caçada de onça com zagaia.
Roberto Campos. Lanterna na popa.

Não se curtia som em aparelhos de alta-fidelidade. Ouvia-se música em gramofones de tromba e manivela.
Zélia Gattai. Anarquistas graças a Deus.

Quebrávamos as pontas dos lápis e com o descaramento e a falsa pretensão de deixarmos todos eles apontadinhos para a letra ficar bem desenhada e bem bonita nas nossas brochuras, lá íamos nós, atrás da porta e com a gilette em punho, armar em cochichos a melhor estratégia para o próximo jogo. Tudo lorota!
Antonio Gil Neto. Como num filme.

A leitura dos trechos de onde foram retiradas as palavras ajuda a descobrir o sig­­ nificado de cada uma delas. Para mobilizar os alunos, você pode fazer perg­untas: • Para que serve a “zag­aia”? Para que as pessoas usavam o “g­ramofone”? Vocês podem imag­inar o que é “flerte”? Peça aos alunos que voltem à definição que fizeram anteriormente e vejam se é necessário fazer alg­uma mudança. Cada g­rupo deve apresentar à classe o que escreveram antes e depois da leitura dos textos. Para finalizar, oriente os alunos a procurar o sig­nificado dessas palavras no di­ cionário ou apresente­lhes as definições abaixo: • Zagaia = lança curta de arremesso. • Gramofone de tromba e manivela = aparelho antig­o que reproduzia sons g­ravados em disco. Para fazê­lo funcionar, g­irava­se uma manivela e o som saía por uma tromba em formato de concha. • Lorota = piada, mentira.

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memórias

oficina

A entrevista
ObjEtIvO

• Planejar e realizar
entrevistas com pessoas mais velhas da comunidade.

memórias

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Atividades
Este é um momento muito importante do trabalho. Você e seus alunos vão escolher pessoas para contar histórias que servirão de base para os textos de memórias. Uma vez escolhidos os entrevistados, você deve preparar as entrevistas com seus alunos. Provavelmente serão necessárias duas ou mais aulas para realizar esta oficina.

Escolhendo os temas Converse com os alunos sobre os temas que eles gostariam de abordar nas entrevistas, por exemplo: • O que as pessoas mais velhas da nossa comunidade poderiam nos contar? O que vocês gostariam de saber? Desperte o interesse deles por coisas sobre as quais ainda não pensaram. Leia e discuta com seus alunos cada tópico do item abaixo. Eles irão ajudar a pensar sobre as coisas mais importantes para a sua comunidade.

Temas que podem despertar lembranças nos entrevistados A conversa sobre o tema deve permitir a ligação das lembranças com lugares da comunidade. Por exemplo, se o tema for namoro, é preciso que a pessoa conte quais os lugares onde se podia namorar. Talvez ela diga algo do tipo: “Eu morava naquela casa que ainda existe na rua tal. Lá tem um terraço, mas minha mãe não deixava que eu namorasse ali, porque poderia ficar mal falada na vizinhança”.

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• Modos de viver do passado: o jeito de namorar, freqüentar a escola, brincar, cozinhar, relacionar-se com os pais; o modo de vestir, comprar, viajar, cultivar a terra, comercializar, produzir objetos, festejar datas especiais; a participação na vida social.

• Transformações físicas da comunidade: aparência das
construções, ruas e praças de outros tempos, história da construção de edifícios, do crescimento da cidade, da destruição da natureza do lugar.

• Origem da comunidade: se a comunidade for nova, poderá haver pessoas que tenham lembranças de como ela começou, por que motivo, de onde vieram os primeiros habitantes, como eram as pri meiras moradias, as escolas, os hospitais.

• Antigos lugares de trabalho: uma fábrica que deu emprego a muita gente e fechou, uma fazenda onde as pessoas trabalhavam e moravam, uma empresa pequena que cresceu muito, uma venda que virou supermercado, as pequenas lojas que desapareceram com a chegada dos shopping centers.

• Profissões que desapareceram: nas

grandes cidades, por exemplo, os leiteiros e padeiros que vinham com suas carrocinhas entregar leite e pão, as costureiras que trabalhavam nas fábricas de roupa ou nas casas de pessoas abastadas, as datilógrafas e suas máquinas de escrever.

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4

• Eventos marcantes: uma grande enchente, uma comemoração importante, uma festa tradicional, a vinda de um presidente, o buraco que se abriu no chão e engoliu parte do bairro, um grande acidente, uma vitória marcante do time da cidade. Coloque os temas na lousa e peça aos alunos que escolham um ou mais deles. Registre os que forem selecionados numa grande folha de papel, que será colocada em local bem visível.

Escolhendo os entrevistados Quais pessoas da comunidade podem ter lembranças sobre os assuntos que desejamos conhecer e, por isso, os escolhemos para contar? Faça com a classe uma lista dessas pessoas. Pais, avós e outros membros da comunidade também podem ajudar nessa tarefa. Defina com a turma as pessoas que serão entrevistadas. Os escolhidos devem ter disponibilidade para receber os alunos ou para vir à escola conversar com eles. Ajude-os a levantar pelo menos três ou quatro nomes para que seus alunos tenham opção de escolha. Quaisquer pessoas podem ser boas contadoras de história, contar fatos engraçados ou tristes. O importante é que deixem claro como sentiram e viveram esses acontecimentos. As lembranças do entrevistado não precisam ser exatamente a história verdadeira do lugar. O que interessa é que sejam fortes e significativas para quem as conta.

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A entrevista As entrevistas devem, de preferência, ser feitas na escola. Assim todos os alunos podem participar delas. A duração da entrevista não deve ultrapassar 40 minutos, para não ficar cansativa. Se houver muito material, será mais difícil para o aluno escolher as melhores partes e organizar o texto que vai escrever. Vocês podem gravar a entrevista, sempre lembrando de pedir antes a permissão ao entrevistado. Recomende aos alunos que anotem os pontos mais importantes e usem as anotações para recuperar a história mais tarde. É fundamental criar um clima de respeito e conquistar a confiança do entrevistado. Ele precisa se sentir à vontade para contar suas lembranças. Durante a entrevista, você, professor, deve ficar atento para, se necessário, intervir, por exemplo, para evitar que o entrevistado fuja do tema. Deixe-o falar, associar lembranças e ajude-o se o relato ficar pouco objetivo ou sem graça. A fim de direcionar a entrevista para o tema desejado, podese começar com um comentário do tipo: “Sabemos que, na época em que o senhor era criança, houve uma grande enchente na cidade que destruiu tudo”, ou: “Havia uma fábrica onde trabalhava muita gente”. É importante que o entrevistado faça comparações entre o passado e o presente e descreva lugares e costumes de antigamente.

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O aluno pode levar algumas perguntas, mas não deve ficar preso a elas. O objetivo é conversar para conseguir boas histórias. As perguntas servem para ajudar o entrevistado a revelar sensações e sentimentos sobre o que está contando. Procure não elaborar um questionário com perguntas muito objetivas, por exemplo: “Em que ano o senhor se casou?”, pois elas podem ser respondidas com poucas palavras e inibir relatos interessantes. No final da conversa, deve-se mostrar ao entrevistado como foi importante a contribuição que ele deu. Antes de se despedir, combine que ele será procurado para aprovar o que foi escrito pelos alunos. Se estiver de acordo, precisará assinar uma autorização para a publicação do texto final. Caso o resultado não tenha sido satisfatório, procure novamente o entrevistado e marque outro encontro.

Do oral para o escrito
Na passagem de um texto oral para um escrito é preciso retomar a intenção, a situação co­ municativa, os interlocutores a que se destina o texto. No caso do gênero entrevista, por exemplo, transformamos o discurso oral, toda dinâmica própria da conversa informal, dos depoimentos coletados, em discurso escrito. Na oralidade, de acordo com a reação do interlocutor, repetimos a informação, mudamos o tom, reformulamos a explicação. já na escrita, é preciso eliminar as marcas interacionais e incluir a pontuação; apagar as repetições e redundância; organizar turnos de fala em pa­ rágrafos, num percurso do menos para o mais formal.

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memórias

oficina

Ensaio geral
ObjEtIvO

• Produzir um texto coletivo.

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Atividades
Nesta oficina, os alunos escreverão um texto coletivamente. Isso irá ajudá-los a resgatar e organizar os recursos aprendidos nas oficinas anteriores. Será um trabalho na chamada “zona proximal” do desenvolvimento cognitivo, quando a troca de informações entre estudantes de uma mesma turma permite que os colegas que estão em um momento mais avançado do conhecimento auxiliem o processo de aprendizagem dos demais e o seu próprio, pois aquele que ensina sempre aprende. Nesse “ensaio geral” os alunos vão passar o discurso oral para o papel. O texto coletivo exige negociação entre você e sua turma. Nessa negociação, há espaço para a troca entre alunos mais e menos experientes e a oportunidade para o crescimento de todos.

Zona proximal
A expressão zona proximal foi criada por vigotski, para designar, na evolução cognitiva das pes­ soas, as aprendizagens que elas conseguem realizar com auxílio de parceiros mais experientes no conteúdo a ser aprendido. Ela antecede a zona real do conhecimento apropriado, quando o aprendiz pode realizar a tarefa proposta sem ajuda. O papel do professor é atuar na zona proxi­ mal, identificando e planejando a ajuda que pode dar a seus alunos por meio de conversas, explicações e atividades.

A produção coletiva precisa ocorrer de forma organizada, evitando a dispersão, tão comum nos trabalhos coletivos com os alunos. O seu papel é promover a concentração e atenção, além de ajudar na construção do texto, fazendo perguntas e dando orientações. Explique aos alunos que a escrita coletiva é uma etapa importante para a preparação dos textos que concorrerão aos prêmios. Diga que essa é uma atividade que exige tempo e será desenvolvida em duas aulas.

