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CAPÍTULO I

Maria Rita equilibrava com dificuldade a bacia de roupa lavada


sobre a cabeça. A avó ,apesar da idade, era muito melhor nessa tarefa
do que ela. Olhava com desânimo para a estrada poeirenta e comprida
que teria que percorrer até chegar em casa. O sol castigava-lhe a pele
mulata, sem dó. De vez em quando se virava para olhar para os
ocupantes de alguma carroça que passava, ansiosa por encontrar
alguém conhecido que lhe pudesse valer. Mas ninguém conhecido
passava.

Vinha do rio, que ficava a três quilômetros da casa da avó, dona


Nininha, cujo nome de Batismo, Anastácia Maria do Rosário Conceição,
não combinava nem um pouco com pessoa tão miúda, com seu metro e
meio de altura. Ana Rita ou Ritinha, como era conhecida por todos,
ouviu ao longe o barulho de um motor. Isso era coisa rara naquele
lugar. O som veio aproximando-se, ficando cada vez mais forte, até que
o carro parou junto a ela levantando uma nuvem de poeira.

Era Rúbio Afonso ,conhecido como Rubão , ou o velho Rubão ,de


quem todos tentavam se afastar antes que começasse uma de suas
intermináveis histórias dos “velhos tempos de sua infância” era assim
que começava a lengalenga, e não acabava mais. Mas , para sua sorte,
Rúbio Afonso parecia com muita pressa naquele dia. Disse à moça, com
o rosto avermelhado:

__ Escute aqui, minha filha. Não viste por acaso um carro


vermelho dirigido por um moço loiro passar aqui, na direção de minha
fazenda?

Maria Rita balançou a cabeça:

__ Não, senhor. Também estou voltando agora do rio....


O velho atirou-lhe um “desgraça” entre dentes, sem deixá-la
terminar, e fez meia volta na velha picape, cobrindo-a de grossa nuvem
de poeira. Maria Rita, tossindo e protegendo os olhos, afastou-se da
margem da estrada para não ser atingida durante a manobra violenta.

__ Velho maluco !__ gritou, quando sabia que não mais podia
ouvi-la.

Continuou o caminho imaginando o motivo da pressa do velho


Rubão. De repente, uma lembrança acendeu-se em sua mente: O filho
do velho! Claro! Como não se lembrou logo? Todos estavam
comentando que o rapaz chegava por esses dias e, com certeza, ele
havia ido ao seu encontro e desencontraram-se, daí o desembesto do
velho mão-de-vaca. A moça ficou feliz consigo mesma. Apesar de um
tanto distraída, ou “cabeça-de-vento” como preferia a avó, gostava de
entender as coisas. Detestava histórias pela metade ou fatos que não
se encaixavam, como aquele. Ela sabia que não era natural que Rubão
retirasse a picape da garagem sem motivo, significava um gasto. Por
isso era tão comum ver o homem rico se exaurindo em suor pelos
caminhos, guiando uma velha charrete, enquanto os carros _três, ao
todo_ descansavam nas garagens. Agora tudo fazia sentido. A chegada
do filho único, que ele não via há dez anos, deve tê-lo convencido ao
grande sacrifício do desperdício de gasolina. Mas, pelo jeito, o encontro
ainda não se dera. Maria Rita levantou e abaixou os ombros : o assunto
não lhe interessava mais. Tinha, na verdade, outra questão para
preocupar-se até chegar em casa. Sabia que aquele lugar estava
próximo e não tinha como se esquivar. Sentiu um arrepio de medo ao
lembrar-se dele, mas nem por isso diminuiu o passo. Tinha que chegar
em casa e aquilo não a impediria.

Ouviu vozes conhecidas às suas costas e, como as pernas e a


cabeça doíam-lhe, resolveu esperar: conversar fazia passar mais rápido
o tempo e encurtava as distâncias, como era bem sabido. As vozes se
tornaram mais nítidas. Ah, não! Desesperou-se Maria Rita, com o
coração acelerado: eram eles, com certeza!

__ Mas o dinheiro da venda do porco devia de sê meu tamém, não


só teu!

__ Ora! E por quê? Quem que dava de comê e de bebê ao bicho,


era ocê, era? Não, era eu! Era eu! Eu! Ocê só o que sabia fazê era cubri
o porco e discubri o porco, cubri e descubri ,ingual um abestalhado!

