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Ao leitor Preservação

Para entender o Diversidade cultural


patrimônio cultural promove diálogo e paz
Essa edição especial do Revelação é um imóvel tombado provisoriamente pelo conse- 2002 foi o Ano das Nações Unidas para o Patrimônio Cultural
grito, um urro. O objetivo é trazer ao leitor a lho de patrimônio histórico da cidade.
urgência da discussão sobre a importância e Todos os esforços foram direcionados no Uma Assembléia Geral das Nações Unesco é mostrar para os poderes públicos,
o sentido da preservação do patrimônio cul- sentido de fazer um jornalismo de compreen- Unidas, realizada em 21 de novembro de para o setor privado e para a sociedade que o
tural da cidade. são. Para realizar a reportagem, tentou-se 2001, proclamou 2002 como o Ano das patrimônio cultural, além de ser um
Resultado de três meses de pesquisa em respeitar a complexidade do caso e as diver- Nações Unidas para o Patrimônio Cultural. instrumento de paz e reconciliação, é também
documentos públicos, processos administra- gências de opinião. Afinal, o intuito não é fe- “Ao retraçar sua pró- um fator de desenvol-
tivos e judiciais, arquivos, cartórios, legisla- char um juízo de valor, mas oferecer algum pria filiação cultural, vimento.
ao reconhecer as
Além de ser um instrumento “São numerosos os
ções, além de diversas entrevistas com alguns subsídio para um debate aberto, crítico e
dos principais envolvidos, o repórter procu- consciente, colaborando para que a socieda- diversas influências de paz e reconciliação, o exemplos nos quais
rou esboçar os bastidores de um caso de de- de consiga encontrar uma solução viável para que marcaram sua partrimônio cultural é também uma nova abordagem
história e moldaram da gestão do patri-
molição que provocou muitas discussões em satisfazer, ao mesmo tempo, os usos econô-
sua identidade, um
um fator de desenvolvimento mônio cultural favo-
Uberaba no final do ano passado – a derru- micas dos imóveis e a preservação da memó-
bada do Palacete de Antônio Pedro Naves, ria dos uberabenses. povo torna-se mais receu o crescimento
André Azevedo capaz de construir relações pacíficas com econômico criando oportunidades de
outros povos, a continuar diálogos iniciados emprego para as populações locais, seja por
em tempos imemoriais e a forjar seu futuro.” meio do artesanato, do turismo cultural ou do
Segundo o diretor geral da Unesco, surgimento de novas profissões, assim como
Koichiro Matsuura, o grande desafio da de novas expressões da criatividade.”

fotos: Juliana Borin (arquivo Revelação)


Manifestantes realizaram um protesto, dias depois da demolição do palacete.
Caso levou à renúncia de quatro membros do conselho de patrimônio histórico e teve
ampla repercussão na imprensa. Na foto, repórteres registram momento em que livros
de história foram queimados para simbolizar a destruição da memória na cidade

“Portadoras de uma mensagem espiritual do passado, as obras monumentais dos


povos constituem actualmente o testemunho vivo das suas tradições seculares. A
humanidade, que toma cada dia consciência da unidade dos valores humanos,
considera-os como um patrimônio comum e, face às gerações futuras, reconhece-
se solidariamente responsável pela sua salvaguarda. Ela compromete-se a
transmiti-los em toda a riqueza da sua autenticidade.” Detalhe de casarão ameaçado, Fachada da Igreja Santa Teresinha,
Trecho da Carta Internacional sobre a Conservação e Restauro dos Monumentos e dos Sítios (Carta de Veneza), 1964 localizado na rua Senador Pena localizada na praça de mesmo nome

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2 29 de abril a 5 de maio de 2003


Dossiê

O triste fim de
Antônio Pedro Naves
Edificação convidava à reflexão sobre importante período da história da cidade
André Azevedo
André Azevedo da Fonseca
3º período de Jornalismo

Na sexta-feira 13 de dezembro de 2002, o


Palacete Antônio Pedro Naves, uma das
edificações mais significativas do patrimônio
cultural da cidade, começou a ser demolido a
pedido do empresário lotérico Idivaldo Odi
Afonso, o proprietário. Primeiro o palacete
foi destelhado. Depois, as paredes internas
foram derrubadas. Finalmente, a fachada
destruída. Na manhã de domingo, o segundo
piso já estava praticamente em ruínas. Na
segunda-feira, os comerciantes foram abrir as
lojas e não acreditavam no que viam. Aquele
casarão, destruído! O prédio localizava-se na
esquina das ruas Manoel Borges e Major
Eustáquio.
Para compreender o que Uberaba perdeu
sob esses escombros, e para elucidar os
caminhos que permitiram a destruição de um
símbolo da memória coletiva, em favor de um
negócio particular, é preciso, primeiro, dar
alguns mergulhos na história da cidade;
depois, meter-se a bisbilhotar registros em
cartório de partilhas de heranças e negócios
imobiliários; finalmente, entrincheirar-se Na manhã de domingo, dia 15 de dezembro de 2002, o 2º piso já estava praticamente em ruínas
entre uma furiosa batalha jurídica para
desembaraçar a trama de argumentações que Podre (mais tarde conhecido por Major – por ser passagem obrigatória dos Mascate de Zebu
acabaram por justificar, perante a Justiça, a Eustáquio), encontrou terras mais férteis e mercadores que atravessavam a estrada do Logo chegaremos ao nosso personagem,
demolição. decidiu construir a Chácara Boa Vista Anhangüera e desbravavam sertão em Antônio Pedro Naves, o primeiro dono do
Para conhecer um pouco de Antônio Pedro próxima ao Rio Uberaba. Dois quilômetros caravanas de carros-de-boi para comercializar palacete. Muitos uberabenses foram à Índia
Naves, é necessário voltar os olhos para o fim adiante, mandou fazer um retiro onde criou produtos de São Paulo (como o sal) e gado buscar o “boi de cupim”. Até 1921, cerca de
do século XVIII, quando o fabuloso período algumas cabeças de gado. Atraídas por de Goiás e Mato Grosso. Depois de um 5 mil cabeças foram trazidas para a região.
de abundância do ouro de Minas Gerais entrou Antônio Eustáquio, famílias passaram a período de baixo crescimento no século XIX, Os criadores do Triângulo Mineiro adaptaram
em decadência e os mineradores, alucinados instalar-se nos arredores de sua propriedade. a chegada da Companhia de Estradas de Ferro o gado, de forma que o Zebu daqui ficou
por riquezas, passaram Esse povoamento foi e Navegação Mojiana, melhor que o da Índia –
a buscar novos pontos o embrião do que viria a em 1889, incrementou a mais pesado, precoce e
de exploração. Foram Primeiro o palacete foi ser a praça Rui Barbosa. distribuição de merca- Para conhecer um pouco de manso, características
descobertas algumas destelhado. Depois, as paredes A casa de Major Eus- dorias, aqueceu a eco- Antônio Pedro Naves, é incomuns na raça tida
jazidas isoladas nas internas foram derrubadas. táquio, o fundador de nomia da cidade e esti- necessário voltar os olhos como indomável. O
regiões do antigo Ser- Uberaba, não existe mulou o surgimento de Zebu teve dois períodos
tão da Farinha Podre,
Finalmente, a fachada destruída mais. Localizava-se no armazéns, bancos e para o fim do século XVIII áureos na primeira
atual Triângulo Mineiro terreno onde hoje está indústrias. metade do século XX:
– o suficiente para chamar a atenção de muitos erguido o Chaves Palace Hotel. Durante o Mais tarde, abalados por uma crise no co- um de 1913 a 1921, e outro de 1935 a 1945,
deles e disparar uma pequena corrida do ouro. século XX, o imóvel foi ocupado pelo mércio e pela abolição da escravatura, ambos impulsionados pelo alto consumo de
Depois que esgotaram as jazidas do português Borges Sampaio (personagem im- proprie-tários e políticos de Uberaba carne brasileira na Europa, no período das
Desemboque, esses homens tiveram que portante da história da cidade), e mais tarde incentivaram a imigração. Para se ter uma Guerras Mundiais.
procurar novas atividades para sobreviver. pela loja Notre Dame de Paris, muito popular idéia, até 1901, Uberaba recebeu 156 Uma das formas que os chamados “Barões
Foram organizadas, então, expedições de até os anos 70. A casa de Major Eustáquio foi famílias de italianos. Depois vieram do Zebu” encontravam para ostentar sua
povoamento para buscar terras férteis no demolida no início da década de 80 para a portugueses, espanhóis, árabes, sírios e riqueza era mandando erguer palacetes
interior. construção do hotel. armênios. Mas a superação da crise se suntuosos, projetados por arquitetos
Nessas expedições o Sargento-mor Voltemos agora rumo ao século XIX. deu quando a criação de gado Zebu – estrangeiros – especialmente italianos – que
Antônio Eustáquio da Silva e Oliveira, Uberaba foi um importante posto avançado introduzida em 1875 – passou a atingir soltavam a imaginação para criar cenários de
Comandante Regente dos Sertões da Farinha de comércio – chamado de “boca do sertão” alta rentabilidade. opulência e prosperidade. A arquitetura

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arquivo Museu do Zebu
predominante na época era a chamada eclética
– ou seja, reunia em si diversos estilos e
escolas estéticas. Essa era a moda nos grandes
centros da época, e uma forma de parecer
cosmopolita era aderindo ao que de melhor
se fazia na arquitetura das metrópoles.
Apesar da ostentação e glória dos barões,
outros personagens tiveram papel
fundamental na história do Zebu. Foram os
mascates – comerciantes aventureiros que
desafiavam o sertão, enfrentando sol, chuva
e mormaço, cobras, mosquitos e doenças,
montando lombo de burro ou cavalo,
arrastando cangas de bois para apresentar e
vender a raça ainda desconhecida pela maioria
dos pecuaristas brasileiros. Chamados de os
primeiros “marketeiros” do Zebu, esses
homens enfrentaram muita resistência devido
à intensa campanha difamatória que a raça
sofreu nesta época. – Zebu não é raça, é
bicho!, dizia o político Assis Brasil.
Segundo informações no processo de
tombamento, Antônio Pedro Naves foi um
desses mascates. De acordo com o registro
no Cemitério Municipal, Naves nasceu em 9
de fevereiro de 1871 – época do Brasil Mascates foram considerados os primeiros “marketeiros” do Zebu. Na foto, grupo posa com o lote de novilhas vendidas a Maroveo Torres Pereira, em 1946
Império. Aos 18 anos, Naves vivenciou o
período da Proclamação da República, em Dr. José de Oliveira Ferreira e Major Antonio e prestimoso”, etc. A pedido do Revelação, a restavam apenas dois: o palacete de Antônio
1889. Há dúvidas em relação à sua origem. O Pedro Naves”. No entanto, era possível estudante de História da Uniube, Cristiane Pedro Naves e o palacete de Arthur Castro e
livro do cemitério informa que ele é imaginar a admiração de nosso personagem Ferreira, pesquisou nos periódicos do Arquivo Cunha, localizado na praça Rui Barbosa, ao
uberabense. A certidão de óbito, disponível principal por aquele país, sobretudo devido à Público Municipal, e nada de Naves. Foram lado da Câmara Municipal. Hoje, em 2003,
no Arquivo Público, registra que ele é de arquitetura de seu palacete – com nítidas encontrados sete processos judiciais do só resta este último.
Sacramento. No entanto, fontes da família influências orientais, especialmente do Taj comerciante, basicamente relacionadas à O executor do projeto de Palmério foi o
afirmam que ele nasceu em Iraí de Minas, mas Mahal –, além do nome indiano de uma de dívidas de inadimplentes. construtor Miguel Laterza, responsável
veio morar em Uberaba porque procurava um suas filhas, Rasma. Não é difícil imaginar Antônio Pedro também pela edificação da Igreja São
lugar melhor para educar os filhos (veja Arquitetos sabem que, em um projeto, o Naves, o próspero, numa tarde de sábado, Domingos, pela antiga penitenciária (hoje
entrevista). profissional “estuda” o seu cliente, ou seja, vitorioso no mirante de seu recém construído Faculdade de Medicina) e várias casas na rua
Enfrentando todas as dificuldades conhece a visão de mundo e os anseios do palacete, relaxando o corpo na cadeira de Segismundo Mendes.
imagináveis na condu- futuro proprietário para balanço, lendo as Por carregar toda
ção do gado pelo expressá-los na arquite- últimas da Gazeta de esta simbologia histó-
Triângulo Mineiro e Palacete edificara o universo tura. Aquele palacete, Uberaba, endereçando Projeto arquitetônico foi rica e por ser um
Mato Grosso, conse- portanto, edificara o cuspidelas na escar- exemplo precioso de
guiu acumular certo de Naves, contemporâneo universo mental de radeira de porcelana, concebido por Francesco uma arquitetura proje-
dinheiro e comprou de um dos períodos áureos Naves, um contempo- enquanto recebia de- Palmério, italiano de Torre de tada e construída por
umas terrinhas, inclu- da história de Uberaba râneo de um dos períodos monstrações de carinho Passeri, pai de Mário Palmério engenheiros das me-
indo a fazenda Marim- áureos da história de e consideração de seus lhores escolas italianas,
bondo. Tornou-se então Uberaba. herdeiros: a esposa, o palacete chamou a
criador e comerciante de gado, e foi sócio O palacete de esquina correspondia a uma Maria Rosa, e os cinco descendentes, Rasma, atenção do Instituto Estadual de Patrimônio
fundador e contribuinte do Herd Book Zebu área de aproximadamente 900m2 e possuía Stellita, Dagoberto, Alaor e João. Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-
– a primeira associação criada para exportação dois pavimentos divididos em 20 cômodos – MG) e foi registrado no Inventário de
de animais, em 1918, e que mais tarde daria treze no térreo e sete no porão. A cobertura Simbologia histórica Proteção do Acervo Cultural de Minas Gerais
origem à Associação Brasileira dos Criadores era de telhas francesas, e as fachadas divididas O projeto arquitetônico do palacete foi (Ipac-MG) em 1987. O Ipac é um relatório
de Zebu (ABCZ). em duas partes simétricas, com uma escadaria concebido por Francesco Palmério, italiano de pesquisa cuja finalidade é rastrear,
Na primeira crise do Zebu, Naves teve que de acesso central ao térreo. Essa escadaria de Torre de Passeri. Palmério veio para identificar e conhecer o acervo de todos os
penhorar boa parte de suas propriedades para fazia conjunto com uma pequena galeria Uberaba com um grupo de engenheiros, 853 municípios do Estado. O objetivo é
saldar dívidas. Mas Naves enriqueceu de protegida por uma balaustrada e uma contratados na Itália, para trabalhar na Estrada formar um banco de informações para servir
verdade no período de grande exportação de cobertura estilizada, onde elevava-se um de Ferro Cia Mogiana. Francesco era também de instrumento à definição de políticas
carne para suprir o mercado europeu durante mirante. topógrafo e teve muito serviço quando, em públicas de proteção ao patrimônio. No
a 1ª Guerra Mundial. Seu palacete foi Nosso personagem não frequentava muito consequência do artigo da Constituição fichamento assinado pela arquiteta Denise
construído nessa época. as páginas dos jornais da época. O Revelação Republicana de 1891, os herdeiros de Thomaz Teixeira, está escrito que “a
Não consta que Naves tenha viajado consultou os arquivos do jornal Lavoura & sesmarias tiveram que realizar partilhas entre edificação encontra-se em satisfatório estado
pessoalmente à Índia. Segundo uma nota Comércio e só foram encontradas duas os condôminos para regularizar a docu- de conservação. Apresenta descaracterização
publicada no jornal Lavoura & Comércio, no ocorrências: a nota sobre a viagem de José de mentação. no porão, acesso principal, e outras de caráter
domingo de 3 de agosto de 1919, o negociante Oliveira à Índia e a notícia do falecimento de Francesco naturalizou-se brasileiro e reversível como o uso de anúncios
Luiz de Oliveira Ferreira seguira naquele dia Naves em 1941, sem foto, onde são louvadas passou a assinar Francisco. Teve nove filhos, publicitários nas fachadas”. Era evidente que
para o Rio de Janeiro, com destino à Índia, as suas virtudes de “conceituado pro- entre eles Mário Palmério, criador das o palacete deveria ser restaurado e protegido.
para adquirir “uma grande leva de prietário”, “apreciáveis dotes de caráter”, faculdades que deram origem à Universidade Era um dos mais importantes símbolos da
reprodutores indianos para si e para os srs. “chefe de família exemplar”, “cidadão digno de Uberaba. De seus projetos arquitetônicos, formação histórica da cidade.

