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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS

CENTRO DE LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO


FACULDADE DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA

Formar a Opinião - O novo jogo político


Patrick Champagne
Champagne, Patrick. Formar a Opinião - O novo jogo político.
Petropolis : Vozes, 1998, p. 251-262
4.1 Conclusão
A discussão propriamente científica sobre o valor das sondagens
de opinião não apresentaria dificuldades particulares e poderia ser
encerrada rapidamente se, nesse campo, os obstáculos não tivessem sido
menos intelectuais do que sociais. Com efeito, eis o que complicou, de
saída, um problema que, no final de contas, era simples: o debate científico
sobre a “opinião pública” foi deslocado para o terreno político e, por
conseqüência, tende a ser resolvido pela capacidade propriamente social
das partes envolvidas na luta para imporem suas definições. Na política, as
aparências dão sempre razão às aparências já que conseguir levar a
acreditar contribui para fazer com que algo exista. Como seria possível que
os profissionais das pesquisas de opinião não tivessem percebido como
uma vitória científica o fato de que todo mundo — incluindo os sociólogos
— está de acordo em afirmar que a “opinião pública” produzida pelos
institutos de sondagem “existe”, embora o sociólogo considere isso como a
simples verificação de uma realidade social? No debate sobre a “opinião
pública”, tais profissionais parecem ter razão; no entanto, não é pelas
razões em que acreditam: pensam avaliar objetivamente um fenômeno
quando, afinal, limitam-se a lhe dar sua forma histórica particular.
Ciência e política
Com efeito, a força social dos institutos de sondagem reside no fato de que, situando-se sua atividade entre a
ciência e a políticas podem trocar à vontade de terreno. A resposta dos profissionais das pesquisas de opinião aos
especialistas das ciências sociais que, de um ponto de vista estritamente científico, criticam suas pesquisas rápidas,
sumárias e inutilmente repefitivas, limita-se a invocar argumentos de natureza política: pretendem fazer unicamente o
que faz a lógica democrática. Daremos apenas um exemplo de tal argumento que, atualmente, tais profissionais colocam
em evidência para justificar seus procedimentos de pesquisa e que é considerado por numerosos especialistas como
suficiente para fazer as vezes de argumento decisivo. Ao examinar a crítica de Pierre Bourdieu, já evocada na
introdução deste livro — mostrando que as pesquisas de opinião postulavam que todo mundo tem uma opinião
sobretudo, que todas as opiniões são equivalentes e têm a mesma força social (em particular, pelo simples fato,
aparentemente técnico, de adicioná-las e reduzi-las a uma porcentagem) — Michel Brulé, diretor de um grande instituto
de sondagens (e também cronista de uma estação de rádio privada na qual comenta as sondagens realizadas por seu
instituto sobre o “moral dos franceses”), em recente obra consagrada às sondagens “refutava” essas objeções da
seguinte forma: “Não vemos bem a razão pela qual a avaliação da distribuição das opiniões a respeito de determinado
tema pressuporia que todas as opiniões fossem equivalentes. (...) Sabemos perfeitamente que a resposta do engenheiro
da EDF1 e a do consumidor de gás [a propósito das centrais nucleares] não se baseiam na mesma quantidade de
informações. Isso não impede que ambos sejam cidadãos implicados nessa escolha e com o direito de darem a conhecer
a respectiva posição, nem que esta seja baseada no senso comum cm vez de um saber aprofundado. Aliás, os
especialistas estão longe de chegar a um acordo entre si e, quando estão em jogo investimentos importantes, por que
razão o simples contribuinte não teria direito de dar sua opinião?2 Embora este autor aceite como uma evidência trivial
do senso comum que “nem todas as opiniões sejam equivalentes”, o exemplo escolhido incidentalmente para ser
comentado mostra uma compreensão totalmente enviesada da análise do sociólogo. Com efeito, quando este observa
que “nem todas as opiniões são equivalentes”, não emite um julgamento pessoal sobre o valor intelectual de tais
opiniões. Seria um julgamento de valor, uma opinião política sobre a maneira como devem ser julgadas as opiniões dos
“cidadãos”, assim como o peso que convém dar-lhes do ponto de vista político. O sociólogo faz a simples constatação
— que pode ser criticada ou aprovada de um ponto de vista político — que aforça social das opiniões dos diferentes
grupos sociais é muito variável e, em particular, depende da força social que esses grupos têm à sua disposição. Aliás, o
profissional das pesquisas de opinião faz com que a discussão abandone rapidamente o terreno científico, no qual

1
N.T.: sigla de “Eletricidade da França”, ou seja, a empresa pública que se ocupa da distribuição da energia elétrica.