__ Pruque eu sabia que o bichinho tamém sintia calô, inguar todo


mundo! Um solão e o bichinho lá, torrano ingual torresmo! Uma
judiaria, ninguém via, só eu!

__ Ah, mas quando ele tava sintino fome, ocê num via! Quando
tava cum sede ,ocê num via! Quem é que carregava na cacunda a
lavage sozim? Quem que levantava os baldão de água pra levar pra
ele,hein, hein,? Era só eu, que mãe só sabe berrar meu nome ! É
Jeremia, faz isso! É Jeremia faz aquilo! Tu já deu cumida pru porco,
Jeremia?

__ Tu bem que sabi que eu num tava pudeno levantá peso! Já se


isqueceu da topada que levei? Levô minha unha fora!

__ Ah, lá vem ele com a unha! Isso lá vai quase um mês e tu


continua a falar dessa unha! Grande bosta ,tua unha! E que é que tem?
Eu levo topada todo dia, ninguém vê!

__ Leva topadinha à toa, só sente na hora, mas eu! Eu tive febre e


tudo! Mãe até chamô a benzadera! Quase morri!

__ Há,Há,há! Quase morreu! Tu não pode espirrar, que quase


morre! E a culpa é da mãe que te botô nesse custume de fazê corpo
mole! Duvido se pai tivesse vivo se tu fazia manha ou se mãe ia vivê te
fazendo paparico!
__ Pois mermo assim o dinheiro do porco é pra sê dividido, que
mãe disse!

__ Não ela só disse assim: “Vespasiano precisa de chinela” só


disse isso,mas nada! Intão eu faço as compra de casa, compro a
chinela e pronto, o resto é meu!

__ Não foi isso que ela disse só não, Jeremia! Dexe de sê


mintiroso!

A discussão estava nesse pé quando os irmãos encontraram Maria


Rita na estrada. Ela, que já ouvira uma boa parte da polêmica, tentou,
em vão, achar uma moita grande o suficiente para que pudesse se
esconder.

__ Olha, Jeremia! É Ritinha!

__ Maria Rita! _ corrigiu logo a moça, em quem os apelidos


causavam uma irritação que beirava à intransigência.

__ Tô vendo que é Ritinha,leso! E que que tem ? Ritinha se vê todo


dia!

__ Vamo preguntá se ela acha que o certo num é dividi o


dinheiro,vamo!

__ E ela sabe de quê pra dá parpite nesse assunto?

__ Ritinha é inteligente!

__ Maria Rita!! _ berrou a moça, mesmo sabendo que continuaria


sendo ignorada.

__ Inteligente,inteligente! Desdi quando uma criatura qui nunca foi à


iscola é inteligente? Já viu ela na escola? Ela tem diproma ingual aos
filho do seu Terto? Já viajou pra fora, ingual o filho do velho Rubão,
hein,hein,besta?

__ Mas ela lê! Eu já vi ela lendo quando passei infrente a casa da


dona Nininha, ela tava lá, lendo um livro. Né verdade, Ritinha ?

__ Lê nada,besta! Tu é um jumento mermo !__ disse Jeremias e


pôs-se a escoicear e a zurrar como o citado animal _Viu ? Tu é assim
mermo_ e tornou a repetir a façanha_ Intão só pruque arguém tá cum a
cara infiada num livro, tá leno? Intão até tu, burro do jeito que é, pode
lê!

Vespasiano amuou. Não gostava quando o irmão o chamava de


burro na frente de outras pessoas. Ao lado, tentando não rir alto, Maria
Rita torcia para que os irmãos Pedrosa acelerassem o passo e a
deixassem para trás, com suas pernas doídas , sua dor de cabeça ,seu
cansaço. Não suportava suas discussões infinitas, que dispensavam a
lógica, o bom senso e terminavam sempre com o caçula de olhos
marejados, incapaz de superar os apelidos e as imitações com que o
irmão mais velho, Jeremias, o aniquilava.