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memórias

Relembre com eles cada uma das oficinas. Ajude-os a fazer um rápido resumo de tudo o que aprenderam sobre as memórias literárias. Você pode anotar os pontos principais em um cartaz e afixá-lo na sala. Agora, escolha uma das entrevistas feitas na oficina anterior. Retome com a turma as anotações feitas ou ouçam juntos a gravação. Hora de escrever o primeiro parágrafo. Nele é interessante apresentar o entrevistado ao leitor. O começo do texto pode contar rapidamente quem ele é e por que foi escolhido. Ajude a turma a escrever o primeiro parágrafo e vá anotando na lousa. Leia em voz alta para ver se todos concordam. Inclua as alterações sugeridas. E o segundo parágrafo? Agora, os alunos vão tomar o lugar do entrevistado na narrativa das memórias. O texto será escrito em primeira pessoa, como se o próprio entrevistado estivesse contando sua história. Veja se todos entenderam que eles vão fazer de conta que são o entrevistado narrando suas memórias. As memórias devem manter aquele tom gostoso de conversa, mas usando palavras próprias de textos escritos. Por isso, ele não deve ter gírias a não ser que sejam de época, nem repetir as expressões próprias do oral: “e daí”, “e depois”, “né” etc. É interessante começar com a lembrança do entrevistado que foi mais marcante para a turma, a que mais chamou a atenção dos alunos. Converse com eles como deve ser o parágrafo, depois registre na lousa.

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Continue organizando a escrita dos parágrafos seguintes. Diga que as memórias não seguem obrigatoriamente a ordem cronológica, ou seja, nem sempre são contadas na seqüência em que ocorreram. O fio condutor deve ser o tema escolhido, por exemplo, as lembranças do entrevistado sobre o lugar onde vive. As referências a esse lugar, ao longo do texto, ajudam a manter a unidade. Faça perguntas para ajudar a turma a colocar as idéias no texto. Lembre aos alunos que o tempo verbal mais comum desse gênero é o passado. O pretérito perfeito é usado para fatos que ocorreram uma vez e não se repetiram. O pretérito imperfeito, para fatos que se repetem muitas vezes ou que não haviam terminado no tempo em que são narrados. O texto deve falar de objetos e lugares antigos comparando-os com o que existe hoje. Deve também usar a pontuação para organizar a narrativa e expressar as emoções. Sentimentos, impressões e sensações não podem faltar e devem ser revelados ao longo das memórias. Depois de escrito, é preciso escolher o título. Ajude os alunos a pensar em algo sugestivo. O título tem que dar pista do que será contado no texto. Tudo pronto, releia com os alunos, pergunte-lhes se o texto está gostoso de ser lido. Se eles estão satisfeitos com a escrita, se é possível fazer alguma coisa para melhorá-la. Para o aprimoramento do texto, você pode usar o roteiro para revisão apresentado na Oficina 13, nas páginas 62 e 63. No final do texto, os alunos devem incluir informações sobre o entrevistado: nome completo, idade, profissão e cidade em que mora.

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memórias

Agora é minha vez
ObjEtIvO

oficina

• Escrever individualmente
o texto final.

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Atividades
Chegou a hora tão esperada! O produto desta oficina será o texto individual que, aprimorado, participará do concurso. Seu entusiasmo é importante para estimular a turma! Afinal, dali poderá sair um texto para concorrer na Olimpíada. As demais produções irão compor uma coletânea que circulará entre os colegas da escola e as famílias dos alunos. Para a produção do texto individual, os alunos devem escolher uma das entrevistas, deixando de fora aquela que foi usada para o texto coletivo. Comece recuperando o que já foi trabalhado. Lembre ao seu aluno que ele deve:

• Retomar as informações dadas pelo entrevistado no depoimento. • Selecionar as histórias e fatos mais interessantes e pitorescos. • Preservar o jeito particular de a pessoa contar aquilo que viveu. • Transmitir ao leitor as sensações e emoções que surgiram durante
a entrevista e as narradas pelo entrevistado.

• Citar objetos e costumes de antigamente, fazendo comparações
entre o passado e o presente.

• Usar palavras e expressões que marquem o tempo passado. • Mostrar os sentimentos e sensações rememorados pelos entrevistados: as cores, os cheiros, os sabores e os movimentos. A preparação e a revisão dos originais serão sempre feitas em sala de aula até a produção do texto final.

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Últimos retoques
oficina
ObjEtIvO

• Fazer a revisão e o
aprimoramento do texto.

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Atividades
1ª etapa A revisão do texto é muito importante. Mesmo autores consagrados revisam e reescrevem seus trabalhos inúmeras vezes. Antes da revisão, porém, deve-se fazer um exercício — vide quadro abaixo — que ajudará a tarefa de aperfeiçoamento do texto. Vamos usar um exemplo de texto que, por suas falhas, não seria classificado no concurso, e indicaremos o que deveria ser melhorado. Explique aos alunos que você vai transcrever na lousa um texto de memórias que não seria classificado para a Olimpíada. Desafie-os a pensar com você como melhorar esse texto. Que sugestões vocês dariam a quem o escreveu? O que fazer para que o trabalho fique mais interessante? Divida a lousa ao meio. Na coluna da esquerda, copie o texto. A coluna da direita fica reservada para as sugestões dos alunos. Usando os comentários como apoio, vá fazendo perguntas aos alunos, ajudando a turma a perceber os problemas. Quando encontrarem a melhor forma para resolver as questões apontadas, reescreva o texto, incluindo as sugestões, na coluna da direita.

Comentários
O texto está em terceira pessoa. Mudar o texto para a primeira pessoa ajuda a dar um tom mais afetivo e emocionante ao texto. O autor poderia trazer suas impressões sobre o lugar descrevendo cores, cheiros, fazendo comparações entre o passado e o presente. Poderia buscar uma linguagem literária, que enredasse mais o leitor.

Iniciar o parágrafo com uma expressão como “Naquele tempo” ajuda a situar o leitor na época em que os fatos ocorreram. Trazer impressões e sentimentos poderia ajudar a despertar as emoções do leitor.

O texto precisa ser concluído, trazendo, por exemplo, o entrevistado ao tempo atual.

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Estimule os alunos a pensar, trocar idéias e tirar conclusões. Organize a vez de cada um deles falar. Quando for preciso, esclareça dúvidas, aponte as questões que eles não identificam e as possíveis soluções. No final, peça aos alunos que comparem as duas colunas e mostre a eles como um texto pode ganhar em qualidade depois de ser revisto.

Texto original
Dona Dulce tem 74 anos. Nasceu e cresceu em Marlândia, numa época mais tranquïla. Ela me contou que desde que nasceu até hoje Marlândia mudou bastante. A cidade era simples e pequena, com poucas casas, quase todas feitas de taipa. As poucas ruas que existiam eram de terra, por onde passavam a boiada, charretes e apenas alguns poucos carros. A cidade tinha muita poeira e tudo era mais mato do que casas. A casa era ainda mais simples. O chão era terra pura, as camas eram cavaletes, o fogão era a lenha. Na prateleira dava para colocar poucas coisas como pratos que foram da minha avó e as panelas que minha mãe areava. Tinha meia dúzia de cadeiras velhas para as visitas.

Sugestão de aprimoramento
Nasci e cresci em Marlândia, numa época bem mais tranqüila. Desde que nasci, há 74 anos, a cidade mudou bastante. A cidade era simples e pequena, com poucas casas, ainda de taipa. Pelas ruas de terra passavam boi, boiada, charretes e, bem diferente de hoje em dia, apenas alguns poucos carros. A cidade tinha cheiro de poeira e de mato. A casa onde eu morava era ainda mais simples: chão de terra vermelha, camas feitas de cavaletes e o cheiro do fogão a lenha avisava o que estava no fogo. A prateleira, apesar de pequena, exibia os pratos herdados de vovó e panelas areadas, que serviam de espelho. Fora isso, meia dúzia de cadeiras com a madeira já gasta pelo tempo esperavam as visitas. Naquele tempo, eu brincava bastante com as bonecas de sabugo de milho. Fazíamos bichinhos com legumes e jogávamos futebol e queimada com bola de meia. Quando eu estudava, a escola era difícil, para poucos. A qualquer deslize, era palmatória e joelhos no milho, no canto da sala. Certa vez, um garoto foi parar no hospital depois que a professora exagerou no corretivo. Quando a professora se aproximava, minhas mãos tremiam e eu me transformava numa verdadeira estátua de gelo. O tempo passou depressa e hoje vivo com meus netos e as lembranças do passado.

Falou que brincava bastante de boneca, que era feita de sabugo de milho. Também costumava fazer bichinhos com legumes e jogar futebol ou queimada com bola de meia. Ela contou que quando estudava a escola era para poucos, e qualquer erro tinha castigos severos. Os alunos ficavam em cima do milho e eram punidos com a palmatória. Ela sentia muito medo da professora. Teve uma vez em que um menino foi parar no hospital depois dos castigos que recebeu. Dona Dulce diz que muito tempo se passou e hoje ela vive com seus netos, relembrando o passado.

