SAMIZDAT

www.revistasamizdat.com novembro 2009 ano II
ficina

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A Invenção da América

SAMIZDAT 22
novembro de 2009
Edição, Capa e Diagramação: Henry Alfred Bugalho Edição de Imagens: Volmar Camargo Junior Henry Alfred Bugalho Revisão Geral Maria de Fátima Brisola Romani Assessoria de Imprensa Mariana Valle Autores Barbara Duffles Caio Rudá Dênis Moura Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Guilherme Vereza Jú Blasina Léo Borges Mariana Valle Simone Santana Volmar Camargo Junior Wellington Souza Textos de: Cristóvão Colombo Pero Vaz de Caminha

Editorial
Segundo os registros históricos, o primeiro contato dos europeus com o continente americano se deu em 12 de outubro de 1492. A versão oficial é a de que os espanhóis buscavam uma rota alternativa para chegarem às Índias e que, acidentalmente, depararam-se com terras desconhecidas, o Novo Mundo. No entanto, existem hipóteses que defendem a chegada de outros povos muito antes de Colombo e suas naus terem aportado na América - mapas como o de Vinland, elaborados por povos nórdicos, ou até um mapa chinês do século XV no qual já constava a costa californiana, seriam evidências disto. Mas, no fundo, tudo que temos são as visões do Outro, daqueles que estava de fora, daqueles que não pertencia a esta terra, sobre os nativos. Os autóctones sem História, ou sem História escrita, foram dominados, dizimados, mesclaram-se e se transformaram por causa do processo colonizador europeu. Nesta edição da SAMIZDAT, comemoramos, ao mesmo tempo em que questionamos, esta visão sobre o que fomos, através dos relatos dos primeiros navegadores em mares americanos, mas também projetamos a identidade do que um dia seremos. Henry Alfred Bugalho

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Sumário
Por quE Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

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ENtrEViSta antonio Luiz m. C. Costa autor Em LÍNGua PortuGuESa Carta a El rei d. manuel (excerto)
Pero Vaz de Caminha

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miCroCoNtoS Primeira Lição Colonial
Simone Santana

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CoNtoS o messias do ocidente
Joaquim Bispo

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imagem de Barro
Wellington Souza

o troféu

Volmar Camargo Junior Henry Alfred Bugalho José Guilherme Vereza Sheyla Smanioto Macedo Mariana Valle Léo Borges

o Sorteio

relações Postais Ventanas (i) a Sogra

12 de outubro sob ataque

We’ll always have Paris
Barbara Duffles Giselle Sato

50 52

duetos assassinos

Conspiração zHaarP - Big Bang microcósmico - Capítulo 4 56
Dênis Moura

traduÇÃo Carta de Crfistóvão Colombo anunciando o descobrimento da américa 58 tEoria LitErÁria Caminhos para o autor independente
Henry Alfred Bugalho

66 70

Jogue sua Gramática no Lixo
Guilherme Augusto Rodrigues

CrÔNiCa Eu não gosto de ninguém da américa do Sul 72
Léo Borges Ju Blasina

quem é você, quem sou eu?

76

PoESia Laboratório Poético Blavino Poetrix
Ju Blasina Ju Blasina Wellington Souza

Volmar Camargo Junior

78 80 81 82

Sonata da Criação

SoBrE oS autorES da Samizdat

84

O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprimir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas logo

se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiam, fazer parte da máquina administrativa - que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo -, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas idéias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exemplo de um samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat?
A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos - como TV ,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em questão de minutos. A serem obrigados a burlar a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substituam o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Entrevista

antonio Luiz m.C. Costa
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Antonio Luiz Melo Coelho da Costa, colunista e editor da revista CartaCapital, autor de dezenas de contos de Fantasia e Ficção Científica (um deles já publicado aqui conosco, na SAMIZDAT 21 Mistério e Suspense), dono de várias comunidades no orkut relacionadas à chamada Ficção Especulativa - Fantasia, FC, Horror, História Alternativa, e, adicionalmente, idiomas imaginários... - concedeu-nos esta excelente entrevista, falando sobre um dentre tantos assuntos que domina: a literatura.

SAMIZDAT - O Brasil sempre teve um papel secundário (ou terciário) no cenário de Ficção Científica e Fantasia mundial. A que se deve este fenômeno? ANTONIO LUIZ M.C. COSTA – Bom, no que se refere à FC contemporânea, fora EUA, Canadá, Reino Unido, Japão, Rússia e (mais recentemente) China, todos os países são secundários, salvo por um ou outro autor isolado de estatura internacional (como, por exemplo, Stanislav Lem na Polônia e Valerio Evan-

gelisti na Itália). Mas bem que o Brasil podia ser menos secundário do que é. A literatura de fantasia, no sentido mais geral do termo, tem uma difusão mais ampla e nela não acho que o Brasil esteja tão mal. Mas vou deixar para falar disso na pergunta seguinte e tratar primeiro da FC. Uma parte do problema é antiga e estrutural – o caráter agrário e dependente do País até a primeira metade do século XX, que criou uma

elite bacharelesca e conservadora, míope em relação ao futuro e que menosprezava a ciência e tecnologia. Na era JK começamos a superar essa herança, a nos ver como o “País do Futuro” e a produzir alguma ficção científica de razoável qualidade para a época, a chamada Primeira Onda, que incluiu escritores respeitados nos meios literários. Mas então veio o golpe militar e a ditadura envenenou a cultura em vários aspectos, inclusive a ficção científica.

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De um lado, veio a ênfase tecnocrática na formação de profissionais científicos e tecnológicos por atacado e a toque de caixa, em colégios e faculdades particulares com pouco ou nenhum interesse em formação humanista. De outro, a censura do debate político, a perseguição de intelectuais e a desconfiança em relação às ciências humanas, vistas como viveiro de subversivos. De um lado, se formaram engenheiros, cientistas e técnicos sem gosto por debate de idéias nem por literatura, que até curtem a ficção científica como espetáculo, no cinema e nos seriados de tevê, mas não têm paciência para abrir um livro nem para especular sobre o futuro com seriedade. De outro, letrados, historiadores e cientistas sociais que desprezam a ficção científica como fuga da realidade, alienação em relação aos problemas políticos e sociais do Brasil e propaganda do imperialismo. Até porque o que mais se publicava e lia no gênero eram os clássicos da Golden Age estadunidense, muitos dos quais (“Tropas Estelares” é o exemplo mais óbvio) de fato promoviam valores militaristas e imperialistas – enquanto a ficção científica mais contestadora da New Age, disposta a falar de sexo, drogas, política e outros tabus (Ursula K. Le Guin, Philip K. Dick etc.) foi pouco editada e conhecida. O resultado foi uma longa seca de edições de ficção científica, tanto nacionais quanto traduzidas, que se prolongou por mais de uma década após o fim da dita-

dura e até o início do novo século. Quem gostava de ler não gostava de FC e viceversa, salvo tais ou quais exceções. Ora, a verdadeira FC criativa – aquela que faz valer mais a especulação inovadora do que a ação e efeitos especiais – vive da intersecção e do diálogo das duas culturas, a humanista e a científica. O escritor e o leitor precisam ser pessoas que gostam de literatura, interessadas no destino humano e ao mesmo tempo no progresso da ciência e em suas possíveis conseqüências para o espírito e para a sociedade. Para que um público como esse exista, é preciso uma formação mais equilibrada e, de preferência, democrática – pois a democracia incentiva o confronto de idéias, inclusive idéias estranhas. Por mais que se reclame do ensino no Brasil, me parece que a educação dos anos 90 em diante conseguiu abrir para o diálogo entre culturas uma parte da geração mais nova, aquela que nasceu nos últimos anos da ditadura e cresceu na democracia, pois dela vem vindo uma enxurrada de textos novos, primeiro na internet e depois também em papel – e, mais recentemente, também editoras. Como de costume, grande parte é lixo, mas muita coisa vai durar. SAMIZDAT – E como você percebe o papel da produção atual no Brasil nestes gêneros? Existem obras e autores de destaque, comparáveis ao que tem sido feito no exterior? ANTONIO LUIZ – Na ficção

científica, estamos recomeçando depois de uma longa crise, mas eu diria que há autores que se comparam bem ao que tem sido produzido lá fora. Se houvesse um público e um mercado que lhes permitisse dedicar-se em tempo integral à literatura, como existe nos EUA e Reino Unido, e se desenvolver plenamente como escritores, acredito que estariam à altura da melhor produção desses países. Com o risco de cometer injustiças, cito alguns exemplos: Gerson Lodi-Ribeiro, Fábio Fernandes e Carlos Orsi, entre os que começaram a carreira ainda na “Idade das Trevas” e Cristina Lasaitis, Osíris Reis e Saint-Clair Stockler entre os iniciantes. Na fantasia, como eu ia dizendo na pergunta anterior, a história é outra. O Brasil, como outros países da América Latina, tem uma forte tradição de temas folclóricos e fantásticos na literatura, presente na obra de seus maiores escritores e nunca totalmente interrompida: podemos citar Machado de Assis, Mário de Andrade, Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Murilo Rubião e José J. Veiga, e há outros menos conhecidos. Assim como muitos grandes escritores europeus e norteamericanos oscilaram entre a fantasia e o realismo e as vezes ficaram mais para lá do que para cá – Maupassant, Gogol, Kafka, Stevenson, Melville, Poe, Flaubert, Swift e Shakespeare, só para citar os primeiros que me ocorrem. É questão de reconhecer a presença do fantástico em nossa tradição, mais do que

