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SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com

22
novembro
2009
ano II

ficina

A Invenção da América
SAMIZDAT 22
novembro de 2009

Edição, Capa e Diagramação: Editorial


Henry Alfred Bugalho

Edição de Imagens: Segundo os registros históricos, o primeiro contato dos


Volmar Camargo Junior europeus com o continente americano se deu em 12 de
Henry Alfred Bugalho outubro de 1492. A versão oficial é a de que os espanhóis
buscavam uma rota alternativa para chegarem às Índias e
Revisão Geral que, acidentalmente, depararam-se com terras desconhecidas,
Maria de Fátima Brisola Romani o Novo Mundo.
No entanto, existem hipóteses que defendem a chegada
Assessoria de Imprensa
de outros povos muito antes de Colombo e suas naus terem
aportado na América - mapas como o de Vinland, elabora-
Mariana Valle
dos por povos nórdicos, ou até um mapa chinês do século
XV no qual já constava a costa californiana, seriam evidên-
Autores cias disto.
Barbara Duffles Mas, no fundo, tudo que temos são as visões do Outro, da-
Caio Rudá queles que estava de fora, daqueles que não pertencia a esta
Dênis Moura terra, sobre os nativos. Os autóctones sem História, ou sem
Giselle Natsu Sato História escrita, foram dominados, dizimados, mesclaram-se e
Guilherme Rodrigues se transformaram por causa do processo colonizador euro-
Henry Alfred Bugalho
peu.
Joaquim Bispo
Nesta edição da SAMIZDAT, comemoramos, ao mesmo
tempo em que questionamos, esta visão sobre o que fomos,
José Guilherme Vereza
através dos relatos dos primeiros navegadores em mares
Jú Blasina americanos, mas também projetamos a identidade do que um
Léo Borges dia seremos.
Mariana Valle
Simone Santana Henry Alfred Bugalho
Volmar Camargo Junior
Wellington Souza

Textos de:
Cristóvão Colombo Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada
Pero Vaz de Caminha a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.
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As idéias expressas são de inteira ­responsabilidade de seus
autores. A aceitação da revisão proposta depende da vontade
expressa dos colaboradores da revista.
Sumário
Por que Samizdat? 6
Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Antonio Luiz M. C. Costa 8

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA


Carta a El Rei D. Manuel (excerto) 14
Pero Vaz de Caminha

MICROCONTOS
Primeira Lição Colonial 20
Simone Santana

CONTOS
O Messias do Ocidente 22
Joaquim Bispo
Imagem de Barro 26
Wellington Souza
O Troféu 30
Volmar Camargo Junior

O Sorteio 34
Henry Alfred Bugalho
Relações Postais 38
José Guilherme Vereza

Ventanas (I) 43
Sheyla Smanioto Macedo

A Sogra 44
Mariana Valle

12 de outubro sob ataque 46


Léo Borges
We’ll always have Paris 50
Barbara Duffles
Duetos Assassinos 52
Giselle Sato
Conspiração ZHAARP - Big Bang Microcósmico
- Capítulo 4 56
Dênis Moura

TRADUÇÃO
Carta de Crfistóvão Colombo anunciando o
descobrimento da América 58

TEORIA LITERÁRIA
Caminhos para o autor independente 66
Henry Alfred Bugalho
Jogue sua Gramática no Lixo 70
Guilherme Augusto Rodrigues

CRÔNICA
Eu não gosto de ninguém da América do
Sul 72
Léo Borges
Quem é você, quem sou eu? 76
Ju Blasina

POESIA
Laboratório Poético 78
Volmar Camargo Junior
Blavino 80
Ju Blasina
Poetrix 81
Ju Blasina
Sonata da Criação 82
Wellington Souza

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT 84


O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada
http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/

ficina
www.samizdat-pt.blogspot.com
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www.oficinaeditora.com
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
­distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho Inclusão e Exclusão se converte em uma ditadu-


henrybugalho@hotmail.com ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de Em reação, aqueles que
inclusão e exclusão. se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
O grupo dominante, pela
riam, ou não conseguiam,
própria natureza restritiva
fazer parte da máquina
do poder, costuma excluir ou
­administrativa - que esti-
ignorar tudo aquilo que não
pulava como deveria ser a
pertença a seu projeto, ou
cultura, a informação, a voz
que esteja contra seus prin-
do povo -, encontraram na
cípios.
autopublicação clandestina
Em regimes autoritários, um meio de expressão.
esta exclusão é muito eviden-
Datilografando, mimeo-
te, sob forma de perseguição,
grafando, ou simplesmente
censura, exílio. Qualquer um
manuscrevendo, tais autores
que se interponha no cami-
russos disseminavam suas
nho dos dirigentes é afastado
idéias. E ao leitor era incum-
e ostracizado.
bida a tarefa de continuar
As razões disto são muito esta cadeia, reproduzindo tais
simples de se compreender: obras e também as p ­ assando
o diferente, o dissidente é adiante. Este processo foi
perigoso, pois apresenta designado "samizdat", que
alternativas, às vezes, muito nada mais significa do que
melhores do que o estabe- "autopublicado", em oposição
lecido. Por isto, é necessário às publicações oficiais do
suprimir, esconder, banir. regime soviético.

A União Soviética não


foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
­Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exemplo de um samizdat. Corte- logo
sia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat? revistas, jornais - onde ele des tiragens que substituam
possa divulgar seu trabalho. o prazer de ouvir o respal-
O único aspecto que conta é do de leitores sinceros, que
A indústria cultural - e o
o prazer que a obra causa no não estão atrás de grandes
mercado literário faz parte
leitor. autores populares, que não
dela - também realiza um
perseguem ansiosos os 10
processo de exclusão, base- Enquanto que este é um mais vendidos.
ado no que se julga não ter trabalho difícil, por outro
valor mercadológico. Inex- lado, concede ao criador uma Os autores que compõem
plicavelmente, estabeleceu-se liberdade e uma autonomia este projeto não fazem parte
que contos, poemas, autores total: ele é dono de sua pala- de nenhum ­movimento
desconhecidos não podem vra, é o responsável pelo que literário organizado, não
ser comercializados, que não diz, o culpado por seus erros, são modernistas, pós-
vale a pena investir neles, é quem recebe os louros por ­modernistas, vanguardistas
pois os gastos seriam maio- seus acertos. ou q­ ualquer outra definição
res do que o lucro. que vise rotular e definir a
E, com a internet, os au- orientação dum grupo. São
A indústria deseja o pro- tores possuem acesso direto apenas escritores ­interessados
duto pronto e com consumi- e imediato a seus leitores. A em trocar experiências e
dores. Não basta qualidade, repercussão do que escreve sofisticarem suas escritas. A
não basta competência; se (quando há) surge em ques- qualidade deles não é uma
houver quem compre, mes- tão de minutos. orientação de estilo, mas sim
mo o lixo possui prioridades
a heterogeneidade.
na hora de ser absorvido A serem obrigados a
pelo mercado. burlar a indústria cultural, Enfim, “Samizdat” porque a
os autores conquistaram algo internet é um meio de auto-
E a autopublicação, como que jamais conseguiriam de publicação, mas “Samizdat”
em qualquer regime exclu- outro modo, o contato qua- porque também é um modo
dente, torna-se a via para se pessoal com os leitores, de contornar um processo
produtores culturais atingi- od­ iálogo capaz de tornar a de exclusão e de atingir o
rem o público. obra melhor, a rede de conta- ­objetivo fundamental da
tos que, se não é tão influen- ­escrita: ser lido por alguém.
Este é um processo soli-
te quanto a da ­grande mídia,
tário e gradativo. O autor
faz do leitor um colaborador,
precisa conquistar leitor a
um co-autor da obra que lê.
leitor. Não há grandes apa-
Não há sucesso, não há gran-
ratos midiáticos - como TV,

SAMIZDAT é uma revista eletrônica


­ ensal, escrita, editada e publicada pelos
m
­integrantes da Oficina de Escritores e Teoria
Literária. Diariamente são incluídos novos
textos de autores consagrados e de jovens
­escritores amadores, entusiastas e profis-
sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas
literárias e muito mais.

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Entrevista

Antonio Luiz M.C. Costa


Antonio Luiz Melo Coelho da
Costa, colunista e editor da revis-
ta CartaCapital, autor de dezenas

http://1.bp.blogspot.com/_4SBeCN1DHAA/SkTR-y3HUdI/AAAAAAAAApE/Tr1DCIMCP14/s320/lu%C3%ADs+dill.jpg
de contos de Fantasia e Ficção
Científica (um deles já publicado
aqui conosco, na SAMIZDAT 21 -
Mistério e Suspense), dono de várias
comunidades no orkut relacionadas
à chamada Ficção Especulativa
- Fantasia, FC, Horror, História
Alternativa, e, adicionalmente, idio-
mas imaginários... - concedeu-nos
esta excelente entrevista, falando
sobre um dentre tantos assuntos que
domina: a literatura.

SAMIZDAT - O Brasil sem- gelisti na Itália). Mas bem elite bacharelesca e conser-
pre teve um papel secundá- que o Brasil podia ser menos vadora, míope em relação ao
rio (ou terciário) no cenário secundário do que é. futuro e que menosprezava a
de Ficção Científica e Fanta- A literatura de fantasia, no ciência e tecnologia. Na era
sia mundial. A que se deve sentido mais geral do ter- JK começamos a superar essa
este fenômeno? mo, tem uma difusão mais herança, a nos ver como o
ANTONIO LUIZ M.C. COS- ampla e nela não acho que “País do Futuro” e a produzir
TA – Bom, no que se refere à o Brasil esteja tão mal. Mas alguma ficção científica de
FC contemporânea, fora EUA, vou deixar para falar disso razoável qualidade para a
Canadá, Reino Unido, Japão, na pergunta seguinte e tratar época, a chamada Primeira
Rússia e (mais recentemente) primeiro da FC. Onda, que incluiu escritores
China, todos os países são respeitados nos meios literá-
Uma parte do problema é rios.
secundários, salvo por um antiga e estrutural – o cará-
ou outro autor isolado de ter agrário e dependente do Mas então veio o golpe mi-
estatura internacional (como, País até a primeira metade litar e a ditadura envenenou
por exemplo, Stanislav Lem do século XX, que criou uma a cultura em vários aspectos,
na Polônia e Valerio Evan- inclusive a ficção científica.

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De um lado, veio a ênfase dura e até o início do novo científica, estamos recome-
tecnocrática na formação século. Quem gostava de ler çando depois de uma longa
de profissionais científicos e não gostava de FC e vice- crise, mas eu diria que há
tecnológicos por atacado e a versa, salvo tais ou quais autores que se comparam
toque de caixa, em colégios e exceções. Ora, a verdadeira bem ao que tem sido produ-
faculdades particulares com FC criativa – aquela que faz zido lá fora. Se houvesse um
pouco ou nenhum interesse valer mais a especulação público e um mercado que
em formação humanista. De inovadora do que a ação e lhes permitisse dedicar-se
outro, a censura do debate efeitos especiais – vive da em tempo integral à litera-
político, a perseguição de intersecção e do diálogo das tura, como existe nos EUA e
intelectuais e a desconfiança duas culturas, a humanista Reino Unido, e se desenvol-
em relação às ciências huma- e a científica. O escritor e ver plenamente como escri-
nas, vistas como viveiro de o leitor precisam ser pesso- tores, acredito que estariam
subversivos. as que gostam de literatu- à altura da melhor produção
De um lado, se formaram en- ra, interessadas no destino desses países. Com o risco
genheiros, cientistas e técni- humano e ao mesmo tempo de cometer injustiças, cito
cos sem gosto por debate de no progresso da ciência e em alguns exemplos: Gerson
idéias nem por literatura, que suas possíveis conseqüên- Lodi-Ribeiro, Fábio Fernan-
até curtem a ficção científica cias para o espírito e para a des e Carlos Orsi, entre os
como espetáculo, no cinema sociedade. que começaram a carreira
e nos seriados de tevê, mas Para que um público como ainda na “Idade das Trevas” e
não têm paciência para abrir esse exista, é preciso uma Cristina Lasaitis, Osíris Reis
um livro nem para especular formação mais equilibrada e, e Saint-Clair Stockler entre
sobre o futuro com serieda- de preferência, democrática – os iniciantes.
de. De outro, letrados, histo- pois a democracia incentiva Na fantasia, como eu ia
riadores e cientistas sociais o confronto de idéias, in- dizendo na pergunta ante-
que desprezam a ficção cien- clusive idéias estranhas. Por rior, a história é outra. O
tífica como fuga da realidade, mais que se reclame do ensi- Brasil, como outros países
alienação em relação aos no no Brasil, me parece que da América Latina, tem
problemas políticos e sociais a educação dos anos 90 em uma forte tradição de temas
do Brasil e propaganda do diante conseguiu abrir para folclóricos e fantásticos na
imperialismo. Até porque o o diálogo entre culturas uma literatura, presente na obra
que mais se publicava e lia parte da geração mais nova, de seus maiores escritores e
no gênero eram os clássicos aquela que nasceu nos últi- nunca totalmente interrompi-
da Golden Age estaduniden- mos anos da ditadura e cres- da: podemos citar Machado
se, muitos dos quais (“Tropas ceu na democracia, pois dela de Assis, Mário de Andrade,
Estelares” é o exemplo mais vem vindo uma enxurrada Monteiro Lobato, Guimarães
óbvio) de fato promoviam de textos novos, primeiro na Rosa, Jorge Amado, Murilo
valores militaristas e impe- internet e depois também em Rubião e José J. Veiga, e há
rialistas – enquanto a ficção papel – e, mais recentemente, outros menos conhecidos.
científica mais contestadora também editoras. Como de Assim como muitos grandes
da New Age, disposta a falar costume, grande parte é lixo, escritores europeus e norte-
de sexo, drogas, política e mas muita coisa vai durar. americanos oscilaram entre
outros tabus (Ursula K. Le a fantasia e o realismo e as
Guin, Philip K. Dick etc.) foi vezes ficaram mais para lá
pouco editada e conhecida. SAMIZDAT – E como você do que para cá – Maupas-
percebe o papel da produção sant, Gogol, Kafka, Stevenson,
O resultado foi uma longa atual no Brasil nestes gêne-
seca de edições de ficção Melville, Poe, Flaubert, Swift
ros? Existem obras e autores e Shakespeare, só para citar
científica, tanto nacionais de destaque, comparáveis ao
quanto traduzidas, que se os primeiros que me ocor-
que tem sido feito no exte- rem. É questão de reconhecer
prolongou por mais de uma rior?
década após o fim da dita- a presença do fantástico em
ANTONIO LUIZ – Na ficção nossa tradição, mais do que

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de pedir por mais. Será que mitologia, da fauna, flora, da a imaginação. Que inventem
na França tem algum grande História e dos comportamen- mundos baseados na imagi-
romance mais fantástico do tos nossos? nação asteca, grega, japonesa,
que Macunaíma? Pensando ANTONIO LUIZ – Existir, indiana ou chinesa, se quise-
em qualidade intrínseca e claro que existe. O Rober- rem, mas que queiram criar
ousadia, não em livros vendi- to Causo, por exemplo, tem com sinceridade.
dos ou grau de modernidade, escrito uma série de histó- Agora, o que os imitadores
será Harry Potter superior ao rias, A Saga de Tajarê, já com da ficção anglo-saxã não
Sítio do Picapau Amarelo? Eu duas novelas, em um mundo conseguem evitar, querendo
não acho. de fantasia amazônico e a ou não, é que os personagens
Temos também uma razoá- Michelle Klautau fez um tenham comportamentos
vel produção no campo do crossover entre o mundo dos “brasileiros”. É muito engra-
terror. Na minha opinião, mitos europeus e o do folclo- çado: seja em um palácio
Martha Argel e Giulia Moon, re brasileiro em A Lendária real, uma aldeia élfica ou
por exemplo, não ficam nada Hy-Brasil, uma ideia que uma escola de magos, os
a dever a Anne Rice. poderia ser mais explorada. personagens de qualquer
O que o Brasil de fato não No gênero infanto-juvenil, há idade e meio social falam, se
tem é tradição em Alta Fan- montes de livros baseados no comportam e reagem como
tasia, gênero que começou a folclore e na história do Bra- jovens brasileiros de clas-
ser inventado na Inglaterra sil, que continuam a tradição se média em torno de uma
vitoriana, mas permaneceu de Monteiro Lobato e têm mesa de RPG do século XXI,
mais ou menos na obscuri- boa aceitação. ou como personagens da
dade até os anos 60, quando Globo. Há uma atração pelo
Tolkien virou moda nos superficialmente fantasioso
Claro que quem faz fanta- e exótico, mas também um
EUA e foi reinterpretado no sia tolkieniana pode ficar
espírito da New Wave e da tremendo provincianismo
tranqüilo quanto a que, seu quanto às formas de pensar e
New Age, originando um trabalho, mesmo que seja
novo respeito pelo mito e sentir. Eles não entendem que
ruim, vai ser entendido por a maneira dos integrantes de
pela construção de mundos quem joga D&D ou viu O
totalmente imaginários. Nes- uma família real medieval,
Senhor dos Anéis no cine- digamos, se relacionarem
se campo, praticamente só ma. Mas, em termos de Alta
temos imitadores, a maioria entre si, tratarem com ou-
Fantasia, ninguém vai sair da tras famílias e conduzir suas
dos quais sequer compre- mediocridade enquanto não
endeu o que tenta imitar e rotinas era completamente
tentar algo diferente de fazer diferente das pessoas de hoje
se limita a reciclar superfi- decalques da Terra Média.
cialmente temas e clichês. e os põe a falar como a famí-
É preciso arriscar mais e lia rica da novela das oito.
Ainda não há nada que descobrir maneiras novas de
valha a pena ser mencionado apresentar um mundo dife-
em termos de Alta Fantasia rente do já visto. SAMIZDAT – Quais são os
nacional, nem surgiu alguém temas que motivam a sua
disposto a imaginar o novo e Mas me entendam bem, acho
um passo importante os as- escrita ficcional? É importan-
não apenas mais uma varian- te que a ficção defenda uma
te do que já foi feito lá fora. pirantes a escritores de Alta
Fantasia brasileiros se livra- tese?
rem da camisa-de-força do ANTONIO LUIZ – Um dos
SAMIZDAT: Habitualmen- modelo tolkieniano e de seus temas mais presentes em mi-
te, os escritores de Fantasia reis, princesas, águias, lobos, nhas histórias é a de trans-
costumam se inspirar, quase magos, elfos e orcs. Mas não formação coletiva. Frequen-
parasitariamente, nos autores se trata de pedir-lhes que temente, minhas histórias se
e na mitologia anglo-saxã. escrevam sobre índios, escra- situam um momento histo-
Existe público para universos vos negros, onças, uirapurus, ricamente significativo para
de fantasia tipicamente brasi- sacis, iaras e mulas-sem-ca- seus cenários imaginários, o
leiros, que traga elementos da beça. O importante é liberar momento de um progresso

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importante ou de uma gran- idiotas aqueles que pensam ridão! – estão encalhando,
de reviravolta social, política de maneira diferente (como, enquanto a Fundação e O
ou cultural. Os personagens por exemplo, o reacionário Fim da Eternidade de Asimov
podem ter ou não consciên- C. S. Lewis), ou subordina a (anos 50) e Laranja Mecânica
cia do que está acontecendo, trama a pregações tediosas de Burguess (1962) vendem
mas seus atos estão relacio- na narrativa ou na boca dos relativamente bem. É preciso
nados a isso, como causa ou heróis. Em ficção, as ideias explicar o conservadoris-
como efeito. Outro tema co- são muito mais eficazes se mo também por parte dos
mum, que pode se combinar expressas de maneira sutil e leitores. Talvez esse público,
ou não ao primeiro, é o do divertida. que não lê ficção em inglês,
sincretismo cultural, geral- só conheça obras já antigas
mente na forma de persona- que leram há muito tempo,
gens que conhecem outros SAMIZDAT – No mercado encontraram em sebos ou
de uma cultura ou mesmo editorial brasileiro, Fantasia foram recomendados pelos
espécie diferente com o qual e FC ocupam um espaço mais velhos e por isso só
aprendem coisas novas ou muito restrito. Isto se deve a saibam falar, pessoalmente
desenvolvem um relaciona- algum tipo de estreiteza de ou na internet, sobre esses
mento próximo. Claro que horizontes das editoras, ou “clássicos”. Quando alguma
também figuram, por vezes, o leitor brasileiro simples- editora arrisca lançar algo
casos de encontros destruti- mente não está acostumado mais novo, é bem possível
vos, mas acho os construtivos a ler tais gêneros? Existe que deixem de comprar por
bem mais interessantes de alguma maneira para driblar nunca ter ouvido falar e não
explorar. esta barreira e se consolidar querer arriscar. Que na hora
como autor neste segmento? de presentear um amigo, ou
Quanto a “defender uma
tese”, a ficção sempre faz isso, ANTONIO LUIZ – Há tanto mesmo de escolher algo para
quer o autor saiba disso, quer leitores que reclamam que ler, prefiram mesm algo que
não. Quem pensa que está as editoras não lançam já ouviram falar que todo
fazendo uma ficção “neutra” coisas novas (eu sou um mundo (do seu círculo) gosta.
defende as ideias recebidas deles) quanto editoras que Que faltem leitores ousados,
e lugares-comuns de seu reclamam que esses gêne- desbravadores do desconhe-
tempo na medida em que os ros não vendem. Quem veio cido.
reproduz sem críticas. Um primeiro, o ovo ou a gali- Mesmo assim, acho uma
escritor de folhetins do sécu- nha? Desconfio que o ovo: é aberração por parte da Ale-
lo XIX, por exemplo, podia difícil vender um lançamento ph priorizar o relançamento
pensar que estava apenas novo porque as editoras não do Asimov dos anos 50 e
ganhando seu pão, mas aos querem cultivar esse mer- deixar de publicar livros que
nossos olhos é óbvio que es- cado, embora briguem de fizeram época nos anos 90 e
tava, por exemplo, defenden- foice para publicar uma obra 2000, como The Difference
do a submissão feminina ao estrangeiro de fantasia ou FC Engine, Hyperion e Perdido
descrever frágeis heroínas à depois que se torna best- Street Station – ou mesmo
mercê da luta entre um vilão seller ou é adaptada para o os últimos (e para mim
repulsivo e um herói galante. cinema (Michael Crichton, J. mais interessantes) livros de
K. Rowling, Tolkien, Philip Asimov, os dos anos 80. Será
Um inconformista, por outro K. Dick etc.).
lado, geralmente está cons- que todo o público leitor da
ciente de que tem ideias Por outro lado, já ouvi os ficção científica virou um
diferentes da maioria e de editores da Aleph se quei- reduto conservador e saudo-
sua vontade de propagá-las, xarem de que os livros de sista, apegado ao futuro que
sejam elas conservadoras ou ficção científica mais “inova- seus avós imaginaram e com
progressistas – mas comete dores” que vêm publicando medo de pensar coisas novas?
um grande erro se faz isso – e “inovador” pode significar Não posso crer, deve ter algo
de maneira grosseira, pin- da década de 80, como Valis de errado nesse raciocínio. Se
tando como monstros ou ou mesmo de 1969, como for verdade, melhor esquecer
A Mão Esquerda da Escu- a FC e dedicar-se à fantasia