2
M. Brulé, L’empire des sondages. Transparence ou tuanipulation?, op. cit., p. 204. No mesmo sentido, ver também A.
Max, La république des sondages, Paris, Gallimard, 1980 (Col. “ldées”).
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permaneceu tão pouco tempo, passando diretamente para o terreno da política: proclama de forma explícita que se deve
partir do postulado que, precisamente, algumas linhas mais acima declarava como inaceitável já que justifica a validade
das sondagens exclusivamente do ponto de vista dos valores democráticos (“o direito de todos os cidadãos contribuintes
de darem sua opinião”), acusando implicitamente, de passagem, o sociólogo por não reconhecer e admitir os valores
universais da democracia.
Os profissionais das pesquisas de opinião confundem o que existe de fato com o que é normativamente
apresentado como devendo ser. Ora, as ciências sociais não têm de ser, enquanto tais, “democráticas”, o que não impede
que, em outros contextos, o sociólogo possa aceitar os valores democráticos3. À sua maneira, a política fabrica, por
necessidade prática, espécies de artefatos sociais ao adicionar — no correr de procedimentos institucionais bem
determinados (por exemplo, eleições e referendos) — opiniões que são idênticas apenas do ponto de vista formal. Ora, a
tarefa dos especialistas das ciências sociais não é legitimar cientificamente tais artefatos que têm valor e eficácia
políticos peculiares. De fato, a posição dos cientistas políticos apóia-se em uma falsa compreensão — perfeitamente
compreensível para o sociólogo — do ponto de vista sociológico. É quase consubstancial à visão politológica e
encontra-se ainda mais fortemente presente nas publicações com pretensão científica, como é possível ver, por exemplo,
nos artigos de Alain Lancelot que constituem uma referência. Sem chegar a examinar o problema em sua dimensão
técnica, escreve, de saída, que “as principais críticas formuladas contra as sondagens de opinião podem ser igualmente
utilizadas contra o sufrágio universal”; portanto, segundo a lógica propriamente política de fazer amálgama que, aliás, é
também a das sondagens, não se deve dizer e fazer nada contra as pesquisas de opinião porque, afirma ele, “criticar as
sondagens é criticar a democracia”4.
Inversamente, aos políticos que estão bem posicionados para denunciar a intrusão no jogo político desse novo
ator cuja existência não estava prevista pelas instituições e que faz política com a autoridade da ciência, os profissionais
das pesquisas de opinião respondem situando-se em um terreno que afirmam ser estritamente científico. Têm a
pretensão de se limitar a avaliar a “vontade popular” melhor do que as técnicas tradicionalmente à disposição dos
políticos quando, na realidade, foram eles e seus financiadores que modificaram profundamente o próprio
funcionamento do campo político: no momento da generalização dessa prática no final dos anos 60, tal situação é
testemunhada pelos comentários dos juristas e, em particular, dos especialistas do direito público que temiam que as
sondagens fizessem as vezes das eleições e, nas revistas profissionais, estabeleciam a comparação entre “sondagens”,
“referendos” e “eleições” para assinalar as respectivas diferenças e, sobretudo, confinar as sondagens em um papel
institucionalmente marginal. A multiplicação das sondagens sobre qualquer assunto, no final dos anos 60, suscitou
reações de rejeição ainda mais vivas; no entanto, dessa vez, tal atitude manifestou-se em certos segmentos da classe
política que viram nessa técnica, com razão, a chegada de um novo concorrente que vinha tumultuar a autonomia
relativa de reflexão (ou de jogo), já frágil, dos políticos.