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de pedir por mais. Será que na França tem algum grande romance mais fantástico do que Macunaíma? Pensando em qualidade intrínseca e ousadia, não em livros vendidos ou grau de modernidade, será Harry Potter superior ao Sítio do Picapau Amarelo? Eu não acho. Temos também uma razoável produção no campo do terror. Na minha opinião, Martha Argel e Giulia Moon, por exemplo, não ficam nada a dever a Anne Rice. O que o Brasil de fato não tem é tradição em Alta Fantasia, gênero que começou a ser inventado na Inglaterra vitoriana, mas permaneceu mais ou menos na obscuridade até os anos 60, quando Tolkien virou moda nos EUA e foi reinterpretado no espírito da New Wave e da New Age, originando um novo respeito pelo mito e pela construção de mundos totalmente imaginários. Nesse campo, praticamente só temos imitadores, a maioria dos quais sequer compreendeu o que tenta imitar e se limita a reciclar superficialmente temas e clichês. Ainda não há nada que valha a pena ser mencionado em termos de Alta Fantasia nacional, nem surgiu alguém disposto a imaginar o novo e não apenas mais uma variante do que já foi feito lá fora. SAMIZDAT: Habitualmente, os escritores de Fantasia costumam se inspirar, quase parasitariamente, nos autores e na mitologia anglo-saxã. Existe público para universos de fantasia tipicamente brasileiros, que traga elementos da

mitologia, da fauna, flora, da História e dos comportamentos nossos? ANTONIO LUIZ – Existir, claro que existe. O Roberto Causo, por exemplo, tem escrito uma série de histórias, A Saga de Tajarê, já com duas novelas, em um mundo de fantasia amazônico e a Michelle Klautau fez um crossover entre o mundo dos mitos europeus e o do folclore brasileiro em A Lendária Hy-Brasil, uma ideia que poderia ser mais explorada. No gênero infanto-juvenil, há montes de livros baseados no folclore e na história do Brasil, que continuam a tradição de Monteiro Lobato e têm boa aceitação. Claro que quem faz fantasia tolkieniana pode ficar tranqüilo quanto a que, seu trabalho, mesmo que seja ruim, vai ser entendido por quem joga D&D ou viu O Senhor dos Anéis no cinema. Mas, em termos de Alta Fantasia, ninguém vai sair da mediocridade enquanto não tentar algo diferente de fazer decalques da Terra Média. É preciso arriscar mais e descobrir maneiras novas de apresentar um mundo diferente do já visto. Mas me entendam bem, acho um passo importante os aspirantes a escritores de Alta Fantasia brasileiros se livrarem da camisa-de-força do modelo tolkieniano e de seus reis, princesas, águias, lobos, magos, elfos e orcs. Mas não se trata de pedir-lhes que escrevam sobre índios, escravos negros, onças, uirapurus, sacis, iaras e mulas-sem-cabeça. O importante é liberar

a imaginação. Que inventem mundos baseados na imaginação asteca, grega, japonesa, indiana ou chinesa, se quiserem, mas que queiram criar com sinceridade. Agora, o que os imitadores da ficção anglo-saxã não conseguem evitar, querendo ou não, é que os personagens tenham comportamentos “brasileiros”. É muito engraçado: seja em um palácio real, uma aldeia élfica ou uma escola de magos, os personagens de qualquer idade e meio social falam, se comportam e reagem como jovens brasileiros de classe média em torno de uma mesa de RPG do século XXI, ou como personagens da Globo. Há uma atração pelo superficialmente fantasioso e exótico, mas também um tremendo provincianismo quanto às formas de pensar e sentir. Eles não entendem que a maneira dos integrantes de uma família real medieval, digamos, se relacionarem entre si, tratarem com outras famílias e conduzir suas rotinas era completamente diferente das pessoas de hoje e os põe a falar como a família rica da novela das oito. SAMIZDAT – Quais são os temas que motivam a sua escrita ficcional? É importante que a ficção defenda uma tese? ANTONIO LUIZ – Um dos temas mais presentes em minhas histórias é a de transformação coletiva. Frequentemente, minhas histórias se situam um momento historicamente significativo para seus cenários imaginários, o momento de um progresso

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importante ou de uma grande reviravolta social, política ou cultural. Os personagens podem ter ou não consciência do que está acontecendo, mas seus atos estão relacionados a isso, como causa ou como efeito. Outro tema comum, que pode se combinar ou não ao primeiro, é o do sincretismo cultural, geralmente na forma de personagens que conhecem outros de uma cultura ou mesmo espécie diferente com o qual aprendem coisas novas ou desenvolvem um relacionamento próximo. Claro que também figuram, por vezes, casos de encontros destrutivos, mas acho os construtivos bem mais interessantes de explorar. Quanto a “defender uma tese”, a ficção sempre faz isso, quer o autor saiba disso, quer não. Quem pensa que está fazendo uma ficção “neutra” defende as ideias recebidas e lugares-comuns de seu tempo na medida em que os reproduz sem críticas. Um escritor de folhetins do século XIX, por exemplo, podia pensar que estava apenas ganhando seu pão, mas aos nossos olhos é óbvio que estava, por exemplo, defendendo a submissão feminina ao descrever frágeis heroínas à mercê da luta entre um vilão repulsivo e um herói galante. Um inconformista, por outro lado, geralmente está consciente de que tem ideias diferentes da maioria e de sua vontade de propagá-las, sejam elas conservadoras ou progressistas – mas comete um grande erro se faz isso de maneira grosseira, pintando como monstros ou

idiotas aqueles que pensam de maneira diferente (como, por exemplo, o reacionário C. S. Lewis), ou subordina a trama a pregações tediosas na narrativa ou na boca dos heróis. Em ficção, as ideias são muito mais eficazes se expressas de maneira sutil e divertida. SAMIZDAT – No mercado editorial brasileiro, Fantasia e FC ocupam um espaço muito restrito. Isto se deve a algum tipo de estreiteza de horizontes das editoras, ou o leitor brasileiro simplesmente não está acostumado a ler tais gêneros? Existe alguma maneira para driblar esta barreira e se consolidar como autor neste segmento? ANTONIO LUIZ – Há tanto leitores que reclamam que as editoras não lançam coisas novas (eu sou um deles) quanto editoras que reclamam que esses gêneros não vendem. Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Desconfio que o ovo: é difícil vender um lançamento novo porque as editoras não querem cultivar esse mercado, embora briguem de foice para publicar uma obra estrangeiro de fantasia ou FC depois que se torna bestseller ou é adaptada para o cinema (Michael Crichton, J. K. Rowling, Tolkien, Philip K. Dick etc.). Por outro lado, já ouvi os editores da Aleph se queixarem de que os livros de ficção científica mais “inovadores” que vêm publicando – e “inovador” pode significar da década de 80, como Valis ou mesmo de 1969, como A Mão Esquerda da Escu-

ridão! – estão encalhando, enquanto a Fundação e O Fim da Eternidade de Asimov (anos 50) e Laranja Mecânica de Burguess (1962) vendem relativamente bem. É preciso explicar o conservadorismo também por parte dos leitores. Talvez esse público, que não lê ficção em inglês, só conheça obras já antigas que leram há muito tempo, encontraram em sebos ou foram recomendados pelos mais velhos e por isso só saibam falar, pessoalmente ou na internet, sobre esses “clássicos”. Quando alguma editora arrisca lançar algo mais novo, é bem possível que deixem de comprar por nunca ter ouvido falar e não querer arriscar. Que na hora de presentear um amigo, ou mesmo de escolher algo para ler, prefiram mesm algo que já ouviram falar que todo mundo (do seu círculo) gosta. Que faltem leitores ousados, desbravadores do desconhecido. Mesmo assim, acho uma aberração por parte da Aleph priorizar o relançamento do Asimov dos anos 50 e deixar de publicar livros que fizeram época nos anos 90 e 2000, como The Difference Engine, Hyperion e Perdido Street Station – ou mesmo os últimos (e para mim mais interessantes) livros de Asimov, os dos anos 80. Será que todo o público leitor da ficção científica virou um reduto conservador e saudosista, apegado ao futuro que seus avós imaginaram e com medo de pensar coisas novas? Não posso crer, deve ter algo de errado nesse raciocínio. Se for verdade, melhor esquecer a FC e dedicar-se à fantasia

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ou à literatura mainstream. Prefiro pensar que a Aleph está escolhendo os livros errados ou não sabe promovêlos (por exemplo, as capas, em geral, não sugerem que se trata de FC). Infelizmente, não tenho uma receita mágica para driblar o círculo vicioso. O mais que posso é fazer minha parte, dando preferência a resenhar e recomendar as boas obras novas que surgem no mercado. SAMIZDAT – Na sua opinião, ficção de gênero e literatura mainstream são realmente distintas? É possível, academicamente, encontrar valor literário em obras enquadradas (por fãs, por editor...) em algum gênero, como Fantasia ou FC? ANTONIO LUIZ – São distintas na medida em que têm prioridades diferentes. O chamado mainstream (que não é necessariamente ficção “realista”) busca a expressão criativa, a fantasia e a FC enfatizam a especulação criativa. Em geral, quem julgar a ficção especulativa pelos critérios da ficção mainstream vai achá-la aborrecida de má qualidade, e vice-versa – salvo umas poucas obras que conseguem brilhar razoavelmente nos dois aspectos como, digamos, Admirável Mundo Novo. Claro que é preciso um mínimo de técnica e valor literário para se escrever um livro de ficção especulativa decente, mas ela deve servir à especulação, não o contrário. Então, minha resposta seria: é possível encontrar valor nesses gêneros, mas em geral não o mes-

mo que se busca na chamada grande literatura. É preciso outra maneira de os ler e analisar que não o enfoque do acadêmico tradicional, estudante de letras, mas a do estudioso da cultura e da ideologia, algo mais próximo daquilo que os anglo-saxões chamam Cultural Studies. SAMIZDAT – Na comunidade do orkut “Escritores - Teoria Literária”, foi criado um tópico com a seguinte pergunta: “HQ é Literatura?”. A discussão foi acalorada, mas manteve-se dentro do aceitável. As coisas realmente partiram para “um outro nível de discussão” quando alguém argumentou que Watchmen consta em uma lista da revista TIME, de 2005: “TIME critics Lev Grossman and Richard Lacayo 100 best English-language novels from 1923 to the present”. (http://www.time. com/time/2005/100books/ the_complete_list.html) Para você, HQ pode ser considerado literatura, ou, como se diz, trata-se de uma forma de arte autônoma - a chamada Nona Arte? Qual é o valor, como argumento, de uma lista de “os cem melhores” como a que foi citada? ANTONIO LUIZ - Watchmen não devia estar nessa lista. Não se pode avaliar o texto de uma história em quadrinhos com os critérios com que se avalia um romance, nem pelos que servem para avaliar uma pintura ou gravura. Assim como também não se pode avaliar um roteiro de cinema por quaisquer desses critérios. . São formas de arte diferentes.

