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DOMINGO, 11 DE OUTUBRO DE 2009

J6 ALIÁS O ESTADO DE S.PAULO

Marx no tempo da dispersão


Autor vê nas teses do filósofo um sistema aberto: não foi por falta de tempo que O Capital ficou inacabado
REPRODUÇÃO

José Arthur Giannotti* zidas pelo mercado. Para ficar o lema “Todo poder aos
Marx,dado omercado, ele natu- sovietes”, e hoje sabemos o gol-
Minha obsessão em estudar ralmente se desdobraria no sis- pe que ele significou na demo-
Marx como clássico sempre es- tema do capital. Nosso desafio cracia russa.
teve ligada ao projeto de exami- é impedir essa continuidade, Não me parece mais adequa-
narsuastesesemvistadasaber- por conseguinte, dar liberdade do pensar numa política que de-
turas teóricas e práticas que suficiente para que os agentes semboque numa negação políti-
propiciam. Nunca as vi como marquemospreçosde seuspro- ca, a partir da qual uma nova
umsistema fechado, até mesmo dutos, sem que sejam levados história teria início. Desconfio
O Capital, sua obra máxima, ati- pelo automatismo de um siste- dos profetas do “novo homem”
ra em várias direções, e tenho ma produtivo, que se transfor- ou dos Zaratustras da vida.
fortes suspeitas de que não foi ma num robô visando produzir Aceito a política como ela é, mas
por falta de tempo que restou e acumular riquezas em vista sempre procurando seu dever
inacabada. da simples acumulação. ser.Porconseguinte,políticade-
O próprio Marx se recusava Diante da tarefa de conciliar mocrática, sempre inacabada,
a ser identificado como marxis- dois processos contraditórios, precisando começar de novo.
ta. Suas teses valemantes de tu- uma economia de mercado e Sob esse ângulo privilegio os
do para serem prosseguidas. É uma política que se legitime na textosdeMarxquemostramco-
sintomático que, analisando os medida em que impeça a aliena- mo ações humanas terminam
Grundrisse, Antonio Negri te- ção desses mesmos mercados, tendo consequências imprevis-
nha escrito Marx Oltre Marx. pouco vale lamentar-se diante tase até mesmo indesejadas por
Meu novo título, Marx – Além do da miséria criada pela explora- elasenquantoatosindividualiza-
Marxismo, obviamente inspira- ção capitalista. Mas qual seria a dos.Sobesseaspecto,interessa-
do neste último, tenta sublinhar prática adequada para lidar me particularmente o conceito
que a base a ser negada é o mar- comessesprocessoscontraditó- hegeliano de alienação, mas tor-
xismo cristalizado numa profis- rios? Creio que, nessa explosão cido de tal forma que escape dos
são de fé ou numa corrente de dos mercados e na necessidade perigos do idealismo absoluto.
pensamento que não se deixa de repô-los num patamar mais Daí a necessidade de ler esses
correr.SeaobradeMarxprocu- MARX E ENGELS – As lutas de classe hoje se dão por direitos, repondo o Estado em vez de contestá-lo humano e racional, no fundo se textos com lupa fina, cuidando
ra desvendar os meandros das percebe a urgência de uma polí- de detectar as torções por que
estruturas capitalistas de pro- guinte, repondo o Estado em Aristóteles ou Kant, ou até mes- ciais contemporâneas lidarão tica capaz de se controlar a si passamosconceitosquandotra-
dução,éseupróprioequipamen- vez de contestá-lo? mo Wittgenstein. Quando al- com esse tópico. Mas não vejo mesma, em resumo, uma políti- tamdeconfigurarumanovafor-
tointelectual queprecisa serre- “Marxismo” e “socialismo” guém ainda se identifica como como escapar desse conceito ca democrática. ma de práxis dialética. Por isso,
novado, na medida em que o ob- se tornaram palavras equívo- marxista ou socialista, sem ex- de modo de produção, a não Se a questão é política, en- depois de minha introdução,
jeto de estudo explode em vá- cas. Enquanto havia Estados e plicar o sentido dessa invoca- ser deixando de lado a específi- tão façamos política. Mas efi- achamos conveniente apresen-
rias direções. partidos que se diziam marxis- ção, logo desconfio que está ca historicidade de nosso mo- caz, que tome como ponto de tar alguns textos do próprio