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2ª etapa Entregue as produções individuais para que cada aluno retome o exercício e faça a revisão do próprio texto. Para ajudar na tarefa, prepare um cartaz com o roteiro abaixo. Roteiro para revisão 1. O título do texto é sugestivo? Instiga o leitor? 2. O narrador usa a primeira pessoa para contar as lembranças do entrevistado? O que pode ser feito para que o texto seja relatado em primeira pessoa? 3. O texto traz palavras e expressões que situam o leitor no tempo passado? Há outros trechos em que é possível acrescentá-las? 4. O autor descreve objetos antigos, lugares que se modificaram ou já não existem? 5. O texto estabelece relações entre a narrativa do entrevistado e o lugar onde vive? O que pode ser feito para reforçar essa ligação? 6. O autor expressa em seu texto sensações, emoções e sentimentos do entrevistado? É possível encontrar no depoimento outras impressões que possam ser inseridas no texto? 7. Há no texto trechos com marcas da linguagem oral (“né”, “daí” etc.) que devem ser transformadas em discurso escrito? 8. Os verbos no pretérito perfeito e imperfeito são usados da maneira certa? 9. O texto consegue envolver o leitor? Ele desperta o interesse e prende a atenção? 10. Há alguma palavra que não está escrita corretamente? E a pontuação está adequada? Os alunos podem usar lápis ou caneta de cor diferente para destacar mudanças. Eles podem marcar a reorganização ou o acréscimo de idéias, a correção de palavras, as mudanças na pontuação. 62 memórias

Ao final do exercício (pode ser na aula seguinte), os alunos passarão o texto a limpo. Selecionem algumas memórias — entre as escritas por sua turma — e as enviem para a Comissão Julgadora Escolar. Pronto, o trabalho está feito! Agora, é só esperar pelo resultado!

Organização da coletânea
No início deste volume, sugerimos que os textos dos alunos sejam reunidos num livro de memórias. Se você gostou da sugestão, orga­ nize os textos e monte uma coletânea com as histórias escritas. Pronto o livro, é hora de valorizar essa conquista. Prepare uma ceri­ mônia especial para o lançamento. Convide os pais e os entrevistados. Faça a leitura de alguns textos. Como a coletânea traz memórias da cidade, você pode levar uma có­ pia do livro à biblioteca municipal. E, claro, reservar um exemplar para a biblioteca da escola. Outra idéia é enviar algumas histórias para o jornal do bairro, da igreja ou de outra instituição.

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Critérios de avaliação

Para a comissão julgadora
É importante que os avaliadores leiam este Caderno. A comissão julgadora deve manter a coerência e valorizar o que foi trabalhado pelos professores nas oficinas. Deve considerar, sobretudo, se o texto descreve reminiscências e lembranças de pessoas mais velhas de forma agradável ao leitor. A tabela ao lado deve ser utilizada pelos avaliadores individualmente. Ela orientará a equipe a atribuir os pontos.

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Categoria II — Gênero Memórias
(7ª e 8ª séries do Ensino Fundamental ou 8º e 9º anos do Ensino Fundamental de Nove anos) - - Dez pontos (no máximo) deverão ser atribuídos aos trabalhos de acordo com critérios descritos abaixo.

Os 7 pontos atribuídos aos aspectos próprios do gênero estão divididos em:
Pertinência ao tema proposto

1,0

• O texto deve abordar o tema “O lugar onde vivo”, trazendo as memórias de um antigo morador que recupera a história do lugar. • Há comparações entre o presente e o passado. • Há palavras e expressões que indicam uma época, situando o leitor no tempo passado. • Usa adequadamente os verbos no pretérito perfeito e imperfeito. • Refere-se a objetos, lugares e modos de vida que já não existem ou se transformaram. • Evidencia sentimentos, emoções e impressões sobre os acontecimentos, fatos etc. que estão sendo evocados. • Descreve, quando necessário, lugares, pessoas etc. • Explica, quando necessário, o que querem dizer certas expressões antigas ou o significado de certas palavras em desuso. • O texto deixa transparecer que o autor fez entrevistas para produzi-lo, recuperando lembranças de outros tempos relacionadas ao lugar onde vive. • O autor usou recursos que tornam o texto interessante, literário, e enredam o leitor. • O texto tem um título sugestivo.

Presença de elementos do gênero “memórias”

3,0

Evidências de realização de entrevistas Originalidade

2,0 1,0

Os 3 pontos atribuídos aos aspectos mais gerais do texto estão divididos em:
• Evita marcas de oralidade. • Concordância verbal. • Concordância nominal. • Pontuação. • Uso de maiúscula. • Uso de parágrafo. • Correção ortográfica. • Texto legível.

Aspectos gerais de gramática e ortografia

3,0

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Textos recomendados
Como num filme
Antonio Gil Neto
Não foi difícil cair nas graças de Seu Amalfi. Direto, sincero, amoroso, foi logo falando de sua vida, com um jeito meio solto, especial, como quem vai montando uma seqüência de cenas em nosso pensamento. De início, estáticas e em preto-e-branco, e, aos poucos, em impulsos coloridos. Depois de uma ou outra pergunta, quase nem precisei falar mais nada. Apenas ouvir, entregar-se à brincadeira da memória era o que bastava. Ele foi contando, contando e imagens foram se instalando em mim como quem entra em um filme. “Esse cheirinho de café pendurado no vento leve conduz a meu tempo mais antigo. Pensei ouvir bem baixinho um fiapo de uma canção napolitana e tudo veio à tona. Logo lembrei-me de minha mãe torrando café, fazendo o pão, a macarronada. Bem que procuro não pensar muito para não marejar os olhos. O começo de tudo foi na Itália. De lá vieram meus pais. Fugidos do horror da guerra, acabaram por fazer a vida aqui em São Paulo, onde nasci. É a partir dessas lembranças que minha cabeça parece uma máquina de fabricar filmes. Recordo muita coisa. Não só do que minha mãe contava, mais ainda das que eu vivi. Lá pelos idos de 1929, com cerca de sete anos de idade, era menino feito. Minha vida era um misto de cowboy com Tarzan. Onde hoje fica o Shopping Center Norte era só mato, água e muita, muita terra. Era lá meu paraíso. Meu e dos meus amigos: o Vitorino, o Zacarias... Vivia para jogar futebol, nadar, pescar e caçar passarinhos. Uma brincadeira de que gostávamos muito era ‘chocar o trem’. Sabe o que é isso? Era subir rapidinho no trem em movimento. Ele andava bem devagar, é claro, levando pedras da Serra da Cantareira para construir a cidade. Com o tempo seu trajeto se encheu de bairros: Tucuruvi, Jaçanã, Vila Mazzei, Água Fria e mais o que há agora. Lembra aquela música do Adoniran? Tem a ver com esse trem... Da escola não gostava tanto. Não era um bom aluno, mas era esperto, vivido. Isso sim. O que acabava ajudando em muitas situações... Em um abrir e fechar dos olhos da memória lá estão a escola, o corre-corre das crianças e todos eles, intactos e em plena labuta do dia: Dona Albertina, Dona Isabel, Seu Luís, os professores. Ainda o Seu Peter, o diretor, e Seu Luigi, o servente. Quantas vezes em meio à cópia da lousa, que seguia plena em silêncio e dever, disparava um piscar enviesado para meus companheiros de time. Quebrávamos as pontas dos lápis e com o descaramento e a falsa pretensão de deixarmos todos eles apontadinhos para a letra ficar bem desenhada e bem bonita nas nossas brochuras, lá íamos nós, atrás da porta e com a gilette em punho, armar em cochichos a melhor estratégia para o próximo jogo. Tudo lorota! Meio moleque, meio mocinho, sempre dava algum jeito de arranjar um dinheirinho para ir à Voluntários, uma das poucas ruas calçadas do bairro, nas matinês do cine Orion. Meu figurino era feito por minha mãe: uma camisa clara, bem limpa e passadinha com ferro de brasa. Com meus colegas ia ver o que estava em cartaz. Bangue-bangue era o melhor. Lembro-me do Buck Jones, do Rin Tin Tin, do Roy Rogers e mais uma porção daqueles bambas do momento. Também me recordo do cine Vogue e de Seu Carvalho, seu dono e operador, que, ao constatar a enorme fila na bilheteria, dizia para nós, garotos, com certo orgulho solene, só haver lugares em pé. Entrávamos mesmo assim. Depois de alguns minutos já tínhamos nossos lugares escolhidos

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e... sentados. No escurinho do filme começado, queimávamos um barbante malcheiroso que fazia todo mundo desaparecer de nosso lugar preferido. Comédia pura, não é? Com o passar dos anos, veio o tempo do trabalho para valer. De aprendiz de químico torneime o titular na fábrica de perfumes dos libaneses. Fiz de tudo lá: brilhantina, rouge, pó-de-arroz, produtos muito usados na época. Veio também o tempo do namoro sério e, com ele, o cinema com sorvete a dois. Minha vida era um filme de aventuras, mais que outra coisa. Tive de vencer muitos obstáculos. E foi um bom tempo assim. Construir uma família não é fácil, mas, como se sabe, o amor sempre vence. Como nos filmes de amor, acabei me casando em technicolor e em cinemascope, como um galã, com minha Mercedes, mais bonita que Greta Garbo ou qualquer outra estrela de Hollywood. Com ela comecei a freqüentar o centro de São Paulo. Íamos de bonde elétrico, descíamos na Praça do Correio e andávamos de braços dados pelos pontos mais elegantes da cidade. Misturados aos carros que pertenciam a gente muito rica, estavam os cabriolés, uma espécie de carroça puxada a cavalos... Na Avenida São João estavam os melhores cinemas: o Marabá, o Olido, com seus camarotes e frisas. Quantos filmes! ‘O Canal de Suez’, ‘O Morro dos Ventos Uivantes’, ‘E o Vento Levou!’. Vejo-nos direitinho, como em um musical indo para a cidade de bonde. O condutor, o Delmiro, mais parecia um bailarino, um Fred Astaire tropical, por conta dos trejeitos, malabarismos de corpo que fazia ao parar, descer, cumprimentar, receber as pessoas, acomodá-las e, enfim, conduzir o bonde. Era mais que um motorneiro. Esse era um show à parte! Se bem me lembro, o cinema me acompanhou a vida inteira. Isso porque sou do tempo do cinema mudo, veja você, onde os violinos e o piano faziam nossa imaginação ouvir as vozes e sentir as emoções dos artistas que passavam rápidos nas telas. Depois veio o cinema falado e para nós isso era a maior e a melhor invenção. Olhando para o que se passou, constato que fui um bom freqüentador das telas. Com chuva ou com sol! Até nossa primeira filha, com poucos meses de idade, não impedia nossa diversão preferida! Era nossa figurante proibida. Íamos ao Bom Retiro, ao cine Lux. Lá eu conhecia todo mundo e sentávamos com a menina nos braços bem na última fila, caso precisássemos sair às pressas para acalmar um choro repentino. Assistimos a tantas histórias e nossa menina dormia profundamente. Quase sempre. Talvez por conta de trabalho, das exigências da vida, dos cuidados com a família e mesmo com a facilidade da televisão, acabei me dando conta de que fiquei muito tempo sem ir ao cinema. Engraçado, agora que estou praticamente sozinho, em conseqüência das perdas que a vida nos traz, o cinema volta com toda a força. Não perco quase nada do que passa nos shoppings perto de casa. Tudo é mais confortável, imenso. Mas tudo é mais barulhento, apressado e real demais. Não sobra muito tempo para sonharmos. Mesmo assim, quero ir a outros cinemas desta cidade que cresceu e cresce tanto. O jeito é me armar de um celular para que minha filha não fique tão preocupada comigo por causa dessas minhas novas aventuras cinematográficas.” Quando releio o que está escrito, não sei onde está o que o Seu Amalfi me contou e onde está o que projetei de sua vida em mim. Engraçado mesmo! Perdi-me nos labirintos da imaginação, onde o presente e o passado se fundem em um só desenho. A memória brinca com o tempo, como em um filme, como uma criança feliz.
Antonio Gil Neto, escritor paulista. Texto escrito com base no depoimento do sr. Amalfi Mansutti, 82 anos.