Assim como não se pode avaliar uma canção dançante de Gilberto Gil pelos critérios com que se avalia uma sinfonia de Villa-Lobos ou um poema de Camões. Se Watchmen fosse um dos 100 melhores romances em inglês desde 1923, haveria de ser a melhor obra de arte do século XX, talvez de todos os tempos... pois, em Watchmen, o texto é apenas um elemento da obra, que depende mais da combinação eficaz de texto e imagem do que de qualquer desses aspectos separados. Claro que não é assim. Watchmen é uma das melhores graphic novels já feitas, mas o texto, separado da imagem, é pobre em relação a qualquer romance mediano. Não comparemos laranjas com bananas. SAMIZDAT – Desde há muito línguas artificiais são pensadas. Algumas chegaram a ganhar certa relevância, como o Esperanto, enquanto que outras ficam restritas aos seus criadores ou pequenos grupos de discussão. Qual sua experiência pessoal com o desenvolvimento de idiomas? ANTONIO LUIZ – Eu inventei um idioma de maneira mais completa, o “senzar”, e alguns outros de maneira mais fragmentária como parte do cenário de um romance de fantasia ainda não publicado, sem a pretensão de que o senzar ou qualquer outro deles seja usado por mais alguém. Meu principal objetivo era que nomes de lugares e personagens soassem diferentes de línguas conhecidas, para criar

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a sensação de um mundo realmente exótico, mas sem que os nomes parecessem absurdos ou incoerentes. Assim, personagens da mesma etnia têm nomes de estrutura semelhante e característica, diferente de personagens de outras etnias. Ao mesmo tempo, à medida que eu tinha de inventar palavras e conceitos, me ajudou a ter em mente que ideias e comportamentos não deviam ser necessariamente semelhantes a qualquer cultura conhecida, mas deviam ter coerência entre si. É um recurso que exige algum conhecimento de linguística e muito gosto pela coisa. Pessoalmente, fiquei satisfeito com o resultado. Sempre achei um tanto ridículo que nomes de personagens de um mundo imaginário inventado por um brasileiro tenham nomes anglo-americanos. Também não me parece apropriado que os personagens de um mundo de fantasia tenham nomes brasileiros, a menos que o cenário um Brasil futuro ou paralelo, que não era o caso desse romance. Claro, quem trabalha um mundo baseado na Inglaterra medieval deve usar nomes ingleses. Mas quase nunca é o caso – e mesmo que fosse, nem todos os nomes usados no inglês moderno serviriam. Parece-me igualmente ruim misturar ao acaso nomes de diferentes origens e culturas – isso só faz sentido em uma grande cidade cosmopolita ou em um cenário futurista. Acho importante estar atento a essas minúcias, pois, no fim das contas, um mundo

literário é feito apenas de palavras. SAMIZDAT – Uma vez que as línguas sejam fenômenos sócio-culturais, é válida a criação de novos idiomas sem que esses estejam assentados sobre um contexto cultural previamente desenvolvido? ANTONIO LUIZ – Para uso artístico ou ficcional, bem válido. Para uso prático, eu não desencorajaria quem queira tentar, mas é obviamente difícil que um idioma artificial se torne amplamente usado, a menos que isso seja imposto por um Estado – ou uma organização global, no caso de um idioma universal. Por uma questão de justiça, eu preferiria ver um governo mundial usar um idioma artificial neutro a usar o mandarim, o inglês ou o português. SAMIZDAT – É possível esperar que as línguas artificiais deixem de ser vistas essencialmente como passatempo ou ferramenta auxiliar para a escrita de ficção científica e passem a ser reconhecidas formas de expressão artística? ANTONIO LUIZ – Não acho que criar línguas para expressão artística fora de um contexto literário ou cinematográfico tenha muito futuro. Creio que Tolkien fez mais ou menos isso, inventou as línguas élficas por puro prazer estético. Mas se não escrevesse um romance no qual pudessem ser citadas, só ele – e, talvez, um ou outro colega filólogo – as teria

apreciado como arte. Claro que há formas de arte ainda mais estranhas e difíceis de entender e que fazem sucesso em bienais e galerias, mas eu não apostaria nisso. SAMIZDAT – Um pouco de história alternativa: como você imagina o Brasil, em termos linguísticos, caso o Marquês de Pombal não tivesse proibido a utilização da lingua geral? ANTONIO LUIZ – Poderíamos ter o nheengatu falado nas ruas e aprendido nas escolas ao lado do português, assim como o Paraguai usa e ensina o guarani junto com o castelhano. Não faria necessariamente muita diferença em questões políticas e sociais – o Paraguai é um país tão injusto quanto o nosso – mas poderíamos ter uma identidade nacional mais marcada (justamente o que Pombal queria evitar), mais respeito pela cultura indígena e mais afinidade com outros países sul-americanos, ou pelo menos com a Bolívia, Paraguai e Argentina, onde línguas da família tupi são faladas.

Coordenação da entrevista: Volmar Camargo Junior Perguntas feitas por: Caio de Oliveira Carlos Alberto Barros Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior

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autor em Língua Portuguesa

Carta de Pero Vaz de Caminha

a El rei d. manuel

(excerto)

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http://www.tankonyvtar.hu/site/img/historia/1992_92-056_03_Rakoczi3_original.jpg

Senhor, posto que o Capitãomor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que — para o bem contar e falar — o saiba pior que todos fazer! Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu. Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza — porque o não saberei fazer — e os pilotos devem ter este cuidado. E portanto, Senhor, do que hei de falar começo: E digo quê: A partida de Belém foi, como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de Março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à

vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto. Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser! Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas... não apareceu mais! E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha — segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas — os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos. Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de

outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz! Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças — ancoragem limpa. Ali ficamonos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante — por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças — até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos. E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro. Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos

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dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte. Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar. À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a Capitaina. E sexta pela manhã, às oito horas,

pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem. E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-pôsto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças. E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um

daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa. A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes

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põe estorvo no falar, nem no comer e beber. Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobrepente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar. O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a

fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata! Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali. Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele. Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados. Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora. Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas. O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçavase por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram. (...)

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O lugar onde
Pero Vaz de Caminha (Galaico-português: Pero Uaaz de Camjnha; Porto, Portugal, 1450 — Calecute, Índia, 15 de Dezembro de 1500), às vezes popularmente chamado de Pedro Vaz de Caminha, foi um escritor português que se notabilizou nas funções de escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral. Era filho de Vasco Fernandes de Caminha, cavaleiro do duque de Bragança. Seus ancestrais seriam os antigos povoadores de Neiva à época do reinado de D. Fernando (1367-1383). Letrado, Pero Vaz foi cavaleiro das casas de D. Afonso V (1438-1481), de D. João II (1481-1495) e de D. Manuel I (1495-1521). Pai e filho, para melhor desempenhar seus cargos, precisavam exercitar a prática e desenvolver o conhecimento da escrita, distinguindo-se a serviço dos monarcas. Teria participado da batalha de Toro (2 de Março de 1475). Em 1476 herdou do pai o cargo de mestre da Balança da Moeda, posição de responsabilidade em sua época. Em 1497 foi escolhido para redigir, na qualidade de Vereador, os Capítulos da Câmara Municipal do Porto, a serem apresentados às Cortes de Lisboa. Afirma-se que D. Manuel I, que o nomeou para o cargo no Porto, lhe tinha afeição. Em 1500, foi nomeado escrivão da feitoria a ser erguida em Calecute, na Índia, razão pela qual se encontrava na nau capitânia da armada de Pedro Álvares Cabral em Abril daquele mesmo ano, quando a mesma descobriu o Brasil. Caminha eternizou-se como o autor da carta, datada de 1 de Maio, ao soberano, um dos três únicos testemunhos desse achamento (os outros dois são a Relação do Piloto Anônimo e a Carta do Mestre João Faras. Mais conhecido dentre os três, a Carta de Pero Vaz de Caminha é considerada a certidão de nascimento do Brasil embora, dado o segredo com que Portugal sempre envolveu relatos sobre sua descoberta, só fosse publicada no século XIX, pelo Padre Manuel Aires de Casal em sua “Corografia Brasílica”, Imprensa Régia, Rio de Janeiro, 1817. O texto de Mestre João demoraria mais ainda: veio à luz em 1843 na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e isso graças aos esforços do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen. Tradicionalmente se aceita que Caminha pereceu em combate durante o ataque muçulmano à feitoria de Calecute, em construção, no final de 1500. Caminha desposou D. Catarina Vaz, com quem teve, pelo menos, uma filha, Isabel.

a boa Literatura
é fabricada
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microcontos

Primeira Lição colonial
Simone Santana

Quando os portugueses barbudos dos livros de história do Brasil para o Brasil migraram, trouxeram a galinha, a cobiça, e as armas de fogo, e o pequeno mameluco aprendeu a dandar pra ganhar tentem.

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nome de “O Canto da Ele tinha diante de si sua visão ao concertista. Sereia de Bach”, já que a bela melodia sempre se mostrava como um fatal e irresistível convite ao além-túmulo.

a mais difícil das missões:

cumprir a vontade de Deus

Quase um ano após o início das mortes, passava pela região um viajante austríaco, excepcional estudante de música, chamado Wolfgang Amadeus Mozart. Quando soube da maldição, não se alarmou, disse apenas que gostaria de ouvir o tal concerto fúnebre e de conhecer o seu autor. Foi alertado de que a história era verdadeira, de que as pessoas já não queriam mais estudar música, e ele poderia ser o próximo, e o dia fatal estava se aproximando... Nada disso o espantou.

chão a partitura do final Aquela mesma figura cade uma recente compodavérica, que levara tansição sua – a primeira a tos a sucumbir, apontava- lembrar que estava em lhe seus terríveis olhos harmonia com a música ausentes. E como todos os inacabada de Bach. Teroutros, também Mozart minando, viu que a perna www.oficinaeditora.com paralisou-se. Junto à ima- já estava livre. Correu o gem macabra, sentiu o mais rápido que pôde, cheiro da putrefação. As sem olhar para trás. O náuseas dominaram-no, som de sua composição o que o fez libertar-se da servia de trilha sonora paralisia, caindo de joepara a fuga, enquanto lhos a largos vômitos. Em ele pensava como, até o meio a engasgos, tosses e momento, aquela música ânsias, ouviu a frase mor- nunca havia lhe parecido tal: “Termine a música”. tão viva e tão mórbida. Prometeu não mais tocáConfuso, desnortela. ado, Mozart tentou se

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O Rei dos

Judeus
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levantar apoiando-se no órgão, que sua mão atravessou como se nada ali estivesse. Caiu sobre o vômito, começando a recobrar a razão e tentando afastar-se daquele Dia vinte e oito, “Toca- prenúncio da morte. De bruços sobre a terra, ta e Fuga em Ré Menor”, sentiu algo prendendo-o tudo como haviam dito, pelo e lá estavaHenry Alfred BugAlHo pé. Não teve coraMozart dentro do cemitério. Com os gem de olhar para ver o olhos fechados, deixava-se que era. E novamente a voz suave suplicou: “Terextasiar com as compomine a música”. Fazendo sições de Johann Sebasuma desesperada oração tian Bach, num estado mental, tateou o solo até de euforia sobrenatural. encontrar uma pedra Subitamente, o som se pontiaguda. Com ela, extinguiu. O jovem despertou do transe e dirigiu começou a desenhar no

No dia seguinte, o jovem Mozart já não se encontrava pela cidade. “Mais um levado pelo Canto da Sereia de Bach”, diziam. Contudo, soubese na hospedaria que ele havia partido durante a madrugada, são e salvo, após o sinistro concerto. No cemitério, ao invés do esperado músico morto, foi encontrada apenas uma inscrição na terra, parecida com o trecho de alguma partitura. Desde então, não se noticiou mais vítimas do “Canto da Sereia de Bach”.

