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Jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba

Ano VIII • nº 333 • Uberaba/MG • Maio de 2007


Educação e responsabilidade social

O comunista Orlando Ferreira


(à esquerda) e o então bispo de Uberaba,
D. Alexandre Gonçalves Amaral (à direita)
foram as principais personagens da guerra
de ofensas que católicos e espíritas
travaram nos jornais da cidade
na primeira metade do século XX
Compromisso com o leitor

O jornalismo que queremos


Muita gente não gosta de jornalista. E isso se imprensa, tal como vivenciamos ao elaborar esta problemas identificados. Procuraremos enxergar
estende, é claro, aos estudantes de Jornalismo. edição, é um sinal amarelo para nós, estudantes de principalmente a violência simbólica, aquela que atua
Quando saímos para entrevistar pessoas nas ruas, Jornalismo. O que nos inspira a estudar Comunicação silenciosamente nas relações cotidianas e oprime as
percebemos que muitas delas nos evitam porque têm Social é o desejo de contribuir para transformar a pessoas comuns, pois acreditamos que a raiz da
medo de serem prejudicadas por nós. Realizando as realidade. Trabalhar pelo bem comum é o princípio violência está na própria estrutura da sociedade.
reportagens desta edição, observamos que há muita da vocação que nos trouxe à faculdade. Por isso, se há Nosso modelo de jornalismo não se contenta
desconfiança das pessoas uma suspeita geral em relação apenas em expor os fatos, mas busca interpretá-los
comuns em relação à capa- ao compromisso social do para contribuir na reflexão sobre a cidade. Não se
cidade da imprensa em noticiar Nosso modelo de jornalismo profissional de imprensa, interessa pelo pitoresco, mas procura identificar as
um fato sem distorcê-lo. Ao não se contenta apenas em devemos, antes de tudo, contradições de uma sociedade desigual. Não pretende
conversarmos com leitores de reconquistar a confiança da denunciar para depois simplesmente “lavar as mãos”,
jornais, é comum ouvirmos
expor os fatos, mas busca sociedade através do nosso mas assume o compromisso de contribuir para que a
críticas muito pesadas sobre interpretá-los para contribuir trabalho e do nosso exemplo. sociedade possa solucionar seus problemas. Não se
nossa futura profissão: eles na reflexão sobre a cidade No Revelação, o jornal- volta para o sarcasmo e a ironia, mas estabelece a
dizem que jornalistas só laboratório do curso de crítica necessária para levantar questões importantes
gostam de “picuinha”; só vão Comunicação Social da Univer- da vida social.
aos bairros da periferia para noticiar crimes ou sidade de Uberaba, queremos experimentar um outro Este é o compromisso de uma nova geração de
buracos no asfalto; humilham os pobres ao mesmo tipo de jornalismo, bem diferente dessa imagem que estudantes de Jornalismo conscientes da importância
tempo em que bajulam os ricos; usam suas colunas as pessoas têm da profissão que escolhemos estudar. de uma imprensa de qualidade para a transformação
para resolver questões pessoais; fazem propaganda No nosso jornal, não faremos sensacionalismo com a da sociedade. E o resultado deste compromisso pode
comercial disfarçada de notícia; exageram nos títulos violência, não transformaremos o sofrimento dos ser conferido nesta edição, que marca uma nova fase
para fazer sensacionalismo e não contribuem para outros em espetáculo. Os atos violentos serão tratados de nosso histórico jornal-laboratório.
compreender as causas dos problemas sociais. com responsabilidade e as reportagens sempre
Essa imagem que as pessoas construíram sobre a buscarão investigar as causas e as soluções para os Boa leitura. E boas reflexões.

Curso de Comunicação e ICBC firmam parceria


Graziella Tavares sobre essa proposta de estágio e o apoio da a instituição seja reconhecida por sua cidade. E isso é
3º período de Jornalismo universidade nos seus novos projetos. A iniciativa foi gratificante."
bem aceita e quatro alunos já começaram a Os estagiários já visitaram o ICBC e puderam
O Instituto de Cegos do Brasil Central (ICBC) é o desenvolver a assessoria. conhecer toda a sua estrutura e as pessoas que fazem
novo parceiro do curso de Comunicação Social da Para o coordenador do curso, Raul Osório, essa é do trabalho voluntário um ato profissional e pessoal.
Universidade de Uberaba (Uniube). Estudantes de uma oportunidade para que os alunos se preparem Como é o caso do novo diretor de marketing, Fernando
Jornalismo, orientados por para o mercado de trabalho e Athayde, que já trabalhou na DPZ do Rio de Janeiro e
professores do curso, criaram adquiram experiência — tanto na Rede Globo e agora aposta no Instituto. "Precisamos
uma assessoria de comunicação na área que atuarão, como no explorar mais a história, definir e apresentar a marca
para a instituição e fizeram a Estudantes da Uniube0 voluntariado, atualmente uma da instituição." Para começar, foram propostos a
proposta de um novo tipo de estão criando uma das práticas profissionais mais criação de informativo do ICBC; a realização de uma
estágio, vinculado a um assessoria de comunicação bem aceitas em um currículo. exposição de fotos e a reformulação do site na Internet.
trabalho voluntário. O objetivo Mônica de Freitas, uma das O presidente do Instituto acredita na possibilidade
principal da parceria é favorecer para a instituição estagiárias do projeto, vê a de futuros projetos que ajudarão a fortalecer a união
a interação entre o Instituto e a participação dos estudantes no entre a instituição e a universidade. "Nós queremos que
sociedade, informando a cidade Instituto como um a Uniube seja mais uma parceira no nosso caminho que
sobre as atividades realizadas há tantos anos. investimento futuro. "A convivência com pessoas tão é voltado para a construção de um ICBC cada vez
Em reunião realizada no começo do mês de abril, ativas e interessantes, que já pudemos conhecer, melhor", reforçou Wilson. As duas instituições ganham
o presidente do ICBC, Wilson Adriano, e a ajudará, com certeza, nessa nossa fase de com a parceria, mas quem agradece são aqueles que
coordenação do curso de Comunicação discutiram experimentação. Podemos trabalhar e inovar para que cresceram com o Instituto: os seus usuários.

Revelação - Jornal-laboratório do curso de Comunicação Social da Universidade de Uberaba


Uniube • Reitor: Marcelo Palmério ••• Pró-reitora de Ensino Superior: Inara Barbosa ••• Coordenador do curso de Comunicação Social: Raul Osório Vargas ••• Assessor
de Imprensa: Ricardo Aidar ••• Revelação • Professor orientador: André Azevedo da Fonseca (MTB MG-09912JP) ••• Produção e edição: Alunos do 3º período de
Jornalismo ••• Estagiários (diagramação e edição): Luiz Carlos Vieira e Munyque Fernandes ••• Revisão: Cíntia Cunha ••• Técnica de Laboratório de Fotografia: Neuza das
Graças ••• Analista de sistemas: Tatiane Oliveira Alves ••• Impressão: Gráfica Jornal da Manhã ••• Redação • Universidade de Uberaba - Curso de Comunicação Social -
Sala 2L18 - Av. Nene Sabino, 1801 - Uberaba - MG - 38055-500 • Telefone: (34) 3319 8953 ••• Internet: www.revelacaoonline.uniube.br ••• E-mail: revela@uniube.br
2 Revelação - Maio de 2007
Cidadania ameaçada

Estamos na “Área”
Jovens do Probem são alvo de desrespeito de usuários da Área Azul
Foto: Luiz Carlos Vieira

Adolescentes relatam que os meninos são mais maltratados que as meninas, mas elas são mais assediadas

Ana Paula Jardim tirou de letra as adversidades. “Uma vez, um senhor Os jovens são orientados a abordar educadamente
3º período de Jornalismo numa Belina parou onde eu estava trabalhando. Fui a pessoa que estacionar na Área Azul e oferecer o
oferecer o cartão e ele quase me bateu, mandou eu ir cartão, mas nem sempre a reciprocidade é a mesma.

