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FUNDAÇÃO EDSON QUEIROZ UNIVERSIDADE DE FORTALEZA DIREITO PROCESSUAL CIVIL II Prof.: Nilsiton Rodrigues de Andrade
FUNDAÇÃO EDSON QUEIROZ UNIVERSIDADE DE FORTALEZA DIREITO PROCESSUAL CIVIL II Prof.: Nilsiton Rodrigues de Andrade

FUNDAÇÃO EDSON QUEIROZ UNIVERSIDADE DE FORTALEZA DIREITO PROCESSUAL CIVIL II Prof.: Nilsiton Rodrigues de Andrade Aragão

CIVIL II Prof.: Nilsiton Rodrigues de Andrade Aragão UNIDADE I Execução jurisdicional 1) Considerações Gerais

UNIDADE I Execução jurisdicional

1) Considerações Gerais

Conceito: executar significa satisfazer uma pretensão mediante realização forçada de prestação devida e não adimplida. Terminologia: em sentido amplo é possível considerar execução como toda satisfação de direitos.

- Variações: o legislador utiliza outros termos para se referir a esta atividade, como, por exemplo:

“cumprimento”, no Art. 475-I, referindo-se a execução de sentença; “efetivação”, no Art. 273, § 3º, referindo-se a execução da tutela antecipada. Distinções: não se deve confundir execução com:

- sanção;

- autotutela;

- adimplemento espontâneo;

- cumprimento de sentença constitutiva;

- autoexecutoriedade dos atos administrativos.

Função jurisdicional: a execução se realiza por meio de um provimento jurisdicional. Logo, pressupõe um processo, pois, em regra, somente o estado pode utilizar da força para impor o cumprimento de uma obrigação ou respeito a um direito. Cognição executiva: a atividade de conhecimento no processo de execução é bem restrita, uma vez que a finalidade precípua desse processo é a realização do direito expressado no título. Frise-se que, embora reduzida, a atividade cognitiva não é inexistente, pois na execução o magistrado realizará juízo de admissibilidade da mesma, valorará o título executivo, conhecerá de questões meritórias como prescrição, decadência, pagamento, etc.

2) Formas de execução

Vontade do executado:

- Parte-se do pressuposto de que a crise jurídica que ensejou a execução decorreu do fato de a vontade do executado estar em desacordo com a lei, ou seja, ele não pretende adimplir voluntariamente o crédito.

Diante desta constatação, cabe ao Estado, como ente responsável pela garantia da paz social, atuar

Diante desta constatação, cabe ao Estado, como ente responsável pela garantia da paz social, atuar no sentido de substituir ou mudar a vontade do executado, o que pode ocorrer por sub-rogação ou por execução indireta. Sub-rogação:

-

-

Conceito: também chamada de execução direta, é aquela pela qual,

mediante atos executivos, o estado substitui a vontade do executado pela vontade da lei.

Exemplo: penhora, busca e apreensão, expropriação, adjudicação, usufruto, desconto, etc. Execução indireta:

-

- Conceito: trata-se da pressão psicológica sobre o executado para que ele próprio cumpra a obrigação de forma voluntária, embora não espontânea. Visa induzir a mudança da vontade do executado, adequando-a à vontade da lei, mas sem substitui-la.

- Exemplo:

piora da situação do executado: astreintes, prisão civil, Art. 475-J – multa de 10% do valor crédito, etc.; ou melhora da situação do executado: art. 652-A, p.u. - desconto de 50% dos honorários no pagamento do débito em até 3 dias, art. 1.102-C, § 1º

3) Processo de execução

Autonomia dos processos: pela lógica jurídica adotada em 1973, época da elaboração do atual CPC, a existência de finalidades diversas a ser resguardadas no processo (certificar, realizar e assegurar), o legislador dividiu o Código em três espécies de processos autônomos, que, em princípio não se misturavam.

- Espécies de processos autônomos (art. 270 do CPC):

FINALIDADE

PROCESSO

PROCEDIMENTOS APLICÁVEIS

- Certificar o

   

direito

- Conhecimento

- Ordinário, sumário ou especial

   

- Fazer ou não fazer, entrar coisa ou pagar

- Realizar o direito

- Execução

quantia

- Assegurar o

   

direito

- Cautelar

- Típico ou atípico

- Não obstante, este dogma da autonomia processual, a despeito de sua fundamentação teórica, mostrou-se contraproducente, burocrático e formalista, prejudicando a efetividade da prestação jurisdicional pleiteada. Sincretismo processual: visando primordialmente à efetividade e celeridade processual, passou-se a admitir diferentes tutelas processuais em um mesmo processo. Fusão dos atos cognitivos, cautelares e executivos em um único

processo, passando cada uma delas a representar uma fase ou um incidente processual. Etapas de

processo, passando cada uma delas a representar uma fase ou um incidente processual. Etapas de Evolução:

- Lei 5.869/73 - Diretriz original do CPC com processos autônomos;

- Lei 8.078/90 (CDC) – execução de obrigações de fazer ou não fazer na tutela coletiva (art. 84 do CDC);

- Lei 8.952/94 – execução de obrigações de fazer ou não fazer no próprio processo de conhecimento (art. 461 do CPC);

- Lei 9.099/95 – toda execução nos processos dos Juizados Especiais.