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Contos

o messias do ocidente
Joaquim Bispo

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Assim que chegou a Tomar, João de Castilho procurou mestre Álvaro Rodrigues para conhecer o estado das obras que fora incumbido de finalizar, ainda antes de conhecer os alojamentos que lhe tinham sido atribuídos. Encarregou um dos homens da sua companha de tratar dessa parte logística. A viagem a cavalo fora cansativa, mas assim que avistou o volume do castelo foi tomado de grande curiosidade, dado o que já tinha ouvido dizer sobre o complexo religioso que crescia naquela envolvência militar. Foi encontrar mestre Álvaro a supervisionar os trabalhos no estaleiro da pedra, envolvido no ruído cadenciado dos martelos sobre os escopros. Este guiou-o pelos meandros da obra arquitectónica em execução: – Era aqui que mestre Diogo de Arruda achava que devia ficar o portal da igreja, mas, como sabeis, ele foi chamado, há uns meses, para uma campanha de obras em Safim e outras praças em Marrocos, e vós fareis como entenderdes, ou as ordens que tiverdes – explicava mestre Álva-

ro, avançando depois até aos andaimes instalados na charola. – Vede as magníficas pinturas da companha de mestre Jorge Afonso – continuava o guia. – Esta parte está quase acabada; só falta alguma estatuária que está a ser talhada pelo vosso compatriota mestre Fernão Muñoz – não sei se conheceis. João de Castilho passava os olhos pela enorme imaginária pintada e pelas inúmeras estátuas que polvilhavam o antigo oratório profusamente decorado, mas o seu assombro vinhalhe da inusitada planta da capela-mor. – Que extraordinário desenho, mas é anterior a mestre Diogo, não? – Sim, esta parte foi construída pelos primitivos cavaleiros Templários, há mais de três séculos, inspirando-se no presumível templo de Salomão, que alguns viram em Jerusalém. Então, o templo era só este espaço poligonal de dezasseis lados, sustentado por estas oito colunas centrais. Entretanto, o espólio dos Templários passou para a ordem de Cristo de que é Mestre o nosso senhor D.

Manuel. Mestre Diogo foi incumbido de o rasgar a Ocidente para acrescentar uma nave, como vedes, e esta parte é agora “apenas” a abside. A seguir, visitaram a nova sacristia de planta quadrada dupla, que João de Castilho devia abobadar. Mestre Álvaro deixou a maior surpresa para o fim. Quando se postaram frente à janela da sacristia, no local onde viria a ser implantado o claustro de santa Bárbara, o novo arquitecto parou um momento, depois sentou-se numa das pedras da obra e quedou-se a contemplar e a tentar compreender os inúmeros ornamentos que a envolviam num emaranhado pétreo. – Que dizeis? – saboreava o cicerone. Mestre João nada dizia. – Esta é a parte em que mestre Diogo mais se transcendeu – continuou Álvaro Rodrigues. – Todos estes motivos marítimos e vegetalistas são de tais criatividade e beleza que, acredito, farão que se fale por muitos anos do seu arquitecto e do rei que os encomendou. – Entendo todas estas

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cruzes de Cristo – disse finalmente o novo arquitecto – afinal este é um convento da Ordem, mas por que todas aquelas esferas armilares?

sil, essa fatia tão grande que ainda não se lhe viu o fim. Há quase vinte anos, em Tordesilhas, D. João II soube negociar. Mas, a riqueza está a Oriente. – Esqueço-me que estais Quase que chega aqui o em Portugal há pouco tem- cheiro da pimenta. D. Manuel está exultante. E rico. po – reflectiu o mestre que Por isso lança tantas obras. tinha ficado a tomar conta Chamam-lhe o venturoso – das obras até à chegada do tudo lhe corre bem. Há duas novo dirigente. – A esfera décadas não suspeitava que enfaixada pelos círculos principais é um símbolo ge- pudesse vir a ser rei – era o nono na linha de sucessão. ográfico da bola do mundo Caprichosamente, morree um dos emblemas do rei. ram sete desses candidatos. Esse e o escudo real são reproduzidos exaustivamen- D. Manuel é aclamado rei, te em todas as obras de arte, sem esperar. No início do seu reinado, é descoberta a quer de cantaria, pintura, iluminura ou mesmo estatu- passagem a sul para a Índia. ária. Os Portugueses andam E o Brasil. Sente-se predespelas sete partidas do mun- tinado. Vê no próprio nome – Emanuel, que em hebraido, de tal jeito e proveito co significa Deus connosco que D. Manuel se intitula – uma indicação profética. “Pela graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, A esfera já fazia parte da bandeira da família. Sphera d’aquém e d’além-mar em Mundi tem sido transcriÁfrica, senhor da Guiné e to em muitos documentos da conquista da navegação e comércio da Etiópia, Ará- como Spera Mundi, isto bia, Pérsia e Índia”. As esfe- é, a Esperança do Mundo. Quem sabe se não será ele ras estão lá para lembrar, o Messias que, unindo-se em imagem, esse estatuto ao rei cristão da Etiópia – o de rei do mundo. Preste João – inverterá o – Bem, Espanha começa progresso muçulmano no a avançar por toda a Amérimundo, reconquistando ca – racionalizava João. Jerusalém e derrotando os – E Portugal, pelo BraMamelucos do Egipto!

– Dizeis que há um esforço intencional de distorcer alguns símbolos de modo a servirem um determinado interesse real? – O que tem sido ventura para D. Manuel também tem aspectos problemáticos. O certo é que a nobreza habituou-se a vê-lo como “apenas” o Duque de Beja, e não como El-rei. D. Manuel precisa de algumas ajudas de legitimação, por isso alguma desta retórica imagética, que vale mais que muitas proclamações. Toda a obra de aparato é um manifesto da grandiosidade do rei e do estado. Se, além disso, o rei for mostrado em figura, ou em símbolo, em circunstâncias nobilitantes, maior grandeza adquire aos olhos dos súbditos e dos outros soberanos. Ele ainda alimenta a esperança de vir a ser, também, rei das Espanhas. E, ouvi dizer que se prepara uma embaixada ao Papa que leva um elefante indiano, dois leopardos e outros animais exóticos. – Noto que toda a ornamentação vegetalista como que nasce de robustas raízes que saem das costas de um homem ali na base do pano de parede…

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– O velho é Jessé – o pai mítico do rei David – disseme mestre Diogo. Segundo S. Mateus, essa genealogia desemboca em Cristo, após vinte e oito gerações. Aqui, vê-se que do seu dorso nascem vergônteas que após várias circunvoluções desabrocham em esferas armilares, escudos reais e cruzes de Cristo. Não se pode ser mais incisivo na afirmação de predestinação, ainda por cima apoiada na Bíblia.

se, assim, o rei fundador da nação portuguesa, com o imperador “fundador” do cristianismo, na pessoa de Emanuel das profecias, que é a cabeça da ordem de Cristo, Cristo que virá a ser o senhor do mundo. Ele pretende ser visto como a junção do poder espiritual e do poder temporal, uma sobreposição de César e Salomão. E Esperança do Mundo. Vários pintores o têm inserido em cenas religiosas, como a Adoração – Realmente! dos Magos, sendo El-rei – D. Manuel tem também representado como um dos realçado e feito representar reis magos vindos do Orieno milagre de Ourique em te. E, na verdade, ele é um que o nosso rei fundador importante rei, cujo poder teve uma visão da cruz de assenta, antes de mais, no Cristo, onde se lia Com este Oriente. signo vencerás – o mesJoão de Castilho e Álmo que viu Constantino, o imperador romano que lega- varo Rodrigues, mestres lizou o Cristianismo. Liga- arquitectos, continuaram a

conversar sobre a singular figura do rei a quem serviam, e sobre as extraordinárias referências cruzadas que o identificavam. Não era difícil imaginá-lo com uma aura de Messias. Todas estas informações eram muito inspiradoras para o novo arquitecto, gerando ideias de exaltação arquitectónica. Se D. Manuel queria ser o bastião da cristandade e o seu modelo, poria o seu engenho ao serviço dessa aspiração para fazer deste convento um digno templo de Salomão no Ocidente!

O lugar onde

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Contos

imaGEm dE Barro
Wellington Souza

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Nossas temperaturas estão a um bom tempo equilibradas e altas, o calor incomoda ainda mais quando se divide cama de solteiro. Estou de costas e me chego ainda mais em seu corpo, quero mais calor. Paradoxos. E, para sentir a respiração leve do seu metabolismo desacelerado, enrolo meus cabelos e coloco-os de lado, pousando a cabeça em cima. Então vou afastando-a até sentir que o seu nariz afogou-se em mim, que meu perfume impregna o escritório, a academia, o avião ou qualquer lugar onde esteja. Que acorde e diga que sonhou comigo. Não sei bem se o amo, se esse querer-bem é o objeto cantado tantas vezes. Mas me protege e me dá orgasmos (no plural mesmo). Talvez me sinta acomodada, numa “zona de conforto”, como diriam os profissionais de recursos humanos. Só não sinto nosso relacionamento seguro, acho que relacionamentos não são seguros, não são isentos das incertezas quanto ao futuro – somos homens-econômicos: pensamos em termos de risco-retorno. Dado o risco assumido de parar de sair com outros caras - mas não por respeito à virilidade, sim à feminilidade – o retorno está condizente com o encontrado no mercado. Tento ficar quietinha, respirar o mais suave possível para não ser descoberta em vigília.

Pena não conseguir dormir em camas estranhas à minha. Nunca me acostumei a outras e não descubro o porquê. Não me esforço muito também, talvez Deus tenha me feito assim, intuitivo que é; talvez tenha em meu subconsciente algum bloqueio que me impeça de suspender o alerta e a atividade sensorial em habitats excêntricos. Disseram-me que pode ser pela mudança do ambiente ao redor. Nunca fui boa investigadora, deixo as respostas quietas após poucas tentativas frustradas ou incertas. Desisto e levanto. Calço uns chinelos que ficam grandes e vou arrastandoos até a escrivaninha onde acredito estar a minha calcinha. Visto-a. Apanho uma lapiseira e uma folha A4 na impressora, escolho um livro de capa dura na prateleira e vou sentar-me na varanda. Na cidade todos dormem – ou fingem – tanto faz. Não há o que escrever. O livro é de Administração de Marketing. Não sei também se ele me ama, nunca ouvi nada parecido, nem na cama. Mas isso pouco importa de tão importante que é. Melhor não pensar. Nem nos conhecemos. O pior não é nunca ter escutado palavras como paixão ou amor, o pior é não fazer parte dos planos. A questão não é nem não fazer parte dos planos, também não quero me casar, assim; acho que é não compartilhar os planos.

