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6 a 11
Neuza das Graças

Conceito
superior
Newton Luís Mamede

A avaliação dos cursos universitários no a nota máxima, com o conceito “A”: Le-
Brasil, pelo Exame Nacional de Cursos – o tras (pela segunda vez consecutiva), Jor-
conhecido Provão –, tem “punido” e “pre- nalismo, Pedagogia e Administração. E,
miado” as instituições que os ministram, num também honroso conceito, o curso de
conforme os resultados adversos ou positi- Matemática foi classificado com “B”. Sem
vos alcançados. Contestada, rejeitada e boi- contar que, em avaliações de anos anterio-
cotada pelos alunos, no início de sua ado- res, os cursos de Administração e de Jorna-
ção, em 1996, o certo é que essa forma de lismo já obtiveram conceito “B”.
avaliação das universidades brasileiras “pe- O derrotismo, muitas vezes, leva o
gou”, cresceu e estabeleceu-se no quotidia- “santo de casa a não fazer milagre”. Ve-
no acadêmico. De três cursos avaliados na mos, com freqüência, pessoas de nossa ci-
primeira edição desse Exame, atualmente dade ridicularizarem os nossos cursos, ou
já passam de dez. Contra os protestos inici- as nossas instituições. Chegam a sair de
ais, a reação oficial foi mantê-lo e ampliá- Uberaba, às vezes até incentivadas e pa-
lo, o que culminou com sua consagração. trocinadas por escolas de ensino médio,
Embora nem sempre para estudarem noutras
os resultados obtidos pe- “plagas”. Enquanto
los alunos reflitam a rea- Em 2001, quatro cursos da isso, alunos de várias re-
Voluntários orientaram os novatos nos primeiros dias de aula
lidade de algumas esco- Universidade de Uberaba foram giões do Brasil, algu-
las e cursos, todavia sua mas distantes, do Nor-
classificados com a nota
divulgação constitui um deste e do Norte, procu-

Veteranos receberam ponto de referência soci- máxima, com o conceito “A”


al, um marco e um pa-
drão de qualidade com
ram Uberaba para reali-
zarem seus estudos uni-
versitários. Especial-

calouros com que as universidades são vistas e conside- mente, a nossa Universidade de Uberaba.
radas pela sociedade. E, daí, os famosos Sinal de confiança. Padrão de honra.
fatores de insucesso ou de sucesso. Defeitos, todos os têm. Perfeição, nin-

Atitude Cidadã Como é comum o interesse coletivo co- guém a possui. Então, temos o dever, a
mentar e divulgar mais os fracassos do que obrigação de reconhecer e de exaltar as
os sucessos, um resultado adverso é lem- nossas qualidades, os nossos valores.
brado por muito mais tempo do que um posi- Apesar dos defeitos e das imperfeições.
tivo. Então, para alimentar e avivar a memó- A Universidade de Uberaba é, sim, uma
Universidade incentivou camaradagem entre colegas ria do sucesso, é necessário que consideremos, escola superior que detém conceito tam-
aqui, os elevados conceitos que alguns dos bém superior. Não é futilidade declarar
cursos de nossa Universidade de Uberaba isso. É, antes, o reconhecimento do tra-
Rodolfo Rodrigues proposta nova de camaradagem, até então, obtiveram no último Provão, realizado em balho sério que ela persegue e desenvol-
4º período de Jornalismo inédita para os alunos veteranos. Os cursos 2001. E essa memória é mesmo necessária, ve. Com vontade de acertar. Com vonta-
de Comunicação, Turismo, Serviço Social, não para propaganda gratuita, mas para que a de de vencer.
A Universidade de Uberaba este ano Terapia Ocupacional e Educação Física fi- comunidade, a sociedade tome ciência e cons- Quatro conceitos “A”. Num mesmo ano.
resolveu inovar na recepção dos calouros. caram responsáveis pela recepção e toda a ciência do que ela possui de bom e de eleva- E de uma universidade particular. E do in-
Fruto da idealização de um grupo de pro- divulgação dos eventos. A descontração dos do valor. Para que a sociedade uberabense terior. Não é para sentir orgulho?
fessores, alunos e funcionários da Univer- veteranos mesclada ao nervosismo e a re- valorize e divulgue o que é seu.
sidade de Uberaba, a calourada dentro do beldia dos calouros deram o sabor especial Em 2001, QUATRO cursos da Univer- Newton Luís Mamede é
Campus foi mais cidadã, pois utilizou uma à festa de recepção da calourada 2002. sidade de Uberaba foram classificados com Ombudsman da Universidade de Uberaba

Jornal-laboratório do curso de Comunicação Social, produzido e editado pelos alunos de Jornalismo e Publicidade & Propaganda da Universidade de Uberaba
Edição: Alunos do curso de Comunicação Social • • • Supervisão de Edição: Alzira Borges • • • Projeto Gráfico: André Azevedo (andre.azevedo@uniube.br) • • • Diretor do Curso de Comunicação Social:
Edvaldo Pereira Lima (edpl@uol.com.br) • • • Coordenadora da habilitação em Jornalismo: Alzira Borges da Silva (alzira.silva@uniube.br) • • • Coordenadora da habilitação em Publicidade e Propagan-
da: Érika Galvão Hinkle • • • Professores Orientadores: Norah Shallyamar Gamboa Vela (norah.vela@uniube.br), Vicente Higino de Moura (vicente.moura@uniube.br) e Edmundo Heráclito
(heraclit@triang.com.br) • • • Técnica do Laboratório de Fotografia: Neuza das Graças da Silva • • • Distribuição: Assessoria de Imprensa • • • Reitor: Marcelo Palmério • • • Ombudsman da Universidade
de Uberaba: Newton Mamede (ombudsman@uniube.br) • • • Jornalista e Assessor de Imprensa: Ricardo Aidar • • • Impressão: Jornal da Manhã Internet: http://www.revelacaoonline.uniube.br •••
Contatos: Universidade de Uberaba - Depto. de Comunicação Social - Bloco L - Av. Nenê Sabino 1801 - Bairro Universitário - Uberaba/MG - CEP 38.055-500
As opiniões emitidas em artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores.
2 25 de fevereiro a 3 de março de 2002
Fotos: Vaides Júnior e Antônio Marcos
Haron Freiri
Publicidade
BICHO TAMBÉM “O trote foi legal e divertido.”