Maria Rita olhou-os de lado. Se não fossem tão broncos podiam se


aproveitar, pensou, com um meio sorriso. Eram altos, de cabelos muito
pretos e lisos. A pele era de um moreno delicado, que se avermelhava
nas faces. Dos narizes se podia dizer que eram grandes, mas também
retos e bem feitos; os olhos agateados eram oblíquos cobertos por
pestanas e sobrancelhas espessas. O que neles se diferenciava era o
porte ,mais robusto e másculo em Jeremias, esbelto e ameninado em
Vespasiano. Mas as diferenças ficavam aí. Além disso não se podia
distingui-los e,apesar de ambos serem jovens adultos de dezenove e
vinte e um anos , nada em seu comportamento confirmava-lhes a idade,
fazendo crer que se tratavam de dois meninos crescidos. A mãe preferia
claramente o caçula, o que gerava desentendimentos constantes. O
mais velho vingava-se fazendo o irmão passar por vexames em público,
sem imaginar que também era arrastado por eles, e que entre o povo
dali, da pobre cidadezinha de ****** , eram simplesmente os irmãos
Pedrosa, que causavam riso com o tosco de seu falar , vestir e as
eternas arengas.

Finalmente, como queria Maria Rita, os irmãos passaram por ela


ocupados em outra discussão sem futuro. Respirou aliviada, como se o
peso da bacia tivesse diminuído. Os rapazes tomaram o caminho da
direita, na bifurcação que se seguia daí a cinquenta metros. Sentiu
novamente o calafrio ao lembrar-se de que, ao pegar o caminho à
esquerda, passaria ali.

Chegou ao ponto. Parou,retomou o fôlego e seguiu. Precisava


chegar em casa. E não havia outro caminho.

CAPÍTULO II

José Afonso já ouvia há quase uma hora o discurso tortuoso do


pai, Rúbio Afonso, o velho Rubão. Já suspirara, já cobrira o rosto
rosado com o boné preto , tornara a descobri-lo, assobiara a canção
inglesa “sympathy to the devil”, cochilara e tornara a despertar , tudo
com a voz grave , alta e acelerada do pai nos ouvidos, sem pausa.

__ ...e sem respeito nenhum! Então o que combinamos, hein,hein,


moleque? Que tu tinhas que estar na estação ,me esperando,que não
conhecias a cidade!- e José Afonso ,ao ouvir a palavra “cidade” teve
um risinho irônico_ E me fizeste tirar a picape da garagem ,e me fizeste
ir e voltar da estação até metade do caminho da fazenda, pra então
voltar igual a uma besta! E ainda tenho que agradecer ao velho maluco,
Felisberto, que vê alma de outro mundo, que ele que te viu perdido por
aí, dando volta, até cair no atoleiro, que aquilo é um imprestável, não
serve nem para avisar a uma besta como tu do atoleiro! E ainda tive de
pagar! Pagar! Ouviste! Ainda ri ,o abestalhado! Pagar praqueles animais
dos irmãos Pedrosa, para empurrarem do atoleiro o carro novo que me
obrigaste a comprar! Porque nem pra isto, José Afonso! Nem pra isto
serves! E pára de rir, moleque! Pra que foi, me digas, pra que foi que te
mandei estudar em São Paulo? És advogado pelo menos? Porque o
que me dizes é que te formaste, mas sei eu? Sei eu!

__ Eu trouxe o diploma para provar.

__ Pois não acredito, mesmo que me mostres! Pois não


combinamos que...

__ Chega , papai! Pelo amor de Deus ou do Diabo! Chega!

__ Belas falas ,senhor advogado! Belas falas! Pois foi para isso que
gastei meu dinheiro!

__ Mas se o senhor não acaba nunca! Não já expliquei que pedi


informação para chegar à fazenda?

__ Mas eu não te disse que ias te perder? Eu não te ...

__ Está bom, já me disse! Tenho culpa se esses jecas não servem


nem pra ensinar um caminho? Paciência!

__ É bom para aprenderes! É bom! Pois se eu já te havia dito...


__ Papai! Eu juro que se continuar com essa conversa, eu pulo e
vou a pé!

E josé Afonso abriu a porta da picape para dar mais credibilidade ao


blefe. O velho, que já vira o filho fazer poucas e boas e, para que
pudesse completar a escolaridade necessária, fora preciso nada menos
que a passagem por sete escolas, não duvidou da falta de senso do
filho, que ele duvidava que alguma faculdade tivesse amansado.

__ Fecha essa porta, excomungado!

José Afonso obedeceu e riu alto. Assim o pai o chamava desde a


infância e__ hoje sabia__ , havia alguma verdade naquela palavra. Por
diversas vezes o padre o ameaçara de excomunhão. E, mesmo que
nunca tenha tido a coragem de fazê-lo, para a população de ****** era
como se o padre houvesse consumado a ameaça. Sua fama atingira tais
picos, que sempre que acontecia um acidente de grandes proporções,
de motivos desconhecidos, dizia-se que “ Afonsinho devia saber”. Nem
achava que tivesse sido assim tão terrível,mas a voz do povo...