Realizadas atualmente a toda hora e sem serem contestáveis do ponto de vista técnico, as sondagens de
intenção de voto tendem, no entanto, a colocar em questão de forma parcial os resultados obtidos nas urnas. Essa prática
das sondagens — com interesse científico quase nulo, mas elevado rendimento político — coloca, com o próprio
espírito do sistema político representativo, a vida política em situação de “eleições permanentes”: embora os deputados
sejam legalmente eleitos por cinco anos, sua legitimidade depende, daqui em diante, de maneira crescente, dos
resultados das sondagens eleitorais efetuadas praticamente todos os meses, e das cotas de popularidade. Os governos já
não têm a duração de uma legislatura para “mostrarem serviço” e serem julgados “a partir de seu trabalho concreto”,
mas são submetidos a uma especie de apreciação cotidiana que nem tem a seu favor o fato de ser uma avaliação “da
base”. O que se exprime, nos índices publicados e comentados amplamente pela imprensa e analisados nos estados-
maiores políticos (índices de “aprovação da política do governo”, de “confiança”, de evolução da “relação
direita/esquerda” etc.), ainda são, em grande parte, os efeitos das estratégias manipuladoras dos profissionais da política

3
Esse mal-entendido está muito generalizado porque a sociologia é lida bem para além do círculo estreito dos especia-
listas. Por exemplo, falar de cultura “legitima” não é dizer que, pessoalmente, o sociólogo a considera fundamentada em
ser legítima, mas somente que existem na realidade social observável graus de legitimidade cultural que são objetiva-
mente observáveis e susceptíveis de serem avaliados. Da mesma forma, mostrar que a igualdade de direito perante a
escola — que é proclamada pela ideologia republicana — não implica necessariamente a existência de uma igualdade
de fato e, até mesmo, torna possível a ideologia do dom que consagra e reforça essas desigualdades de fato, não é tomar
posição a favor ou contra a “igualdade de oportunidades” de acesso Universidade. Muitas vezes, as aparências se vol-
tam contra o sociólogo: quando diz o que é a realidade do mundo social, corre sempre o risco de ser o legitimador do
que existe.
4
Ver os dois artigos arquetípicos de A. Lancelot, “Sondages et démocratie”, in Soltes, Opinion Publique 1984, op. cit.,
p. 257-267, e “Sondages d‘opinion e suffrage universel”, in Commentaire, 10, verão de 1980, p 214-219.
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que tentam extorquir dos profanos respostas fora de seu contexto e que são reinterpretadas em função de seus próprios
interesses. As eleições não passam de pontos entre outros nas cotas de popularidade ou intenção de voto5.