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ou à literatura mainstream. mo que se busca na chamada Assim como não se pode
Prefiro pensar que a Aleph grande literatura. É preciso avaliar uma canção dançante
está escolhendo os livros er- outra maneira de os ler e de Gilberto Gil pelos crité-
rados ou não sabe promovê- analisar que não o enfoque rios com que se avalia uma
los (por exemplo, as capas, do acadêmico tradicional, sinfonia de Villa-Lobos ou
em geral, não sugerem que se estudante de letras, mas a um poema de Camões.
trata de FC). do estudioso da cultura e da Se Watchmen fosse um dos
Infelizmente, não tenho uma ideologia, algo mais próximo 100 melhores romances em
receita mágica para driblar o daquilo que os anglo-saxões inglês desde 1923, haveria de
círculo vicioso. O mais que chamam Cultural Studies. ser a melhor obra de arte do
posso é fazer minha parte, século XX, talvez de todos os
dando preferência a resenhar SAMIZDAT – Na comuni- tempos... pois, em Watchmen,
e recomendar as boas obras dade do orkut “Escritores o texto é apenas um ele-
novas que surgem no merca- - Teoria Literária”, foi criado mento da obra, que depende
do. um tópico com a seguinte mais da combinação eficaz
pergunta: “HQ é Literatura?”. de texto e imagem do que
A discussão foi acalorada, de qualquer desses aspectos
SAMIZDAT – Na sua opi- separados. Claro que não é
nião, ficção de gênero e mas manteve-se dentro do
aceitável. As coisas realmen- assim. Watchmen é uma das
literatura mainstream são melhores graphic novels já
realmente distintas? É possí- te partiram para “um outro
nível de discussão” quando feitas, mas o texto, separa-
vel, academicamente, encon- do da imagem, é pobre em
trar valor literário em obras alguém argumentou que
Watchmen consta em uma relação a qualquer romance
enquadradas (por fãs, por mediano. Não comparemos
editor...) em algum gênero, lista da revista TIME, de
2005: “TIME critics Lev Gros- laranjas com bananas.
como Fantasia ou FC?
sman and Richard Lacayo
ANTONIO LUIZ – São 100 best English-language
distintas na medida em que SAMIZDAT – Desde há
novels from 1923 to the muito línguas artificiais são
têm prioridades diferentes. present”. (http://www.time.
O chamado mainstream (que pensadas. Algumas chegaram
com/time/2005/100books/ a ganhar certa relevância,
não é necessariamente ficção the_complete_list.html)
“realista”) busca a expressão como o Esperanto, enquanto
criativa, a fantasia e a FC Para você, HQ pode ser que outras ficam restritas aos
enfatizam a especulação cria- considerado literatura, ou, seus criadores ou pequenos
tiva. Em geral, quem julgar como se diz, trata-se de uma grupos de discussão. Qual
a ficção especulativa pelos forma de arte autônoma - a sua experiência pessoal com
critérios da ficção mainstre- chamada Nona Arte? Qual é o desenvolvimento de idio-
am vai achá-la aborrecida de o valor, como argumento, de mas?
má qualidade, e vice-versa – uma lista de “os cem melho- ANTONIO LUIZ – Eu inven-
salvo umas poucas obras que res” como a que foi citada? tei um idioma de maneira
conseguem brilhar razoa- ANTONIO LUIZ - Watch- mais completa, o “senzar”,
velmente nos dois aspectos men não devia estar nessa e alguns outros de manei-
como, digamos, Admirável lista. Não se pode avaliar o ra mais fragmentária como
Mundo Novo. Claro que é texto de uma história em parte do cenário de um ro-
preciso um mínimo de téc- quadrinhos com os critérios mance de fantasia ainda não
nica e valor literário para se com que se avalia um ro- publicado, sem a pretensão
escrever um livro de ficção mance, nem pelos que ser- de que o senzar ou qualquer
especulativa decente, mas ela vem para avaliar uma pintu- outro deles seja usado por
deve servir à especulação, ra ou gravura. Assim como mais alguém. Meu princi-
não o contrário. Então, mi- também não se pode avaliar pal objetivo era que nomes
nha resposta seria: é possível um roteiro de cinema por de lugares e personagens
encontrar valor nesses gêne- quaisquer desses critérios. . soassem diferentes de lín-
ros, mas em geral não o mes- São formas de arte diferentes. guas conhecidas, para criar

12 SAMIZDAT novembro de 2009


a sensação de um mundo literário é feito apenas de apreciado como arte. Claro
realmente exótico, mas sem palavras. que há formas de arte ainda
que os nomes parecessem mais estranhas e difíceis de
absurdos ou incoerentes. As- entender e que fazem sucesso
sim, personagens da mesma SAMIZDAT – Uma vez que em bienais e galerias, mas eu
etnia têm nomes de estrutura as línguas sejam fenômenos não apostaria nisso.
semelhante e característica, sócio-culturais, é válida a
diferente de personagens criação de novos idiomas
de outras etnias. Ao mes- sem que esses estejam as- SAMIZDAT – Um pouco de
mo tempo, à medida que eu sentados sobre um contexto história alternativa: como
tinha de inventar palavras cultural previamente desen- você imagina o Brasil, em
e conceitos, me ajudou a ter volvido? termos linguísticos, caso o
em mente que ideias e com- ANTONIO LUIZ – Para uso Marquês de Pombal não
portamentos não deviam ser artístico ou ficcional, bem tivesse proibido a utilização
necessariamente semelhantes válido. Para uso prático, eu da lingua geral?
a qualquer cultura conhecida, não desencorajaria quem ANTONIO LUIZ – Podería-
mas deviam ter coerência queira tentar, mas é obvia- mos ter o nheengatu falado
entre si. mente difícil que um idioma nas ruas e aprendido nas
É um recurso que exige artificial se torne amplamen- escolas ao lado do portu-
algum conhecimento de te usado, a menos que isso guês, assim como o Para-
linguística e muito gosto seja imposto por um Estado guai usa e ensina o guarani
pela coisa. Pessoalmente, – ou uma organização glo- junto com o castelhano. Não
fiquei satisfeito com o re- bal, no caso de um idioma faria necessariamente muita
sultado. Sempre achei um universal. Por uma questão diferença em questões polí-
tanto ridículo que nomes de de justiça, eu preferiria ver ticas e sociais – o Paraguai é
personagens de um mundo um governo mundial usar um país tão injusto quanto
imaginário inventado por um idioma artificial neutro a o nosso – mas poderíamos
um brasileiro tenham nomes usar o mandarim, o inglês ou ter uma identidade nacional
anglo-americanos. Também o português. mais marcada (justamente o
não me parece apropriado que Pombal queria evitar),
que os personagens de um mais respeito pela cultura in-
SAMIZDAT – É possível dígena e mais afinidade com
mundo de fantasia tenham
esperar que as línguas ar- outros países sul-americanos,
nomes brasileiros, a menos
tificiais deixem de ser vis- ou pelo menos com a Bolívia,
que o cenário um Brasil futu-
tas essencialmente como Paraguai e Argentina, onde
ro ou paralelo, que não era o
passatempo ou ferramenta línguas da família tupi são
caso desse romance.
auxiliar para a escrita de faladas.
Claro, quem trabalha um ficção científica e passem a
mundo baseado na Inglaterra ser reconhecidas formas de
medieval deve usar nomes expressão artística? Coordenação da entrevista:
ingleses. Mas quase nunca é Volmar Camargo Junior
ANTONIO LUIZ – Não
o caso – e mesmo que fosse,
acho que criar línguas para
nem todos os nomes usados
expressão artística fora de
no inglês moderno serviriam. Perguntas feitas por:
um contexto literário ou
Parece-me igualmente ruim
cinematográfico tenha muito
misturar ao acaso nomes de Caio de Oliveira
futuro. Creio que Tolkien fez
diferentes origens e culturas Carlos Alberto Barros
mais ou menos isso, inventou
– isso só faz sentido em uma
as línguas élficas por puro
grande cidade cosmopolita Henry Alfred Bugalho
prazer estético. Mas se não
ou em um cenário futurista. Volmar Camargo Junior
escrevesse um romance no
Acho importante estar atento
qual pudessem ser citadas, só
a essas minúcias, pois, no
ele – e, talvez, um ou outro
fim das contas, um mundo
colega filólogo – as teria

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Autor em Língua Portuguesa

Carta de Pero Vaz de Caminha

a El Rei D. Manuel
(excerto)

http://www.tankonyvtar.hu/site/img/historia/1992_92-056_03_Rakoczi3_original.jpg

14 SAMIZDAT novembro de 2009


Senhor, vista delas, obra de três a outras serras mais baixas
posto que o Capitão- quatro léguas. E domingo, ao sul dele; e de terra
mor desta Vossa frota, e 22 do dito mês, às dez chã, com grandes arvore-
assim os outros capitães horas mais ou menos, dos; ao qual monte alto o
escrevam a Vossa Alteza houvemos vista das ilhas capitão pôs o nome de O
a notícia do achamento de Cabo Verde, a saber Monte Pascoal e à terra
desta Vossa terra nova, da ilha de São Nicolau, A Terra de Vera Cruz!
que se agora nesta nave- segundo o dito de Pero Mandou lançar o prumo.
gação achou, não deixarei Escolar, piloto. Acharam vinte e cinco
de também dar disso mi- Na noite seguinte à braças. E ao sol-posto
nha conta a Vossa Alteza, segunda-feira amanheceu, umas seis léguas da terra,
assim como eu melhor se perdeu da frota Vasco lançamos ancoras, em
puder, ainda que — para de Ataíde com a sua nau, dezenove braças — anco-
o bem contar e falar — sem haver tempo forte ou ragem limpa. Ali ficamo-
o saiba pior que todos contrário para poder ser! nos toda aquela noite. E
fazer! quinta-feira, pela manhã,
Fez o capitão suas
fizemos vela e seguimos
Todavia tome Vossa diligências para o achar,
em direitura à terra,
Alteza minha ignorância em umas e outras partes.
indo os navios pequenos
por boa vontade, a qual Mas... não apareceu mais!
diante — por dezessete,
bem certo creia que, para E assim seguimos dezesseis, quinze, catorze,
aformosentar nem afear, nosso caminho, por este doze, nove braças — até
aqui não há de pôr mais mar de longo, até que meia légua da terra, onde
do que aquilo que vi e terça-feira das Oitavas de todos lançamos ancoras,
me pareceu. Páscoa, que foram 21 dias em frente da boca de um
Da marinhagem e das de abril, topamos alguns rio. E chegaríamos a esta
singraduras do caminho sinais de terra, estando ancoragem às dez horas,
não darei aqui conta a da dita Ilha — segundo pouco mais ou menos.
Vossa Alteza — porque os pilotos diziam, obra de
E dali avistamos ho-
o não saberei fazer — e 660 ou 670 léguas — os
mens que andavam pela
os pilotos devem ter este quais eram muita quan-
praia, uns sete ou oito, se-
cuidado. tidade de ervas compri-
gundo disseram os navios
E portanto, Senhor, do das, a que os mareantes
pequenos que chegaram
que hei de falar começo: chamam botelho, e assim
primeiro.
mesmo outras a que dão
E digo quê: Então lançamos fora os
o nome de rabo-de-asno.
A partida de Belém E quarta-feira seguinte, batéis e esquifes. E logo
foi, como Vossa Alteza pela manhã, topamos vieram todos os capitães
sabe, segunda-feira 9 aves a que chamam fura- das naus a esta nau do
de Março. E sábado, 14 buchos. Capitão-mor. E ali fala-
do dito mês, entre as 8 ram. E o Capitão mandou
Neste mesmo dia, a
e 9 horas, nos achamos em terra a Nicolau Co-
horas de véspera, hou-
entre as Canárias, mais elho para ver aquele rio.
vemos vista de terra! A
perto da Grande Caná- E tanto que ele começou
saber, primeiramente de
ria. E ali andamos todo a ir-se para lá, acudiram
um grande monte, mui-
aquele dia em calma, à pela praia homens aos
to alto e redondo; e de

www.revistasamizdat.com 15
dois e aos três, de ma- pouco mais ou menos, daqueles navios peque-
neira que, quando o batel por conselho dos pilotos, nos, foi, por mandado do
chegou à boca do rio, já mandou o Capitão levan- Capitão, por ser homem
lá estavam dezoito ou tar ancoras e fazer vela. E vivo e destro para isso,
vinte. fomos de longo da costa, meter-se logo no esquife
Pardos, nus, sem coisa com os batéis e esquifes a sondar o porto dentro.
alguma que lhes cobrisse amarrados na popa, em E tomou dois daqueles
suas vergonhas. Traziam direção norte, para ver homens da terra que esta-
arcos nas mãos, e suas se achávamos alguma vam numa almadia: man-
setas. Vinham todos abrigada e bom pouso, cebos e de bons corpos.
rijamente em direção onde nós ficássemos, para Um deles trazia um arco,
ao batel. E Nicolau Co- tomar água e lenha. Não e seis ou sete setas. E na
elho lhes fez sinal que por nos já minguar, mas praia andavam muitos
pousassem os arcos. E por nos prevenirmos com seus arcos e setas;
eles os depuseram. Mas aqui. E quando fizemos mas não os aproveitou.
não pôde deles haver vela estariam já na praia Logo, já de noite, levou-os
fala nem entendimento assentados perto do rio à Capitaina, onde foram
que aproveitasse, por o obra de sessenta ou se- recebidos com muito
mar quebrar na costa. tenta homens que se prazer e festa.
Somente arremessou-lhe haviam juntado ali aos A feição deles é serem
um barrete vermelho e poucos. Fomos ao lon- pardos, um tanto averme-
uma carapuça de linho go, e mandou o Capitão lhados, de bons rostos e
que levava na cabeça, e aos navios pequenos que bons narizes, bem feitos.
um sombreiro preto. E fossem mais chegados à Andam nus, sem cober-
um deles lhe arremessou terra e, se achassem pou- tura alguma. Nem fazem
um sombreiro de penas so seguro para as naus, mais caso de encobrir ou
de ave, compridas, com que amainassem. deixa de encobrir suas
uma copazinha de penas E velejando nós pela vergonhas do que de
vermelhas e pardas, como costa, na distância de mostrar a cara. Acerca
de papagaio. E outro lhe dez léguas do sítio onde disso são de grande ino-
deu um ramal grande de tínhamos levantado ferro, cência. Ambos traziam o
continhas brancas, miú- acharam os ditos navios beiço de baixo furado e
das que querem parecer pequenos um recife com metido nele um osso ver-
de aljôfar, as quais peças um porto dentro, muito dadeiro, de comprimento
creio que o Capitão man- bom e muito seguro, com de uma mão travessa, e
da a Vossa Alteza. E com uma mui larga entrada. da grossura de um fuso
isto se volveu às naus por E meteram-se dentro e de algodão, agudo na
ser tarde e não poder amainaram. E as naus ponta como um furador.
haver deles mais fala, por foram-se chegando, atrás Metem-nos pela parte
causa do mar. deles. E um pouco antes de dentro do beiço; e a
À noite seguinte ven- de sol-pôsto amainaram parte que lhes fica en-
tou tanto sueste com também, talvez a uma tre o beiço e os dentes é
chuvaceiros que fez caçar légua do recife, e ancora- feita a modo de roque de
as naus. E especialmente ram a onze braças. xadrez. E trazem-no ali
a Capitaina. E sexta pela E estando Afonso Lo- encaixado de sorte que
manhã, às oito horas, pez, nosso piloto, em um não os magoa, nem lhes

16 SAMIZDAT novembro de 2009


põe estorvo no falar, nem fazer acenos com a mão Viu um deles umas
no comer e beber. em direção à terra, e contas de rosário, bran-
Os cabelos deles são depois para o colar, como cas; fez sinal que lhas
corredios. E andavam se quisesse dizer-nos que dessem, e folgou muito
tosquiados, de tosquia havia ouro na terra. E com elas, e lançou-as ao
alta antes do que sobre- também olhou para um pescoço; e depois tirou-as
pente, de boa grandeza, castiçal de prata e assim e meteu-as em volta do
rapados todavia por cima mesmo acenava para a braço, e acenava para a
das orelhas. E um deles terra e novamente para o terra e novamente para as
trazia por baixo da so- castiçal, como se lá tam- contas e para o colar do
lapa, de fonte a fonte, na bém houvesse prata! Capitão, como se dariam
parte detrás, uma espécie Mostraram-lhes um ouro por aquilo.
de cabeleira, de penas de papagaio pardo que o Isto tomávamos nós
ave amarela, que seria do Capitão traz consigo; nesse sentido, por assim
comprimento de um coto, tomaram-no logo na mão o desejarmos! Mas se ele
mui basta e mui cerrada, e acenaram para a terra, queria dizer que levaria
que lhe cobria o toutiço como se os houvesse ali. as contas e mais o colar,
e as orelhas. E andava Mostraram-lhes um isto não queríamos nós
pegada aos cabelos, pena carneiro; não fizeram entender, por que lho
por pena, com uma con- caso dele. não havíamos de dar! E
feição branda como, de depois tornou as contas a
Mostraram-lhes uma
maneira tal que a cabe- quem lhas dera. E então
galinha; quase tiveram
leira era mui redonda e estiraram-se de costas
medo dela, e não lhe que-
mui basta, e mui igual, na alcatifa, a dormir sem
riam pôr a mão. Depois
e não fazia míngua mais procurarem maneiras de
lhe pegaram, mas como
lavagem para a levantar. encobrir suas vergonhas,
espantados.
O Capitão, quando eles as quais não eram fana-
vieram, estava sentado Deram-lhes ali de das; e as cabeleiras delas
em uma cadeira, aos pés comer: pão e peixe co- estavam bem rapadas e
uma alcatifa por estrado; zido, confeitos, fartéis, feitas.
e bem vestido, com um mel, figos passados. Não
O Capitão mandou pôr
colar de ouro, mui gran- quiseram comer daquilo
por baixo da cabeça de
de, ao pescoço. E Sancho quase nada; e se prova-
cada um seu coxim; e o
de Tovar, e Simão de vam alguma coisa, logo a
da cabeleira esforçava-
Miranda, e Nicolau Coe- lançavam fora.
se por não a estragar. E
lho, e Aires Corrêa, e nós Trouxeram-lhes vi- deitaram um manto por
outros que aqui na nau nho em uma taça; mal cima deles; e consentindo,
com ele íamos, sentados lhe puseram a boca; não aconchegaram-se e ador-
no chão, nessa alcatifa. gostaram dele nada, nem meceram.
Acenderam-se tochas. E quiseram mais.
(...)
eles entraram. Mas nem Trouxeram-lhes água
sinal de cortesia fizeram, em uma albarrada, pro-
nem de falar ao Capitão; varam cada um o seu
nem a alguém. Todavia bochecho, mas não bebe-
um deles fitou o colar ram; apenas lavaram as
do Capitão, e começou a bocas e lançaram-na fora.

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18 SAMIZDAT novembro de 2009
O lugar onde
Pero Vaz de Caminha na nau capitânia da armada a boa Literatura
(Galaico-português: Pero de Pedro Álvares Cabral em
Uaaz de Camjnha; Porto, Por- Abril daquele mesmo ano, é fabricada
tugal, 1450 — Calecute, Índia, quando a mesma descobriu o
15 de Dezembro de 1500), às Brasil. Caminha eternizou-se

http://guisalla.files.wordpress.com/2008/09/machado1.jpg
vezes popularmente chamado como o autor da carta, data-
de Pedro Vaz de Caminha, da de 1 de Maio, ao sobera-
foi um escritor português no, um dos três únicos teste-
que se notabilizou nas fun- munhos desse achamento (os
ções de escrivão da armada outros dois são a Relação do
de Pedro Álvares Cabral. Piloto Anônimo e a Carta do
Era filho de Vasco Fernan- Mestre João Faras.
des de Caminha, cavaleiro Mais conhecido dentre
do duque de Bragança. Seus os três, a Carta de Pero Vaz
ancestrais seriam os antigos de Caminha é considerada
povoadores de Neiva à época a certidão de nascimento do
do reinado de D. Fernando Brasil embora, dado o segre-
(1367-1383). do com que Portugal sempre
Letrado, Pero Vaz foi cava- envolveu relatos sobre sua
descoberta, só fosse publica-

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/
leiro das casas de D. Afonso
V (1438-1481), de D. João II da no século XIX, pelo Padre
(1481-1495) e de D. Manuel I Manuel Aires de Casal em
(1495-1521). Pai e filho, para sua “Corografia Brasílica”, Im-
melhor desempenhar seus prensa Régia, Rio de Janeiro,
cargos, precisavam exerci- 1817. O texto de Mestre João
tar a prática e desenvolver demoraria mais ainda: veio à
o conhecimento da escrita, luz em 1843 na Revista do
distinguindo-se a serviço dos Instituto Histórico e Geográ-
monarcas. fico Brasileiro e isso graças
aos esforços do historiador
Teria participado da ba-
Francisco Adolfo de Varnha-
talha de Toro (2 de Março
gen.
de 1475). Em 1476 herdou
do pai o cargo de mestre da Tradicionalmente se aceita
Balança da Moeda, posição que Caminha pereceu em
de responsabilidade em sua combate durante o ataque
época. Em 1497 foi escolhido muçulmano à feitoria de
para redigir, na qualidade de Calecute, em construção, no
Vereador, os Capítulos da Câ- final de 1500.
mara Municipal do Porto, a Caminha desposou D.
serem apresentados às Cortes Catarina Vaz, com quem teve,
de Lisboa. Afirma-se que D. pelo menos, uma filha, Isabel.
Manuel I, que o nomeou para
o cargo no Porto, lhe tinha
afeição.

ficina
Em 1500, foi nomeado
escrivão da feitoria a ser er-
guida em Calecute, na Índia,
razão pela qual se encontrava
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19
Microcontos

Primeira Lição colonial


Simone Santana

http://www.flickr.com/photos/ilo_oli/165163626/sizes/o/

Quando os portugueses barbudos dos livros de história do


Brasil para o Brasil migraram, trouxeram a galinha, a cobiça,
e as armas de fogo, e o pequeno mameluco aprendeu a dan-
dar pra ganhar tentem.

20 SAMIZDAT novembro de 2009


Ele tinha
nome dediante
“O Cantode
da si sua visão ao concertista. chão a partitura do final
Sereia de Bach”, já que a Aquela mesma figura ca- de uma recente compo-
a mais difícil das missões:
bela melodia sempre se davérica, que levara tan- sição sua – a primeira a
mostrava como um fatal
cumprir a vontade de Deus
e irresistível convite ao
além-túmulo.
lhe seus terríveis olhos ficina
tos a sucumbir, apontava- lembrar que estava em
harmonia com a música
ausentes. E como todos os inacabada de Bach. Ter-
Quase um ano após o outros, também Mozart minando, viu que a perna
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paralisou-se. Junto à ima- já estava livre. Correu o
início das mortes, passava
pela região um viajante gem macabra, sentiu o mais rápido que pôde,
austríaco, excepcional cheiro da putrefação. As sem olhar para trás. O

http://www.flickr.com/photos/erzs/1357413280/sizes/o/
estudante de música, náuseas dominaram-no, som de sua composição
chamado Wolfgang Ama- o que o fez libertar-se da servia de trilha sonora
deus Mozart. Quando paralisia, caindo de joe- para a fuga, enquanto
soube da maldição, não lhos a largos vômitos. Em ele pensava como, até o
se alarmou, disse apenas meio a engasgos, tosses e momento, aquela música
que gostaria de ouvir o ânsias, ouviu a frase mor- nunca havia lhe parecido
tal concerto fúnebre e de tal: “Termine a música”. tão viva e tão mórbida.
conhecer o seu autor. Foi Confuso, desnorte- Prometeu não mais tocá-
alertado de que a história ado, Mozart tentou se la.
era verdadeira, de que as levantar apoiando-se No dia seguinte, o
pessoas já não queriam no órgão, que sua mão jovem Mozart já não se
mais estudar música, e atravessou como se nada encontrava pela cidade.
ele poderia ser o próxi- ali estivesse. Caiu sobre “Mais um levado pelo
mo, e o dia fatal estava o vômito, começando a Canto da Sereia de Bach”,
se aproximando... Nada recobrar a razão e ten- diziam. Contudo, soube-
disso o espantou. tando afastar-se daquele se na hospedaria que ele
Dia vinte e oito, “Toca- prenúncio da morte. havia partido durante a
ta e Fuga em Ré Menor”, De bruços sobre a terra, madrugada, são e salvo,
tudo como haviam dito, sentiu algo prendendo-o após o sinistro concerto.
e lá estavaHenry
Mozart pelo pé. Não teve cora-
den-Bugalho No cemitério, ao invés do
Alfred
tro do cemitério. Com os gem de olhar para ver o http://www.lostseed.com/extras/free-graphics/images/jesus-pictures/jesus-crucified.jpg
esperado músico morto,

O Rei dos
olhos fechados, deixava-se que era. E novamente a foi encontrada apenas
extasiar com as compo- voz suave suplicou: “Ter- uma inscrição na terra,
sições de Johann Sebas- mine a música”. Fazendo parecida com o trecho de

Judeus
tian Bach, num estado uma desesperada oração alguma partitura. Desde
de euforia sobrenatural. mental, tateou o solo até então, não se noticiou
Subitamente, o som se encontrar uma pedra mais vítimas do “Canto
extinguiu. O jovem des- pontiaguda. Com ela, da Sereia de Bach”.
pertou do transe e dirigiu começou a desenhar no

do www.revistasamizdat.com 21
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gr nl
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Contos