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Patrimônio Cultural

Importância histórica
justificava preservação
Codemphau havia sugerido tombamento em fevereiro de 2000
arquivo Eliane Mendonça
O Conselho Deliberativo Municipal de
Patrimônio Histórico e Artístico de Uberaba Em abril de 2002 o
(Codemphau) é o órgão institucional
encarregado de executar o tombamento dos proprietário foi notificado e
bens culturais de interesse público. É também Sonia Fontoura assinou o
atribuição do conselho a realização de laudos, parecer estabelecendo
pareceres técnicos, pesquisas históricas e
assessoria em projetos urbanísticos e planos
o início do processo
de obras em áreas de preservação. Além disso, de tombamento
é o órgão responsável pela notificação dos
proprietários, estabelecimento de medidas tombamento definitivo. Grande parte das
definitivas de proteção, fiscalização do informações históricas do começo desta
cumprimento das leis e decisões sobre a reportagem tiveram essa pesquisa como
aplicação de recursos. Sempre que as ações fonte.
de qualquer secretaria municipal envolverem Em 11 de abril de 2002, o proprietário
o patrimônio cultural da cidade, o Codemphau Idivaldo Odi Afonso foi notificado e Sonia
deve ser consultado e tem autonomia para Fontoura assinou o parecer estabelecendo o
impedir modificações que comprometam a início do processo de tombamento. Foi a
preservação. faísca que detonaria uma guerra furiosa,
Os conselheiros, nomeados pelo prefeito, combatida em uma série de batalhas
são pessoas de destaque na sociedade e não exaustivas, travadas em duas frentes
recebem remuneração. Normalmente são Rua Manoel Borges, em foto da primeira metade do século XX. À direita, a loja Notre Dame de Paris simultâneas, que acabaria por soterrar o
historiadores, arquitetos, artistas e (antiga casa de Major Eustáquio), demolida para a construção do Hotel Chaves. legado de Antônio Pedro Naves, em um ainda
O prédio seguinte é o cine Politeana, também demolido. Hoje o terreno abriga um
representantes institucionais como vereadores distante 13 de dezembro.
galpão abandonado, onde há alguns anos funcionava uma filial das Lojas Brasileiras
e funcionários de secretarias estratégicas. O Nesse ponto da história, no entanto, surge
conselho municipal foi instituído em 1984, reestabelecido, deixou de ser vinculado ao no Arquivo Público. Esse processo uma pergunta intrigante, que uma alma curiosa
com função apenas consultiva. Em 1997 Arquivo Público, criou equipe técnica constitui-se em um detalhado dossiê que não poderia deixar de formular: como o imóvel
passou a ser deliberativo – isso significaria própria e passou a ser ligado à Fundação registra a contextualização histórica da da família – que supostamente deveria prezar
mais poder de decisão e execução. O Cultural. Sonia Fontoura – agora assessora cidade e do bem cultural, faz a descrição pela memória do patriarca – veio parar nas
presidente do Codemphau era o então do conselho – e o historiador Augusto e análise do imóvel, delimita seu perímetro mãos de Idivaldo, um empresário que nunca
presidente da Fundação Cultural, José Rischiteli trabalhavam no processo de de en t o r n o e r e ú n e d o c u m e n t a ç ã o escondeu sua intenção em destruí-lo? É isso
Thomaz da Silva Sobrinho. tombamento do palacete desde 1999, ainda cartográfica e fotográfica para instituir o que examinaremos a seguir.
Em uma reunião no dia 9 de fevereiro de
2000, o Codemphau determinou que o

Antônio Pedro Naves é nome de rua


palacete de Antônio Pedro Naves deveria ser
tombado. De acordo com a planta dos
perímetros de entorno de três bens protegidos
(Paço Municipal Major Eustáquio, Palacete
São Luís e residência na Praça Rui Barbosa), Mascate ilustre já recebeu homenagem clássica do poder público
estava claro que o palacete já estava protegido André Azevedo
por localizar-se entre dois deles. Além disso, Nosso malogrado personagem principal já Moreira dos Santos propôs uma lei que
como citado anteriormente, a casa já fora recebeu aquela clássica homenagem póstuma instituiria o “Calçadão do Camelô” na rua
inventariada pelo Iepha-MG e indicada para do poder público, que um dia resolveu batizar Antônio Pedro Naves. O “camelódromo”
tombamento, ainda em 1987. uma rua com seu ilustre interromperia o tráfego
Nessa reunião, o advogado Alaor Ribeiro, nome. A rua Antônio no trecho que liga a
um dos conselheiros, chegou a redigir um Pedro Naves, no centro Em 1996, o então vereador Governador Valadares
parecer recomendando o tombamento, mas as da cidade, fica paralela Edivaldo Santos propôs uma com a Leopoldino de
coisas não passaram disso. Em 2000 houve com as ruas Jayme lei que instituiria o “Calçadão Oliveira. Curiosamente,
apenas três reuniões do conselho, conforme Bilharinho e José Fur- instalar pontos de ven-
os registros em ata disponíveis na Fundação tado Nunes, e liga as
do Camelô” nesta rua dedores ambulantes na
Cultural. A historiadora Sonia Fontoura foi ruas Governador Vala- rua batizada com o
afastada do arquivo e, em 2001, o Codemphau dares e Afonso Rato, cruzando a avenida nome de um mascate seria até apropriado –
simplesmente se esvaziou e deixou de exercer Leopoldino de Oliveira. visto de uma perspectiva histórica. Mas a
as atividades. Em 1996, o então vereador Edivaldo lei foi vetada.
Em março de 2002 o conselho foi

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Fragmentos

Uma herança
embrulhada
Histórico da propriedade é um labirinto
André Azevedo / arte: Revelarte

de divisões do espólio de Naves


Uma consulta minuciosa em cartórios de
registros de imóveis mostra que o histórico
da propriedade dessa casa é um complicado
labirinto de divisões do espólio de Antônio
Pedro Naves entre duas gerações de herdeiros,
incluindo maridos e esposas casados em
regime de partilha de bens, envolvendo mais
de 30 pessoas de pelo menos 17 núcleos
familiares. Mas antes de tudo, um recado de
alívio prévio: o leitor não precisa se preocupar
em decorar nomes nesta confusão de gente
envolvida no emaranhado da partilha que será
mostrado a seguir. Pode continuar a leitura no
ritmo normal, sem se assustar com a frenética
sucessão de herda-compra-e-venda da ventania
de escrituras a seguir. O objetivo da exposição
é acompanhar a desconstrução e reconstrução
da propriedade, até o dono final.
A história começa assim: O velho Naves
morreu em sua residência aos 70 anos, de
câncer no pulmão, no dia 25 de outubro de
1941, às 8h da manhã. A esposa, Maria Rosa,
herdou a casa gravada com a cláusula de Naves Santos; Maria de Lourdes Naves primeira leva de herdeiros, faleceu em julho O homem de negócios
inalienabilidade vitalícia – isso significa que Ventura; José Eduardo Naves Ferreira; de 1967, e seu marido, José Ribeiro, morreu E então entra na jogada Idivaldo Odi
o imóvel não poderia ser vendido, nem pelos Antônio Jesuino Naves Ferreira (estes três um pouco depois, em agosto. Os beneficiados Afonso, o empresário lotérico que tinha
filhos, enquanto a viúva estivesse viva. A três últimos moradores em São Paulo); e Maria pelo espólio foram João Francisco Naves interesse em comprar o palacete por causa do
dias do aniversário de dez anos de morte de Rosa Naves Ferreira, que morava em Araxá. Junqueira, casado com Regina Maura Costa valor imobiliário do terreno. Que os leitores
Naves, no dia 22 de outubro de 1951, morre Dois outros acabaram por herdar, cada um, o Junqueira; e Luiz Antônio Naves Junqueira, perdoem a efusão de datas e centavos, mas
Maria Rosa, pouco antes de completar 72 equivalente a 1,6% do palacete: Ana Maria casado com Martha Villela Martins Junqueira, eles são importantes para elucidar a
anos. O palacete foi então dividido entre cinco Moraes Ferreira e Arnaldo de Moraes todos então moradores em São Paulo. Cada cronologia da destruição. O calendário estava
herdeiros e seus cônjuges. Rasma, casada com Ferreira, ambos moradores em São Paulo. um ficou com 10%. contra o palacete. A cada dia que passava, era
Azor Ferreira Santos; Stellita, casada com o Eis que Dagoberto Naves falece em julho Maria Rosa Naves Ferreira casou-se com um baque a mais para a demolição.
fazendeiro José Ribeiro Junqueira; Alaor, que de 1978. A viúva, Aracy de Oliveira Naves, Olavo Martins Maneira e seu nome de casada Em 9 de março de 2000, Idivaldo deu o
mais tarde se casaria com herda os 20% da ficou Maria Rosa Santos Maneira. Ana Maria primeiro peteleco: adquiriu, de Maria Rosa
Nina Cardoso; e Dago- propriedade. Aracy tam- Moraes Ferreira Santos Maneira,
berto, que se casaria com O calendário estava contra bém veio a falecer e, em casou-se em 1973
Em 9 de março de 2000, 3,3% do palacete.
Aracy de Oliveira, her- o palacete. A cada dia que março de 1994, Leonor, com Jácomo Andre- Pagou R$4.914. Em
daram 20% cada um. passava, era um baque cunhada de Dagoberto, ucci Filho e passou a Idivaldo deu o primeiro peteleco: 17 de abril, com uma
João Naves fez diferente: realiza uma negociação e assinar Ana Maria adquiriu, de Maria Rosa Santos só cajadada, fechou
preferiu transferir a a mais para a demolição acaba por herdar seus Ferreira Andreucci. Maneira, 3,3% do palacete negócio com 11 dos
herança diretamente para 20%. Leonor passou, Eles se separaram herdeiros (incluindo
sua esposa, a ex-miss Uberaba, Leonor Dimas então, a ser dona de 30%, pois acumulara a em 1986, mas ela maridos e esposas) e
Naves; e para a filha, Maria Norma Naves, herança de Dagoberto com os 10% que ela já continuou a usar o nome de casada. Por fim, comprou um total de 53,3% do palacete. A
que herdaram, cada uma, 10% do imóvel. havia herdado da sogra, Maria Rosa Naves. Arnaldo de Moraes Ferreira casara-se com Ethel coisa se deu assim: Ele adquiriu 20% de
Rasma faleceu na cidade de São Caetano A divisão da propriedade vai se Neves Ferreira. É importante lembrar que, ao Leonor Dimas Naves, por R$40 mil. Levou os
do Sul (SP), em abril de 1969, aos 69 anos. complicando mais ainda. Alaor Naves e sua se casarem, a comunhão de bens faz com que 10% de Maria Norma Naves Marques e marido
Como não deixara testamento, os 20% do esposa, falecem. No inventário, realizado em os cônjuges tenham também direto à frações da por R$20 mil. Comprou a parte pertencente a
imóvel que era de seu direito foi rateado entre agosto de 1991, os 20% da propriedade que propriedade, complicando ainda mais a questão. Ana Maria Ferreira Andreucci, o ex-marido
sete herdeiros, de acordo com um processo lhes cabiam foi dividida entre dois herdeiros: Fica evidente, portanto, o motivo pelo qual o Arnaldo de Moraes Ferreira e sua nova esposa,
de partilha que só foi resolvido em julho de Elizabeth Naves Doti, casada com Attílio palacete de Antônio Pedro Naves, patrimônio que em conjunto detinham 3,33%, por
1976. Ficou assim: cinco deles herdaram o Doti; e Antônio José Cardoso Naves, casado cultural de Uberaba, ficou por tanto tempo R$6,666,60. Adquiriu a parte reunida de João
equivalente a 3,3% do imóvel. Os com Roseli Fornazier Naves – todos esquecido, desprezado, encoberto de placas, Francisco Naves e esposa com Luiz Antônio
beneficiados foram Maria da Conceição moradores em Belo Horizonte. sujeira e musgo. Havia tantos donos, e não havia Naves Junqueira e esposa, que detinham juntos
Stellita Naves Junqueira, também da nenhum ao mesmo tempo. 20% do imóvel, por R$40 mil. segue
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Memória

Em 24 de abril, Idivaldo comprou 10%


Netos falam do avô
de Antonio José Cardoso Naves e esposa, por
Para João Francisco Naves Junqueira e Naná Rodrigues da Cunha,
R$20 mil. Em 14 de junho, através de compra “Vô Tonico” não foi mascate, mas comerciante de gado
e venda de direitos hereditários, obteve os André Azevedo
3,3% de Antonio Jesuíno Naves Ferreira, O médico João Francisco Naves
falecido em 1995, por R$4.374,74. Da mesma Junqueira, e a estilista Naná Naves Rodrigues
forma, obteve o espólio de José Eduardo da Cunha, netos de Antônio Pedro Naves,
Naves Ferreira e Maria de Lourdes Andreucci concederam uma entrevista ao Revelação na
Naves, que correspondia a 3,3% do imóvel, tarde de 14 de abril, no atelier de Naná,
ao preço de R$4.374,74. localizado no grande Hotel de Uberaba.
Em 18 de setembro, comprou 10% de Segundo eles, o “vô Tonico” veio de Iraí de
Elizabeth Naves Doti, por R$15 mil. Através da Minas para Uberaba porque preocupava-se
compra dos direitos hereditários de Maria da em encontrar um lugar melhor para educar
Conceição Naves Santos e seu marido, obteve, os filhos. Rasma e Stellita acabaram por
em 19 de dezembro, mais 3,3%, ao custo de estudar no Sion – colégio das Freiras
R$6.666,65. Em 26 de abril de 2001, comprou Dominicanas – em Campanha, no sul de
de Leonor Dimas Naves, mais 10% do imóvel, Minas. Dagoberto e Alaor estudaram em
ao custo de R$20 mil. Isso lhe conferia 96,7% colégio Jesuíta, em Friburgo.
da propriedade. (Mais tarde descobriremos onde O Revelação apurou que, assim como
estavam os 3,3% que ainda faltavam). Até então, Uberaba, Iraí de Minas também originou-se
desconsiderando as correções monetárias, com as expedições à procura de jazidas
gastara quase R$182 mil. minerais. De acordo com dados da Secretaria
Para iniciar o processo de tombamento, a de Cultura de Minas Gerais, a descoberta do
lei determina que os proprietários sejam diamante Estrela do Sul, em 1852, provocou João Francisco e Naná contaram que Naves veio a Uberaba para educar os filhos
notificados da decisão do conselho. No dia a chegada de muitos garimpeiros, dando
11 de abril de 2002 Idivaldo fora notificado. origem ao povoado de Espírito Santo do possuía duas fazendas: Baguaçu e Santa e comer-cializava”, afirmou João Francisco
Conforme a lei, o proprietário teria o direito Cemitério. Em 1909 o lugarejo passou a se Helena. Eles não se lembram da fazenda Naves.
de recorrer na Justiça, caso não desejasse que chamar Iraí, palavra de Marimbondo, citada na Naná confirmou a história. “Ele tinha uma
seu imóvel fosse tombado. Foi o que fez. Já origem tupi que significa pesquisa do dossiê de vida muito confortável, muito acomodada,
“rio de mel”. Em 1943
“Ele tinha uma vida tombamento. Eles também tinha carro. Ele ficava mais em casa,
no dia 16 seus advogados solicitaram à
Fundação Cultural uma cópia dos passou a chamar-se Ba- muito confortável, muito afirmam que Naves não foi recebendo os amigos, porque Uberaba era
documentos para “fins de apresentar sua gagem, em referência ao acomodada, tinha carro” mascate, mas comerciante. pequena naquela época, então todo mundo ia
defesa plena”. E no processo de impugnação, rio em cujas margens foi “O vovô, quan-do veio pra cá, pra lá. As meninas faziam saraus, essas
assinado no dia 25, deixam explícito que instalado o primeiro povoado. O nome atual comprou a fazenda e se coisas”.
Idivaldo “não tem o mínimo interesse de só foi definido em 1953. Iraí de Minas foi dedicou ao comércio. Ele comprava, No entanto, o presidente do conselho
explorar o imóvel nas condições em que o distrito de Monte Carmelo e, em dezembro engordava, criava, – era um comerciante de curador da Fundação Museu do Zebu, Márcio
mesmo encontra-se, tendo em vista a de 1962, foi elevado à categoria de município. gado. Ele não era mascate, ele não saía pra Cruvinel Borges, confirma os dados da
insignificante renda que o mesmo porventura De acordo com os netos, o velho Naves vender. Tinha fazenda, tinha seu gado próprio pesquisa do tombamento. Márcio mostrou que
poderá proporcionar-lhe”. Antônio Pedro Naves inclusive está listado
André Azevedo
Logo veremos com detalhes os no livro Cem anos de mascates, editado pelo
argumentos apresentados neste processo. E Museu do Zebu. É provável que Naves tenha
fica aqui mais um recado: em algum começado a vida como mascate, depois
momento dessa batalha, talvez o leitor comprou terras e tornou-se criador.
comece a se sentir exausto perante o furioso Em relação à casa, Naná brinca que
desenrolar de informações. No entanto, os gostaria de ter ganho na loto para poder
mais curiosos podem ficar certos de que se comprá-la. Ela disse que, quando Borsoi e a
trata de uma verdadeira aventura no universo esposa Janete Costa – famosos arquitetos
da retórica e da persuasão, pois – isso é brasileiros – estiveram em Uberaba, Janete
necessário admitir – trata-se de um processo chegou a afirmar que, no Brasil, em termos
exemplar, que atuou nos trâmites legais (o de estilo, “tinha visto poucas casas tão
prédio só foi demolido depois da sentença perfeitas e com um material tão maravilhoso
da juíza), explorou as brechas e alternativas como o palacete”. Naná lamentou a
possíveis e foi hábil ao interpretar os laudos demolição, dizendo que aquela casa era muito
para impor a versão que o proprietário importante. “Mesmo para Uberaba naquela
desejava. Para as pessoas particularmente época, ela fazia um sucesso muito grande.”
interessadas em patrimônio cultural, essa Segundo ela, todo o material era importado,
anatomia será de grande valor e deve ser especialmente da França e Portugal. “As
De acordo com os netos, antes de construir o palacete, Antonio Pedro Naves morou nesta casa
objeto de estudo, pois será possível portas eram todas de pinho de riga, todas!”.
onde hoje está instalado o bar Archimedes. Adelino Pagani Filho, o Piola, um dos atuais proprietá-
compreender minuciosamente a mentalidade, Até o fechamento da edição, nenhum dos
rios, conta que Archimedes Geraldo de Almeira comprou a casa de Paulo Finhold em 1950 para
os argumentos e os instrumentos jurídicos que montar o bar, que funciona desde então. Os donos mantiveram as características originais da dois conseguiu encontrar fotos do avô nos
podem ser usados na guerra da destruição fachada. “Eu nem penso em mexer em nada. A casa tem 100 anos e continua firme. Aposto que é arquivos da família. “Quando vovô morreu
contra a preservação de um bem histórico. mais firme que muito prédio novo da Leopoldino de Oliveira”, desafia Piola. eu tinha uns 10 anos”, explica João Naves.

