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A BUSCA DE SÓCRATES DO CONHECIMENTO DA VERDADE RELIGIOSA DE ÊUTIFRON

Luiz Fernando Bandeira de Melo * Gilzane Silva Naves **

Resumo Este artigo objetiva apresentar como Sócrates explora o conhecimento de Êutifron em busca do conhecimento da verdade, particularmente sobre sua religiosidade, utilizando seu método de argumentação que é encontrado nesse diálogo platônico, que se refere a um tempo antes da condenação e morte de Sócrates. A obra referenciada foi traduzida por José Trindade Santos e está inclusa nos escritos do primeiro período da filosofia de Platão, nos quais Sócrates mostra como alvo de suas perguntas toda a sua intenção na descoberta do conhecimento da verdade, através de um questionamento direto do seu interlocutor na forma “O que é X?” Sendo este X sempre uma virtude, e que, no diálogo estudado, é a piedade. É na analise das questões do diálogo que este trabalho pretende apresentar a intenção das perguntas de Sócrates direcionadas á busca do conhecimento do intercâmbio que o interlocutor possui com os deuses. Palavras-Chave: Busca. Conhecimento. Verdade. Religiosidade.

INTRODUÇÃO

Platão (428/427 a.C. – 348/347 a.C.), discípulo de Sócrates, com quem aprendeu a

necessidade de fundamentar qualquer atividade em conceitos claros e seguros, legou à

humanidade muito do pouco que pode ser conhecido sobre Sócrates, considerado por muitos

como o “divisor de águas” na filosofia, por sair das reflexões da physis e direcionar o

pensamento filosófico para o ser humano, os seus problemas e a sua alma, desvinculando-se

definitivamente dos mitos, “trazendo a filosofia dos céus para a Terra”, como disse Cícero.

Após a morte de Sócrates e depois de ter escrito alguns diálogos, Platão funda a

Academia em Atenas, fato de suma importância para a história do pensamento, pois seus

integrantes se voltam para a pesquisa do conhecimento. Seus primeiros diálogos escritos são

conhecidos como “socráticos” por terem como personagem principal o seu mestre, com uma

flagrante intenção de defendê-lo dos acontecimentos que resultaram em sua condenação e por

isso mesmo também considerados como “apologéticos”.

* Graduando do Curso de Bacharelado em Filosofia pela UFSCar. Professor de Filosofia da Faculdade Católica de Uberlândia. E-mail: lfbomelo@prove.ufu.br.

** Mestre. Professor de Filosofia da Faculdade Católica de Uberlândia.

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Os diálogos platônicos podem ser divididos de duas maneiras: em ordem cronológica, e os primeiros aparecem em 399 a.C. como “Êutifron”, sendo chamados de diálogos de juventude, existindo ainda os diálogos da maturidade e da velhice, e são nestes dois últimos grupos de diálogos que se encontra a sua verdadeira filosofia; e na ordem dramática proposta por Hector Benoit na sua obra “Sócrates, o nascimento da razão negativa” (Ed. Moderna: São Paulo, 1996) há os que são considerados nos períodos vividos por Sócrates nos relatos de Platão, desta forma “Parmênides” é o primeiro desta ordem, reportando-se ao Sócrates com 20 anos, “Fédon” que relata sobre a morte de Sócrates e há o diálogo “As Leis”, que, dramaticamente, se passa 50 anos após a morte de Sócrates. Existe ainda outra forma de considerar os diálogos de Platão, contextualizando-os nos seus conteúdos. Em geral, os diálogos de juventude apresentam uma defesa que Platão faz do seu mestre, mostrando que ele não era ímpio e não convertia os jovens, e neles se desenvolvem discussões sobre ética, buscando através do conhecimento, definir virtudes como a coragem, a amizade e a piedade, mas que deixam em aberto a conclusão sobre seus conceitos por não chegar a uma verdade universal e por isso mesmo tidos como “aporéticos”. Este trabalho tem como base um dos diálogos da juventude de Platão, “Êutifron”, no qual se encontra de maneira clara, a dialética usada por Sócrates ao questionar e argumentar os conhecimentos religiosos de Eutífron, um adivinho, sobre seu entendimento a respeito da piedade. Estarão expostas, a seguir, as argumentações do método dialético que Sócrates domina e utiliza em suas inquirições para examinar a citação emanada pelo oráculo, que lhe foi ditada por seu amigo de infância Querefonte. A partir do conhecimento desta revelação oracular, Sócrates, declarando sua própria ignorância, utiliza seus esforços com a finalidade precípua de buscar a verdade, e comprovar o saber e o conhecimento dos seus interlocutores através de diálogos que são descritos por Platão. É interessante ressaltar a função de um adivinho como Êutifron e sua importância religiosa no mundo grego do século V a.C. em que ocorreram os diálogos platônicos. Os helenos procuravam e respeitavam informações sobre o futuro com esses adivinhos considerados como sábios que praticavam a mantica (mantiké), uma visão antecipada ou ciência das coisas futuras, definida pelo estóico Crisipo (filósofo grego 281 a 208 a.C.) como a “faculdade de conhecer, ver e explicar os sinais por meio dos quais os deuses manifestam suas vontades aos homens.” (ABBAGNANO, Nicola. 2007, p.739) Os adivinhos eram