C
amiseta cinza e vermelha, calça jeans e tênis procurar serviço, em vez de ficar pedindo dinheiro na Muitos são recebidos com grosseria e alguns até
preto, de pé em rua. Eu só agradeci e saí. molestados. Uma adolescente de 16 anos ofereceu o
alguma esquina, lá Outra vez parou um cara cartão a um senhor no Mercado Municipal que, depois
estão eles esperando você numa moto e comprou o de adquiri-lo, convidou a moça para uma “voltinha”.
estacionar o carro na Um senhor parou o carro onde eu cartão da Área Azul. Depois, Ela conta que respondeu sem pensar duas vezes: “Eu
famosa “Área Azul”. Eles estava trabalhando. Fui oferecer me perguntou a que horas vou é chamar a polícia para você!”. Segundo a jovem,
são adolescentes, geral- o cartão e ele quase me bateu, eu sairia e se não aceitaria o homem ficou caladinho e entrou no mercado. E, ao
mente entre 16 e 18 anos, ir a um motel com ele depois sair, não teve coragem de dirigir uma palavra a ela.
em busca de uma opor-
mandou eu ir procurar serviço, em do trabalho. Ele me daria Também há relatos de pessoas que tiram do bolso
tunidade no mercado de vez de ficar pedindo dinheiro na rua. R$ 50 e ainda me compraria notas de 50 reais para pagar pelo serviço, por saber
trabalho. umas roupas. Eu disse que que os adolescentes não têm como dar troco. Ou o caso
Atualmente, o Programa não; ‘não era a minha praia’ de uma garota de 16 anos que pagou pelo cartão do
do Bem-Estar do Menor (Probem) assiste a 558 e saí”, narra o jovem, sob os risos dos amigos. usuário. “Ele falou que pagaria o cartãozinho na volta,
adolescentes entre 14 e 18 anos em risco pessoal, social De acordo com a diretora do Probem, Maria mas não voltou foi nada. Deu o horário da minha saída
e econômico. Desses jovens, 478 trabalham em em- Aparecida Ferreira, os adolescentes são preparados e nada dele chegar. Como eu já tinha dado o cartão,
presas da cidade e 80 estão na Área Azul. No Probem, para esse tipo de tratamento tive que pagar do meu bolso.
os adolescentes recebem cursos profissionalizantes, na rua e orientados a sair de Levei o maior calote”, lamenta.
suporte pedagógico, acompanhamento psicológico, perto de potenciais agres- Os jovens do Probem
Uma adolescente de 16 anos
além de carteira assinada e possibilidade de emprego sores e a chamar o fiscal de relatam que os meninos são
nas empresas em que fazem estágio. sua área se sentir-se amea- ofereceu o cartão a um senhor mais maltratados que as
Todo jovem iniciante no Probem é “batizado” na çado de alguma forma. Ela diz no Mercado Municipal que, meninas, mas elas são mais
Área Azul. Esta área está situada no perímetro urbano que a situação já melhorou, depois de adquiri-lo, convidou assediadas. Contam também
central, delimitado pela prefeitura, onde todo cidadão mas que ainda falta cons- que preferem trabalhar nas
que estacionar seu veículo tem de pagar uma taxa ciência nas pessoas que não a moça para uma “voltinha”. empresas porque são respei-
correspondente a R$ 1 por hora. conhecem a filosofia do pro- tados como profissionais, além
Esses jovens colecionam muitas histórias, nas grama e prejudicam o tra- da oportunidade de serem
quatro horas diárias que passam na rua vendendo balho desenvolvido. “Muitos oferecem gorjetas aos contratados definitivamente. Segundo eles, a única
cartões. Como as de um adolescente de 17 anos, hoje adolescentes, mas nós os orientamos a não aceitar. vantagem da Área Azul é poder estar perto dos amigos
estagiando na Uniube, que como todos os outros Gorjeta não é educativo. As pessoas têm que acolher que fizeram no Probem. De resto, sobram desrespeito
começou na Área Azul. Ele conta que já ouviu muita esses jovens e não discriminar. Afinal, estão se inse- e falta de conhecimento da população pelo trabalho
coisa na rua, desde palavrão a cantada, mas que sempre rindo no mundo do trabalho”, destaca a diretora. que estão realizando.

Revelação - Maio de 2007 3


Cidadania pede passagem

As barreiras do descaso
Dificuldades de acesso a áreas da cidade causam constrangimento e indignação
Fotos: Náire Belarmino de Carvalho
Mônica de Freitas Bacurau
Náire Belarmino de Carvalho

E
veraldo Barbosa de Melo, 56 anos, levanta às
6h da manhã, faz um cafezinho e às 9h15 sai
de sua casa, no bairro Santa Maria, com destino
ao ambulatório Maria da Glória. Ele desce pela rua
Goiás, disputando espaço com carros, motos, bicicletas
e coletivos. Muitas vezes, tem que aturar insultos como:
“Sai da rua!” ou “Você passa ou eu passo?”.
Everaldo, como gosta de ser chamado, prefere
circular pela rua, pois é praticamente impossível
transitar em calçadas esburacadas, estreitas, cheias
de entulhos e relevos. Durante o trajeto, enfrenta
avenidas movimentadas, vielas íngremes e a má
vontade daqueles que passam próximo ao seu veículo
de locomoção e quase o levam ao chão. Após meia hora
de “andança”, decide procurar por uma sombra para
esconder-se do sol de 35°, recuperar a força dos braços
e fumar um cigarrinho, como ele mesmo diz. Já
reabilitado, continua a “caminhada”.
Ao chegar à região central, as rampas começam a
aparecer; mas, segundo Everaldo, é dureza utilizá-las
porque a maioria é muito inclinada, contém barreiras
que dificultam a passagem, além da falta de
conscientização de motoristas que não se importam

“ Na hora de pagar imposto


eles não vêem se a gente é
deficiente ou não. Mas na
hora de cobrar nossos direitos,
“ José Carlos aguarda uma ambulância no centro da cidade. De acordo com alguns usuários, nem sempre são atendidos

em estacionar seus carros exatamente em frente a elas.


Everaldo pára em uma lanchonete no centro da
praticamente impossível seu acesso ao interior do
estabelecimento. Em seguida, se desloca até o cesto
cidade, pede uma Coca-Cola e um Carlton. Solicita que de lixo na calçada, junto ao meio-fio, e então joga o
é uma luta, um sofrimento.
a atendente traga até a porta o pedido, pois é copo descartável e a garrafa já vazia.

Flagrantes de celular
A equipe de reportagem do Revelação acompanhou o drama de Everaldo para se locomover pela cidade.
Confira nas fotos tiradas pela camêra de um telefone celular alguns dos problemas que ele enfrenta diariamente.

Apesar da rampa, nível do asfalto Espaço estreito quase impede Calçadas esburacadas tornam Os poucos ônibus especiais
atrapalha locomoção da cadeira de rodas entrada em estabelecimento o passeio perigoso atrasam a vida de Everaldo
4 Revelação - Maio de 2007
Pernambucano, bem-humorado, Everaldo usa
cadeira de rodas há 35 anos. Ele faz aquele percurso
pelo menos duas vezes por semana. Prefere ir “a pé” e
dispensa os benefícios do município, que lhe são
garantidos por Lei, porque nem sempre tem retorno
quando solicita alguma ajuda. “Uma vez, eu precisei
de uma ambulância para fazer um exame e pedi “por
favor” para que mandassem uma, porque eu estava
dependendo do transporte para não perder meu
exame. Quem disse que mandaram a ambulância? Não
mandaram!”
No seu dia-a-dia, ao voltar para casa, Everaldo
usa o transporte coletivo e sempre procura utilizar
os carros adaptados, pois é muito difícil pegar um
ônibus com degraus na entrada. Segundo ele, suas
pernas não permitem que fique em pé e, por serem
muito pesadas, não tem como pedir a alguém que o
segure nos braços.
Geralmente, Everaldo espera em torno de meia
hora para embarcar na linha 204. De acordo com a
Transmil, existe apenas um ônibus adaptado nessa
linha. Everaldo diz que quando este veículo especial
quebra ou atrasa, só volta a passar novamente três
horas depois. Com isso, lhe sobram apenas duas
opções: esperar a próxima viagem ou percorrer todo
o trajeto de volta para casa sozinho, do seu jeito.

Direitos no papel A rampa e o bueiro: no centro da cidade, um verdadeiro deboche às necessidades especiais dos deficientes físicos
Renato Crosara Magalhães, 28 anos, enfrenta
situações semelhantes. Cadeirante desde criança, adaptou totalmente às necessidades de acessibilidade A deficiente visual Gislaine Pietra, 28 anos,
conseqüência de uma poliomielite, desistiu da dos deficientes devido à falta de conscientização da reclama das barreiras que impedem sua locomoção
faculdade de Direito por não encontrar condições de população: “Inicialmente, de forma segura pela


acesso nem mesmo ao Fórum. “Na hora de pagar enquanto eu não tenho um cidade. Para Gislaine,
imposto eles não vêem se a gente é deficiente ou não. na família, eu desconheço Uberaba segue conceitos
Mas na hora de cobrar nossos direitos, é uma luta, esse problema. Enquanto Quando nos privam do direito de ultrapassados e, por isso,
um sofrimento.” você não convive com a deveria modernizar-se.
ir-e-vir, é sempre constrangedor.
A Lei Federal 10.098, de dezembro de 2000, deficiência, você não está Segundo o Decreto N°
estabelece normas gerais e critérios básicos para a
promoção da acessibilidade das pessoas portadoras
de deficiências ou com mobilidade reduzida. Os
muito voltado para essas
questões”.
Perguntada se isso
Federal Brasileira, por que o