Meus críticos irão dizer que tas, a adesão a ambos tinha, ao querendo fazer política sem su- do de se repor em sociedade. partida as condições dos siste- Marx, mas traduzidos de tal for-
tento confinar o marxismo aos menos, um sentido político ra- jar as mãos no seu jogo efetivo, Não é o próprio conceito de his- mas políticos atuais, e examine- ma que pelo menos deixam
muros das universidades, que zoavelmente determinado. Na muitas vezes contentando-se tória que precisa ser considera- transpareceressas torções con-
apenas sublinho o lado filosófi- em votar num candidato cuja do, nos seus dois vetores, histó- ceituais. É o que procura fazer a
co da obra de Marx, quando a irrelevância parece ser com- ria categorial, de um lado, a his- O PROLETARIADO, QUE traduçãodeLucianoCodato.Ta-
tarefa, antes de compreender, DEPOIS DE LONGA pensada pela vácua sonorida- tória do vir a ser, de outro. Esta PODERIA CONTESTAR refa difícil, a ser retomada pelos
é transformar o mundo comba- HEGEMONIA LIBERAL, de de seu discurso. me parece a primeira grande leitores, porque o próprio Marx,
tendo o capital. O conhecimen- A crise econômica atual re- contribuição de Marx para o O CAPITALISMO PELA numa carta ao tradutor d’O Ca-
to não se integra numa práxis? VOLTA-SE A FALAR coloca o problema do automa- pensamento social. RAIZ, SAIU DE CENA pital para o francês, aconselha
Mas tanto o capital como o EM KEYNES tismo do capital e das contradi- O sistemacapitalista se mos- quedeixedeladoessas nuances,
mundo explodiram em várias ções do sistema capitalista de trou muito mais lábil do que se pois os franceses não são dados
direções, de sorte que nem mes- produção. Depois de uma lon- imaginava. Por certo essa ma- mos teórica e praticamente a elas. Espero que os leitores de
mo podemos falar deles se não medida, porém, em que a revo- ga hegemonia do pensamento leabilidade não apagou suas suas possibilidades de mudan- língua portuguesa compreen-
levarmos em conta essa disper- lução desaparece do horizonte liberal, volta-se a falar em Key- contradições, continua sendo ça. Foram desmoralizados os dam a importância filosófica
são. Além do mais, como detec- efetivo da política, que sentido nes, e Marx passa a ser olhado um extraordinário processo de arautos do novo homem, ou po- dessas torções. ●
tar o empuxo transformador pode ter se assumir como mar- sob novas perspectivas. Não é criação de riqueza e de miséria, líticos que imaginavam supri-
quando, hoje em dia, o que se xista ou socialista? Não somos significativo que este opúsculo mas desapareceu de cena aque- mir o Estado à medida que o *Professor emérito de filosofia da
tomou como motor da história, todos social-democratas nos venha a ser reeditado neste mo- levetorda história, oproletaria- reforçavam. Marx desconfia- USPe pesquisadordo Cebrap.
o proletariado, não encontra a seus mais variados sentidos? mento? Essa crise atualiza cer- do, que poderia contestá-lo pe- va da democracia formal e, de- Éautor, entreoutros,de Trabalhoe
unidade do capital social total Diante da obra de Marx, sobra tos conceitos marxistas, em la raiz. Além do mais, as expe- pois da Comuna de Paris, acre- ReflexãoeOrigens da Dialética do
para se contrapor como classe apenas tentar pensá-la pela particular aquele de um modo riências do socialismo real mos- ditou que uma ditadura do pro- Trabalho.Este textoé oprefácioà
unificada? Não é por isso que raiz, vale dizer, a partir dela, de produção cuja reposição traram a impossibilidade de letariado seria mais democráti- segundaediçãodo livroMarx –Vida
as lutas de classe de hoje se fa- como somos obrigados a fazer passa por crises específicas. uma produção da riqueza so- ca do que ela. Mas esse concei- eObra, agora renomeadoMarx–
zem por direitos, por conse- quando procuramos entender Não sei como as ciências so- cial sem as informações produ- to de ditadura serviu para justi- Alémdo Marxismo(L&PMPocket)

Admirável mundo novo?