É GENTE! Fernanda Ávila


Biomedicina
Calouros contam suas experiências
“Foi uma falta de respeito! Mas no
dentro e fora do Campus fundo foi legal, mesmo tendo que dar
Vaides Júnior
Antônio Marcos
R$5,00 para a cerveja dos veteranos.”
1° período de Jornalismo
Como todos sabemos, começo de
ano é sempre aquela confusão. Dúvidas
em relação às salas de aula, incertezas
sobre o curso escolhido, e principalmente
receio sobre os trotes a serem recebidos. Patrícia e Patrícia
O segurança encarregado de equipe da Administração
Universidade de Uberaba, Sebastião
Vargas, informa que não houve casos de “Foi legal, tivemos até que
abuso no trote dentro das dependências do matar formiga a grito.”
Campus II. “Alguns calouros saíram de
mãos dadas, a pedido dos veteranos. Mas
foi uma coisa tranquila, em que todos
concordaram”, diz.
Por isso, fizemos uma enquete com Gustavo “Pinguim”
alguns alunos de diversos cursos, para Publicidade e Propaganda Vanessa
mostrar como foram recebidos pelos Farmácia Industrial
veteranos, como foram as experiências “Foi uma sacanagem.
fora do Campus, além de conhecer suas Raparam e descoloriram meu “Não gostei. Só participei porque me
opiniões sobre o tão temido trote.
cabelo que era na cintura. obrigaram.”
Mas foi uma experiência
interessante.”
Ludwig Jardim
História
“Devido o pessoal
ser mais velho,
quase nem houve
Tiago Cardoso - Turismo trote. Mas gostaria
“Não foi tão bom assim, mas de ter recebido.”
acho necessário.”
Hariele
Pedagogia
“Foi bom, levei na base da amizade.”
Patricia Helena
Silvia Brunele Química
Fisioterapia Não gostei do trote, pois fiquei
“Os trotes foram horríveis, apesar de com hematomas, mas gostei
não ter gostado levei na brincadeira.” muito do curso.
25 de fevereiro a 3 de março de 2002 3
3
Universidade de Uberaba
participa do projeto Veredas
Professores- alunos participam das primeiras aulas presenciais em Belo Horizonte
captura de tela
Wagner Ghizzoni Júnior os cursistas, os tutores e a agência formadora.
6º período de Jornalismo Ao fim de cada módulo, são feitas ava-
liações, para que cada um tenha consciên-
A Secretaria de Educação de Minas cia de sua evolução – além, é claro, de que
Gerais está preocupada em melhorar o ní- se não for aprovado, não passa para o pró-
vel de ensino da rede púbica e garantir es- ximo módulo.
cola pública de boa qualidade para todos, O I Encontro de Atividades Presenciais
como forma de contribuir para a constru- do Veredas começa na segunda-feira, 25 de
ção de uma sociedade mais justa, democrá- fevereiro, e vai até o dia1º de março, no SESC
tica e solidária. Venda Nova, em Belo Horizonte. Cada pro-
Para isso, está implementando o Proje- fessor cursista receberá a programação de-
to Veredas, um curso a distância cujo obje- talhada no primeiro dia de encontro. Vale
tivo, além de elevar o nível de competência lembrar que também haverá atividades cul-
dos professores municipais e estaduais, é turais no evento (confira quadro abaixo).
desenvolver a identidade do profissional da
educação em três dimensões: a profisional, Os professores alunos
a social e a cidadã. O Governo de Minas Gerais expôs a
A Universidade de Uberaba foi uma idéia de os professores da rede pública re-
das 18 universidades selecionadas para par- ceberem aulas para melhorar seu desempe-
ticipar do projeto. Treze professores, das nho, mas não impôs a participação de to-
áreas de Licenciatura e Pedagogia, além de dos. Só quem se interessou prestou o “ ves-
colaboradores, participam do curso. tibular” para participar do curso. Ou seja,
os professores-alunos foram motivados a
O curso aprender, e não foram “forçados” a fazerem
O Projeto Veredas tem duração de 3200 algo que não quisessem, conforme informou
horas, divididas em sete módulos semestrais
de 16 semanas cada um. Cada módulo tem
Luciana Faleiros Cauhi Salomão, integran-
te da equipe da Universidade de Uberaba,
PROGRAMAÇÃO CULTURAL
uma semana de aulas presenciais, ou seja, que coordena este projeto. Ela cedeu estas
25 / 02 – Apresentação teatral / Peça “O Mar de Estorias
o professor-aluno deve comparecer ao lo- informações em meio a muita correria. To-
26 / 02 – Apresentação de dança com o Grupo Beth Dorça, de Uberaba
cal determinado e ter as primeiras ativida- dos funcionários da Uniube envolvidos no
27 / 02 – Musical com o tenor Henrique Botelho
des com os profissionais de ensino superi- projeto mostravam empolgação.
Durante toda a semana haverá exposição de árvores brasileiras, exposição de
or. Depois, as demais aulas são a distância. Mais esclarecimentos sobre o projeto
pintura a óleo sobre tela,da artista plástica Noeme Maria Silva, e biblioteca a dis-
Em cada encontro de aulas presenciais, Veredas,, ligue para 0800-343113 ou acesse
posição para leitura de jornais e revistas e empréstimos de livros.
além das aulas propriamente ditas, há ativi- INK http://www.uniube.br/ead/veredas
dades em conjunto para uma interação entre www.uniube.br/ead/veredas

Vernissage com banda


Exposição das F.A.C.E
artistas plásticas Dia 1º de março, às 20h30

Fabiana Lacomb Centro Cultural


Cecília Palmério
Dayse Capucci Até 7 de março
4 25 de fevereiro a 3 de março de 2002
fotos: Wagner Ghizzoni Júnior
delas. Pois vários exemplares foram “leva-
dos” pelos leitores e assim perdeu-se a
sequência da coleção. Mas permanecem, por
exemplo, os cursos profissionalizantes, como
crochê, pintura em tecido, corte e costura e
artesanato em geral. Enquanto as mães estão
nestes cursos ou em reuniões, os filhos se ocu-
pam, e muito bem: a Brinquedoteca permane-
ce até hoje. Na época em que foi lançada, foi
motivo de reportagens em várias revistas do
Brasil. Com tinta, argila, papel e sucata em

Mais que um simples circo, geral, as crianças não vêm o tempo passar.
Outra atividade que permanece é a
Cinemateca, que atrai mais ou menos 100
pessoas à cada seção. “Temos lá um telão e

É O CIRCO DO POVO!
uma vez por semana exibimos documentários
e filmes que não incitam violência, pois isso
a televisão já faz”, explica Antônio Carlos.