Se esse direito está na Constituição 5.296/04, capítulo IV, Art.
10 °, a implantação dos
projetos arquitetônicos e
nosso não pode ser respeitado?
Artigos 3° e 4° determinam que vias e espaços serviria de justificativa urbanísticos devem
públicos, assim como as respectivas instalações de para o não cumprimento atender aos princípios do
serviços e mobiliários urbanos, devem ser adaptados da Lei, Denise diz que não “desenho universal”.
para que sejam acessíveis a todos. sabe se serviria como resposta, mas sim como ponto Entende-se por desenho universal aquele que visa
De acordo com a chefe da Seção de Apoio à Pessoa de partida para reflexão e transformação. “A não atender à maior série de variações físicas e sensoriais
com Deficiência da Secretaria de Desenvolvimento acessibilidade não tem justificativa, é igual criança que possíveis, garantindo acessibilidade a todas as pessoas
Social (Seds), Denise Scussel, a cidade ainda não se não tem lar, pessoa que passa fome.” com autonomia, segurança e conforto, conforme
normas estabelecidas pela Associação Brasileira de
Normas Técnicas (ABNT).
Com relação ao transporte público, o Decreto
5.296/04 determina um prazo máximo de 120 meses
para que as empresas de transporte coletivo estejam
Fotos: Náire Belarmino de Carvalho
Apoio: Rodrigo de Matos
totalmente acessíveis. O diretor do Departamento de
Políticas de Trânsito e Transporte da Secretaria de
Infra-Estrutura, Claudinei Nunes, diz que o
Município conta, atualmente, com quatro ônibus
coletivos adaptados e informa que foi aberto um novo
processo de licitação que visa à adaptação anual de
10% da frota, alcançando, assim, sua totalidade
estipulada pela Lei.
Enquanto isso, pessoas como a cadeirante
Ercileide Laurinda da Silva, 31 anos, sentem-se
constrangidas frente às barreiras que encontram pelo
caminho. “Quando nos privam do direito de ir-e-vir,
é sempre constrangedor”, e complementa: “Se está na
Rampas depredadas tornam-se Passarelas muito íngremes exigem que Constituição esse direito, por que o nosso não pode
riscos à sua segurança cadeirantes peçam ajuda para se locomover ser respeitado?”.
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Má educação

Traumas escolares
Práticas de humilhação e intimidação entre estudantes preocupam pais e educadores
Luiz Maurício Pereira um plano inspirado no modelo norte-americano. Uma dica para os pais evitarem esses tipos de violência
3º período de Jornalismo Uma outra forma de violência sutil é a pressão pré- é observar se os filhos estão tendo alterações significativas
vestibular exercida pela escola e professores. Numa fase em seu comportamento e averiguar se isso está sendo
Uma forma silenciosa de violência vem sendo cheia de transformações e causado por algo na escola. Em
praticada nas escolas e tem preocupado educadores e preocupação com o futuro, a caso de dúvidas, é sempre bom
pais. Trata-se do bullying, termo criado nos Estados
Unidos para designar as violências físicas e psicológicas
praticadas por estudantes contra colegas e professores.
“Essas violências vão desde esconder a mochila do
colega até agressão física, e criam um ambiente
desfavorável ao aprendizado”, conta a professora
tensão pelas expectativas do
vestibular faz com que muitos
alunos entrem em depressão.
“É papel da escola e dos pais
acompanhar os alunos, para
que haja uma dosagem de
“ São brincadeiras que começam
meio que inocentes e só se
percebe que se tornaram
problema quando já é tarde.
“ consultar o orientador escolar e
procurar também por auxílio de
psicólogos. No caso do vestibular,
é importante dar apoio ao
adolescente e evitar o excesso de
cobrança, já que a sociedade por
Marquiane Furtado, que trabalha na rede particular de cobrança e expectativa não si mesma exerce uma pressão
ensino de Uberaba. Segundo ela, os alunos que são vítimas exagerada, porque, quando a muito forte. Vale a pena também
deste tipo de violência tendem a ficar mais retraídos, o pressão é grande, o adolescente geralmente sofre muito”, levar os filhos para realizar testes vocacionais, com
que prejudica seriamente o desenvolvimento. diz a professora Marquiane Furtado. profissionais especializados.
Um exemplo dos malefícios desse fenômeno são
estudantes com médias altas apresentarem um declínio
no rendimento ou mesmo serem reprovados, por
criarem rejeição ao ambiente escolar, causada pelas
humilhações e intimidações. A professora lembra que
Agressão verbal afeta aprendizagem
as formas mais comuns de bullying são a apelidação e Má vontade do professor faz que com alunos percam o gosto de freqüentar a escola
chacota, sobretudo as que remetem ao

Geórgia Queiroz
Munyque Fernandes
homossexualismo masculino. A partir destas atitudes, 5º período de Jornalismo
seguem-se a segregação do aluno no ambiente escolar

A
e sua conseqüente marginalização na sala de aula. educação em Uberaba enfrenta uma série de
Em entrevista com alunos da 8ª série e do ensino dificuldades, que vão desde a falta de preparo
médio de uma escola da rede particular da cidade, os de alguns professores até a desistência de
alunos levantaram as principais violências que eles estudar por parte dos alunos. E nada mais
presenciam diariamente. Eles contaram que, em uma desestimulante que um ambiente escolar marcado
das salas de aula, existe uma aluna que é hostilizada por agressões verbais e discriminação. Para evitar
por colegas por exalar odores fortes, frutos de distúrbio que atitudes assim dificultem a aprendizagem, os que trabalhava, um menino de 7 anos tinha sido
hormonal comum na adolescência. Outra aluna educadores precisam evitar que a prática educativa rejeitado por todas as turmas de 1ª série. Até que ela
preocupada com a violência é Larissa Resende, que já seja carregada de traumas, e, principalmente de pediu para que ele fosse colocado em sua sala. Todos


foi alvo de piadas de outros alunos, devido ao seu porte violência psicológica. os dias, Cedna lhe dava um caderno, mesmo assim, no
físico: “Aqueles que eu achava que eram meus amigos Eva Maria Camargo, aluna da 5ª série do ensino dia seguinte o garoto já estava sem o material escolar.
aderiram aos novatos que começaram as brincadeiras. fundamental de uma escola particular de Uberaba, vi- Então, ela decidiu descobrir o que acontecia, e foi até a
Isso me deixou muito chateada.” veu uma péssima experiência no ano passado. “Parecia casa do aluno. “No endereço havia uma casa de lona,
João Flávio Gomes, aluno do segundo ano do ensino que a professora me excluía, principalmente quando com uma mulher bêbada deitada no chão, colchões
médio da rede particular de Uberaba, conta que já era para fazer trabalhos em grupo. espalhados pela casa e jovens de
presenciou diversas formas de violências praticadas por Eu ficava sem grupo, e ela dizia todas as idades”. Episódio do qual
colegas de classe contra outros alunos e se diz para eu me virar. Eu reparava que tirou a lição: “As crianças ditas
preocupado com as proporções que essas agressões era só comigo”, desabafa. Já deixei muito de perguntar. normais não precisam de mim. As
tomam: “São brincadeiras que começam meio que
inocentes e só se percebe que se tornaram problema professora, a aluna chorava prefiro nem levantar a mão
muito, enquanto seu rendi-

Como reação ao descaso da Se respondem de mau humor, que ninguém vê é que devo ajudar”.
Cedna ressalta que não é só o aluno
que precisa de ajuda, o professor
quando já é tarde”.
O que preocupa os educadores é que os adolescentes mento escolar baixava. “Sentia também. “Todas as escolas precisam
um frio na barriga, dor no estô- contar com uma equipe multi-
que sofrem as violências são jovens em idade de
formação do caráter. Assim, todas as perturbações mago e nenhuma vontade de ir pra escola”. A situação disciplinar, inclusive as de ensino superior”.
mudou somente quando sua mãe foi até o colégio Na Universidade de Uberaba (Uniube), o Grupo
durante esse processo tendem a influenciar
conversar com a professora. Mas as mudanças alme- de Apoio Pedagógico e Pesquisa (Gapp) possui uma
decisivamente o perfil do adolescente. Casos de
jadas por Eva vão mais além. Ela acredita que alguns equipe que atua na formação de professores de nível
estudantes que invadem escolas armados e matam
professores deveriam ser menos confusos, mais superior e básico, através do “Projeto Veredas”.
colegas e professores têm, em seu antecedente, em geral,
carinhosos e abertos às dúvidas dos alunos. “Já deixei Pedagogos e psicólogos trabalham no relacionamento
momentos em que foram vítimas do bullying.
muito de perguntar. Se respondem de mau humor, interpessoal de professores e alunos, desenvolvendo
Justamente por apresentarem essa característica em
prefiro nem levantar a mão”. potencialidades e a sensibilidade de educadores e
comum, o departamento de educação dos Estados Unidos Para Cedna Maria Silva Lellis, professora da rede educandos. “Nada melhor que a arte e o carinho para
procurou adotar um plano de combate ao bullying, que pública por 19 anos, é obrigação da escola compreender combater a violência. A arte promove mudanças
é seguido rigorosamente pelas escolas, na tentativa de as particularidades de cada aluno. Saber o que está além fantásticas”, diz Iolanda Rodrigues Nunes, professora
evitar a repetição dos massacres. No Brasil, grandes redes do seu muro. Ela lembra que, certa vez, na escola em integrante do Gapp.
de colégios particulares já adotam, nas suas atividades,
6 Revelação - Maio de 2007
Má educação

Te pego na saída
Brigas de alunos criam um clima de insegurança em escolas da cidade.
Regras claras e disciplina nas pequenas rotinas do dia-a-dia podem ajudar ambiente escolar.
Fotos: Geórgia Queiroz
Geórgia Queiroz
Renata Vendramini
3º período de Jornalismo