A relação de delegação instituída pela eleição é colocada em questão ainda mais profundamente pela
multiplicação das sondagens que visam resolver diretamente, sem debate ou discussão, por indivíduos atomizados e, em
sua maior parte, não informados, qualquer problema da atualidade ou proveniente das preocupações internas à classe
política (deverá ser abolida ou não a pena de morte? será necessário instaurar forças armadas de carreira? criar um
estatuto de “diretor” nas escolas primárias? deverá ser favorecida a integração dos trabalhadores imigrantes? quem tira
proveito da coabitação? qual é o melhor candidato para a esquerda ou para a direita nas próximas eleições
presidenciais? etc.). Tendo sido eleitos para elaborar com conhecimento de causa o que deve ser a “vontade popular”, os
políticos sofrem a concorrência dos institutos de sondagem que parecem tornar possível uma espécie de “democracia
direta” ao interrogarem assim, no dia-a-dia, “amostras representativas de cidadãos”. A própria existência dessas
sondagens e a credibilidade científica que lhes é atribuída pelos atores do campo político-jornalístico implicam um
deslocamento parcial do “trabalho político”: as personalidades que eram eleitas exclusivamente por sua suposta
competência para tratar dos problemas políticos devem, atualmente, despender uma energia específica para acreditar e
levar a acreditar, com a assistência de conselheiros em comunicação, que as medidas que prcconizam após reflexão e
análise, são idênticas às que desejam espontaneamerite a maioria dos cidadãos. Embora os efeitos exercidos pela
publicação regular dos resultados desses mini-referendos permaneçam em sua maior parte ainda limitados, já que os
políticos não estão dispostos a abdicar o poder que receberam ao serem eleitos, temos de reconhecer que a própria
existência de tais dados que tem a seu favor as aparências da objetividade científica acaba interferindo na função de
representação em sua definição tradicional (isto é, quase jurídica); além disso, tende a restringir a autonomia de
deliberação dos parlamentares que procuram — por vezes, de forma mais inconsciente do que consciente — se
harmonizar com essa “vontade popular” produzida pelas sondagens (para não fazer referência àqueles parlamentares
que tentam antecipá-la).
Os cientistas políticos pretendem fazer progredir a democracia e lembram que os institutos de sondagem não
existem nos regimes totalitários. Ora, a democracia está, atualmente, menos ameaçada pelo totalitarismo evocado como
um espantalho pelos cientistas políticos do que pela demagogia e cinismo encorajados diretamente pela prática das
sondagens. As que são realizadas antes das eleições e dão, nas semanas que precedem os escrutínios, as respectivas
posições dos candidatos e as categorias sociais que os defendem permitem, sem dúvida, uma certa racionalização nas
estratégias de campanha dos diferentes candidatos; no entanto, favorecem ainda mais uma atitude manipuladora que já é
fortemente exigida pela lógica política. Na ausência de qualquer pesquisa de opinião que permita saber o que os
eleitores desejam, os políticos deveriam, pelo menos, confiar em suas convicções que, para eles, serviriam de “bússola
interior”, segurança psicológica e programa político. Quando os cientistas políticos e os profissionais das pesquisas de
opinião vendem seus serviços, como fazem atualmente, para descobrir através de sondagens, à maneira dos especialistas
do marketing econômico, os temas que “têm maior aceitação” entre os eleitores, a fim de ajudarem os políticos a
elaborar um discurso político que, na maior parte das vezes, só é válido durante o tempo da campanha eleitoral, estão
favorecendo nestes últimos a preocupação em seduzir e priorizam a demanda — tal como é apreendida pelas sondagens
— em relação à oferta política. Longe de clarificarem os debates políticos e fazerem surgir os verdadeiros problemas, os
cientistas políticos levam a fabricar campanhas eleitorais que se assemelham porque são elaboradas a partir das mesmas
pesquisas e inspiradas pelas mesmas preocupações. Enfim, as sondagens não permitem compreender melhor as diversas
categorias de eleitores em sua relação com a política, mas somente conhecer melhor como “armar-lhes ciladas”. E a
denúncia periódica, feita pela própria imprensa, dessas práticas demagógicas acaba contribuindo, no final de contas,
para alimentar um antiparlamentarismo insidioso que pode servir de trampolim a demagogos muito mais perigosos para
a democracia.
Nem por isso as ciências sociais estão fora da política. No entanto, devem ser ciências da política, isto é,
ciências que não estão “envolvidas” na luta política, no sentido estrito da expressão, mas que permitem compreendê-la
melhor. As ciências sociais participam do campo científico com seus imperativos peculiares, e não do campo político. A
análise sociológica deve ajudar a fazer ver, de outra forma, as coisas que, muitas vezes, são tão familiares para nós que
não conseguimos vê-Ias verdadeiramente, e tentar fazer descobrir o jogo político, como se se tratasse de um observador
exterior. “A familiaridade embota nossos sentidos”, já dizia Montaigne6. A sociologia deve permitir levar o mais longe
possível a difícil visão reflexiva sobre o mundo social e favorecer a “desfamiliaridade” que permite tomar como objeto
as próprias categorias de nossa percepção propriamente social da política.