O Messias do Ocidente
Joaquim Bispo

http://www.flickr.com/photos/99954459@N00/1508511105/sizes/o/

22 SAMIZDAT novembro de 2009


Assim que chegou a ro, avançando depois até Manuel. Mestre Diogo foi
Tomar, João de Castilho aos andaimes instalados na incumbido de o rasgar a
procurou mestre Álvaro charola. – Vede as magní- Ocidente para acrescentar
Rodrigues para conhecer o ficas pinturas da companha uma nave, como vedes, e
estado das obras que fora de mestre Jorge Afonso – esta parte é agora “apenas”
incumbido de finalizar, continuava o guia. – Esta a abside.
ainda antes de conhecer os parte está quase acabada; só A seguir, visitaram a
alojamentos que lhe tinham falta alguma estatuária que nova sacristia de planta
sido atribuídos. Encarregou está a ser talhada pelo vosso quadrada dupla, que João
um dos homens da sua com- compatriota mestre Fernão de Castilho devia abobadar.
panha de tratar dessa parte Muñoz – não sei se conhe- Mestre Álvaro deixou a
logística. A viagem a cavalo ceis. maior surpresa para o fim.
fora cansativa, mas assim João de Castilho passa- Quando se postaram fren-
que avistou o volume do va os olhos pela enorme te à janela da sacristia, no
castelo foi tomado de gran- imaginária pintada e pelas local onde viria a ser im-
de curiosidade, dado o que inúmeras estátuas que pol- plantado o claustro de santa
já tinha ouvido dizer sobre vilhavam o antigo oratório Bárbara, o novo arquitecto
o complexo religioso que profusamente decorado, parou um momento, depois
crescia naquela envolvência mas o seu assombro vinha- sentou-se numa das pe-
militar. Foi encontrar mes- lhe da inusitada planta da dras da obra e quedou-se a
tre Álvaro a supervisionar capela-mor. contemplar e a tentar com-
os trabalhos no estaleiro da preender os inúmeros or-
– Que extraordinário
pedra, envolvido no ruído namentos que a envolviam
desenho, mas é anterior a
cadenciado dos martelos num emaranhado pétreo.
mestre Diogo, não?
sobre os escopros. Este
– Sim, esta parte foi – Que dizeis? – saborea-
guiou-o pelos meandros
construída pelos primiti- va o cicerone.
da obra arquitectónica em
execução: vos cavaleiros Templários, Mestre João nada dizia.
há mais de três séculos, – Esta é a parte em que
– Era aqui que mestre
inspirando-se no presumível mestre Diogo mais se trans-
Diogo de Arruda achava
templo de Salomão, que cendeu – continuou Álvaro
que devia ficar o portal da
alguns viram em Jerusalém. Rodrigues. – Todos estes
igreja, mas, como sabeis,
Então, o templo era só este motivos marítimos e vege-
ele foi chamado, há uns
espaço poligonal de dezas- talistas são de tais criativi-
meses, para uma campanha
seis lados, sustentado por dade e beleza que, acredito,
de obras em Safim e outras
estas oito colunas centrais. farão que se fale por muitos
praças em Marrocos, e vós
Entretanto, o espólio dos anos do seu arquitecto e do
fareis como entenderdes,
Templários passou para a rei que os encomendou.
ou as ordens que tiverdes
ordem de Cristo de que é
– explicava mestre Álva- – Entendo todas estas
Mestre o nosso senhor D.

www.revistasamizdat.com 23
cruzes de Cristo – disse fi- sil, essa fatia tão grande – Dizeis que há um esfor-
nalmente o novo arquitecto que ainda não se lhe viu o ço intencional de distorcer
– afinal este é um convento fim. Há quase vinte anos, alguns símbolos de modo a
da Ordem, mas por que em Tordesilhas, D. João servirem um determinado
todas aquelas esferas armi- II soube negociar. Mas, interesse real?
lares? a riqueza está a Oriente. – O que tem sido ventura
– Esqueço-me que estais Quase que chega aqui o para D. Manuel também
em Portugal há pouco tem- cheiro da pimenta. D. Ma- tem aspectos problemá-
po – reflectiu o mestre que nuel está exultante. E rico. ticos. O certo é que a no-
tinha ficado a tomar conta Por isso lança tantas obras. breza habituou-se a vê-lo
das obras até à chegada do Chamam-lhe o venturoso – como “apenas” o Duque de
novo dirigente. – A esfera tudo lhe corre bem. Há duas Beja, e não como El-rei. D.
enfaixada pelos círculos décadas não suspeitava que Manuel precisa de algumas
principais é um símbolo ge- pudesse vir a ser rei – era o ajudas de legitimação, por
ográfico da bola do mundo nono na linha de sucessão. isso alguma desta retórica
e um dos emblemas do rei. Caprichosamente, morre- imagética, que vale mais
Esse e o escudo real são ram sete desses candidatos. que muitas proclamações.
reproduzidos exaustivamen- D. Manuel é aclamado rei, Toda a obra de aparato é um
te em todas as obras de arte, sem esperar. No início do manifesto da grandiosidade
quer de cantaria, pintura, seu reinado, é descoberta a do rei e do estado. Se, além
iluminura ou mesmo estatu- passagem a sul para a Índia. disso, o rei for mostrado em
ária. Os Portugueses andam E o Brasil. Sente-se predes- figura, ou em símbolo, em
pelas sete partidas do mun- tinado. Vê no próprio nome circunstâncias nobilitantes,
do, de tal jeito e proveito – Emanuel, que em hebrai- maior grandeza adquire aos
que D. Manuel se intitula co significa Deus connosco olhos dos súbditos e dos
“Pela graça de Deus, Rei – uma indicação profética. outros soberanos. Ele ainda
de Portugal e dos Algarves, A esfera já fazia parte da alimenta a esperança de
d’aquém e d’além-mar em bandeira da família. Sphera vir a ser, também, rei das
África, senhor da Guiné e Mundi tem sido transcri- Espanhas. E, ouvi dizer que
da conquista da navegação to em muitos documentos se prepara uma embaixada
e comércio da Etiópia, Ará- como Spera Mundi, isto ao Papa que leva um elefan-
bia, Pérsia e Índia”. As esfe- é, a Esperança do Mundo. te indiano, dois leopardos e
ras estão lá para lembrar, Quem sabe se não será ele outros animais exóticos.
em imagem, esse estatuto o Messias que, unindo-se
– Noto que toda a orna-
de rei do mundo. ao rei cristão da Etiópia – o
mentação vegetalista como
Preste João – inverterá o
– Bem, Espanha começa que nasce de robustas raízes
progresso muçulmano no
a avançar por toda a Améri- que saem das costas de um
mundo, reconquistando
ca – racionalizava João. homem ali na base do pano
Jerusalém e derrotando os
– E Portugal, pelo Bra- de parede…
Mamelucos do Egipto!

24 SAMIZDAT novembro de 2009


– O velho é Jessé – o pai se, assim, o rei fundador conversar sobre a singular
mítico do rei David – disse- da nação portuguesa, com figura do rei a quem ser-
me mestre Diogo. Segundo o imperador “fundador” viam, e sobre as extraordi-
S. Mateus, essa genealogia do cristianismo, na pessoa nárias referências cruzadas
desemboca em Cristo, após de Emanuel das profecias, que o identificavam. Não
vinte e oito gerações. Aqui, que é a cabeça da ordem era difícil imaginá-lo com
vê-se que do seu dorso de Cristo, Cristo que virá a uma aura de Messias. Todas
nascem vergônteas que após ser o senhor do mundo. Ele estas informações eram
várias circunvoluções desa- pretende ser visto como a muito inspiradoras para o
brocham em esferas armila- junção do poder espiritual novo arquitecto, gerando
res, escudos reais e cruzes e do poder temporal, uma ideias de exaltação arquitec-
de Cristo. Não se pode ser sobreposição de César e tónica. Se D. Manuel queria
mais incisivo na afirmação Salomão. E Esperança do ser o bastião da cristandade
de predestinação, ainda por Mundo. Vários pintores e o seu modelo, poria o seu
cima apoiada na Bíblia. o têm inserido em cenas engenho ao serviço dessa
– Realmente! religiosas, como a Adoração aspiração para fazer deste
dos Magos, sendo El-rei convento um digno templo
– D. Manuel tem também
representado como um dos de Salomão no Ocidente!
realçado e feito representar
reis magos vindos do Orien-
o milagre de Ourique em
te. E, na verdade, ele é um
que o nosso rei fundador
importante rei, cujo poder
teve uma visão da cruz de
assenta, antes de mais, no
Cristo, onde se lia Com este
Oriente.
signo vencerás – o mes-
mo que viu Constantino, o João de Castilho e Ál-
imperador romano que lega- varo Rodrigues, mestres
lizou o Cristianismo. Liga- arquitectos, continuaram a

http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/
O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada

ficina
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Contos

IMAGEM DE BARRO
Wellington Souza

26 SAMIZDAT novembro de 2009


Nossas temperaturas Pena não conseguir Não vou me fazer de cul-
estão a um bom tempo dormir em camas estra- pada por não inflamá-lo –
equilibradas e altas, o ca- nhas à minha. Nunca me não posso, em consideração
lor incomoda ainda mais acostumei a outras e não a mim mesma – mas gosta-
quando se divide cama de descubro o porquê. Não ria de saber dos seus an-
solteiro. Estou de costas e me esforço muito também, seios, suas aspirações. Dos
me chego ainda mais em talvez Deus tenha me feito medos já seria demasiado:
seu corpo, quero mais calor. assim, intuitivo que é; talvez homens são herméticos
Paradoxos. E, para sentir tenha em meu subcons- e nem eles os conhecem.
a respiração leve do seu ciente algum bloqueio que Talvez este seja um subter-
metabolismo desacelera- me impeça de suspender fúgio para construírem e
do, enrolo meus cabelos e o alerta e a atividade sen- irem além. Olhos fechados
coloco-os de lado, pousando sorial em habitats excên- e passo firme. Difícil.
a cabeça em cima. Então tricos. Disseram-me que Vem a inspiração. Checo
vou afastando-a até sentir pode ser pela mudança do se o grafite está OK. “Há
que o seu nariz afogou-se ambiente ao redor. Nunca um cofre e não há o segre-
em mim, que meu perfume fui boa investigadora, deixo do./ O cofre está fechado./
impregna o escritório, a as respostas quietas após Talvez os séculos com suas
academia, o avião ou qual- poucas tentativas frustradas armas corrosivas o abra/
quer lugar onde esteja. Que ou incertas. talvez.”. Está esfriando e
acorde e diga que sonhou Desisto e levanto. Cal- logo estará na hora de acor-
comigo. ço uns chinelos que ficam dar.
Não sei bem se o amo, se grandes e vou arrastando- Tivesse agora, fuma-
esse querer-bem é o objeto os até a escrivaninha onde ria meu primeiro cigarro.
cantado tantas vezes. Mas acredito estar a minha Ninguém sorri enquanto
me protege e me dá or- calcinha. Visto-a. Apanho fuma, me disseram. Não
gasmos (no plural mesmo). uma lapiseira e uma folha quero sorrir. Acho que só
Talvez me sinta acomodada, A4 na impressora, escolho deveríamos sorrir ante a
numa “zona de conforto”, um livro de capa dura na morte, pois ai é certo que
como diriam os profissio- prateleira e vou sentar-me não haverá mais futuro
nais de recursos humanos. na varanda. Na cidade todos para se chegar. É um erro
Só não sinto nosso relacio- dormem – ou fingem – tan- sorrir enquanto se luta. Não
namento seguro, acho que to faz. Não há o que escre- tenho nada, porque o que
relacionamentos não são ver. O livro é de Adminis- conquisto jogo fora para ir
seguros, não são isentos das tração de Marketing. atrás de mais, senão morro.
incertezas quanto ao futuro Não sei também se ele E o cigarro me parece uma
– somos homens-econômi- me ama, nunca ouvi nada parada técnica. Meu pai
cos: pensamos em termos parecido, nem na cama. fumava e quando discutia
de risco-retorno. Dado o Mas isso pouco importa de com a minha mãe sempre
risco assumido de parar de tão importante que é. Me- despistava para um cigarro
sair com outros caras - mas
http://www.flickr.com/photos/auro/110122471/

lhor não pensar. Nem nos na varanda. Quando vol-


não por respeito à virili- conhecemos. O pior não é tava, estava mais sereno e
dade, sim à feminilidade nunca ter escutado palavras a mulher logo acalmava
– o retorno está condizente como paixão ou amor, o também. Na verdade queria
com o encontrado no mer- pior é não fazer parte dos pensar assim e fumar, mas
cado. planos. A questão não é acho as duas coisas muito
Tento ficar quietinha, res- nem não fazer parte dos másculas. Queria ser uma
pirar o mais suave possível planos, também não quero mulher dedicada e fiel,
para não ser descoberta em me casar, assim; acho que é mas também não ser essa.
vigília. não compartilhar os planos. Tentarei fumar, mas só em

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festas para os outros verem sas, motores de automóveis, um anti-vampiro que dá
que eu sou forte também. futebol que seja. Queria que vida ao despertar sensações
Já estamos enjoando um me aplicasse testes para ver diversas nas vítimas.
do outro, acho. O nosso elo se sirvo para sempre. Dissolveram a aquarela
mais forte é na cama, talvez Agora está azul-turquesa azul e agora está aguado
o único. Antes nos víamos e os pássaros começam a e límpido. Os pássaros já
quase todos os dias, nem lavrar o café-da-manhã. quietaram e as nuvens estão
que fosse apenas para dar Qual será a diferença entre brancas. Acho que as coisas
uns beijinhos no cinema ou ave e pássaro? Logo ele voltaram ao normal após a
em mesas de fundo no bar. acordará. Deixa a persiana turbulência que o rompi-
Agora fodemos nos fins de aberta, gosta que a luz do mento de madrugada causa.
semana e ele nem me liga dia seja seu despertador Inclusive eu.
todos os dias. Está decaindo natural. Criativo. Roço minha bunda em
ao sexo banal, ou casual, “//O que preciso é que seu púbis em intervalos
como dizem. Necessida- esteja ao meu alcance/ desritmados, se ele acordar
des fisiológicas de ambos como um brilhante/ para um pouco mais cedo e se
supridas, cada um em sua eu ditar a hora de usá-lo/ deparar com meu corpo
solidão. Acho que já posso e de negá-lo.” Acredito que livre, quererá. Não tenho
começar a procurar outro terminei este poema. porque terminar esse rela-
ou fazê-lo acreditar nisto. cionamento, afinal de contas
Já está ficando azul-azul.
“Gostaria que, ao tocá-lo/ As nuvens, de invisíveis, temos o que precisamos
ele se abrisse/ (como se a foram pintadas dum la- um do outro. Não sei se
senha estivesse em algum ranja que fosforesceu, mas me portaria bem como
buraco de mim)/ só para já estão descorando. Acho cúmplice, talvez não seja
desmistificá-lo/ ver que não que vou me deitar. Desta- este o porquê de estarmos.
há nada insólito/ que induz co a parte escrita da folha, Estamos mais para um ser
à idolatria./Igual/ mas não amasso a não-escrita e tento válvula de escape do outro,
reciclável.”. fazer uma “cesta” na lata mas não no sentido portuá-
Há tempos não via o de lixo, mas erro. Levanto rio (de porto seguro), tange
dia germinar; o negro está e vou arrastando o chinelo ao circense: algo sem itine-
ficando azul-marinho. Está em direção da cama. No ca- rário ou contratos. A tradu-
também cada vez mais minho coloco o poema na ção literal de boyfriend e
frio. Entro, fecho a porta de bolsa e displicentemente o girlfriend talvez seja a que
vidro e me sento próxima livro e a lapiseira na escri- melhor nos defina.
à varanda com a persia- vaninha. Admiro, ainda em Ele está acordando, me-
na aberta, numa poltrona pé, suas pálpebras trêmulas: lhor parar agora o registro
de antiquário. Nem temos certamente, em sonho, me mental de minhas ações. Os
mais muito assunto. Filmes: perdeu e isso o aflige. verbos passarão a ser conju-
só vemos os recreativos Sento-me na cama deva- gados todos em voz passiva
de Hollywood que não gar e deito tentando imitar e quero manter minha pos-
dão muito o que comen- uma pluma. Ele dorme de tura de mulher moderna.
tar. Músicas: temos gostos lado e um pouco encolhido, Acho. Toma minha barriga
totalmente opostos, não tento encaixar meu corpo com o braço e traz para si.
somos ecléticos e tampou- ao seu. Conchinha. Nova- Ataca meu pescoço e vou
co queremos dar o braço a mente enrolo meu cabelo e esquivando-me para frente
torcer na questão. Conver- faço dele travesseiro. Deixo ante suas investidas. Mas
sas banais sobre cotidiano e a região da clavícula e cer- neste movimento nossas
vida alheia logo me deixam vical nua, sei que ao acor- partes inferiores se friccio-
enfadada. Queria que ele dar ele irá atacá-la como nam e ele já se faz sentir.
me explicasse suas empre-

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Ocorreu-me o título: ídolo de barro. Espero que me faça esquecê-lo.
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Ídolo de Barro

Há um cofre e não há o segredo.


O cofre está fechado.
Talvez os séculos com suas armas corrosivas o abra,
talvez.
Gostaria que, ao tocá-lo
ele se abrisse
(como se a senha estivesse em algum buraco de mim)
só para desmistificá-lo:
ver que não há nada insólito
que induz a idolatria.
Igual
mas não reciclável.

O que preciso é que esteja ao meu alcance


como um brilhante
para ditar a hora de usá-lo
e de negá-lo.

Publicado originalmente no blog do autor: http://hiper-link.blogspot.com

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Contos

O troféu Volmar Camargo Junior

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30 SAMIZDAT novembro
outubro dede
2009
2009
Era manhã nevoenta do encontro ao povo, secunda- Contudo, não aparentava
mês de Pawqar Huaraq, do por numeroso batalhão. ser hostil ao invasor.
anunciando o início do Era um bom militar, mas Andando até distância
outono e a proximidade do não teria chegado à posição favorável, Huamán ordenou
Festival do Ramo de Flo- de comando apenas pela que seus homens parassem.
res. Os despojos da batalha excelência em manusear ar- Ampla praça separava os
cobriam a planície. Diante mas. Sua notoriedade devia- dois grupos. Sem precisar
do campo de soldados aba- se à perspicácia e ao talento qualquer aviso, ambos os
tidos estavam os muros da para a diplomacia. Enquan- líderes caminharam um na
última cidade do povo que to caminhava, procurou direção do outro. O militar
chamava a si mesmo unan- recordar tudo o que sabia a inca começa a falar.
cha. Os guerreiros vitorio- respeito daquelas gentes.
sos do exército do Tahuan- — Há mais a ganhar que
Eram herdeiros distan- a perder recebendo aqui o
tinsuyo levantaram-se para tes do sangue e da cul-
glorificar Inti, o Deus-Sol, Tahuantinsuyo. É uma boa
tura Nazca, extinta antes cidade. Não há com o que
pelo sucesso no embate. mesmo de Manco Capác
Na Terra, o homem que os se preocupar, desde que as
emergir das águas do Lago coisas sejam mantidas em
comandara com presteza Titicaca. Não eram grandes
na investida rápida e brutal ordem como sempre foi
combatentes, mas sempre feito, sacerdotisa.
– o jovem sinchi Huamán souberam defender-se. Isso,
Acachi – preparava-se para para Huamán Acachi era o — E, em troca, o que de-
concluir o que havia come- ponto mais importante: o seja o Filho do Deus-Sol?
çado na noite anterior. comando da cidade não era — O Imperador exige
A população resumiu-se do guerreiro, mas do sacer- aquele que jaz no interior
a um pequeno grupo, mu- dote. Entre aquelas pesso- da huaca. Será a prova de
lheres e homens ou muito as amedrontadas, não foi que os unancha são sub-
velhos, ou jovens demais. difícil identificar uma tão missos a Ele.
Assim que os raios do Sol singular. A surpresa, para — Que será de nós se
transpuseram os muros, ele, foi concluir que o lugar nos opusermos?
os vencidos, armados com do curaca, o líder político
aquilo de que dispunham, e religioso da aldeia, era de — Serão todos levados a
estacaram entre o general uma mulher. Cusco, como escravos. Os
e seu objetivo. Atrás deles homens serão submetidos
A sacerdotisa tinha a ao trabalho, e as mulheres
estava a entrada da huaca cabeça e as mãos adorna-
– o majestoso mausoléu de à prostituição. As crianças
das com objetos de prata. serão educadas em ayllu
seus antepassados. Todos Trazia ao peito um colar
sabiam que, mesmo derro- honrados para servir ao
feito de minúsculas conchas
http://www.flickr.com/photos/jah_min/2307513190/sizes/l/

tado o inimigo, conquistado Imperador.


marinhas, donde pendia a
seu território e dominado o insígnia representando o — Não temos escolha,
povo, faltava ao Imperador que, para ele, era o primi- então?
Inca ainda um troféu. tivo Deus-Jaguar. Era uma — Não, sacerdotisa. É
Não haveria mais mor- matrona forte, habituada a vontade do Tupac Inca
tes. A vila estava tomada, e igualmente ao serviço cam- Yupanki.
sangue desnecessário não pesino como aos ofícios de
era do agrado de Inti. Em curandeira, parteira, adivi-
pouco tempo, aquele seria nha e conselheira. Sozinha, A mulher silenciou por
o lar para uma boa família ofereceria resistência ao um instante. Seu olhar per-
cusquenha. O líder guerrei- imponente sinchi se este correu os rostos apreensi-
ro caminhou decidido de resolvesse entrar sem ajuda. vos, sobretudo dos anciãos.

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A eles, devolve a cumplici- e era coberto inteiramente tasmagórica. Quando não
dade do sentimento. Cala- por placas prateadas, em conseguia ver mais que a
dos, lentamente os vencidos uma suntuosidade digna de silhueta da criatura, sentiu
abrem caminho até a aber- um soberano. Observando a presença da sacerdotisa,
tura negra da pirâmide de melhor, achou o chão mais de quem havia esquecido
pedra e adobe. Sem olhar semelhante a um escudo completamente. O golpe
para o combatente, diz: convexo. Ao centro, no pon- rápido e preciso de uma
— Pode vir agora, gene- to mais elevado, havia um lâmina em suas costas não
ral. Mas terá de vir sozinho. trono. Para lá se dirigiu o lhe deu tempo para reagir.
comandante. Paralisado, caiu de joelhos
Com a cabeça, Huamán diante do ser extravagante,
sinaliza, certificando-se de Esperando para tomar
o troféu do Imperador e forçado pela dor e por uma
que seu imediato estaria de fraqueza repentina. Abriu
prontidão a qualquer sinal prontamente voltar para
o centro da civilização, os olhos, estava rente ao
de perigo. Sob a observação chão vermelho vivo. No
pesada dos moradores, o Huamán teve um choque
ao chegar ao pé do trono. reflexo sangrento, o guerrei-
jovem comandante toma ro viu seu próprio rosto. Ia
um archote da mão de um Aquele que, no seu entender,
deveria ser uma múmia, desmaiar. De gatas, imóvel,
menino e adentra no negru- trêmulo, sentiu tentáculos
me da tumba. estava vivo. O pavor e a
descrença dominaram-no gelados caminhando por
A passagem era estreita e assim que pôs os olhos na seu dorso em direção ao
tão escura que, mesmo com criatura. Não conseguia, corte aberto. Num ímpeto,
o archote aceso, era impos- contudo, desviar o rosto, ele urrou com ferocidade
sível ver mais que o globo tentando em vão associar e arremessou o corpo para
de luz e a mão que o segu- aquilo a qualquer coisa que cima, ficando novamente
rava. O ar tornava-se rare- conhecesse. O ser moveu em pé. Com o movimento
feito à medida que desciam. em sua direção um braço brusco, conseguiu desequi-
A luz começou a diminuir cuja extremidade não tinha librar a mulher, que aca-
até, sem razão aparente, dedos. O general recuou, bou derrubando a lâmina
extinguir-se por completo. andando de costas. O ocu- que segurava. O guerreiro
Huamán abriu a boca para pante do trono levantou-se. saltou em direção à adaga.
falar quando tudo ficou ilu- O corpo, delgado como o No chão, tomou-a, e com
minado. Não estavam mais de uma serpente, não tinha uma estocada precisa atinge
no corredor apertado, mas pernas, mas em seu lugar, o coração da sacerdotisa.
em uma cripta em formato um único tentáculo como Levantando-se, procurando
circular, muito ampla, tanto a cauda de um lagarto. Os forças para ignorar a dor,
nas laterais quanto para o braços, longos e finíssi- lançou-se contra o monstro,
alto. Espantou-se ao perce- mos, alcançavam o chão. A atravessando o espaço entre
ber a estranheza do lugar. cabeça era grande, muito eles com tanta rapidez e fú-
No alto do teto havia um maior que a de um homem. ria que o golpe trespassou
orifício por onde entrava a Os olhos negros, oblongos o corpo delicado da cria-
claridade. As paredes eram como os de um felino, eram tura. Um jorro de sangue
ocupadas por formas hu- absurdamente grandes. O escuro banhou-lhe as mãos
manas postas em pé: eram sinchi, transtornado, gritou. e o rosto. O ser grotesco
múmias, inúmeras, antigas, caiu pesadamente no soalho
Huamán sentiu-se inva- metálico. Ainda tomado
dispostas como se os esti- dido por sensações nunca
vessem observando. O chão por selvageria desconhecida,
experimentadas. O chão o sinchi começou a desfe-
da cripta foi construído espelhado da cripta envol-
como o bojo de uma tigela, rir golpes com ambos os
via-os em uma luz fan- punhos contra o crânio do