Não vou me fazer de culpada por não inflamá-lo – não posso, em consideração a mim mesma – mas gostaria de saber dos seus anseios, suas aspirações. Dos medos já seria demasiado: homens são herméticos e nem eles os conhecem. Talvez este seja um subterfúgio para construírem e irem além. Olhos fechados e passo firme. Difícil. Vem a inspiração. Checo se o grafite está OK. “Há um cofre e não há o segredo./ O cofre está fechado./ Talvez os séculos com suas armas corrosivas o abra/ talvez.”. Está esfriando e logo estará na hora de acordar. Tivesse agora, fumaria meu primeiro cigarro. Ninguém sorri enquanto fuma, me disseram. Não quero sorrir. Acho que só deveríamos sorrir ante a morte, pois ai é certo que não haverá mais futuro para se chegar. É um erro sorrir enquanto se luta. Não tenho nada, porque o que conquisto jogo fora para ir atrás de mais, senão morro. E o cigarro me parece uma parada técnica. Meu pai fumava e quando discutia com a minha mãe sempre despistava para um cigarro na varanda. Quando voltava, estava mais sereno e a mulher logo acalmava também. Na verdade queria pensar assim e fumar, mas acho as duas coisas muito másculas. Queria ser uma mulher dedicada e fiel, mas também não ser essa. Tentarei fumar, mas só em

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festas para os outros verem que eu sou forte também. Já estamos enjoando um do outro, acho. O nosso elo mais forte é na cama, talvez o único. Antes nos víamos quase todos os dias, nem que fosse apenas para dar uns beijinhos no cinema ou em mesas de fundo no bar. Agora fodemos nos fins de semana e ele nem me liga todos os dias. Está decaindo ao sexo banal, ou casual, como dizem. Necessidades fisiológicas de ambos supridas, cada um em sua solidão. Acho que já posso começar a procurar outro ou fazê-lo acreditar nisto. “Gostaria que, ao tocá-lo/ ele se abrisse/ (como se a senha estivesse em algum buraco de mim)/ só para desmistificá-lo/ ver que não há nada insólito/ que induz à idolatria./Igual/ mas não reciclável.”. Há tempos não via o dia germinar; o negro está ficando azul-marinho. Está também cada vez mais frio. Entro, fecho a porta de vidro e me sento próxima à varanda com a persiana aberta, numa poltrona de antiquário. Nem temos mais muito assunto. Filmes: só vemos os recreativos de Hollywood que não dão muito o que comentar. Músicas: temos gostos totalmente opostos, não somos ecléticos e tampouco queremos dar o braço a torcer na questão. Conversas banais sobre cotidiano e vida alheia logo me deixam enfadada. Queria que ele me explicasse suas empre-

sas, motores de automóveis, futebol que seja. Queria que me aplicasse testes para ver se sirvo para sempre. Agora está azul-turquesa e os pássaros começam a lavrar o café-da-manhã. Qual será a diferença entre ave e pássaro? Logo ele acordará. Deixa a persiana aberta, gosta que a luz do dia seja seu despertador natural. Criativo. “//O que preciso é que esteja ao meu alcance/ como um brilhante/ para eu ditar a hora de usá-lo/ e de negá-lo.” Acredito que terminei este poema. Já está ficando azul-azul. As nuvens, de invisíveis, foram pintadas dum laranja que fosforesceu, mas já estão descorando. Acho que vou me deitar. Destaco a parte escrita da folha, amasso a não-escrita e tento fazer uma “cesta” na lata de lixo, mas erro. Levanto e vou arrastando o chinelo em direção da cama. No caminho coloco o poema na bolsa e displicentemente o livro e a lapiseira na escrivaninha. Admiro, ainda em pé, suas pálpebras trêmulas: certamente, em sonho, me perdeu e isso o aflige. Sento-me na cama devagar e deito tentando imitar uma pluma. Ele dorme de lado e um pouco encolhido, tento encaixar meu corpo ao seu. Conchinha. Novamente enrolo meu cabelo e faço dele travesseiro. Deixo a região da clavícula e cervical nua, sei que ao acordar ele irá atacá-la como

um anti-vampiro que dá vida ao despertar sensações diversas nas vítimas. Dissolveram a aquarela azul e agora está aguado e límpido. Os pássaros já quietaram e as nuvens estão brancas. Acho que as coisas voltaram ao normal após a turbulência que o rompimento de madrugada causa. Inclusive eu. Roço minha bunda em seu púbis em intervalos desritmados, se ele acordar um pouco mais cedo e se deparar com meu corpo livre, quererá. Não tenho porque terminar esse relacionamento, afinal de contas temos o que precisamos um do outro. Não sei se me portaria bem como cúmplice, talvez não seja este o porquê de estarmos. Estamos mais para um ser válvula de escape do outro, mas não no sentido portuário (de porto seguro), tange ao circense: algo sem itinerário ou contratos. A tradução literal de boyfriend e girlfriend talvez seja a que melhor nos defina. Ele está acordando, melhor parar agora o registro mental de minhas ações. Os verbos passarão a ser conjugados todos em voz passiva e quero manter minha postura de mulher moderna. Acho. Toma minha barriga com o braço e traz para si. Ataca meu pescoço e vou esquivando-me para frente ante suas investidas. Mas neste movimento nossas partes inferiores se friccionam e ele já se faz sentir.

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Ocorreu-me o título: ídolo de barro. Espero que me faça esquecê-lo. ________________________________________ Ídolo de Barro Há um cofre e não há o segredo. O cofre está fechado. Talvez os séculos com suas armas corrosivas o abra, talvez. Gostaria que, ao tocá-lo ele se abrisse (como se a senha estivesse em algum buraco de mim) só para desmistificá-lo: ver que não há nada insólito que induz a idolatria. Igual mas não reciclável. O que preciso é que esteja ao meu alcance como um brilhante para ditar a hora de usá-lo e de negá-lo.

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Contos

o troféu
Volmar Camargo Junior

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SAMIZDAT novembro de 2009 outubro de 2009

Era manhã nevoenta do mês de Pawqar Huaraq, anunciando o início do outono e a proximidade do Festival do Ramo de Flores. Os despojos da batalha cobriam a planície. Diante do campo de soldados abatidos estavam os muros da última cidade do povo que chamava a si mesmo unancha. Os guerreiros vitoriosos do exército do Tahuantinsuyo levantaram-se para glorificar Inti, o Deus-Sol, pelo sucesso no embate. Na Terra, o homem que os comandara com presteza na investida rápida e brutal – o jovem sinchi Huamán Acachi – preparava-se para concluir o que havia começado na noite anterior. A população resumiu-se a um pequeno grupo, mulheres e homens ou muito velhos, ou jovens demais. Assim que os raios do Sol transpuseram os muros, os vencidos, armados com aquilo de que dispunham, estacaram entre o general e seu objetivo. Atrás deles estava a entrada da huaca – o majestoso mausoléu de seus antepassados. Todos sabiam que, mesmo derrotado o inimigo, conquistado seu território e dominado o povo, faltava ao Imperador Inca ainda um troféu. Não haveria mais mortes. A vila estava tomada, e sangue desnecessário não era do agrado de Inti. Em pouco tempo, aquele seria o lar para uma boa família cusquenha. O líder guerreiro caminhou decidido de

encontro ao povo, secundado por numeroso batalhão. Era um bom militar, mas não teria chegado à posição de comando apenas pela excelência em manusear armas. Sua notoriedade deviase à perspicácia e ao talento para a diplomacia. Enquanto caminhava, procurou recordar tudo o que sabia a respeito daquelas gentes. Eram herdeiros distantes do sangue e da cultura Nazca, extinta antes mesmo de Manco Capác emergir das águas do Lago Titicaca. Não eram grandes combatentes, mas sempre souberam defender-se. Isso, para Huamán Acachi era o ponto mais importante: o comando da cidade não era do guerreiro, mas do sacerdote. Entre aquelas pessoas amedrontadas, não foi difícil identificar uma tão singular. A surpresa, para ele, foi concluir que o lugar do curaca, o líder político e religioso da aldeia, era de uma mulher. A sacerdotisa tinha a cabeça e as mãos adornadas com objetos de prata. Trazia ao peito um colar feito de minúsculas conchas marinhas, donde pendia a insígnia representando o que, para ele, era o primitivo Deus-Jaguar. Era uma matrona forte, habituada igualmente ao serviço campesino como aos ofícios de curandeira, parteira, adivinha e conselheira. Sozinha, ofereceria resistência ao imponente sinchi se este resolvesse entrar sem ajuda.

Contudo, não aparentava ser hostil ao invasor. Andando até distância favorável, Huamán ordenou que seus homens parassem. Ampla praça separava os dois grupos. Sem precisar qualquer aviso, ambos os líderes caminharam um na direção do outro. O militar inca começa a falar. — Há mais a ganhar que a perder recebendo aqui o Tahuantinsuyo. É uma boa cidade. Não há com o que se preocupar, desde que as coisas sejam mantidas em ordem como sempre foi feito, sacerdotisa. — E, em troca, o que deseja o Filho do Deus-Sol? — O Imperador exige aquele que jaz no interior da huaca. Será a prova de que os unancha são submissos a Ele. — Que será de nós se nos opusermos? — Serão todos levados a Cusco, como escravos. Os homens serão submetidos ao trabalho, e as mulheres à prostituição. As crianças serão educadas em ayllu honrados para servir ao Imperador. — Não temos escolha, então? — Não, sacerdotisa. É a vontade do Tupac Inca Yupanki. A mulher silenciou por um instante. Seu olhar percorreu os rostos apreensivos, sobretudo dos anciãos.

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A eles, devolve a cumplicidade do sentimento. Calados, lentamente os vencidos abrem caminho até a abertura negra da pirâmide de pedra e adobe. Sem olhar para o combatente, diz: — Pode vir agora, general. Mas terá de vir sozinho. Com a cabeça, Huamán sinaliza, certificando-se de que seu imediato estaria de prontidão a qualquer sinal de perigo. Sob a observação pesada dos moradores, o jovem comandante toma um archote da mão de um menino e adentra no negrume da tumba. A passagem era estreita e tão escura que, mesmo com o archote aceso, era impossível ver mais que o globo de luz e a mão que o segurava. O ar tornava-se rarefeito à medida que desciam. A luz começou a diminuir até, sem razão aparente, extinguir-se por completo. Huamán abriu a boca para falar quando tudo ficou iluminado. Não estavam mais no corredor apertado, mas em uma cripta em formato circular, muito ampla, tanto nas laterais quanto para o alto. Espantou-se ao perceber a estranheza do lugar. No alto do teto havia um orifício por onde entrava a claridade. As paredes eram ocupadas por formas humanas postas em pé: eram múmias, inúmeras, antigas, dispostas como se os estivessem observando. O chão da cripta foi construído como o bojo de uma tigela,

e era coberto inteiramente por placas prateadas, em uma suntuosidade digna de um soberano. Observando melhor, achou o chão mais semelhante a um escudo convexo. Ao centro, no ponto mais elevado, havia um trono. Para lá se dirigiu o comandante. Esperando para tomar o troféu do Imperador e prontamente voltar para o centro da civilização, Huamán teve um choque ao chegar ao pé do trono. Aquele que, no seu entender, deveria ser uma múmia, estava vivo. O pavor e a descrença dominaram-no assim que pôs os olhos na criatura. Não conseguia, contudo, desviar o rosto, tentando em vão associar aquilo a qualquer coisa que conhecesse. O ser moveu em sua direção um braço cuja extremidade não tinha dedos. O general recuou, andando de costas. O ocupante do trono levantou-se. O corpo, delgado como o de uma serpente, não tinha pernas, mas em seu lugar, um único tentáculo como a cauda de um lagarto. Os braços, longos e finíssimos, alcançavam o chão. A cabeça era grande, muito maior que a de um homem. Os olhos negros, oblongos como os de um felino, eram absurdamente grandes. O sinchi, transtornado, gritou. Huamán sentiu-se invadido por sensações nunca experimentadas. O chão espelhado da cripta envolvia-os em uma luz fan-

tasmagórica. Quando não conseguia ver mais que a silhueta da criatura, sentiu a presença da sacerdotisa, de quem havia esquecido completamente. O golpe rápido e preciso de uma lâmina em suas costas não lhe deu tempo para reagir. Paralisado, caiu de joelhos diante do ser extravagante, forçado pela dor e por uma fraqueza repentina. Abriu os olhos, estava rente ao chão vermelho vivo. No reflexo sangrento, o guerreiro viu seu próprio rosto. Ia desmaiar. De gatas, imóvel, trêmulo, sentiu tentáculos gelados caminhando por seu dorso em direção ao corte aberto. Num ímpeto, ele urrou com ferocidade e arremessou o corpo para cima, ficando novamente em pé. Com o movimento brusco, conseguiu desequilibrar a mulher, que acabou derrubando a lâmina que segurava. O guerreiro saltou em direção à adaga. No chão, tomou-a, e com uma estocada precisa atinge o coração da sacerdotisa. Levantando-se, procurando forças para ignorar a dor, lançou-se contra o monstro, atravessando o espaço entre eles com tanta rapidez e fúria que o golpe trespassou o corpo delicado da criatura. Um jorro de sangue escuro banhou-lhe as mãos e o rosto. O ser grotesco caiu pesadamente no soalho metálico. Ainda tomado por selvageria desconhecida, o sinchi começou a desferir golpes com ambos os punhos contra o crânio do