O imenso muro rodeado por cercas elétricas nos


lembrou a imagem de um presídio. Na fachada havia
um portão com uma pequena janela; foi através dela
que tivemos nosso primeiro contato com o porteiro.
Depois de nos apresentarmos, dissemos qual era o
nosso interesse e ele nos levou até a sala da direção.
No pátio, encontramos alguns alunos matando aula.
Subimos as escadas e avistamos mais uma grade
trancada. Tivemos que chamar a zeladora para abrir.
Muros, grades trancadas e cercas elétricas: essa foi a
primeira visão que tivemos de uma das escolas
públicas de Uberaba. Essa arquitetura é apenas um
sinal de uma situação que a cada dia preocupa mais
os profissionais da educação: a violência dentro das
escolas, que se realiza através de indisciplina, rixas
entre os próprios estudantes e enfrentamentos diretos
entre alunos e professores. Muros altos, grades e cercas elétricas indicam a sensação de insegurança nas escolas na cidade
Alguns docentes dizem que são diversos os motivos
para se iniciar brigas e discussões envolvendo alunos geral também são perceptíveis. “Os meninos da manhã indevidas para uma sala de aula. Estávamos na Escola
e professores. Uma diretora revela que já teve de se acham o máximo só porque usam tênis e blusa de Estadual Corina de Oliveira.
separar uma briga tão pesada entre alunas, por causa marca”, disse outro aluno. A diretora nos revelou que sua escola zela muito pela
de namorado, que no final havia montes de cabelos Mas para os estudantes, as brigas “emocionantes” segurança de seus alunos. Para ela, os professores têm
nas mãos das rivais. Algumas circunstâncias são acontecem sempre fora de sala; é na rua que os garotos que ter limites e os alunos regras claras a seguir. Tudo
pretextos comuns para desentendimentos. O ganham coragem para acertar as contas, momento que for exigido pela escola deve ser esclarecido aos pais
relacionamento com os homossexuais, para a maioria comum de se ouvir entre eles a frase: “Te pego na e aos alunos. “É devido a isso que estamos em primeiro
dos alunos, é sempre motivo de briga. “Os gays da saída!”. Houve caso em que uma professora teve de lugar no ENEM em relação a todas as escolas públicas
minha escola gostam muito de aparecer, são acompanhar dois alunos até de Uberaba”, enfatizou a
espalhafatosos e folgados demais. Se qualquer um suas residências, pois eles diretora. Percebemos que


deles fizesse uma brincadeira comigo, com certeza, eu estavam sendo ameaçados por o rigor na disciplina,
partiria para agressão”, diz um estudante. As gangues de fora da escola. A sociedade tem uma visão quando aplicado desde os
implicâncias com os alunos do turno matutino em Outros casos de indisciplina preconceituosa de que toda escola pequenos atos – como o
também têm preocupado a
comunidade escolar. Uma
professora de matemática e nem sempre esse pensamento

pública é sinônimo de desordem, caso das meninas sem
uniformes – parecem
criar um clima geral de
conta que já se deparou com é a realidade dos fatos. organização e de segu-
alunos consumindo bebida rança.
alcóolica dentro de sala de aula. De acordo com dados
“Cheguei a ponto de ter que da Secretaria de Edu-
pedir auxílio da direção, pois não tive controle sob a cação, o índice de violência nas escolas públicas de
situação, meus alunos gritavam, quebravam as carteiras Uberaba não está alarmante. “A sociedade tem uma
e em momento algum me ouviam”. visão preconceituosa de que toda escola pública é
sinônimo de desordem, mas nem sempre esse
Mas há bons exemplos pensamento é a realidade dos fatos”, afirma o
Mudando um pouco de ambiente, ao visitarmos Secretário da Educação, José Wandir. Ele conta
uma outra escola pública da cidade, percebemos que também que a escola é um ambiente onde, de certa
sua arquitetura externa já não parecia um presídio. O forma, é inevitável a ocorrência de tensões, pois lá a
portão eletrônico estava aberto, fomos entrando sem criança e o jovem começam a ter contato com colegas
medo. Encontramos uma zeladora andando no pátio, de diferentes classes, raças e culturas. Na convivência
que gentilmente nos levou à sala da direção. Lá diária eles aprendem como é viver em sociedade,
Regras claras e disciplina cotidiana deram bons encontramos duas alunas sendo advertidas, pois momento em que começam a surgir as primeiras
resultados na Escola Estadual Corina de Oliveira estavam sem o uniforme da escola e usavam roupas contradições.
Revelação - Maio de 2007 7
Guerra santa!

Insultos divinos
Disputas doutrinárias entre católicos e espíritas incendiaram imaginário de Uberaba
Fotos: Lívia Zanolini
Lívia Zanolini
3º período de Jornalismo

“(...) espiritismo, inimigo de Jesus Cristo (...)”


(Correio Católico, 1941).

“Catolicismo nojento e maldito”


(O Pântano Sagrado).

“Seita abominável e retrógrada,


malfeitora e inimiga da humanidade”
(O Pântano Sagrado).

“Doutrina estapafúrdia”
(Correio Católico, 1941).

“Seita nauseabunda e diabólica”


(O Pântano Sagrado).

“(...) não se pode levar à conta


de ignorância de Allan Kardec (...)”
(Correio Católico, 1941).

“Para traz, tartufos! Hipócritas! Serpentes!


Raça de Víbora!”
(O Pântano Sagrado). O semanário “Correio Católico” e o livro “Pântano sagrado” foram

“O diabo no espiritismo” intelectuais preparavam, ingeriam, compartilhavam Lutando ao lado do ideário espírita, aparece a figura de
(Correio Católico, 1941). pensamentos e vomitavam as idéias contrárias que lhes Doca, que dentre as obras que produziu sobre a cidade
eram ferozmente lançadas às entranhas. de Uberaba, escreveu “O Pântano Sagrado” (1948), um
“(...) monstro, cadáver ambulante, Geralmente, serviam-se os pratos mais azedos: os livro bastante agressivo que condenava rigorosamente
lixo pestilento” principais jornais religiosos “A Flama” (passando a se o Catolicismo, por acreditar que a religião era símbolo
(O Pântano Sagrado). chamar “A Flama Espírita”, na década de 1950) e o de perigo e corrupção. Ou seja, dia após dia, nos diversos
“Correio Católico”, além de livros que combatiam uma almoços e jantares realizados no casarão medieval, os
Estes são apenas alguns exemplos do que se passava doutrina ao passo que aplau- pratos doces e saborosos
na imprensa de Uberaba nas décadas de 1940 e 1950. dia outra. Os responsáveis eram raros, sendo substi-
São fragmentos de uma época que transporta o leitor a pela elaboração freqüente tuídos pelos bem tempera-
um assombroso castelo medieval, com paredes escuras desse cardápio eram espí- Um dos principais redatores de dos, apimentados e até amar-
e pouca iluminação, proveniente de alguns castiçais ritas como Dr. Inácio Fer- “A Flama”, Dr. Inácio Ferreira, gos ao paladar do oponente.
banhados a ouro. Um momento da história recente, reira ou apenas simpáticos à conduzia o jornal, juntamente aos Segundo uma memória
quando se vivia preso a uma realidade opressora de novas doutrina – tal como o anti- viva dessa época, Prof. Fausto
idéias, marcada pela obscuridade da tirania e pelos clerical e comunista Orlando “confrades” de doutrina, de maneira de Vito, que durante anos
poucos focos de luz oriundos de mentes rebeldes. Ferreira, mais conhecido basicamente combativa, criticando dedicou-se ao jornal espírita,
A imprensa simbolizava o vestíbulo e o salão como Doca – membros do duramente a religião católica. ainda em circulação –
principal da mansão medieval, onde doutrinas de clero, entre outros com- embora não mais de caráter
todos os tipos e oriundas de diversos cômodos da ponentes dessa disputa mais combativo –, as acirradas po-
fortaleza confrontavam-se. Eram os locais mais política do que religiosa. Eles lêmicas religiosas e dou-
iluminados, pois o choque entre as crenças religiosas, passavam horas dedicando-se às suas melhores receitas. trinárias contidas nesses jornais chegaram a extremos
estampado nas manchetes raivosas, esclarecia um Um dos principais redatores de “A Flama”, Dr. Inácio assustadores. Um exemplo disso foi quando a
pouco mais os cidadãos uberabenses sobre as Ferreira, conduzia o jornal, juntamente aos “confrades” autoridade episcopal, valendo-se do prestígio que o
características de cada uma delas. Mas era no de doutrina, de maneira basicamente combativa, Governo Ditatorial assegurava publicamente ao
momento das refeições que os confrontos ideológicos criticando duramente a religião católica. Por colaboracionismo da Igreja Católica no Brasil,
borbulhavam no centro do salão, chegando ao ápice conseguinte, recebia ataques não menos severos e hostis encaminhou uma denúncia ao Núncio Apostólico, no
da discussão. Era nessa hora que jornalistas, por meio do jornal “O Correio Católico”, dirigido pelo Rio de Janeiro, D. Aluísio Mazella, e conseguiu fazer
representantes da Igreja Católica, pensadores e Arcebispo de Uberaba, D. Alexandre Gonçalves Amaral. com que o Departamento de Imprensa e Propaganda
8 Revelação
Entenda o caso Laboratório...
A Pauta
Inicialmente, a pauta proposta discorria sobre a
Nas décadas de 1940 e 1950, Uberaba foi Mesmo depois de 1940 e 1950, os con- intolerância da Igreja Católica em relação ao
cenário de uma intensa disputa religiosa frontos continuaram, mas aos poucos foram Espiritismo nas décadas de 1940 e 1950. Contudo,
entre adeptos do Espiritismo e seguidores do dissolvendo-se, até a convivência pacífica que em entrevista ao padre Thomaz Aquino Prata, foi
Catolicismo. O jornal es- se tem hoje entre as reli- possível constatar que, na verdade, o que ocorria na
pírita “A Flama” (“A Flama giões. Livros como “O Pân- época era uma disputa pelo poder, na esfera
Espírita”, a partir da déca- Em o “Correio Católico”, tano Sagrado” e os periódi- religiosa, entre as ideologias católica e espírita. A
da de 1950) e o periódico dirigido por D. Alexandre, cos “A Flama” e o “Correio partir desse fato, a pauta passou a abordar as rixas
“Correio Católico”, rivali- Católico” fizeram parte de religiosas entre Espiritismo e Catolicismo, visto que
zavam por meio de artigos
as críticas não eram menos uma imprensa que perma- a intolerância estava presente em ambas as crenças.
combativos e ofensivos. ofensivas quando se tratava neceu queimando durante
Personagens como o espí- de afrontar os rivais anos pelas palavras em A apuração
rita Dr. Inácio Ferreira e o brasa dos líderes da luta Documentos pertencentes ao Arquivo Público de
comunista Doca defen- política. Uberaba: “Correio Católico” e “O Pântano Sagrado”
diam a doutrina espírita e censuravam o reprodução (1948). Os jornais espíritas “A Flama” da época não
Catolicismo. Em o “Correio Católico”, diri- foram localizados. Os entrevistados foram o padre
gido pelo Arcebispo de Uberaba, Dom Alexan- Thomaz Aquino Prata e o antigo redator (desde
1963) e diretor (de 1995 a 2003) do periódico “A
dre Gonçalves do Amaral, as críticas não
Flama Espírita”, professor Fausto de Vito, que hoje
eram menos ofensivas quando se tratava de
em dia não é mais atuante no jornal.
afrontar os rivais.
Um dos livros mais polêmicos que fizeram A reportagem
parte do cenário de combate foi “O Pântano A linguagem utilizada ao redigir o texto da
Sagrado” (1948), escrito por Doca, onde o reportagem foi inspirada no próprio estilo de escrita
autor, mesmo não sendo religioso, mostrava- empregado na época pelos líderes da disputa
se simpático à doutrina espírita. Agressiva- religiosa. Lideres não só católicos e espíritas, como
mente anticlerical, Doca, logo no início de seu também personalidades não-religiosas que fizeram
livro, expôs que não mediria palavras para parte do debate, acolhendo e defendendo alguma das
criticar a “perigosa” Igreja Católica, pois ideologias. Uma dessas figuras que se destacaram
acreditava que “entre os males causados ao Orlando Ferreira, autor de “Pântano Sagrado”, e foi Orlando Ferreira (Doca), autor da principal obra
mundo, o Capitalismo e o Catolicismo são os D. Alexandre, então bispo de Uberaba, carregavam inspiradora da estética explosiva e repleta de
recordistas”. na retórica para defender suas idéias metáforas desta reportagem.