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Conselho x proprietário

Agora é guerra!
Batalha de argumentos, laudos e versões incendeiam o furioso e exaustivo processo administrativo
reprodução
Exércitos postos, e a guerra começa pra existência de um documento assinado por
valer. O Codemphau e a Procuradoria Geral apenas uma das conselheiras, e outras
do Município reuniram os dossiês, questões formais – tais como ausência de
documentos e laudos técnicos para defender numeração e rubricas em todas as páginas do
o tombamento no processo processo. Por causa disso,
administrativo. O laudo da pediam o cancelamento
arquiteta Izabela de Souza Com a notificação, do tombamento pro-
Alves Torres, realizado em o palacete Antônio visório.
março de 2002, consi- Pedro Naves já estava Foi apontado outro
derava bom o estado de problema. A lei determina
conservação da edificação.
provisoriamente tombado que, para se efetuar o
A estrutura do telhado tombamento, todos os
(madeira, lage e perfil metálico) foi proprietários devem ser notificados. Até aí,
considerada regular, e foi notado um provável nenhuma novidade, pois Idivaldo já recebera
“ataque de cupins no madeiramento”, além a notificação em abril. No entanto, eis que
de telhas quebradas. Ainda segundo o laudo, surge uma co-proprietária: Maria de Lourdes A co-proprietária Maria de Lourdes Naves Ventura foi notificada no dia 26 de julho
o estado das alvenarias, revestimento e Naves Ventura – aquela que ainda detinha os
vedações era bom, com exceção da pintura 3,33% do espólio de Rasma Naves. Não se solicitando assessoria para a defesa contra a Maria de Lourdes Naves Ventura foi
desgastada, de trincas no reboco e de portas e sabia o endereço de Maria de Lourdes. Sabia- impugnação do tombamento. No entanto, publicada no Porta-Voz, o jornal oficial da
janelas em estado ruim, “necessitando inter- se apenas que morava em São Paulo. E como o ofício não foi enviado porque o conselho Prefeitura. Assim, o palacete Antônio Pedro
venção”. Foi notada a ausência de instalação ela não havia sido notificada, o tombamento e seu presidente, José Thomaz, recusaram Naves estava provisoriamente tombado.
de prevenção de combate provisório não tinha valor. a idéia.
a incêndio e outros siste- Isso serviu como uma O segundo passo era notificar a co- Laudo técnico
mas de segurança (um Idivaldo contratou três dica para o Codemphau. proprietária. O procedimento legal, quando a Para avaliar as condições da edificação,
dos critérios do formu- advogados para defender Em uma Folha de Infor- pessoa mora em local desconhecido, é tornar Idivaldo encomendou um laudo técnico do
lário do laudo). No en- mações e Despachos pública a notificação, divulgando-a pela Escritório de Avaliações e Perícias de
tanto, a avaliação acabou
a demolição no processo (FID) datada em 7 de imprensa. Em 26 de julho, a notificação à
ficando incompleta por- de impugnação maio de 2002, dirigida ao
que o proprietário não procurador geral do
permitiu a entrada para vistoria interna. município, Paulo Eduardo Salge, os
Por sua vez, Idivaldo contratou os serviços conselheiros pediram para que a Procuradoria
dos advogados Néliton Furtado dos Santos, acertasse as formalidades, como autuar e
José Marques de Queiroz Júnior e Ricardo registrar o processo, assim como numerar as
Julien Lóes, e movia o processo adminis- folhas em sequência. No final de abril, Sonia
trativo para impugnar o tombamento e Fontoura chegou a redigir um ofício ao então
defender a demolição. diretor do Iepha-MG, Flávio Lemos Cassolati,
Já nas preliminares, os advogados
começam por alegar algumas pendências
processuais, tais como ausência da ata da
reunião que decidiu pelo tombamento,
Capa do processo de tombamento - reprodução

8 29 de abril a 5 de maio de 2003


Engenharia (Esape), assinado em 20 de abril a ser pensão e república de estudantes. O preocupa-se com seu negócio particular, Em certo momento, chegam a afirmar que
pelo engenheiro José Delfino Sobrinho. O último locatário foi um empresário, dono de aquele evocava a defesa da história, da cultura donos de imóveis normalmente não agem “de
laudo descreve a casa de “excelente cotação uma pizzaria chamada Fogão de Lenha, que e da memória da cidade. Enquanto um forma a incentivar esta valorização histórico-
imobiliária”, dotada de benfeitorias públicas nem se preocupou em retirar a enorme placa desprezava o valor histórico do palacete, o artística de seu patrimônio”.
como pavimentação, energia, iluminação de seu comércio quando saiu do imóvel, em outro não levava em conta o prejuízo do De acordo com o decreto-lei n° 25 de 30
pública, etc. Aponta “razoáveis condições meados dos anos 90. Essa placa ficou proprietário. O laudo aponta que houve perda de novembro de 1937, que organiza a proteção
estruturais” apesar do “péssimo estado de dependurada durante vários anos, rasgada, de harmonia econômica, pois o terreno do patrimônio histórico e artístico nacional,
conservação” dos forros, instalações suja e mofada. passara a valer mais que a construção. o proprietário do bem tombado que não
sanitárias, elétricas e hidráulicas do 2º Já foi dito que relegar um imóvel ao Registra “mau aproveitamento do terreno dispuser de recursos para a conservação deve
pavimento. Foi admitido, no entanto, o bom abandono é similar a uma ordem de tendo em vista em se tratar de construções informar a necessidade das obras ao serviço
estado do 1º pavimento. demolição. É evidente que a falta de cuidados antigas e obsoletas, causando prejuízos ao de patrimônio histórico, que, por sua vez, deve
A má conservação do pavimento superior leva à lenta degradação. E muitas vezes esse proprietário pelo não aproveitamento do executá-las às custas do poder público. Caso
e as boas condições do porão não eram desprezo é proposital, pois serve de pretexto imóvel” impedindo-o de “obter a renda justa”. contrário, o proprietário poderá requerer que
nenhuma surpresa. O porão, dividido em dois, para eventuais pedidos de demolição. Idivaldo Afirma que a construção “não oferece as seja cancelado o tombamento. Pois bem. Com
era ocupado, de um chegou a ser acusado mínimas condições de isso, afirmavam que
lado, pela lanchonete de usar esse expe- recuperação ao ponto de Idivaldo não possuía os
de João Alves Batista, De acordo com o laudo da Esape, diente, como vere- atender o mercado “Construção não oferece recursos para a manu-
que alugava o cô- mos à frente. imobiliário e conse- tenção do imóvel e ale-
modo há 26 anos. a edificação não oferecia, até Voltemos ao quentemente atender às as mínimas condições de gavam que a própria
Segundo um membro aquele momento, lesões capazes laudo. O relatório da expectativas do pro- recuperação ao ponto de coletividade deveria
da família, quem de provocar desabamento Esape aponta des- prietário no que se atender o mercado imobiliário” suportar os custos do bem
“administrava” a pro- caracterização da fa- refere a imobilização do que ela mesmo entendeu
priedade era Leonor chada do imóvel: a capital empregado”. E ser digno de conservação.
Naves, que, através de uma imobiliária da escada original fora obstruída e os pontos termina assinalando que, economicamente, Nos finalmentes, argumentam que o
cidade, recolhia o pagamento do aluguel e comerciais instalados no porão haviam só a demolição permitiria o aproveitamento processo de tombamento de um imóvel traz
rateava o valor entre os herdeiros, de acordo alterado as divisões internas do projeto da área. sérias responsabilidades que vão muito além
com a porcentagem que cada um tinha direito. original. O laudo acusa deficiências na A tropa avançava. Baseando-se nesse da simples vontade de tombar. Alegam que é
O contrato com a lanchonete venceria apenas ventilação e iluminação natural, assinala laudo, os advogados argumentam que, se o muito fácil “escolher um imóvel e, como que
em outubro, mas a imobiliária havia “péssimo estado de conservação” em vidros, imóvel viesse a sofrer ou provocar qualquer em um ‘passe de mágica’, tombá-lo, deixando
comunicado que o novo proprietário queria o esquadrias, janelas de madeira e na pintura, e avaria nas proximidades, a responsabilidade toda a responsabilidade de manutenção,
ponto. Como havia uma sala desocupada ao indica fissuras na fachada e cupim nos forros. seria da prefeitura, pois o proprietário não vigilância e restauração às expensas do
lado do palacete, João fez um acordo e saiu Na fachada lateral, anota problemas no tinha condições financeiras para “mantê-lo, proprietário.” Para eles, “tal atitude seria
no dia 15 de julho. No outro cômodo sistema de coleta de restaurá-lo ou vigiá-lo como ‘gerar um filho’ e virar-lhe as costas,
funcionava uma casa de loterias, que fechou águas pluviais, res- adequadamente”. Ale- literalmente, ‘deixando todas as responsa-
as portas neste mesmo dia 15. ponsáveis, segundo o “O bem de valor histórico e gam que, caso a decisão bilidades inerentes ao ato com o primeiro que
Já o pavimento superior encontrava-se laudo, por parte das artístico deve ser preservado, do conselho pelo tom- encontrar pela frente”. E finalizam dizendo
abandonado há vários anos. O histórico da infiltrações. concomitantemente ao direito bamento provocasse que é muito fácil fazer cortesia com o chapéu
ocupação desta casa merece um breve relato: De acordo com a perda econômica, o alheio. Assim, concluíam que, se a Prefeitura
depois da morte de Naves, o palacete abrigou, própria avaliação da de propriedade dos indivíduos” município seria obri- não possuísse os recursos no orçamento para
de 1945 a 1951, o Hospital de Clínica Médico- Esape, a construção gado a indenizar o “manter, restaurar e vigiar “ o palacete,
cirúrgica e Ortopedia de Uberaba – o primeiro “não oferece, até o momento, lesões capaz proprietário. Afirmam que valores sociais deveria desistir da idéia de tombá-lo.
hospital ortopédico do Brasil Central. Depois, (sic) de provocar desabamento”. No entanto, inconscientes de uma coletividade não podem
tornou-se uma pensão. A partir de 1961, alega que, nas condições em que se encontra, lesar direitos individuais. Para eles, “o bem Ataque
abrigou parte do Fórum Mello Viana, cujo o excesso de madeira na construção, de valor histórico e artístico deve ser pre- O bombardeio intensificava-se. Em um
prédio submetia-se à uma reforma, concluída proveniente do forro, do piso e de outras servado, concomitantemente ao direito de requerimento encaminhado no dia 28 de maio
quase no final da década. No anos 70, voltou peças, aumenta o risco de eventuais incêndios propriedade dos indivíduos”. Além disso, ao presidente do Codemphau, José Thomaz
no período de seca. afirmam que, se depois do tombamento o pro- da Silva Sobrinho, os advogados alegam que
prietário não fosse ressarcido, estariam já haviam alertado sobre os riscos de
Conclusões dispostos a exigir indenização por via judicial. desmoronamento e informam que, após uma
A conclusão do laudo deixa evidente que forte chuva na noite de 20 de maio, ocorrera
o conselho de patrimônio histórico e o o “desabamento do telhado de parte do
proprietário estavam falando duas línguas imóvel”. Anexam fotos e cópia dos relatórios
totalmente diferentes. Enquanto este de ocorrência dos bombeiros e reiteram o
segue

29 de abril a 5 de maio de 2003 9


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dever da Prefeitura em restaurar o imóvel. reprodução pelo advogado de Idivaldo para que, caso não
Um desse relatórios, assinado no dia 21 acate os pedidos do proprietário, proceda
de maio pelo cabo Carlos Eimar Elias, registra ampla reforma do prédio “ante o iminente
que o destelhamento ocasionado pela chuva risco de desabamento (…) conforme atestado
deixara “a parede exposta para rua oficialmente pelo Corpo de Bombeiros e por
comprometida com trincas e rachaduras, perícia técnica, d’onde se conclui que a
colocando em risco pedestres e veículos”. demolição é inevitável”. A notificação insiste
Informa também que os bombeiros decidiram que “reparos não serão suficientes para afastar
isolar a área. As fotos mostram detalhes do os riscos de desabamento”. É possível
cômodo dos fundos parcialmente destelhado. observar que a tática adotada era repetir
O outro, assinado no dia 27 pelo cabo Gustavo exaustivamente a idéia de que o prédio estava
Ferreira Delfino, menciona rachaduras, por cair a qualquer momento.
infiltração e cupins, “suspeitando-se Neste ponto, perante a alegação do risco
aparentemente de risco de desabamento”. O de desabamento causado pela chuva, convém
cabo orienta Idivaldo a procurar um evocar aquele laudo técnico da Esape,
engenheiro de segurança para fazer uma Fachada lateral do palacete nos traços do arquiteto Marcelo Temponi para o dossiê de tombamento realizado três meses antes, anexado ao próprio
análise mais técnica. processo de Idivaldo, onde está registrado que
A artilharia mantinha-se firme. No dia 16 A batalha ficava cada vez mais feroz. Na Corpo de Bombeiros se referia, na verdade, a “a construção em pauta não oferece, até o
de julho é enviado mais um requerimento ao terceira semana de julho, mesmo com o um cômodo de 15m2, construído nos fundos momento, lesões capaz (sic) de provocar
Codemphau pedindo o cancelamento do processo em andamento, Idivaldo entrou com do terreno – quando no palacete funcionou desabamento”. Para eles, o que ameaçava o
tombamento provisório. Desta vez a alegação um pedido de demolição na Secretaria um hospital – não sendo, portanto, parte prédio, além de sua lenta deterioração natural,
era de que haviam Municipal de Obras. integrante da casa era a existência de
sido ultrapassados os Osório Joaquim Gui- histórica em processo “excesso de materiais
prazos de 15 dias para Em julho, mesmo com o processo marães Neto, o secre- de tombamento. Por Segundo Codemphau, cômodo combustíveis (madeira)
sustentação do tom- tário de obras, fez uma fim, deixava claro que,
em andamento, Idivaldo entrou anexo destelhado pela chuva provenientes do forro,
bamento e 60 dias consulta ao Codemphau conforme o laudo rea- assoalho, portas, cober-
para a decisão ad- com um pedido de demolição para saber se poderia lizado em março, não não fazia parte da edificação tura etc., que com a
ministrativa. Os advo- na Secretaria de Obras emitir o alvará. Sonia havia risco de desaba- em processo de tombamento chegada do período de
gados entendem que Fontoura respondeu mento do palacete em seca, aumenta o risco de
essa “inobservância que havia impedi- si. O alvará, portanto, acidente”.
dos prazos processuais” caracterizava “tanto mento, pois, com a notificação da co- não foi autorizado.
a falta de interesse do poder público, quanto proprietária, o processo estava em nova fase Bomba desarmada, pensaram todos. Mas Contra-ataque
o desrespeito aos ditames legais e aos e a edificação estava provisoriamente esse alvará negado, na verdade, era uma isca. No dia seguinte, José Thomaz encaminha
princípios constitucionais”. Essa questão dos tombada. Sonia esclarecia também que o Veremos isso mais à frente. todo o material (processo de impugnação,
prazos será discutida mais a frente. laudo desfavorável emitido pelo cabo do Em 5 de agosto, José Thomaz é notificado laudos técnicos dos bombeiros, requerimento
segue

Iphan é o órgão nacional de proteção


Maria Elisa Costa, a atual presidente do Instituto, já visitou Uberaba e desenvolveu projeto em Peirópolis
captura de tela
O Instituto do Patrimônio Histórico e monumentos culturais e naturais considerados
Artístico Nacional (Iphan), vinculado ao pela Unesco como Patrimônio Mundial. O
Ministério da Cultura, foi criado em 1937, único bem cultural de Uberaba tombado pelo
no governo de Getúlio Vargas. O Instituto Iphan, em nível nacional, é a igreja Santa Rita.
foi instituído por Rodrigo de Melo Franco, A atual presidente do Iphan – nomeada
que contou com a colaboração de pelo Ministro da Cultura, Gilberto Gil – é a
intelectuais como Mário de Andrade, arquiteta Maria Elisa Costa, filha de Lúcio
Manuel Bandeira, Afonso Arinos, Lúcio Costa – arquiteto que ajudou a fundar o Iphan
Costa e Carlos Drummond de Andrade. em 1937, e nos anos 50 planejou Brasília. No
O Iphan é responsável ano passado, Maria Elisa
pela proteção dos bens O trabalho do Iphan esteve em Uberaba para
culturais do país, através da participar da Semana de
realização de tombamentos, conta com mais de 16 Seminários da Uniube. Ela já
restaurações e revitalizações mil edifícios tombados veio algumas vezes à cidade
que assegurem o acervo e desenvolveu, junto com os
arquitetônico, urbanístico, documental, arquitetos Marcondes Nunes e Marcelo
etnográfico e artístico do território brasileiro. Suzuki, o projeto das oficinas do Centro
O trabalho do Iphan conta com mais de Cultural de Peirópolis.
16 mil edifícios tombados, 50 centros e
conjuntos urbanos, 5 mil sítios arqueológicos Iphan
cadastrados e mais de um milhão de objetos. SBN Q. 02 - Ed. Central Brasília - 6º andar
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videográficos. Hoje o Brasil possui nove http://www.iphan.gov.br

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reprodução
solicitando que o conselho assumisse o sobre o assunto na cidade. regular. O telhado em si, assim como as
imóvel, pedido de extinção e arquivamento Para ele, a preservação do bem histórico calhas, condutores e o coroamento estavam
do processo e cópias de documentos) para o está vinculada à sua utilização e integração bons. O reboco e os elementos artísticos foram
conselheiro e advogado Alaor Ribeiro. Era ao cotidiano da comunidade. “A ação do considerados bons, notando-se a presença de
hora do contra-ataque. Alaor examinou a poder público é exercida em caráter algumas trincas. A platibanda necessitava de
documentação e trabalhou na redação de um excepcional, onde faltarem recursos técnicos, pintura, e foi notada a falta de alguns artefatos.
parecer. Neste documento, assinado em 22 de materiais ou organizações coletivas capazes A pintura em geral, os forros de madeira, o
agosto, ele reafirmou a posição do conselho, de assumirem as ações necessárias para a ladrilho hidráulico e as vedações de portas e
frisando que havia interesse público na preservação do bem cultural, procurando-se janelas foram avaliadas como “ruim,
preservação do valor histórico e artístico do evitar a especulação e o mau uso da necessitando intervenção”. O muro foi
palacete. Citou os princípios constitucionais propriedade”. Lembrou que o Codemphau é avaliado como regular, e o gradil ruim. Os
e os artigos da Lei Orgânica do Município integrado por profissionais cientes de suas outros elementos externos, tais como varanda,
que recomendam a proteção do patrimônio funções institucionais de preservar a memória escada e torre estavam bons. Para Marcondes,
cultural da cidade e estabelecem as punições, da cidade, independente das “pressões definitivamente, o prédio “não corria nenhum
assinalou a legitimidade do tombamento naturais de interesses pessoais, políticos e risco de desabamento”.
como instrumento de planejamento urbano e econômicos, compreensíveis mas que podem De volta ao parecer. Sobre a reivindicação
evocou a colaboração da comunidade para a sucumbir diante do interesse público”. Para do prazo esgotado, Alaor argumenta que, com
proteção desse patrimônio “por meio de ele, o “interesse público sobrepõe ao a recente notificação da co-proprietária, Maria
inventários, registros, vigilância, tombamento interesse particular”. de Lourdes, no dia 26 de julho, o processo
e desapropriação”. Sobre os laudos dos bombeiros, Alaor estava em curso, “aguardando a manifestação
O conselheiro Ribeiro alegou que da interessada quanto ao tombamento do
esclareceu que essas eles não tinham imóvel”. Além disso, alegou que Idivaldo,
leis municipais e “A ação do poder público é
Trecho da vistoria realizada na presença de
“nenhum valor téc- como co-proprietário, não teria poderes para
Idivaldo, Sonia Fontoura e José Thomaz
federais são os instru- exercida em caráter excepcional, nico” pois, eram representá-la, ou seja, não poderia manifestar-
mentos jurídicos onde faltarem organizações assinados por dois A propósito, o arquiteto e conselheiro do se por ela. Para o conselheiro, Idivaldo estaria
para a atuação do cabos, pertencentes Codemphau, Marcondes Nunes Freitas, havia atropelando o trâmite do processo
Codemphau – o ór- coletivas capazes de assumirem à 3ª Cia Indepen- feito um novo laudo técnico, no dia 20 de administrativo “ao tentar forçar uma tomada
gão institucional que ações para a preservação” dente de Bombeiros agosto, desta vez na presença de Idivaldo que de posição precipitada”, passando por cima
delibera sobre o valor Militar, “a pedido da o acompanhou pelos cômodos da edificação. do direito da co-proprietária que deveria ser
histórico e artístico parte interessada, que Sonia Fontoura e José Thomaz também os tratada “nas mesmas condições dos demais
dos bens municipais, “sejam públicos ou não têm competência técnica e nem funcional acompanharam na vistoria. O laudo constatou interessados”.
particulares”. Ele argumentou que o patri- para manifestar-se em nome da Companhia de bom estado de conservação do tijolo maciço Neste momento, convém esclarecer
mônio cultural “pertence à comunidade que Bombeiros local”. Além disso, laudos anteriores e da estrutura de madeira e da alvenaria em definitivamente essa questão dos prazos
produziu os bens culturais”, e reivindicou a comprovavam a solidez da edificação e geral, apesar do cupim em algumas peças do legais. De acordo com a lei, quando o
autonomia do Codemphau nas deliberações desmentiam o risco de desabamento. piso. A estrutura do telhado foi considerada proprietário é notificado, o imóvel já está
segue

