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A SERVIDÃO DA DÍVIDA PÚBLICA

1. A Assembleia Legislativa, como é sua competência, debateu, na passada semana, a

Conta da Região, com o Governo Regional a enaltecer os resultados da sua governação

e a oposição a identificar um conjunto de constrangimentos e problemas, de entre os quais avulta o endividamento e as responsabilidades futuras (ou obrigações contratualizadas, para utilizar outra designação). A verdade é que se trata duma neverending story”, com o Governo Regional dos Açores a persistir em não assumir uma estratégia de desorçamentação, que conduziu a uma ampliação do sector público empresarial regional (SPER), com empresas constituídas sem um objecto económico subjacente.

Sousa Franco, nas suas lições de finanças públicas ensinava que “não é possível estudar finanças públicas modernas sem nos referirmos ao sector público: à simplicidade da teoria e da prática estadual nas finanças públicas liberais corresponde a complexidade crescente dos entes públicos e a diversidade das actividades financeiras nas modernas economias de mercado”. A reflexão continua actual, perante a uma Administração Pública que privatizou de modo funcional a sua actividade, subtraindo-a ao controlo parlamentar efectuado aquando da aprovação dos orçamentos. Para além disso, algumas das empresas integradas no SPER estão fora do perímetro das Administrações Públicas, de acordo com as regras da União Europeia para cálculo da despesa e do envidamento públicos

(SEC95).

2. É verdade que a Região, entre 2008 e 2012 reduziu em oito o número de entidades

integrantes do SPER, muito embora este número possa ser enganador, já que entre 2008

e 2010 houve um aumento de cinco entidades e, apenas após este ano, se registou uma diminuição no seu número, sem que possamos falar numa genuína tendência para a redução das participações da Região no sector empresarial.

Regista-se uma redução conjuntural da participação da Região, sem que ela corresponda a uma estratégia clara de alienação de participações públicas na área empresarial, fazendo com que a Região saia de algumas áreas de negócios, nas quais concorre com o sector privado regional. Sem receio das palavras, é preciso dizer que a governação socialista dos Açores corresponde a um período de significativa nacionalização (aqui sem o rigor jurídico da expressão) da economia açoriana, desde a

área cultural à produção açucareira, mais como expressão duma convicção ideológica do que em resultado duma necessidade económica.

3. A apreciação da despesa pública regional não pode eximir-se ao debate, sereno e sem crispação, sobre o endividamento público regional, considerando a dívida directa, a financeira, administrativa, comercial, bem como as responsabilidades futuras, que o Tribunal de Contas designa como “obrigações contratualizadas”, quando a dívida pública e os compromissos futuros atingem o montante total de 3,4 mil milhões de euros, como evidencia o parecer do Tribunal de Contas sobre a Conta da Região de 2012. A perspectiva histórica obriga-nos a perguntar como chegámos aqui, quando em 1998, com a aprovação da primeira Lei das Finanças Regionais, a dívida pública regional foi paga pelo Governo da República e as finanças regionais puderam gozar, pela primeira vez desde 1976, de certeza e previsibilidade quanto aos montantes a transferir para os Açores. Não havia outro caminho e outras opções económicas? Claro que sim.

Não há como fingir que o jugo das dívidas actuais e das responsabilidades financeiras futuras não é muito pesado, comprometendo esta e a próxima geração no seu pagamento.