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motivos de constantes consultas em razão de um sentimento grego característico que era a busca da verdade, principalmente as decorrentes de inspirações dos deuses.

Essa prática exercida pelos adivinhos que profetizavam e prediziam o futuro era oriunda dos oráculos que possuíam a técnica proveniente principalmente do deus Apolo, mas outros deuses permitiam por seu intermédio o uso do dom mântico, o que tornava tal costume bastante difundido e acreditado pelo cunho religioso que era concebido, sendo às vezes cultuado em forma de sacrifícios para a obtenção dos favores da adivinhação, mesmo sem a autoridade de Apolo conforme atesta Junito: “Conquanto os poderes oraculares estivessem concentrados nas mãos de Apolo, o senhor todo-poderoso de Delfos, outros deuses e muitos heróis, sem o prestígio, claro está, do deus pítico, exerceram-nos igualmente na Grécia

antiga.” (BRANDÃO, Junito de Souza. 2009, vol

Com um método dialético examinador, Sócrates se apresenta “consciente de que não sabe” diante de um interlocutor que “julga que sabe” e o interpela numa conversação (“erótesis”), aplicando argumentações que levavam a uma contradição de uma definição previamente aceita pelo interlocutor ou às vezes utilizava exemplos em busca de uma definição que mais se aproximasse de uma verdade universal, o que também acabava refutando o conceito dado. No diálogo “Eutífron”, Sócrates observa alguns pontos da religiosidade grega ao buscar o conhecimento da verdade, discutindo e examinando um adivinho, que representava esse pensamento religioso com suas adivinhações que eram, conforme Abbagnano: “Profetização do futuro, com base na ordem necessária do mundo. Era admitida pelos estóicos, sendo, aliás, assumida como prova da existência do destino.” (ABBAGNANO, Nicola. 2007, p.17). Nada diferente das profecias dos deuses gregos. A busca do conhecimento num representante religioso, assumindo sua própria ignorância e comprovando o “não saber” do seu interlocutor através de questões que envolvem as ações dos deuses, testemunha a crítica sobre a crença dos seus seguidores. Ao ser elaborado qualquer estudo sobre a filosofia grega no período clássico, a religião helênica não pode estar sem referência pela sua grande influência nos hábitos dos jônicos, berço dessa filosofia. A religiosidade que os gregos abraçavam era de duas características, uma pública, definida pelos mitos e cultos dos deuses e pelos comportamentos dos heróis descritos nos poemas de Homero e Hesíodo, e outra religião dos mistérios com crenças

III,

p.48) do deus filho de Zeus. 1

1 A mitologia grega apresentada nos poemas de Homero (Ilíada e Odisséia, século IX a.C.) relata a história dos deuses do Olimpo que era a montanha onde eles moravam, sendo seu deus maior Zeus.

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específicas com práticas próprias das quais os mistérios órficos eram os mais influentes. Segundo Reale a religião dos mistérios era a mais influente entre os gregos: “Ambas as formas de religião são muito importantes para explicar o nascimento da filosofia, mas a segunda forma o é mais, pelo menos em alguns aspectos” (REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. 2002 Vol.I, p.17). Essas duas formas religiosas permitiam a interseção entre os homens e os deuses através de adivinhos e oráculos e foram propagadas pelos poetas, pois não existiam livros sacros ou considerados como uma revelação divina.