Uma dominação “generalizada”

5
Neste aspecto, é significativo que os comentários dos resultados eleitorais comparam os resultados obtido não em
relação às eleições precedentes mas em relação às últimas sondagens: nessa lógica, um “bom” resultado é o que é supe-
rior às estimativas dos institutos de sondagem.
6
Montaigne, Essais, livro 1, capítulo XXIII.
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Na política, a análise sociológica é tanto mais indispensável na medida cm que os sistemas de dominação
tendem a ser cada vez mais complexos. A força do que é, assim, progressiva mente instaurado sem que ninguém o tenha
explicitamente concebido e desejado como tal reside na multiplicidade das formas cruzadas de dominação que vão
sendo engendradas. Sabemos que, cm matéria de trocas matrimoniais, os etnólogos opõem os sistemas com troca
restrita (a tribo A dá suas mulheres à tribo 8 que, em retomo, fornece à tribo A suas próprias mulheres) aos sistemas
com troca generalizada (a tribo A dá suas mulheres à tribo B que as dá à tribo C, etc.). Esse modelo de circulação de
mulheres é, de fato, um modelo generalizado que pode ser aplicado à circulação de outras espécies de bens do mundo
social (as resenhas elogiosas de livros na imprensa, as citações de complacência nas notas ao pé da página, as trocas de
serviço, a circulação de bens entre gerações, os sistemas de seguro social e de regimes de aposentadoria, etc.). A troca
generalizada ou, em outros campos, a extensão do circuito de legitimação (A fala bem de 8 que fala bem de C, etc.)
transforma o modo de dominação produzindo espaços sociais cujas dimensões são demasiado amplas para serem
integralmente controladas por certos agentes sociais. No entanto, instaura uma divisão do trabalho de dominação muito
mais eficaz do que todos os controles centralizados, demasiado visíveis e impositivos para terem a possibilidade de
durar. “A interpenetração dos planos e atos humanos pode suscitar transformações e estruturas que não foram projetadas
ou criadas por ninguém”, escreve Norbert Elias. “A interdependência entre os homens dá origem a uma ordem
específica, mais imperiosa e exigente do que a vontade e a razão dos indivíduos que a presidem”7. Essa troca alargada
tende a substituir a censura explícita pela autocensura, isto é, pela submissão aceita e, até mesmo, quase sempre,
reconhecida, às leis anônimas do mundo social. O que podemos assim, por analogia, chamar “dominação generalizada”
é este novo modo de dominação que tende a se difundir: no interior de uma classe dominante que, atualmente, é
bastante diferenciada, cada parcela domina um pouco as outras e, ao mesmo tempo, está fortemente dependente delas.
Entre os dominadores, ninguém consegue ter um domínio completo: o que domina é a configuração singular que, em
determinado momento do tempo, é formada pelos diferentes campos participantes do poder.