em sua campanha eleitoral. do Circo do Povo. Segundo ele, depois que


Wagner Ghizzoni Júnior Mas, o diferencial do Circo do Povo esta- Wagner do Nascimento deixou de ser o pre-
6º período Jornalismo va nas atividades durante a semana. O Circo feito, o Circo perdeu espaço. “Antes eram
ficava aberto todos os dias para a comunidade. oferecidas até refeições para as pessoas mais
Se você nunca ouviu falar no Circo do Não era apenas um lugar para espetáculos. carentes. Hoje em dia está muito diferen-
Povo, não é de se admirar. Isso porque hoje Beethoven conseguiu o que queria em seu pro- te”, diz Beethoven, que tem passagens pela
em dia não é feita uma divulgação tão gran- jeto inicial: fazer do circo um lugar para a po- publicidade, comunicação social e história.
de como na época em que ele surgiu em pulação. Se era necessário uma reunião entre Hoje em dia, ele se dedica à Fundação
Uberaba. E, se você já ouviu algo a respei- os moradores do bairro, o circo era o local. Uma Peirópolis de Paleontologia.
to, já conferiu pessoalmente? Se a resposta reunião de pais e professores da escola? Mar-
também for não, não sabe o que está per- cavam no circo. Tinha queixas contra a Prefei- O circo hoje Os cursos e a Cinemateca não custam
dendo. O Circo do Povo é o pioneiro no tura? O prefeito e os vereadores se encontra- O Circo do Povo mantem-se como uma nada, assim como o espetáculo, que aconte-
Brasil de um tipo de circo diferente, e já foi vam com os moradores no circo. coisa inédita e extraordinária. Atualmente ce aos sábados, a partir das 20 horas. Artis-
até motivo de matérias na França. Outro grande barato do circo eram as ati- está no bairro Valim de Melo. A capacidade tas, tanto da comunidade, como outros, se
vidades que eram oferecidas. Havia na atual é para 3 mil pessoas. Por isso, o Circo apresentam e o fluxo de pessoas por apre-
Quando surgiu o Circo do Povo Gibiteca mil e 837 gibis de 53 tipos. Cursos não mantém o esquema de mudanças de sentação é em torno de mil e 500 pessoas.
Em 1983, mais precisamente de 26 de de instrumentos musicais e de xadrez eram bairro, pois é cara. Além disso, de acordo O cadastro de artistas continua. “A gente
fevereiro a 6 de março, aconteceu em São ministrados. Entre outras apresentaçõe, o cir- com Antônio Carlos Marques, não adianta dá oportunidade para as pessoas que têm dom
Paulo a I Feira da Cultura Brasileira. Como artístico mostrar seu trabalho. Conhecemos
espectador lá estava Beethoven Luis vários artistas profissionais que começaram
Teixeira, que voltou à Uberaba com o cére- lá e esse pessoal sempre volta, seja por retri-
bro a todo vapor. buição ou para incentivar os que estão come-
Beethoven sabia que em Uberaba havi- çando”, conta Antonio. “Não plagiando o
am muitos artistas de diversos tipos em to- Milton Nascinemto, o artista tem que ir onde
dos os bairros. Sua idéia era reunir todos num está o povo, e o povo está na periferia.”
só lugar para apresentações à comunidade. De acordo com Antonio, não há uma di-
Ao chegar em Uberaba, Beethoven ex- vulgação maior do Circo do Povo na mídia
pôs sua idéia ao prefeito de então, Wagner porque o público atual atende a demanda. E
do Nascimento. O prefeito ficou conhecido também porque há um preconceito em rela-
na cidade por ser uma pessoa muito próxi- ção ao circo. “A classe média não vai ao circo.
ma do povo, especialmente dos mais caren- Tem gente em Uberaba que nunca foi, isso
tes. E Wagner não teve receio em apoiar a com o circo tendo quase 20 anos”. Por outro
iniciativa de Beethoven. lado escolas solicitam visitas constantemente.
Em parceria com o amigo Antônio Carlos
Marques, Beethoven começou a percorrer A concorrência
todos os bairros da cidade para catalogar os co promovia Festival de Pipas e Papagaios, dar os cursos em curta temporada, pois não Quando outros circos vem à Uberaba
artistas. Eram fichados desde mágicos e pa- Festival de Folclore, Concurso de Violeiros, resolvem o problema do aprendizado. O isso não significa concorrência. Estes cir-
lhaços até empalhadores e doceiras. Semana da Criança, Semana de Prevenção circo oferece vários outros serviços sociais, cos precisam da Prefeitura para liberação
Em 4 de março de 1983 foi inaugurado de Acidentes, Exposição de Fotografias, em por exemplo, na área de saúde, com as pes- do alvará. Então, o pessoal do Circo do
o Circo do Povo, no Bairro Abadia. No co- parceria com a Universidade de Uberaba, soas diabéticas e hipertensas. “Quer dizer, Povo divulga, ajuda, e em troca, o circo
meço o circo tinha capacidade para mil e então Fiube), Semana Excepcional, Concur- se você fica dois ou três meses apenas não visitante leva alguns números para aque-
100 pessoas. O circo ficava 2 ou 3 meses so de Histórias de pescador, Clube de mães, dá para fazer o acompanhamento. Temos las pessoas que não têm condição de pagar
em cada bairro e em seguida se deslocava Festas Juninas, Congado... palestras uma vez por semana e para para assistir ao espetáculo.
para outro bairro mais distante. A estraté- De 10 a 15 de fevereiro de 1986, o Circo conscientizarmos as pessoas tem que haver O Circo do Povo é mantido pela Funda-
gia era que a cada mudança o próximo bairro do Povo foi sede do I Seminário Latino-Ame- um acompanhamento”, atesta Antonio Carlos. ção Cultural, que arca com suas despesas,
não fosse perto do anterior. ricano de Ludotecas. Participaram quase 200 Atualmente, a família de artistas circen- como funcionários, água, energia, dentre ou-
professores do Brasil e do exterior (Uruguai, ses Bartolo dá aulas de circo para as crian- tras. No total são 18 funcionários, sendo só
O diferencial Colombia, Argentina e Equador). Foram mi- ças no local. “Tem uma boa procura. O mais um contratado, o palhaço. “A Fundação ne-
Desde o começo, o Circo do Povo não nistrados cursos de artes cenicas, músicas, brin- importante é tirar as crianças do bairro da gocia e paga em média o que ganhariam em
era um circo comum. Uma vez por semana cadeira de papel e folclore. O Circo do Povo ociosidade”, orgulha-se Antonio. Mas, reve- outros lugares, por exemplo, cantores num
haviam as apresentações dos artistas: palha- foi divulgado em toda América Latina pela lações tem aparecido no meio da garotada. bar ou boate”, explica Antonio Carlos.
ços, mágicos, cantores,dançarinos. Muitas Fundação Latino-Americana de Ludotecas. Além disso, outras atividades permane- Se você nunca foi ao Circo do Povo,
vezes o prefeito Wagner ia ao circo cantar a E foi justamente em 1986 que cem desde a época do surgimento do Circo não espere mais: ele está na Avenida Cen-
música “Fuscão Preto”, que havia sido tema Beethoven deixou de ser o administrador do Povo. A Gibiteca, infelizmente, não é uma tral, perto do posto de saúde.
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Escombros fotos: André Azevedo