A QUESTÃO PRINCIPAL

Esse diálogo acontece quando Sócrates, dirigindo-se ao “Pórtico Real”, local onde ocorriam os julgamentos em Atenas, encontra-se com Êutifron que se surpreende quando Sócrates afirma estar naquele lugar para verificar uma acusação sobre si. Êutifron toma conhecimento que Meleto, um jovem cidadão ateniense, tem a grande missão de defender uma queixa que não é vulgar nem insignificante, pois se preocupa em tornar os jovens melhores, segundo Sócrates, e nessa passagem nota-se um forte teor de ironia já que se refere à acusação despropositada que Meleto leva contra Sócrates. Sócrates é acusado de corromper os jovens, de que é ateu e de que é um fazedor de deuses. A respeito dessa última parte da acusação, Eutífron considera que o povo tem inveja de ambos: de Eutífron porque ele é adivinho e de Sócrates por ter um gênio (daimon) que o ajuda. Na sua crença, Sócrates admitia a existência dos deuses e aceitava as orientações oraculares. Quando seu amigo de infância Querefonte lhe falou que, consultando a Pítia, (sacerdotisa do templo de Delfos), ela afirmou que não havia ninguém mais sábio do que Sócrates, ele decidiu se submeter a uma investigação minuciosa, não porque não acreditava no resultado da consulta oracular do seu amigo, mas para descobrir o significado do desígnio dos deuses que a sua fé se identificava, conforme suas próprias reflexões:

Que quererá dizer o deus? Que sentido oculto pôs na resposta? Eu cá não tenho consciência de ser nem muito sábio nem pouco; que quererá ele, então, significar declarando-me o mais sábio? Naturalmente, não está mentindo, porque isso lhe é impossível (PLATÃO. 1972, p.14).

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Na sequência da conversa, Êutifron informa a Sócrates sobre a acusação que leva contra seu próprio pai, por conta do assassinato de um trabalhador assalariado. Segundo Êutifron, seu pai amarrou aquele homem (que havia assassinado um escravo) e atirou-o numa vala até receber informações do que deveria ser feito com o trabalhador, que morreu antes dele obter as orientações desejadas. Para Êutifron, esta atitude de seu pai é um ato de impiedade:

“dizem-me que é ímpio um filho acusar o pai de crime, mal sabendo o que para os deuses, vale relativamente ao que é piedoso e ao que é ímpio.”(4d9-c1). Nota-se que o temor de Êutífron é de que ele próprio tenha que arcar com as consequências do crime paterno, já que é termo comum de várias religiões antigas, entre elas a grega, que a punição pelo crime de assassinato recaia sobre toda a linhagem que descende do assassino. Nesse sentido, a acusação de Êutífron contra o próprio pai visa purificar a si mesmo e à sua família, ou seja, ele é movido por um temor religioso. Aproveitando-se desta afirmação religiosa sobre coisas divinas, – e a condição para que Sócrates interrogue alguém é estar convicto de suas capacidades, – Sócrates elogia Êutífron e começa uma busca do conhecimento dele sobre piedade e impiedade, mas para isso Sócrates impõe que a resposta deve atender não só o caso exemplificado de assassinato do seu pai, mas também outros aspectos que a tornam uma verdade universal: “haver em todos os atos uma mesma piedade – ela própria, em si e por si, de todo contrária à impiedade e igual a si própria e tendo um aspecto único – que fará com que uma coisa seja ímpia, pela impiedade.” (5c10- d4). Esta é a principal característica nos diálogos socráticos: o conceito contido na resposta precisa ter universalidade, abrangendo, assim, qualquer situação possível para o seu uso.

PRIMEIRA DEFINIÇÃO

Êutifron é convocado a esclarecer Sócrates sobre o que venha a ser piedade, uma virtude incluída na sua busca pelo conhecimento da sabedoria. O primeiro conceito proposto por Êutifron consiste em que “a piedade é perseguir os que cometem injustiça.”(5d8e9). Essa consideração se relaciona à atitude dos deuses no Olimpo em que Zeus aprisionou o próprio pai por devorar seus filhos, um exemplo exclusivamente religioso. Sócrates aproveita essa afirmação para arguir Êutifron sobre a veracidade da guerra entre os deuses, e se entre os deuses existe piedade ao perseguir os que cometem injustiça, e para esses questionamentos ele consegue através de uma sequência de perguntas (6d9-e2), a refutação da definição inicial de Êutifron com a anuência do interlocutor de que “muitas coisas piedosas” não é a mesma coisa

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que “todas as coisas piedosas”, atendendo com isso a necessidade de universalizar a proposta inicial. Com essa conclusão, Sócrates proporciona uma contradição nas decisões dos deuses expressa pelo adivinho.