32 SAMIZDAT novembro de 2009


oponente, e não parou antes Vocabulário de 500 d.C.
de fazer do rosto da cria-
tura uma massa deformada
de sangue, pele e ossos. Pawqar Waraq – quarto Manco Cápac – O pri-
mês do ano (o primeiro meiro rei da cidade de
Sem olhar para trás, o equivale ao mês de dezem- Cusco, segundo o mito, de
conquistador inca apressou- bro). É a entrada do outono. origem divina (Filho de Inti,
se na direção do corredor o Deus-Sol).
escuro. A distância tornou-
se quase infinita pela an- Unancha – termo no
gústia em afastar-se daquela idioma aymara para “escu- Curaca - chefes dos clãs
tumba. Outra vez vê a luz, do”. Os unancha (se tives- ligados ao Império. Um
não a luminosidade morta sem existido) falariam um equivalente é cacique.
de espelhos prateados, mas dialeto de tal idioma.
a quente e acolhedora do
Sol. Jaguar (deus-) – uma di-
Tahuantinsuyo – O Im- vindade zoomórfica, tendo
Porém, o cenário externo pério Inca. Em quíchua: “Os equivalentes em muitas
não era menos aterrador. A quatro cantos do mundo”. culturas andinas.
luta eclodiu entre os inca
e os unancha. Fora este ou
não o plano da sacerdoti- Inti – O Deus-Sol, prin- Ayllu – equivalente a clã.
sa, a demora dos dois no cipal divindade do panteão
interior da pirâmide pode Inca.
ter alterado os ânimos de Tupac Inca Yupanki – o
inimigos que estavam tão 11º Imperador Inca (1461 a
próximos e sem uma li- Sinchi – Líder guerreiro. 1493).
derança que impedisse o
confronto. O resultado foi Huamán Acachi – Perso-
o que se pode imaginar: os nagem histórico que existiu
soldados do Tahuantinsuyo realmente, parente (irmão)
defenderam-se até o limite de Tupac Yupanqui. A pa-
de seu bom senso, mas rapi- lavra huamán em quíchua
damente, passaram a agres- significa falcão.
sores e terminaram com
a revolta do modo mais
eficaz. Não restou nenhum Huaca – local de devoção
rebelde vivo. dos povos andinos.
Chegou a noite do pri-
meiro dia do outono. O Inca – Dispensa apresen-
sinchi Huamán Acachi tações.
ordenou que os muros, as
casas, a pirâmide, os cadá-
veres, tudo naquela cidade Cusco (Cusquenha) – Ca-
fosse destruído. Sua inten- pital do Tahuantinsuyo.
ção era não deixar em pé
uma só pedra que tivesse
sido movida por aquele Nazca – Cultura pré-
povo. Depois daquela noite, incaica, localizada ao sul
ninguém jamais soube que do território peruano atual,
eles existiram. cujo apogeu foi por volta

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Contos

O Sorteio
Henry Alfred Bugalho

34 SAMIZDAT novembro de 2009


Parabéns, Sra. Maria dios para pressão alta que lha ajudou Maria de Lour-
de Lourdes Ribeiro, você Maria de Lourdes tinha de des com os preparativos.
foi uma das ganhadoras tomar, esta era a verdade. Compraram uma mala
da promoção “Margarina Mas jamais sobraria um enorme e alguns vestidos
Sorriso® me leva para um tostão para as viagens dos de veraneio.
cruzeiro”. Em breve, você sonhos — ir para a Euro- — Vai que você conhece
receberá as passagens e pa ou um cruzeiro pelas um velhão milionário, a
as instruções sobre como Bahamas. filha dizia.
proceder. Então surgiu aquela — Que isto! Seu pai é o
promoção. Maria de Lour- único, Maria de Lourdes
Com a carta chacoa- des recortou os códigos retrucava, com um sorrisi-
lhando entre os dedos, de barras duma centena nho acanhado.
Maria de Lourdes ria, de potes de margarina e
arriscou a sorte. Mas não Isto não impediu que
chorava, dava saltinhos de Maria tingisse os cabelos
emoção. contava muito com isto,
nos bingos com as amigas, dum ruivo fogoso e pas-
— O que é essa gritaria só tinha prejuízo, enquan- sasse uma tarde num spa.
aí no corredor? A síndica to algumas delas já haviam — Um pouco fora do
perguntou, braços cru- abocanhado alguns milha- orçamento, mas uma ex-
zados, enquanto descia a res de reais. travagância, nesta ocasião,
escada. não vai fazer mal, ela dizia
Aquela carta era o
— Eu ganhei, Dona Fir- sinal duma mudança, um para si.
mina, vou fazer um cru- marco, pela primeira vez,
zeiro pro Caribe! Maria de Maria de Lourdes ganhava
Lourdes respondeu com os Toda manhã, Maria de
algo. Seu coração palpita- Lourdes acordava cedo
olhos marejados. Este ha- va.
via sido um dos sonhos de e se sentava à janela, es-
sua vida. Desde que havia — Filha, estou indo para preitando a chegada do
se casado, isto aos dezes- o Caribe, ela disse ao tele- carteiro. Assim que o via
seis anos, foram poucas as fone. contornando a esquina, ela
vezes que ela havia deixa- — Que legal, mãe! vestia o penhoar e corria
do a cidade. O marido era Quando será isto? para baixo.
um homem muito ocu- — Ainda não sei, mas — Bom dia, Seu Vieira...
pado; nas férias, o destino acho que em breve. Posso — os olhinhos ansiosos o
era o litoral. Uma vez, levar uma acompanhante. fitavam.
http://www.flickr.com/photos/lisasanderson/3414118999/sizes/l/

estiveram em São Paulo, — Sinto muito, Dona


para o enterro do cunha- — Já pensou em al-
guém? A filha perguntou. Maria. Não tem nada pra
do, outra, no Rio de Janei- senhora.
ro, para o réveillon, e só. — Na minha filhota, é
claro! Maria de Lourdes — Não tem problema,
O marido se aposentou ela mentia, para depois re-
e, um ano depois, mor- respondeu.
tornar a seu apartamento
reu de ataque cardíaco. A — Ih, mãe, as coisas e continuar os preparati-
pensãozinha não deixava estão corridas lá na em- vos, selecionando as calço-
faltar nada, mas também presa. Acho que não vou las mais novas, decidindo
não permitia luxos. Boa poder tirar férias pelos quais sapatos levar, maqui-
parte se esvaía na farmácia próximos seis meses. lando-se diante do espelho
com os caríssimos remé- Mas, mesmo assim, a fi- e treinando alguns passos

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de valsa para dançar no sagens chegariam, então mento.
salão do transatlântico. seria um “cala a boca” para Na ambulância, Maria
Dentre as amigas, já ha- as amigas, Maria de Lour- de Lourdes recobrou a
via convidado meia dúzia des torcia. consciência.
como acompanhante, aliás — Não, eu preciso voltar
tal convite havia se torna- Os meses se sucederam para casa! O carteiro vai
do fonte de ameaças — a e nada. Maria de Lour- trazer minhas passagens
qualquer contrariedade ou des mal saía de casa, com para um cruzeiro! Vou
pequeno desentendimento, medo de que o carteiro para o Caribe... Levem-me
Maria de Lourdes se exal- viesse e não a encontrasse, de volta... Levem-me de
tava: “olha que não vou não comia por causa da volta...
levar você comigo!”; ansiedade, não conseguia
Algumas das amigas dormir; imaginava-se no
começaram a especular, convés, vendo o risco do Realmente, o carteiro
quando dois meses haviam horizonte adiante engo- surgiu na manhã seguinte
passado e nada das passa- lindo um sol vermelho, a e depositou uma carta na
gens terem chegado, que brisa do mar roçando seus caixa de correio de Maria
este sorteio não era nada cabelos — “preciso reto- de Lourdes.
mais que um delírio de car a tintura”, ela pensava,
Maria de Lourdes, talvez pois o branco novamente Sra. Maria de Lourdes
os primeiros sinais de já aparecia — e o balanço Ribeiro,
insanidade. constante e nauseante do
barco. Gostaríamos de nos
— Este concurso não escusar, por meio desta, por
existe! Uma delas a desa- — Amanhã, amanhã, um equívoco ocorrido em
fiou, numa destas discus- ela resmungava, lutando nossos bancos de dados.
sões. para conseguir adormecer, Seu nome erroneamente
— Existe sim! Maria de roendo as unhas, rangen- foi apontado como um dos
Lourdes se defendeu, ar- do os dentes, chorando de sorteados para a promo-
rancando a carta do bolso, raiva. ção “Margarina Sorriso®
já amassada e esfarelada, e me leva para um cruzeiro”.
a sacudiu diante do olhar Numa tarde de segunda, Como forma de compensa-
invejoso da amiga. a síndica e dois homens ção, enviaremos para seu
— Mas já são dois me- invadiram o apartamen- endereço uma caixa com
ses, Maria! Acho que eles to de Maria de Lourdes. nossos produtos, incluindo o
se esqueceram de você. Ela estava caída na sala, lançamento Margarina Sor-
magérrima, desacordada, riso sabor queijo cheddar.
No entanto, Maria de
Lourdes nem cogitava esta encharcada na própria Esperamos que nos des-
possibilidade. “Os trâmites urina. culpe por tal equívoco.
são mesmo lentos para Após um fim-de-semana
este tipo de coisas”, ela se sem conseguir falar com
reconfortava. Na mala, mal a mãe, a filha de Maria
cabia um fio de cabelo e de Lourdes ligou para a
ela precisou da ajuda dum síndica e para uma clínica
vizinho para conseguir de repouso. Internaria sua
fechá-la. Nos próximos mãe, antes que ela morres-
dias, com certeza, as pas- se sozinha naquele aparta-

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O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada
http://www.flickr.com/photos/32912172@N00/2959583359/sizes/o/

ficina
www.samizdat-pt.blogspot.com
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www.oficinaeditora.com
Contos

Relações Postais
José Guilherme Vereza

Prezado Gastão meus pijamas. As meninas mos as meninas inquietas em

http://www.flickr.com/photos/annyblue/2535337073/sizes/l/
Dirce e Luzia não sofreram pleno momento da refeição,
Finalmente a dor da sauda- tanto com a mudança, só a desrespeitando com risinhos
de me acena com tréguas e menorzinha estranhou um o silencia da mesa, o que me
cá estou eu, como diria nosso pouco o mofo da casa e ama- fez lançar a elas um olhar
avô, “de pena em punho a nheceu na primeira semana de censura e desaprovação.
lutar com as palavras”. Não com uma branda alergia Dircinha olhou para mim
contra elas, espero, mas atrás da orelha, o que foi e desculpou-se. Luzia, mas
fazendo-as cúmplices de logo diagnosticado pelo far- espevitada, revelou então o
francos sentimentos. E que macêutico como um eczema motivo de tanta graça, dizen-
sentimentos, irmão! Dói saber tolo. Prescreveu-nos a calên- do que sem a presença do tio
o quanto estamos distantes e dula de sempre e tudo voltou Gastão, tia Branca e os meni-
que esta distância não é nada ao normal. As obras da nos, finalmente, elas não pre-
breve, já que me vejo incapaz casa estão aceleradas e meu cisavam brigar pela moela.
de enxergar nas lonjuras da gabinete está quase pronto, Arlete e eu trocamos olhares
estrada a menor possibilida- faltando apenas uma escriva- e sorrisos. Percebemos nas
de de voltar a encontrá-los ninha onde eu poderei, além meninas que a força da con-
tão cedo. O que nos resta da contabilidade comezinha, vivência de nossas famílias
– eu conjugo nós, pois presu- dedicar-me às nossas mis- deixou marcas em todos nós.
mo que nossos afetos estejam sivas. Outro dia aconteceu Apesar de agora haver mais
atados a laços sanguíneos – é algo que muito nos emocio- moela e menos comensais,
o abrigo das cartas. Arlete nou. Arlete preparou uma sentimos vossa falta. E assim
vai passando bem melhor, re- inolvidável galinha ao forno vamos cozinhando a vida e
feita do impacto da mudança para o jantar, acompanha- eu, particularmente, ainda
do clima, que lhe produziu da de bolinhos de polenta me flagro a remexer nas
algumas alterações nos brôn- e chicória. Ao repartir o entranhas os motivos que
quios e aflições a encharcar assado, Arlete e eu percebe- nos levaram a esta separação.

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As perspectivas profissionais Arlete. Branca disfarçou e de Arlete e dos 100 quilos
aqui são razoáveis, mas não não prosseguiu, prevenindo- de “bonacheirice e rabugice”
o bastante para me conven- se de incômodas questiún- do tio Gastão, como definem
cer de que foi o trabalho que culas de Rodolfo, que por os meninos tua alternada
nos empurrou um para fora sinal, está cada vez mais personalidade. Branca entrou
do outro. Penso no passa- travesso, useiro e vezeiro em para a Pastoral das Viúvas da
mento da nossa mãe. Talvez nos proporcionar situações Igreja de São Caetano. Or-
a sua presença conciliadora constrangedoras.Veja você, ganiza quermesses e saraus
fosse responsável pela har- dias passados, Branca recebeu beneficentes, onde recolhem
monia entre nossas famílias para um chá Dona Carmita alguns donativos, poucos
e o medo de que não pudés- e sua filha Angélica, cujo tostões e muito que fazer.
semos nos suportar sem ela próprio nome traduz a pure- Rodolfo aproximou-se dos
nos levou a prevenir antes de za e a inocência de seus 12 novos vizinhos, filhos do Dr.
remediar. Embora pouco afei- anos. Pois não é que o me- Marraquino, respeitado clí-
ta a reflexões. Arlete defende nino Rodolfo surgiu à sala e nico geral, que gasta horas e
esta tese. Diz ela que sem o depois de fitar a donzela da horas com quem aparece na
carisma de Dona Lucrecia, cabeça aos pés, perguntou- sua frente a discorrer sobre
eu e você voltaríamos aos lhe em alto e bom som se práticas medicinais, farma-
tempos da infância, quando já lhe haviam sido criados cologia e anatomia humana,
odiávamos um ao outro e pelinhos no púbis?Branca o que deixa nosso primogê-
nos ensangüentávamos sem o hesitou em atirar-lhe uma nito particularmente atento,
menor motivo. Acho difí- xícara de chá quente, mas haja visto, seu desenfreado
cil. Não somos os traquinas preferiu fazer ouvidos de interesse pela puberdade da
de outrora, mas há que se mercador, evitando acalorar menina Angélica. Rômulo,
respeitar o sexto sentido e a circunstância. Dona Car- muito pequeno, ainda não se
a perspicácia silenciosa das mita, educadamente, mordeu deu conta da separação. Fica
mulheres. É possível que ela um biscoitinho de araruta horas e horas a espreitar na
esteja com a razão. Se desa- e de imediato comentou a varanda a impossível chegada
venças houve entre nós ao qualidade da confeiteira. Da das meninas da escola. Por
longo desses anos todas, com menina Angélica não se ou- mais que digamos que elas
certeza, ficaram contidas. E viu um pio, talvez por timi- foram morar longe e que não
contidas, foram dissipadas, dez, talvez por polidez, talvez surgirão tão cedo na esquina
pelo menos dentro de mim. por perplexidade, talvez por da nossa rua, ele insiste em
Já é tarde. Amanhã cedo o absoluto desconhecimento não se conformar. Com o
trabalho me espera. Reco- da matéria. Rodolfo deixou olhar distante, ele pergunta
mendações a todos. Aguarda- mansamente a sala, sem a onde é “longe” e quando é
mos o carteiro com ansieda- curiosidade satisfeita, sem “tão cedo”. Aqui ficamos por
de. Plínio direito a biscoito. Ao cair enquanto, em companhia do
**** da noite, o velho cinturão vazio da casa e da certeza de
de nosso pai foi posto em que tudo que aconteceu foi o
Irmão Plínio prática. Voltando à cordial melhor para nós. Recomen-
missiva, não gostaria de pros- dações a todos. Gastão
Registramos a chegada da seguir com reflexões sobre a ****
tua carta com muita alegria. nossa convivência, ou como
Branca fez questão de ler em você bem disse, possíveis e Gastão
voz alta para os meninos e contidas desavenças. É pru-
por obra e graça do destino, dente colocarmos um ponto É com imensa alegria que
a oratória aconteceu em ple- final neste enredo antes mes- percebo sensível melhoria no
no almoço, enquanto eu de- mo de iniciar o parágrafo. serviço dos carteiros, pois,
sossava uma galinha, que se Falemos pois do cotidiano. veja, tua carta não tardou
exibia dourada e fumegante A vida urgente da cidade mais de três semanas para
entre batatas coradas e tiras nos poupa de sofrer a vossa chegar às minhas mãos, a
de cebolas. Todos rimos até falta. Cada um ao seu modo, partir da data em que foi
o momento em que sua carta encontrou o antídoto contra entregue aos Correios. O que
referia-se ao passamento de a saudade do vozerio das me espantou foi a discrepân-
mamãe e as conjecturas de meninas, dos modos doces cia entre a data do carimbo

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no selo e a data em que me o tempo de não termos das colheradas de doce de
escreveste, conforme acusa os lábios e o céu da boca abóbora restando ao pároco
tua própria letra no cabe- queimados pela fumegante pouco mais de meia colher e,
çalho. Uma semana, Gastão! guloseima, para que num por uma questão hierárqui-
Uma semana para me enviar instante esvaziássemos a dita ca, apenas um cisquinho foi
uma carta já escrita! Não me com a voracidade de dois destinado ao carola. Quase
parece uma atitude delica- porcos famintos e egoístas, devolvemos o doce de tanto
da, muito menos compatível pois ao ficava a menor sobra apanhar, no instante em que
com doces palavras contidas para nenhum mortal. Jamais o pároco e seu assecla foram
nas tuas linhas e entrelinhas. esquecerei do dia em que as embora. Apesar das mar-
Em todo caso, fica o registro colheradas de doce de abó- cas do cinto, guardo doces
da minha estranheza com a bora com côco eram a conta lembranças desde episódio.
mesma intensidade da minha de servir ao pároco e seu São exatamente essas doces
esperança de que esta falta ajudante de missa, comensais lembranças que quero revi-
de cuidado não seja o pre- de um ajantarado de um sá- ver no simples tocar e olhar
núncio de atritos entre nós. bado ou véspera de dia santo, da compoteira, cuja posse foi
Não falemos mais nisso, pois. falha-me a memória quanto designada a mim pelo testa-
O menino Rodolfo é mesmo à exatidão da data. Antes da mento de mamãe. Lembro-te
de amargar. Apesar de sua chegada do religioso e do be- que de quinze em quinze
curiosidade pelas atividades ato, fomos energicamente avi- dias parte uma composição
do tal clínico, recomendo que sados de que não poderíamos de cargas da capital para o
não poupes o velho cinturão em hipótese alguma aceitar interior, quando poderás en-
de nosso pai. Imagino Branca o doce, pois se as visitas viar-me, desde que bem em-
como ficou passada, coitada. tinham prioridade na casa de balada e protegida, a saudosa
Logo ela, que tão bem sabe D. Lucrecia, quanto mais visi- compoteira. Por enquanto é
escolher as palavras como tas que representavam Deus. só. Abraços e todos. Plínio
se colhe rosas num jardim. Pois bem, ao terminar a
Quanto ao pequenino Rô- refeição, lembras-te? Surge da
mulo, foi de cortar o coração copa a exuberante compotei- ****
saber que sente saudade das ra com doce de abóbora até
Plínio
meninas. Em nome de Dirce a metade. O padre arregalou
e Luzia, transmita-lhe nossa os olhos, proferindo palavras
saudade e diga-lhe que longe generosas à doceira e num Três indignações vieram no
pode não ser tão longe e tão gesto divino, disse que as mesmo envelope que trazia
cedo pode ser mais cedo do criancinhas são sempre prio- tua última carta. A primeira,
que se imagina.A vida aqui ritárias, sugerindo à mamãe a percepção clara e nítida de
no interior vai prosseguindo que nos servisse primeiro. A que não perdeste a mania de
dentro de sua pacata rotina. velha Dona Lucrecia, temente me chamar a atenção. Supus
O escritório vai satisfatoria- a Deus e a seus representan- que a distância seria pou-
mente bem, fornecendo o tes, aproveitou uma distração pado de tuas reprimendas,
bastante para pagar as contas do padre e piscou para nós mas como pude me enganar!
e criar pequenas reservas ao tempo de nos perguntar Eis que elas chegam com o
para os imprevistos. Arlete, formalmente se queríamos carteiro, em forma de rebus-
ao arrumar a casa, deu falta provar do doce, na certa, es- cadas palavras, mas, como
da compoteira de cristal, perando que mantivéssemos sempre cacetes e irritantes.
cujas lembranças me fazem a palavra. Lembras-te do que Não vou por isso me des-
transportar ao tempo em dissemos? Um retumbante e culpar por ter esquecido por
que, ainda garotos, víamos uníssono sim, do tamanho de mais de uma semana sobre
mamãe preenchê-la de docas um bonde puxado a bur- o piano a carta pronta para
caseiros. Tempos férteis de ro. Apesar da saraivada de te endereçar. O inconscien-
travessuras, lembras-te? Basta- piscares de olhos da mamãe, te me fez esquecer. Pronto?
va Dona Lucrecia retirar do prosseguimos intransigentes Estás satisfeito com a volta
fogão o doce quente e sedu- na nossa decisão, o que não triunfal de nossas picuinhas?
tor, e colocá-lo na compotei- lhe proporcionou outra esco- Não me acuses de tê-las
ra para que nós ficássemos lha senão despejar sobre nos- recomeçado, pois foste tu
à espreita, esperando apenas sos pratos duas rechonchu- quem me cutucaste com vara

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curta. A segunda indignação Eu já me perdoei por isso. linhas, ladrão de pequenos
provém de outra percepção Resta-me saber do paradeiro furtos, ladrão vagabundo. O
clara e nítida, só que dessa da compoteira. Não me atrai produto do teu roubo não te
vez, de teu deslavado cinismo a idéia de crer no teu em- satisfaz. Roubas por roubar.
quanto à história do doce de buste do testamento, sempre Roubas o que não sabes que
abóbora. Ora, sabes bem que fui imune a contos do vigá- estás roubando. Roubas a ti
quem disse o enfático e re- rio, conversas de corretores próprio, quando pensas que
tumbante sim à mamãe não e argumentos de balconista. roubaste uma compoteira de
fomos nós. Foste tu e mais Bem sabes que o testamento reles valor. Não imaginas que
ninguém, sozinho a desafiar me reservou a compoteira estavas roubando um pouco
a cortesia de nossa velha e exijo que me envies ime- da nossa infância, simples-
Lucrecia diante do represen- diatamente o documento, mente, porque tu não tens
tante divino. E o que é pior: sob pena de jamais dirigir memória, não tens valores,
disseste que apanhamos, mas palavras, nem a ti nem a tua não tens passado. Pobre
sabes que quem apanhou fui incauta família.Dessa vez, ladrão de compoteira. Siga
eu, enquanto fugias como poupo-me de formais reco- teu caminho de gatunos e
um rato atrás da batina do mendações. insensíveis. A miséria do teu
padre. Em suma, tu disseste Plínio espírito não vale a tinta da
sim, nós comemos e só eu minha pena, não vale nem o
apanhei. E por isso, bem sei, **** selo dos Correios.
que se refere a este episó-
Plínio Plínio
dio como doces lembranças.
Evidente, para mim só restou ****
o gosto amargo de recordá- Não me rebaixarei à tua
sub-condição, enviando-te Plínio
lo. A terceira indignação diz
respeito ao equívoco que documento algum. Minha
cometeste quanto à história palavra é mais digna que Não te livrastes de mim,
do testamento. A ti foi desig- teus ouvidos, minhas letras portador de idiotia. Fizestes-
nada uma baixela de cristal, valem mais que teus olhos, me gargalhar aos borbotões
que tuas próprias filhas tra- minhas cartas por si só ates- ao me acusares de ladrão de
taram de espatifar. A com- tam a verdade que te escrevo, pequenos furtos. Tens razão,
poteira não te pertence nem salvo uma ou outra palavra tens toda a razão contida
a tua mulher, nem às tuas de afeto, escapulida em cartas neste universo. Se pequeno
filhas. Fiques apenas com as passadas, por descuido do furto cometi, não foi de uma
falsas lembranças que tens meu pensamento ou por obra compoteira ordinária. Fique
dela. Não vou prosseguir. e graça de uma desnecessária com esta intriga, vergonha de
Nem esquecer a carta sobre polidez. Quanto à compo- irmão! Enquanto eu desopilo
o piano. As indignações têm teira, é bom que saibas, foi meu fígado só em imaginar
pressa de chegar. Gastão trocada por esmolas na quer- teu semblante quando grita-
messe de São Caetano. Pobres res “Eureka!” Diante de uma
**** dos pobres que desta esmola descoberta tão óbvia e cruel.
se utilizaram, pois a compo- Aguardo tua carta ansiosa-
Gastão
teira que tanto reclamas para mente, pois tenho certeza de
ti foi avaliada em apenas um que será furibunda e virulen-
É com profunda franque- pouco mais que a alma do ta, para meu íntimo regozijo.
za que cumpro o prazeroso reclamante. Ou seja, nada, ou
dever de avisar-te que tua Gastão
para não dizer nada, escassos
carta não me pegou de sur- vinténs mais valiosos que teu ****
presa. Perdão, irmão, por ter caráter. É chegada a hora de
reduzido suas expectativas a Gastão
encerrarmos esta lengalenga.
pó. Tuas indignações perde-
ram-se pelo caminho, tuas Gastão Tua intriga não me abala.
agressões não encontraram **** Lamento frustrar tuas ex-
terreno fértil para crescerem pectativas, mas não fuçarei
ácidos frutos. Perdão por ter Gastão motivos para desprezar-te
te passado uma ilusão de que ainda mais. Os que tenho me
estava tudo bem entre nós. És ladrão. Ladrão de ga- são o bastante para ignorar-