Esse modo de dominação é, sem dúvida, menos brutal do que no momento em que a dominação monopolizada
por uma parcela; no entanto, é também bastante poderoso porque está situado, simultaneamen te, em lugar algum e por
toda parte, impessoal e múltiplo, aceito e suportado. Fragmentado e sem dominadores claramente identificados — a não
ser, na lógica muito significativa da transferência, sob a forma de bode expiatório (“a culpa é da imprensa”, “das
sondagens”, etc.) — esse modo de dominação no qual cada um, por uma pequena parte, contribui involuntariamente
para a dominação do conjunto, é um produto quase necessário da diferenciação crescente do mundo social e, sobretudo,
da multiplicação dos campos sociais relativamente autônomos (espaço político, econômico, jornalístico, intelectual,
etc., Outros tantos campos sociais fortemente diferenciados), com suas implicações específicas, leis e lógicas peculiares
de funcionamento. Em outras palavras, o que domina esse novo espaço político-jornalístico não são os cientistas
políticos, os homens da mídia8, a medição automática de audiência9, os conselheiros em comunicação, os profissionais
das pesquisas de opinião, tampouco os políticos. Por exemplo, a medição automática de audiência só consegue exercer
um certo domínio porque a multiplicação dos canais e seu financiamento pela publicidade impõem, nesse universo de
tipo cultural e político, relações de concorrência de natureza econômica que tomam o lugar da lógica política em vigor
no momento em que a televisão comportava apenas um só canal financiado pela taxa obrigatória10. A lógica estatistica e
anônima do mercado tomou o lugar da lógica personalizada do censor.
Quanto mais os espaços sociais são diferenciados, tanto mais os comportamentos sociais tendem a ser produtos
coletivos que implicam negociações e transações entre imperativos múltiplos e, por vezes, contraditórios. Ao impor as
exigências próprias de seu espaço de origem social, cada um domina um pouco os outros, mas se encontra igualmente
dominado pelo conjunto das exigências representadas por eles e com as quais será necessário negociar. Os agentes
sociais nunca são tão dominadores a não ser quando encarnam a lógica de seu campo; seu domínio é tanto maior em
relação a um campo na medida em que a lógica do campo os domina e na medida em que realizam o que é exigido e
sancionado positivamente pelo campo. Sem a mídia, os cientistas políticos seriam obscuros especialistas em sociologia
eleitoral em busca de financiamentos para empreenderem monografias locais; se, atualmente, ocupam uma posição forte
ou dominante no jogo político é somente na medida em que aceitam submeter-se aos imperativos econômicos e
políticos da mídia e dos institutos de sondagem (propor produtos vendáveis à imprensa e às organizações políticas). Um
deles observava que “o profissional das estimativas” tinha mudado nos últimos vinte anos: “a evolução dessa profissão
está associada à complexificação das tarefas que esse especialista deve assumir. Os orçamentos atingem cifras cada vez
maiores, as montagens financeiras e a constituição de parcerias têm necessidade de negociações cada vez mais
importantes. Paralelamente, o responsável por uma estimativa deve igualmente tomar o encargo de uma parte das

7
N. Elias, La dynamique de l’Occident, op. cit., p. 189.
8
Como nos leva a pensar F.-H. De Virieu, La médiacratie, Paris, Flammarion, 1990.
9
(N.T.: No original, audimat) Cf. por exemplo N. Mamère, La dictature de l’audimat, Paris, La Découverte, 1988.
10
N.T.: No original, redevance: imposto anual que incide sobre todos os aparelhos de rádio e televisão (o cadastramcnto
é feito no momento da compra).
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relações com a mídia, em particular, para acertar a realização do debate após o encerramento das urnas e, por exemplo,
refletir com os técnicos sobre a visualização — segundo técnicas cada vez mais sofisticadas — dos resultados
eleitorais.” Além disso, “atualmente, é difícil garantir ao mesmo tempo a função de produtor e comentarista. Portanto,
operou-se uma divisão do trabalho entre cientistas políticos. Na época em que a estimativa era dada no rádio, o produtor
podia ser o analista já que não tinha necessidade — como acontece com a televisão — de estar no estúdio”11.