Iepha cuida do patrimônio cultural de Minas


Instituto ligado a Secretaria de Estado da Cultura presta assessoria e orienta na captação de recursos
captura de tela
O Instituto Estadual do Patrimônio prefeituras é decisiva na definição das
Histórico e Artístico de Minas Gerais prioridades do Instituto”.
(Iepha/MG) é um órgão vinculado à Bens tombados de uso público têm
Secretaria de Estado da Cultura e possui prioridade na aplicação dos recursos do
atribuições iguais ou complementares ao Instituto. No entanto, o Iepha também fornece
Instituto do Patri- assessoria aos projetos
mônio Histórico e e obras em proprie-
Artístico Nacional Iepha orienta proprietários na dades particulares,
(Iphan), o órgão fe- busca de fontes de recursos difundindo normas de
deral de proteção do para a preservação de suas proteção e orientando
patrimônio. proprietários na busca
O Iepha tem a edificações históricas de fontes de recursos
função de preservar o para a preservação de
acervo cultural de Minas Gerais através de suas edificações históricas.
ações de proteção, fiscalização, conser- Em Uberaba, não há nenhum tombamento
vação e restauração. O órgão também feito pelo Iepha.
realiza estudos, pesquisas, promove cursos,
presta assessoria e edita publicações para Iepha/MG
auxiliar os municípios que desejam Edifício da Secretaria de Estado de
preservar seu patrimônio cultural. Transportes e Obras - 4º andar
Praça da Liberdade
A página do Instituto na Internet Belo Horizonte - MG - 30140-010
esclarece que, “o envolvimento das comu- Telefone (31) 3213-6000
nidades locais é fator essencial para o Fax (31) 3213-5999
sucesso das medidas de preservação” e “a e-mail: iepha@mg.gov.br
manifestação de interesse por parte das http://www.iepha.mg.gov.br

29 de abril a 5 de maio de 2003 11


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provisoriamente tombado. O dono do imóvel ser nomeado curador para defesa de seus prédio provisoriamente tombado encontrava- a manutenção da solidez da obra seria
tem um prazo de 15 dias para, caso não interesses processuais”. se com o portão destrancado, com as portas e obrigação do dono.
concorde, entrar com o processo de impug- No dia 26 de agosto, uma Folha de janelas abertas, “propiciando a entrada de Da mesma forma, o secretário de obras,
nação. Depois desse prazo, se não houver o Informações e Despachos (FID) da Procu- vândalos e ou possível deterioração”, além Osório Guimarães, afirma não ter orçamento
pedido formal, basta um despacho do radoria registrou que o procurador foi de “poder ser utilizado por infratores e ou para esse tipo de despesa. Ao mesmo tempo,
presidente do conselho para inscrever o bem contrário ao acatamento do pedido de criminosos, podendo comprometer a reitera a “necessidade imperiosa, e com a
no Livro do Tombo demolição, “uma segurança pública no local”. Naquele dia, eles maior urgência, de reforma no prédio”, e
e concluir o tomba- vez não caracteri- mesmos – Sonia e Augusto – fecharam o assinala que “não assume qualquer
mento definitivo. A conclusão do laudo do zado o risco de portão. Ainda assim, passados alguns dias, as responsabilidade pela segurança e solidez da
Maria de Lourdes arquiteto Marcondes Nunes, desabamento que janelas do palacete continuavam abertas. No obra”. O secretário ainda esclarece que o
Naves não havia se serviu de suporte dia 10 de setembro o Codemphau enviou uma alvará de demolição não fora autorizado
manifestado. Quan- realizado em agosto, era que, ao pleito”. Infor- notificação a Idivaldo, exigindo que fechasse a porque o impedimento estava respaldado
do o proprietário entra definitivamente, o prédio mou também que casa, cumprindo a deliberação do conselho. juridicamente pela Procuradoria. Essas
com o processo no “não corria risco de desabamento” os advogados de Segundo Sonia, depois disso a casa foi trancada. declarações, como se verá mais a frente, serão
prazo, o conselho tem Idivaldo estavam No dia seguinte, Idivaldo enviou um peças chave no vitorioso mandado de
mais 15 dias para cientes do parecer requerimento à Prefeitura, questionando se o segurança – impetrado contra Osório
sustentar o pedido de tombamento, e depois mais de Alaor Ribeiro. Conclui sugerindo que a município detinha orçamento para a reforma Guimarães – que finalmente garantiu a
60 dias para proferir decisão final. De acordo Fundação Cultural dê “normal e ágil tramitação do prédio. No mesmo dia a Procuradoria Idivaldo a licença para demolir o prédio.
com a lei, “dessa decisão não caberá recurso”. ao processo”. Nessa mesma FID, o advogado encaminhou o pedido à Fundação Cultural. Uma semana depois, o advogado envia
Mas o próprio Iphan entende que não de Idivaldo declara ter recebido os documentos José Thomaz respondeu no outro dia, uma contranotificação à Fundação Cultural,
existem prazos determinados para a para instituir eventual ação judicial. informando que dizendo já ter avi-
deliberação final de um processo de não tinha orça- sado que Idivaldo
tombamento. “Por se tratar de uma decisão Ataques e contra-ataques mento. Além disso,
Em um requerimento, José Thomaz não tinha “a me-
importante e criteriosa, muitos estudos devem Enquanto perdurava o processo alega que essa des- declara que está ciente do nor condição de
ser realizados para instrução do processo e, administrativo, Idivaldo partiu para a pesa era de respon- posicionamento da Secretaria restaurar, manter
conforme sua complexidade, cada caso guerrilha: foi acusado de deixar as janelas e sabilidade do pro- ou dioturnamente
demandará prazos diferenciados”, registra em portas abertas – de propósito – para que as prietário, “uma vez
de Obras, “onde se denota a vigiar” o palacete
seu sítio na Internet (www.iphan.gov.br). paredes e assoalhos fossem atingidos pela que o domínio lhe existência de riscos de desabamento” que comprara.
Voltemos. Alaor Ribeiro concluiu que os chuva e o palacete ficasse vulnerável a pertence”. A des- Afirma que o pro-
pedidos do co-proprietário não deveriam ser invasores. O provável objetivo seria fornecer peito do laudo favorável do próprio prietário verifica, “sempre que possível”, o
acatados, e que a posição da Secreteraria de mais pretextos para a demolição. No dia 2 de Codemphau, José Thomaz declara estar estado do imóvel, já tendo consumido mais
Obras seria “contra a pretensão de setembro, passando de carro na rua Manoel ciente “do posicionamento técnico da de 20 cadeados e várias trancas para fechar
demolição”. Além disso, informou que a co- Borges, em frente ao palacete, Sonia Fontoura Secretaria de Obras, onde se denota a janelas, portas e portões abertos por “mendigos
proprietária deveria se manifestar até o dia e o historiador Augusto Rischiteli perceberam existência de riscos de desabamento”. Dado e andarilhos” que passaram a noite por lá.
27 de setembro, (dois meses após a publicação a estratégia. Acionaram a polícia, e realizaram isso, registra que a Fundação Cultural não Conclui reafirmando a responsabilidade do
da notificação no Porta-Voz), “sob pena de um Boletim de Ocorrência, registrando que o assume nenhuma responsabilidade, porque poder público perante o imóvel. segue

Preservação do patrimônio
garante recursos estaduais
Relatórios enviados ao Iepha são pontuados e conquistam repasse na distribuição do ICMS
(fonte: http://www.leirobinhood.mg.gov.br)
A Constituição Federal determina que os Confira, na tabela abaixo, a pontuação
Uberaba Uberlândia Araguari Araxá
Estados devem repassar aos seus municípios de 2003 de algumas cidades da região
2002 26,1 mil 166,6 mil 182 mil 285 mil
25% da receita arrecadada com ICMS. Os
Araxá - TE 12.40 2001 123,2 mil 77 mil 92,4 mil 154 mil
repasses são feitos até o segundo dia útil de
Patos de Minas 8.00 2000 140,7 mil 36,1 mil 123,1 mil 193,8 mil
cada semana, com base na receita estadual
Araguari 7.40 1999 99,7 mil 62,5 mil 91,4 mil 149,3 mil
obtida na semana anterior. O valor creditado
ao município é proporcional a um índice Ibiá - TF 6.60
apurado pelo Estado, conforme critérios Uberlândia - TE 6.50 A pontuação de 2003 foi resultado do patrimônio cultural. Neste mesmo período,
estabelecidos em lei. Monte Carmelo 6.00 trabalho de Sonia Fontoura, que passou a ser Uberlândia já recebeu R$30,6 mil; Araguari
Em Minas Gerais, parte dessa receita é Patrocínio 5.80 assessora do conselho em março de 2002 e R$35,5 mil e Araxá, R$72 mil. Veja no gráfico
distribuída de acordo com a lei Robin Hood. Uberaba - TF 5.60 relatou as atividades de 2000. Sonia pediu as verbas anuais recebidas por estas cidades nos
Entre os critérios de pontuação analisados (área Sacramento - TE 3.35 auxílio à empresa especiali- últimos 4 anos (pelo critério
geográfica, população, gasto com saúde, meio Campina Verde 2.65 zada Miguilim, de Betim patrimônio cultural).
Nova Ponte 0.85 (MG), para auxiliar no tra-
Em 2002 Uberaba recebeu Segundo a ex-assessora
ambiente, etc), está incluído o ítem Patrimônio
Histórico e Cultural, que tem peso de 1% no Indianópolis 0.70 balho. A firma enviou dois apenas R$26,1 mil do Codemphau, Sonia
cálculo da distribuição dos recursos. Água Comprida - TE 0.60 arquitetos especializados porque o relatório não foi Fontoura, em 2002 Uberaba
(Para comparar: a pontuação de Ouro Preto é 25.15; para agilizar os relatórios. recebeu apenas R$26,1 mil
Para garantir essa verba, o município deve
Tiradentes, 12.15; São João del Rei, 11.35; Belo Apesar da pressa, o
enviado no ano anterior porque o relatório não foi
providenciar, anualmente, um conjunto de Horizonte, 10.20 e São Tomé das Letras, 9.30)
documentos que comprovem a atuação pela documento foi enviado em enviado no ano anterior. O
(fonte: http://www.iepha.mg.gov.br/pontuacaofinalabril2003.xls)
preservação do patrimônio cultural da cidade tempo hábil, e conquistou 5.6 pontos. valor recebido veio em função de valores fixos
– processos de tombamento, aplicação de para avaliação. A verba é repassada no decorrer De acordo com dados da Fundação João obtidos pelo tombamento da Igreja Santa Rita,
recursos, restauros, etc. Esses documentos do ano seguinte, de acordo com a pontuação Pinheiro, neste ano, até março de 2003, Uberaba o único bem cultural de Uberaba protegido
devem ser enviado ao Iepha até 15 de abril, do município e a arrecadação do Estado. já recebeu R$24,2 mil de verba relativa ao em nível nacional, pelo Iphan.
12 29 de abril a 5 de maio de 2003
fotos: Juliana Borin (arquivo Revelação) considerava nulo o pedido de demolição do notificação da co-proprietária que, por sua dezembro (quarta-feira), baseado no parecer
imóvel. A curadora reconhece o valor vez, não havia se manifestado no prazo legal. final do conselheiro Alaor Ribeiro, o
histórico e artístico do Palacete Antônio Pedro Desconsiderou a ocorrência dos Bom- Codemphau rejeita a impugnação e decide
Naves, concorda com a sua preservação e beiros sobre o desabamento parcial, por se pelo tombamento definitivo.
discorda da demolição para exploração tratar de uma “garagem independente” que O decreto do Poder Executivo nº 1633 –
comercial. No dia 27, o Codemphau remete a não fazia parte do imóvel em processo de que determinava o registro do Palacete Antônio
Idivaldo o parecer de Simone Ribeiro. O tombamento. Acusa o Pedro Naves no livro de
conselho estabelece um prazo de 5 dias para “tom ameaçador” da tombo – estava redi-
que ele se manifeste, o que não ocorreu. notificação “extra- gido desde abril de
judicial” ao presidente
Em uma reunião no dia 11 de 2002. Para que entrasse
Tombamento definitivo do Codemphau, assim dezembro, o Codemphau rejeita legalmente em vigor, só
Neste mesmo dia, o advogado e como a decisão de a impugnação e decide pelo faltava publicá-lo no
conselheiro Alaor Ribeiro assinou o parecer Idivaldo de deixar o tombamento definitivo órgão de imprensa
final, decidindo pelo tombamento definitivo. imóvel aberto com as oficial do município, o
Nesse parecer, registra que, no início do portas “escancaradas” jornal Porta-Voz. Dessa
processo de impugnação, o co-proprietário para tentar justificar a demolição e, “segundo forma, a edificação estaria definitivamente
ateve-se a discorrer sobre a legislação e fazer informações, para se instalar no local um protegida e irrevogavelmente tombada.
ameaças descabidas ao Codemphau, estacionamento de automóveis de alta O Porta-voz é impresso semanalmente, e
demonstrando ser “mero especulador rotatividade”. Evocou o laudo de vistoria circula às sextas-feiras. Para que os decretos,
Fachada do antigo cine Royal, na praça
Comendador Quintino, foi preservada. Hoje, comercial do imóvel”. Entende que o processo realizado pelo arquiteto e conselheiro avisos de licitações e comunicados oficiais
no local, funciona uma pizzaria de impugnação em Marcondes Nunes de sejam publicados, é preciso enviar o texto até
nenhum momento entrou Freitas – onde foi con- a terça-feira da semana de circulação – prazo
Mais contra-ataque. O prazo para a no mérito da questão – ou
Como a reunião se dera em firmado o bom estado para dar tempo de preparar e enviar o jornal
manifestação da co-proprietária, Maria de seja, Idivaldo não atacou uma quarta-feira, e o prazo de preservação – e a para a gráfica. Estava tudo certo. Como a
Lourdes, havia se esgotado. No dia 3 de o valor histórico e para publicação é na terça, nomeação de curadora reunião se dera no dia 11 de dezembro, uma
artístico do palacete. Para
outubro é enviada uma notificação a um dos
o conselheiro, isso signi-
o decreto sairia na próxima para a co-proprietária quarta-feira, o decreto seria publicado na
ausente, cujo parecer se próxima semana, no dia 20. Missão cumprida.
advogados de Idivaldo, designando-o a
responder por ela, como curador, no prazo de ficava que o proprietário semana, no dia 20 mostrou favorável ao Sonia Fontoura, exausta, marcou uma viagem
10 dias. Como não houve manifestação, no sabia que esses ele- tombamento. Em um de repouso. Renata Bananal, funcionária
dia 1º de novembro o conselho nomeou a mentos estavam presentes e eram legítimos trecho do parecer, Alaor Ribeiro registra que administrativa à serviço do Codemphau, ficou
advogada Simone Ribeiro da Silva para na justificativa do tombamento. Da mesma o co-proprietário “ameaçou” buscar a incumbida de encaminhar o decreto para a
responder pela proprietária. Em um parecer forma, não houve contestação à documen- proteção do Poder Judiciário, mas, até aquele publicação no Porta-Voz, até a terça-feira, dia
assinado no dia 18, a advogada registrou que, tação para fundamentar o tombamento momento, “não houve qualquer manifestação 17. Depois da exaustiva batalha, era hora do
na qualidade de proprietário parcial, Idivaldo (referências bibliográficas, fotográficas e da Justiça a respeito da matéria”. Mal sabia repouso do guerreiro: o palacete estava, afinal
Odi Afonso, não teria poder de representação conclusões do Conselho de Patrimônio que o despacho fatal estaria tão próximo. protegido… não fosse a última bala no gatilho
pela outra co-proprietária. Por isso, Histórico), e tampouco impugnação à Assim, em uma reunião no dia 11 de de Idivaldo: o mandado de segurança.
continua na página 18