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Parecida mas diferente
Zélia Gattai
O pai de Zélia Gattai costumava contar a história de como sua família havia vindo da Itália para o Brasil. Uma vez, quando ele narrava a viagem dos Gattai — que era o nome da família de seu pai —, Zélia, então menina, observou que Eugênio, seu avô materno, escutava atentamente. Então, pediu a ele que também contasse a história da família da mãe, os Da Col.

Vovô veio da Itália com toda a família, contratado como colono para colher café numa fazenda em Cândido Mota, em São Paulo. Nona Pina passou a viagem toda rezando, pedindo a Deus que permitisse chegarem com vida em terra. Tinha verdadeiro pavor de que um dos seus pudesse morrer em alto-mar e fosse atirado aos peixes. Carolina ressentiu-se muito da viagem, estranhou a alimentação pesada do navio, adoeceu, mas desembarcaram todos vivos no porto de Santos. A família fora contratada por intermédio de compatriotas do Cadore, chegados antes ao Brasil. Diziam viver satisfeitos aqui e entusiasmavam os de lá através de cartas tentadoras: “Venham! O Brasil é a terra do futuro, a terra da ‘cucagna’... pagam bom dinheiro aos colonos, facilitam a viagem...” Com os Da Col, no mesmo navio, viajaram outras famílias da região, todos na mesma esperança de vida melhor nesse país promissor. Viajaram já contratados, a subsistência garantida. Em Santos, eram aguardados por gente da fazenda, para a qual foram transportados, comprimidos como gado num vagão de carga. Ao chegar à fazenda, Eugênio Da Col deu-se conta, em seguida, de que não existia ali aquela “cucagna”, aquela fartura tão propalada. Tudo que ele idealizara não passava de fantasia; as informações recebidas não correspondiam à realidade: o que havia, isto sim, era trabalho árduo e estafante, começando antes do nascer do sol; homens e crianças cumpriam o mesmo horário de serviço. Colhiam café debaixo de sol ardente, os três filhos mais velhos os acompanhando, sob a vigilância de um capataz odioso. Vivendo em condições precárias, ganhavam o suficiente para não morrer de fome. A escravidão já fora abolida no Brasil, havia tempos, mas nas fazendas de café seu ranço perdurava. Notificados, certa vez, de que deviam reunir-se, à hora do almoço, para não perder tempo de trabalho, junto a uma frondosa árvore, ao chegar ao local marcado para o encontro os colonos se depararam com um quadro deprimente: um trabalhador negro amarrado à árvore. A princípio, Eugênio Da Col não entendeu nada do que estava acontecendo, nem do que ia acontecer, até divisar o capataz que vinha se chegando, chicote na mão. Seria possível, uma coisa daquelas?

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Tinham sido convocados, então, para assistir ao espancamento do homem? Não houve explicações. Para quê? Estava claro: os novatos deviam aprender como se comportar; quem não andasse na linha, não obedecesse cegamente ao capataz, receberia a mesma recompensa que o negro ia receber. Um exemplo para não ser esquecido. O negro amarrado, suando, esperava a punição que não devia tardar; todos o fitavam, calados. De repente, o capataz levantou o braço, a larga tira de couro no ar, pronta para o castigo. Então era aquilo mesmo? Revoltado, cego de indignação, o jovem colono Eugênio Da Col não resistiu; não seria ele quem presenciaria impassível ato tão covarde e selvagem. Impossível conter-se! Com um rápido salto, atirou-se sobre o carrasco, arrebatando-lhe o látego das mãos. Apanhado de surpresa, diante da ousadia do italiano, perplexo, o capataz acovardou-se. O chicote, sua arma, sua defesa a garantir-lhe a valentia, estava em poder do“carcamano”; valeria a pena reagir? Revoltado, fora de si, esbravejando contra o capataz em seu dialeto dos Montes Dolomitas, o rebelde pedia aos companheiros que se unissem para defender o negro. Todos o miravam calados. Será que não compreendiam suas palavras, seus gestos? Certamente sim, mas ninguém se atrevia a tomar uma atitude frontal de revolta. Católico convicto, ele fazia o que lhe ditava o coração, o que lhe aconselhavam os princípios cristãos... De repente, como num passe de mágica, o negro viu-se livre das cordas que o prendiam à árvore. O capataz apavorou-se. Quem teria desatado os nós. Quem teria? O topetudo não fora, estava ali em sua frente, gesticulando, gritando frases incompreensíveis, ameaçador, de chicote em punho... O melhor era desaparecer o quanto antes, rapidamente: “esses brutos poderiam reagir contra ele. A prudência mandava não facilitar”. Nessa mesma tarde, a família Da Col foi posta na estrada, porteira trancada para “esses rebeldes imundos”. Estavam despedidos. Nem pagaram o que lhes deviam. “Precisavam ressarcir-se do custo do transporte de Santos até a fazenda...” E fim. Pela estrada deserta e infinita, seguiu a família, levando as trouxas de roupas e alguns pertences que puderam carregar, além da honradez, da coragem e da fé em Deus.
Zélia Gattai. Anarquistas graças a Deus. 11a ed. Rio de Janeiro, Record, 1986, pp. 160-162.

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Transplante de menina
Tatiana Belinky
[...] Depois do almoço, continuávamos o nosso turismo carioca. Papai e mamãe, mais o primo — feliz proprietário de uma “baratinha” — nos levavam, todos empilhados, a passear pela cidade do Rio de Janeiro. E foi assim que ficamos conhecendo o Morro da Urca e o Pão de Açúcar — ai, que emoção — pelo funicular, o “bondinho” pendurado entre aqueles enormes rochedos. E de onde se descortinava uma vista empolgante, só superada pela paisagem de tirar ainda mais o fôlego que se estendeu diante de nossos olhos, quando subimos — passageiros de outro trenzinho incrível, quase vertical — ao alto do Corcovado. Ali ainda não se erguia a estátua do Cristo Redentor, que é hoje o cartão-postal do Rio de Janeiro. Mas me parece que o panorama era, por estranho que pareça, bem mais “divino” ao natural, sem ela. Fomos passear também na Gávea e na Avenida Niemeyer, ainda bastante deserta, e na Tijuca, com a sua floresta e a sua linda Cascatinha. “Cascatinha”, por sinal, era o nome da cerveja que papai tomava com muito gosto, enquanto nós, crianças, nos amarrávamos num refrigerante incrível que tinha o estranho nome de Guaraná. Não deixamos de passear pelo centro da cidade, na elegantíssima Rua do Ouvidor, e na muito chique Cinelândia, em frente ao Teatro Municipal e suas escadarias, com seus bares e sorveterias na calçada. E, claro, na Avenida Rio Branco, reta, larga, e imponente, embicando no cais do porto, por onde chegamos ao Brasil pela primeira vez. E foi nessa avenida Rio Branco que tivemos a nossa primeira impressão — e que impressão! — do carnaval brasileiro. Eu já tinha ouvido falar em carnaval: na Europa, era famoso o carnaval de Nice, na França, com a sua decantada batalha de flores; e o carnaval de Veneza, mais exuberante, tradicional, com gente fantasiada e mascarada dançando e cantando nas ruas. E havia também os luxuosos, e acho que “comportados”, bailes de máscaras, em muitas capitais européias. Eu já ouvira falar em fasching, carnevale, Mardi Gras — vagamente. Mas o que eu vi, o que nós vimos, no Rio de Janeiro, não se parecia com nada que eu pudesse sequer imaginar nos meus sonhos mais desvairados.