O mesmo acontece como jornalista que tem necessidade do cientista político, de sua competência e de seu
título de “professor”que legitima com sua autoridade as revelações pré-fabricadas que são anunciadas na primeira
página e, supostamente, chamam a atenção dos leitores. No entanto, deve se submeter, pelo menos, aos números que
resultam desse tipo de pesquisa — embora não sejam favoráveis à linha política do jornal — e, por vezes, aceitar o
comentário politológico que os acompanha. Da mesma forma, o político tem necessidade da imprensa que, por sua vez,
tem necessidade do político como fonte de informações ou, até mesmo, como personagem público que, por vezes,
alimenta a crônica dos “escândalos” que podem fazer subir as tiragens. O jornalista só pode criar “o acontecimento” na
medida em que o acontecimento que cria está em conformidade com a definição midiática do acontecimento’12. Depois
que o poder deixou de intervir diretamente nos canais de televisão, os jornalistas sentem-se livres. As relações de
complacência ou hostilidade com os eleitos tendem a desaparecer. Um diretor da informação observa que se tornou
“impossível a difusão de jornais partidários”. Os jornalistas deixaram de se colocar a questão de saber se sua
reportagem “vai agradar ou não” ao poder. Em relação ao antigo estado da dominação na televisão, controlado rigorosa-
mente pelo governo, o produtor de televisão pode acreditar atualmente que é livre para convidar para o “seu” programa
os políticos que desejar. No estúdio, os jornalistas manifestam claramente aos políticos que são apenas seus convidados,
chegando a interrompê-los se consideram enfadonhas suas intervenções, chamando-lhes a atenção se não respondem às
questões colocadas, etc. De fato, alterou-se o modo de dominação; assim é que a submissão aos poderosos do momento
foi substituida pela submissão às leis impessoais e anônimas do mercado econômico que se exprime sob a forma
objetiva dos índices de audiência que os diretores de canal mandam afixar nos quadros da emissora: além de ser
obrigado a exercer vigilância, nos convites, para conseguir uma representação eqüitativa das organizações políticas
eleitas, o produtor está submetido à concorrência das diferentes redes de televisão e só pode convidar stars, isto é,
políticos pré-ajustados à lógica da mídia: “O triplo objetivo da emissão — confiava, por exemplo, à Libération (abril de
1987), F.-H. de Virieu, produtor da emissão L’heure de vérité — é convidar stars, estar sintonizado com a atualidade e
respeitar um certo equilíbrio político (...). Se, muitas vezes, privilegio o vedetismo é porque tenho necessidade de
manter o interesse pela emissão. Aliás, ela está programada no prime time — a hora de procura da maior audiência
possível. Ora, no momento em que entramos em uma época de forte concorrência, temos necessidade de manter um
elevado índice de audiência; caso contrário, mais cedo ou mais tarde, serei convidado a apresentar o programa em
horário de menor audiência. Eis a razão pela qual tenho necessidade de convidar pessoas que já são muito conhecidas”
(desde outubro de 1989, essa emissão foi transferida para as 22h30; as sondagens instantâneas por minitel foram
suprimidas em razão do baixo índice de audiência nessa hora tardia). O jornalistas estão, no final de contas, submetidos
a uma outra exigência tamhém forte: a da audiência, embora esta pareça temporariamente, menos impositiva. Como foi
declarado por um jornalista da televisão com bom índice de audiência: “Em suma, prefiro a ditadura do público à
ditadura do poder.13
As empresas da imprensa escrita e televisionada são organizações econômicas concorrentes entre si para
venderem seus produtos: essa concorrência manifesta-se, é claro, na busca do scoop, da declaração exclusiva ou de tudo
o que possa distinguir e diferenciar um veículo de comunicação em relação a outro; no entanto, obriga também, de
forma mais banal, a abordar com urgência os assuntos tratados pelos concorrentes que se tornam obrigatórios,
transformando-os nos temas habituais da conversação, pelo menos, no meio político-jornalístico. Essa nova dominação
é patente nos exageros que engendra. Uma das conseqüências da pressão exercida pela medição automática de
audiência pode ser a repetição dos convites feitos a demagogos o que, por si, é prenúncio de efeitos políticos cuja
autoria permanece oculta. Tal pressão leva a cometer “erros”, “blefes”, “golpes montados” fabricados pelos ou para os
jornalistas. Seria fácil multiplicar os exemplos de “barrigas” da mídia, assim como a denúncia posterior (igualmente
muito midiática), pelos próprios jornalistas, de tais exageros: por exemplo, a falsa carnificina na cidade romena de
Tirnisoara, as violências de skinheads suscitadas pela necessidade de uma reportagem televisionada, os atos isolados de
adolescenhs levados à condição de problemas da sociedade (como é ocaso do “uso do véu islâmico” em alguns
estabelecimentos escolares, da fabulação de uma adolescente negra que, em um contexto midiático saturado de
reportagens sobre a ascensão do racismo, procurou cobrir uma “besteira” invocando uma agressão racista). Podemos até

11
Grunberg, “Mémoires d’estimateur”, in Politix, 5, inverno de 1989, p. 49.