SEGUNDA DEFINIÇÃO

Sócrates solicita, a partir dessa contradição, uma nova definição a respeito da verdadeira piedade que Êutifron conceitua em: “a piedade é o que é agradável aos deuses”(7a). Definição de cunho unicamente religioso. Prosseguindo sua investigação, Sócrates faz perguntas para esclarecer se o aspecto religioso da nova afirmação sobre a piedade também é universal, questionando-o acerca de coisas que possam produzir ressentimentos entre os deuses, apresentando exemplos para compor uma nova (possível) definição. Assim, Sócrates elabora a pergunta que se transformará em outra base de reflexão na argumentação explorada no diálogo: “Não há assunto por causa do qual possam ficar inimigos e entrar em cólera um com o outro, discordando e não chegando a uma decisão?” (7c11/13). Ele consegue uma resposta positiva de Êutifron sobre o belo e o feio, o bom e o mau, o justo e o injusto, demonstrando com isso um desacordo que torna os deuses inimigos, com isso Sócrates provoca a dúvida em Êutifron do seu próprio conhecimento, quando este concorda que as coisas piedosas e as ímpias são as mesmas (8a8/9). Com a dúvida instaurada em seu interlocutor pergunta, então, de outra forma: se a atitude do interlocutor em acusar o pai é querida por alguns deuses e odiada por outros. Obtendo a afirmação de Êutifron que “nenhum dos deuses discorda de outro: isto é, que não deva ser castigado aquele que injustamente mate alguém.” (8b9/11). Sócrates apresenta outra contradição quando Êutifron concorda com as interrogações de que todos os deuses acham correta uma ação e que detestam os atos injustos (9b1/9). Com essa contradição à segunda definição, que não é apenas alguns deuses que acham justo ou injusto uma ação, mas sim todos os deuses (9c1ad6), Sócrates solicita novamente que Êutifron exponha seu conhecimento da verdade religiosa, refazendo sua definição de piedade. A segunda definição e sua contradição são envolvidas exclusivamente em assuntos religiosos.

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REFORMULAÇÃO DA SEGUNDA DEFINIÇÃO

Êutifron busca seus conhecimentos religiosos e reformula, assim, sua definição anterior conceituando que “a piedade é o que todos os deuses amam, e o contrário – o que todos os deuses detestam – é a impiedade” (9d). A característica central da busca da

universalidade do conceito emitido por Êutifron e o seu vínculo com as questões religiosas permanecem como principais motivos na continuação do diálogo que Sócrates mantém, investigando com a formulação de nova pergunta se “a piedade é amada pelos deuses, porque

é piedade, ou é piedade, porque é amada pelos deuses?” (10a). Por não ser entendida por

Êutifron e para esclarecê-la, Sócrates usa alguns exemplos como: O que é transportado é transportado porque alguém o transporta; O que é conduzido, decerto é conduzido porque

alguém o conduz; e o que é visto, é visto porque alguém o vê. Então Sócrates mostra que “não

é por ser uma coisa amada que uma coisa é amada pelos que a amam, mas é porque a amam

que ela é uma coisa que é amada” (10c9-11), obtendo a afirmação do interlocutor a respeito de que uma coisa é o que é amada e outra é o que ama (10b1-c6). A partir dessa ideia

conquistada na conversação referente às ações dos deuses, portanto, um assunto religioso, Êutifron contradiz sua última definição:

Se a piedade fosse amada por ser piedade, também o que é amado pelos deuses seria amado por ser amado pelos deuses, e, se o que é amado pelos deuses fosse amado pelos deuses por ser amado pelos deuses, também a piedade seria piedade por ser amada. (10e11-11a3)

Esta reformulação do conceito de piedade conquistada por Sócrates com argumentos convincentes está envolvida exclusivamente na contradição, outra vez, de conceitos religiosos defendidos pelo adivinho Êutifron.