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oponente, e não parou antes de fazer do rosto da criatura uma massa deformada de sangue, pele e ossos. Sem olhar para trás, o conquistador inca apressouse na direção do corredor escuro. A distância tornouse quase infinita pela angústia em afastar-se daquela tumba. Outra vez vê a luz, não a luminosidade morta de espelhos prateados, mas a quente e acolhedora do Sol. Porém, o cenário externo não era menos aterrador. A luta eclodiu entre os inca e os unancha. Fora este ou não o plano da sacerdotisa, a demora dos dois no interior da pirâmide pode ter alterado os ânimos de inimigos que estavam tão próximos e sem uma liderança que impedisse o confronto. O resultado foi o que se pode imaginar: os soldados do Tahuantinsuyo defenderam-se até o limite de seu bom senso, mas rapidamente, passaram a agressores e terminaram com a revolta do modo mais eficaz. Não restou nenhum rebelde vivo. Chegou a noite do primeiro dia do outono. O sinchi Huamán Acachi ordenou que os muros, as casas, a pirâmide, os cadáveres, tudo naquela cidade fosse destruído. Sua intenção era não deixar em pé uma só pedra que tivesse sido movida por aquele povo. Depois daquela noite, ninguém jamais soube que eles existiram.

Vocabulário Pawqar Waraq – quarto mês do ano (o primeiro equivale ao mês de dezembro). É a entrada do outono. Unancha – termo no idioma aymara para “escudo”. Os unancha (se tivessem existido) falariam um dialeto de tal idioma. Tahuantinsuyo – O Império Inca. Em quíchua: “Os quatro cantos do mundo”. Inti – O Deus-Sol, principal divindade do panteão Inca. Sinchi – Líder guerreiro. Huamán Acachi – Personagem histórico que existiu realmente, parente (irmão) de Tupac Yupanqui. A palavra huamán em quíchua significa falcão. Huaca – local de devoção dos povos andinos. Inca – Dispensa apresentações. Cusco (Cusquenha) – Capital do Tahuantinsuyo. Nazca – Cultura préincaica, localizada ao sul do território peruano atual, cujo apogeu foi por volta

de 500 d.C. Manco Cápac – O primeiro rei da cidade de Cusco, segundo o mito, de origem divina (Filho de Inti, o Deus-Sol). Curaca - chefes dos clãs ligados ao Império. Um equivalente é cacique. Jaguar (deus-) – uma divindade zoomórfica, tendo equivalentes em muitas culturas andinas. Ayllu – equivalente a clã. Tupac Inca Yupanki – o 11º Imperador Inca (1461 a 1493).

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Contos

O Sorteio
Henry Alfred Bugalho

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Parabéns, Sra. Maria de Lourdes Ribeiro, você foi uma das ganhadoras da promoção “Margarina Sorriso® me leva para um cruzeiro”. Em breve, você receberá as passagens e as instruções sobre como proceder. Com a carta chacoalhando entre os dedos, Maria de Lourdes ria, chorava, dava saltinhos de emoção. — O que é essa gritaria aí no corredor? A síndica perguntou, braços cruzados, enquanto descia a escada. — Eu ganhei, Dona Firmina, vou fazer um cruzeiro pro Caribe! Maria de Lourdes respondeu com os olhos marejados. Este havia sido um dos sonhos de sua vida. Desde que havia se casado, isto aos dezesseis anos, foram poucas as vezes que ela havia deixado a cidade. O marido era um homem muito ocupado; nas férias, o destino era o litoral. Uma vez, estiveram em São Paulo, para o enterro do cunhado, outra, no Rio de Janeiro, para o réveillon, e só. O marido se aposentou e, um ano depois, morreu de ataque cardíaco. A pensãozinha não deixava faltar nada, mas também não permitia luxos. Boa parte se esvaía na farmácia com os caríssimos remé-

dios para pressão alta que Maria de Lourdes tinha de tomar, esta era a verdade. Mas jamais sobraria um tostão para as viagens dos sonhos — ir para a Europa ou um cruzeiro pelas Bahamas. Então surgiu aquela promoção. Maria de Lourdes recortou os códigos de barras duma centena de potes de margarina e arriscou a sorte. Mas não contava muito com isto, nos bingos com as amigas, só tinha prejuízo, enquanto algumas delas já haviam abocanhado alguns milhares de reais. Aquela carta era o sinal duma mudança, um marco, pela primeira vez, Maria de Lourdes ganhava algo. Seu coração palpitava. — Filha, estou indo para o Caribe, ela disse ao telefone. — Que legal, mãe! Quando será isto? — Ainda não sei, mas acho que em breve. Posso levar uma acompanhante. — Já pensou em alguém? A filha perguntou. — Na minha filhota, é claro! Maria de Lourdes respondeu. — Ih, mãe, as coisas estão corridas lá na empresa. Acho que não vou poder tirar férias pelos próximos seis meses. Mas, mesmo assim, a fi-

lha ajudou Maria de Lourdes com os preparativos. Compraram uma mala enorme e alguns vestidos de veraneio. — Vai que você conhece um velhão milionário, a filha dizia. — Que isto! Seu pai é o único, Maria de Lourdes retrucava, com um sorrisinho acanhado. Isto não impediu que Maria tingisse os cabelos dum ruivo fogoso e passasse uma tarde num spa. — Um pouco fora do orçamento, mas uma extravagância, nesta ocasião, não vai fazer mal, ela dizia para si. Toda manhã, Maria de Lourdes acordava cedo e se sentava à janela, espreitando a chegada do carteiro. Assim que o via contornando a esquina, ela vestia o penhoar e corria para baixo. — Bom dia, Seu Vieira... — os olhinhos ansiosos o fitavam. — Sinto muito, Dona Maria. Não tem nada pra senhora. — Não tem problema, ela mentia, para depois retornar a seu apartamento e continuar os preparativos, selecionando as calçolas mais novas, decidindo quais sapatos levar, maquilando-se diante do espelho e treinando alguns passos

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de valsa para dançar no salão do transatlântico. Dentre as amigas, já havia convidado meia dúzia como acompanhante, aliás tal convite havia se tornado fonte de ameaças — a qualquer contrariedade ou pequeno desentendimento, Maria de Lourdes se exaltava: “olha que não vou levar você comigo!”; Algumas das amigas começaram a especular, quando dois meses haviam passado e nada das passagens terem chegado, que este sorteio não era nada mais que um delírio de Maria de Lourdes, talvez os primeiros sinais de insanidade. — Este concurso não existe! Uma delas a desafiou, numa destas discussões. — Existe sim! Maria de Lourdes se defendeu, arrancando a carta do bolso, já amassada e esfarelada, e a sacudiu diante do olhar invejoso da amiga. — Mas já são dois meses, Maria! Acho que eles se esqueceram de você. No entanto, Maria de Lourdes nem cogitava esta possibilidade. “Os trâmites são mesmo lentos para este tipo de coisas”, ela se reconfortava. Na mala, mal cabia um fio de cabelo e ela precisou da ajuda dum vizinho para conseguir fechá-la. Nos próximos dias, com certeza, as pas-

sagens chegariam, então seria um “cala a boca” para as amigas, Maria de Lourdes torcia. Os meses se sucederam e nada. Maria de Lourdes mal saía de casa, com medo de que o carteiro viesse e não a encontrasse, não comia por causa da ansiedade, não conseguia dormir; imaginava-se no convés, vendo o risco do horizonte adiante engolindo um sol vermelho, a brisa do mar roçando seus cabelos — “preciso retocar a tintura”, ela pensava, pois o branco novamente já aparecia — e o balanço constante e nauseante do barco. — Amanhã, amanhã, ela resmungava, lutando para conseguir adormecer, roendo as unhas, rangendo os dentes, chorando de raiva. Numa tarde de segunda, a síndica e dois homens invadiram o apartamento de Maria de Lourdes. Ela estava caída na sala, magérrima, desacordada, encharcada na própria urina. Após um fim-de-semana sem conseguir falar com a mãe, a filha de Maria de Lourdes ligou para a síndica e para uma clínica de repouso. Internaria sua mãe, antes que ela morresse sozinha naquele aparta-

mento. Na ambulância, Maria de Lourdes recobrou a consciência. — Não, eu preciso voltar para casa! O carteiro vai trazer minhas passagens para um cruzeiro! Vou para o Caribe... Levem-me de volta... Levem-me de volta... Realmente, o carteiro surgiu na manhã seguinte e depositou uma carta na caixa de correio de Maria de Lourdes. Sra. Maria de Lourdes Ribeiro, Gostaríamos de nos escusar, por meio desta, por um equívoco ocorrido em nossos bancos de dados. Seu nome erroneamente foi apontado como um dos sorteados para a promoção “Margarina Sorriso® me leva para um cruzeiro”. Como forma de compensação, enviaremos para seu endereço uma caixa com nossos produtos, incluindo o lançamento Margarina Sorriso sabor queijo cheddar. Esperamos que nos desculpe por tal equívoco.