(DIP) interrompesse, por tempo indeterminado, a


circulação do jornal espírita. O periódico permaneceu
inativo de 1942 a 1945.
Mesmo agora, depois de mais de meio século, o
castelo dos inimigos, apesar de mais iluminado e
repovoado por novos representantes das doutrinas,
felizmente mais tolerantes, encontra vestígios e ecos dos
escritos e pronunciamentos que tornavam o debate tão
sobrecarregado. Algumas obras dos antigos
representantes permaneceram guardadas, outras se
perderam, mas as que restaram são o suficiente para
demonstrar o quão importante foi a mediação da
imprensa nessas disputas políticas, que alimentavam a
busca por afirmação de cada doutrina, na cidade, a fim
de obter a hegemonia no âmbito religioso.
A “Ré infame” ou a “entidade maldita”, segundo a
visão de Doca do Catolicismo, e “o inimigo de Jesus
Cristo, inimigo do cristianismo”, representando o
pensamento católico, acerca do Espiritismo, registrado
nas várias edições de “O Correio Católico”, são apenas
ingredientes de algumas das principais iguarias
elaboradas por esses líderes. Analisando-as, percebe-
se que o atual convívio, praticamente harmônico, entre
as religiões, foi obtido à custa de inúmeras discussões e
de uma convivência conturbada entre os antigos
moradores do castelo, que pode ser considerado como
um palco revelador de um dos maiores embates
O espírita Fausto de Vito, redator do jornal “A Flama Espírita” na década de 1960, lembra-se das disputas doutrinárias
políticos da história de Uberaba.

o - Maio de 2007 9
TV universitária

Vender ou ensinar,
o que é que vai para o ar?
Às vésperas de completar 10 anos, emissora de Uberaba procura identidade
Carlos Finocchio
Tobias Ferraz “no ar” e diz que a TV não recebe subsídio para
3º período de Jornalismo funcionar como emissora cultural. Por isso, muitos dos
programas caracterizam-se por um perfil eminen-
Fazer televisão requer, além de talento e temente comercial - alguns até se utilizam aberta-
competência, uma quantidade respeitável de inves- mente do espaço para promoção de vendas. “A TV
timentos. A tecnologia do setor, que se renova diaria- Universitária tenta resgatar o cotidiano da cidade. Não
mente e com velocidade espantosa, promete uma nova fazemos mais por falta de estrutura”, lamenta Marcelo.
revolução quanto à forma e o formato de fazer e ver Segundo o gerente, um plano de recuperação
televisão. Diante deste momento histórico e indefinido financeira está em andamento, uma vez que o atual
da televisão no mundo, a TV Universitária de Uberaba reitor da UFTM, Virmondes Rodrigues Júnior, tem
procura sua identidade. demonstrado interesse em
Criada em meados dos anos acertar essas questões. Assim,
noventa para servir como Maluf diz que, se tudo sair
Falta de mão-de-obra e
instrumento de comunicação como planejado, a partir de
entre a então Faculdade de equipamentos ultrapassados meados deste ano, a TV pode
Medicina do Triângulo Mineiro são problemas que refletem ter condições de buscar novos
(FMTM), hoje Universidade diretamente na qualidade da recursos.
Federal do Triângulo Mineiro Em entrevista ao Jornal
(UFTM), e a comunidade ubera- produção e da programação. Revelação, o Reitor da UFTM
bense, a TV Universitária está disse que a TV Universitária
longe de cumprir as regras bási- precisa quitar dívidas que
cas que regem a filosofia das tevês universitárias – somam aproximadamente R$450 mil – “Boa parte
propagar a educação e a cultura e viabilizar a produção dessa dívida já está sendo solucionada. São dívidas
audiovisual. trabalhistas, junto ao FGTS. Com o INSS, já fizemos o
Naquela época, foi criado um conselho para refinanciamento. A TV precisa estar com certidão
gerenciar a Fundação de Rádio Educativa de Uberaba negativa de dívidas trabalhistas e previdenciária. E,
(FUREU). Desde então, a TV é ligada à Fundação e partir daí, buscar apoio cultural.” Por essas e outras,
não à Universidade. No ano passado, com nova gestão, a TV não faz parte da Associação Brasileira de
a Fundação procurou concentrar os esforços para a Televisão Universitária (ABTU). “Acredito na educação como agente transformador
recuperação financeira da emissora. O reitor usa de muita transparência para falar da sociedade e a TV Universitária tem muito
Falta de mão-de-obra, mesmo com os 21 funcio- sobre a Universitária: “Nosso calcanhar de Aquiles”, para contribuir com esse processo.”
nários que integram a equipe; equipamentos forma bem humorada, com a qual ele se refere à TV. Virmondes Rodrigues Júnior, reitor da UFTM
ultrapassados e com a vida útil comprometida por Muito bem articulado e consciente das dificuldades,
tantas e tantas horas de uso, são problemas que Virmondes Rodrigues não foge dos problemas e busca no formato não-linear. “Como houve progressos na
refletem diretamente na caminhos nesta “fase de área de gestão, temos um programa consistente de
qualidade da produção e da subsistência” em que recuperação da TV”, afirma o reitor.
programação. Existem cinco passa a TV. “A alternativa No dia sete de outubro, a TV Universitária
câmeras Super-VHS ( S-VHS, Muitos dos programas foi colocar uma progra- comemora 10 anos e, se depender de Virmondes, já
sistema de captação de caracterizam-se por um perfil mação demasiadamente poderá estar de cara nova e com uma programação
imagem analógico empre- comercial no ar. Hoje, os mais adequada e, talvez, até já fazendo parte da
gado na década de noventa e eminentemente comercial - alguns contratos com os pro- Associação Brasileira de TV Universitária. A nova fase
que não se popularizou entre até se utilizam abertamente do gramas são de, no má- promete mais qualidade, compromisso com a
as emissoras de TV), mas espaço para promoção de vendas. ximo, seis meses, para ter educação e maior interação com a comunidade
duas delas estão fora de maior facilidade de ajuste uberabense.
operação. As três câmeras em da programação.” Um importante passo à frente foi dado pela
condições de uso têm que dar E o foco está sendo direção da TV no mês de abril, com a contratação de
conta de atender à produção no ambiente de estúdio ajustado. Segundo o reitor, professores e estudantes Eduardo Ferreira para o cargo de gerente de
e nas gravações externas. da UFTM estão em fase de elaboração de projetos operações. Nascido e criado na capital paulista, desde
Marcelo Maluf tem o cargo de gerente de apoio culturais e educativos para implantação de novos criança acompanhava o pai no trabalho pelos
cultural da TV Universitária e, durante muito tempo, programas. Além disso, novos equipamentos estão estúdios da extinta TV Tupi, de São Paulo.
acumulou também a função de gerente operacional. sendo adquiridos, como uma ilha de edição e uma Profissional experiente, Eduardo trabalhou em várias
Ele encara uma luta diária para pôr a programação switcher (mesa para corte e transmissão ao vivo), já emissoras (Tupi, Band, SBT e Globo) e em grandes
10 Revelação - Maio de 2007
3º período de Jornalismo
“Entre aspas”
E aí?