Ao contrário do prometido, a tecnologia não aliviou a deterioração do trabalho, diz sociólogo: ‘Apenas a transformou’
PAULO LIEBERT/AE

Christian Carvalho Cruz EIS O INFOPROLETÁRIO pre disponível e pode ser inco-
“O proletariado não acabou, ao modado a qualquer hora por
A não ser em seus livros, em contrário do que muitos previ- questões de trabalho, afinal vo-
que analisa com acidez marxis- ram e desejaram. Ele se trans- cênão está sóemcasa, está tam-
ta as transformações do traba- formou. O livro é uma tentativa bém no escritório. A noção de
lho e suas implicações na vida de compreender essa transfor- tempo desmorona com a vida
cotidiana, o sociólogo Ricardo mação. Infoproletariado, ou ci- TERÇA, 6 DE OUTUBRO privada. É uma nova modalida-
Antunes, da Unicamp, tem difi- berproletariado, são termos de de precarização permitida
culdadede contar a dura verda-
de a um trabalhador. Certo dia
que compreendem uma ampla
gama de trabalhadores que flo- Hi-tech pela tecnologia. O pior é que vi-
rou tendência, essa é a nossa
lhe telefonou uma funcionária
do banco querendo saber por
resceu nas últimas três déca-
das e meia a partir do aumento na cabeça tragédia. Sou capaz de com-
preender o lado positivo do tra-
que ele não pagava contas pela dousodatecnologiadainforma- balho a distância para certo ti-
internet. “Porque eu não lido ção, da globalização e da degra- ●●● Um levantamento feito pela po e trabalhador que dispõe de
bem com tecnologia”, Antunes dação das condições de traba- consultoria A.T. Kearney para a “capital cultural” e acha bom
disfarçou. A moça insistiu dias lho. Esse triplo processo origi- revista americana BusinessWeek ter controle sobre o próprio
depois. “Porque eu não confio nou um tipo de proletário con- listou as “melhores empresas tempo. Mas o inverso disso é a
na internet”, foi a segunda res- traditório. Ele é de ponta, mo- do mundo” na atualidade. Três individualização, o isolamento,
posta que ela ouviu. Só no ter- derno, porque usa tecnologia companhias essencialmente tec- o fim do trabalho coletivo e a
ceiro contato o sociólogo abriu avançada, mas é atrasado, por- nológicas encabeçam o ranking: quebra dos laços sociais.
o jogo: “Porque eu não quero que herdou condições de traba- Nintendo, Google e Apple.
que você perca seu emprego”. lho vigentes no início do século TERREMOTO SOCIAL
É justamente do trabalho no 20. Analisar esse fenômeno é ir AVANÇO DIGITAL – ‘Poderíamos todos trabalhar três horas por dia’ “Oavançotecnológicoatualéta-
admirável mundo imaginado além do invólucro místico de manho que poderíamos traba-
pelos entusiastas da era digital certa sociologia segundo a qual antes do início da jornada diá- que o seu colaborador é o pri- rar a autoexploração. Ao pro- lhar tranquilamente três horas
que trata seu novo livro, a cole- a tecnologiatraria para o traba- ria os teleoperadores se reú- meiro a ser penalizado em tem- curar emprego hoje você esta- por dia durante três ou quatro
tânea de ensaios Infoproletá- lho o admirável mundo novo. nam em um momento de con- pos de crise? Estamos diante rá em desvantagem se não mos- diasporsemana.Todosproduzi-
rios – Degradação real do traba- Talvez fosse mais correto falar centração, com música agita- de uma falácia, logicamente. trar no currículo que fez ou faz ríamos e viveríamos bem. Mas
lho virtual (lançado pela Boi- em abominável mundo novo. da, palavras de ordem, etc. É o trabalho voluntário. As empre- como realizar isso nesses tem-
tempo). Organizada em parce- seumomento catártico para en- VOLUNTÁRIO NÃO, OBRIGADO sas valorizam isso. Mas se você pos de sociedade que vive em
ria com o também sociólogo MAIS COMPLETA TRADUÇÃO frentar a barbárie que virá. “É o caso também da chamada tem que fazer trabalho voluntá- plena superfluidade? As pes-