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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ficina
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Contos

relações Postais
José Guilherme Vereza

Finalmente a dor da saudade me acena com tréguas e cá estou eu, como diria nosso avô, “de pena em punho a lutar com as palavras”. Não contra elas, espero, mas fazendo-as cúmplices de francos sentimentos. E que sentimentos, irmão! Dói saber o quanto estamos distantes e que esta distância não é nada breve, já que me vejo incapaz de enxergar nas lonjuras da estrada a menor possibilidade de voltar a encontrá-los tão cedo. O que nos resta – eu conjugo nós, pois presumo que nossos afetos estejam atados a laços sanguíneos – é o abrigo das cartas. Arlete vai passando bem melhor, refeita do impacto da mudança do clima, que lhe produziu algumas alterações nos brônquios e aflições a encharcar

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Prezado Gastão

meus pijamas. As meninas Dirce e Luzia não sofreram tanto com a mudança, só a menorzinha estranhou um pouco o mofo da casa e amanheceu na primeira semana com uma branda alergia atrás da orelha, o que foi logo diagnosticado pelo farmacêutico como um eczema tolo. Prescreveu-nos a calêndula de sempre e tudo voltou ao normal. As obras da casa estão aceleradas e meu gabinete está quase pronto, faltando apenas uma escrivaninha onde eu poderei, além da contabilidade comezinha, dedicar-me às nossas missivas. Outro dia aconteceu algo que muito nos emocionou. Arlete preparou uma inolvidável galinha ao forno para o jantar, acompanhada de bolinhos de polenta e chicória. Ao repartir o assado, Arlete e eu percebe-

mos as meninas inquietas em pleno momento da refeição, desrespeitando com risinhos o silencia da mesa, o que me fez lançar a elas um olhar de censura e desaprovação. Dircinha olhou para mim e desculpou-se. Luzia, mas espevitada, revelou então o motivo de tanta graça, dizendo que sem a presença do tio Gastão, tia Branca e os meninos, finalmente, elas não precisavam brigar pela moela. Arlete e eu trocamos olhares e sorrisos. Percebemos nas meninas que a força da convivência de nossas famílias deixou marcas em todos nós. Apesar de agora haver mais moela e menos comensais, sentimos vossa falta. E assim vamos cozinhando a vida e eu, particularmente, ainda me flagro a remexer nas entranhas os motivos que nos levaram a esta separação.

As perspectivas profissionais aqui são razoáveis, mas não o bastante para me convencer de que foi o trabalho que nos empurrou um para fora do outro. Penso no passamento da nossa mãe. Talvez a sua presença conciliadora fosse responsável pela harmonia entre nossas famílias e o medo de que não pudéssemos nos suportar sem ela nos levou a prevenir antes de remediar. Embora pouco afeita a reflexões. Arlete defende esta tese. Diz ela que sem o carisma de Dona Lucrecia, eu e você voltaríamos aos tempos da infância, quando odiávamos um ao outro e nos ensangüentávamos sem o menor motivo. Acho difícil. Não somos os traquinas de outrora, mas há que se respeitar o sexto sentido e a perspicácia silenciosa das mulheres. É possível que ela esteja com a razão. Se desavenças houve entre nós ao longo desses anos todas, com certeza, ficaram contidas. E contidas, foram dissipadas, pelo menos dentro de mim. Já é tarde. Amanhã cedo o trabalho me espera. Recomendações a todos. Aguardamos o carteiro com ansiedade. Plínio ****

irmão Plínio
Registramos a chegada da tua carta com muita alegria. Branca fez questão de ler em voz alta para os meninos e por obra e graça do destino, a oratória aconteceu em pleno almoço, enquanto eu desossava uma galinha, que se exibia dourada e fumegante entre batatas coradas e tiras de cebolas. Todos rimos até o momento em que sua carta referia-se ao passamento de mamãe e as conjecturas de

Arlete. Branca disfarçou e não prosseguiu, prevenindose de incômodas questiúnculas de Rodolfo, que por sinal, está cada vez mais travesso, useiro e vezeiro em nos proporcionar situações constrangedoras.Veja você, dias passados, Branca recebeu para um chá Dona Carmita e sua filha Angélica, cujo próprio nome traduz a pureza e a inocência de seus 12 anos. Pois não é que o menino Rodolfo surgiu à sala e depois de fitar a donzela da cabeça aos pés, perguntoulhe em alto e bom som se já lhe haviam sido criados pelinhos no púbis?Branca hesitou em atirar-lhe uma xícara de chá quente, mas preferiu fazer ouvidos de mercador, evitando acalorar a circunstância. Dona Carmita, educadamente, mordeu um biscoitinho de araruta e de imediato comentou a qualidade da confeiteira. Da menina Angélica não se ouviu um pio, talvez por timidez, talvez por polidez, talvez por perplexidade, talvez por absoluto desconhecimento da matéria. Rodolfo deixou mansamente a sala, sem a curiosidade satisfeita, sem direito a biscoito. Ao cair da noite, o velho cinturão de nosso pai foi posto em prática. Voltando à cordial missiva, não gostaria de prosseguir com reflexões sobre a nossa convivência, ou como você bem disse, possíveis e contidas desavenças. É prudente colocarmos um ponto final neste enredo antes mesmo de iniciar o parágrafo. Falemos pois do cotidiano. A vida urgente da cidade nos poupa de sofrer a vossa falta. Cada um ao seu modo, encontrou o antídoto contra a saudade do vozerio das meninas, dos modos doces

de Arlete e dos 100 quilos de “bonacheirice e rabugice” do tio Gastão, como definem os meninos tua alternada personalidade. Branca entrou para a Pastoral das Viúvas da Igreja de São Caetano. Organiza quermesses e saraus beneficentes, onde recolhem alguns donativos, poucos tostões e muito que fazer. Rodolfo aproximou-se dos novos vizinhos, filhos do Dr. Marraquino, respeitado clínico geral, que gasta horas e horas com quem aparece na sua frente a discorrer sobre práticas medicinais, farmacologia e anatomia humana, o que deixa nosso primogênito particularmente atento, haja visto, seu desenfreado interesse pela puberdade da menina Angélica. Rômulo, muito pequeno, ainda não se deu conta da separação. Fica horas e horas a espreitar na varanda a impossível chegada das meninas da escola. Por mais que digamos que elas foram morar longe e que não surgirão tão cedo na esquina da nossa rua, ele insiste em não se conformar. Com o olhar distante, ele pergunta onde é “longe” e quando é “tão cedo”. Aqui ficamos por enquanto, em companhia do vazio da casa e da certeza de que tudo que aconteceu foi o melhor para nós. Recomendações a todos. Gastão ****

Gastão
É com imensa alegria que percebo sensível melhoria no serviço dos carteiros, pois, veja, tua carta não tardou mais de três semanas para chegar às minhas mãos, a partir da data em que foi entregue aos Correios. O que me espantou foi a discrepância entre a data do carimbo

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no selo e a data em que me escreveste, conforme acusa tua própria letra no cabeçalho. Uma semana, Gastão! Uma semana para me enviar uma carta já escrita! Não me parece uma atitude delicada, muito menos compatível com doces palavras contidas nas tuas linhas e entrelinhas. Em todo caso, fica o registro da minha estranheza com a mesma intensidade da minha esperança de que esta falta de cuidado não seja o prenúncio de atritos entre nós. Não falemos mais nisso, pois. O menino Rodolfo é mesmo de amargar. Apesar de sua curiosidade pelas atividades do tal clínico, recomendo que não poupes o velho cinturão de nosso pai. Imagino Branca como ficou passada, coitada. Logo ela, que tão bem sabe escolher as palavras como se colhe rosas num jardim. Quanto ao pequenino Rômulo, foi de cortar o coração saber que sente saudade das meninas. Em nome de Dirce e Luzia, transmita-lhe nossa saudade e diga-lhe que longe pode não ser tão longe e tão cedo pode ser mais cedo do que se imagina.A vida aqui no interior vai prosseguindo dentro de sua pacata rotina. O escritório vai satisfatoriamente bem, fornecendo o bastante para pagar as contas e criar pequenas reservas para os imprevistos. Arlete, ao arrumar a casa, deu falta da compoteira de cristal, cujas lembranças me fazem transportar ao tempo em que, ainda garotos, víamos mamãe preenchê-la de docas caseiros. Tempos férteis de travessuras, lembras-te? Bastava Dona Lucrecia retirar do fogão o doce quente e sedutor, e colocá-lo na compoteira para que nós ficássemos à espreita, esperando apenas

o tempo de não termos os lábios e o céu da boca queimados pela fumegante guloseima, para que num instante esvaziássemos a dita com a voracidade de dois porcos famintos e egoístas, pois ao ficava a menor sobra para nenhum mortal. Jamais esquecerei do dia em que as colheradas de doce de abóbora com côco eram a conta de servir ao pároco e seu ajudante de missa, comensais de um ajantarado de um sábado ou véspera de dia santo, falha-me a memória quanto à exatidão da data. Antes da chegada do religioso e do beato, fomos energicamente avisados de que não poderíamos em hipótese alguma aceitar o doce, pois se as visitas tinham prioridade na casa de D. Lucrecia, quanto mais visitas que representavam Deus. Pois bem, ao terminar a refeição, lembras-te? Surge da copa a exuberante compoteira com doce de abóbora até a metade. O padre arregalou os olhos, proferindo palavras generosas à doceira e num gesto divino, disse que as criancinhas são sempre prioritárias, sugerindo à mamãe que nos servisse primeiro. A velha Dona Lucrecia, temente a Deus e a seus representantes, aproveitou uma distração do padre e piscou para nós ao tempo de nos perguntar formalmente se queríamos provar do doce, na certa, esperando que mantivéssemos a palavra. Lembras-te do que dissemos? Um retumbante e uníssono sim, do tamanho de um bonde puxado a burro. Apesar da saraivada de piscares de olhos da mamãe, prosseguimos intransigentes na nossa decisão, o que não lhe proporcionou outra escolha senão despejar sobre nossos pratos duas rechonchu-

das colheradas de doce de abóbora restando ao pároco pouco mais de meia colher e, por uma questão hierárquica, apenas um cisquinho foi destinado ao carola. Quase devolvemos o doce de tanto apanhar, no instante em que o pároco e seu assecla foram embora. Apesar das marcas do cinto, guardo doces lembranças desde episódio. São exatamente essas doces lembranças que quero reviver no simples tocar e olhar da compoteira, cuja posse foi designada a mim pelo testamento de mamãe. Lembro-te que de quinze em quinze dias parte uma composição de cargas da capital para o interior, quando poderás enviar-me, desde que bem embalada e protegida, a saudosa compoteira. Por enquanto é só. Abraços e todos. Plínio ****

Plínio
Três indignações vieram no mesmo envelope que trazia tua última carta. A primeira, a percepção clara e nítida de que não perdeste a mania de me chamar a atenção. Supus que a distância seria poupado de tuas reprimendas, mas como pude me enganar! Eis que elas chegam com o carteiro, em forma de rebuscadas palavras, mas, como sempre cacetes e irritantes. Não vou por isso me desculpar por ter esquecido por mais de uma semana sobre o piano a carta pronta para te endereçar. O inconsciente me fez esquecer. Pronto? Estás satisfeito com a volta triunfal de nossas picuinhas? Não me acuses de tê-las recomeçado, pois foste tu quem me cutucaste com vara