Carla de Matos
“Uma TV pública é dirigida por
organismos da sociedade,
sem intervenção do Estado.
É mantida por diferentes formas
de financiamento que incluem, Visitamos o principal centro comercial e
desde apoio cultural, até recursos populacional de Uberaba, o calçadão da
do Estado, mas sem interferência. Arthur Machado, para saber o que as
pessoas dizem sobre programação da TV
E sem publicidade.” Universitária. A pergunta foi: Você assiste à
TV Universitária freqüentemente? Por quê?
Laurindo Lalo Leal Filho, professor da Escola de
Comunicação e Artes da USP, citado no site “Sim. Acho o canal muito bom. Sempre que tenho
Comunique-se, boletim de 15 de março de 2007. tempo, acompanho a programação da tarde. Apesar
de eu ser analfabeto, acho alguns programas legais e
de fácil entendimento. Eu só queria que pessoas como
produtoras da capital paulista e de Campo Grande, Universitária, mas o “tirou do ar” por desen- eu fossem mais valorizadas, mostradas e também
Mato Grosso do Sul. Ele explica que a prioridade é tendimentos com a direção da época. Ele lamenta o tivessem mais oportunidades para crescer.”
Gaspar Ferreira da Silva,
“adquirir equipamentos do perfil fortemente comer-
Vendedor de algodão doce.
século 21, dar a capacitação cial adotado, sem res-
necessária ao pessoal, ponsabilidade com a edu-
“Às vezes. Sempre que posso, acompanho os
colocar os salários em um Em outubro a TV Universitária cação, e afirma sentir uma
quadros políticos. O que eu mais gosto é o TV Câmara.
nível mais elevado e, a comemora 10 anos e, se depender sensação de desperdício, Isso porque o acho útil para a população, pois a
partir daí, cuidar da pro- diante da atual progra-
gramação”. O novo gerente
de Virmondes, já poderá estar de mação da emissora. “Pro-
equipe do programa quase sempre resolve problemas
rotineiros da sociedade local. O ponto negativo dessa
de operações pretende cara nova e com uma programação fessores, alunos e a comu- TV é que dificilmente são transmitidos desenhos e
construir uma base técnica mais adequada e, talvez, até já nidade de Uberaba estão jogos de futebol, o que a torna menos chamativa. E
bem estruturada para, a perdendo um espaço ainda a Rede Globo fez a cabeça de todos, e esse pode
fazendo parte da Associação
partir disso, trabalhar a fenomenal para fazer edu- ser o motivo do canal não ser muito assistido”.
nova grade de programa- Brasileira de TV Universitária. cação, cultura e arte.” O Márcio Fernando Getúlio,
ção. educador lembra ainda Professor de Educação Física.
Gente competente e com que a Universitária tem de
disposição para contribuir com uma programação trabalhar nos moldes das tevês comunitárias e ser a “Não. Porque não tenho tempo e também na
local de qualidade existe. Décio Bragança, educador e voz da comunidade de Uberaba – “O povo não está minha casa é antena parabólica e o canal não pega
professor universitário, já teve um programa na lá”, afirma o professor. muito bem. Mas minha avó, que mora no bairro
Munyque Fernandes Universitário, acompanha a programação do canal
5 principalmente aos domingos, porque ela adora
assistir a missa transmitida às nove da manhã”.
André Luis da Silva, Segurança.

“Sim, gosto muito dos programas e até os que eu


não agrado muito eu assisto. Adoro o programa do
Paulo Sarquis, pois acho as entrevistas e as dicas
muito interessantes. Também admiro o jornalista
Cacá Silveira, apresentador do programa Fala Cacá.
Acho que ele é uma pessoa cômica e que expõe em seu
programa polêmicas aproveitáveis; a única coisa que
lamento é a curta duração do quadro. Além disso,
acompanho o Fábrica, transmitido aos sábados.
Gosto muito desse programa porque admiro os
futuros jornalistas e acredito no potencial deles”.
Eliezer Silva, Aposentado.

“Não, porque acho a programação maçante. Porém,


quando estou à toa e não tem nada de interessante nos
outros canais, assisto o Canal 5. Uma dessas vezes,
assisti o Abracadabra, transmitido à meia noite. Apesar
do quadro não ter muito conteúdo, achei legal ouvir
sobre signos do zodíaco e além disso, o formato do
programa e a apresentadora são muito engraçados”.
Cynara Braga,
Décio Bragança defende que a TV Universitária deve ser voltada prioritariamente para a educação, a arte e a cultura Estudante do 10 período de Biomedicina.
Revelação - Maio de 2007 11
http://www.abtu.org.br
Comunicação para a sociedade

Como fazer a
diferença na TV
Televisões universitárias devem promover o conhecimento ABTU congrega as instituições de ensino superior
e aproximar o grande público da produção acadêmica que produzem televisão educativa e cultural

Paulo Henrique Santos protagonista. Em suma, a TV universitária deve programas que valorizem cada segmento da
3º período de Jornalismo incentivar a população a ter um olhar crítico sobre a sociedade, adequados às necessidades e expectativas
própria sociedade, compreendendo sua dinâmica e de cada um.

A
Associação Brasileira de Televisão servindo como elemento de transformação. As A produção jornalística também é muito valorizada
Universitária (ABTU) é um órgão que tem o instituições signatárias deste código, portanto, se nas TVs universitárias, e sua cobertura deve ser
objetivo de auxiliar e regulamentar as comprometem a seguir os princípios da ABTU, realizada sempre com independência, pluralidade e
emissoras de TV universitárias do país. Também se proporcionando informação, cultura, respeito aos também um teor pedagógico. Neste tipo de jornalismo,
empenha em congregar todas as instituições de ensino valores humanos e igualdade. ficar preso ao factual não é
superior que se dedicam a isso. São estes os pilares sobre os importante. O que vale é a
Desde a criação da primeira TV universitária do quais a programação das TVs A TV universitária deve incentivar exposição e reflexão dos
Brasil (a TV Educativa de Recife, em 1967), muitas universitárias deve basear-se. acontecimentos e de suas
universidades brasileiras se lançaram à empreitada a população a ter um olhar devidas conseqüências.
do audiovisual, pois este é um dos meios mais rápidos Sobre a programação crítico sobre a própria sociedade, Os programas da TV
e eficientes para que a produção acadêmica chegue à educativo-cultural universitária podem ser
população em geral. Quanto à definição de
compreendendo sua dinâmica produzidos tanto por profis-
A ABTU visa expandir a rede de televisões programas educativos e e servindo como elemento sionais, quanto por alunos,
universitárias no país, auxiliando as instituições que culturais, que devem ser a de transformação. professores, pesquisadores e
se dedicam a esse tipo de transmissão. A associação pedra-base da programação, intelectuais da área. Além de
orienta as universidades com apoio administrativo, os ministérios da Educação e educação e cultura, os con-
técnico e jurídico; serve como representante das Cultura dizem: teúdos devem incentivar o senso de cidadania. E ainda
mesmas junto a órgãos do governo; orienta quanto à “Art. 1º Por programas educativo-culturais que a grande audiência não seja o critério para medir
aquisição dos canais de TV e à produção da pro- entendem-se aqueles que, além de atuarem conjun- o sucesso destes programas, é claro que deve ser levada
gramação, que sempre deve ser voltada à informação, tamente com os sistemas de ensino de qualquer nível em conta sua atratividade, para que as pessoas se
educação e cultura. ou modalidade, visem à educação básica e superior, à interessem e se eduquem com a programação.
Qualquer instituição de ensino superior no Brasil educação permanente e formação para o trabalho,
pode filiar-se à ABTU, contanto que tenha uma além de abranger as atividades de divulgação A transformação da TV Educativa
produção regular de conteúdo televisivo de caráter educacional, cultural, pedagógica e de orientação A primeira categoria de TV Educativa foi criada em
informativo-cultural. profissional, sempre de acordo com os objetivos 1967, pelo Decreto-Lei 236, e vinha para contrapor à
Segundo a Carta de Princípios e o Código de Ética da nacionais.” televisão comercial brasileira, em rápida expansão na
ABTU, o compromisso É importante ressaltar época. Demorou até que essas TVs cumprissem com
maior das TVs univer- que alguns tipos de pro- seu objetivo plenamente, porque as universidades
Foto: Roosewelt Pinheiro/ABr
sitárias é tornar públicos gramas não mencionados acabavam sendo prejudicadas. Como o governo regula
os bens culturais, asse- neste artigo (como os de a outorga e distribuição de canais, por muito tempo
gurar que a informação e caráter recreativo ou espor- essas TVs serviram como um instrumento político, do
o conhecimento sejam tivo) podem enquadrar-se Estado, e deixaram de lado a premissa inicial de
difundidos, tendo em nessa definição, caso con- promover o conhecimento.
mente o desenvolvi- tenham enfoques educativo- Em 1995, a Lei 8977, ou Lei do Cabo, obrigou
mento das regiões onde culturais. Esta definição operadoras de televisão a criarem canais básicos de
as TVs atuam. Assim, a surgiu como uma neces- utilização gratuita, incluindo-se um canal univer-
televisão integra-se e sidade de estabelecer critérios sitário. As portas se abriram a partir daí, e as
passa a ser um cata- para a concessão de canais de universidades começaram a utilizar-se dos
lisador de mudanças. rádio e televisão que dizem equipamentos de seu núcleo audiovisual para esse fim.
Para que esta inte- orientar-se por finalidades As instituições de ensino superior viram na televisão
gração seja alcançada, o educativas. uma maneira inovadora e eficiente de extensão
Código de Ética serve A TV universitária deve acadêmica, inclusive servindo como área de debates e
como uma regulamen- Rede de Intercâmbio de Televisão Universitária (Ritu), ter a educação como um de exposição de teses. Hoje em dia, cerca de 100
tação dessas emissoras. foi lançada em dezembro de 2006 na sede da ABTU por seus parâmetros principais, instituições acadêmicas produzem conteúdo televisivo
Além disso, defende que representantes de universidades de todo o país pois sua meta é ter no país, o que levou à formação da ABTU.
o conteúdo transmitido conteúdo diversificado e Quando a universidade decide apoiar a pesquisa,
deve preservar as diver- rico, essencial na era do passa a comunicar os resultados para a sociedade e se
sidades culturais da região; servir como canal de conhecimento. Números de audiência e verba de dispõe a formular uma programação de qualidade,
diálogo e debate para a compreensão da sociedade, patrocinadores não são o objetivo principal destas voltada para a educação e a cidadania, todos ganham,
sempre levando em conta que o telespectador é o TVs: sua razão de existir é apresentar a seu público e um pilar da democracia se fortalece.
12 Revelação - Maio de 2007
Fotos: Danielle Maia
Pintou sujeira