Tombamento não compromete propriedade


Ato estabelece limites aos direitos individuais com o objetivo de resguardar interesses do conjunto da sociedade
fotos: Juliana Borin (arquivo Revelação)
O tombamento é um ato administrativo O tombamento não altera a propriedade Entorno
realizado pelo poder público com o objetivo de um bem, apenas proíbe que venha a ser Quando se efetua o tombamento, o órgão
de preservar, através de legislação específica, destruído ou descaracterizado. Um bem responsável estabelece também os limites e
os bens de valor histórico, cultural, tombado também não necessita ser as diretrizes para as intervenções nas áreas
arquitetônico, ambiental e afetivo de uma desapropriado. De acordo com informações de entorno de bens tombados. “O entorno é a
comunidade. O objetivo é impedir legalmente no sítio do Iphan na Internet área de projeção localizada na vizinhança dos
que esse patrimônio coletivo (fotografias, (www.iphan.gov.br) – adaptadas da imóveis tombados, que é delimitada com
livros, mobiliários, publicação “Tomba- objetivo de preservar a sua ambiência e
utensílios, obras de mento e Partici- impedir que novos elementos obstruam ou
arte, edifícios, flo- Preservação da memória pação Popular” do reduzam sua visibilidade”.
restas, cachoeiras, é uma demanda social tão Departamento do De acordo com o Iphan, a proteção do
etc) seja descarac- importante quanto qualquer Patrimônio Histó- patrimônio ambiental urbano está diretamente
terizado ou destruído. rico, do município vinculada à melhoria da qualidade de vida da
outra atendida pelo serviço público de São Paulo – não população, “pois a preservação da memória
Esse procedi- existe qualquer im- é uma demanda social tão importante quanto
mento pode ser feito pela União, através do pedimento para a venda, aluguel ou herança qualquer outra atendida pelo serviço público”.
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de um bem tombado. Reformas devem ser Assim, o tombamento não tem por objetivo
nacional (Iphan); pelo Governo Estadual, por previamente aprovadas pelo órgão que “congelar” a cidade. “De acordo com a
meio do Instituto Estadual do Patrimônio efetuou o tombamento. No caso de venda, Constituição Federal, tombar não significa
Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha- deve ser feita apenas uma comunicação cristalizar ou perpetuar edifícios ou áreas,
MG); ou pela administração municipal, por prévia. Na verdade, o tombamento inviabilizando toda e qualquer obra que venha
intermédio do Conselho Deliberativo estabelece limites aos direitos individuais contribuir para a melhoria da cidade.
Municipal de Patrimônio Histórico e Artístico com o objetivo de resguardar e garantir Palacete de Arthur Castro Cunha (detalhe), tombado Preservação e revitalização são ações que se
de Uberaba (Codemphau), utilizando leis direitos e interesses de conjunto da pelo município, localiza-se na pça Rui Barbosa. complementam e, juntas, podem valorizar
específicas ou a legislação federal. sociedade. Fachada descascada precisa de cuidados bens que se encontram deteriorados.”
29 de abril a 5 de maio de 2003 13
3
Patrimônio mundial
Conferências da Unesco são
instrumentos de proteção
Recomendação de Nairobi alerta sobre o perigo da uniformização arquitetônica para a diversidade cultural
André Azevedo (fevereiro de 2002)
Na 19ª Conferência da Unesco, realizada expansão ou de modernização, destruições
em Nairobi (Quênia) no ano de 1976, foi que ignoram o que destroem e reconstruções
discutida e aprovada uma carta de irracionais e inadequadas ocasionam graves
recomendações sobre a importância e a prejuízos a esse patrimônio histórico”, acusa,
função dos conjuntos históricos na vida alertando que essa destruição “provoca muitas
contemporânea. A Recomendação de Nairobi vezes perturbações sociais”.
é hoje um dos instrumentos adotados Considerando que essa situação implica
internacionalmente para a proteção do a responsabilidade de cada cidadão, e
patrimônio cultural. impondo também
O documento aos poderes pú-
registra que os con- Sob pretexto da modernização, blicos obrigações
juntos históricos destruições que ignoram o que que “só eles podem
“constituem a pre- assumir”, reco-
sença viva do destroem e reconstruções irracionais menda que os Es-
passado”, e assegu- ocasionam graves prejuízos tados devam adotar
ram a variedade ao patrimônio histórico “urgentemente uma
necessária para res- política global e
ponder à diversi- ativa de proteção e
dade da sociedade. Assim, adquirem um valor de revitalização (…) como parte do
e uma dimensão humana que vão muito além planejamento nacional, regional ou local”.
de seu mero valor imobiliário. A carta diz que Conjuntos históricos devem ser
Construções aleatórias descaracterizaram conjunto histórico do “calçadão” da rua Arthur Machado
os conjuntos históricos são “os testemunhos considerados como “patrimônio universal
mais tangíveis da riqueza e da diversidade das insubstituível” e devem ser compreendidos escala e na densidade das construções, além “uniformização dos assentamentos humanos
criações culturais, religiosas e sociais da em sua globalidade, como um todo coerente, do perigo da destruição direta dos no mundo inteiro”. Ou seja, a padronização
humanidade”. A sua salvaguarda e integração cujo equilíbrio depende de todos os elementos conjuntos históricos, existe o risco de que de técnicas estaria construindo cidades
na vida contemporânea devem ser metas que o compõem. Essa harmonia deve ser eles sejam destruídos indiretamente, também padronizadas, monolíticas,
fundamentais do planejamento territorial. respeitada. Devem ser também protegidos através da destruição da ambiência e da medíocres, sem identidade, todas iguais, feito
A recomendação de Nairobi assinala ainda “contra quaisquer deteriorações, parti- identidade histórica no entorno. A carta blocos pré-fabricados, bem ao gosto da
a preocupação perante os “perigos da cularmente as que resultam de uma utilização recomenda que que arquitetos e urbanistas cultura de massa. Daí a importância vital da
uniformização e da despersonalização que se imprópria, de acréscimos supérfluos e de se empenhem para que esses conjuntos “se salvaguarda dos conjuntos históricos, que
manifestam constantemente em nossa época”, transformações abusivas ou desprovidas de integrem harmoniosamente na vida podem “contribuir extraordinariamente para
pois os conjuntos históricos são peças sensibilidade que atentem contra sua contemporânea”. a manutenção e o desenvolvimento dos
fundamentais da identidade de cada ser autenticidade”. O maior risco nessa época de valores culturais e sociais peculiares de cada
humano e da nação em que está inserido. A recomendação regisra que, no ritmo da universalidade das técnicas construtivas e nação e para o enriquecimento arquitetônico
“No mundo inteiro, sob pretexto de urbanização moderna, com o aumento na formas arquitetônicas é provocar a do patrimônio cultural mundial”.

Patrimônio Cultural dá sentido à vida dos moradores


Oficina de Cultura realizada na Semana de Seminários ensinou noções de educação patrimonial
“A maneira mais eficaz de proteção é a Machado Rangel, superintendente de cultural. Essas realizações caracterizam a própria vivência cultural dos moradores
educação.” Essa foi uma das principais desenvolvimento e promoção do mesmo originalidade de cada população, fazem com da cidade.
conclusões da Oficina de Cultura, curso que Instituto, explicaram conceitos de educação que as pessoas se identifiquem com seu Segundo Sonia Fontoura, uma das
ocorreu de 23 a 27 de patrimonial, legislação cotidiano e estabeleçam organizadoras, Idi-
setembro de 2002 na e mecanismos oficiais ligações afetivas com a valdo e diversos ou-
Semana de Patri-
Edificações fazem com de proteção do patri- cidade. Esses bens cul-
Esses símbolos são as tros proprietários de
mônio Histórico, que as pessoas se mônio cultural para turais, repletos de signi- referências que fazem casas históricas fo-
Artístico e Cultural de identifiquem com seu estudantes, profes- ficados, são as refe- com que as comunidades ram convidados atra-
Uberaba, durante a cotidiano e estabeleçam sores e representantes rências que fazem com vés de carta para parti-
Semana de Semi- da prefeitura. que as comunidades se
se sintam participantes cipar do curso. Ne-
nários da Uniube. ligações afetivas com a cidade Para elas, o ponto sintam participantes de de sua própria história nhum deles apareceu.
Ângela Dolabela fundamental para a sua própria história, se ‘
Cânfora, coordenadora de inventários do efetiva preservação da cidade é o despertar percebam integrados na vida de seu
Instituto Estadual de Patrimônio Histórico da consciência histórica dos próprios município. Daí o sentido da conservação. Leia a reportagem inteira sobre o curso:
de Minas Gerais (Iepha-MG), e Marília moradores para o sentido de seu patrimônio O que se pretende preservar, portanto, é a http://intermega.com.br/andreazevedo
14 29 de abril a 5 de maio de 2003
Patrimônio mundial

Cidade é documento histórico


Carta de Washington propaga noção de que toda cidade é histórica. Edificações são como páginas em um livro aberto
André Azevedo (fevereiro de 2002)
O Conselho Internacional da Monumentos histórico da cidade devem ser combatidas. “A
e Sítios (Icomos) redigiu, em 1986, na cidade participação e o comprometimento dos
de Washington (EUA), a Carta Internacional habitantes da cidade são indispensáveis ao
para a Salvaguarda das Cidades Históricas, – êxito da salvaguarda e devem ser estimulados”.
ou Carta de Washington. Neste documento, o A carta assinala que não se deve esquecer que
Icomos traz definições muito importantes para a preservação do patrimônio cultural “diz
compreender a questão do patrimônio cultural respeito primeiramente a seus habitantes”.
em uma sociedade. Para assegurar a participação e o
“Resultantes de um desenvolvimento mais envolvimento dos habitantes, a carta
ou menos espontâneo ou de um projeto recomenda que sejam efetuados programas
deliberado, todas as cidades do mundo são de informação e educação ainda nos primeiros
expressões materiais da diversidade das anos escolares. Para o Icomos, é fundamental
sociedades através da história e são todas, por o estímulo às pesquisas urbanas e incentivo à
essa razão, históricas”, registra. Isso significa divulgação do resultados para um melhor
que não tem mais sentido dizer que apenas conhecimento do passado das cidades.
este ou aquele município é considerado O Icomos esclarece que um dos objetivos
“cidade histórica”, pois todas as cidades são fundamentais da salvaguarda é a melhoria do
históricas, na medida em que todas se habitat humano. Escreve que as novas
desenvolveram a partir da ação humana e construções e acréscimos devem respeitar a
todas deixaram um legado para a posteridade. Placas, letreiros, cartazes, pintura e reformas inadequadas descaracterizaram casarão localizado na rua organização espacial existente na cidade. “A
A idéia da cidade como documento Arthur Machado. Revitalização histórica poderia ser um atrativo para os pontos comerciais lá instalados introdução de elementos de caráter
histórico é uma decorrência desta noção. Cada deterioração e até mesmo de destruição sob o Princípios e objetivos contemporâneo, desde que não perturbe a
edificação exprime os valores de determinada efeito de um tipo de urbanização nascido na A carta recomenda que a salvaguarda das harmonia do conjunto, pode contribuir para
época. É possível “ler” na arquitetura das era industrial e que hoje cidades e bairros histó- o seu enriquecimento”.
casas informações capazes de decifrar o atinge universalmente ricos deve ser parte essen- Este documento também orienta que “a
estado de espírito do tempo em que foram todas as sociedades”. O Salvaguarda de bairros cial de uma “política circulação de veículos deve ser estritamente
construídas. Portanto, essas edificações na texto define princípios históricos deve ser parte coerente de desenvol- regulamentada” e as áreas de estacionamento
paisagem da cidade são como páginas em um e métodos de ação para essencial de uma política vimento econômico e devem ser “planejadas de maneira que não
livro aberto, cuja função é, entre outras, fazer garantir a qualidade das degradem seu aspecto nem o do seu entorno”.
com que os habitantes percebam, em seu cidades históricas e
coerente de desenvolvimento social”, capaz de promo-
ver a adaptação harmo- Além disso, diz que o poder público deve
cotidiano, que são sujeitos históricos. perpetuar o conjunto de econômico e social niosa desses conjuntos de favorecer a ação de associações de
A carta registra ainda que, atualmente, bens que, “mesmo edificações históricas à preservação e tomar “medidas de caráter
muitas dessas casas/documentos históricos modestos, constituem a memória da hu- vida contemporânea. As ameaças que possam financeiro para assegurar a conservação e a
“estão sendo ameaçadas de degradação, de manidade”. comprometer a autenticidade do caráter restauração das edificações existentes”.

Teste de autenticidade desafiou pensamento tradicional


Carta de Nara discute papel do patrimônio cultural no contexto da globalização
A Conferência sobre autenticidade em nacionalismo agressivo e da supressão da A carta de Nara afirma que equilibrar a patrimônio cultural depende da atribuição de
relação a convenção do patrimônio mundial cultura das minorias”, a principal contribuição expressividade da cultura local com a riquezasentido conferida pelo grupo humano para
– Conferência de Nara (Japão, 1994) – buscou do patrimônio cultural é “clarificar e iluminar da cultura global é extremamente desejável, adquirir valor. E esses valores são sólidos
desafiar o pensamento tradicional a respeito a memória coletiva da humanidade”. “desde que, ao alcançar este equilíbrio, não quando a pesquisa e o levantamento histórico
da conservação e A diversidade de abra mão de seus próprios são confiáveis.
debater caminhos culturas é vista valores culturais”. Daí a importância
para promover um
A diversidade de culturas é uma como uma insubsti-
Patrimônio cultural depende que a Carta concede ao
maior respeito à insubstituível fonte de informações tuível fonte de infor- Autenticidade da atribuição de sentido “conhecimento e a
diversidade. Um a respeito da riqueza espiritual e mações a respeito A Carta explica que a conferida pelo grupo compreensão dos le-
dos objetivos foi intelectual da humanidade da riqueza espiritual conservação do patri- vantamentos de dados
discutir o “teste de e intelectual da mônio cultural de um
humano para adquirir valor a respeito da origina-
autenticidade” para humanidade. “A povo está fundamentada lidade dos bens, assim
examinar o valor universal atribuído aos bens proteção e valorização da diversidade cultural nos valores atribuídos aos bens que se como de suas transformações ao longo do
culturais listados pelo Patrimônio Mundial. e patrimonial no nosso mundo deveria ser deseja proteger. “Nossa capacidade de t e m p o ” . P a r a s e c e r t i f i c a r d a a u -
De acordo com a carta, “num mundo que ativamente promovida como um aspecto aceitar esses valores depende, em parte, do tenticidade do patrimônio cultural, é
se encontra cada dia mais submetido às forças essencial ao desenvolvimento humano”. grau de confiabilidade conferido ao trabalho necessário, portanto, conhecer o histórico
da globalização e da homogeneização, e onde Um dos princípios fundamentais da de levantamento de fontes e informações a d o b e m c u l t u r a l , a s s i m c o m o a s
a busca de uma identidade cultural é, algumas Unesco é considerar o patrimônio cultural de respeito destes bens”. Isso quer dizer que, transformações de seu significado na
vezes, perseguida através da afirmação de um cada um como patrimônio de todo o planeta. enquanto representação simbólica, o história.
29 de abril a 5 de maio de 2003 15
3
Lex, sed lex!
Legislação municipal assegura
preservação da identidade
Vocação histórica da cidade é objetivo prioritário na Lei Orgânica do Município Leonardo Boloni

A Lei Orgânica do Município trata, em


diversos momentos, dos deveres do poder
público em relação ao patrimônio cultural da
cidade. Ainda nas disposições preliminares,
a lei determina que é objetivo prioritário do
poder público “assegurar a permanência da
cidade, enquanto espaço viável e de vocação
histórica, que possibilite o efetivo exercício
da cidadania”. Além disso, diz que a
identidade deve ser preservada, “adequando
as exigências do desenvolvimento à
preservação de sua memória, tradição e
peculiaridades”. A lei também estabelece que
o município deve “aprofundar sua vocação
de centro aglutinador e irradiador da cultura
regional e nacional”. Priorizar as demandas
sociais – educação, moradia, lazer, etc – e
proporcionar a justiça social e o bem comum
também estão entre as principais responsabi-
lidades do poder público.
No artigo 149 da seção VII – que define
as responsabilidades da administração em
relação à cultura – a lei determina que “o
acesso aos bens da cultura e às condições
objetivas para produzi-la é direito do cidadão
e dos grupos sociais”. A lei estabelece que o
poder público deve incentivar, de forma Conjunto de casas localizadas na rua Olegário Maciel são exemplo de preservação. Cores e placas comerciais discretas respeitam arquitetura original
democrática, os diferentes tipos de
manifestação cultural existentes no recursos junto a órgãos e empresas, para a
município. mobilização e execução das ações culturais”.
No parágrafo 5º, está definido que Além disso, a lei permite que sejam adotados
Regras estabelecem
“constituem patrimônio cultural do Município “incentivos fiscais para as empresas de caráter
os bens de natureza
material e imaterial,
privado que desejarem
contribuir para a
crescimento ordenado
Os recursos ao tombamento e à patrimônio cultural. Deve também definir,
tomados individual-
Lei permite que sejam produção artístico- desapropriação (por interesse social, entre os perímetros especiais de urbanização,
mente ou em conjunto, adotados incentivos fiscais cultural e na preser- necessidade ou utilidade pública) na as áreas restritas onde a ocupação deve ser
que contenham grupos para empresas que desejarem vação e recuperação do formulação do planejamento urbano são desestimulada ou contida em decorrência de
formadores do Povo contribuir na preservação patrimônio histórico do instrumentos assegurados na Lei Orgânica do “necessidade de proteção ambiental e de
uberabense”. No pará- Município”. A lei esta- Município. No capítulo da Ordem Econômica, preservação do patrimônio histórico, artís-
grafo 6º, determina-se belece também que o a lei determina que o objetivo da política tico, cultural, arqueo-lógico e paisagístico”.
que o município, com a colaboração da poder público tem o dever de assegurar, “junto urbana executada pelo
comunidade, “promoverá e protegerá, por aos órgãos públicos dos Poderes Legislativo poder público é pro- Turismo
mover o “pleno desen- Turismo deve ser incentivado e A lei estabelece
meio de plano permanente, o patrimônio Executivo e Judiciário, uma política de
histórico e cultural, através de inventários, preservação e recuperação do conjunto volvimento das fun- reconhecido como forma de que o município deve
ções sociais da cidade e apoiar e incentivar o
pesquisas, registros, vigilância, tombamen- documental, com vistas a garantir sua integridade,
a garantia do bem-estar
desenvolvimento social e cultural turismo como ativi-
tos, desapropriação e para o resgate e con-
de sua população”. dade econômica, “re-
outras formas de acau- servação da história e
telamento e preser- Identidade deve ser A lei estabelece que, na promoção do conhecendo-o como forma de promoção e
da memória cultural do desenvolvimento urbano, devem ser desenvolvimentos social e cultural”. Cabe ao
vação.” preservada, adequando as Município de Ube- observados, entre outras coisas, a “ordenação poder público definir a política municipal de
No artigo 152, exigências do desenvolvimento raba.” do crescimento da cidade”, a “contenção de turismo, devendo, entre outras coisas,
parágrafo 3º, a lei O arquivo da Lei excessiva concentração urbana” e a “proteção, “proteger o patrimônio ecológico e
estabelece que, para
à preservação da memória Orgânica do Muni- preservação e recuperação do meio ambiente, histórico-cultural e incentivar o turismo
promover o acesso aos cípio está disponível do patrimônio histórico, cultural, artístico e social”, assim como “promover a
bens culturais, cabe ao poder público a na Internet e pode ser baixado através do arqueológico”. conscientização do público para a
iniciativa de “promover a articulação entre o endereço: O Plano Diretor deve conter objetivos preservação e difusão dos recursos naturais
Estado e a União, como objetivo de captar http://www.uberaba.mg.gov.br/controladoria estratégicos e diretrizes de preservação ao e do turismo”.