Ruy Braga e com lançamento “O operador de telemarketing web 2.0, em que os indivíduos rio para conseguir um empre- soas precisam ir ao shopping,
previsto para o dia 26 deste é a expressão mais completa de E AÍ, PARCEIRO... são “convidados” a colaborar go, então ele se tornou trabalho consumir sem parar, mesmo
mês, a obra faz um recorte pre- infoproletário. Um trabalha- “O infoproletário não se rebe- com empresas de internet. Há compulsório. No Brasil exis- sem saber o quê nem pra quê,
ferencial pelos operadores de dor sob controle absoluto. Ele la. Afinal, ele não é um trabalha- uma utilidade social clara nis- tem perto de 20 milhões de tra- não é mesmo? Alguma coisa es-
telemarketing e trabalhadores fica isolado em baias de modo dor, ele é um “colaborador”. so, não nego: o cidadão pode di- balhadores voluntários. É evi- tá fora de ordem. E não é possí-
de call center, expressões máxi- que não converse com o colega Eis uma engenharia ideopolíti- dente que eles substituem 20 vel que o século 21 transcorra
mas da atual precarização do do lado, tem tempo contado pa- ca das empresas, nascida nes- milhões de assalariados que es- com essa destruição do traba-
trabalho, segundo Antunes. ra ir ao banheiro, é punido se se novo mundo do trabalho. O CIBERPROLETÁRIO tariam recebendo para reali- lho em escala monumental sem
Contudo, na entrevista a se- não cumpre metas e, como na Elas precisam da aquiescência NÃO SE REBELA. ELE zar um trabalho agora feito por que algumas “placas tectôni-
guir, o sociólogo envereda tam- indústriafordista,faz umtraba- e do envolvimento dos traba- voluntários que são obrigados cas” se movimentem – e eu não
bém por outros desdobramen- lho prescrito e repetitivo leva- lhadores para tê-los só pensan- NÃO É TRABALHADOR. a sê-lo. Que coisa... estoufalandodegeofísica,obvia-
tos da nova realidade, na qual do ao limite. Um quadro de so- do nelas. No seu jogo de pala- ELE É ‘COLABORADOR’ mente. Cinco anos atrás quem
ele vê poucos motivos de cele- frimento e sujeição totalitária. vras, um colaborador não é par- HOME OFFICE diria que os Estados Unidos to-
bração. “Não é possível que o Em franca expansão mundial, te da classe operária, não se sin- “Outro desdobramento do ci- maria medidas estatizantes pa-
século 21 transcorra com essa os call centers são, obviamen- dicaliza, não pensa em política. vidir com outros cidadãos bertrabalho é o trabalho a dis- ra impedir a falência de seu sis-
destruiçãodo trabalho emesca- te, importantes empregadores Colaborador é parceiro, quase quaisquer informações que jul- tância, o melhor dos mundos tema financeiro? Quem diria
la monumental sem que algu- de jovens. Mas até eles perce- sócio. Por isso até almoça no gue importantes. Porém, há para o capital. Você trabalha que no modelo imaginado pelo
mas‘placas tectônicas’ se movi- bematragédia emque seencon- mesmo restaurante dos gesto- um segundo elemento, que é o em sua casa, onde o público e o american way of life o essencial
mentem – e eu não estou falan- tram. Em poucos meses não su- res. Como, por definição parce- capital se aproveitando de privado se embaralham: como automóvel se tornaria também
do de geofísica, obviamente”, portam o emprego, mas não po- ria implica ajuda mútua, na bo- mais uma brecha para gerar va- não há definição do que é traba- moradia da classe média? A his-
ironiza. “A história está aberta dem sair, pois lá fora a opção é o nança ou na tragédia, eu per- lor. Como no trabalho voluntá- lho e do que é descanso, a jorna- tória está aberta, inclusive para
para qualquer tipo de saída.” desemprego. Sintomático que gunto a essas empresas: por rio, mais uma forma de masca- da se estende. Você fica sem- saídas ainda mais à direita.” ●