Sociedade da
imundície
Sujeira espalhada pelo centro
violenta a urbanidade e indica
desrespeito pela própria cidade
Patrimônio histórico depredado no centro da cidade é uma ofensa à história de Uberaba

Danielle Maia “Se jogou um pacote de bolacha no chão, a mãe deve algum papel na lixeira, mas porventura não acertam,
Larissa Carvalho fazer com que a própria criança o coloque no lixo”. também não voltam para catá-lo. Dessa vez, por
3º período de Jornalismo Para Osiel, as pessoas só sabem reclamar, mas não vergonha de pegar. Mas a zeladora questiona: “Será
fazem nada para ajudar a melhorar. Um exemplo disso mais vergonhoso voltar e pegar o papel do chão e

S
ão 14h de mais uma quarta-feira ensolarada em são as inundações. “As pessoas reclamam das colocá-lo na lixeira, ou deixar o lixo onde caiu?”.
Uberaba. Andando pelas ruas do bairro Abadia, enchentes de Uberaba, mas não se cansam de entupir O pior de tudo é que todos os cidadãos concordam
é visível a sujeira espalhada no chão, nos os bueiros com os lixos que produzem”. que esse quadro de falta de educação para a
canteiros, nas praças e avenidas – enfim, por todos os Segundo o professor de História, Pedro dos Reis urbanidade precisa mudar, mas continuam agindo da
cantos. Do outro lado da rua, um carro sai da garagem. Coutinho, o único caminho para resolver esse pro- mesma maneira. Isso porque julgam o problema como
Da janela do veículo “voa” uma casca de banana, que blema é a educação. Somente por meio dela a banal, comparado aos que precisam enfrentar no dia-
cai na calçada e lá ficará por muito tempo, se depender sociedade chegará à cidadania. Coutinho observa que a-dia. A falta de tempo das pessoas é tanta que elas
da senhora comedora de bananas... as pessoas tratam o que é público acham que ao atravessar a rua
Seguindo rumo ao centro da cidade, nos como se fosse de ninguém; porém, para jogar um papel de bala na
deparamos com muros pichados, orelhões pintados deveriam perceber que o que é lixeira irão gastar um tempo
por corretivo escolar e casas antigas que fazem parte público é de todos. Assim, os
As pessoas tratam o que precioso. É muito mais cômodo e
da história de Uberaba totalmente depredadas. Tudo cidadãos devem preservar os é público como se fosse de rápido deixar no cantinho da
parece tão normal! Tantas pessoas passam por estes orelhões, o patrimônio histórico e ninguém; porém, deveriam calçada. No entanto, estudiosos
lugares! Será que ninguém percebe a violência que está manter a limpeza das ruas, assim sobre a urbanidade têm percebido
perceber que o que é
acontecendo? Do papel de bala jogado ao chão ao como fazem em suas casas. O que, quando a cidade fica suja e
amontoado de cartazes colados na parede da “velha” resultado disso será uma cidade público é de todos. mal cuidada, as pessoas tendem
casa, há uma grande falta de cidadania. Quem, ou o limpa e bonita. a desrespeitá-la ainda mais
que é culpado por isso? Familiares, escola, cultura, Andando pelo centro de Ube- através de vandalismo, depre-
população em geral? raba, encontramos muitos catadores de papel. Wilson dações e outros tipos de violência. Ou seja: uma casca
Para o vendedor de trufas, Osiel Santos, e para a Roberto, que trabalha na praça Rui Barbosa há mais de banana jogada pelo vidro do automóvel é uma bola
vendedora de sorvetes, Mirian Pimenta, que tra- de dois anos, conta que às vezes os próprios catadores de neve que, ao tornar-se um hábito social, pode
balham no calçadão, esses costumes são pura falta de ajudam a espalhar a sujeira. Segundo ele, alguns comprometer a qualidade de vida na cidade. Por isso,
educação. E para ambos, a raiz está em casa. “Eles trabalhadores, ao procurarem algo no lixo, jogam o é sempre melhor combater esses problemas quando
passam ao lado das lixeiras e têm a capacidade de jogar que não lhes interessam no chão, sem se importar com eles ainda estão aparentemente inofensivos. São as
os papéis no chão”, comentam. Para Mirian, é desde a poluição. Ele também conta que a vida já lhe rendeu pequenas práticas cotidianas que transformam a vida
criança que estes maus hábitos devem ser corrigidos: muitas histórias. “Até que o lixo de Uberaba é bom, da cidade.
sabia?! Um dia desses encontrei um computador e até
um relógio dentro de alguns deles!”.
Uma varredora de rua, que preferiu não se
identificar, percebe que as pessoas não se sentem na
obrigação de preservar a cidade. Sendo assim, acabam
jogando lixo no chão e poluindo o meio ambiente. “É
impressionante a falta de consciência de algumas
pessoas. Foram colocadas várias lixeiras pelos bairros
e, mesmo assim, elas insistem em jogar o lixo no chão.”
Contudo, ela observa também que, depois do aumento
das lixeiras, a limpeza em geral melhorou.
Andando um pouco mais, rumo ao Shopping
Uberaba, outro ponto muito freqüentado, essa
realidade é um pouco diferente. “As pessoas que
freqüentam o shopping parecem ter vergonha de jogar
Wilson Roberto, catador de papel, conta que às vezes o lixo no chão”, afirma uma zeladora. No entanto, ela Varredora de rua percebe que os cidadãos
os próprios colegas espalham lixo pela cidade diz que, muitas vezes, quando as pessoas arremessam não se sentem na obrigação de cuidar da cidade

Revelação - Maio de 2007 13


Em terra de cego...