- Lei 10.444/02 – execução de obrigações de entregar coisa no próprio processo de conhecimento (arts. 461-A e 621 do CPC);

Lei 11.232/2005 – execução de obrigações de pagar quantia certa no próprio processo de conhecimento (art. 475-J do CPC); Técnicas processuais de execução:

-

- Processo de execução autônomo:

Conceito: mantém-se a lógica da autonomia dos processos, de modo que a execução ocorrerá por meio de um processo próprio, ainda que o título executado tenha sido originado em outro processo. Importa destacar que o processo sincrético não extinguiu o processo de execução autônomo. Para os títulos extrajudiciais: é a regra. Para os títulos judiciais: é a exceção. Aplica-se, por exemplo, nas execuções contra a Fazenda Pública, contra devedor insolvente e, para alguns, na execução de alimentos, hipóteses em que se seguirá a execução autônoma.

- Fase executiva do processo de conhecimento:

Conceito: a execução se apresenta como uma fase do procedimento. Forma primordial de execução, aplicável a quase todos os títulos executivos judiciais. Exceção: há procedimento híbrido (inicial e citação e depois cumprimento de sentença) para sentença arbitral, sentença penal condenatória e sentença estrangeira. Decisões mandamentais: o sincretismo não é uma novidade, pois algumas ações sempre foram sincréticas, sendo, por esta razão, denominadas de mandamentais. Por exemplo: ações possessórias; ação de despejo, mandado de segurança, etc.

4) Princípios e regras gerais

4.1 - Princípios Gerais do Processo aplicáveis à execução Princípio do contraditório:

- Conceito: possibilidade de participação do executado no processamento e conclusão da execução (art. 5º, LV da CF/88).

Embora em intensidade menor que a do processo de conhecimento, o contraditório efetivamente se manifesta

Embora em intensidade menor que a do processo de conhecimento, o contraditório efetivamente se manifesta na execução. Não se propõe a rediscussão do mérito do processo de conhecimento, destina-se a evitar abusos e ilegalidades na execução e influenciar na convicção do magistrado sobre matérias conhecidas na execução.

- Garantias:

Garantia a participação: faceta formal que consiste em ser ouvido, ser comunicado e falar no processo. Possibilidade de influência nas decisões: faceta material que consiste em ter condições concretas de interferir no julgamento com argumentos fáticos e jurídicos novos e produção de provas.

 

-

Defesas: o executado pode se defender por meios típicos: os embargos à

- Conceito: as partes do processo devem agir com lisura e sinceridade, não

execução (art. 736 do CPC) ou por impugnação à execução (art. 475-L do CPC), e por outras manifestações como, por exemplo, alegação de impenhorabilidade ou de fraude à execução. Princípio da boa-fé processual:

podendo abusar dos seus direito processuais, ou seja, utilizá-los para atingir finalidades diversas daquela prevista pelo legislador (art. 14, II do CPC).

- Principais aplicações:

Proibição de criar posições processuais desvantajosas ao exequente. Proibição de abuso de poderes processuais. Proibição de venire contra factum proprium (medidas processuais contraditórias).

- Institutos mais comuns: fraude contra credores, fraude à execução e alienação de bem penhorado, atos atentatórios à dignidade da Justiça.

-

Sanções: em caso de configuração da má-fé o legislador prevê a

- Conceito: por este princípio o magistrado deve adotar uma postura de

possibilidade de aplicação de multas processuais que se somam ao valor executado (Ex. arts. 14, 18 e art. 601 do CPC). Princípio da cooperação:

diálogo com as partes e demais sujeitos processuais, esclarecendo as dúvidas destes e pedindo esclarecimentos para as suas, pois embora todos tenham suas funções, o objetivo final é um só.

- Deveres gerados para o magistrado:

dever de esclarecer; dever de consultar; dever de prevenir.