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Aquelas multidões enchendo toda a avenida, aquele “corso” — o desfile interminável e lento de carros, pára-choque com pára-choque, capotas arriadas, apinhados de gente fantasiada e animadíssima. Todo aquele mundaréu de homens, mulheres, crianças, de todos os tipos, de todas as cores, de todos os trajes — todos dançando e cantando, pulando, saracoteando, jogando confetes e serpentinas que chegavam literalmente a entupir a rua e se enroscar nas rodas dos carros... E os lança-perfumes, que que é isso, minha gente! E os “cordões”, os “ranchos”, os “blocos de sujos” — e todo o mundo se comunicando, como se fossem velhos conhecidos, se tocando, brincando, flertando — era assim que se chamavam os namoricos fortuitos, a paquera da época —, tudo numa liberdade e descontração incríveis, especialmente para aqueles tempos tão recatados e comportados... Tanto que, ainda vários anos depois, uma marchinha carnavalesca falava, na sua letra alegremente escandalizada, da “moreninha querida... que anda sem meia em plena avenida”. Ah, as marchinhas, as modinhas, as músicas de carnaval, maliciosas, buliçosas e engraçadas, algumas até com ferinas críticas políticas... E os ritmos, e os instrumentos — violões, cuícas (coisa nunca vista!), tamborins, reco-recos... E finalmente, coroando tudo, as escolas de samba, e o desfile feérico dos enormes carros alegóricos das sociedades carnavalescas — coisa absolutamente inédita para nós — com seus nomes esquisitos, “Fenianos”, “Tenentes do Diabo” — cada qual mais imponente, mais fantástico, mais brilhante, mais deslumbrante, mais mirabolante — e, para mim, nada menos que acachapante! E pensar que a gente não compreendia nem metade do que estava acontecendo! Todo aquele alarido, todas aquelas luzes, toda aquela agitação, toda aquela alegria desenfreada — tudo isso nos deixou literalmente embriagados e tontos de impressões e sensações, tão novas e tão fortes que nunca mais esqueci aqueles dias delirantes. Vi muitos carnavais depois daquele, participei mesmo de vários, e curti-os muito. Mas nada, nunca mais, se comparou com aquele primeiro carnaval no Rio de Janeiro, um banho de Brasil, inesquecível...
Tatiana Belinky. Transplante de menina. 3a ed. São Paulo, Moderna, 2003, pp. 101-103.

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Histórias da velha Arigó
Ariadne Araújo
O causo que eu vou contar agora mudou a minha vida para sempre. E da minha família também. Até aquela época, com apenas oito anos de idade, eu vivia uma vida calma numa pequena cidade de serra de nome Baturité, no meu Ceará. Eu era uma meninota cheia de saúde, alegre e festejada por todos pela cara de anjo que Deus me deu com olhos azuis e um cabelo louro cacheado. Mas meu pai, um agricultor da região, caiu em desgraça. De repente, perdeu toda a safra com a seca que, de tempos em tempos, expulsava gente para a Capital ou outras regiões do País. Naquele ano, nos idos de 1910, depois de mais um prejuízo, ele resolveu que chegara a nossa vez de ir embora. O destino escolhido era o distante Acre, na fronteira do Brasil com outros dois países, a Bolívia e o Peru. Igual ao de milhares de outros nordestinos na mesma situação, dispostos a arriscar tudo ou nada no Norte do País, nas imensidões e perigos da floresta Amazônica. De tão pequena, muita coisa perdeu-se na minha memória. Mas alguns episódios nunca mais vão se apagar. O dia da partida, por exemplo. No antigo porto de Fortaleza, no bairro por nome Iracema, a gente tinha a imensa visão do mar e, lá longe, da grande embarcação que nos levaria para longe. Mas, do alto da ponte de ferro onde esperávamos o embarque, era difícil imaginar de que forma chegaríamos até o navio, cujo apito alto mandava o aviso nervoso de que já era tempo de partir. Mas logo, logo saberíamos a resposta. Com o apito, o negócio era apressar a partida. Os adultos desciam por conta própria até o bote que nos levaria ao navio. Mas, na nossa vez, o tratamento era o mesmo dado às cargas. Para não perder tempo, cada um de nós, pequeninos, era jogado da ponte metálica para o bote onde os pais e familiares tratavam de segurar o vôo ainda no ar. Mas, antes da minha vez, o arremesso de uma criança não deu certo. No bote, o homem não conseguiu alcançá-lo a tempo e o menino acabou batendo a cabeça e caindo no mar.

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Morreu na hora. Diante de nós, em meio ao terror daquela cena, as ondas gigantes mostravam que o risco de morte estava apenas começando. Nos interiores da Amazônia, meu pai foi trabalhar como seringueiro, entrando pelo território da Bolívia, tirando o sustento da extração do leite branco das seringueiras, as enormes árvores de onde se tirava o látex para fazer a borracha. Nossa família foi morar nas margens de um igarapé. No meio das árvores, da vida na selva, a gente sabia que havia perigos por todos os lados. Um deles eram as patrulhas de bolivianos que andavam na área expulsando os brasileiros. Uma noite, nós já estávamos todos dormindo, um desses grupos chegou. No comando dessa patrulha, uma mulher boliviana. A notícia era que onde eles passavam era morte certa. Mas, se isso era mesmo verdade, naquela noite fomos salvos por uma espécie de milagre. Armas nas mãos, a patrulha prendeu toda a minha família, mas a chefe me viu e se encantou comigo, com meu cabelo loiro, com meus olhos azuis, algo nunca visto por aquelas bandas, naqueles tempos. Ela perguntou o meu nome, passou a mão sobre minha cabeça e disse ao meu pai que me levasse dali para o mais longe possível. Depois, foi embora sem nos fazer mal algum. Lembro que foi exatamente isso que meu pai fez. No dia seguinte, cedo da manhã, a família fez a mudança. Fomos morar numa área habitada por muitos outros brasileiros, já dentro do território do Brasil, onde estaríamos em segurança. Muitos anos mais tarde, quando meu pai morreu, eu, já adulta, voltei para a minha terra de nascença. Mas nunca poderia esquecer estas coisas que eu conto agora para os meus netos. Uma história cheia de riscos e de aventuras. A história da minha vida. Da minha família. Também dos primeiros trabalhadores que povoaram a Amazônia brasileira no começo do século XX.
Texto de Ariadne Araújo, jornalista cearense, escrito com base no depoimento de Edilberto Cavalcanti Reis, neto de Alice Augusta Peixoto Cavalcante, narradora-personagem dessa história.

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Meus tempos de criança
Rostand Paraíso
Pulávamos os muros e ganhávamos os quintais das casas vizinhas, enormes e cheias de fruteiras e de toda a sorte de animais, gatos, cachorros, galinhas, patos, marrecos e outros mais. Chupando mangas, gostosas mangas, mangas-espada, mangas-rosa e manguitos, esses quase sempre os mais saborosos, dividíamos os times e organizávamos as peladas de fundo de quintal que exigiam grande malabarismo de nossa parte, com as frondosas árvores para driblar e grandes irregularidades no terreno para contornar. Usávamos “bolas de meias”, preparadas por nós mesmos com papel de jornal compactado e colocado dentro de uma meia de mulher, mas já começávamos a usar bolas de borrachas e as “bolas-de-pito”, que eram bolas de couro, com pito para fora e que tínhamos o cuidado de envergar para dentro, para evitar arranhaduras. Gostosas, memoráveis tardes que se prolongavam até a noitinha, parando-se apenas quando não havia mais sol e quando não podíamos mais ignorar os gritos que vinham de nossa casa, para tomar banho, mudar de roupa e ir jantar. As mesmas misteriosas ordens faziam-nos começar a desengavetar nossos times de botão para a temporada que iria se iniciar. Os botões eram polidos e engraxados. Descobríamos, nos botões das capas e dos jaquetões e, também, nas tampas de remédios, promissores craques. Nossos pais começavam a estranhar, sem encontrar qualquer explicação para o fato, o desaparecimento das tampas dos xaropes e dos botões das roupas. Esses craques em potencial, novos valores que surgiam, eram devidamente preparados e passávamos dias a lixá-los e, para lhes dar mais peso e maior aderência à mesa, a enchê-los com parafina derretida. Trabalho que levava às vezes algumas semanas, os novos craques sendo testados exaustivamente até que nos déssemos por satisfeitos e os considerássemos prontos e aprovados para as grandes competições pela frente.

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Os botões de chifre, preparados pelos presos da Casa de Detenção, onde íamos comprá-los, começavam, pela sua robustez e pela potência de seus chutes, a ganhar nossa preferência. Não gostávamos, porém, daqueles botões que vinham do Sul, de plástico, todos iguais, diferençando-se uns dos outros apenas pelas “camisas” que traziam coladas sobre si, com as cores dos clubes cariocas. Preferíamos, nós mesmos, pregar as cores do nosso time preferido, no meu caso o Santa Cruz. Cada botão ganhava seu nome, Perácio, Leônidas, Patesko, Pitota, Sidinho, Siduca... botões que já não tenho mais, desaparecidos misteriosamente ao longo do tempo. Meu ponta-esquerda, Tarzan, que tantas alegrias me deu, com suas arrancadas para o campo adversário e com seus mirabolantes gols, que fim terá levado? Preferíamos usar as bolas de farinha, arredondadas cuidadosamente na palma da mão e que permitiam um bom controle, correndo menos que as de miolo de pão e não tanto quanto as de borracha. Dentro daquelas regras que adotávamos e que permitiam que continuássemos a jogar enquanto não perdêssemos o controle da bola, éramos obrigados, quando nos sentíamos em condições de tentar o chute a gol, a avisar o adversário: “Defenda-se!” ou “Prepare-se!”, dando tempo a que ele posicionasse melhor o seu goleiro e puxasse, para junto dele, os beques, geralmente bem altos, com a finalidade de dificultar o chute rasteiro. As partidas eram irradiadas por um de nós, ao estilo de José Renato, o famoso locutor esportivo da PRA-8, e os gols, quando convertidos, eram gritados histericamente, incomodando toda a vizinhança.
Rostand Paraíso. Antes que o tempo apague… 2a ed. Recife, Comunicarte, 1996, pp. 131-132.