16 29 de abril a 5 de maio de 2003


arquivo Eliane Mendonça
Economia da contemplação

“Temos que voltar


a interpretar”
O que fizeram
com Uberaba?
O que aconteceu?

Sociólogo analisa importância econômica do turismo


e compara o patrimônio cultural ao rio de Heráclito
O sociólogo Luís Sérgio Lopes está Há uma legislação rigorisíssima sobre a no século XVI, XVII,
concluindo o doutorado em Filosofia pela ocupação do espaço em Paris. E vale a pena XVIII. Praticamente foi
Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais,
destacar que talvez uma de suas maiores o movimento artístico
em Paris, e esteve por três anos morando nareceitas, hoje, seja o turismo. Então, quando do século XIX que
França. Em 2003, voltou ao Brasil e veio dar
você chega de um lugar superdesenvolvido, influenciou nosso
aulas de Sociologia e Filosofia na Uniube. – que têm a tradição de preservar seu meio movimento artístico.
Em entrevista ao Revelação, Luís Sérgiopaisagístico, arquitetônico – chega no Brasil Então, a gente não
declarou sua admiração à exuberância da e vê a falta de cuidado que a gente tem ao se reconhece, a gente
arquitetura de Uberaba do começo do século querer ser desenvolvido… não quer reconhecer a
– quando pôde observar um painel de Em Uberaba você tem a impressão de que nossa cara, não quer
fotografias antigas em um supermercado – mas
os caras quiseram ser desenvolvidos! Sei lá saber dos nossos passos
também seu espanto ao verificar que aquela quem foram os responsáveis, se foram fazen- dados, a gente não quer
cidade belíssima já foi toda destruída. “Quem
deiros, governantes que transformaram a se identificar em fotos
são os responsáveis por evitar que Uberaba,cidade em caixas sem graça. Acabaram com antigas. É uma vontade
hoje, seja uma cidade turística?”, desafia.a cara da cidade com a idéia de modernizar, de negar a nossa
enquanto que os países superdesenvolvidos identidade, talvez isso
Revelação: mantêm a sua estrutura. explique. Vontade de Cine São Luís, em foto da primeira metade do século XX
Quando você viu Tem museus medievais querer parecer o que a
aquele mural de fotos Se você destrói o patrimônio no centro de Paris, gente não é. E é uma coisa louca. Se ao mesmo Então a contemplação ficou durante muito
antigas, o que lhe histórico, você destrói praças medievais no tempo você tem Ouro Preto, que mantém essa tempo desfalcada – é pecado, é crime con-
ocorreu? essa possibilidade de centro de Paris! tradição, por que Uberaba não mantém? Essa templar, temos que mudar constantemente!
Luís Sérgio Lopes: é a questão. Essa febre prática, da filosofia prática de
Tem um supermercado ver as coisas passarem Revelação: De querer transformar as coisas, hoje em dia não
aqui próximo à univer- onde vem essa idéia Revelação: Por que se deve resolve muito. Nós temos que voltar a
sidade, e tem um painel inteiro lá, ocupando de que para desenvolver tem que preservar o patrimônio histórico? interpretar, e para interpretar… você tem um
praticamente toda aquela parte frontal, com destruir sua memória? Luís Sérgio: Existem dois motivos. Um pequeno rio que passa na cidade, se mantiver
fotos antigas de Uberaba. Eu fiquei Luís Sérgio: A gente pode dizer que a motivo cultural e um motivo – que a gente é esse rio, você vai observar pessoas simples,
espantado! Uberaba é tão bonita assim, e idéia de desenvolver e civilizar é sempre um obrigado a considerar – é o econômico, em sem salário, sem dinheiro, sem casa, e
ninguém sabe? desafio contra tudo que lembra a natureza, função do turismo. Porque o turismo é uma mesmo assim elas vão à beira do rio olhar o
A Uberaba que você vê hoje é uma contra tudo que lembra o antigo. A partir do atividade que tem tudo de auto- rio passar.
Uberaba sem forma, sem um patrimônio mundo moderno, existe uma tentação olím- sustentabilidade. Aquela economia predadora Heráclito já dizia, no século VI antes de
histórico definido, uma cara definida. Então pica de destruir tudo que se parece com o mais dos direitos individuais, da exploração do Cristo, que nós não entramos duas vezes no
eu virei a cabeça e, pôxa… Até conversei com antigo possível. A idéia de modernidade trabalho humano, ela hoje pode se deslocar mesmo rio. O rio que passa dentro de uma
alguém que estava no supermercado: o que aparece como uma febre. para uma exploração da contemplação. cidade dá a idéia de movimento. Essa idéia
fizeram com Uberaba? O que aconteceu? É claro que na Europa essa febre tinha A idéia de contemplar bate de frente com de passagem, que as pessoas que vivem em
Quem acabou com Uberaba? Quem foram os determinados controles, porque quando a a idéia da prática, da tal da praxis, que a gente uma vida miserável, mesmo essas pessoas
responsáveis pela destruição dessa fachada modernidade aparece a Europa já tinha um herda do mundo moderno. A idéia de têm um espírito que consegue apreciar o rio,
arquitetural de Uberaba? Ao mesmo tempo, acúmulo de espiritualidade, de artisticidade transformar tudo que está ao seu redor. Então e através disso elas estão querendo dizer
quem é o responsável por evitar que Uberaba, – enfim, obras – então não era fácil você pen- essa idéia econômica que está colocada no alguma coisa.
hoje, seja uma cidade turística? Imagine o sar em destruir sim- turismo parece que Já estive em Rio Branco, no Acre, em
prejuízo que tem Uberaba, por causa do que plesmente o antigo. se alia com essa uma cidade que não tem um patrimônio
fizeram com a cidade. Assim as coisas se idéia de contem- histórico, mas tem um rio, barrento, que
preservaram.
Acabaram com a cara da cidade plação do patri- passa, e você observa pessoas que chegam
Revelação: O que significa morar em Agora, no Bra- com a idéia de modernizar, mônio cultural. Aí, da floresta e ficam vendo o rio passar,
uma cidade que, como Paris, preserva sil, nós não tínha- enquanto que países desenvolvidos a economia e a namorando e tal. Então o patrimônio
o patrimônio cultural? mos essa tradição cultura conseguem histórico tem algo de rio também, porque é
Luís Sérgio: Em Paris você está, ao artística. Essa idéia
mantêm a sua estrutura dialogar melhor, algo que passou, e algo que passou te leva
mesmo tempo, na capital mundial – de modernidade porque estimular a a algo que poderá vir também. Então se
praticamente todos os povos da Europa afluem veio deturpada. contemplação de você destrói o patrimônio histórico, você
para Paris, todos vão a Paris – e apesar de ser o Então tudo que é antigo, que é indígena, que prédios, a contemplação de rios, é um destrói essa possibilidade de ver as coisas
centro mundial, considerada a capital do é afro, é algo que lembra a natureza. E se é paradigma diferente de se relacionar com o passarem. Essa idéia de contemplar o
mundo hoje, é uma cidade onde os prédios têm algo que lembra a natureza, é algo que se opõe objeto, de se relacionar com a natureza. movimento, essa idéia de rio, de Heráclito,
baixa estatura, existe uma legislação muito à idéia de civilização. A dicotomia dos Contemplar, até um tempo atrás, era pecado! pode ser transferida para indicar essa
rigorosa para que eles não tenham determi- trópicos parece que foi muito mal trabalhada. Na época, por exemplo, das transformações importância do patrimônio histórico. Essa
nadas dimensões. E são prédios antiquíssimos, Quem é que iria dizer que ia proteger? Nós sociais, Marx já havia dito que nós estamos contemplação faz parte da construção do
que mantém a Paris dos séculos anteriores. não tínhamos uma arte muito desenvolvida aí para transformar, e não para interpretar. seu espírito.
29 de abril a 5 de maio de 2003 segue
17
3
fotos: André Azevedo
Reviravolta
A um passo da
destruição
Mandado de segurança abriu outra frente de
batalha e garantiu licença para a demolição
Uma outra frente de batalha, ao lado do um cômodo anexo, deixando entender que era
processo administrativo, havia sido aberta parte do imóvel.
para forçar a demolição do palacete de O processo segue afirmando que essa
Antônio Pedro Naves. No dia 7 de outubro proibição evidenciava uma postura ilegal e
Idivaldo entrara com um mandado de afrontosa, que ocasionaria “grave lesão” ao
segurança, no Fórum Melo Viana, contra o direito líquido e certo do proprietário, que se
secretário de obras, Osório Guimarães. O viu prejudicado no “constitucional direito de
objetivo era conseguir uma “tutela judicial propriedade”. Alega que a negativa não se
autorizativa de demolição”, já que seu alvará amparava na lei, nem em regras adminis-
fora barrado na trativas, e que não
Secretaria de havia motivo para
Obras, devido ao Para os advogados, a hesitação impedir a “lícita
impedimento do vinda da própria autoridade que pretenção (sic) do
Codemphau. proprietário,
Quem cuidou do impunha o tombamento tinha razão de quanto ao uso e
caso foi a juíza da ser, pois o prédio estaria, de fato, em gozo plenos da
3º Vara Cível, iminente “risco de desabamento” propriedade”.
Régia Ferreira de Explica que, até
Lima. Sonia Fon- aquele momento,
toura, assessora do Codemphau, ficou não havia um decreto, mas apenas uma ata
sabendo do processo através de uma nota no de uma reunião do Conselho, do início de
coluna Em Tempo, do jornalista Racib Idaló, 2000, decidindo pelo tombamento. Afirma
no Jornal de Uberaba. A Fundação Cultural também que o procurador redigiu seu parecer
não havia sido citada no mandado de “pensando cegamente na defesa de supostos
segurança. interesses públicos”, mas ignorando a vontade
Nesta ação, os advogados explicam que de Idivaldo, que além de não ter interesse
Idivaldo postulara o pedido de demolição do algum na reforma do palacete, também não
imóvel “que apresenta sérios riscos em sua possuía os “valores avultantes para essa
solidez”, mas que a Fundação Cultural foi fantasiosa reforma, que seria mais uma
contrária, “sob o pretexto de que o prédio reconstrução”.
estaria em processo de tombamento”. Os advogados argumentam que a reforma
Afirmam que engenheiros da Secretaria de do palacete “não merece aquele enfoque
Obras – incluindo o próprio Osório público”, porque o prédio fora descarac- Na sequência, palacete um dia antes de ser demolido; no dia seguinte
Guimarães – verificaram “as péssimas terizado e estava “basicamente em ruínas”. à investida do guindaste; e o terreno vazio em foto de 24 de abril de 2003
condições estruturais e de Além disso, alegam que a
solidez do prédio”, assim “malsinada reforma” não se atitude impõe restrição ao direito de A seguir, mais uma vez, citam o laudo dos
como sua descaracterização Construtora avaliou mostrava tecnicamente propriedade sem a adoção das “mais mínimas bombeiros e anexam fotos do cômodo anexo
arquitetônica. (No entanto, os custos da reforma viável e que “questões eco- cautelas” para resguardar o interesse público destelhado que, segundo eles, “comprovam
em entrevista ao Revelação, em aproximadamente nômicas conspiram contra na preservação. Assim, acusam a Prefeitura de essa situação de ruína do prédio”, e a
o secretário de obras essa medida”, tornando a não planejar um orçamento específico para “inviabilidade da reforma”. Ao mesmo tempo,
afirmou que não foi R$ 180 mil restauração “impraticável essas “urgentes reformas”. Por tudo isso, defendem que a única solução seria construir
pessoalmente ao local na financeiramente”. Neste alegam que o poder público não teria o direito um novo prédio. Essa associação entre o
vistoria) Citam trechos da avaliação da momento, citam um levantamento feito pela de dar “esse tipo de tratamento ao proprietário”. desabamento parcial do cômodo anexo e as
Secretaria de Obras, registrando que a Construtora Costa Ferreira Ltda, que avalia Para reforçar essas acusações, transcrevem condições estruturais do palacete em si foram
edificação não era dotada de arcabouços os custos da reforma em aproximadamente aquelas declarações de José Thomaz e Osório exaustivamente exploradas e, como se verá,
estruturais, laje, e todos aqueles problemas R$180 mil. Depois disso, fazem comentários Guimarães, registradas em uma FID que surtiram efeito.
exaustivamente colocados nos laudos em torno do relatório da Esape, argumentando circulara de 3 a 6 de setembro, quando constatam Por fim, os advogados consideraram um
anteriores (irregularidades na alvenaria e “consequente risco de ruína” e “incon- a “necessidade imperiosa” e urgente de reforma, “ridículo absurdo” a situação colocada pela
instalações elétricas e hidráulicas; janelas e veniência” da reforma. ao mesmo tempo em que não se responsabilizam administração pública perante um imóvel que
portas que não atendiam às normas atuais de Os advogados acusam a administração pela “manutenção da solidez da obra”. Nesse teve “parte destruída em razão de
iluminação e ventilação, etc). Citam também pública de colocar o proprietário “em estado momento, os advogados ironizam, afirmando desabamento” devido à chuva, colocando em
a demolição parcial devido a “chuvas e de dúvida e incerteza, uma vez que, de uma que essa hesitação – vinda da própria autoridade risco pedestres e veículos, cujo “estado
vendavais” do cômodo de “+ ou - 30m2” opinião de ‘idealistas’, há quase três anos, até que impunha o tombamento – tinha razão de crítico” estaria devidamente reconhecido pela
(Nota: o laudo dos bombeiros mencionava o momento, não se chegou a qualquer ato ser, pois o prédio estaria, de fato, em “iminente perícia do Esape; pelo Codemphau, através
15m2), mas não informou que se tratava de concreto de tombamento”. Para eles, essa risco de desabamento”. de seu presidente, José Thomaz; pela
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Secretaria de Obras; e finalmente, pelo Corpo licença para demolir o prédio e explicando é incluída. Além disso, aquele ofício requeria Sentença
de Bombeiros. Assim, chamam de uma que a Procuradoria recomendara rejeitar o cópias dos documentos, pois logo entraria No relatório da sentença, a juíza registra
“sinuca” o fato de o proprietário ter em seu pedido porque a edificação estava nessa história um personagem do Ministério a posição de Idivaldo, relatando que “no
imóvel um processo de tombamento, no qual provisoriamente tombada e, segundo o Público que desempenhará um papel muito exercício do direito de propriedade e por força
o próprio órgão emanador do pedido Codemphau, tinha condições de ser importante, como veremos mais à frente. de interesse e conveniência” postulara a
reconhece o risco iminente de desabamento recuperada. Reafirmou “preocupação quanto No dia 2 de dezembro, a promotora de demolição do prédio “que apresenta riscos em
e, por sua vez, não possui recursos para ao estado físico do prédio”, registrando que justiça Sandra Maria da Silva envia outro sua solidez”. Fala do indeferimento por causa
restaurá-lo. O proprietário, por sua vez, precisava de “urgentes providências ofício, afirmando que, pelo que estudara nos do processo de tombamento, e das “péssimas
declarava não ter condições nem interesse restauradoras” para garantir sua segurança. autos, não se encontrava “direito líquido e condições estruturais e de solidez do prédio”,
para restaurá-lo, “e muito menos vigiá-lo”, e Informa também que o motivo do certo” para que o proprietário pudesse demolir assim como a descaracterização atestada por
que desejava demoli-lo “para evitar danos a tombamento poderia ser explicado à exaustão o palacete, pois existia o processo de engenheiros e pela Secretaria de Obras.
terceiros”. pelo “lúcido parecer” do conselheiro Alaor tombamento e a recuperação era possível. Menciona a alegação do direito líquido e
Depois disso tudo, alegando então que havia Ribeiro, capaz de oferecer todas os Para a promotora, fazia-se necessária a certo, assim como a postura ilegal e afrontosa
ameaça ao direito e abuso de esclarecimentos neces- realização de uma “prova do impedimento. Além
poder, requeriam a concessão sários à Justiça. (O parecer pericial” para verificar o disso, acrescenta que, no
de uma liminar determinando Secretário de obras é anexado ao ofício.) Osório estado do imóvel e a conve- Promotora queria entendimento de Idivaldo,
que o secretário de obras reafirmou preocupação Guimarães conclui que o niência ou não do tomba- realização de uma o tombamento não era real,
fornecesse o alvará para que indeferimento foi um ato mento, e essa perícia não
quanto ao estado perícia para verificar pois não havia decreto do
Idivaldo procedesse “imediata “prudente, cauteloso, abso- estava prevista no mandado chefe do executivo, mas
demolição”. físico do prédio lutamente legal e entre- de segurança. Assim, solicita o estado do imóvel somente uma ata, assinada
No dia 1º de novembro meado a interesses públicos que a juíza não conceda a em 2000, onde os conse-
de 2002 um oficial de justiça entregou o ofício preponderantes, ante a complexidade” da liminar. Além disso, requer que cópias lheiros “que não têm poder para a prática do
de mandado de segurança ao secretário de situação. d o p r o c e s s o s e j a m r e m e t i d a s a o ato opinaram no sentido de tombar o imóvel”.
obras, Osório Joaquim Guimarães Neto, com No dia 20 de novembro é a Promotoria de Promotor Especializado em Defesa do Aponta também que o prédio fora descarac-
as cópias dos documentos da ação impetrada Justiça que envia um ofício à juíza, P a t r i m ô n i o H i s t ó r i c o e C u l t u r a l , terizado, “está em ruínas” e “não se mostra
contra ele, dando prazo de 10 dias para que salientando que Idivaldo era co-proprietário Emmanuel Aparecido Carapurnala, para viável a reformas”, pois o proprietário teria
fornecesse as informações necessárias. sub judice, uma vez que era casado em q u e e l e t o m e a s p r o v i d ê n c i a s q u e que desembolsar por volta de 180 mil para
No dia 11, Osório Guimarães prestou comunhão de bens. Para isso, pedia a inclusão entender pertinentes. restaurá-lo. Assinala ainda a existência de
informações à juíza Régia Ferreira, de sua esposa, Maria José dos Reis Guarato Mas não houve muito tempo para isso. No laudos comprovando risco iminente de
confirmando que Idivaldo havia requerido a Afonso, no processo. Já no dia 25, Maria José dia 9 de dezembro sai a sentença fatal. desabamento. segue