Exemplos: art. 600 (indicação de bens à penhora), art. 475-L, §2º (apresentação imediata do valor que entende devido quando da alegação de excesso de execução). Princípio da proporcionalidade:

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- Conceito : o julgador deve agir com razoabilidade na aplicação das normas processuais da

- Conceito: o julgador deve agir com razoabilidade na aplicação das normas processuais da execução. Assume grande importância no processo de execução, pois juiz da execução possui uma grande margem de discricionariedade na condução do processo de execução quando se faz necessário ponderar conflitos comuns entre os interesses do exequente e do executado.

- Exemplos: art. 620 (menor onerosidade), art. 655 (ordem preferencial de

bens penhoráveis e sua relativização) e art. 657 (solução de questões), etc Princípio da adequação:

- Conceito: também chamado de princípio da adaptabilidade, implica na necessidade de adaptação do processo às especificidades do caso.

- Manifestações: segundo a doutrina pode ser vislumbrado em dois momentos:

 

Pré-jurídico: informador da produção legislativa do procedimento em abstrato. Ex: previsão de prisão civil na execução de alimentos, o regime de precatórios na execução contra a fazenda pública e a previsão de medidas atípica no art. 461, § 5º do CPC. Jurídico: permite ao juiz adaptar o procedimento de modo à melhor afeiçoá-lo às peculiaridades da causa. Ex. prorrogação de prazos, quebra da ordem preferencial de bens penhoráveis, produção de provas em

momentos diversos do previsto, etc. Princípio da instrumentalidade das formas:

-

Conceito: como o processo não é um fim em si mesmo, mas só um instrumento formal que serve ao direito material, deve-se flexibilizar as regras procedimentais que, na prática, estejam obstaculizando a consecução do direito em discussão.

Limite: importa destacar que se a formalidade estiver diretamente relacionada a um principio processual fundamental (contraditório, fundamentação, etc.), provavelmente sua desconsideração não será viável, pois gerará mais prejuízo que o seu respeito. Princípio da razoável duração do processo:

-

- Conceito: traduz a ideia de um trâmite processual sem dilações indevidas (art. 5º, LXXVIII da CF/88).

- Análise do caso: deve levar em conta três aspectos:

a complexidade do assunto; o comportamento dos litigantes; a atuação do órgão jurisdicional.

4.2 - Princípios específicos da Execução Princípio da efetividade:

- Conceito: processo efetivo é aquele que realiza o direito material que fundamenta o litígio de forma célere, completa e correta. Tem por valor

base a satisfação do credor, ou seja, viabilizar que lhe seja entregue o bem da

base a satisfação do credor, ou seja, viabilizar que lhe seja entregue o bem da vida perseguido na demanda. A doutrina coloca-o como derivado dos princípios da razoável duração do processo e da inafastabilidade da jurisdição, contudo, a posição mais correta é a que prega sua autonomia, pois possui núcleo essencial próprio.

- Manifestações: segundo Marcelo Lima Guerra, esse princípio impõe:

interpretação que garanta máxima efetividade; poder-dever do juiz de não aplicar normas restritivas à execução de acordo com a proporcionalidade; e poder-dever do juiz de utilizar meios executórios necessários à tutela executiva. Princípio da primazia da tutela específica

-

Conceito: também chamado de princípio do exato adimplemento, de princípio da maior coincidência possível ou princípio do resultado. Traduz a ideia de que a execução visa à realização do interesse do credor (art. 612 do CPC), utilizando as medidas necessárias para garantir a satisfação de sua pretensão da forma mais próxima àquela que teria ocorrido com o adimplemento voluntário, completo e tempestivo da obrigação (art. 461, §1º do CPC). Busca gerar uma situação similar a que

 

ocorreria se não houvesse o descumprimento da obrigação (retorno ao status quo ante).

 

-

Tutela genérica: somente é possível a conversão das obrigações de fazer,

- Conceito: tem por valor base a consciência de que os atos executórios não

não fazer e dar coisa certa em perdas e danos se for impossível a obtenção da tutela específica ou do resultado prático equivalente (ex. art. 627 do CPC). Princípio da atipicidade dos meios executórios:

estão todos taxativamente previstos na legislação, e que mesmo aqueles que estejam estabelecidos na lei podem necessitar de adaptação para o caso concreto (art. 461, § 5º do CPC).