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A ameixeira-do-japão
Érico Veríssimo
Em 1912 chegou-me, primeiro através dos comentários dos mais velhos e depois nas páginas das revistas do Rio de Janeiro, a notícia do naufrágio do Titanic. Profundamente comovido, senteime na borda do canteiro onde estava plantada a ameixeira-do-japão e ali fiquei, calado e imóvel, tentando recriar no espírito a horrível tragédia que havia devorado mais de mil vidas humanas. Eu “via” o transatlântico afundando no negror gelado da noite e do mar: o pequeno grupo de passageiros na proa (ou na popa?) cantando um hino religioso — “Mais perto quero estar, ó meu Deus, de ti!”. E me fazia perguntas para as quais não encontrava resposta. Se estava no poder de Deus ter evitado a catástrofe, por que Ele não o fizera? Afinal de contas, que queria de nós o Supremo Arquiteto do Universo, que, segundo um símbolo maçônico, tinha o olho triangular? Eu me imaginava a bordo do transatlântico na noite fatal. Via o enorme iceberg no meio do oceano e o paquete aproximar-se dele, inescapavelmente. Creio que naquela noite tive um pesadelo em que uma montanha de gelo crescia diante de meu pavor. [...] Pouco mais de um ano após essa tragédia marítima, eu seria testemunha dum dramático incidente ocorrido ali mesmo na nossa cidade. Em fins de 1913 um tenente do Exército Nacional recém-chegado a Cruz Alta foi proposto por um colega de armas para sócio do Clube Comercial, baluarte da burguesia local. Não sei por que motivo não foi aceito. O fato causou sensação na cidade. Falou-se em represálias da parte da guarnição federal contra a sociedade. Nada, porém, aconteceu. Chegou dezembro, os jasminsdo-cabo floresceram no nosso pequeno jardim. Seu perfume era para mim o prenúncio de acontecimentos agradáveis: o meu aniversário (muitos presentes), o Natal (idem) e finalmente as férias de verão. Os membros de nossa “melhor sociedade” esperavam com alvoroço o reveillon do Comercial. As mulheres mandavam fazer vestidos, compravam sapatos, preparavam as suas jóias, discutiam penteados. Os homens tiravam dos guarda-roupas seus smokings recendentes a naftalina e mandavam limpá-los e passá-los a ferro. Havia no ar, em estado quase palpável, uma expectativa alegre. Chegou finalmente a noite de 31 de dezembro. Uma banda de música, como de costume, foi contratada para tocar no baile. Começaria inteira, na hora da polonaise inicial, e depois seria reduzida ao que era conhecido como “um terno”, que ficaria marcando o compasso das danças até o final da festa. O grande momento seria à meia-noite, hora em que o ano de 1914 entraria festivamente ao som de canções, gritos, vivas, abraços, beijos,votos, esperanças, frenéticos atropelos... Meu irmão e eu obtivemos permissão de nossos pais para ir “espiar” o baile, confiados à guarda de d. Afonsina Masson, mãe de nossa vizinha d. Zaíra.Tínhamos uma grande afeição por essa senhora de cabelos grisalhos, católica fervorosa, suave de voz e gestos. De nosso canto, no vestíbulo do clube, junto da porta do salão de festas, vimos nosso pai marcar a polonaise — bem como faria o dr. Rodrigo Cambará no Clube Comercial de Santa Fé, numa cena do romance que eu iria escrever quase quarenta anos mais tarde. Sebastião Verissimo, que ostentava um cravo branco na botoeira de seu smoking, pareceu-me o “dono da festa”. Depois da polonaise começaram as danças. Meus olhos percorriam o salão, viam as mães de família sentadas nas cadeiras, ao longo das quatro paredes, dizendo-se segredinhos por trás dos leques,

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olhando com orgulho, apreensão ou esperança para as filhas casadouras que valsavam com alguns dos “bons partidos” da cidade. Uma atmosfera perfumada enchia o recinto iluminado. Muitos olhavam repetidamente para seus relógios, esperando impacientes o fim do ano. Longe, nos bairros pobres, estrondavam foguetes prematuros. E eis que, quando os músicos fizeram uma pausa, ouviu-se um tiroteio cerrado e próximo, identificado pelos entendidos como produzido por armas de guerra. Balas começaram a zunir por cima das cabeças das pessoas que se encontravam na área descoberta do clube. Os que olharam para os fundos do terreno da sociedade, que davam para outra rua, viram o clarão das detonações. Os projéteis cravavam-se nas paredes posteriores do edifício, estilhaçavam vidraças. Gerou-se então o pânico. Os homens e as mulheres que estavam na área compreenderam que o Comercial estava sendo alvo de um ataque à mão armada. A confusão se generalizou, começaram os atropelamentos, mulheres gritavam, algumas desmaiavam, as pessoas que caíam ao chão eram pisoteadas pelas que fugiam às cegas.A gritaria era assustadora. Vi um homem atirar-se duma das sacadas fronteiras do edifício, caindo sentado na calçada. Outros o imitaram. Meu coração começou a bater mais forte, ao ritmo do medo. D. Afonsina, segurando nossas mãos, rompeu a correr escadas abaixo, enquanto murmurava uma prece, e fomos buscar refúgio numa casa da vizinhança. Pernas frouxas, o coração na garganta, mas nem por isso menos curioso, aproximei-me duma janela e por uma fresta em suas cortinas fiquei olhando a fachada do Comercial. Vi um homem com a mão ensangüentada, uma dama gordíssima, muito conhecida na nossa comunidade, caminhando descabelada e manca, pois tinha perdido no entrevero um de seus sapatos. Pessoas continuavam a saltar das sacadas. O tiroteio durou mais alguns minutos. Em breve já se sabia que os assaltantes eram soldados do Regimento de Infantaria local, comandados por um tenente que os embriagara antes de levá-los ao criminoso ataque. Horas mais tarde chegou-nos a notícia de que o delegado de polícia, Antoninho Pereira, descera até o fundo do clube para averiguar do que se tratava e fora assassinado com um balaço de Mauser. Ouvi uma voz dizer na penumbra daquela sala onde estávamos refugiados: “É o fim do mundo!”. Pensei então nos meus pais. Que lhes teria acontecido? Terminado o tiroteio, o tenente marchou com seus comandados até à frente do edifício do clube, como se quisesse invadir-lhe o recinto. Sebastião Veríssimo postou-se no alto da escada que levava ao vestíbulo e, engasgado de indignação, dirigindo-se ao oficial e seus comandados, bradou: “Corja de covardes e canalhas! Vocês só têm coragem para espingardear mulheres, velhos e homens desarmados!”. Os poucos varões que haviam permanecido dentro do clube arrastaram meu pai para dentro do prédio. O tenente, depois de gritar bravatas, levou seus soldados, rua do Comércio acima, numa formatura que pouco ou nada tinha de militar. Nenhuma das pessoas presentes ao baile foi atingida pelas balas, mas muita gente se feriu no atropelo. Várias mulheres tiveram ataques de nervos. Era já madrugada quando meu irmão e eu chegávamos à nossa casa. D. Bega, que arrumava as camas, murmurava: “É melhor a gente ir viver na campanha, onde essas barbaridades não acontecem”. O que nenhum de nós sabia era que ela viveria o tempo suficiente para ter notícia de duas guerras mundiais, sendo que a segunda custaria a vida de 30 milhões de seres humanos, dos tempos de concentração e extermínio nazistas, do massacre dos judeus e dos bombardeios de Dresden, Hiroshima e Nagasaki.
Érico Veríssimo. Solo de clarineta. 20a ed. São Paulo, Companhia das Letras, v. 1, 2005, pp. 106-109. © by herdeiros de Érico Veríssimo.

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A saga da Nhecolândia
Roberto de Oliveira Campos
Surgiu então a Nhecolândia, cujas peripécias eu ouvia, fascinado, como criança, nos serões à luz do lampião, defendendo-me dos mosquitos, pólvoras e mutucas na Fazenda Alegria. [...] Meu avô, Vicente Alexandre de Campos, ali se instalou para fundar uma fazenda — o retiro Paraíso. As terras baixas da Nhecolândia, nome dado em homenagem ao desbravador, abrangiam cerca de 23,5 mil quilômetros quadrados, mais de um sexto dos 140 mil quilômetros quadrados que constituem o Pantanal mato-grossense. Nheco comandou o que, por assim dizer, se poderia chamar uma grande operação comunitária, fazendo doações de terras aos que se animassem a participar da rude aventura. [...] Na minha ótica de primeira infância, o Pantanal me parecia mais perigoso que belo. Tinha medo de cobras (a jararaca, a cascavel e a sucuri) e das onças (parda e pintada), então abundantes nas várzeas e capões. A suprema forma de coragem era a caçada de onça com zagaia. Também levara o susto da piranha, quando entrei desprevenido na baia adjacente à Fazenda Alegria. Quase perdi o dedão do pé direito. Era infernal o incômodo dos mosquitos, os pólvoras e as mutucas. Nas longas viagens de carros de boi, comia-se carne-seca e farinha de mandioca, ou assava-se um pacu pescado no rio. Bebia-se de manhã o “tererê”, o guaraná ralado em língua de pirarucu. De vez em quando se matava um boi para o churrasco. O pacu era o peixe favorito e democrático, pois de fácil pesca. — Pacuzão para os ricos, pacuzinho para os pobres, pacu p´ra nós todos, era o refrão dos vaqueiros. As bebidas eram o guaraná ralado e o indefectível chimarrão. [...] As belezas do Pantanal, com seus corixos, baías e várzeas, que no começo das chuvas pareciam jardins formais, com riqueza de flora e fauna, só entraria na minha percepção trinta anos mais tarde, quando voltei, como superintendente do BNDE, ciceroneando uma turma de banqueiros do Eximbank, de Washington.
Roberto de Oliveira Campos. A lanterna na popa. Rio de Janeiro, Topbooks, 1994, pp. 131-133.