12
Para um exemplo da análise da construção do “acontecimento”, ver E. Veron, Construire l’événement. Les médias et
l’accident de Three Mile Island, Paris, Ed. de Minuit, 1981.
13
Patrick Poivre d’Arvor, citado por Laurent Greilsamer e Daniel Schneidermann, “La tranquilhté des chames de télévi-
sion” (Le Monde, 29 de março de 1988).
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mesmo encontrar, sob a pluma de redatores que trabalham em jornais cotidianos que publicam sondagens com certa
regularidade, uma crítica que denuncia o excesso de pesquisas de opinião: “Essa inflação de sondagens torna-se ridícula
— escrevia, por exemplo, recentemente um jornalista do Le Figaro (1 de junho de 1990). Impossível abrir um jornal,
ligar o rádio ou a televisão sem ficar sabendo que o sr. Mitterrand ganhou ou perdeu pontos, que os franceses são ou
não racistas, que a cota de popularidade do sr. Le Pen sobe ou desce. Tais pontos relacionam-se a qual aspecto da
realidade, a qual outra sondagem, a questões colocadas de qual maneira? A sondagem é uma forma preguiçosa de
fabricar informações; dispensa os jornalistas de procederem a investigações. É um empreendimento de descerebração
que fabrica a opinião a partir de estereótipos”.
Embora necessária, a denúncia das manipulações mais visíveis comporta um risco: o de não ver que é toda a
realidade que, atualmente, é formalizada insidiosamente pela própria existência da televisão e pela prática habitual das
sondagens. O verdadeiro problema não é saber se devemos ser “a favor” ou “contra” as sondagens ou a mídia, ouse
devemos preferir o motim popular às manifestações “midiáticas”, mas nos perguntarmos como quebrar o círculo que
tende a se instaurar sem que ninguém o deseje explicitamente. A lógica da autonomização dos campos exerce um efeito
de fechamento, como vemos perfeitamente no caso dos campos artístico ou intelectual que, em última análise, tendem a
funcionar exclusivamente para os agentes desses campos. Podemos nos interrogar se as sondagens de opinião pública
que, na maior parte das vezes, não passam de uma falsa abertura do campo político em direção da base, não ficam
devendo sua força ao fato de que permitem realizar o velho sonho dos dominadores, já evocado por Marx, da
“burguesia sem o proletariado” ou, mais recentemente, por Bertold Brecht, da “dissolução do povo” quando este não
está de acordo com o partido que fala em seu nome e em seu lugar. A política deve ser uma coisa diferente desse
universo, digno da ficção científica, no qual o povo só existiria sob a forma de sondagens (de preferência, telefônicas) e
assistiria na televisão às lutas que, “em seu nome”, seriam travadas pelos diferentes clãs de um mundo político que, de
fato, obedeceria exclusivamente à lógica de suas lutas intestinas.

Opinião Pública e Propaganda


Prof. Artur Araujo – e-mail: artur.araujo@puc-campinas.edu.br /
http://docentes.puc-campinas.edu.br/clc/arturaraujo/index.html
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