Lembrava-se de se esconder embaixo do altar e, durante a missa,


completar o que o padre dizia com algum absurdo. “Oremos!”, dizia o
padre, “Para que Silvana pare de se agarrar com o coroinha na
sacristia,” completava Afonso. “ Perdoai nossos pecados” , “Para que a
gente possa pecar mais!”, continuava José Afonso, para o desespero
dos crentes. Já havia salgado as hóstias , escondido o vinho e trocado
por vinagre. Escondera-se atrás do manto da imagem da virgem e,
quando os devotos vinham dizer suas orações e fazer suas promessas,
gritava com voz de falsete: “mentira, abestalhado!” Seguia as meninas
no dia da coroação, ou comunhão, com ar devoto e, quando se
distraíam, levantava-lhes as saias rendadas. Fazia travessuras de
outras ordens, mas gostava mesmo era das igrejas, pois sempre achara
muito engraçado o povo de olhos fechados balbuciando juntos as
orações, trocando palavras que não entendiam, ou bocejando enquanto
as recitavam ,ajoelhados diante de bonecos de barro pintados. As
velas, os terços, as missas repetitivas, que já sabia de cor, tudo lhe
parecia motivo de riso, não conseguia levá-los a sério. Não havia
mudado muito, a não ser que aprendera a dar um nome a sua
irreverência: ateísmo. Ainda se divertia com as crenças alheias, mas
hoje era mais sutil e, por isso mesmo, menos castigado.

__ E teu carro lá ficou! - continuou finalmente Rubão, tirando o filho


das reminiscências __Lá ficou sob os cuidados do maluco do
Felisberto!

__ Fazer o quê? Ligo para o seguro depois, se é o que o seguro


consegue chegar até aqui!

__ Que seguro o quê! Ainda Hoje Geraldo vai até lá e leva o carro
de volta!

__ Que Geraldo? Meu Geraldo?

O velho Rubão sorriu, como só os pais sorriem ao ouvirem de um


filho crescido uma frase que repetiam em criança.

__ Sim , teu Geraldo! Tu pobre preto Geraldo, que sofreu tanto


contigo!

José Afonso se tinha uma lembrança agradável da vida que um dia


tivera alí, naquele lugar remoto, fechado para o restante do mundo, era
de Geraldo. Chamava-o quando menino de meu Geraldo, porque era
assim que no seu egoísmo o enxergava. O preto retinto, de sorriso doce
que tudo suportava de suas travessuras, que o defendia das surras do
pai, do levante da população contra ele, que o acolhia quando chorava,
deixando-o esconder o rosto vermelho nas mangas de suas camisas
de tecido grosseiro e , milagrosamente, sempre limpas. Era em sua
cabana humilde que Afonso ia abrigar-se dos ralhos do pai, das
tempestades, ouvir histórias de caças, de seres mitológicos. Ali ele
encontrava sempre amizade e os afagos que a mãe já morta e o pai
seco para carinhos lhes negavam. Ele era habilidoso, o Geraldo.
Amansava cavalos sem espancá-los, conciliava disputas ferrenhas,
revirava as entranhas das máquinas que emperravam e, com paciência,
devolvia-lhes a vida.

__Acha que ele entende da mecânica de carros modernos?

__ Há de saber...! Senão, ele dá seu jeito...__ e Rubão sorriu __ É


especialista mesmo em dar jeitos, o Geraldo!

__ Geraldo! Está muito velho, ele?

__ Já vai pelo setenta! Mas ninguém diz! Tem uma saúde de ferro
aquele preto!

__ Menos mau! Se tem alguém aqui de quem sinto falta é dele!

Rúbio Afonso tirou o chapéu e, ato contínuo, bateu com ele no


filho.

__ Então, só sentes falta do Geraldo?

__ O senhor quer ouvir uma declaração de amor?

__ Não moleque, só gratidão já basta!

__ Se eu conseguir chegar em casa inteiro e dormir umas quatro


horas, garanto que vou ser grato eternamente, paizinho!__ e puxou a
bochecha do pai.

__ Moleque! Sempre o mesmo moleque!__ disse, enquanto


balançava a cabeça, feliz, no fundo, pois entendia que nem o tempo ou
a distância tinham-lhe tirado o filho que conhecera.

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