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Da lamparina à energia elétrica
Tarine Silva Ribeiro O sítio da vovó Valdenice fica em São João de Iracema, num lugar muito bonito e, o melhor de tudo, é que é pertinho da cidade. É para lá que eu vou aos finais de semana. No sábado passado, eu resolvi ir ao sítio à noite. Eu já tinha atravessado a porteira quando, de repente, a luz se apagou..., mas pernas pra que te quero! Ao perceber que eu tinha medo de escuro, vovó caiu na risada e resolveu me contar sobre a sua infância, onde apenas uma lamparina e a lua brilhante iluminavam a singela casa de pau-a-pique onde morava com sua família. “O escuro não me amedrontava, só incomodava um pouco na hora de ir na privada que ficava afastada da casa: eu tinha receio de cair no buraco.” Eu nasci e fui criada na nossa pequena e sossegada São João de Iracema, mais precisamente onde o Judas perdeu as botas, na calorenta região Noroeste do Estado de São Paulo. Antigamente, nossa cidade era conhecida como “Os Poços”, devido aos boiadeiros que aqui passavam para abastecerem-se de água e refrescarem-se do calor do sertão agreste. Na vila, a criançada só cuidava de duas coisas: brincar e aprender. Eu nunca mais consegui me esquecer do dia em que a ranzinza da professora me colocou ajoelhada em cima dos grãos de milho e me deu dois tapas na orelha. Que dureza era estudar naquela época! Nas ruas de terra esburacadas eu me sentia livre e feliz. Divertia-me jogando terra em quem passava, depois caía na gargalhada. Como naqueles tempos todo mundo era amigo de todo mundo, as caras feias eram raras. Quando eu sentia o cheiro bom da comida feita por mamãe no fogão à lenha, ia correndo para casa encher a barriga. Que delícia! O tempo foi passando devagar, pois aqui até o vento sopra lentamente... A vila foi virando cidade e as casas de pau-a-pique foram sendo derrubadas e substituídas pelas de tijolos. Os moradores faziam mutirão para ajudar. Em 1966, eu já estava com meus doze anos, quando a cidade acordou diferente: para meu espanto e de toda população a energia elétrica havia chegado! Foi um alvoroço, era o fim das lamparinas! Mais do que depressa o meu pai Ezequiel fechou a barbearia e foi o primeiro morador da cidade a ir até Fernandópolis comprar um liquidificador e uma televisão. A casa dos meus pais tornou-se a novidade do momento e ficou movimentadíssima: toda hora os vizinhos queriam usar o liquidificador para bater sucos e assistir à televisão. A danada da televisão era em branco e preto e só pegava um único canal. Quando ela resolvia sair do ar o pessoal ficava vendo listras por um tempão, nem colocar bombril na antena resolvia. Meu pai faleceu bem velhinho e em homenagem ao morador antigo, o nome Ezequiel Pinto Cabral foi colocado na rua onde eu passei a minha infância, bem em frente à praça da igreja matriz. “Encho-me de saudade toda vez que passo por essa rua.” Após abrir o seu coração vovó emocionada me disse: “É, minha neta. Apesar de ser do tempo da lamparina, eu jamais poderia esquecer as recordações que ficaram na minha mente até hoje”. Nós sorrimos e ficamos abraçadas por um longo tempo. Desde então, perdi o medo do escuro e percebi que apesar da minha cidade ser simples e pequena no tamanho, com seus um mil oitocentos e cinqüenta habitantes, ela é grande no meu coração e inesquecível na mente dos moradores.
Aluna semifinalista da segunda edição do Prêmio Escrevendo o Futuro, em 2004, da 4a série, da E.E. Professora Joanita B. B. Carvalho — São João de Iracema (SP). Texto escrito com base na entrevista com Valdenice Cabral Minales Satin, 51 anos, funcionária municipal, moradora de São João de Iracema desde que nasceu.

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O valetão que engolia meninos e outras histórias de Pajé
Kelli Carolina Bassani
Já foram escritas muitas histórias da época em que os meninos engraxates eram engolidos pelo valetão da Rua Sete de Setembro. Mas, nenhuma delas conta esta ou outras histórias de Pajé. Guardo-as dentro do peito, como boas lembranças da rua onde vivi e que teimam em se misturar com a história da cidade. Nascemos juntos: eu, a rua e essas histórias. Somos uma coisa só, mas nós não estamos nos livros. Estamos na contramão, por isso me atrapalho com as palavras. Às vezes falta ar, outras o ar é demais, então o meu coração acelera, o nó na garganta avisa: o menino Pajé vai acordar! Hoje, quem não conhece a Rua Sete de Setembro é porque não conhece minha cidade — Toledo. Apertada entre outras no extremo oeste paranaense, bem pertinho do Paraguai, surgiu de uma clareira no meio da mata. Naquele tempo, uma clareira; hoje, Rua Sete de Setembro. Essa rua foi crescendo e acolhendo o progresso que tenta esconder e aprisionar as histórias de Pajé. Elas estão descansando embaixo do calçamento, dos asfaltos, dos prédios, das casas. Basta um sinal que elas voltam. Cheiro de terra molhada — esse era o sinal. E, ainda hoje, sinto esse cheiro entrando no meu cérebro e mexendo com o meu coração. Naquele tempo bastava sentir o cheiro de terra molhada para que nós, os meninos engraxates, escondêssemos nossas engraxadeiras — caixa de madeira em que se guardava o material necessário para engraxar sapatos — no porão dos fundos da bodega do Pizetta e, como garotos matreiros, saíssemos de mansinho, sem despertar curiosidade. Corríamos lá embaixo, no começo da rua que embicava no meio da mata, pois o mistério ia começar! A chuva caía e formava muita enxurrada que, com sua força, trazia a terra misturada. Parecia uma cascata de chocolate que despencava no valetão — buraco muito profundo provocado pelas enxurradas, erosão. A água fresquinha que caía do céu misturava com a terra quente e provocava o mistério. Nós éramos puxados para dentro daquele enorme buraco, por uma força estranha sem dó. Mesmo os que não queriam não conseguiam resistir, porque a magia era muito forte e, em poucos segundos, estávamos lá dentro, na garganta do valetão, onde brincávamos durante horas. Nessas horas o trabalho era esquecido. 

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Quando eu era menino, trabalhava muito. Todos os dias de manhã ia à escola e, ao retornar, mal acabava de almoçar, pegava a engraxadeira, colocava nas costas para a rua, quer dizer, para o trabalho. A engraxadeira era muito grande e pesada para meu tamanho — eu era apenas um garoto! Mas era a única forma de ajudar minha mãe no sustento da família. Sentia como se estivesse carregando o mundo sozinho. Hoje sou adulto e sei que aquela magia era fruto de nossa fantástica imaginação. Como qualquer outro menino, o engraxate também tinha direito de brincar. Uma das poucas vezes em que podíamos fazer isso era quando chovia. Mesmo que depois nos custasse castigos e surras. Atualmente, as brincadeiras, comparadas com as de meu tempo, são muito diferentes. Hoje, os heróis são Superman, Batman, Homem Aranha. Antes tínhamos heróis indígenas, com suas histórias cheias de mistérios das florestas. Naquele tempo, quando chovia, o valetão da Rua Sete de Setembro era nosso mundo fantástico. Além das divertidas brincadeiras no lamaçal que escorria da rua, fazíamos cabanas no paredão da erosão, guerrilhas com bodoque, usando sementes de árvores como cinamomo e mamona. Quando não chovia, sobrava tempo para brincar só aos domingos. Então, eu — Pajé — e minha turma nos reuníamos na mata, que se misturava com o terreiro das casas. Nele, construíamos cabanas, arcos, flechas, tacapes. Pintávamos o corpo todo com barro e frutinhas da mata. Assim, sentindo-nos como heróis, brincávamos de índios guerreiros, até o sol se esconder. Nossa vida se enchia dos poderes que vinham da mata e seguia solta, como passarinho. O fim da história? Não sei não, porque eu ainda vivo. E enquanto eu viver as lembranças nunca vão terminar.
Kelli Carolina Bassani, aluna finalista da terceira edição do Prêmio Escrevendo o Futuro, em 2006, 4a série da E.M.E.I.E.F. Walter Fontana, Toledo (PR). Texto baseado na entrevista com Clovis Turatti. Ele nasceu, cresceu e trabalhou como engraxate, desde os cinco anos, na Rua Sete de Setembro, em Toledo (PR). Hoje é funcionário público municipal.

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Recado final

Um dedo de prosa sobre a conversa que não acaba aqui
Pois é, professor... encerramos as atividades sobre memórias literárias. Mas o trabalho com leitura e escrita continua. Um texto vai puxando outro, como uma conversa sem fim. Neste Caderno falamos diretamente com você, que está na sala de aula “com a mão na massa”. Para preparar estas oficinas, também conversamos com outras pessoas que discutem ou discutiram a escrita e seu ensino. Você talvez queira conhecer algumas de suas idéias. No “Para saber mais ainda” há um resumo de algumas delas. Em “Referências bibliográficas” encontra-se uma relação de textos e livros que foram consultados para a elaboração deste Caderno. 