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te. Foste despejado do nosso Plínio a Plínio, pois foi queimada
passado, não moras mais nas **** por ele mesmo antes de cair
nossas lembranças. Já não fulminado por um aciden-
pronunciamos o te nome, Plínio te vascular. Suponho que
nem quando damos topadas confessaste nosso caso. Os
nos pés das cadeiras. Plínio Não meta minha mulher indícios são claros. Embora
**** no meio desta pocilga de vegetando sobre um leito,
verbos. Ela bem sabe o valor Gastão ainda encontra for-
PlínioI do homem que tem, assim ças para olhar para mim e
como tua mulher sabe muito urrar com os olhos a pala-
nvejo-te, vergonhoso irmão. bem o homem que perdeu. vra puuuu-ta. Sim, com os
Invejo tua capacidade de Sim, tua mulher sabe o olhos! Olhos de lágrimas e
não pronunciar meu nome. homem que perdeu, animal raiva. Olhos de impotência
Infelizmente não podemos corno! Comi tua mulher!Pois e ferocidade. Olhos que lhe
dizer o mesmo do teu. Um já que não gritaste “Eureka!” faltaram na hora de perceber
casal de mendigos passou a ao perceber teus galhos o irmão que possuía. Olhos
habitar nossa rua há certa arrastando no alto pé-direito que não olharam para a
de duas semanas. Trouxeram de tua nova casa, obriga-te mulher que tinha. De nada
com eles trapos, caixotes, res- a saber de minha própria me arrependo. Se alguma
tos de comida, e um vira-lata pena. Antes de desposar mi- coisa devo, com certeza estou
ladrão de lixo e carniça. Este nha santa Branca, mergulhei pagando caro, condenada
cão imundo chama-se Plínio. pelas cavernas de tua Arlete, a cuidar de uma posta de
E pelo menos dez vezes ao enquanto viajavas a vender carne e ódio, não vejo saída
dia, temos que dizer “Passa, meias. E fiques sabendo: ela a não ser velar em vida o pai
Plínio!” Passa, Plínio!”. gostou, gostou e pediu sem- de minhas filhas. Quanto a
pre mais, mais e mais. Foram tu, esqueças de nossos planos.
Gastão Não me escrevas, não saibas
noites de gozo e esplendor,
**** mas não passaram de noites, mais de mim.
pois jamais admitiria alimen- Arlete
Gastão
tar romances com mulher
****
de corno. A fudelança só
Patife, miserável, excomun- cessou quando pedi Branca
gado! O cão imundo que ora Arlete
em casamento. Foram dias
vos fareja não está atrás da difíceis para Arlete, dividida
sustança do teu lixo. Nem Desconheço o conteúdo da
entre o medo de te mago- carta que enviaste a Gastão,
o mais rude animal desco- ar e o medo de me perder.
nhece o perigo que ronda as mas certamente foi isso que
Preferiu enfrentar o segundo lhe tirou a vida. Teu cunhado
tuas sobras. Não te iludas, medo e a partir daí resol-
boçal! O vira-lata ladrão e foi encontrado morto, ao pé
vemos esquecer o ocorrido da escrivaninha, engasgado
porco não quer teu lixo, mas e viver cordiais relações. Só
a imundície do teu viver. É por uma indigesta maçaroca
mesmo tua cara de corno me de papel, com indecifráveis
isso que ele busca. Conforto fazia lembrar que tive um
na sujeira da tua casa, no vestígios da tua letra. É bom
caso com tua mulher. Agora, que saibas que sempre soube
podre do teu caráter, no mau que sabes o desfecho deste
cheiro do teu pensamento. de tudo. Agora, não há mais
folhetim, mandes chamar um nada a fazer, a não ser sepul-
Pobre animal! Mal sabe que médico, pois com certeza
o negrume dos seus donos tar com um único defunto,
estás começando a ter um quatro vidas fingidas. Não
é mais alvo que a brancura derrame. Gastão
azeda da tua pele encardida. me escrevas, não saibas mais
Pobre mulher a tua. Obriga- de mim. Branca
da pela moral a dormir com ***
um traste, ainda encontra
forças para bem cuidar de Gastão
teus filhos, inocentes vítimas
de uma aberração genética. Desconheço o conteúdo
Verme! da última carta que enviaste

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Contos

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Sheyla Smanioto Macedo

Ventanas (I)
Fiz uma Ventania tão torial, justamente quando As tintas equatoriais
forte, mas tão forte, que des- do referido acontecimento. bailaram, colorindo o ar,
locou a linha do Equador; e Foi um capricho meu, sobre até que a música cessasse:
nos varais, que outrora in- o qual não deixei pistas, pairaram, então, sonolentas,
vejavam a condição e rele- que se escrevesse jazeria na onde lhes aprouve, como
vância daquela privilegiada estante de ficção (também se, depois do canto da
linha, dançavam as roupas os homens têm das suas Ventania, decantassem: e
uma lambada fervorosa, ironias). dormiram como dormem
destas que levantam saias as linhas imaginárias. Então
e lençóis; e nos tecidos, Neste tempo, o vento cor- o mundo se desordenou:
linhas pilotavam agulhas ria tanto que não podíamos povoou-se de pontos de
num bordar frenético até ver seus pés e, atrás dele, vista perdidos de linhas de
que lhes findou o impulso: fazendo festa (como as latas pensamento, de pontos sem
chegaram os ventos ao seu que cismam em acompa- nós; minha pena, talvez por
destino, e estacionaram. nhar aos tropeços os carros isso, escreveu uma história
de recém-casados), a poeira em linhas tortas, começan-
(Meus caprichos são sem- levantava e brincava de ser do em fim:
pre assim: sem gravidade). névoa, névoa vermelha, que
depois cai feito neve para
Tento fazer graça nessas povoar a terra e voa, esvoa-
coincidências (eu tenho das ça, como um grande vestido
minhas ironias): estavam re- que se dissolve em panos,
novando as tintas do mun- em linhas, em pontos... em
do, inclusive da linha equa- letras.

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Contos

SAMIZDAT novembro de 2009


A sogra
Mariana Valle

http://www.flickr.com/photos/myklroventine/3400039523/sizes/l/
Se, quando nora, sua visita os pais do genro. E sentada a você. Nem a
sogra sofreu tanto com a sai de lá sabendo tudinho sua irmã gêmea, claro. E
mãe de seu marido, por da vida da tal da ex. Para a fulaninha ainda man-
que, agora que subiu de quê? Essa gente não tem da recado. Sem saber de
posto, resolveu encarar a outro assunto não? nada, seu amigo vai lá
norinha que acabou de dar em cima da gêmea
chegar, como se ela fos- Então chega o aniver- solteira, a ex, ao que ela
se um bicho-papão que sário do namorado. Ele te reage. “Eu ainda estou
vai levar o filhinho pra mostra a lista dos convi- muito ligada no meu
longe? “Já vai carregar o dados e você repara bem. relacionamento anterior,
fulano?”, pergunta a so- Estão lá os nomes de com o namorado da sua
gra todo final de semana, todos os amigos dele que amiga.”
quando você vai deixar o você ainda não conhece.
namorado no aeroporto. Será um grande evento. Cinco minutos depois,
Detalhe: ele ficará uma Você se faz de tonta e você está na pista de
semana longe de você, pergunta: “não vai convi- dança e leva aquele sus-
inclusive. dar a ‘você sabe quem’?” E to. Adivinha quem está
ouve feliz, quando ele diz dando um beijo na boca
Ela não lembra como a um sonoro não. de um desconhecido? Ela
mãe do seu então namo- mesma. A tal que ainda
rado a julgou mal? Não Dia da festa. Você co- não esqueceu seu na-
deu a ela o carinho que nhece o João, José, Maria, morado. Mas agora vou
merecia? Se tem memó- Pedrinho e por aí vai. contar o melhor da histó-
ria de como seu marido De repente adentra o ria. Lembra, lá na frente,
ficou magoado quando salão um par de gêmeas. quando você descobriu
suas rixas começaram Daquelas que você viu que seu namorado não
e, o pior, como ele sofre na foto que o seu namo- convidou a ex? O misté-
agora que não tem mais rado tirou do álbum. É, rio, enfim, é desvendado,
volta, não tem medo de a própria. Como se já quando você pergunta:
que seu próprio filho não bastasse ele ter uma “Então, quem convidou
sinta o mesmo? Que mãe ex-namorada, ainda tem a ‘você sabe quem’, meu
quer ver o filho sofrer? a gêmea, que é pra não amor?”, ao que ele infeliz-
esquecer da cara da ex.. mente responde: “’Minha
Ela vive reclamando Nem você esquece, a essa mãe”.
que não teve amizade altura. Mas calma que
com a sogra. O que fez ainda vem a pior parte.
então quando a própria
nora chegou? “Prazer, Apesar de ter sido
Fulana. Ela tem a voz apresentada a toda a
igualzinha a de você sabe turma da Mônica, do Zé
quem, meu filho.”, disse Colmeia e do Catatau,
a sogra se referindo à você não tem permissão
ex-namorada dele. Como para brincar de “Super-
se a atual não soubesse gêmeas, ativar!” A tal da
que ela estava fazendo de ex, que se separou do seu
propósito. A nora so- namorado há um longo
brevive. A mãe da nora ano, não quer ser apre-

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Contos

Léo Borges

12 de outubro sob ataque


Era feriado, mas ainda procissão de gente com – Fique tranqüilo. Ainda

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assim algumas lojas abri- suas sacolas de brinquedos, faltam quarenta minutos
ram para que os atrasados ele aguardava algum incau- para o comércio fechar –
pudessem comprar seus to para uma prosa – ácida, disse com seu jeito despa-
presentes do Dia das Crian- como de praxe. Ao vê-lo, chado, limpando o visor do
ças. E eu, nessa luta de ofereci-me como compa- relógio verde e branco que
última hora, também busca- nhia efêmera, já que a tarde trazia no pulso. – Você sabe
va uma pequena lembrança caía e eu ainda não havia qual é a coisa mais impor-
para meu sobrinho quando, comprado o presente. tante neste feriado de 12 de
no meio da correria, passei outubro?
pelo Bar do Setembrino e – Jacimeire – chamou
vi um vulto familiar. Quem a garçonete ao perceber – O que é?
era? Ele mesmo: Rildo, o minha aproximação –, traz
outra gelada pro camarada – Foi o dia em que me
paladino das contestações. aposentei – disse rindo. –
O ilustre bonachão, que já aqui!
Feriado e dia útil pra mim
chegou até mesmo a senten- – Obrigado, Rildo, mas já agora é tudo igual: um de-
ciar que no mundo a única estou de saída. Ainda tenho leite só! Aliás, esse negócio
Paz possível é a garçonete que comprar alguma coisa de dizer que dia útil são só
Jacimeire – cujo sobrenome pro meu sobrinho. Só parei os dias de trabalho sem-
é Francisca da Paz –, estava porque, como você sabe, pre me desagradou, porque
lá, escarrapachado em sua não abro mão de algumas insinua que sábado, domin-
cadeira cativa, observando a palavras com o nobre ami- go e feriado são inúteis por
efervescência das ruas. go. definição, o que é um ab-
Tendo como cenário a surdo. É justamente nesses

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dias que o ser humano mais ícone cristão? Essa incoe- – O feriado do dia 12 de
mostra sua utilidade: brin- rência abre precedente e outubro seria mais apro-
ca, escreve, lê, namora, joga outras religiões se legiti- priado, então, se fosse por
uma sinuca, conversa com mam a pleitear toda a sorte causa do Descobrimento
amigos no bar... de homenagens. Adeptos das Américas?
do satanismo, inclusive,
– É, mas, além disso, há poderiam requerer um – Na verdade, as Amé-
outros fatos importantes feriado para eles, por que ricas foram descobertas
nesse dia, não acha? – pro- não? O Dia do Encontro muitíssimo antes do dia
voquei. com o Demônio, por exem- 12 de outubro de 1492. O
plo. Ah, e os ateus também que hoje é propagado não
– Sim, claro. É a data passa de um eurocentrismo
de fundação do Coritiba seriam contemplados com
algo como O Dia Nacional que até fica bonitinho em
Futebol Clube, por exem- livros escolares, mas que
plo. Pelo menos para o meu da Não Crença em Deus.
Diante dessa imprudência não condiz com a realidade.
vizinho paranaense, que é Quando os europeus che-
fanático por futebol, hoje é legislativa, isso me parece
bastante plausível. garam, já existia aqui uma
um grande dia! Aliás, esse população de milhões de
relógio com o escudo do Desconfortado com o ameríndios com seus cos-
Coritiba, que vive parando, comentário, bem típico dele, tumes e línguas. Então, tal
foi ele que me deu – co- dei uma tossida e falei: ‘descoberta’, incluindo aí a
mentou, mexendo num dos de Cabral oito anos depois,
botõezinhos do aparelho. – Há o Natal, um feria- deveria ser compreendida
do de origem cristã que é como uma simples visita,
– Bom, isso até pode ser mundialmente instituído.
– falei, concordando com inesperada como se vê,
a brincadeira –, mas, na – A origem pode até de um povo a outro, mas
verdade, as pessoas se ligam ser essa, mas pergunte a jamais como uma coloni-
mais nas três datas, diga- qualquer menino qual a zação e muito menos como
mos, de maior expressão lembrança que lhe chega à uma conquista. No entanto,
nacional: o feriado pelo Dia mente no dia 25 de dezem- os galegos trataram os silví-
de Nossa Senhora Apare- bro? Algum fato relaciona- colas como uma espécie de
cida, padroeira do Brasil, o do ao cristianismo ou o fa- sub-raça, impondo credos e
Descobrimento das Améri- migerado Papai Noel da loja levando toneladas de ma-
cas e o Dia das Crianças. de videogames? Por outro deiras e minérios em troca
lado, poderiam criar tam- de bugigangas. Eu imagino
Rildo abriu um sorriso bém uma série de feriados como deve ter sido cons-
malicioso, bebeu de um mundiais pelos nascimen- trangedora a tal primeira
gole quase meio copo de tos de Sidarta Gautama, de missa dos lusitanos na
cerveja e começou o discur- Allan Kardec, de Maomé, Terra de Santa Cruz: uma
so que colocava todos esses entre outros. Assim, para sisuda solenidade cercada
acontecimentos de 12 de felicidade geral, os pernicio- por uma multidão de índios
outubro na berlinda. sos “dias úteis” iriam quase pelados! – ria.

– Você sabia que o Brasil sumir – disse, prendendo a – Cuidado com o que
é um país laico? Significa gargalhada. – Sei que algu- diz. O seu Setembrino é
que não temos uma religião mas datas religiosas movi- português, hein... – alertei.
oficial. Logo, como é que mentam o comércio, mas
o poder público cria um é um contrassenso e um – Bom, nesse bar eu tam-
feriado tendo como base desrespeito atrelar questões bém sou explorado: olha o
uma data que festeja um mercantis à fé. preço da cerveja! Mas esse
delicioso bolinho de carne

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seca compensa... – disse, – Como artimanha para mundo. Mas, na qualidade
degustando o petisco. – Se o a obtenção de lucro isso já de integrante da tal “so-
portuga resolver me cate- seria algo questionável, mas ciedade de consumo”, per-
quizar, faço um escambo e a coisa é ainda mais ardilo- guntei pelas horas, já que
levo a Jacimeire em troca sa: passaram a servir como as lojas estavam fechando
do meu relógio do Coxa¹ uma resposta picareta e e meu sobrinho iria acabar
– brincava, piscando tanto debochada às necessidades ficando sem ganhar nada.
para o simpático seu Setem- das pessoas. Amar e fazer
brino quanto para a solícita algo de bom deveria ser um – Ih, amigo! Os ponteiros
garçonete. padrão diário, uma roti- estão parados! Certamente
na, mas restringiram isso já passou das seis e aqui
Mas, e o Dia das Crian- a datas hipócritas, como, ainda está marcando cin-
ças? Até este ele conseguiria por exemplo, o intragável co e cinquenta... a culpa
colocar sob fogo cruzado? Dia Mundial da Paz. Argh! foi minha por te prender
– completou, apertando o a papo tão utópico – falou
– Datas com comemo- mexendo no relógio. – Acho
rações específicas, como nariz como se algo chei-
rasse mal. Realmente, para que você não vai mais
Dia das Crianças, Dia dos encontrar nenhuma loja
Pais, Dia das Mães e Dia alguém que não crê na
viabilidade da Paz, esse dia aberta.
dos Namorados, realmente
nasceram inocentes e bem deveria mesmo soar como – Tranqüilo. Dou um
intencionadas. Mas, aos pilhéria. abraço nele como presente.
poucos, foram ganhando O velho boêmio revelou Se você me fez enxergar
um viés comercial e fican- que sempre presenteava os que objetos nessa data não
do sem alma, de modo que, filhos com critérios diferen- são tudo, acho que ele tam-
infelizmente, dar presente tes daqueles determinados bém pode entender.
se tornou mais importante pela sociedade.
do que estar presente. E isso – Leve para o seu sobri-
tudo sem falar em anacro- nho – disse Rildo tirando o
nismos como o tal Dia do relógio do pulso e me en-
Índio. Nesse dia, as crianças – Eu nunca obedeci a tregando. – É só trocar a ba-
da cidade se pintam e dan- esses cronogramas. Mimava teria que volta a funcionar.
çam. Mas ninguém lhes diz quando queria ou quan- Para ele se orgulhar, diga
que, atualmente, índio de do achava que mereciam. que o Coritiba foi campeão
verdade é coisa raríssima. Quando chegava o Dia das brasileiro de 1985. Só não
Os que não foram dizima- Crianças, eu não presen- sei se também foi no dia 12
dos viraram uma espécie teava. Nem no Natal. Me de outubro.
híbrida e agora vivem juri- chamavam de sovina e até
dicamente como peles-ver- de pernóstico. Antes isso do
melhas, mas, de fato, como que escravo dessa sórdida ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­¹ - Coxa no masculino e
autênticos caras-pálidas. obrigação de se adequar com letra maiúscula por se
ao supérfluo consumismo tratar da alcunha do time
Para Rildo todos esses datado. E não tive problema do Coritiba.
dias chamados “especiais” se com a criação de nenhum
transformaram em estra- dos guris. Hoje meus netos
tagemas peçonhentos para têm tratamento semelhante
que pudéssemos sustentar e gostam.
o verniz social do politica-
mente correto e, de quebra, É. Um diálogo com Rildo
gastarmos nosso dinheiro sempre mostra uma manei-
com quinquilharias. ra insólita de se enxergar o

48 SAMIZDAT novembro de 2009


O lugar onde
a boa Literatura ficina
é fabricada
www.oficinaeditora.com

http://www.flickr.com/photos/27235917@N02/2788169879/sizes/l/
A Oficina Editora é uma utopia, um não-
lugar. Apenas no século XXI uma ­vintena
de autores, que jamais se ­encontraram
­fisicamente, poderia conceber um projeto
semelhante.
O livro, sempre tido em conta como uma
das principais fontes de cultura, ­tornou-se
apenas um bem de ­consumo, ­tornou-se um
elemento de exclusão ­cultural.
A proposta da Oficina Editora é ­resgatar o
valor natural e primeiro da ­Literatura: de bem
cultural. ­Disponibilizando ­gratuitamente
­e-books e com o ­custo ­mínimo para ­livros
impressos, nossos ­autores ­apresentam
a ­demonstração ­máxima de respeito à
­Literatura e aos ­leitores.

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Contos

We’ll always have Paris


Barbara Duffles

http://www.flickr.com/photos/marine_b/3926005769/sizes/l/

50 SAMIZDAT novembro de 2009


Cansada depois de um turas – ele disse que era Chaplins alucinados
dia de caminhadas sob pintor amador. Sensível e
um sol seco, foi surpre- delicado, Clive também
endida pelos australianos, escrevia, desenhava e lia,
Deita-se conforma-
animados como cariocas. lia muito. Ele falou de
do. Mais uma noite de
Uma volta em Montmar- Thomas Mann. Ela falou
zumbido o espera, aquele
tre? Oui, pourquoi pas... de Gabriel Garcia Már-
vindo de dentro, ouvi-
Andaram pelas ladeiras quez e Rubem Fonseca.
do sempre que se sente
de paralelepípedos, co- Trocaram emails, links de
fora do eixo. Pensa que
meram crème brûlée no blogs. Sentiam-se velhos
o barulho vem das tra-
café da Amelie Poulain, amigos. Na volta para o
quitanas de seu cérebro,
fotografaram e filmaram, albergue, ele a fotografou
mexendo-se desconexas,
como bons turistas que vendo as estrelas. Sim,
como se chaplins es-
eram. Depois de visita- ele também fotografava.
corregassem alucinados
rem uma loja de vinhos, Dias depois, Clive seguiu
por suas engenhocas.
cada um saiu com uma para Londres e ela para
Para lubrificar as porcas
garrafa de dois euros na Veneza. Trocaram alguns
e parafusos, talvez leite
mão. Decidiram beber emails falando de suas
quente dê cabo. Talvez
nas escadarias da Sacre- viagens. Ele enviou as
cantar espante o zumzu-
Coeur, importando-se fotos do grupo na Torre
mzum. Pensa em Elvis,
menos com a arte sacra Eiffel. O último email
“Sweet Caroline”. Depois
e mais com a deliciosa que ela recebeu dele era
sussurra “Suspicious
sensação de ter Paris aos enorme, falava de Ingrid
Minds”. Mas o Grande
seus pés. Sentados jun- Bergman e sua famosa
Ditador não deixa o Rei
to com eles, dezenas de frase em Casablanca:
tomar conta, e intensifica
jovens do mundo inteiro We’ll always have Paris.
os zumbidos. Pensa em
conversavam, emanan- Por falta de tempo, ela
apelar para comprimidos.
do seus espíritos livres não o respondeu.
Mas é tão medroso que
a ponto de dar inveja a
Meses depois, recebeu prefere ficar na compa-
Nietzsche. Uma chilena
uma mensagem de An- nhia de seus chaplins es-
que havia morado em
drew, um dos australia- quizofrênicos, desejando
São Paulo. Um cubano
nos do grupo: Clive havia que eles sejam tão geniais
tentando ser Che. Italia-
morrido de pneumonia. quanto o bigodudo de
nos, ingleses, americanos,
Triste, ela chorou toda bengala. Mas consciente
brasileiros, fundindo seus
uma tarde. Resolveu de que são apenas reles
mundos, deglutindo-se
entrar no blog dele, ten- peças dos Tempos Mo-
uns aos outros, entre go-
tando encontrar fotos da dernos.
ladas de vinho e tragadas
entorpecentes. Cidade Luz. Seu coração
quase parou quando viu,
Foi quando Clive, um em um dos posts, uma
simpático gordinho aus- imagem. Era uma pintu-
traliano de dentes in- ra dela, sentada na porta
fantis, aproximou-se e do albergue, olhando as
puxou assunto com ela. estrelas.
Começaram falando de
vinho, depois de viagens, ----------------------------
culturas estrangeiras, pin- ------

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Contos

Duetos Assassinos
Giselle Sato

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Ela dos, temidos e condenados. Minha mão no seu sexo, eu
Gosto de jogos, de riscos Você me trouxe de volta, e já sinto aqui
e rasgos. Tragos e traços em atravessamos o mundo dos Brincando na umidade,
finais imprevisíveis. vivos deixando um rastro de entrando sem esforço
Ser musa é o preço de vi- trevas. Lâmina deslizando lenta-
ver através da eternidade. mente
Gostaria que houvesse um Ele
toque de poesia e requinte, Deitar contigo à luz da lua Pressiono-te contra mim,
uma pequena alusão ao belo Sob a lona que depois ser- estou duro
que compõe o quadro imagi- virá de mortalha Sua mão sobre a minha, no
nário. Contando histórias, cantan- cabo da faca
Contudo, estou disposta a do, planejando Beijamo-nos enquanto o
barganhar meus pequeninos sangue jorra
luxos . Transporemos essa mura-
Imaginei uma cena mas lha Você desfaz meu cinto, meu
bem sei o quanto gostas do Nosso brinquedo estará pau como estaca
grotesco, horrores que somen- esperando Penetra violento, como
te você consegue imaginar... Primeira honra será sua. procurando desforra
E que te delicia não tanto Sempre. Por algum mal, ou prejuízo
quanto o calor do meu seio prematuro
em tuas mãos, manchadas de Alisarei os seus seios sua-
dores e agonia. vemente Animais no cio, e a vida
Nascemos no mesmo dia, Com uma mão, na outra o sob improvisada cabana
separados por minutos, em bisturi Vai-se embora, atravessa
um parto maldito de uma Incisão inicial sob o pesco- para o além
carne morta. Desde sempre ço frio Éramos três, somos agora
amaldiçoados, fomos separa- um par