O parafuso condena
Conheça alguns truques de vendedores que querem “passar a perna” no cliente
Fotos: Luiz Carlos Vieira

Comprar “no escuro” é sempre uma fria. Consumidor deve estar atento aos detalhes de produtos de mostruário

Caio Aureliano e uma boa pesquisa antes de realizar a compra lojas. A loja “X” lhe apresenta uma máquina de
Diego Pierazzo contribuem para a decisão bem fundamentada. lavar meias. Isso pode ser novo para você, mas não
3º período de Jornalismo O consumidor deve ter em mente o produto, marca para as concorrentes que, talvez, lhe apresentarão
e modelo que deseja comprar. melhores propostas. Porém, como sugerido,

N
a ansiedade de efetuar É certo que o lojista, ao explicar analise a real necessidade de consumir, para que
uma compra, princi as qualidades de certo produto, não ocorra o fenômeno “dissonância cognitiva”, ou
palmente quando qua- Quando o produto está sutilmente, identifica o perfil seja, o arrependimento pós-compra...
lidade e preço aparentemente próximo do prazo de validade, do cliente e fala o que ele quer
nos agradam, muitas vezes o supermercado encarrega-se ouvir, de modo a “dar o bote”. Cuidados com
caímos em algumas arma- Há uma dica interessante para as prateleiras
dilhas. Melhor dizendo, corres-
de incentivar seu consumo lidar com este tipo de “cilada”. O consumidor deve ficar muito atento aos produtos
pondemos aos objetivos tra- por meio de promoções. Na verdade, trata-se de uma de mostruário. Ele parece novo? Está sujo, encardido
çados pelos vendedores, que já disposição de espírito que o ou riscado? Os lacres estão violados? O cliente pode
percebem nosso interesse antes consumidor deve ter consigo. O perguntar para o vendedor por quanto tempo tal
de nós mesmos. Diz um provérbio árabe: “Na primeira cliente deve acreditar, mesmo que não seja verdade, produto está à mostra. Contudo, é bom sempre
vez que me enganar é sua culpa. Na segunda, será que existem milhões de ofertas e modelos melhores, duvidar da palavra do vendedor. Segundo uma
culpa minha”. No momento da compra, portanto, o mais baratos, e que irá pensar profissional do ramo, não é
consumidor deve manter-se bastante atento em mais sobre a proposta. Futu- incomum que alguns produtos de
relação a alguns procedimentos. ramente, poderá voltar à loja, mostruário sejam frutos de
Em um bate-papo com profissionais da área, com uma decisão mais sólida. Segundo a vendedora, é devolução. Um consumidor
encontramos algumas dicas que podem ser valiosas Mas antes de tudo, é bom comum encontrar produtos qualquer não se satisfaz, se
para quem não quer ser enganado. O primeiro ponto percorrer vários estabeleci- à venda em mostruários arrepende pela compra ou não
que o consumidor deve prestar atenção é sobre a mentos – no mínimo cinco – que pode pagar, devolve o produto e...
verdadeira necessidade de adquirir tal produto. ofereçam produtos similares e que já passaram até por voilá, logo ele está nas prateleiras.
Trabalhar racionalmente esta questão é a melhor que atendam às expectativas de assistência técnica. Segundo a vendedora, é
medida. Uma vendedora de equipamentos eletrônicos, preços. comum encontrar produtos à
que preferiu não se identificar, disse que o No caso de um produto que venda em mostruários que já
comportamento do cliente anuncia o que ele quer não estava nos planos, mas que – quem sabe? – passaram até por assistência técnica. “O parafuso! Ele
desde o momento em que entra na loja. Portanto, a pode ser útil, lembre-se de que o fato de des- condena”, comenta um outro vendedor, que também
tranqüilidade, a segurança, a estabilidade emocional conhecê-lo não o impede de pesquisá-lo em outras preferiu não se identificar, ao ser indagado sobre como
14 Revelação - Maio de 2007
reconhecer um produto usado sendo vendido como setor. O DVD player, por exemplo, em preço pro-
novo na prateleira. Segundo ele, equipamentos que mocional, atrai o consumidor que, com dois ou três
contêm parafusos, quando abertos, ficam sempre com meses a mais no crediário, será instigado a adquirir
o sinal da chave de fenda, por mais cauteloso que tenha o home theater, compensando o desconto do
sido o trabalho do técnico. primeiro.
Questionada sobre o que mais irrita em vendas, uma
profissional menciona o fato de ser obrigada a vender Ponta de estoque
produtos “ruins”, o que afeta até mesmo a própria É difícil encontrar produtos de marcas conso-
índole. “O produto é vendido lidadas em ponta de estoque.
de manhã. À tarde, o cliente Se existe, atenção: pode haver
volta. E a culpada acaba um pequeno defeito ou o
sendo eu”, explica a ven- Descontos e brindes são recursos produto está prestes a sair de
dedora. normalmente já previstos na linha. Quanto às marcas não
tão conhecidas, há uma
Ofertas de produtos
estratégia do vendedor. Nem interessante observação.
Em caso de promoção em sempre é vantagem para quem Muitos equipamentos levam
produtos alimentícios, é compra. Às vezes, um brinde um nome diferente; porém,
sempre bom verificar a data
ruim substitui um bom desconto. sua arquitetura interna está
de validade – principal- repleta de componentes de
mente em boas marcas, que marcas com ótima qualidade.
não necessitam de promoção Nesse caso, para não comprar
para aumentar as vendas. Em geral, quando o produto “gato por lebre”, uma breve pesquisa é sempre muito
está próximo do prazo de validade, o supermercado bem-vinda. Na Internet, pode-se obter dados, ou
encarrega-se de incentivar seu consumo por meio de talvez um amigo já tenha alguma experiência com o
estratégias promocionais. produto.
Supermercados têm uma prática tradicional de Descontos e brindes são recursos normalmente já
baixar preços de produtos específicos, de modo a previstos na estratégia do vendedor. Nem sempre é
atrair clientes. Assim, o vantagem para quem compra.
consumidor acredita que o Às vezes, um brinde ruim Consumidores devem conferir a data
fato de o litro de óleo, a substitui um bom desconto. O de validade de produtos em promoção
É difícil encontrar produtos
margarina e a massa de professor do curso de
tomate estarem a “preços de marcas consolidadas em Comunicação da Uniube e
imbatíveis” – expressão uti- ponta de estoque. Se existe, consultor de empresas, Paulo clientes atuais, etc. A longo prazo, pode causar a
lizada na maioria das propa- atenção: pode haver um Fernando Rocha Ventura, diz impressão de que o brinde compõe o produto, desvalo-
gandas –, faz com que macar- que o uso excessivo de brindes rizando-o”, explica o professor.
rão, o pão e a maionese tam- pequeno defeito ou o produto tende a tornar-se uma estra- Consumidor. Vendedor. Produto. Afinidades que se
bém estejam. O que não é está prestes a sair de linha. tégia arriscada para a empresa, dissolvem em um “tabuleiro de xadrez”. Em uma boa
verdade. Muitas vezes, a pois, com essa prática, pode relação, exige-se muita percepção das duas partes. Para
promoção de alguns pro - haver uma desvalorização do o consumidor, determinada marca ou empresa pode
dutos serve como isca para induzir o cliente a entrar produto. “A curto prazo, o brinde é salutar quando se representar um sonho, uma fantasia, um ideal de vida.
na empresa e consumir além do que está sendo trata de uma estratégia específica, como alavancar Para a maioria das empresas, o consumidor é apenas
anunciado. Esta estratégia é adequada a qualquer vendas, gerar maior conhecimento da marca, fidelizar um número que se relaciona em análise de mercado.

Revelação - Maio de 2007 15


Entre os melhores do Brasil

Alunos de Comunicação são


finalistas na Expocom Sudeste
Estudantes da Uniube emplacaram sete trabalhos na mostra regional

S
ete trabalhos realizados por treze estudantes de
Comunicação Social da Universidade de
Uberaba (Uniube) são finalistas na Expocom
Sudeste, uma das mais importantes mostras de
trabalhos universitários do país. Os destaques são os
trabalhos na área de vídeo e de quadrinhos.Os
trabalhos foram orientados pelos professores Celi
Camargo e André Azevedo da Fonseca, e contaram “Sobre Vidas e Fósseis”, de Mario
com apoio técnico de Emerson Ferreira, Luiz Cledson Sergio Silva, César Antonio e Diego Aragão
é finalista na modalidade Vídeo Científico
Lemes Prata, Cícero Francisco Pereira e Renê Vieira.
O coordenador do curso de Comunicação Social da
Uniube, Raul Osório Vargas, ficou feliz com a “Fábrica”, de Marília Rodrigues
classificação de tantos trabalhos na Expocom. “É bom (com o cinegrafista René Vieira),
ver os alunos crescendo. Isso mostra que o projeto é finalista na modalidade Vinheta de TV
pedagógico do curso está no caminho certo:
incentivando uma comunicação crítica, humanizada,
que resgata a história cultural da cidade, além de
possuir narrativas nas diferentes mídias”. Raul se
refere à variedade de trabalhos aprovados: de
reportagens científicas às histórias em quadrinhos.
“Nossa proposta é incentivar o aluno à
experimentar os diferentes suportes midiáticos, algo
que faz diferença no mercado e vai ajudá-lo quando
“Sinais” , de Laura Facury e
estiver lá”. Para o coordenador, os professores Luis Felipe Pimenta, está
também são fundamentais. “Nós temos professores “Aruanda. O Ritual Sagrado”, classificado na modalidade
que não só estiveram no mercado, mas que têm uma de Rodrigo Antônio Matos, Bruna Vídeo-Minuto
reflexão profunda e bagagem cultural.” E quanto às Belela, Luís Antônio Costa Junior e
próximas etapas e concursos o coordenador garante Soraya Borges concorre na
modalidade Vídeo-Reportagem
“Vamos além!”.

“Lula e Bush em Brockeback Montain”,


de Rogério Maruno Mesquita,
concorre na modalidade Charge

“RAFA, de Malhação”,
de José Adolfo da Silva Júnior,
é finalista na modalidade
“Arqueologia do Quintal”, Caricatura
de Pâmela Mendes Moreira, está classificado
na categoria História em Quadrinhos