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Para saber mais ainda
Por dentro da proposta. Para cada lugar, um jeito de falar.
Língua, discurso e gênero
Pela manhã, a mãe deixa um bilhete para o filho e faz a lista de compras. Chegando ao trabalho, prepara o material para a discussão com sua equipe. Na hora do almoço, telefona para o filho para saber se ele está bem. À tarde, antes de sair, anota os compromissos do dia seguinte. Após o trabalho vai ao mercado e preenche o cupom para o sorteio de um carro. Na volta para casa, encontra um amigo e conversam durante alguns instantes. À noite, ao ler o jornal, depara-se com um artigo do qual discorda e resolve escrever uma carta para a coluna do leitor. No decorrer do dia, essa pessoa produziu diversos textos orais e escritos: telefonema, conversa, bilhete, lista de compras, mensagens, lembretes... Todos nós produzimos diversos textos que se dão em diferentes gêneros — orais ou escritos, formais ou informais. Cada situação exige o uso de uma forma particular de comunicação. Afinal, não nos expressamos da mesma maneira quando escrevemos uma carta reclamando de um produto defeituoso ou quando comentamos o mesmo assunto com um amigo. As finalidades são distintas, os interlocutores são diferentes e os meios de circulação do texto não são os mesmos. Muitos gêneros são aprendidos informalmente, nas relações sociais, com familiares ou amigos. Para ler ou escrever uma lista de compras ou um bilhete, por exemplo, basta ser alfabetizado e compartilhar com pessoas essa prática. Outros gêneros, porém, exigem aprendizagem sistematizada, como os textos literários, científicos e jornalísticos. A escola é responsável pelo ensino dos gêneros formais. Essa aprendizagem amplia nossa competência lingüística e discursiva e nos dá mais possibilidade de participação social.

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O papel da escola
A escola não tem condições de ensinar todos os gêneros existentes, nem pode prever todos aqueles que os alunos utilizarão em sua vida futura. Ainda assim, o trabalho escolar é muito importante. Até mesmo para que o aluno se torne autônomo, capaz de aprender sozinho os gêneros de que vai necessitar no futuro. É preciso garantir a todos os alunos os saberes lingüísticos necessários para o exercício da cidadania. Isso porque uma vida digna em sociedade pressupõe o domínio das competências de ler, escrever e refletir sobre a língua escrita. A pessoa que fala, lê ou escreve está imersa numa história, numa cultura e em diferentes grupos sociais nos quais exerce papéis variados. Trata-se de um processo de construção de sentido que ocorre na relação entre os interlocutores e o contexto em que atuam. Uma reflexão sobre a concepção de língua e de ensino e aprendizagem que fundamentam as práticas escolares pode ser um bom começo para uma ação pedagógica mais sintonizada com as necessidades dos sujeitos no mundo. A escola precisa identificar situações autênticas de comunicação. Por exemplo, os alunos de determinada escola recebem uma revista feita para jovens, mas comentam com a professora que os assuntos não são de seu interesse. Surge a oportunidade. A professora pergunta o que eles poderiam fazer para que a revista tratasse de novos temas. Como os alunos podem não ter idéia de que é possível usar a escrita para isso, a professora propõe que escrevam uma carta à redação da revista. Cria-se uma situação autêntica de produção de texto. Provavelmente os alunos já tiveram contato com cartas pessoais, mas essa nova situação exige linguagem formal. Torna-se necessário, portanto, ensinar como escrever a carta. Está criada uma situação de produção de texto com base numa necessidade efetiva — a carta tem uma finalidade definida e será, de fato, enviada ao destinatário. Quanto mais a escola estiver sintonizada com seus alunos, mais condições terá de identificar e, mesmo, provocar situações em que eles tenham real necessidade de ler e produzir textos. Como promover situações semelhantes a essa? Por exemplo, a simulação de júris em que alunos assumem os papéis de réu, de juiz, de promotor, de jurados. Ou de uma redação de jornal, em que os alunos representarão as diferentes funções nela existentes: repórter, redator, editor, revisor. Também há os textos escritos em situações de provas, concursos, olimpíadas. Nesse caso, o aluno precisa demonstrar domínio na produção de determinado gênero. Seja qual for a situação, é necessário dar instrumentos para o aluno escrever da melhor forma possível. Na sala de aula o texto, além de ser a materialização de práticas reais de linguagem, torna-se também objeto de ensino e aprendizagem. E isso requer um trabalho planejado, contínuo, em que a atuação do professor é crucial. 

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É importante acolher os conhecimentos que os alunos trazem, introduzir novos conteúdos e valores por meio de situações desafiadoras e fazer a mediação entre os discursos dos alunos — geralmente construídos em esferas cotidianas de interação, como a família e a vizinhança — e os discursos produzidos em outras esferas, como as da ciência, da política e da mídia. O ensino de leitura e produção de texto torna mais claro ao aluno o que dele se espera. Isso ocorre, sobretudo, quando dizemos exatamente qual é a proposta: com que finalidade o aluno vai escrever, para quem, sobre qual assunto, em que gênero.

Seqüência didática
Seqüência didática é um conjunto de atividades ligadas entre si, planejadas para ensinar um conteúdo etapa por etapa. Essa seqüência de atividades permite que os alunos cheguem gradualmente ao domínio de determinado conteúdo ou competência. Ao organizar a seqüência didática para o ensino de gêneros textuais (orais ou escritos), o professor planeja seu trabalho para orientar seus alunos a ler, escrever e escutar ativamente, a explorar diversos exemplares do gênero escolhido. Assim, eles dominarão pouco a pouco suas características e produzirão textos dos gêneros estudados. O trabalho com seqüências didáticas supõe um rico processo de interação em aula — com a participação e orientação do professor como parceiro mais experiente e conhecedor do conteúdo que ensina —, cria um campo que favorece a apropriação, por parte dos alunos, de um dos instrumentos culturais elaborados historicamente pelo homem — os gêneros textuais. É importante enfatizar que a idéia central do trabalho com seqüências didáticas “é a de que se devem criar situações com contextos que permitam reproduzir em grandes linhas e no detalhe a situação concreta de produção textual, incluindo sua circulação, ou seja, com atenção para o processo de relação entre produtores e receptores” (Marcuschi, 2002). No Caderno do Professor — Orientação para produção de textos, a seqüência didática apresenta o seguinte passo-a-passo para o ensino dos gêneros textuais.

Passo 1

Apresentação do projeto de escrita e da situação de produção
O professor inicia a seqüência didática apresentando o gênero a ser estudado, ressaltando a importância de ler e produzir textos daquele gênero. Aqui há uma boa oportunidade para verificar se os alunos sabem em que situações sociais esses textos são produzidos, com que finalidade, para quem ler, e em que suportes textuais são encontrados. O professor também apresenta o plano de estudo do gênero, o objetivo da proposta e cada uma das etapas de trabalho, que ele deve registrar num cartaz para que todos possam consultá-las quando necessário.

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Passo 2

Diagnóstico inicial
O diagnóstico inicial tem por objetivo verificar o que a turma já sabe do gênero que será estudado. O professor deve avaliar se eles sabem em que situações sociais esse gênero é utilizado, se eles já leram ou escreveram algum texto desse gênero e em que contextos o fizeram. O professor pede à turma que escreva o texto, indicando os elementos da situação de produção: a quem se destina o texto (pais, colegas, pessoas da comunidade), qual é a sua finalidade (convencer, divertir, informar), onde será publicado (coletânea, jornal da escola ou da cidade, mural). Como as turmas são heterogêneas, a avaliação inicial favorece o planejamento de intervenções diferenciadas, possibilitando que todos cheguem ao final da seqüência didática proposta com maior domínio do gênero.

Passo 3

Leitura de textos
Para que os alunos ampliem seu repertório e se aproximem do gênero estudado, eles precisam ler bons e variados textos. O professor deve atuar como mediador entre os estudantes e o texto, incentivando, questionando, dando informações sobre o autor, seu tempo, suas fontes, sua obra, seus interlocutores, seu estilo etc.

Passo 4

Estudo das características do gênero
Para o estudo do gênero, são propostas várias atividades de oralidade, leitura, escrita e reflexão sobre a língua. Elas levam o aluno a identificar as características peculiares do gênero, como formas de composição, expressões próprias e tempos verbais utilizados.

Passo 5

Pesquisa sobre o tema
Em qualquer situação comunicativa, é preciso conhecer o assunto sobre o qual se escreve ou fala. A pesquisa é fundamental — consultar diferentes fontes, entrevistar pessoas, analisar documentos e coletar dados da cultura local. Essas informações são organizadas em uma síntese (cartaz ou quadro) para serem compartilhadas com o grupo e consultadas sempre que necessário. 

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Produção coletiva do texto
Na produção coletiva do texto, orientada pelo professor, os alunos organizam e sintetizam o que foi aprendido. A troca de informações entre colegas permite ao aluno que está em uma etapa mais avançada de conhecimento auxiliar no processo de aprendizagem dos demais. Durante as discussões, aparecem diferentes pontos de vista, e os alunos podem compreender que há vários modos de dar tom ao texto. Na negociação sobre o que deve ser escrito, de que maneira e em que ordem, há a possibilidade de autoria coletiva. Além de incentivar a participação de todos, essa produção oferece um modelo para a escrita do texto individual.

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Passo 7

Produção individual
O desafio dessa etapa é a escrita individual do texto, tendo em mãos o roteiro que orienta a produção do gênero estudado. Para mobilizar os alunos, o professor pode relembrar a situação de comunicação proposta no início da seqüência didática. Além disso, deve rever as aprendizagens sobre elementos do gênero feitas ao longo da seqüência didática. Espera-se, nessa produção final, que o aluno ponha em prática grande parte do que foi ensinado.

Passo 8

Aprimoramento e reescrita do texto
Depois da escrita individual, o aluno — de posse de um roteiro e com auxílio do professor — fará a revisão e as reformulações necessárias para o aprimoramento de seu texto.

Passo 9

Publicação do texto produzido
Para finalizar o trabalho, o professor prepara os textos produzidos pelos alunos para publicação. Por exemplo, se trabalhou com artigos de opinião, pode publicá-los no jornal local, jornal mural ou na internet. No caso dos poemas, pode apresentá-los em um sarau ou organizá-los em uma coletânea. Se o gênero foi memórias literárias, pode transformar os textos elaborados em um livro de memórias. Por fim, para valorizar a conquista dos alunos, o professor pode promover uma cerimônia especial de lançamento da publicação ou de inauguração do mural. Pode ainda realizar um sarau com a participação das famílias dos alunos.

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Referências bibliográficas
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