52 SAMIZDAT novembro de 2009


Enquanto as empregadas cor- contraste em que os gêmeos
Gozamos, nos sentindo riam, providenciando calor e viviam, não gostava da risada
bem alimento para os pequeninos, aguda da neta.
Amamos, matamos, e volta- o restante da família velava No entanto, a velha se-
remos a amar a morta. Não houve funeral nhora nunca contrariava ou
E a matar. Pois o sangue aberto, apenas a mãe acompa- impunha a disciplina neces-
nos chama. nhou a única filha à morada sária. Sentada na cadeira de
derradeira. Muitos atribuíram espaldar alto, toda de negro
Ela ao fato da moça ter aparecido em luto fechado pelas per-
Olhos febris refletem medo grávida, o que levou a família das sentidas, a idosa apenas
e terror, perdem a inocência e a discrição e afastamento. observava. Em complacente e
odeiam. Nove anos depois, os gême- arrastada existência, passava
O grito suspenso, que os passeavam no pátio, havia os dias como se não fizesse
jamais será ouvido, morre no sol e a tarde morna prometia parte de nada. Os empregados
murmúrio da mulher encolhi- calmaria. A avó materna assu- caminhavam pelo casarão na
da e trêmula. O homem tenta miu os meninos e amaldiçoou ponta dos pés, falavam bai-
proteger a amada, você não cada momento após o ato xinho, com medo de alguma
permite e mostra sua força. precipitado. Calados e uni- ameaça invisível. Principal-
Ele cai muitas vezes e eu peço dos, Ana e Léo viviam em um mente, todos tinham verdadei-
que não o mate. Ainda. mundo à parte e não admi- ro pavor da antiga cabana que
Abraço a pobre moça e tiam qualquer interferência. A as crianças haviam transfor-
aliso os cabelos em cachos velha senhora tentou de todas mado em local de brincar.
perfeitos. Ela é bonita e jovem as formas criar algum vínculo Afastada da casa e isolada
demais, percebo seu olhar com as crianças. Completa- pela floresta, os meninos pas-
e decido cortar cada fio. A mente ignorada, aos poucos savam todo o tempo livre na
tesoura vai e volta enquan- desistiu e acostumou-se aos construção rústica. Mal ter-
to as mechas caem... Caem... estranhos netos. minavam as aulas, buscavam
Formando montinhos. Ana falava e tomava todas o refúgio e por lá ficavam o
Pequenas gotículas de san- as decisões, Léo seguia seus resto do dia. Com o tempo,
gue escorrem, ela geme sob as passos como uma sombra, Léo passou a dormir e fazer
cordas apertadas. A boneca de silencioso e soturno. O frontal as refeições no local e quase
trapos levanta os olhos azuis deformado, mal oculto pelos não era visto na casa princi-
e me encara com raiva. Sou cabelos escuros, dava-lhe um pal. A avó entendia o fascínio
a ultima imagem, antes que a aspecto maldoso e repug- das crianças pelo brejo, local
lamina destrua a cor. nante. Se uma criança pode- repleto de animais pestilentos
E assim seguimos, alguns ria ser chamada de sebenta, e evitado por todos na região.
nos chamam de monstros, ou- assim era Léo... Sempre sujo Há tempos havia passado
tros de loucos e desalmados. e amarrotado, escondendo-se, pelo mesmo problema com a
Mas o que importa? Nossa esgueirando-se, espreitando e mãe dos gêmeos. Se alguém
essência é assim, mesclados surgindo do nada. Possuía um atento prestasse atenção, teria
em trevas, dores, agonia... odor característico, passava notado o desaparecimento
Seguimos. longo tempo nos pântanos e da primeira menina, quando
o lodo impregnou sua pele de os gêmeos completaram dez
A história de Ana e Léo tal forma, que era impossível anos de idade. E com certeza,
Ana nasceu primeiro, um não perceber sua chegada. faria uma conexão com a data
bebê forte e rosado. O vagido Ana, ao contrário, era de e outras vítimas. Infelizmente,
soou pelo casarão e reza a uma beleza instigante e quase não o fizeram... O tempo pas-
lenda que os, lobos na floresta, hipnótica. Enormes olhos sou rápido, e todos os anos...
uivaram em uníssono. Meia negros, contrastando com a Anjos partiam para cirandas
noite e dois minutos após, pele claríssima e um sorriso eternas.
Leonardo foi retirado a fór- permanente. A menina ado-
ceps, o que lhe valeu a marca rava fitas azuis e enfeites nos Crianças no jardim do
odiosa e disforme. vestidos leves e claros. Vivia Éden
Não houve alegria, o luto cercada de mimos e apenas ‘’Amorais são pessoas que
fechado foi declarado ainda a avó era reticente aos seus desconhecem as normas, neste
no leito empapado de sangue. encantos. Desconfiava do caso, são culpados ou inocen-

www.revistasamizdat.com 53
tes?’’ Posso? Os olhos de Ana bri- suas mãos. Léo era um me-
Assistir Ana movimentan- lhavam. nino, apenas tinha a força.
do-se pelas ruas, os longos - Venha comigo, mas não Tornou-se um monstro, matou
cabelos balançando ao sabor faça barulho. É uma surpresa. demais... Para te agradar. Vo-
do vento, passos precisos e ca- Léo e Ana saíram de mãos cês me enojam, sempre gruda-
denciados... Era quase divino. dadas, atravessaram a ponte dos... Finalmente acabou!
Como se uma aura translú- velha e tomaram a trilha da - Não! Eu amava meu
cida envolvesse a moça em floresta. Com o tempo, a ca- irmão, sempre o protegi de
mágica luminosidade. E Ana bana da infância ficou peque- todos. Ele era inocente! Onde
sabia disso, sempre sorrindo na demais para as brincadei- está a menina? – Ana sabia
e com um leve movimento ras. Descobriram que os pais que Léo havia trazido uma de
de baixar a cabeça, seguia possuíam uma estância de suas melhores amigas.
seu caminho. Porte, atitude e inverno, esquecida e abando- - Não se preocupe, já
afetuosidade, tornava cativos nada. Perfeita. demos um jeito! Você enlou-
os maiores desafetos, cordei- Aos poucos a trilha tornou- queceu? Raptar a filha do
ros balindo atrás da pastora... se mais fechada, Ana apertou prefeito foi muita ousadia.
Almas puras e crédulas. a mão de Léo e sorriu. ‘’ Qua- Claro que seria o presente
Nesses momentos, quase se lá... Nosso cantinho perfeito perfeito para sua maioridade.
ninguém percebia a presença ”... Léo beijou a mão pequeni- Um verdadeiro crime de gente
do irmão gêmeo. Vigilante, na e aspirou o perfume suave grande! Vocês são dois tolos,
seguindo de longe... Sempre. e doce. Mordiscou o pulso brincando e deixando cair os
Quem o visse, virava a face, quase infantil, provocando um farelos no chão.
tamanho era o desleixo e gritinho assustado, entrecorta- Ana observava a avó de
feiúra. Cabeça de lua, cabeça do de risadinhas nervosas. uma forma diferente, aquela
de lesma e outras variantes, Pararam em frente a gran- não era a senhora medrosa
já não o perturbavam... Sabia de porta de carvalho. Ana e frágil de sempre. Muito
dos apelidos, mas Ana havia fechou os olhos, visivelmente pelo contrário, Dona Augusta
dito que um dia, todos se excitada e inquieta. Ele sem- envergava uma roupa de caça
arrependeriam. E Ana havia pre a guiava até o presente. antiga e elegante. Nas mãos, a
prometido nunca mentir para Um ritual de amor e carinho espingarda pesada do falecido
Léo, ela era o anjo que o pro- que começava com um beijo marido, homem famoso na
tegia e amava. doce e o velho sussurro: - Te região pelos troféus que enfei-
Naquela noite, quase ha- amo, pequenina, feliz aniver- tavam as paredes do casarão.
viam brigado por causa do sário. Pela primeira vez, notou
presente de aniversário. Cada Entraram e imediatamente a semelhança entre ambas e
ano a irmã ficava mais exi- perceberam que alguma coisa o porte altivo e impactante.
gente e Léo não sabia dizer estava errada. Ana arregalou Aquela mulher podia con-
não. Eram meses de empenho, os olhos buscando o irmão, vencer qualquer um a fazer o
para que tudo saísse a con- enquanto a foice desceu em que quisesse. O magnetismo
tento: único golpe. O grito perdeu- incomodava Ana, sentiu-se
- Esta noite, será a noite se no ar e a moça recuou, o enjoada com os olhos frios da
mais linda de todas. Dezoi- pano da saia branca empa- velha senhora.
to anos e o inicio da nossa pada de sangue vívido. Os O jardineiro jogou gasolina
libertação. Teremos direito olhos acostumaram-se com a por toda cabana, o corpo do
a herança, vamos viajar e escuridão e os vultos toma- irmão decapitado foi arras-
conhecer muitos lugares. Ana vam forma e nome. tado até o meio da sala. Para
abraçou o irmão e ele riu, es- A avó e o velho jardineiro espanto de Ana, um segundo
condendo o rosto nos cabelos estavam parados talvez deci- corpo juntou-se ao do irmão.
da moça: dindo o que fazer com ela... Era o da amiga, igualmente
- Se você quiser, mas eu Ana tentou ganhar tempo disforme, em grotesca parce-
gosto de ficar aqui... É meu lu- enquanto buscava alguma sa- ria:
gar. Eu e você não precisamos ída: - Ele me obrigou, eu não - O que fizeram com ela?
de outras pessoas. queria... Nunca quis. -Gritou Não era para ser desta forma!
- Não! Não fique preocupa- acuada. - Ela sabia demais, infeliz-
do, sempre estaremos juntos... - Cínica. Mentirosa! Ele mente. Agora Ana, vamos co-
Posso ver meu presente agora? foi apenas um brinquedo nas meçar a verdadeira brincadei-

54 SAMIZDAT novembro de 2009


ra. Vamos retomar um velho seu lado, nem que fosse uma
hábito e ninguém melhor que única vez.
você para iniciar. Daremos O céu fechou-se em cin- O fogo alto parecia rugir
meia hora para que tome uma za e a tempestade cobriu as enquanto a cabana queimava,
boa dianteira, depois vamos montanhas. Em um segundo, estalando e soltando fagu-
caçar... Lógico que não vai fez-se noite e a mata silen- lhas e fumaça. Dona Augusta
perguntar quem é a caça! - A ciou. Uma névoa espessa entregou a arma ao jardineiro,
velha nunca pareceu tão feliz, vinha descendo, formando sentou-se em um tronco e por
os olhos brilhavam de puro uma cortina impossível de algum tempo rezou pela alma
ódio. transpor. do neto. O homem truculento
- Podemos ficar juntas, não Um farfalhar de galhos e de idade avançada ainda era
quero morrer deste jeito. Feito sendo quebrados alertou que forte no trato com os animais.
um animal. Somos parentes! era seguida de perto. Ana Trouxe os cavalos e ofereceu
Não entendo! - A expressão apertou o passo, imaginando a ajuda à patroa: - Vamos pegar
de pesar, o olhar perdido, avó chegando sorrateira... Ati- a trilha do rio, a menina não
eram perfeitos... Puros e con- rando sem dó nem piedade. deve estar muito longe... Al-
vincentes. Na verdade, duas palavras que cançaremos sem problemas.
- Claro que entende! Não nunca significaram nada para
há lugar, somos iguais e eu os irmãos. Ouvidas incontá- - Não. Não para esta velha
não vou arriscar. Anos e anos, veis vezes, em meio aos gritos aqui, quero apenas que ela
cobrindo as bobagens que vo- de dor... saia e só volte depois da
cês dois faziam. Cansei. Além minha morte. Estou cansada,
do mais, você há muito não Ana sentiu um puxão nos precisava corrigir esta história
sabe o que é ser humana. Um cabelos e parou. O corpo tre- e agora é o suficiente. Vamos
lindo e puro animal, corren- meu com o sopro gelado, um tocar adiante e deixar o mun-
do pela floresta, eis sua mais cheiro conhecido fez com que do e os antigos ensinarem
perfeita descrição. Um animal abrisse um sorriso e fechasse Ana. Nosso clã está espalhado
no cio, seguida por todas as os olhos: - Léo! - Falou bai- e alerta. Sempre haverá um de
criaturas que habitam aquelas xinho, e sentiu a boca desli- nós... Sempre.
paragens. Seres bestiais como zando em seu pescoço. Mãos O empregado assentiu com
você. fortes abraçavam... Afagavam... um leve movimento, imedia-
Ana entendeu que não Traziam alento. Deixou que tamente os cavalos tomaram a
podia perder mais tempo. a sensação tomasse conta... marcha em direção à fazenda.
Rapidamente refez suas rotas Entregou-se ao sonho, ou o Léo fora um erro e Ana era
de fuga e deixou a cabana. que fosse... Estava segura e melhor que o esperado. Dona
Os irmãos contavam com o calma. Augusta sempre soube que a
imprevisto e estavam prepa- linhagem ficaria com o mais
rados. Ele forte dos gêmeos. Só não con-
Havia a caverna com Sigo teu cheiro, que me tava com a simbiótica ligação.
suprimentos alguns quilôme- entranha a alma Foi preciso esperar a idade
tros rio acima. Calculou que E todos meus sentidos bus- certa e, neste meio tempo, os
podia chegar em dois dias de cam teu calor meninos deram muito traba-
caminhada puxada. Correndo Somos parte do todo, úni- lho. Ana manipulou toda a
pelas trilhas, que apenas ela cos herdeiros força, usou o irmão e trans-
e o irmão conheciam, ainda E jamais nos afastaremos, grediu regras e tradições.
tinha esperanças de escapar e porque somos um. Agora a maldita ligação es-
quem sabe um dia... Retornar tava desfeita. Mas jamais teria
e matar a bruxa velha len- Ela certeza. Não enquanto a neta
tamente. Vingar o irmão da Sem corpo, espaço ou estivesse viva.
pior maneira possível, era seu tempo
maior desejo. Sem nada além do desejo
Sentiu saudades de Léo, a urgente
sombra protetora e amada. Sem forças que o impeçam Participação especial: Pedro
De agora em diante, sabia que de vir Faria
estaria sozinha. Com todas Sem leis, conceitos ou pre-
as forças, Ana desejou Léo ao conceitos.

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Contos

Conspiração ZHAARP
Big Bang Microcósmico- Capítulo 4

Dênis Moura

56 SAMIZDAT novembro de 2009


- Não deixaremos que esta empreendimentos.
anarquia continue a assolar o
mundo. - Diz um bigodudo - Mas sem Internet como Um detetive...
senhor no meio da imensa ficarão nossos negócios? Se
voltarmos à era do papel, dos Uma loira gostosa...
mesa de sessenta lugares
totalmente ocupados. contratos através de correios,
nossos lucros cessarão. - Diz Um assassinato...
- De hoje não passará um gordo senhor.
senhor Karl Mittali. Apre-
sento-lhes o plano que nossas - Muito simples, senhor
Carl Johnson. A partir de E o pau comendo entre
corporações deverão seguir.
amanhã passará a funcionar as máfias italiana e
Todos olham ansiosos a mundial rede fotônica, úni- chinesa.
­
para o grande holograma que ca imune aos pulsos Zhaarp.
surge no alto da mesa. Todas as nossas operações
passarão a utilizá-la. Dife-
Eles sabem que represen- rente da Internet baseada em
tam as sessenta famílias que eletrônicos e totalmente des-
controlam toda a riqueza
do planeta. Por isto ago-
controlada, a rede fotônica
(que utiliza somente raios lu-
O Covil
ra seus aparatos de poder
reagem violentamente ao que
chamam de desordem das
minosos) será centralizada e
apenas os conteúdos que nos dos
interessam trafegarão por
massas. Enquanto isso mi-
lhões de pessoas invadem ao
ela. Devemos firmar agora o
compromisso de que nossas
Inocentes
mesmo tempo os gabinetes Industrias nunca mais pro-
corporativos e governamen- duzirão eletrônicos. Tiremos www.covildosinocentes.blogspot.com
tais. São os braços de três assim a ferramenta com que
bilhões de sobreviventes que os baderneiros se mobilizam
se organizam mundialmen- e retomaremos o controle do
te através da Grande Rede. mundo, a tranqüilidade dos
Nela deliberam regras para nossos negócios.
regular a desordem esgotado-
ra de pessoas e natureza que Todos aplaudem exultan-
perdurou por mais de cinco tes. Pequenos hologramas
séculos. em frente de cada magnata
coletam suas assinaturas
Walton Lee Rockefeller biométricas. Cada corpo-
prossegue: ração recebe uma parte a
- Vejam esta constela- ser cumprida no plano. O
ção de satélites ao redor da grande holograma central se
Terra. A maioria deles estão transforma em um imenso
equipados com canhões cronômetro em contagem
Zhaarp. Se disparados em regressiva mostrando o tem-
direção a todas as cidades po inicial de seis horas, seis
da Terra, inutilizarão todos minutos e seis segundos.
os equipamentos eletrônicos. do
Será o fim da Internet e com w
ela as mobilizações que aten- http://bigbangmicrocosmi- gr nl
át
oa
tam contra a liberdade dos co.blogspot.com
is d

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Tradução

Carta de Cristovão
anunciando o descobrimen

58 SAMIZDAT novembro de 2009


Senhor, porque sei que

o Colombo
terá prazer na grande vitó-
ria que Nosso Senhor me
concedeu em minha viagem,
escrevo-lhe esta, pela qual
saberá como em 33 dias pas-

nto da América
sei das ilhas de Canária para
as Índias, com a armada que
os ilustríssimos rei e rainha
nossos senhores me concede-
Tradução: Henry Alfred Bugalho ram, onde encontrei muitas
ilhas povoadas com gente
sem número; e de todas elas
tomei posse por Sua Alteza
com pregão e bandeira real
estendida, e não me contra-
disseram.

À primeira que encontrei,


nomeei San Salvador (ilha
Watling) em comemoração a
Vossa Alta Majestade, ao qual
maravilhosamente tudo isto
se deve; os índios a chamam
de Guahaní; à segunda pus o
nome de ilha de Santa Maria
de Conceição (Cayo Rum); à
terceira de Fernandina (Isla
Long); à quarta de Isabela
(Isla Crooked); à quinta de
ilha Juana (Cuba), e assim a
cada uma um novo nome.

Quando cheguei à Juana,


segui pela costa dela em
direção ao poente, e a achei
tão grande que pensei ser
terra firme: a província de
Catayo. E como não encon-
trei vilas e povoados na costa
do mar, excetuando peque-
nas povoações, com gente
com as quais não se podia
falar, porque logo fugiam
todos, andava eu adiante pelo
dito caminho, pensando em

http://www.umich.edu/news/Releases/2005/Sep05/img/columbus.jpg

www.revistasamizdat.com 59
não errar grandes cidades montanhas altíssimas, in- As gentes desta ilha e de
ou vilas; e, a cabo de mui- comparáveis às da ilha de todas as outras que encon-
tas léguas, visto não haver Tenerife; todas belíssimas, de trei e das quais tive notí-
novidades, e que a costa me feições, e todas acessíveis, e cia, andam todas desnudas,
levava a setentrião, contrário cheias de altas árvores de mil homens e mulheres, assim
à minha vontade, porque o espécies que parecem che- como as mães que os parem,
inverno já estava encarnado, gar ao céu; e ouvi dizer que ainda que algumas mulheres
e eu tinha o propósito de ir jamais lhes caem as folhas, se cubram num único lugar
ao austro, e também o vento segundo pude entender, pois com uma folha de erva, ou
me deu adiante, decidi não as vi tão verdes e belas como uma coberta de algodão feita
aguardar mais, e retornei são em maio na Espanha, e para isto. Eles não tem ferro,
até um porto assinalado, de estavam floridas, com frutos nem aço, nem armas, nem
onde enviei dois homens por maduros, ou em outros está- palavra para isto, não por-
terra, para saber se havia rei gios; e, no mês de novembro, que não sejam gente de boa
ou grandes cidades. Cami- cantava o rouxinol e outros constituição e de bela estatu-
nharam por três jornadas, e passarinhos de mil espécies ra, mas porque são medrosos
encontraram infindas povo- por ali onde eu andava. Há ao extremo. Não tem outras
ações pequenas e gente sem palmeiras de seis ou oito armas, excetuando armas
número, mas não coisa de tipos, que são admiráveis de de canas, quando estão com
regimento; por isto voltaram. ver, pela bela deformidade a semente, nas quais põem
delas, assim como há outras no fim um palito agudo; e
Eu havia aprendido mui-
árvores, frutos e ervas. Nela, não ousam usar delas; pois
to com outros índios, que
há maravilhosos pinheiros e muitas vezes ocorreu de eu
já havia dominado, que esta
vastíssimas campinas, e há enviar à terra dois ou três
terra era uma ilha, e assim
mel, muitos tipos de aves e homens a alguma vila, para
segui a costa ao oriente cento
frutas as mais diversas. Nas travar diálogo, e dar com
e sete léguas até onde aca-
terras, há muitas minas de um sem número deles; e ao
bava. De onde vi outra ilha
metais, e há gente em núme- vê-los chegarem, estes fugiam
ao oriente, distante desta
ro estimável. A Espanhola de tal maneira que o pai não
dezoito léguas, à qual logo
é maravilhosa; há serras, esperava o filho; e isto não
pus o nome de a Espanhola
montanhas, fozes, campinas, porque alguém os havia feito
e fui para lá, e segui a parte
e terras belas e férteis para mal antes, pois por onde
setentrional, assim como de
plantar e semear, para criar estive e pude travar contato,
Juana ao oriente, 188 gran-
gados de todas as sortes, para havia dado a eles tudo que
des léguas por linha reta.
edificação de vilas e povoa- tinha, assim como tecidos
Juana e todas as outras são
dos. Só se crê nos portos ao e outras muitas coisas, sem
fertilíssimas em grande grau,
mar daqui ao vê-los, e nos receber deles coisa alguma;
e esta ao extremo. Nela, há
rios vários e grandes, e nas mas são medrosos assim
muitos portos na costa para
águas salubres, a maioria das sem remédio. Verdade é que,
o mar, sem comparação, que
quais traz ouro. Há grandes depois que se certificavam e
eu saiba, a outros entre os
diferenças nas árvores, frutos perdiam o medo, eles eram
cristãos, e rios fartos, bons
e ervas entre desta e as de tão sem malícia e eram tão
e grandes, que são maravi-
Juana. Nesta, há muitas espe- liberais com o que tem, que
lhosos. Suas terras são altas,
ciarias, e grandes minas de não creríeis sem o ver. Das
e nela há muitas serras e
ouro e de outros metais. coisas que eles tem, se pe-