Osório Guimarães Marcondes Nunes


“A responsabilidade é grande!” “Palacete estava
Secretário de obras justifica receio em garantir integridade física do palaceteAndré Azevedo
O secretário municipal de obras, Osório Revelação: Enquanto secretário de
sólido”
Joaquim Guimarães Neto, concedeu uma obras, o que diria sobre o patrimônio Em entrevista por telefone ao Revelação na
entrevista ao Revelação na tarde de 24 de cultural da cidade? tarde de 26 de abril, o arquiteto e ex-conselheiro
abril. Ao contrário da afirmação dos Osório: A gente é por preservar, isso não do Codemphau, Marcondes Nunes Freitas,
advogados de Idivaldo no mandado de tem dúvida. Agora, tem o outro lado também: insistiu que o prédio estava em perfeitas
segurança, ele disse que não compareceu tem que ter uma forma de ajudar na condições de estrutura e solidez. “Inclusive, tem
pessoalmente na vistoria que engenheiros da preservação. O proprietário fica com aquele um documento assinado por nós, provando
secretaria de obras realizaram no palacete. negócio ali, ele é obrigado a preservar, e o isso”. Para ele, o palacete não estava, “de forma
Leia os trechos principais da entrevista que ele lucra daquilo lá? Isso é nenhuma”, em risco de desabamento. “Tanto
gravada em seu importante, tem que que precisou de guindaste pra jogar no chão. Se
escritório. ouvir os lados. Você fosse mesmo assim tão frágil, bastava um trator,
Você vê aquelas favelas em vê, Ouro Preto, uma pá, uma carregadeira”.
Revelação: Ha- Belo Horizonte, estão procurando agora, pegou fogo. Marcondes afirmou que, antes de ter
via risco de desmo- Eu morei em Itabira realizado o laudo, a secretaria de obras deveria
um engenheiro que falou que
ronamento no pa- – não sei se você ter entrado em contato com o Codemphau,
lacete? o barraco não ia cair... conhece lá – na visto que o conselho já havia feito uma vistoria
Osório Guima- época que eu morei técnica. “Ele tinha que tomar conhecimento de
rães: Havia rachaduras nas paredes… lá, uma casa dessas pegou fogo. Mas por como estava o processo, e não tomar a
isso aí… vou te falar um negócio, é que pegou fogo? Eram as herdeiras, e elas iniciativa de forma independente.” Para
difícil… vamos dizer, um engenheiro deixaram as portas abertas, e os sujeitos Marcondes, isso demonstra a falta de contado
desses nossos aqui, vai lá e fala: não, i a m l á , e s q u e n t a r m a r m i t a , f a z e r entre os órgãos municipais.
aquilo lá não vai cair. O cara tem um risco besteira… e pegou fogo. Era o que elas O arquiteto contesta o exemplo da favela
danado de falar isso! Você vê aquelas queriam mesmo. Elas não conseguiriam em Belo Horizonte, citado por Osório, para
Osório Guimarães diz que há casos de proprietá-
f a v e l a s e m B e l o H o r i z o n t e , e s t ã o nunca uma autorização para derrubar justificar o receio em garantir a solidez do
rios que provocam acidentes de propósito
procurando um engenheiro lá que falou aquilo. prédio. “São duas situações totalmente distintas.
que não ia cair. Morreu quanta gente lá? Uma é questão de solo, outra da própria
É difícil. Normalmente o engenheiro Revelação: Podemos dizer que há que está lá. Nós fizemos uma no- estabilidade do edifício. No caso de BH, o solo
alerta: olha, a situação está crítica. Se cai, uma estratégia deliberada? tificação para o proprietário, pra ele era frágil, não havia solidez na encosta, havia
mandam o cara pra cadeia. A Osório: Muitas vezes. Tem uma na procurar pelo menos preservar a inte- forte infiltração, falta de escoamento. No caso
responsabilidade é grande. Vigário Silva, você precisa ver como é gridade daquilo lá. do palacete, não tem nada disso!”
29 de abril a 5 de maio de 2003 19
3
fotos: André Azevedo
Na referência à posição da Secretaria de tombando o imóvel”, mas “apenas um
Obras, assinala que, para Osório, o parecer” do Codemphau, juntamente com a
indeferimento foi baseado em parecer da ata da reunião do Conselho, datada de 9 de
Procuradoria, pois o prédio podia ser fevereiro de 2000. Ela entendeu que a abertura
recuperado e, além disso, estava provisoria- do processo de tombamento através do órgão
mente tombado. Aponta ainda que, com as competente asseguraria a preservação até
informações, o secretário juntara “apenas” um decisão final, que deveria ser tomada dentro
parecer do conselho. de 60 dias – “É o que se denomina
Não houve qualquer menção ao texto tombamento provisório, cujos efeitos são
desse parecer – que explicava, por exemplo, equiparados aos do tombamento definitivo”,
o fato de o cômodo destelhado não fazer parte assinalou. Em seguida, argumentou que “esse
do palacete; além de apresentar o laudo tombamento provisório não pode ser
certificando a solidez do prédio e mostrar que, protelado além do prazo legal, sob pena de
com a notificação da a omissão ou retarda-
co-proprietária, o pro- mento transformar-se
cesso havia iniciado “É fundamental investir na em abuso de poder,
nova fase. Da mesma reforma um imóvel, que corrigível por via
forma, não houve judicial”. No seu enten-
sequer uma alusão à
não poderá de forma alguma dimento, portanto, se a
importância histórica, servir ao comércio?” reunião do conselho se
artística e cultural da deu em 9 de fevereiro de
edificação para a preservação da memória da 2000, o prazo legal do tombamento provisório
cidade. já estava esgotado há tempos, protelá-lo era
No decorrer da fundamentação da abuso de poder e, portanto, havia espaço para
sentença, a juíza faz um resumo da o mandado de segurança.
argumentação do proprietário, evocando Neste ponto, no entanto, há dois
riscos na solidez do prédio, “atestado esclarecimentos importantes a fazer. Para isso,
inclusive pela secretaria de obras”. Registra convém primeiro reproduzir o artigo 10º do
que Idivaldo provara a propriedade do imóvel, decreto-lei nº 25, que organiza a proteção do
mas “nada foi juntado com relação ao dito patrimônio histórico nacional:
Tombamento provisório”, a não ser a
indicação pelo conselho em 9 de fevereiro de Artigo 10º - O tombamento dos bens
2000. Fala da estimativa do orçamento da (…) será considerado provisório ou
definitivo, conforme esteja o respectivo
reforma e do laudo técnico do “Sr. Perito que processo iniciado pela notificação ou Palacete São Luís (Palácio do Bispo), na rua São Sebastião,
presta serviços ao Judiciário”. Diz que os concluído pela inscrição dos referidos bens é um dos 11 bens imóveis, dentro da cidade, tombados pelo município
riscos apresentados no laudo, assim como as no competente Livro do Tombo.
fotografias, “não foram contestados” nas o tombamento deveria ter-se dado a, no anos para adquirir o imóvel.
informações. Falou da falta de orçamento do Fica claro portanto que, de acordo com máximo, 90 dias da publicação no Porta-Voz A seguir, melhor do que qualquer
poder público para restaurar o prédio, ao a lei, a data do início do tombamento (15 para a eventual impugnação, mais 15 para descrição jornalística, é mais esclarecedor
mesmo tempo em que este admitia a provisório não se dá com a ata da reunião, a defesa do tombamento e 60 para a decisão reproduzir um trecho da sentença, para
necessidade urgente de reforma e não assumia mas é marcada a partir da notificação do final), ou seja, até o dia 24 de outubro de 2002. mostrar o raciocínio da juíza Régia Ferreira
qualquer responsabilidade pela segurança. proprietário. Idivaldo fora notificado no dia No entanto, no decorrer dessa pendenga, em relação ao patrimônio cultural da cidade.
Logo mais, citou também o laudo dos 11 de abril de 2002. A co-proprietária em 26 ocorreram fatos não previstos – como a
Bombeiros. de julho do mesmo ano. necessidade de nomeação da curadora para a (…) “Questiono é fundamental investir em
Em sua análise, a juíza acata a idéia de A outra questão é em relação aos períodos co-proprietária ausente – fazendo com que o reformar um imóvel, que não poderá de forma
que o tombamento “não é real”, pois não fora legais. Seguindo rigidamente os prazos, conselho concedesse prazos extras. Mas essa alguma servir ao comércio?
apresentado o “decreto do executivo partindo da notificação de Maria de Lourdes, questão merece mais discussão jurídica. Para O autor já alegou que não possui R$200
o Iphan, como dito anteriormente, não mil reais para gastar em reformas, a Fundação
Cultural não tem
existem prazos de-
interesse em reformar e
terminados para a
deliberação final de
“Pedido de demolição é cabível e não possui orçamento,
a Prefeitura não tem
um processo de previsto até mesmo em prédios dotação orçamentária
tombamento, pois tombados em caráter definitivo, para esse tipo de
cada caso demanda
quando existe o risco iminente à reforma e também não
se responsabiliza pela
um prazo diferen-
ciado. O promotor segurança dos transeuntes” segurança do imóvel.
E m m a n u e l Novamente
questiono: O que é mais
Carapurnala também entende de forma
primordial para uma sociedade, ter
diferente. (veja entrevista a seguir). investimentos em educação, saúde, trabalho,
Voltando à sentença, no decorrer de sua saciar a fome daqueles que não tem o que
fundamentação, a juíza afirma que o direito comer, ou reformar prédios velhos com o deleite
constitucional de propriedade deve prevalecer apenas de “olhar” e num instante em que se
sobre o pedido de tombamento. Abraça a fecham os olhos, desaparecem com o tempo?
versão de que o palacete “é um prédio velho, Ora, penso que é tempo de acordar para o
que poderá a qualquer momento vir a progresso, é tempo de construir para as
desmoronar” e causar “acidentes graves”, presentes e futuras gerações.
Não comungo o entendimento de que
enquanto afirma que o proprietário é uma
reformar e tombar um prédio velho é melhor
“pessoa simples” que trabalhara “árduos” 35 do que construir um novo, moderno e com
Prédio da Faculdade de Medicina também é tombado pelo município

20 29 de abril a 5 de maio de 2003


geração de empregos e progressos tendo uma “prédio em ruínas, pondo em risco a caráter definitivo, quando existe o risco imi- foi publicada. No dia 12 foi expedido o ofício
função social, mais abrangente. segurança dos transeuntes”. Assinalou que nente à segurança dos transeuntes. ao secretário de obras, determinando a
Necessário se faz repensar sobre a uma nova perícia não Dado tudo isso, liberação do alvará. Na sexta-feira 13, Osório
priorização do que é mais satisfatório para uma era necessária, pois já julga procedente o Guimarães recebeu o ofício, liberou o alvará
sociedade que anseia por progressos e
havia laudo técnico e “Não comungo o entendimento pedido e, em sentença e o palacete Antônio Pedro Naves, uma das
modificações.
Prédios tombados, na cidade, pelo que relatório dos bom- de que reformar e tombar um proferida no dia 9 de edificações mais significativas do
percebo tem aos montes, e todos estão fechados, beiros “confirmando a prédio velho é melhor do que dezembro, é conce- patrimônio cultural da cidade, começou a ser
sem reformas a ponto de caírem, pois, os real situação do imó- construir um novo, moderno dido o mandado de demolido. Primeiro foi destelhado. Depois,
proprietários não tem interesse em investirem vel”. Invocou mais segurança determi- as paredes internas foram derrubadas.
nesses casarões.” (…) uma vez o direito à
e com geração de empregos nando a autorização Finalmente, a fachada destruída. Na manhã
propriedade, garan- e progressos tendo uma função para a demolição. O de domingo, o 2º piso já estava praticamente
Para ela, o “direito líquido e certo” estava tido pela Constituição, social, mais abrangente” fim estava muito em ruínas. Na segunda-feira, os
comprovado pelo direito de propriedade, pelo e afirmou que con- próximo. Idivaldo comerciantes foram abrir as lojas e não
interesse do proprietário, pelos riscos de siderava o pedido de demolição cabível e comemora e vai agilizando os procedimentos acreditavam no que viam. Aquele casarão,
acidentes e pelo próprio estado do palacete – previsto até mesmo em prédios tombados em para derrubar o prédio. No dia 11 a sentença destruído…

Régia Ferreira nesse sentido. Pelo contrário, os laudos desabe e não cause um risco sério para a
que estavam ali apontavam para uma população”, afirmou.

“Eu acho bonito”


Juíza diz o que pensa sobre patrimônio cultural
reforma que precisava ser de forma
imediata.”
Régia Ferreira afirmou ainda que, “já que
ninguém queria se responsabilizar por nada
Responsabilidades
“Então eu pensei, um prédio desse – tudo
bem, é muito bonito – mas o cidadão me fala
(…) eu não tinha outra alternativa senão julgarque não tem o dinheiro, a Prefeitura fala que
e justifica sua sentença no mandado de segurança o mandado de segurança procedente.” No
entanto, afirmou que, se houvessem
não tem verba, e que não vai se responsabilizar,
a Fundação Cultural fala que não está nem aí
André Azevedo
documentos provando que o prédio não corria para o prédio, o que eu posso decidir?”
risco, e se os interessados mostrassem que Régia vê com naturalidade a iniciativa do
poderiam ser captados recursos para a Ministério Público entrar com o recurso de
restauração, evidentemente, a decisão seria apelação ao Tribunal de Justiça. “O Tribunal
diferente. “O juiz decide de acordo com aquilo vai examinar. Eu decidi de acordo com o meu
que ele tem nos autos.” entendimento, meu livre arbítrio. Eu não fui
coagida por ninguém, não decidi porque não
Verbas gosto de fulano ou sicrano. Eu tive meu livre
Ainda assim, a juíza manteve o raciocínio arbítrio de entendimento para julgar, para
da sentença ao afirmar que é injusto reformar dar essa sentença. Agora, acima de mim,
casa antiga, enquanto as pessoas estão tem um Tribunal, tem uma corte superior,
passando fome. “A gente vê tanta gente que vai examinar todas as peças do
sofrendo, com fome, nosso sistema de saúde processo, vai examinar a sentença. Ela pode
caótico, você vê a escola pública como está. muito bem cassar minha sentença, como
Então, já que o município fala que não tem pode mantê-la.”
essa verba, por que vai investir? E mesmo se A juíza também afirmou que não é uma
tivesse, seria injusto investir nisso e deixar adversária da preservação do patrimônio
as pessoas. Veja bem: é um prédio, é um cultural da cidade “Não fiquem preocupados,
objeto. Criança, ser humano, é vida, somos achando que a doutora Régia não gosta de
Régia Ferreira: “pelas provas que estavam ali no processo, eu não tinha como indeferir a demolição” nós. O que é primordial, zelar pela sua vida, casas antigas. Não, absolutamente. Eu
ou pelo seu carro?”, comparou. moraria numa casa antiga, porque eu acho
Na tarde de 28 de abril, a juíza Régia Imagina minha filha pequena chegar pra mim Um trecho muito criticado de sua sentença bonito. Então, isso aí você pode tirar da
Ferreira de Lima concedeu uma entrevista ao e falar: mãe, mas a senhora esteve com o foram as considerações finais, onde a juíza cabeça. A minha sentença foi só nesse
Revelação em sua sala da 3ª Vara Cível no processo na mão, a senhora poderia ter afirma que é melhor construir casas novas do p r é d i o , e m v i s t a d a q u e l e s a s p e c t o s
Fórum Melo Viana. Ela impedido essas mor- que restaurar prédios trazidos aqui. Se tiver
explicou que decidiu velhos. “Eu me referia a um outro caso, nós
“Vamos supor que eu negasse tes, poderia ter feito prédios que estão caindo,
“Já que ninguém queria se vamos analisar tudo
pela concessão da li- alguma coisa. Você
cença para demolir o o mandado de segurança, e entendeu? Pra mim, que estão oferecendo responsabilizar por nada, eu d e n o v o , d e o u t r a
palacete por causa das porventura nesse prédio seria muito mais risco de vida. É essa a não tinha outra alternativa forma, porque cada
provas que tinha em ocasionasse um acidente grave.” linha do meu entendi-
senão julgar o mandado de processo é um pro-
mãos – os laudos da Esse receio de mento. Você pode con- cesso, cada situação é
Esape e do Corpo de e matasse várias pessoas? desmoronamento foi servar o prédio, desde que segurança procedente” uma situação.”
Bombeiros – que deno- evocado várias vezes você tenha condição – e
que você realmente conserve!”
tavam iminente risco de desabamento. “Se durante a entrevista. “A gente não pode
todas as provas informam que aquele prédio brincar com isso. Quando você fala em Durante as manifes-tações que ocorreram Idivaldo Odi Afonso
estava oferecendo risco para a população que vida, em ser humano, a gente não pode em dezembro de 2002 para protestar contra a O proprietário Idivaldo Odi Afonso en-
demolição, Régia foi muito criticada. “As contrava-se ocupado para uma entrevista du-
passa por ali, achei por bem deferir a brincar. Pelas provas que estavam ali no rante a semana, mas atendeu gentilmente a
demolição”, disse. processo, eu não tinha como indeferir [a pessoas perguntam: a doutora Régia é contra um telefonema da reportagem do Revelação,
“Vamos supor que eu negasse o mandado demolição].” casarões antigos? Não! Eu acho bonito. Eu na noite de 29 de abril, um pouco antes do
de segurança, e porventura nesse prédio Ela confirmou que, nos autos, não mesmo compraria um pra eu morar! Eu acho fechamento da edição. Ele se colocou à dis-
ocorresse um acidente e matasse várias havia nenhum laudo garantindo o estado bonito um casarão antigo. Desde que você posição para um futuro contato, para regis-
pessoas? Pesaria muito na minha consciência. da solidez da edificação. “Não tem nada tenha condições para reformar, que aquilo não trar sua visão do caso.