TTERCEIRA DEFINIÇÃO

O diálogo chega a uma situação na qual Êutifron demonstra insegurança para definir a verdade dos seus conhecimentos 2 e Sócrates interfere na formulação de uma nova definição

2 José Trindade acrescenta para a dúvida de Êutifron, na mistura das palavras sem conclusão, uma semelhança com a possível descendência familiar de Sócrates: “A graça de Sócrates é justificada pela sua habilidade em fazer mover os logoi. Do mesmo modo, o escultor Dédalo, a quem eram atribuídas as primeiras estátuas que infringiam a lei da frontalidade, parecia pôr em movimento as suas obras.”(p.60)

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para o que seja piedade, questionando se parece que toda piedade seja justa? Parece é a resposta de Êutifron. E quando Sócrates pergunta se toda a justiça é piedade ou se toda piedade é justiça e ainda se a justiça não sendo toda a piedade pode ser uma parte dela, ainda uma vez Êutifron não concorda. Então Sócrates conquista a anuência de Êutifron ao buscar o exemplo de parte de um poema (12a10-b1) para conduzir o raciocínio da conversa nos conceitos religiosos, onde Zeus diz “onde há o temor, haja também o respeito”, afirmando sua posição contrária ao poema. Mais uma vez a religiosidade está envolvida na conversação. Aos poucos, o diálogo se dirige para o conhecimento de uma nova definição, utilizando Sócrates como foco de análise a discordância sobre o que o poema suscita. Usando o exemplo de que pessoas temem as doenças e a pobreza e nisso não existe respeito, ou seja, não existe respeito no que é temido, Sócrates inverte o sujeito e o predicado da frase, questionando se onde há respeito ou vergonha por alguma coisa haverá ao mesmo tempo temor por esta coisa, provocando imediata concordância de Êutifron. Considerando, portanto, a premissa de que o temor provém do respeito, Sócrates propõe que: onde exista a justiça há também a piedade, sendo assim, a piedade é uma parte da justiça o que é inteiramente acatado por Êutifron 3 Se a piedade é parte da justiça, como foi conceituado, Sócrates insiste em saber agora uma nova definição para a piedade, de modo que Êutifron assim expressa: a piedade e a devoção são partes da justiça que respeitam os cuidados com os deuses. A restante parte da justiça é acerca dos cuidados com os homens (12e6/9). Mais uma vez Sócrates chega a um conceito de ordem religiosa. Mostrando o seu desempenho examinador, Sócrates busca a verdade universal desta nova definição, procurando entender o significado de “cuidado” para Êutifron. Com a afirmação resultante de que “a piedade e a devoção são o cuidado dos deuses” (13b4). Em novo argumento, Sócrates esclarece que para cuidar de cavalos é necessário conhecer uma arte hípica, para conhecer a qualidade dos cães é preciso ser caçador e é o boieiro que conhece sobre bois, portanto para cuidar de alguma coisa é necessário possuir uma arte e como prestar um determinado serviço. Esse raciocínio conduz à conclusão que o cuidado para com os deuses é uma espécie de serviço prestado (13d1-e11), e isto refuta a terceira definição, requerendo, portanto, novo conceito para o que seja piedade.

3 Note-se aqui que Sócrates muda a resposta de Êutifron de “não” para “sim” para uma mesma questão explícitas em 12a e 12d.

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Nessa construção dialética, Sócrates pergunta a Êutifron, levando em conta a sua condição de adivinho e, portanto, conhecedor das coisas divinas, ou seja, da religiosidade, se

o serviço prestado aos deuses, com vistas à realização de qualquer obra, será também um serviço? Êutifron responde que sim, complementando que são belas obras que os deuses realizariam com esses serviços.

QUARTA DEFINIÇÃO

A resposta de Êutifron produz uma nova definição para o conhecimento do conceito de piedade: Alguém que saiba fazer e dizer as coisas que são agradáveis aos deuses, rezando e sacrificando”. Apesar dos avanços que chega o significado de piedade, mostrando toda a religiosidade nele contido, Sócrates continua com seu interrogatório na incessante busca da verdade universal (14c6-15a11). O último argumento utilizado por Sócrates questionando se a piedade é o reconhecimento dos deuses pelas preces e ofertas recebidas, tornando-se assim um comércio entre eles e os homens, ou qual o benefício obtido pelos deuses com as ofertas a eles dirigidas, proporciona a conclusão de Êutifron que a piedade é o que agrada aos deuses (15b4/5). Nesse ponto, Sócrates volta a referir-se a Dédalo, mostrando que as palavras de Êutifron andam em círculos, e lembra-o:

Não percebes que dizes que o que é agradável aos deuses é piedoso? E isto não é diferente daquilo que se torna amado pelos deuses? Portanto, ou há pouco não estivemos bem do mesmo parecer ou, se então estávamos no bom caminho, não pusemos agora bem a questão (15c6a8-c10a12).