da memória
coletiva
Casas históricas deterioradas, desfiguradas
ou obstruídas escondem fragmentos
de narrativas populares
André Azevedo Palacete do coronel Antônio Pedro Naves, localizado na esquina das ruas Manoel Borges
1º período de Jornalismo com Major Eustáquio, virou uma aberração arquitetônica

Na praça Rui Barbosa, coração de estão espatifadas no chão. O tapete rasgado


Uberaba, apodrece lentamente, aos olhos de deixa à mostra o piso de tacos infestado de
todos, uma das casas históricas mais musgo. A desolação dos cômodos e
importantes da cidade. Construída em 1889, corredores é total, chega a ser agressiva.
foi a terceira edificação no município feita Nem fantasmas habitam essa casa. Há
inteiramente de tijolos. Anteriormente, as alguns anos a prefeitura chegou a alugar a
casas eram de pau-a-pique, ripa e barro, mansão e instalou alguns serviços públicos
recobertas com uma argamassa de areia e – entre eles a Fundação Cultural. Mas desde
estrume de vaca. Chegaram a dizer, na meados década de noventa está deserta.
época, que as casas de Uberaba não Ninguém sabe direito há quanto tempo está
passavam de “feias arapucas”, escreveu o abandonada. Os comerciantes ao lado
historiador Hildebrando Pontes. Foi só com divergem, uns falam em três ou quatro anos,
a chegada da estrada de ferro que aparecem outros em sete ou oito. A casa está
os imigrantes, arquitetos e construtores que literalmente largada às traças e, como se
trouxeram técnicas usadas na Europa, tratasse de um cálculo matemático ou
impulsionando a modernização da cidade. econômico, deteriora-se com uma
O primeiro proprietário dessa casa foi velocidade que inspira demolição.
Tobias Rosa, dono do maior jornal de A antiga casa de Tobias Rosa é de
Uberaba na época, a Gazeta de Uberaba, propriedade privada. Atualmente, a área dos
fundado em 1876 – antes mesmo do fundos é alugada é foi transformada em
Lavoura & Comércio. A memória popular estacionamento. Fanney Humberto
registra que Tobias Rosa, jogador Fatureto, 18, cuida do negócio. “As portas
compulsivo, em certa ocasião apostou e Um dos mais importados patrimônios históricos da cidade está abandonado e encoberto por cartazes sujos dos fundos ficam abertas. Às vezes um
perdeu a mansão em um jogo de cartas. Seu mendigo ou outro entra e passa a noite aí.
sogro, João Machado Quincas Borges – um A dona quer vender, mas como é tombado,
dos organizadores da primeira exposição de descascada e o cheiro de mofo que exala exalam odores de urina e poeira. Há vidros não pode demolir e nem reformar, então
Zebu de Uberaba – decidiu, mais tarde, das janelas são uma verdadeira ofensa aos quebrados e fios de instalação elétrica por ninguém quer comprar”, diz. Quando
comprá-la. frequentadores da região central. Conhecer toda a parte. Uma escada em espiral de perguntado se pretende alugar a casa,
A mansão, cuja beleza de estilo eclético a casa por dentro é uma experiência que madeira, toda suja de terra, dá para o responde: “Alugar pra quê?”
é de encher a alma, foi palco e testemunha inspira profunda perplexidade pelo segundo piso do sobrado. As janelas, em sua
de movimentos importantes na história da inexplicável desamparo. Ao andar pela casa, maioria, estão permanentemente abertas e Teatro das memórias coletivas
cidade. Mas hoje, está abandonada. Um dos o pensamento que vêm à cabeça é: não é ficam batendo dia e noite com o vento. As O risco que a comunidade corre ao
mais encantadores patrimônios históricos e possível que isso acontece! Uma casa madeiras dos batentes estão podres e ignorar seu patrimônio histórico é a perda
culturais de Uberaba está encoberto por enorme, no centro de Uberaba, infestadas de cupim. Um adesivo de uma do que os cientistas sociais chamam de
cartazes sujos e rasgados, escondido atrás completamente abandonada! As portas dos empresa afixado na janela informa que a “memória coletiva”. Cada casa carrega
de placas publicitárias e pontos de ônibus. fundos estão arrombadas. Quartos, salas e casa foi dedetizada em setembro de 1993. consigo uma história que diz muito sobre
Suas fachadas enegrecidas, sua pintura corredores imundos. As tábuas do piso Em um dos quartos, lâmpadas de luz fria as relações sociais que permanecem na