29 de abril a 5 de maio de 2003 21


3
Mais reviravolta

Ministério Público entra com


recurso para rever sentença
Objetivo é analisar a possibilidade de uma ação de indenização por danos morais causados à coletividade
André Azevedo
No dia 12 de fevereiro de 2003, o não era consistente, pois “bastava a
promotor de justiça Emmanuel Aparecido restauração de sua fachada, sem qualquer
Carapurnala, especializado em Defesa do necessidade de demolição”. O promotor
Patrimônio Histórico e Cultural, entrou com menciona também que o laudo pedido por
um recurso de apelação ao Tribunal de Justiça, Idivaldo levou em consideração “somente
em Belo Horizonte, pedindo a revisão da aspectos econômicos que poderiam favorecer
sentença que autorizou a demolição. O ao seu proprietário”.
objetivo é avaliar a possibilidade de instaurar Quanto aos argumentos da juíza –
uma ação civil pública contra Idivaldo, afirmando que o imóvel não estava
exigindo indenização por danos morais juridicamente protegido por falta de um ato
causados à sociedade. oficial – o promotor afir-
O primeiro ponto “Não se nega que o imóvel ma que “não podem
considerado irregular é a
necessitasse de reformas, prevalecer”. Primeiro por-
ausência do chamamento que, para ele, o valor
à Fundação Cultural no contudo, nada justificava histórico do palacete
processo de mandado de sua demolição” antecede ao seu tomba-
segurança. “Sendo parte mento. Além disso, en-
interessada, a Fundação Cultural não foi tende que a prova mais contundente de que
validamente citada”, embora sua presença havia um processo em andamento eram “as
fosse obrigatória e indispensável, já que o investidas do proprietário na fase
Codemphau – o órgão responsável pelas ações administrativa”, ou seja, o próprio processo
relativas ao patrimônio histórico da cidade – de impugnação. Carapurnala afirma ainda
trabalhava justamente no tombamento do que, em investigação da Promotoria de Emmanuel Carapurnala é promotor especializado em Defesa do patrimônio Histórico e Cultural
palacete, assinala. Para Carapurnala, não Justiça, confirmou-se que o imóvel foi
havia como negar o interesse jurídico do “efetivamente tombado” no dia 11 de contra vandalismo e pichações. O Código para a sociedade. “Por óbvio, a função social
Conselho neste processo; e sem sua presença, dezembro. Penal também prevê a proteção do patrimônio do imóvel, em tais casos, é aferida exatamente
“a relação processual jamais foi completada”. No entanto, à despeito dessa discussão público tombado e do não-tombado. pelo conteúdo histórico e cultural posto à
Assim, afirma que se a Fundação Cultural sobre datas, o promotor argumenta que, Além disso, para Ministério Público, nesse disposição de toda a população”. Para ele, o
tivesse comparecido ao processo, em razão “verificando o interesse histórico do imóvel, caso não era cabível a ação do mandado de culto à memória é um “valor social cujo
das informações que impõe-se ao Poder segurança. “Qual o direito líquido e certo de conteúdo econômico não se pode mensurar”.
tinha a prestar, prova- Público (e também uma pessoa demolir Ele insiste em
velmente a decisão da Se a Fundação Cultural tivesse ao Judiciário) a um prédio que está considerar um erro
juíza teria sido di- obrigação de pre- protegido adminis- “Qual o direito líquido e certo de a concepção de que
comparecido ao processo, em
ferente. servar o bem, inde- trativamente contra uma pessoa demolir um prédio que a função social da
O promotor es- razão das informações que tinha a pendentemente de a demolição?”, ques- está protegido administrativamente propriedade está
creve que, dado o prestar, provavelmente a decisão tombamento defi- tionou, em entre- diretamente ligada
contra a demolição?”
valor cultural de- da juíza teria sido diferente nitivo”. Assim, cita vista ao Revelação. ao fator produtivi-
monstrado em pes- um trecho de Paulo No recurso, o pro- dade. Para ele,
quisa histórica, o Affonso Leme motor assinala que o procedimento de este conceito está ligado a todo e qualquer
Palacete de Antônio Pedro Naves “constituía- Machado, dizendo que, enquanto se discute tombamento provisório transcorrera dentro benefício social advindo da propriedade,
se de verdadeira relíquia”. Ele esclarece que o tombamento, o bem deve permanecer dos parâmetros estabelecidos pela legislação. inclusive na área ambiental. Assim,
as alegações de que o prédio ameaçava ruir intocável; “caso contrário, as forças de Dessa forma, cita também o trecho da argumenta que se uma propriedade rural
eram contestadas por outros laudos. “Não se destruição, que, em geral, são mais rápidas, Constituição que inclui o tombamento entre com altos índices de produtividade não
nega que o imóvel necessitasse de reformas, se põem em ação”. os meios de proteção do patrimônio cultural respeita normas ambientais, descumpre
contudo, nada justificava sua demolição”. Citando trechos do Manual do promotor brasileiro. sua função social. “Portanto, o imóvel
Carapurnala constatou que os laudos dos de justiça, de Hugo Nigro Mazzili, diz Sobre a argumentação da juíza de que a demolido estaria cumprindo sim sua
bombeiros se referiam a um imóvel que de também que o tombamento não é o único manutenção do palacete não cumpria função f u n ç ã o s o c i a l , c a s o t i v e s s e s i d o
fato não pertencia ao conjunto tombado, pois sistema de proteção ao patrimônio cultural. social, o promotor argumenta ser incorreto o p r e s e r v a d o e m f a v o r d a s o c i e d a d e
tratava-se de um “barracão” construído nos Há leis específicas que protegem raciocínio que liga a função social ao “lucro” uberabense”.
fundos. Em relação a alegada desca- monumentos arqueológicos, defendem os que ela possa proporcionar, pois há muitos Hoje, o processo está sendo analisado pelo
racterização, afirma que essa argumentação direitos de autor e protegem propriedades ângulos para analisar os benefícios de um bem Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
22 29 de abril a 5 de maio de 2003
Emmanuel Carapurnala

“Derrubar não!”
Promotor de Justiça afirma que mesmo casas históricas não tombadas devem ser protegidas
André Azevedo
Emmanuel Aparecido Carapurnala, função social. Como o Ministério
promotor de Justiça especializado em Defesa Público entende isso?
do Patrimônico Histórico e Cultural, Carapurnala: Uma fazenda tem um
concedeu uma entrevista ao Revelação na altíssimo índice de produtividade, mas que
tarde de 11 de abril, gravada em sua sala no explora mão-de-obra escrava, ela está
Ministério Público. Leia os trechos desempenhando função social? Claro que
principais. não! Apesar da lucratividade, de ser
extremamente produtiva. Da mesma forma,
Revelação: Para o Ministério Público uma empresa que dá muitos empregos, paga
a juíza errou? imposto, que gera vários benefícios sociais
Carapurnala: Veja que não é crítica mas que polui o meio ambiente, ela está
pessoal, mesmo porque o direito é assim; no desempenhando sua função social? Não está!
direito existem posições diversas, as pessoas Porque essa função social não está ligada só
defendem posições diferentes. O Ministério ao lucro.
Público entende que não era cabível a Nesse casarão é a mesma coisa. Qual a
demolição daquele imóvel. Primeiro porque função social de um imóvel que tenha valor
a argumentação do proprietário, no sentido cultural? Exatamente permanecer dessa
de que o prédio ameaçava a ruir, não procedia. forma, para que a nossa geração e as futuras
Há provas no processo de que não procedia gerações possam desfrutar disso. A função
essa argumentação – de que a comunidade social do imóvel é seu valor histórico.
corria risco por causa de um possível
desabamento. Não é verdadeira essa Terreno na rua São Sebastião, onde localizava-se casa historica demolida no fim do ano passado. Revelação: Idivaldo alegava que não
informação. Segundo, existia um Caso é um dos que estão sendo analisados pelo Ministério Público tinha dinheiro para a reforma. O
procedimento administrativo de tombamento. tombamento não pode se tornar um
Terceiro, ainda que não houvesse esse sociedade – para o proprietário deste e de proprietária, e o próprio proprietário tinha ônus ao proprietário?
procedimento, o valor histórico daquele outros imóveis onde ocorreram situações requerido isso. Mas, de qualquer forma, o Carapurnala: Isso ninguém nega. Mas
prédio era inegável. No processo há provas semelhantes. interesse histórico, o valor essa argumentação do proprietário – no sentido
de que era um imóvel de valor histórico “O valor histórico do histórico do imóvel, de que o imóvel precisava de reformas, que
ímpar em Uberaba. E isso agora está perdido Revelação: A supera qualquer procedi- ele não tinha recursos para isso, que o
para sempre. lei prevê um
imóvel, supera qualquer mento administrativo. município também se manifestou no sentido
Exatamente por discordar nesses período máximo procedimento administrativo” Mesmo o imóvel que não de que não poderia gastar – também não é
pontos, a Promotoria propôs um recurso de 90 dias para a tenha nenhum proce- motivo para a demolição. Os autores nessa área
ao Tribunal de Justiça para tentar provar conclusão dos procedimentos do dimento de tombamento do Direito dizem o seguinte: o sujeito tem que
que não era cabível essa concessão da tombamento. Houve inobservância dos deve ser protegido judicialmente. preservar o prédio. Não tem como? Não é
segurança e, futuramente, para o prazos por parte do Codemphau? interesse do governo? Ele pode até entrar com
Ministério Público pensar em uma possível Carapurnala: Não. Porque ali nesse caso Revelação: No processo houve uma uma ação de indenização contra o município
ação indenizatória por danos morais à ocorreu a necessidade de citar a herdeira co- alegação de que o edifício não cumpria para receber recursos; mas derrubar, não.

Existem várias formas de preservação


Inventários, planejamento urbano e ações no Ministério Público são formas de proteção
André Azevedo
De acordo com informações do Instituto nível municipal. Além disso, municípios
do Patrimônio Histórico e Artístico nacional podem criar leis específicas que esta-
(Iphan), além do tombamento, existem beleçam incentivos à preservação (a lei
outras formas de preservação do patrimônio orgânica de Uberaba já prevê esses
cultural da uma co- estímulos). Para o
munidade. “O in- Através do Ministério Público, Iphan, os municípios
ventário é a primeira devem promover o
qualquer cidadão pode impedir
forma para o reco- desenvolvimento das
nhecimento da im- a destruição de um bem cultural, cidades sem a des-
portância dos bens solicitando apoio ao promotor local truição do patrimônio.
culturais e ambien- O órgão esclarece
tais, por meio do registro de suas carac- ainda que, “atualmente, pela ação do
terísticas principais.” Ministério Público, qualquer cidadão
Ainda segundo o órgão, os Planos pode impedir a destruição ou descarac-
Diretores, através do planejamento terização de um bem de interesse cultural
urbano, também podem estabelecer ou natural, solicitando apoio ao Promotor
formas de preservação do patrimônio, em Público local”. Casarão histórico localizado na rua Tristão de Castro sofre descaracterização da fachada

29 de abril a 5 de maio de 2003 23


3
Sonia Fontoura
“Não existe política de
patrimônio cultural na cidade”
Historiadora e ex-assessora do Codemphau diz que não houve interesse do poder público na preservação
André Azevedo
A historiadora e ex-assessora do
Codemphau, Sonia Fontoura, falou ao Tem que solicitar o favor de um,
Revelação na noite de 24 de abril, em sua solicitar um trabalho gratuito
casa. Assim como os quatro conselheiros que de outro... e o trabalho de
renunciaram ao cargo dias depois da
patrimônio histórico não é
demolição, Sonia decidiu se afastar no
começo de 2003. Veja os trechos principais um trabalho filantrópico,
da entrevista. é um trabalho profissional, que
rende dividendos para a cidade,
Revelação: Por que a casa caiu? que pode render empregos
Sonia Fontoura: Porque não houve
interesse do poder público de mantê-la de pé. casa for preservada, facilmente vamos preservar
Em nenhum momento isso se manifestou. as outras. Então ela foi um modelo, nós nos
dedicamos àquele tombamento, porque ela era
Revelação: Mas a autorização da como um símbolo para o conselho. Daí que todas
demolição não foi uma decisão judicial? as pessoas se envolveram afetivamente nesse
Sonia: Sim, depois de uma sentença trabalho, e saiu aquele resultado…
judicial. Mas as medidas que teriam que ser Eu não estava presente na cidade no dia que
tomadas não dependiam da sentença judicial. aconteceu a demolição, e só fui tomar
O fato é que não existe uma política, Sonia Fontoura: “eu sentia que o que nós fazíamos por um lado, pelo outro era desfeito” conhecimento quase que uma semana depois.
realmente, para a preservação do patrimônio Os conselheiros que estavam presentes
histórico da cidade. Não existia uma equipe aquele trabalho. Então o Marcondes, o Dr. entanto, ele fez muitos trabalhos. renunciaram – com muita sabedoria, porque foi
de trabalho. O trabalho que eu realizava, de Alaor Ribeiro, o Dr. João D’Amico tiveram Acompanhou os processos de restauro do uma renúncia didática, pedagógica – e eu só
coordenar a questão do patrimônio e grande disponibilidade. Eles trabalharam prédio dos Correios, por exemplo. Ele fez o fui fazer isso depois, porque além de ser do
preservação, não dava, não saía do papel! Nós realmente, duramente. Mas era necessário estudo das plantas, do projeto, isso tudo foi Conselho, eu era também assessora do
tínhamos um monte de planos, projetos mais. Porque não era só aquela casa a ser feito por ele. E muitas outras coisas. patrimônio. Então não poderia me afastar
prontos de preservação, mas nós não tínhamos tombada, tinha outras. E um trabalho de assim de qualquer maneira, eu tinha que deixar
equipe de trabalho especializada. tombamento exige um estudo histórico, uma Revelação: A senhora adoeceu o trabalho completo, fechar as portas, etc.
Demandaria, em primeiro lugar, um arquiteto. justificativa e um estudo arquitetônico – se depois da demolição do palacete? [nota: os conselheiros que renunciaram em
Eu sou historiadora. Tinha o Augusto nós estamos falando de imóveis. Sonia: Adoeci. Todos nós adoecemos. O protesto foram Alaor Ribeiro, Aparecido João
Rischiteli, que foi contratado depois que eu Dr. Alaor, creio que também outras pessoas. D’Amico, Marcondes Nunes e maria
comecei a trabalhar, e a Renata Bananal, que Revelação: Ninguém mais ajudava? Você se envolve afetivamente com o trabalho Antonieta Borges Lopes]
nos ajudava na parte administrativa. Mas não Sonia: Foi contratado o trabalho de um e dedica uma grande parte do seu tempo. E
existia uma equipe de trabalho voltada para o restaurador que nos ajudou – quando eu já não é só aquele tempo que você fica ali, parado, Revelação: E agora?
patrimônio. Era um trabalho altamente estava saindo é que ele dentro da Fundação Sonia: Agora fico sonhando que algum dia
desgastante, e eu sentia que o que nós assinou o contrato; eu Cultural. A gente ainda possa fazer alguma coisa pelo patrimônio,
fazíamos por um lado, pelo outro era desfeito. estava tentando esse Nós tínhamos um monte pesquisa em casa, a gente mas não fico omissa não. O restauro da igreja
contrato desde junho de de planos, projetos prontos lê, não é só por causa do Santa Rita ainda está em nossas mãos. Nós
Revelação: O que foi desfeito? 2002, e ele foi ser edifício do Pedro Naves, conseguimos fazer o projeto junto com a
Sonia: A casa não foi demolida? Nós contratado em final de
de preservação, mas nós fizemos um seminário no projetista Marlene Maia. Eu reuni os dados e
fizemos o tombamento através de um janeiro de 2003 – para não tínhamos equipe de ano passado, e nós conseguimos que a Casa do Artesão assumisse
processo dificílimo! Aquele processo custou fazer um restauro da trabalho especializada trabalhamos de uma porque não se capta recurso em instituição
a andar, foi um processo administrativo cabeça daquela estátua maneira muito difícil, pública, nós só podemos em instituição
pesado. Você vê pelo número de páginas. E, que fica sobre a não tinha recurso para o independente. Mas eu vou continuar
por outro lado, estava ocorrendo um outro marquise do prédio da Câmara Municipal, o patrimônio. Então você tem que solicitar o coordenando o projeto de restauro.
processo e foi facilitada essa demolição. levantamento dos bens móveis da Câmara, e favor de um, solicitar um trabalho gratuito de
outros trabalhos [restauro do Cruzeiro do outro, e o trabalho de patrimônio histórico não Revelação: Ainda é possível salvar
Revelação: Os conselheiros não Cachimbo e prospecção de cores do Mercado é um trabalho filantrópico, é um trabalho o patrimônio cultural de Uberaba?
poderiam substituir a equipe técnica? Municipal e do prédio dos Correios]. Mas foi profissional, que rende dividendos para a Sonia: Eu tenho muita esperança, porque
Sonia: Tínhamos o melhor conselho só. A igreja de São Domingos, que nós cidade, que pode render empregos. Ele é um é um patrimônio rico, ainda tem muita coisa.
possível para Uberaba. O arquiteto tínhamos um estudo histórico pronto, a igreja trabalho especializado e altamente profissional. Mas existem muitas pessoas interessadas em
Marcondes fazia parte da equipe técnica, eu Metodista, pronto também os estudos para Então eu me dediquei bastante a esse trabalho. demolir, eu mesma já visitei uma casa que a
fazia parte, mas há uma diferença entre um fazer os tombamentos, nós não conseguimos, E essa casa – isso foi registrado em atas – intenção do proprietário que adquiriu é
conselheiro, que é um trabalho não- não foi contratado arquiteto. Não é porque significou pra nós um peso, uma medida do demolir. Sem uma política voltada para a
remunerado, fazer parte de uma equipe eu não me esforçasse. Agora, não dava para trabalho que nós poderíamos fazer. Porque nós preservação, vai ser impossível. Mas eu
técnica; e ter um arquiteto que trabalha com o Marcondes fazer todo o trabalho. Ele não pensávamos assim: se essa casa for demolida, acredito que ainda há possibilidade de haver
você todo o tempo, que está disponível para estava sendo remunerado para isso. No dificilmente nós seguramos as outras. Se essa esse interesse, de desenvolver uma política.

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