60 SAMIZDAT novembro de 2009


dir, jamais dizem não; pelo cem nenhuma seita nem ido- todos traziam algo de comer
contrário, convidam a pessoa latria, excetuando que todos e beber, que davam com um
consigo e demonstram tanto acreditam que o poder e o amor maravilhoso. Eles tem
amor que dariam os próprios bem estão no céu, e tinham em todas as ilhas muitas
corações, e se quiser algo de a firme crença que eu, com canoas, como as fustas de
valor, ou seja coisa de pou- estes navios e pessoas, vinha remos, algumas maiores, ou-
co preço, trocam logo por do céu, e nesta suposição me tras menores; e algumas são
qualquer outra coisinha, de recebiam em todos os can- maiores do que uma fusta de
qualquer maneira, que eles se tos, depois de terem perdido dez ou oito bancos. Não tão
vão contentes. Eu defendi que o medo. E isto não ocorre largas, porque são de uma
não lhes dessem coisas tão porque sejam ignorantes, pelo tora única; mas uma fusta
réles, como pedaços de cal- contrário, são homens de não compete com elas ao
deirões furados, ou pedaços muito sutil engenho e na- remo, porque são velozes que
de vidro quebrado, ou pontas vegam todos aqueles mares, não dá para acreditar. E com
de cadarços, pois quando e é de se maravilhar a boa estas navegam todas aquelas
eles recebiam isto, para eles conta que eles tem de tudo; ilhas, que são inumeráveis, e
parecia ser a melhor jóia do excetuando que nunca viram comerciam suas mercadorias.
mundo. Ocorreu haver um gente vestida, nem navios Vi em algumas destas canoas
marinheiro que recebeu, por semelhantes. 70 e 80 homens, e cada um
uma ponta de cadarço, o com seu remo.
E logo que cheguei às
equivalente ao peso de ouro
Índias, na primeira ilha que Em todas estas ilhas não
de dois castelhanos e meio; e
encontrei, tomei por força vi muita diversidade na
outros, de outras coisas que
alguns deles, para que apren- feição das gentes, nem nos
valiam muito menos, muito
dessem e me dessem notícia costumes ou na língua; salvo
mais; já por moedas de prata
do que havia naquelas partes, que todos se entendem, que é
davam tudo que tinham,
assim foi que logo nos enten- coisa muito propícia para a
mesmo que fossem dois ou
deram, e nós a eles, seja por determinação de Suas Alte-
três castelhanos de ouro, ou
língua ou sinais; e isto foi de zas para a conversão deles
uma arroba de algodão. Até
muito proveito. Hoje em dia, à nossa santa fé, para a qual
os pedaços de arcos quebra-
trago-os comigo, mesmo que são muito dispostos.
dos e dos barris eles aceita-
eles ainda acreditem que ve-
vam, e davam o que tinham Já disse como eu havia
nho do céu, apesar de muita
como animais; assim isto me andado 107 léguas pela costa
conversa que travaram comi-
pareceu mal, e eu os defen- do mar pela linha direita do
go; e estes eram os primeiros
dia, e eu dava com alegria ocidente para o oriente pela
a anunciar, onde quer que eu
mil coisas boas, que eu leva- ilha de Juana, segundo tal
chegava, e os outros anda-
va, para que se afeiçoassem, e caminho posso dizer que esta
vam correndo de casa em
que, além disto, se tornassem ilha (Juana) é maior que a
casa, e até as vilas próximas,
cristãos, e se inclinassem ao Inglaterra e a Escócia jun-
com vozes altas: Venham,
amor e serviço de Suas Alte- tas; porque, além destas 107
venham ver a gente do céu;
zas e de toda a nação caste- léguas, há na parte poente,
assim, todos, tanto homens
lhana, e procurassem juntar duas províncias que eu não
quanto mulheres, depois de
e nos dar as coisas que tem percorri, uma das quais cha-
perderem o medo da gente,
em abundância e que nos são mam Avan, onde nasce gente
vinham, adultos e crianças, e
necessárias. E eles não conhe- com rabo; tais provincias

www.revistasamizdat.com 61
não podem ter menos de 50 de com o rei daquela terra, o sofrem por costume, e com
ou 60 léguas de comprimen- em tamanho grau, que lhe a ajuda das comidas que
to, segundo pude entender apetecia chamar-me e ter-me comem em muitas espécies
dos índios que me acompa- como um irmão, e ainda que e muito quentes. Assim não
nham, os quais conhecem lhes mudasse a vontade em encontrei monstros, nem
todas as ilhas. ofender esta gente, nem ele notícia, tirando em uma ilha
nem os seus sabem o que Quaris, a segunda à entrada
Esta outra Espanhola tem
sejam armas, e andam desnu- das Índias, que é povoada por
de circunferência mais que a
dos, como já disse, e são os uma gente considerada em
Espanha toda, desde Colibre
mais medrosos que existem todas as ilhas como muito
(Catalunha), pela costa do
no mundo; assim que apenas ferozes, que comem carne
mar, até Fuenterrabía em Bis-
aquelas pessoas que lá deixei humana. Eles tem muitas
caya, pois em um quadrante,
são suficientes para destruir canoas, com as quais percor-
percorri 188 grandes léguas
toda aquela terra; e é ilha rem todas as ilhas da Índia,
por linha reta de ocidente a
sem perigo para eles, se se e roubam e tomam o quanto
oriente. Ela é de se desejar,
souber regê-la. podem; eles não são mais
e ao ser vista, para nunca se
disformes que os outros, sal-
deixar; na qual, posto que de Em todas estas ilhas me
vo que tem o costume de tra-
todas tenha tomado posse parece que todos os homens
zer os cabelos longos como
por Suas Altezas, e todas se contentam com uma mu-
mulheres, e usam arcos e
sejam mais abastadas do que lher, e a seus governantes ou
flechas das mesmas armas de
sei ou posso dizer, e todas rei dão até vinte. Parece-me
canas, com um palito no fim,
tenho por Suas Altezas, que que as mulheres trabalham
por causa do ferro que não
delas podem dispor como mais que os homens. Não
tem. Entre os outros povos,
e tão absolutamente como consegui entender se eles
covardes em grau demasiado,
dos reinos de Castela, nes- tem bens próprios; pareceu-
estes são ferozes, mas eu não
ta Espanhola, o lugar mais me que aquilo que um tinha,
acho que sejam piores que os
conveniente e melhor região todos tinham parte, em espe-
outros. Estes tratam com as
para as minas de ouro e de cial os víveres.
mulheres de Matinino, que é
todo comércio, assim em ter-
Até aqui, nestas ilhas, não a primeira ilha, partindo da
ra firme daqui como aquela
encontrei homens monstruo- Espanha para as Índias, na
de lá do Grande Khan, onde
sos, como muitos pensavam, qual não se encontra homem
haverá comércio e lucro,
mas antes toda a gente é de algum. Elas não praticam o
tomei posse de uma vila
mui linda compleição, não exercício feminino, mas arcos
grande, à qual pus o nome
são negros como na Guiné, e flechas, como os supraci-
de vila da Natividade; e nela
excetuando seus cabelos es- tados, de canas, e se armam
pus força e fortaleza, e que
corridos, e não se criam onde e se protegem com folhas
já nestas horas deve estar de
há ímpeto demasiado dos de cobre, que tem em muita
todo concluída, e deixei nela
raios solares; é verdade que disponibilidade.
gente suficiente para protegê-
o sol tem ali grande força,
la, com armas, artilharias e Há outra ilha, asseguram-
posto que é distante da linha
vitualhas para mais de um me que maior do que a
equinocial vinte e seis graus.
ano, e fusta e mestre de mar Espanhola, em que as pessoas
Nestas ilhas, onde há monta-
em todas as artes para cons- não tem cabelo algum. Nesta
nhas grandes, ali o frio tinha
truir outras, e grande amiza- há ouro sem conta, e desta e
força neste inverno; mas eles

62 SAMIZDAT novembro de 2009


de outra trago comigo índios vê-las, mas compreenden- por este mar. Dizem aqui
para testemunho. do, os ouvintes escutavam todos os homens do mar que
e julgavam mais pela fala e jamais houve inverno tão
Concluindo, ao falar disto
faziam pouco caso. Assim, ruim, nem tantas perdas de
que apenas ocorreu nesta
pois, Nosso Redentor deu naus.
viagem, que foi assim rapida-
esta Vitória a nossos ilustrís-
mente, podem ver Suas Alte- Data a 4 dias de março.
simos rei e rainha e a vossos
zas que eu lhes darei quanto
reinos famosos, da qual toda (O original desta carta
ouro puder suprir, com
a cristandade deve se alegrar de Colombo desapareceu.
muita pouca ajuda que Suas
e celebrar grandes festas, e Conservam-se várias ver-
Altezas me darem; agora,
dar graças solenes à Santís- sões em espanhol, italiano e
especiaria e algodão quanto
sima Trindade com muitas latim. Nossa edição eletrôni-
Suas Altezas mandarem, e
orações solenes, ao converter ca segue a cuidadosa edição
almástiga quanto mandarem
tantos povos à nossa santa fé, de Lionel Cecil Jane, em sua
carregar, e de qual até hoje
e depois pelos bens tempo- obra Selected Documents
não se encontra a não ser
rais; que não apenas a Espa- Illustrating the four Voyages
na Grécia, na ilha de Chios,
nha, mas todos os cristãos of Columbus. 2 vols. London:
e o Senhorio vende como
terão aqui refrigério e lucro. The Hakluyt Society, 1930.
quer, e aloé quanto man-
Vol. I, 2-19]
darem carregar, e escravos Isto, segundo o feito, assim
quanto mandarem carregar, em breve. Fonte: http://www.ensayis-
e serão dos idólatras; e creio tas.org/antologia/XV/colon/
Data na caravela, nas ilhas
haver encontrado ruibarbo e
de Canária, em 15 de feverei-
canela, e outras mil coisas de
ro, ano 1493.
substância encontrarei, sobre
as quais encontraram a gente Farei o que mandarem
que eu lá deixei; porque
eu não me detive em lugar O almirante.
algum, enquanto o vento
***
me havia ajudado a navegar;
apenas na vila de Nativida- Depois de esta escrita, e
de, que deixei assegurada e estando no mar de Castela,
bem assentada. E, na verda- saiu tanto vento sul e sueste
de, muito mais faria, se me comigo, que tive de descarre-
servissem navios na razão gar os navios. Mas percorri
necessária. aqui este porto de Lisboa
hoje, que foi a maior mara-
Isto deve ao grande e
vilha do mundo, onde voltei
eterno Deus Nosso Senhor,
escrever a Suas Altezas. Em
que dá a todos aqueles que
todas as Índias, sempre en-
conseguem coisas que pa-
contrei temporais como em
recem impossíveis; e esta
maio; para onde fui em 33
obviamente foi uma destas;
dias, e voltei em 28, excetu-
porque, ainda que se tenham
ando estas tormentas que me
falado ou escrito sobre estas
detiveram 13 dias vagando
terras, tudo é conjetura sem

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64 SAMIZDAT novembro de 2009
Envolvido desde cedo com a vegou pela ilha de Cuba e pelo
arte da navegação, Cristóvão Haiti, retornando à Espanha em
Colombo realizou suas primeiras março de 1493. Tinha certeza de
viagens em Gênova, no norte da ter chegado ao Oriente.
Itália, onde nasceu. Em 1476, a Neste mesmo, ano fez sua se-
serviço de um comerciante, aca- gunda viagem, com uma frota
bou naufragando nas costas de de 17 naus. Chegou ao Caribe e
Portugal, onde passou a viver. descobriu várias ilhas, como Do-
Ali morou dez anos, sobretudo no minica, Guadalupe, Porto Rico e
arquipélago da Madeira. Nesse Jamaica. Em 1499, numa tercei-
período, dedicou-se a estudar as ra viagem, alcançou terra firme,
rotas de navegação, convencido nas costas da atual Venezuela.
da existência de uma passagem Reconheceu também as ilhas de
marítima pelo Ocidente até Trinidad e Tobago e Granada.
as Índias. Casou-se 1480 com Desta viagem, no entanto, já
Felipa Muniz, filha do navegador regressou com ordem de prisão.
Bartolomeu Perestelo, em cuja Mesmo perseguido por intrigas
biblioteca estudou as obras que palacianas e não mais desfrutan-
viriam a certificá-lo da existên- do dos privilégios reais, Colom-
cia de novas terras. Com Felipa, bo conseguiu se libertar. Assim,
que morreria quatro anos depois, empreendeu ainda uma quarta
teve um filho, chamado Diego. viagem, entre 1502 e 1504, com-
Por esta época, Colombo tentou, pletando o reconhecimento da
em vão, convencer o rei de costa da América Central.
Portugal D. João II a conceder Tendo regressado à Espanha em
permissão para uma viagem ao 1504, caiu no ostracismo, aban-
Oriente. Em 1485, Colombo fi- donado e esquecido. Morreria
xou-se na Espanha, movido pelo dois anos depois - e sem saber
interesse manifestado pelo reis que havia descoberto um novo
de Castela, Fernando e Isabel, continente. Acreditava ter chega-
em patrocinar a viagem, com o do a um anexo remoto da Ásia.
intuito de expandir a fé católica
para as terras orientais.
Fonte: http://educacao.uol.com.
Composta por três caravelas -
br/biografias/ult1789u207.jhtm
Pinta, Nina e Santa Maria - a
frota de Colombo deixou as cos-
tas da Espanha dia 3 de agosto
de 1492. A viagem foi atribulada
e a tripulação quase pereceu em
terríveis tempestades e tentativas
de motins. No dia 12 de outubro,
Colombo chegou na ilha que
chamaria de San Salvador, no
arquipélago das Bahamas. Na-

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SAMIZDAT novembro de 2009
Teoria Literária

Caminhos para
o autor independente
Henry Alfred Bugalho

http://www.corleyfamilynapavalley.com/blog/wp-content/uploads/2009/05/bucher-press-installation.jpg
(Este é o terceiro artigo de uma este método dependerá da res encalhados em casa.
série sobre publicação indepen- tiragem desejada para o seu Para quem pretende
dente na era digital) livro. publicar deste modo, é
A impressão off-set só fundamental fazer uma boa
Nos artigos anteriores compensa para tiragens su- pesquisa, solicitar orçamen-
sobre publicação indepen- periores a mil exemplares, tos e, se possível, conversar
dente, já expressei muito aliás, muitas gráficas nem com autores que já tenham
claramente o que é, para aceitam encomendas para publicado através da gráfi-
mim, o principal caminho tiragens menores. O valor ca consultada e conferir a
para o autor independente unitário do livro em off-set, qualidade da impressão e
hoje: a internet. em preto e branco, costuma acabamento dos livros.
ficar em torno de 3 ou 4
Publicar e divulgar seus
reais, mas pode sair mais
trabalhos literários através 2 – Impressão digital
em conta para tiragens
da internet é o modo mais
mais altas, ou seja, para mil
barato e eficaz para chegar O processo de impressão
exemplares esteja prepara-
aos leitores. No entanto, esta digital se aproxima mais
do para desembolsar uns
não é a única possibilidade, do que estamos habituados
4 mil reais, incluindo, às
apesar de hoje ser quase com a nossa impressora
vezes, a diagramação.
inevitável a utilização da doméstica, resguardando as
rede, em alguma etapa do Vale lembrar que este diferenças de processos e
processo de autopublicação. tipo de impressão só vale a qualidade, com a impressão
pena caso o autor já tenha feita sem a necessidade de
Basicamente, há quatro
um número razoável de fotolitos, como ocorre no
opções principais para o
leitores (i.e. compradores) caso da impressão off-set.
autor independente publicar
e um local para armazenar
suas obras: 1 – impressão A grande vantagem da
os livros. Vender mil livros
off-set; 2 – impressão digi- impressão digital é a pos-
no Brasil não é nada fácil e
tal; 3 – blog ou sítio literá- sibilidade de se imprimir
nem sempre aquelas pesso-
rio; e 4 – livro eletrônico. tiragens menores, às vezes
as com as quais contamos
de um único exemplar, com
— parentes e amigos —
um custo relativamente
1 – impressão off-set comprarão um exemplar.
baixo. Há algumas críticas
Até poucos anos atrás, em relação à qualidade da
Não entraremos nas
esta era a única alternativa impressão, mas acredito que
especificidades técnicas do
existente para um autor seja algo pouco distinguível
processo de impressão off-
independente, o que difi- para o leitor leigo e que
set (principalmente porque
cultava bastante a vida pelo não afete a leitura.
não me sinto apto a expli-
alto custo da impressão e
cá-las), mas o importante O autor pode optar por
pelas centenas de exempla-
é saber que a escolha por uma gráfica e encomendar

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tiragens menores, como 100 espécie de diários aber- cação que não pode ser
ou 200 exemplares, ou por tos ao público na internet. desprezado e, por mais que
uma editora sob demanda, A primeira reação foi de passe por muitas mudan-
que imprimirá apenas os repúdio, considerando este ças no futuro, acredito que
exemplares encomendados como um fenômeno adoles- redefinirá a nossa noção de
por leitores. Desta manei- cente passageiro. Contudo, cultura e contato com os
ra, o autor se livra de altos após o surgimento de vários leitores.
custos iniciais e de pilhas blogs de influência em Além deste recurso, há
de livros empoeirando no 2000 e 2001, a mídia e a vários sítios literários que
quarto. crítica começaram a rever o agregam textos e autores, e
No entanto, mesmo papel dos blogs na cultura que propiciam troca de ex-
assim, uma tiragem de 100 digital. Hoje, praticamente periência entre seus parti-
exemplares pode chegar a quase todo grande veículo cipantes e servem de vitri-
custar uns 600 reais, já que de comunicação mantém nes literárias. Todavia, na
o preço unitário é um pou- um ou mais blogs, e deze- minha opinião, estes sítios
co maior do que no caso nas de milhares são criados tendem a servir mais como
da impressão off-set. Já no todos os dias. comunidades de escritores
caso de editoras sob de- A grande vantagem do do que uma via de acesso
manda, existe um vasto rol blog, e este é um dos se- aos leitores, o que não di-
de opções e pacotes, desde gredos da imensa popu- minui a importância deste
editoras que não cobram laridade, é a facilidade da tipo de relacionamento.
nada, ou muito pouco, para interface para publicação
inserir o livro no catálo- e atualização de conteúdo.
go, até outras que chegam Com um mínimo de co-
4 – livro eletrônico
a cobrar até mais do que nhecimento de informática,
Não sabemos qual será o
custaria uma tiragem off- é possível criar uma conta
futuro do livro eletrônico,
set. Novamente, uma boa num dos vários provedores
ou e-book.
pesquisa é crucial para não de blogs e começar a publi-
cair numa furada. car. Significará o fim do
livro impresso? Conseguirá
Esta é uma ferramenta
sobreviver à crise do co-
que tem sido usada por
3 – blog ou sítio literário pyright? Finalmente popu-
escritores desconhecidos
larizará a leitura entre os
Ao contrário dos dois para dar visibilidade a suas
brasileiros?
itens anteriores, publicar obras, ou para escritores
já consagrados manter um São questões sem respos-
um blog ou num sítio lite-
contato mais próximo com ta, por enquanto. No entan-
rário costuma ser de graça.
seus leitores. to, para o autor indepen-
O blog como conhece- dente, ao lado dos blogs, é
mos hoje surgiu em 1998, Ressalto que este é um
a maneira mais barata para
inicialmente como uma instrumento de comuni-

68 SAMIZDAT novembro de 2009


conseguir se publicar um chegará sem dificuldades ALGUMAS
livro e talvez ser lido por a 200 ou 300 downloads, RECOMENDAÇÕES
Editoras sob demanda e/ou
alguém. se o livro for distribuído
impressão digital no Brasil
Estatísticas do ano pas- gratuitamente, ou até ven-
Grupo Editorial Scortecci
sado, no mercado editorial derá alguns exemplares se http://www.scortecci.com.br/
norte-americano, indicam o preço unitário for razoa- home.php
que houve uma queda signi- velmente baixo. Tudo isto a Fábrica de Livros
custo zero. http://www.fabricadelivros.
ficativa nas vendas de livros
com.br/home.php
(algo em torno de 15%),
Clube de Autores
enquanto que as vendas de
Conclusão http://clubedeautores.com.br/
livros eletrônicos quintupli-
caram. Isto pode insinuar Estas quatro alternativas Editoras sob demanda/e ou
duas coisas: a) que o livro já representam um grande impressão digital no Exterior
eletrônico está realmente Lulu
passo para o autor inde-
começando a se populari- http://www.lulu.com/
pendente, que encontra na
Café Press
zar, graças aos preços mais internet uma inestimável http://www.cafepress.com/cp/
baixos e à proliferação de aliada na hora de divulgar info/sell/books.aspx
dispositivos eletrônicos, e distribuir sua produção XLibris
como celulares, palm-tops literária. http://www2.xlibris.com/
e leitores de e-books, e por Bubok
Obviamente que, ao mes-
isto está se consumindo http://www.bubok.pt/
mo tempo em que a publi-
mais, ou b) que o mercado IUniverse
cação digital facilita a vida http://www.iuniverse.com/
tem começado apenas agora
do autor, ela também difi-
a investir neste nicho e o
culta a visibilidade, já que Sítios Literários
crescimento só reflete este Espaço da Escrita
um número muito maior de
influxo inicial de consumi- http://www.espacodeescrita.
autores também competirão
dores que estão migrando web2logy.com/
por seu lugar ao sol.
do livro impresso para o Recanto das Letras
digital. Por isto, o fundamental é, http://recantodasletras.uol.
antes de tudo, um bom con- com.br/
A vantagem do livro ele-
teúdo, uma boa apresenta-
trônico é que ele pode ser Serviços de blog
ção gráfica e um dedicado
diagramado em programas Blogger
trabalho de divulgação.
simples, como o Microsoft http://www.blogger.com/home
Word, e facilmente con- No entanto, nada disto é Wordpress
vertido em .PDF através de garantia de sucesso, mas é http://wordpress.org/
um ótimo começo. LiveJournal
programas baixados gratui-
http://www.livejournal.com/
tamente na internet.
Um autor que já possua
um pequeno público leitor

www.revistasamizdat.com 69
Teoria Literária

Jogue sua Gramática no Lixo


Guilherme Augusto Rodrigues

http://www.flickr.com/photos/ender/517900257/sizes/l/

70 SAMIZDAT novembro de 2009


Há pessoas que por de- sítio considerado “errado” tradicionalistas, contém um
corarem a gramática acham por gramáticos e seus segui- erro (e não visto por eles).
que sabem língua portugue- dores (leigos), não é o mes- Já que a frase não segue
sa e por isso pensam que mo falado por um homem a ordem: sujeito, objeto e
podem ridicularizar outros escolarizado que vive na verbo; então, colocaremos:
falantes que não falam como cidade. E este homem anal- “casas se alugam”. Alguém já
elas. fabeto do sítio consegue se viu casa se alugar? Além de
Essas pessoas que deco- expressar e se comunicar estar errada, provoca boas
raram as regras não sabem com o homem escolarizado gargalhadas. Nós temos uma
os conceitos que abordam a da cidade. Eles se entendem. explicação lógica e que não
língua portuguesa. A gra- Ninguém fala errado, fala nos provoca risos. “Alugam”
mática não é a língua! São diferente. O conceito de é o verbo, “se” é o índice de
profundos leigos quando se certo e errado com relação indeterminação do sujeito
trata de língua portuguesa. à fala não existe. Porém, há e “casas” é o objeto. Neste
O conhecimento da língua erros quanto à estrutura, por caso, a frase não tem sujeito,
requer estudos, pesquisas, exemplo: “livro eu um longo e “aluga-se casa” ou “aluga-se
reflexões e conceitos que ontem li”, está frase está casas” ambas estão corretas.
estão além da gramática errada e nenhum falante do Então, quando vir escrito
normativa. português falaria assim, ele “aluga-se casas” não faça cara
tem domínio do que pode e feia!
Nós que estudamos a
língua de uma maneira do que não pode. E mesmo Quando uma pessoa fala
mais ampla e científica (e assim, em raríssimas situ- “errado” o único motivo para
isso quer dizer que não nos ações, quando comete um rir são as outras que a ridi-
prendemos a regras sem erro estrutural, corrige-se cularizam pelo “erro”, que
sentido e “furadas” da gra- imediatamente. não sabem e não entendem
mática normativa), sabemos É possível escrever e falar porque ela fala desse jeito.
que a língua portuguesa bem sem ter conhecimen- O grande mal do ensino
possibilita várias formas de tos normativos. Quando se da língua portuguesa é que
se falar que não são descri- estuda a língua portuguesa gramáticos tradicionalistas
tas pela gramática normativa cientificamente, torna-se fazem sucesso entre os lei-
e são tidas como “erros”, as mais fácil e prazeroso o gos, e pessoas que adentram
quais preferimos chamar de aprendizado das normas. os campos da lingüística,
variações linguísticas. Mes- Saber a gramática normativa criam leis sem fundamentos
mo conscientes da existência não é ascensão econômica (como a inútil “antiestran-
dessas formas os gramáticos ou social, e saber suas regras geirismos”), publicam “Guia
insistem em ignorá-las. Nós e nomes técnicos não muda Prático de Português”, “Por-
estudamos e pesquisamos nada para o aluno ou mo- tuguês sem Complicação”
essas variações linguísticas rador do sítio. Eles sabem o e outros livros relevantes
e entendemos porque uma português, o que não sabem só para ganharem dinheiro,
pessoa fala “para mim fazer” são as regras da gramática. sem terem estudado e sem
ao invés de “para eu fazer”, A frase: “alugam-se casas” saberem como é, de fato, o
e por isso, não a ridiculari- tão defendida por gramá- estudo e funcionamento da
zamos. O português falado ticos, leigos e professores língua portuguesa.
pelo homem analfabeto do