6 25 de fevereiro a 3 de março de 2002


cidade. No livro chamado “Memória do Outro Hotel que hoje, apesar de Getúlio Vargas, onde hoje existem algumas
Social”, o estudioso Henri-Pierre Jeudy relativamente conservado, está com a palmeiras, havia a igreja dos Rosário, ou
argumenta que a ligação entre uma fachada parcialmente desfigurada, é o Hotel igreja dos negros, construída por Padre
demolição e um estado de “amnésia Modelo, edificado em 1923 pelo construtor Zeferino Batista do Carmo em meados do
coletiva”, não é apenas uma metáfora. A italiano Eugênio Borelli. Está localizado à século XIX. Ela foi demolida no final da
maioria das histórias dessas casas não está esquina da rua Arthur Machado com Getúlio década de 10, ou começo de 20 do século
escrita; sobrevivem graças à tradição oral de Vargas. O respeito ao arranjo original é passado, em nome do progresso. Segundo
moradores mais antigos, que reproduzem fundamental para que a memória seja a professora Eliane Mendonça, não existem
relatos de seus pais e avós. Quando símbolos preservada. A arquiteta Elaine Silva fotos ou pinturas que a retratem. Há apenas
culturais importantes são demolidos, a cidade Furtado, mestre em Arquitetura e um croqui, feito à partir de relatos de
perde referências fundamentais que Urbanismo pela Universidade Mackenzie e testemunhas. José Carlos Machado Borges
prejudicam definitivamente a compreensão Nos anos 30, a casa de jogos do Custódio recebia professora na Universidade de Uberaba, (o Juquita), 91, possui em seus arquivos uma
de seu passado e, consequentemente, perdem um ilustre e temido personagem: Aníbal Vieira, o descreveu em sua dissertação de mestrado foto parcial de sua escadaria. Ele se lembra
a consciência histórica do presente. No caso mais famoso matador profissional da região as relações da arquitetura local com o da igreja. “Eu era menino e passava à porta
da mansão de Tobias Rosa, é uma parte da desenvolvimento econômico da cidade na quando ia comprar balas e figurinhas de
história da vida dos habitantes de Uberaba vinham na estrada de ferro”, recorda. primeira metade do século XX. No início coleção na confeitaria. Era mais bonita que a
que apodrece. Uberaba era um importante entreposto do século, Uberaba (igreja) Santa Rita”, diz.
O uberabense Sebastião Aidar faz 75 comercial entre São Paulo e Goiás. A cresceu rapidamente Intervenções desordenadas, Mais um pedaço da
anos no dia 2 de março, aniversário da professora de História da Universidade de com a introdução do história da vida das
cidade. Em 1940 trabalhava em um bar que Uberaba, Eliane Mendonça, relata que o gado Zebu, e teve reformas intrusivas ou comunidades que se
ficava embaixo do antigo Jóquei Club, hotel era um dos mais ‘chiques’ da cidade. que se modificar obstruções ao redor do imóvel foi, definitivamente.
depois transformado em casa de jogos. O Foi construído na década de 20, época áurea para receber os prejudicam a coerência do Nunca mais. Morreu.
sobrado é o mesmo onde hoje funciona um do Zebu. Só perdia para o Hotel do i m i g r a n t e s Acabou.
restaurante, na praça Rui Barbosa, na Comércio, hoje demolido, localizado na rua acostumados com discurso arquitetônico
esquina do calçadão da Arthur Machado. Vigário Silva, mais ou menos na área onde conforto. Até então, Aberrações
“Meu pai jogou muito pif-paf lá. O dono hoje está o Magazine Luíza. o estilo predominante era o eclético. O art arquitetônicas
era um tal de Custódio. Ele mesmo nunca O professor da Universidade de decó despontou na segunda fase do apogeu Na Praça Rui Barbosa há um triste
jogava. Ganhou um dinheirão”, lembra. Um Uberaba, Newton Luís Mamede, tem uma do Zebu, quando os pecuaristas exemplo de desrespeito ao entorno. O
dos frequentadores mais assíduos da casa de suas histórias saborosas ocorrida já na demonstravam seu poder aquisitivo através palacete de Arthur de Castro e Cunha,
do Custódio era um famoso matador década de 70 e encenada em frente ao Hotel da edificação de palacetes que seguiam esse localizado entre o prédio da Câmara
profissional da região: Aníbal Vieira. “Todo Regina. “Eu estava com o carro parado e vi estilo predominante nos grandes centros. A Municipal e uma galeria de lojas, foi
mundo morria de medo dele, inclusive o um sujeito saindo do hotel, provavelmente história econômica da cidade está, portanto, construído na segunda década do século
delegado da época. Ele sempre se safava dos um vendedor da região. Ele parou à soleira expressa na sua arquitetura. Intervenções passado. É marcado por um arquitetura de
entreveros com a polícia. Costumava se da porta e acendeu tranquilamente o cigarro. desordenadas, reformas intrusivas ou estilo eclético com características
esconder na fazenda de um coronel lá em Subitamente, a Dora Doida – figura popular obstruções ao redor do imóvel – o chamado mouriscas. Lamentavelmente, sua
Campo Florido e atuava como matador em na cidade, que na época estava no auge de entorno – prejudicam a coerência do visibilidade está definitivamente obstruída
toda a região”, conta Aloysio Ferreira sua ‘atividade’ – aparece pela Manoel discurso arquitetônico. É mais ou menos por essa galeria que foi projetada e edificada
Junqueira, 59. Borges, vê o sujeito e começa a gritar: – como se um engraçadinho suprimisse um sem nenhuma consideração quanto à
Aidar também se recorda da época áurea Olha que homem bonito. Está com cara que parágrafo da história da cidade e inserisse, relevância cultural do palacete. O descaso
do Hotel Regina, localizado na Rua Manoel acabou de tomar banho. A cueca dele deve por conta própria, palavrões e é explícito, o patrimônio histórico foi
Borges, de estilo art déco e hoje abandonado estar limpiiiiiiiinha e cheirosa. O sujeito deu vulgaridades. É o que acontece com simplesmente ignorado. Não é mais possível
e caindo aos pedaços. “O Regina era o hotel só mais uma tragada e, assustado, entrou algumas lojas instaladas em diversos admirar a beleza da mansão. Sua
dos viajantes de passagem pela cidade, rapidinho de volta ao hotel. Deve ter prédios históricos da cidade. exuberância está condenada a passar
mascates e representantes comerciais que pensado: essa cidade só tem doido!” De frente ao Hotel Modelo, na rua despercebida para sempre.

arquivo Eliane Mendonça André Azevedo

O Hotel Regina, hoje abandonado e caindo aos pedaços, acolhia viajantes, mascates e representantes
Ontem Hoje
comerciais. Hotel Modelo, apesar de relativamente conservado, está com a fachada desfigurada.
Exuberância do palacete de Arthur Castro e Cunha está condenada a passar despercebida