Isto é a confirmação de uma aporia, o que para tal Sócrates é necessário investigar desde

o princípio o que é a piedade, porque o diálogo não chegou a uma conclusão satisfatória por

não terem, ambos, colocado bem a questão. Com a negativa de Êutifron de continuar a conversa, Sócrates se lastima de perder a esperança de ter conhecimento sobre o que é a piedade e o que são as coisas piedosas, o que para ele, o livraria da acusação de Meleto, ao mostrar que se tornara sábio nas coisas divinas por causa dos conhecimentos religiosos respeitados de Êutifron. Essa é uma característica presente nos diálogos, por exemplo, no Laques, que as maneiras de se possuir um saber são:

a) aprendendo com alguém sábio no mister; ou b) pelo aprendizado autodidata.

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CONCLUSÃO

Entender Sócrates é uma tarefa quase que paradoxal por não ter ele deixado nada escrito, o que desencadeia um problema de interpretação das coisas escritas sobre quem é considerado como o “pai da filosofia”, mas observa-se que sua filosofia pode ser aplicada para todos. O texto comentado neste trabalho tem a característica marcante da sua filosofia baseada na busca do conhecimento e da verdade por mais de uma argumentação incisiva, mas que comumente resulta numa aporia. José Trindade, ao fazer a introdução da sua tradução do diálogo Êutifron 4 , afirma que o interlocutor de Sócrates esteve próximo de evitar essa aporia ao dizer:

E, no entanto, a julgar pela observação de Sócrates (14c1), Êutifron esteve à beira de encontrar a resposta que poderia evitar a aporia. Bastava, para tal, que, à pergunta “Qual é essa obra perfeitamente maravilhosa que os deuses realizariam, usando-nos como servidores?” (13e8/9), tivesse respondido que se tratava da Filosofia. (p.37)

Mesmo com a declaração, por parte de Sócrates de uma ignorância em relação à virtude e à religião – e frente à constatação, não só do resultado aporético, mas das evidentes formulações que pontuam o diálogo contradizendo sistematicamente as suas diversas definições – Êutifron não reconhece sua ignorância, mesmo afirmando sua condição de adivinho, religioso, próximo aos deuses, e confirmando saber sobre o que é a piedade e que está sempre com a verdade, como no começo do diálogo enunciou a Sócrates:

Quando falo das coisas divinas na assembléia e predigo o futuro, se riem, como se estivesse louco. No entanto, nenhuma das coisas que predisse e que acabo de dizer deixa de ser verdade (PLATÃO. 2007, p.41).

Portanto, a crítica à religiosidade existe, ou de Platão ao escolher este diálogo para escrever ou do próprio Sócrates ao mostrar, nas suas conversas, uma religiosidade filosófica, racional e ética, no mínimo diferente da vigente, mitológica e tradicional. Fica então evidenciado que, como Sócrates entendia, Êutifron não sabia por que sabia, mas sim porque aprendeu de outros (deuses) como adivinho. O resultado aporético pode, portanto, ser compreendido como a refutação de toda uma tradição religiosa grega representada por

4 PLATÃO. Êutifron. Tradução de José Trindade dos Santos. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007

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Êutifron e sua ignorância a respeito do conhecimento da verdade. Pode esse resultado ter uma correlação com a condenação de Sócrates, já que a refutação da tradição religiosa é, ao mesmo tempo, a refutação do principal motivo da condenação do mestre.

Referências

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes, 2009.

PLATÃO. Defesa de Sócrates. Tradução de Jaime Bruna. São Paulo, SP. Abril Cultural, 1972. (Os Pensadores).

PLATÃO. Êutifron. Tradução de José Trindade dos Santos. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007.

REALE, Giovanni e ANTISERI, Dario. História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 2002.

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