www.revistasamizdat.com 71
Crônica

Eu não gosto de
ninguém da América do Sul!
Léo Borges

72 SAMIZDAT novembro de 2009


Minha sogra quer porque E servindo-me desses mas não tinham força para
quer me fazer acreditar no subsídios, lembrei-me do gemer e apenas se retor-
diabo. Ela diz que o diabo ocorrido numa certa meia- ciam, mas todas possuíam
existe e que precisamos noite de um certo sábado. semblantes que oscilavam
acreditar nele e em suas Estava esboçando um artigo entre angústia e desespe-
maldades. Mais do que isso, no computador quando re- ro. Atropelados, baleados,
ela também quer me fazer cebi a chamada no celular esfaqueados, queimados,
crer no inferno, de prefe- para cuidar de um detento mutilados, drogados, paren-
rência o bíblico, já que eu, que havia caído no banhei- tes aflitos, amigos tensos,
como policial, penso que ro da cela. Eu era o agente médicos atordoados. Era
o verdadeiro inferno seja a responsável pelo que viesse um cenário desconcertante.
prisão. Com empedernida a ocorrer naquela madru- E o ombro do nosso preso
fé, ela não admite que eu gada e, por isso, fui encar- transformou-se em um pro-
não creia no reverso de regado de levá-lo, junto blema menor. O vigilante
Deus (e nem em seu habi- com outro colega acionado, comentou que todo dia era
tat), o que, desta maneira, para o prontossocorro. O mais ou menos aquilo, mas
comprometeria a utilidade sujeito parecia ter sofrido que no fim-de-semana o
Deste. Afinal, como Deus uma luxação na clavícula panorama se agravava. Data
poderia existir se não hou- e não conseguia mexer um em que as pessoas saem, se
vesse o Seu oposto? dos braços. No trajeto, o embebedam, brigam, diri-
discurso de sempre: que os gem alcoolizadas, e, por fim,
Um amigo concordou no
políticos também roubam transformam o lugar de
que se refere à existência
e não estão presos; que não frios azulejos brancos em
do inferno factual. Ao saber
merecia punição tão rigo- algum tipo de inferno.
da característica de firme
rosa, pois não matou e nem
crença em figuras bíblicas Após a análise da radio-
estuprou; que o que fez foi
por parte da mãe de minha grafia, que demorou quase
apenas para não deixar a
esposa ele asseverou que uma hora para ficar pronta,
família passar fome. Tudo
qualidades como “sogra” e um dos médicos recomen-
entremeado pelos tradi-
“ortodoxia religiosa” não po- dou imobilização da claví-
cionais ruídos de sirene e
deriam – de forma alguma cula, que apresentava dis-
gemidos.
– coexistir em uma mesma creta fissura. O problema, a
pessoa. Caso contrário, isso Até então eu nunca havia partir daí, começou com a
http://www.flickr.com/photos/7438870@N04/2174364163/sizes/l/

seria, necessariamente, o estado no São Lucas, hos- ausência do gesseiro. Man-


inferno. Trata-se, claro, de pital público de Vitória. tivemos prontidão na porta
um bem-humorado exage- Ao entrarmos, deparei-me da sala de gesso, onde algu-
ro, até porque, ainda que com o local de sofrimen- mas outras pessoas também
minha sogra evidencie seus to máximo de que minha o esperavam.
dogmas cristãos, o sadio sogra tanto falava. Eram
O diapasão lamuriento
bom senso prevalece e nos- dezenas de pessoas – mui-
era a principal fonte so-
so convívio não é afetado tas deitadas em macas e
nora do lugar, porém, era
por nada além de subsídios outras, menos afortunadas,
vencido constantemente
que, eventualmente, ela me em colchonetes espalhados
por gritos desconexos e
propicia como ponto intro- pelo chão – murmurando
esporádicos vindos da ala
dutório a crônicas vadias. dores lancinantes. Algu-
da psiquiatria. Percebi que

www.revistasamizdat.com 73
aquele setor possuía uma Como a situação ganha-
peculiaridade que fugia à va contornos apocalípticos,
– Tá trancado lá, Valti-
lógica. Apesar de poucos, os fez-se um movimento para
nho! Não tá aberto não!
pacientes de lá não mostra- que algum sedativo fosse
vam tristeza pelo mal que arrumado às pressas. Sem
os acometia, mas um nervo- aviso, o protagonista da
sismo agudo, uma loucura Algumas pessoas procu- noite se levantou e iniciou
que não compactuava com ravam se esconder como se outra vertiginosa incursão
o mórbido padrão passivo ele representasse um perigo pelo corredor, cruzando as
de todos. Eles não aceita- real, como se a qualquer macas com desprezo quase
vam estar no inferno sem momento ele fosse deflagrar agressivo.
alguma resistência. uma guerra contra tudo a
sua volta. – Eu não gosto de nin-
– Vamos embora, Valti- guém da América do Sul!
nho. Vamos embora da- – Piranha! Piranha! – gri- – bradou.
qui – passou falando alto tou para algum ente ima-
ginário. Pôs as mãos na ca- Aquela frase me intrigou
um rapaz dos seus vinte e
beça e se sentou. De quem muito. Sem um raciocínio
poucos anos, se evadindo
estaria falando? Certamente equilibrado, o que o levaria
da sala do psiquiatra, que,
não se referia a uma ga- a decretar raiva a todos os
assim como o gesseiro, tam-
rota com uma minissaia habitantes de um imenso
bém estava desaparecido.
rota que perambulava entre continente? Bom, todos ali
Sua voz estava tão perdida
nós com a boca inchada éramos da América do Sul,
quanto seu olhar.
e os olhos roxos, já que crescemos na América do
O jovem, magro, olhos ele enxergava as pessoas Sul e vivíamos na América
fundos, cabelo desgrenhado, com homogênea singulari- do Sul. Mas em sua ótica
trajava camisa branca surra- dade. Acredito que tenha não havia mais diferença
da, calça jeans e chinelo. sido para sua consciência entre o preso e o policial, o
Possuía pequena barbicha mesmo, que aos poucos se médico e o paciente, a en-
a qual coçava repetida e vendia, aceitando que não fermeira e a puta, o maluco
nervosamente. Viu-se que poderia fugir daquele circo e o são, afinal, todos eram
Valtinho era a pessoa que o dos horrores. Valtinho via sul-americanos e, portan-
acompanhava e que tentava que preso à irresponsabi- to, pertencentes à sua lista
limitar seus atos. Mantinha lidade de alguém o jovem de odiados. Com os gritos,
um sorriso de constrangi- estava e que preso ficaria, um homem literalmente
mento, como se quisesse di- refém que era da omissão amarrado numa das ma-
zer “ele está com problemas da rede pública hospita- cas começou a se remexer,
mentais, desculpem-no”. O lar. Todos, doentes ou não, contraindo os músculos e
rapaz não sabia onde estava eram detentores da mesma comprimindo os olhos, pa-
e nem que, provavelmente, impotência daquele condu- recendo querer nos mostrar
iria ficar internado. Liberto tor, que procurava apenas os reais efeitos da cocaína.
das mãos de Valtinho, volta- cumprir – sem vexame – Toda sua triste performan-
va a andar de um ponto ao seu único objetivo dentro ce, entretanto, não o livrava
outro do extenso corredor daquele asfixiante lugar: de ser também uma perso-
ponderando ora sozinho, acalmar o subversivo jovem. na non grata.
ora com o acompanhante.

74 SAMIZDAT novembro de 2009


– Eu não gosto de nin- por isso, palavras ensande-
guém da América do Sul! cidas como aquelas serviam Henry Alfred Bugalho
A
GUI
Nova York
– repetiu com olhar sem como um resumo geral,
rumo. uma síntese consistente do
melancólico cenário insti-
Conseguia passar medo
para Mãos-de-VAca
tucional latino-americano.
com o tom de voz estri-
O sistema, sem um culpado
dente, fazendo com que
visível, mostrava a conse-
um ou outro procurasse
quência de sua sujeira e
se espremer atrás de nós, O Guia do Viajante Inteligente
de seu descompromisso.
acreditando que armas pu- www.maosdevaca.com
Mas alguém havia se rebe-
dessem confortá-los diante
lado. Um paciente da ala
daquela loucura ameaça-
psiquiátrica decretou que
dora. Era curioso, pois, por
não gostava de ninguém da
mais desvairada que fosse
América do Sul – o inferno
a declaração, ao ser feita
do populismo e da demago-
aos berros ela se revestia de
gia – e isso incomodava.
uma sinceridade visceral. E
exteriorizada daquela forma,
por aquele emissor e naque-
Essas palavras devem ter
le ambiente, gerava grande
mexido de forma definitiva
pavor.
com os brios patrióticos
Eu tentava imaginar: esta- de alguns enfermeiros que,
ria ele realmente indignado com alguma truculência,
com a miséria boliviana? enfim, o sedaram. Sem
A corrupção paraguaia? mais alvoroço, o jovem caiu
A insensatez venezuelana? calado, com o corpo torto
A indiferença chilena? A num banco manchado de
soberba argentina? A guer- mercúrio. Engessamos o
rilha colombiana? O opró- preso e fomos embora. O
brio brasileiro? Não se sabe. psiquiatra, pelo que ouvi,
A única certeza era que a ainda levaria mais algumas
passividade dos pacientes, horas para chegar.
dos familiares, dos médi-
cos e dos policiais não fora
abalada. Mesmo diante de
tão incisiva afirmação, con-
tinuamos como os inertes
espectadores que éramos, já
que ninguém demonstrava
sentir o menor dos ódios
contra o descaso estatal.

O retrato da saúde su-


cateada era emblemático e,

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Crônica

Ju Blasina

Quem é você,
quem sou eu?
76 SAMIZDAT novembro de 2009
Adulta jovem, humana, personagem, pecado capital, rio — são as dúvidas que nos
gaúcha, virginiana, casada, cor ou “seja-lá-o-que-mais” movem, enquanto indivíduos
chocólatra, escritora... Até você é ou poderia ser. e sociedade. Se tivéssemos to-
alguns dias atrás, pensava E você aí achando que das as respostas, não iríamos
eu que estas características sabia alguma coisa sobre à parte alguma! Não somos
poderiam brevemente me si mesmo, hein? Pois é, eu diferentes do cachorro que
definir em palavras. Pois não também. Não sei como pude persegue a roda: o que fazer
é que eu estava redondamen- viver até hoje sem todas quando alcançá-la? Prova-
te enganada? Recentemente essas informações... Descobri velmente parar de correr, ao
descobri que podemos ser que sou “o número sete, a menos até o surgimento de
muito mais do que ousamos luxúria, as Antologias Poé- uma nova roda.
imaginar. Quer saber como? ticas de Carlos Drummond “A curiosidade é a mola
Eu explico, mas aviso de Andrade , A bela e a fera” e propulsora do intelecto, mãe
antemão: fujam enquanto há mais: descobri ainda que não da descoberta” e razão para
tempo, pois o hábito que eu vou “pegar” a gripe suína (In- o sucesso destes jogos de
lhes apresentarei é extrema- fluenza A, H1N1) — Pasmem! adivinhação. Não é de hoje
mente contagioso e viciante! Abençoado seja o cidadão que profecias — verdadeiras
Quando eu era menina, que criou este último quiz! ou falsas — fazem sucesso
a moda era o “questionário” Ah, se a vida fosse assim, (Nostradamus, Walter Mer-
(perguntas escritas em um tão fácil, não é mesmo? Tal- cado, Mãe Dináh e o horós-
caderno passado de mão em vez exatamente pelo fato dela copo nosso de cada dia, não
mão; jogo semelhante a um não o ser é que perdemos me deixam mentir). Cada um
censo de informações pesso- tanto tempo buscando res- de nós procura suas respos-
ais trocadas entre os amigos), postas para as mais diversas tas aonde nos parece mais
depois vieram os testes de re- (e por vezes desnecessárias) adequado. Alguns se voltam
vistas femininas e agora isso: perguntas. Passamos a vida para a fé, outros para si mes-
O quiz virtual. nos questionando sobre quem mos e há ainda aqueles que
Quiz, nada mais é que o somos e como as outras preferem responder a tone-
nome dado àqueles testes pessoas nos vêem. Sobre o ladas de quiz. E quem somos
aonde, através de uma série que fizemos e o que faremos. nós para criticar?
de perguntas e respostas, Sobre qualquer coisa que ilu- Independente do cami-
chegamos a um resultado mine um pouco o caminho nho que lhes convém, mais
surpreendente, como por que nos leva ao misterioso importante que encontrar as
http://www.flickr.com/photos/sea-turtle/3181321172/sizes/o/

exemplo: se “ele/ela beija dia de amanhã. Respostas es- respostas é seguir fazendo as
bem”, se “você é econômico” tas que certamente não estão perguntas. Por isso eu lhes
ou “que fruta você seria”. no fantástico mundo do quiz deixo uma:
Sim, informações de “extre- virtual, por mais divertido “Se você fosse uma respos-
ma relevância”. Hoje em dia, que ele possa se mostrar. ta, qual seria a sua pergunta?”
munido de um computador E por que será que nos Será que isso daria um
ligado à internet, um pouco parece tão mais divertido ser bom quiz?
de paciência e muita falta do qualquer outra coisa senão
que fazer, você pode desco- aquilo que já somos e bem
brir tudo o que não sabia sabemos? Talvez exatamen-
sobre si mesmo, como que te por “bem sabermos” — o
música, livro, animal, artista, sabor da vida está no misté-

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Poesia

Laboratório Poético
Volmar Camargo Junior

Areia e sal

preenche-se o vento com o que pode carregar


com a areia, com o sal da praia
e eu
que vivo nas costas do mundo
sinto no vento areia e sal

a praia, tão longe, tão longa


a mim tão inatingível
arranca o vento de dentro do mar
e sopra-o na minha direção

o sal e a areia que me desconhecem


a meus olhos, minha garganta
querem arder
queimam
e querem me queimar

- mesmo que nem em sonho tenha visto


nunca haja deixado uma só pegada nessa areia
nunca deixado que me viesse até as pernas
uma gota que fosse desse mar -

quente, o vento sobe


pelo dorso frio do mundo
e me sussurra essa maresia
e desacomoda
o que antes fora ordeiro e mudo
e que mudo permanece
ainda mudo, mas inquieto

78
78 SAMIZDAT novembro de 2009
que esperar agora, eu me pergunto,
das idas e vindas desse vento
dessa areia
desse sal que vem do mar
disso que veio sem que eu percebesse
e que agora não consigo deixar ir?

http://www.flickr.com/photos/garry61/3117367205/sizes/o/
antes houvesse passado
não há passado
não
o vento não passou
faz com que o mundo se erga
no meio das suas tempestades
e depois, na calmaria
vai-se

mas há de voltar

se um dia resolver fazer o caminho inverso


e pelas rochosas vértebras do mundo
buscar a praia de onde veio
encontrará comigo ainda guardados Língua morta
os últimos grãos daquela mesma areia
resquícios daquele mesmo sal do mar
à hora de, com a noite, o sono ir-se
ouço, triste, um apelo da aurora
este, só aos meus ouvidos bem-vindo

"crias para mim um idioma, e sê o falante


nativo"

crio-o, gracioso e sonoro, rico e inconcluso


derramo-lhe a história e os fios do mundo
e ainda antes que aurora se dilua em dia

sou o único falante de uma língua morta

www.revistasamizdat.com 79
Poesia

Blavino
Ju Blasina

LABIRINTO

Errei

Por tantos
Anos, portanto

O tempo perdi em
Vão. Na busca por um
Lugar — Errôneo — Vaguei

No labirinto intrincado do viver

Deixei-me levar a esmo feito


Plâncton na correnteza
De dúvidas frias. Fui

Errante até achar


-me bem

Aqui

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80 SAMIZDAT novembro de 2009
Poetrix
Ju Blasina

Dúvidas

Uma vez
Descoberta toda
A dúvida é fria

Fresta

O mundo eu espio pela fresta


Sonhar acordada
É o que me resta

Descobrindo

Descobri minhas dúvidas


Agora sinto frio
No saber

Errante

Leve como
http://www.flickr.com/photos/morgantar/3902733435/sizes/l/

O sopro do vento sou


http://www.flickr.com/photos/algo/294478982/sizes/o/

Folha solta

www.revistasamizdat.com 81
Poesia

SONATA DA CRIAÇÃO
Wellington Souza

82 SAMIZDAT novembro de 2009


Seu caminhar não abalou o silêncio pré-genesíaco
que dorme.
Aproxima-se, sorri, senta-se
hálito com hálito.

Toca meu dedo anelar


e o martelo,
ainda tímido,
faz vibrarem meu nervos
que soam leve o bastante para embalar o primeiro sol do recém-mundo

http://www.flickr.com/photos/notsogoodphotography/770557316/sizes/o/
e arrepiar-me toda, ali.

Logo toca também o segundo


e o terceiro
e as notas vão regendo as coisas e os seres e o quarto
e a mão
e me faço, enfim
– me faço não; e me fazes
enfim
ser ouvida, vencendo o vácuo e o infinito!

para um instante depois quietar,


esbaforida
– esbaforida não, esbaforidos
de tanto soar e tocar e suar.

Ainda,
antes de partir,
fecha-me a cauda e acaricia
de tão leve
que apenas as pontas dos dedos me pulem e me engorduram.
E tudo volta ao pré-genesíaco
e nem ouço teus passos te afastando.

www.revistasamizdat.com 83
SOBRE OS AUTORES DA

SAMIZDAT
Edição, diagramação e capa

Henry Alfred Bugalho


Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em
Estética. Especialista em Literatura e História. Autor
de quatro romances e de duas coletâneas de contos.
Editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores
da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia
Nova York para Mãos-de-Vaca”. Mora, atualmente, em
Nova York, com sua esposa Denise e Bia, sua cachor-
rinha.
henrybugalho@gmail.com
www.maosdevaca.com

Edição de imagens

Volmar Camargo Junior


Inconformado com a própria inaptidão para di-
zer algo sem ser através de subterfúgios, abdicou de
parte de suas horas diárias de sono, tentando domar
a sintaxe e adestrar a semântica. Depois de perambu-
lar pelo Rio Grande do Sul, acampou-se na brumosa,
fria, úmida, às vezes assustadora – mas cercada por
um cenário natural de extrema beleza – Canela, na
Serra Gaúcha. Amargo e frio, cálido e doce, descen-
dente de judeus poloneses, ciganos uruguaios, indí-
genas missioneiros, pêlos-duros do Planalto Médio,
é brasileiro, gaúcho, e, quando ninguém está vendo,
torcedor do Grêmio Futebol Porto-alegrense. Autor
dos blogs “Um resto de café frio” e “Bah!”.
v.camargo.junior@gmail.com
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

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84 SAMIZDAT novembro de 2009
Revisão

Maria de Fátima Brisola Romani


Nasceu em SP em 1957 mas mudou-se para Salvador em 1984 onde reside
até hoje. É arquiteta e artista plástica, além de tradutora (inglês e italiano) e
revisora de textos. Escreve poesias esporadicamente desde adolescente e há cer-
ca de um ano começou a escrever contos. Pretende concorrer ao mestrado em
Artes Cênicas na Escola de Teatro da Ufba.
Participação especial para esta edição

Assessoria de imprensa

Mariana Valle
Por um amor não correspondido, a carioca de
Copacabana começou a poetar aos 12 anos. Veio o
beijo e o príncipe virou sapo. Mas a poesia virou sua
amante. Fez oficina literária e deu pra encharcar o
papel com erotismo. E também com seu choro. Em
reação à hipocrisia e ao machismo da sociedade.
Atuou como jornalista em várias empresas, mas foi
na TV Globo onde aprimorou as técnicas de reda-
ção e ficção. E hoje as usa para contar suas próprias
histórias. Algumas publicadas em seu primeiro livro
e outras divulgadas nos links listados em seu blog
pessoal: www.marianavalle.com

Colaboração
Caio Rudá
Bahiano do interior, hoje mora na capital. Estuda
Psicologia na Universidade Federal da Bahia e espera
um dia entender o ser humano. Enquanto isso não
acontece, vai escrevendo a vida, decodificando o enig-
ma da existência. Não tem livro publicado, prêmio,
reconhecimento e sequer duas décadas de vida. Mas
como consolo, um potencial asseverado pela mãe.

www.revistasamizdat.com 85
Dênis Moura
Paulistano de pia, cearence de mar e poeta de
amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto o ciberes-
paço, mais com bits de imaginação que com telescó-
pios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja
ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e
a igualdade, com um giz na mão e uma pistola na
outra. É Tecnólogo a sonhar com Telemática social,
com a democracia participativa eletrônica, onde o
povo eleja menos e decida mais. Publica estes dias
sua primeira obra, um Romance de Ficção Científi-
ca, e deixa engavetadas suas apunhaladas poesias. É
feito de bits, links e teia pra que não desmaterialize,
o clique, o blogue e o leia!

Giselle Sato
Autora de Meninas Malvadas, A Pequena Baila-
rina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine
apenas como uma contadora de histórias carioca.
Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de
bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se
a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes,
funcionando como um eficiente panorama da socie-
dade em que vivemos.

Wellington Souza
Paulistano, mas morou também em Ribeirão Preto,
onde cursou economia na Universidade de São Pau-
lo. Hoje, reside novamente no bairro em que nasceu.
Participou das antologias do concurso Nacional de
Contos da Cidade de Porto Seguro e do Poetas de Ga-
veta/USP. Escreve poemas, contos, crônicas e ensaios
literários em um blog (Hiper-link), na revista digital
SAMIZDAT e no portal Sociedade Literária. “Escrever
é um modo de ser outro ser”.

86
86 SAMIZDAT novembro de 2009
http://www.photoshoptalent.com/images/contests/spider%20web/fullsize/sourceimage.jpg
Léo Borges
Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor
público e amante da literatura. Formado em Comu-
nicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas
Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas
“Retratos Urbanos” em 2008 pela Editora Andross.

Jú Blasina
Gaúcha de Porto Alegre. Não gosta de mensurar
a vida em números (idade, peso, altura, salário). Não
se julga muito sã e coleciona papéis - alguns afir-
mam que é bióloga, mestre em fisiologia animal e
etc, mas ela os nega dizendo-se escritora e ponto fi-
nal. Disso não resta dúvida, mas como nem sempre
uma palavra sincera basta, voltou à faculdade como
estudante de letras, de onde obterá mais papéis para
aumentar a sua pilha. É cronista do Caderno Mulher
(Jornal Agora - Rio Grande - RS), mantém atualiza-
do seu blog “P+ 2 T” e participa de fóruns e oficinas
virtuais, além de projetos secretos sustentados à base
de chocolate e vinho, nas madrugadas da vida.

Simone Santana
Ouro Preto – MG, 1981). Professora de Língua
Portuguesa e Literatura em escolas estaduais. Escreve
já há algum tempo, é inédita em livro e edita o blo-
gue A Parede Lá de Casa. Possui textos publicados na
revista Germina, participa do site Escritoras Suicidas,
e colaborou com o conto Rosário de Lágrimas na
edição de aniversário de sessenta anos do Suplemento
literário Correio das Artes. Escrever é uma necessida-
de.

www.revistasamizdat.com 87
Joaquim Bispo
Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor ama-
dor, licenciado recente em História da Arte, experi-
menta agora o prazer da escrita, em Lisboa.

episcopum@hotmail.com

Guilherme Rodrigues
Estudante de Letras na Universidade do Sagrado
Coração, em Bauru, onde sempre morou. Procura
reinventar o mundo a seu modo, seja belo ou grotes-
co, e assim mostrar um novo caminho. Admirador
das coisas mais simples e belas do mundo e da vida,
busca expressar essas sublimes minúcias em suas
poesias. Não dispensa o café da tarde com pãezinhos.
Apaixonado por Línguas, Literatura e Linguística.

Sheyla Smanioto Macedo


Sempre em busca de escritas que façam desfun-
cionar a máquina do mundo, de experiências do caos
e experimentações pela palavra - convicta de que o
mundo vale a pena em poesia. Mantém o blog http://
sheylas.wordpress.com , cursa Estudos Literários
(Unicamp), e atualmente pesquisa sobre escrita ex-
perimental no Laboratório de Estudos Avançados em
Jornalismo (Labjor-Unicamp).

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88 SAMIZDAT novembro de 2009
http://www.photoshoptalent.com/images/contests/spider%20web/fullsize/sourceimage.jpg
Barbara Duffles
Jornalista, escritora e roteirista, é autora do livro
“Não Abra” e do blog “Não Clique”. Apesar das nega-
tivas, esta carioca quer, sim, ser lida - como todo es-
critor. Tem dias de conto, de crônica e de pílulas sem
sentido. Suas paixões: cinema e livros com cheiro de
novo - se bem que adora se perder nos sebos da vida.

José Guilherme Vereza


Publicitário, redator, executivo, professor, aluno, marido,
pai, filho, cunhado, tio, sobrinho, genro, sogro, amigo, bota-
foguense, tijucano, lebloniano, neopaulistano, escritor, leitor,
eleitor, metido a cozinheiro, guloso, nem gordo nem magro,
motorista categoria B, pedestre, caminhante, viajante, seden-
tário, telespectador, pilhado, zen, carnívoro, beatlemaníaco,
cinemeiro, desafinado, sinfônico, acústico, capricorniano,
calorento, alérgico a ditaduras, sonhador, delirante, insone,
objetivo, subjetivo, pragmático, enérgico, banana, introspec-
tivo, extrovertido, goleiro, blogueiro, colunista do Bolsa de
Mulher, colaborador do Mundo Mundano, tem livro publi-
cado, conto premiado, teve texto encenado no teatro, fez ro-
teiros para televisão, criou uma infinidade de comerciais e
aprendeu que aproveitar a vida intensamente é ser de tudo
um muito. Samizdat é seu mais recente energético..

www.revistasamizdat.com 89
Também nesta edição, textos de

Barbara Duffles Jú Blasina

Caio Rudá Léo Borges

Dênis Moura Mariana Valle

Giselle Natsu Sato Sheyla Smaniotto Macedo

Henry Alfred Bugalho Simone Santana

Joaquim Bispo Volmar Camargo Junior

José Guilherme Vereza Wellington Souza

90 SAMIZDAT novembro de 2009