25 de fevereiro a 3 de março de 2002 7


fotos: André Azevedo
fotos: André Azevedo

Hoje, moram no andar de baixo do Manoel Borges com Major Eustáquio. Nacional de Valorização da Raça Negra
palacete, há 12 anos, o casal Vera Lúcia de Segundo Hugo Prata, professor na (Ceneg). Linda e hoje abandonada. Ou o
Oliveira e Geraldino Diogo de Oliveira com Universidade de Uberaba, o palacete foi sobrado localizado no calçadão da rua
seus filhos Diogo e Graziela. Segundo Vera projetado pelo engenheiro Francisco Arthur Machado onde funcionava a
Lúcia, há uns dois anos a casa foi visitada Palmério, pai de Mário Palmério. Hoje, na joalheria mais famosa da cidade, de
por uma equipe do Arquivo Público para parte de baixo funcionam uma lanchonete, propriedade de Raul Terra. Hoje a parte de
que fossem levantados os custos da reforma. pintada de branco, e uma casa de pagamento cima está abandonada. Parece que alguém
A estrutura foi considerada muito boa, sem de contas de cor azul com letreiros amarelos. planejou reformá-la algum dia, mas desistiu
rachaduras ou falhas graves. Apenas as A parte de cima está abandonada e imunda. no meio do caminho, deixando os tijolos
pinturas interna e externa Há uma placa de tecido enfeiarem o sobrado. A parte de baixo é
encontram-se em mau toda rasgada e embolo- alugada para uma loja que desfigurou em
estado. “A recusa de preservar rada de um self-service absoluto o arranjo arquitetônico com as
Na casa já funcio- assemelha-se a uma que já deixou de placas das cores de sua marca. Além disso,
naram os escritórios de ordem de demolição” funcionar há vários o sobrado está espremido entre dois prédios.
diversos ministérios, a anos. Torna-se difícil Sua visibilidade é quase nula.
biblioteca municipal e uma desvendar a beleza do Sobrado onde funcionou a joalheria de Raul Terra, no
associação de municípios. Hoje, o andar de palacete por trás de tanto entulho. Uma casa misteriosa calçadão, hoje o andar de cima está abandonado
cima está abandonado. No porão da casa – Semáforos, placas publicitárias e postes De todas essas casas abandonadas no
porões altos em rua de declive eram repleto de cartazes complementam o centro da cidade, existe uma, entretanto, que de Uberaba. “A moda que predominou na
exigência do código de posturas que desgosto do entorno. É talvez a fachada preocupa particularmente porque, como cidade foram os estilos eclético e art decó.
regulava as normas urbanísticas da época – mais feia, mais desfigurada do centro da poucas, costuma exercer um fascínio Esta casa de fato possui uma linguagem
está instalado o mais tradicional consultório cidade. Não é capaz de inspirar nenhuma especial por causa de suas características diferente”, afirma. O músico e tatuador
de radiologia de Uberaba, do Dr. Noraldino história. O processo de tombamento do muito particulares. Aquele átrio cilíndrico, Renato Zaca estava inspirado quando se
Alves de Melo. O consultório, que pertence palacete já está em andamento no Arquivo aquela cobertura de entablamento ondulado referiu à mansão: “Ela é inesquecível. É uma
sustentada por pilares retangulares, aquela casa ‘bem-assombrada’. Quase todo mundo
escadinha heli- tem vontade de
coidal protegida por conhecer por
um guarda-corpo de
Parece que alguém planejou dentro. Ela me
ferro batido, aquele reformá-la algum dia, mas desistiu surpreende, parece
pináculo sobre a no meio do caminho, deixando os que é meio viva”,
cobertura francesa diz. Márcia
da varanda inspiram
tijolos enfeiarem o sobrado
Stacciarini, aluna
um encantamento de Arquitetura na
que atrai a atenção de todos que passam Universidade de Uberaba, escreve que “essa
por ela. casa representa o que resta da história de
Gustavo Vitor Pena, aluno do curso de Uberaba que, infelizmente, ao longo do
História da Universidade de Uberaba, diz tempo, vem sendo substituída por uma
que se interessou muito pela casa quando a arquitetura de péssimo gosto e sem
viu pela primeira vez. “Esse tipo de propósito algum”.
arquitetura é raro na cidade. Se tivesse Localizada à rua Senador Pena, nº 62,
dinheiro, compraria a casa para preservá- quase na esquina com a avenida Leopoldino
la”, diz. A arquiteta Elaine Furtado concorda de Oliveira, a mansão está ameaçada por
que é uma construção singular no panorama causa do entorno e do abandono. Construída

Casa abandonada, onde já funcionou o Ceneg, localizada na rua Vigário Silva

a Noraldino há 38 anos, foi o primeiro na Público Municipal. Pelo menos essa boa
região a utilizar o aparelho de raio X notícia. É aguardar pra ver.
panorâmico. Importada do Japão em 1975,
a boa e velha Panoramax funciona até hoje, Abandono e destruição
junto a outra máquina mais moderna. O Existe um ditado popular entre
consultório é um bom exemplo de ocupação estudiosos de patrimônio que mostra
de imóvel histórico. As paredes e o piso bastante bom senso: “A recusa de preservar
estão limpos, bem conservados. “Isso aqui assemelha-se a uma ordem de demolição”.
era um porão horrível. Fui arrumando, Para garantir a manutenção do imóvel, é
arrumando, e hoje está isso aí”, diz essencial sua ocupação. A quantidade de
Noraldino. casas antigas abandonadas no centro da
Na cidade há casos flagrantes de cidade não é assustador, mas há muitas de
aberrações arquitetônicas que chegam a indiscutível relevância cultural que
chocar. Um exemplo gritante é o palacete encontram-se em estado preocupante. Um
do coronel Antônio Pedro Naves (ver foto exemplo é a casa na rua Vigário Silva onde
na página 6), localizado na esquina das ruas há alguns anos funcionava o Centro Casa localizada na rua Arthur Machado onde, segundo José Carlos Machado Borges, morou Paschoal Toti, pai
do historiador uberabense Gabriel Toti. Hoje encontra-se toda retalhada e desfigurada