- Manifestações: possui, assim, duas facetas:

Preenchimento de lacunas legislativas: como legislador não pode prever todas as medidas executivas necessárias a cada caso concreto, deve o magistrado eleger o ato a ser praticado nos pontos omissos. Adequação do da legislação ao caso concreto: possibilita uma releitura dos dispositivos legais, que podem ceder espaço em face de princípios constitucionais. Abre uma margem de discricionariedade do magistrado que não pode ser objeto de abuso. Princípio da Responsabilidade patrimonial

- Conceito: também chamado de princípio da patrimonialidade, indica que é o patrimônio do devedor o que responde pela dívida e não o próprio devedor. Assim, em uma evolução humanística da execução, os atos da

execução não podem incidir sobre liberdade, integridade física ou vida dos executados (Art. 591 do

execução não podem incidir sobre liberdade, integridade física ou vida dos executados (Art. 591 do CPC e 391 do CC/02).

- Prisão civil: a natureza da privação da liberdade do devedor de alimentos é de execução indireta, representando uma pressão psicológica e não uma forma de satisfação do crédito, de modo que sua destinação, em última análise, é o patrimônio.

- Patrimônio não penhorável: em outra vertente, impõe que o juiz adéque corretamente o débito à responsabilidade do executado, não excedendo o valor da dívida. Vale dizer, limita-se ao necessário e suficiente para satisfazer a obrigação. Princípio da menor onerosidade da execução:

- Visa proteger o executado de eventual abuso de direito por parte do exequente ou de eventuais falhas no procedimento, garantindo que o valor do título seja pago sem prejuízos excessivos (art. 620 do CPC).

- Somente é aplicável se todos os meios em discussão forem igualmente eficazes.

- Aplica-se a todos os tipos de execução.

- É necessário que o executado alegue a onerosidade excessiva na primeira oportunidade indicando o bem pelo qual pretende substituir, sob pena de preclusão. Princípio da utilidade:

- A execução, ou um ato executório, só se justifica se puder, ainda que em tese, trazer alguma vantagem para o exequente, não podendo ser admitida se simplesmente acarretar prejuízos ao executado sem nenhum benefício ao pretenso credor.

- Ex. penhora de bem inteiramente consumido pelas despesas processuais (art. 659, § 2º do CPC.

3.3 - Regras gerais Regra da inexistência de execução sem título:

- Previsão legal: art. 586 do CPC.

- Brocardo latino: “nulla executio sine titulo” (é nula a execução sem título).

- Fundamento: o título é prova mínima indispensável para instauração de um processo executivo, representando a grande probabilidade da existência do crédito, necessário porque o executado estará em uma situação de desvantagem processual.

- Espécies de título executivo: judicial (art. 475-N do CPC) ou extrajudicial (art. 585 do CPC).

- A presença do título pretende demonstrar a certeza do direito para que a atividade jurisdicional se concentre na execução e não na certificação do direito.

- Nem sempre a certeza jurídica é obrigatoriamente exigida, pois o ordenamento admite, como exceção, a execução de provimentos

antecipatórios e a execução provisória, nas quais a cognição é precária, ou seja, há mera

antecipatórios e a execução provisória, nas quais a cognição é precária, ou seja, há mera verossimilhança das alegações. Regra da disponibilidade da execução:

- Conceito: o legislador assegurou a livre disponibilidade da execução. Assim, pode o exequente desistir do processo de execução, independente da concordância do executado, sem que isso importe em renúncia ao seu direito de crédito (Art. 569 do CPC).

- Regras para desistência:

 

se a desistência ocorre antes do oferecimento dos embargos, desnecessária é a anuência do devedor; se forem apresentados embargos por defeitos processuais da execução e o devedor não consentir, o processo será extinto por perda de objeto, não sendo necessária a apreciação da defesa. se for apresentada defesa de mérito e o devedor não consentir, a execução é extinta, mas os embargos devem ser apreciados.

 

- Abrangência: A doutrina majoritária entende por aplicar as regras de

desistências também para as exceções de pré-executividade e as impugnações ao cumprimento de sentença. No entanto, nos casos de defesas de mérito, como estas medidas são incidentais e, por consequência, não possuem autonomia, não podem prosseguir sem a execução, de modo que o mais razoável é não admitir a desistência. Regra da responsabilidade objetiva do exequente:

-

Previsão: arts. 475-O, 475-I e 574 do CPC.

Conceito: parte da premissa de que os riscos da execução correm por conta do exequente, não sendo necessária a comprovação de culpa deste para que o executado seja ressarcido por eventuais prejuízos. Regra da aplicação subsidiária das normas do processo de conhecimento:

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- Conceito: para incidência deste instituto é necessário que não haja norma própria no procedimento de execução e que a regra do processo de conhecimento seja compatível com o rito executório (Art. 598 do CPC).

- Exemplos:

Emenda à inicial (art. 284 do CPC); Citação com hora certa (art. 227 do CPC); Determinação de atos instrutórios pelo juiz (art. 130 do CPC).