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para João Quintino Teixeira, dono da para que ele “dê uma olhadinha” de vez em de Cleide Sara, 30, que declara-se Rarus – popular sebo de discos na cidade – ,
primeira sesmaria (lote de terra) de Uberaba quando. Dona Antônia diz que decidiram apaixonada pela sua arquitetura. “Ela tem cuidaria da seleção das músicas no aparelho
e deputado federal representando Minas sair de lá porque estavam sentindo-se um clima misterioso, eu morria de de som. O Zé Leôncio, gaiteiro conhecido
Gerais na primeira eleição à Câmara incomodadas. Segundo ela, uma manilha de curiosidade de entrar lá. A fachada sempre de todos, vai estar lá, quem sabe dá uma
realizada no país, englobava originalmente escoamento instalada no prédio vizinho me impressionou. Quando passo em sua palhinha no final? A festa começou à meia
um terreno que avançava quase até onde despeja todo o acúmulo de água da chuva calçada, especialmente à noite, fico viajando noite. Poucos minutos depois que o “Seu
hoje encontra-se a avenida Santos Dumont. nas dependências da casa. “Eu desgostei de na casa”, diz. Em outubro do ano passado, Juvenal” – uma das bandas convidadas –
Atualmente, está espremida morar aqui por causa Cleide conseguiu alugá-la por uma noite, começou a tocar, (estavam na segunda ou
entre um estacionamento e disso. A água que para fazer uma festa de Dia das Bruxas. A terceira música) a polícia bate à porta e pede
uma galeria de butiques. No “Lamentável é o fato da entrava sujou toda a idéia acendeu o imaginário de todo o seu pra parar, informando que todos os vizinhos
relatório do Instituto Estadual edificação vizinha ter parede do quarto”, círculo de amigos. Uma festa naquela casa? ligaram furiosos por causa do barulho. Sem
de Patrimônio Histórico e vedado visualmente o afirma. A garagem e um Era demais! Todos teriam oportunidade de banda, a turma chateada, começaram todos
Artístico de Minas Gerais anexo são alugados conhecê-la, afinal. Foram feitos convites a debandar. A tão aguardada festa acabou
(Iepha/MG) com dados de prédio em questão” para um consultório limitados. A divulgação foi praticamente quase antes de começar pra valer. Mas o
1989, disponível no Arquivo ondontológico. A boca-a-boca. Cleide convidou umas bandas gostinho de ter conhecido a casa, nem que
Público de Uberaba, está escrito que, apesar situação atual da mansão é um caso em e decorou os interiores com quadros, seja por uma noite, esse ninguém tira.
do estado de conservação ser bom, andamento, pois envolve a herdeira que, por mandalas e tecidos. O amigo Robinho, da
André Azevedo
“lamentável é o fato da edificação vizinha motivos de saúde, depende de um tutor
ter vedado visualmente o prédio em residente em São Paulo.
questão”. A última boa história ocorrida na casa
Dona Antônia Fernandes faz companhia foi uma festa no Dia das Bruxas. A idéia foi
para a atual herdeira. Elas moraram juntas
na casa até há dois anos atrás. Hoje, a
mansão está desocupada. Para não
abandoná-la por completo, as duas fazem
visitas esporádicas ao local, além de darem
gorjeta a um funcionário do estacionamento

Casa construída para João Quintino Teixeira provoca admiração pelo seu arranjo arquitetônico singular. Espremida entre uma galeria de butiques e um estacionamento, está ameaçada por causa do semi-abandono
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arquivo Eliane Mendonça

DEMOLIDA
O enigma da
conservação
Patrimônio histórico e cultural só tem sentido
enquanto consciência crítica do presente
André Azevedo velocidade das transformações industriais
1º período de Jornalismo e diante da ameaça de desaparecimento
desses símbolos urbanos, a conservação
Uma questão fundamental está sempre promoveria a manutenção das referências
à espreita e invariavelmente salta aos olhos que garantiriam a identidade cultural.
quando é discutido o problema da Assim como um indivíduo viveria mal sem
preservação do patrimônio histórico: para memória, também uma coletividade
quê, afinal, conservar casa velha, em vez precisa de uma representação constante do
de arrebentar tudo e construir outra? seu passado. Para eles, o objetivo
Lembro-me de um colega que achava graça fundamental é garantir às gerações futuras o
da opinião do avô, direito de usufruir de um
morador antigo da meio ambiente saudável e
cidade de Ouro Preto, Obsessão pela conservação de uma herança histórica
reclamando do cheiro pode desembocar em uma que os distinga e
de mofo das casas: nostalgia romantizada de um identifique perante os
“tinham é que bater diferentes povos.
foto de tudo quanto é passado que não existiu. Por outro lado, a
jeito, pra lembrar, e obsessão pela conser-
então demolir a cidade toda”, dizia. vação pode desembocar em uma nostalgia
De fato, o problema é complexo e romantizada de um passado que não
envolve questões culturais, históricas, existiu. Entusiastas acríticos costumam
econômicas, sociais e estéticas. A reivindicar a mera petrificação de todos
argumentação que sempre vem à mente os imóveis urbanos, desejando conservar Prédio onde funcionou a antiga
dos preservacionistas é que o patrimônio referências mortas do passado que nada Escola de Farmácia e Odontologia de Uberaba, na rua Manoeal Borges
histórico representa a valorização da dizem ao presente, além de relegar a
memória coletiva das sociedades em seus segundo plano justamente o que, na teoria,
territórios. No contexto da enorme pretenderiam conservar: o imaginário social das memórias coletivas.
Portanto, faz-se necessário uma distinção cultural é que a comunidade desconhece a
crítica entre o que deve ser conservado e o legislação municipal, que tem plenos
arquivo Eliane Mendonça
que deve ser destruído. “A preservação, pura poderes para promover proteção do

DEMOLIDA
e simples, não basta; ela deve ser estimulada patrimônio. O Instituto Estadual do
por um interesse coletivo de apropriação e Patrimônio Artístico e Cultural de Minas
de recolhimento”, escreve o cientista Social Gerais (Iepha/MG) informa que qualquer
Henri-Pierre Jeudy. Isso significa que a cidadão pode solicitar o processo de
conservação do patrimônio só tem sentido tombamento de um bem cultural, seja em
se a comunidade inteira assim o desejar. âmbito municipal, estadual ou federal. A
Além disso, esse desejo deve ser expresso relevância do patrimônio histórico é então
através de propostas claras para o usufruto examinada por uma comissão competente
do imóvel, e que sejam acessíveis à toda a e, se for verificada a importância da
população. Para Jeudy, a cultura da proteção legal, o proprietário é notificado
conservação só adquire sentido se inserida e o processo será aberto. O Arquivo Público
no desenvolvimento econômico e social da de Uberaba é o órgão que cuida do
cidade. A ação cultural, além de enfocar os levantamento dos bens históricos e culturais
problemas existenciais, deve estar voltada da cidade. Marta Zednik Casanova,
para problemas reais de trabalho, habitação, pesquisadora e coordenadora do Arquivo,
lazer, família e comunidade. informa que já existem quinze bens
tombados em nível municipal, entre eles a
Tombamento locomotiva “Maria Fumaça” – que segundo
O advogado Aflaton Castanheira, ela está sendo restaurada. Existem ainda
Situ ava - professor na Universidade de Uberaba três imóveis cujos processos já estão em
déc ada de 80.
rigues da Cunha, demolida na andamento. A coordenadora afirma que
Casa do Coronel Geraldino Rod e hoj e funciona o Elvira Sho ppi ng. especializado em Direito do Estado, afirma
bos a, no ter ren o ond que um dos maiores problemas nesta ação desde 1990 o poder público vem aplicando
se na praça Rui Bar

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uma política municipal de tombamento. “O
arquivo Eliane Mendonça
Arquivo tem uma equipe de pesquisadores em prédios históricos, isenção de IPTU para
que se preocupam com o levantamento facilita r aos proprie tários de imóveis
histórico desses bens. É um trabalho tombados o cuidado com sua manutenção,
DEMOLIDA
complicado porque em muitos casos os além das leis estaduais e federais de incentivo
próprios donos dos imóveis colocam que prevêem percentuais de renúncias fiscais
empecilhos”, diz. O único bem tombado pelo para empresas que investem em cultura. Uma
Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico das medidas empreendidas pelo Estado é o
Nacional (Iphan) é a Igreja Santa Rita, atual bônus construtivo, que visa “premiar o
Museu de Arte Sacra. proprie tário com ações que venham a
Aflaton Casta- benefic iar objetivo s
nheira informa que o
tombamento constitui-
“Quando o cidadão sente que urbanísticos”. Em sua
página na Interne t
se em um regime o poder público é omisso ou (www.iepha.mg.gov.br)
jurídico especial de está desrespeitando a o instituto encarregado
propriedade, levando- da proteçã o do patri-
cidade, sente-se no direito
se em conta sua função mônio cultura l do
social. “Esse recurso de desrespeitá-la também.” Estado dá informações
não altera os direitos sobre seus programas e
fundamentais do proprietário; permite que orienta acerca dos diversos mecanismos de
o imóvel seja vendido, alugado ou proteção e legislação.
reformado. Entretanto, as transações devem
ser previamente autorizadas pelo órgão Ruínas e qualidade de vida Esse prédio, localizado na praça Rui Barbosa, foi construído para
competente que deve garantir a continuidade o Major
“Um espírito malicio so definiu a Eustáquio, o fundador de Uberaba. Posteriormente, foi residência de Borges
da memória”, diz. Sampaio,
América como uma terra que passou da personagem fundamental da história da cidade. Adquirida pela família
Contudo, mais uma vez, é essencial a barbárie à decadên cia sem conhece r a Ricciopo, no
prédio funcionou durante vários anos a Notre Dame de Paris, famosa
participação e vigilância ativa da civilização”. Assim, o antropólogo Claude loja na região
central. Foi demolida no início da década de 80. Situava-se no terreno
comunidade, à qual compete decidir sobre o Levi-Strauss, em Tristes Trópicos, começa onde hoje fun-
ciona o Chaves Palace Hotel, inaugurado em 1988.
futuro de seus bens culturais. Até porque, o capítulo que descreve o desenvolvimento
como escreveu o historiador Nelson Werneck de São Paulo. “A passagem dos séculos
de Uberaba, a presença de prédios contexto, de fato, não passa mesmo do que
Sodré, “na selvageria de que é capaz o representa uma promoção para as cidades
deteriorados no espaço urbano reflete chamam de “uma casa velha qualquer”. A
capitalismo num país subdesenvolvido como européias; para as americanas, a simples
negativamente na qualidade de vida das conservação pela conservação perde o
o nosso, a eficácia de tais instituições e a passagem dos anos é uma degradação”,
pessoas. “Quando falam sobre preservação sentido quando desvinculada dos aspectos
aplicação de tais leis são muito precárias”. observa. O escritor Inácio de Loyola Brandão
ambiental, normalmente as pessoas pensam dinâmicos do que ele chama de “construção
compartilha dessa análise. “Produzimos
na proteção de rios e matas, mas se do edifício da memória coletiva”. Portanto,
Política de incentivos ruínas mais rapidam ente que eles [os
esquecem que a rua em que moram, os o que parece ser cada vez mais o objeto de
Nas Diretrizes para Proteção do europeus]. Nossos prédios se decompõem em
bairros e o centro da cidade são o meio conservação é “a própria vida social e afetiva
Patrimônio Cultural elaborado pelo Iepha/ vinte anos. Os deles levaram quinhentos, mil
ambiente em que vivem de fato”, afirma. da comunidade”.
MG, são enumeradas várias medidas de para se corroer”, escreve.
Pedro Fernandes lembra ainda que existem Ele escreve que o patrimônio histórico
estímulo às ações de preservação, tais como Para Pedro Álvares Fernandes, professor
estudos relacionando a degradação do não deve ser entendido como um objeto
o incentivo à instalação de órgãos públicos do curso de Serviço Social da Universidade
patrimônio com a violência urbana. portador de uma memória estática, pois, se
“Quando o cidadão sente que o poder por um lado serve como símbolo de uma

DEMOLIDA
arquivo Eliane Mendonça público é omisso ou está desrespeitando a época, por outro está inserido em um
cidade, sente-se no direito de desrespeitá-la processo histórico que – perdoem a
também. Pesquisas feitas em periferias obviedade – está em andamento, ainda não
demonstraram que os índices de vandalismo acabou. Assim como a sociedade, os
e violência diminuem naturalmente quando símbolos culturais sofreriam mutações de
a administração pública mantém os bairros significados no decorrer dos anos. Ele vai
limpos e bem cuidados”, diz o professor. além. Jeudy argumenta que o patrimônio
Para ele, o desprezo pelos prédios históricos não configura-se como um depósito da
é uma agressão à toda comunidade. memória, mas como um elemento
detonador de investigações culturais ou, em
Mas afinal, suas palavras, “fundador de uma
preservar para quê, mesmo? interrogação sobre o sentido das mutações
Infelizmente – ou felizmente, sei lá – é da sociedade”. O patrimônio cultural seria
impossível esgotar a discussão sobre a válido na medida em que inspirasse, através
necessidade da preservação em seis páginas de sua existência material, momentos de
de jornal. Entretanto, o caminho apontado reflexão histórica no dia-a-dia da cidade.
no estudo “Memórias do Social”, de Henri- Trocando em miúdos, o espírito da
Pierre Jeudy, mostra-se relevante e preservação monumental torna-se
merecedor de futuras discussões. De acordo importante não só por causa de suas
com sua argumentação, se o patrimônio características de testemunha da memória
Prédio construído para abrigar o cine histórico e cultural representa a memória
Polyteana, na rua Manoeal Borges. Post coletiva, mas, sobretudo, enquanto
mente desativado, foi ocupado por lojin erior- coletiva, o objetivo último a ser alcançado
has e bares ordinários, onde “moças de consciência crítica do presente e como
família” eram proibidas de frequentar. boa nas iniciativas de preservação é, portanto, a
Foi demolido depois que um incêndio deix promessa de um modelo de
sua estrutura comprometida. Localizav ou própria memória, e não sua representação
a-se mais ou menos no terreno onde func desenvolvimento que respeite o cotidiano,
nava a filial das Lojas Brasileiras, e hoje io- através do patrimônio que, isolado de seu
está desocupado. os movimentos culturais e a história da vida
dos habitantes de Uberaba.
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