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curta. A segunda indignação provém de outra percepção clara e nítida, só que dessa vez, de teu deslavado cinismo quanto à história do doce de abóbora. Ora, sabes bem que quem disse o enfático e retumbante sim à mamãe não fomos nós. Foste tu e mais ninguém, sozinho a desafiar a cortesia de nossa velha Lucrecia diante do representante divino. E o que é pior: disseste que apanhamos, mas sabes que quem apanhou fui eu, enquanto fugias como um rato atrás da batina do padre. Em suma, tu disseste sim, nós comemos e só eu apanhei. E por isso, bem sei, que se refere a este episódio como doces lembranças. Evidente, para mim só restou o gosto amargo de recordálo. A terceira indignação diz respeito ao equívoco que cometeste quanto à história do testamento. A ti foi designada uma baixela de cristal, que tuas próprias filhas trataram de espatifar. A compoteira não te pertence nem a tua mulher, nem às tuas filhas. Fiques apenas com as falsas lembranças que tens dela. Não vou prosseguir. Nem esquecer a carta sobre o piano. As indignações têm pressa de chegar. Gastão ****

Eu já me perdoei por isso. Resta-me saber do paradeiro da compoteira. Não me atrai a idéia de crer no teu embuste do testamento, sempre fui imune a contos do vigário, conversas de corretores e argumentos de balconista. Bem sabes que o testamento me reservou a compoteira e exijo que me envies imediatamente o documento, sob pena de jamais dirigir palavras, nem a ti nem a tua incauta família.Dessa vez, poupo-me de formais recomendações. Plínio ****

linhas, ladrão de pequenos furtos, ladrão vagabundo. O produto do teu roubo não te satisfaz. Roubas por roubar. Roubas o que não sabes que estás roubando. Roubas a ti próprio, quando pensas que roubaste uma compoteira de reles valor. Não imaginas que estavas roubando um pouco da nossa infância, simplesmente, porque tu não tens memória, não tens valores, não tens passado. Pobre ladrão de compoteira. Siga teu caminho de gatunos e insensíveis. A miséria do teu espírito não vale a tinta da minha pena, não vale nem o selo dos Correios. Plínio ****

Plínio
Não me rebaixarei à tua sub-condição, enviando-te documento algum. Minha palavra é mais digna que teus ouvidos, minhas letras valem mais que teus olhos, minhas cartas por si só atestam a verdade que te escrevo, salvo uma ou outra palavra de afeto, escapulida em cartas passadas, por descuido do meu pensamento ou por obra e graça de uma desnecessária polidez. Quanto à compoteira, é bom que saibas, foi trocada por esmolas na quermesse de São Caetano. Pobres dos pobres que desta esmola se utilizaram, pois a compoteira que tanto reclamas para ti foi avaliada em apenas um pouco mais que a alma do reclamante. Ou seja, nada, ou para não dizer nada, escassos vinténs mais valiosos que teu caráter. É chegada a hora de encerrarmos esta lengalenga. Gastão ****

Plínio
Não te livrastes de mim, portador de idiotia. Fizestesme gargalhar aos borbotões ao me acusares de ladrão de pequenos furtos. Tens razão, tens toda a razão contida neste universo. Se pequeno furto cometi, não foi de uma compoteira ordinária. Fique com esta intriga, vergonha de irmão! Enquanto eu desopilo meu fígado só em imaginar teu semblante quando gritares “Eureka!” Diante de uma descoberta tão óbvia e cruel. Aguardo tua carta ansiosamente, pois tenho certeza de que será furibunda e virulenta, para meu íntimo regozijo. Gastão ****

Gastão
É com profunda franqueza que cumpro o prazeroso dever de avisar-te que tua carta não me pegou de surpresa. Perdão, irmão, por ter reduzido suas expectativas a pó. Tuas indignações perderam-se pelo caminho, tuas agressões não encontraram terreno fértil para crescerem ácidos frutos. Perdão por ter te passado uma ilusão de que estava tudo bem entre nós.

Gastão
Tua intriga não me abala. Lamento frustrar tuas expectativas, mas não fuçarei motivos para desprezar-te ainda mais. Os que tenho me são o bastante para ignorar-

Gastão
És ladrão. Ladrão de ga-

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te. Foste despejado do nosso passado, não moras mais nas nossas lembranças. Já não pronunciamos o te nome, nem quando damos topadas nos pés das cadeiras. Plínio ****

Plínio ****

Plínio
Não meta minha mulher no meio desta pocilga de verbos. Ela bem sabe o valor do homem que tem, assim como tua mulher sabe muito bem o homem que perdeu. Sim, tua mulher sabe o homem que perdeu, animal corno! Comi tua mulher!Pois já que não gritaste “Eureka!” ao perceber teus galhos arrastando no alto pé-direito de tua nova casa, obriga-te a saber de minha própria pena. Antes de desposar minha santa Branca, mergulhei pelas cavernas de tua Arlete, enquanto viajavas a vender meias. E fiques sabendo: ela gostou, gostou e pediu sempre mais, mais e mais. Foram noites de gozo e esplendor, mas não passaram de noites, pois jamais admitiria alimentar romances com mulher de corno. A fudelança só cessou quando pedi Branca em casamento. Foram dias difíceis para Arlete, dividida entre o medo de te magoar e o medo de me perder. Preferiu enfrentar o segundo medo e a partir daí resolvemos esquecer o ocorrido e viver cordiais relações. Só mesmo tua cara de corno me fazia lembrar que tive um caso com tua mulher. Agora, que sabes o desfecho deste folhetim, mandes chamar um médico, pois com certeza estás começando a ter um derrame. Gastão ***

Plínioi
nvejo-te, vergonhoso irmão. Invejo tua capacidade de não pronunciar meu nome. Infelizmente não podemos dizer o mesmo do teu. Um casal de mendigos passou a habitar nossa rua há certa de duas semanas. Trouxeram com eles trapos, caixotes, restos de comida, e um vira-lata ladrão de lixo e carniça. Este cão imundo chama-se Plínio. E pelo menos dez vezes ao dia, temos que dizer “Passa, Plínio!” Passa, Plínio!”. Gastão ****

a Plínio, pois foi queimada por ele mesmo antes de cair fulminado por um acidente vascular. Suponho que confessaste nosso caso. Os indícios são claros. Embora vegetando sobre um leito, Gastão ainda encontra forças para olhar para mim e urrar com os olhos a palavra puuuu-ta. Sim, com os olhos! Olhos de lágrimas e raiva. Olhos de impotência e ferocidade. Olhos que lhe faltaram na hora de perceber o irmão que possuía. Olhos que não olharam para a mulher que tinha. De nada me arrependo. Se alguma coisa devo, com certeza estou pagando caro, condenada a cuidar de uma posta de carne e ódio, não vejo saída a não ser velar em vida o pai de minhas filhas. Quanto a tu, esqueças de nossos planos. Não me escrevas, não saibas mais de mim. Arlete ****

Gastão
Patife, miserável, excomungado! O cão imundo que ora vos fareja não está atrás da sustança do teu lixo. Nem o mais rude animal desconhece o perigo que ronda as tuas sobras. Não te iludas, boçal! O vira-lata ladrão e porco não quer teu lixo, mas a imundície do teu viver. É isso que ele busca. Conforto na sujeira da tua casa, no podre do teu caráter, no mau cheiro do teu pensamento. Pobre animal! Mal sabe que o negrume dos seus donos é mais alvo que a brancura azeda da tua pele encardida. Pobre mulher a tua. Obrigada pela moral a dormir com um traste, ainda encontra forças para bem cuidar de teus filhos, inocentes vítimas de uma aberração genética. Verme!

arlete
Desconheço o conteúdo da carta que enviaste a Gastão, mas certamente foi isso que lhe tirou a vida. Teu cunhado foi encontrado morto, ao pé da escrivaninha, engasgado por uma indigesta maçaroca de papel, com indecifráveis vestígios da tua letra. É bom que saibas que sempre soube de tudo. Agora, não há mais nada a fazer, a não ser sepultar com um único defunto, quatro vidas fingidas. Não me escrevas, não saibas mais de mim. Branca

Gastão
Desconheço o conteúdo da última carta que enviaste

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Contos
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Sheyla Smanioto Macedo

Ventanas (i)
Fiz uma Ventania tão forte, mas tão forte, que deslocou a linha do Equador; e nos varais, que outrora invejavam a condição e relevância daquela privilegiada linha, dançavam as roupas uma lambada fervorosa, destas que levantam saias e lençóis; e nos tecidos, linhas pilotavam agulhas num bordar frenético até que lhes findou o impulso: chegaram os ventos ao seu destino, e estacionaram. (Meus caprichos são sempre assim: sem gravidade). Tento fazer graça nessas coincidências (eu tenho das minhas ironias): estavam renovando as tintas do mundo, inclusive da linha equatorial, justamente quando do referido acontecimento. Foi um capricho meu, sobre o qual não deixei pistas, que se escrevesse jazeria na estante de ficção (também os homens têm das suas ironias). Neste tempo, o vento corria tanto que não podíamos ver seus pés e, atrás dele, fazendo festa (como as latas que cismam em acompanhar aos tropeços os carros de recém-casados), a poeira levantava e brincava de ser névoa, névoa vermelha, que depois cai feito neve para povoar a terra e voa, esvoaça, como um grande vestido que se dissolve em panos, em linhas, em pontos... em letras. As tintas equatoriais bailaram, colorindo o ar, até que a música cessasse: pairaram, então, sonolentas, onde lhes aprouve, como se, depois do canto da Ventania, decantassem: e dormiram como dormem as linhas imaginárias. Então o mundo se desordenou: povoou-se de pontos de vista perdidos de linhas de pensamento, de pontos sem nós; minha pena, talvez por isso, escreveu uma história em linhas tortas, começando em fim:

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Contos

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a sogra
Mariana Valle
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Se, quando nora, sua sogra sofreu tanto com a mãe de seu marido, por que, agora que subiu de posto, resolveu encarar a norinha que acabou de chegar, como se ela fosse um bicho-papão que vai levar o filhinho pra longe? “Já vai carregar o fulano?”, pergunta a sogra todo final de semana, quando você vai deixar o namorado no aeroporto. Detalhe: ele ficará uma semana longe de você, inclusive. Ela não lembra como a mãe do seu então namorado a julgou mal? Não deu a ela o carinho que merecia? Se tem memória de como seu marido ficou magoado quando suas rixas começaram e, o pior, como ele sofre agora que não tem mais volta, não tem medo de que seu próprio filho sinta o mesmo? Que mãe quer ver o filho sofrer? Ela vive reclamando que não teve amizade com a sogra. O que fez então quando a própria nora chegou? “Prazer, Fulana. Ela tem a voz igualzinha a de você sabe quem, meu filho.”, disse a sogra se referindo à ex-namorada dele. Como se a atual não soubesse que ela estava fazendo de propósito. A nora sobrevive. A mãe da nora

visita os pais do genro. E sai de lá sabendo tudinho da vida da tal da ex. Para quê? Essa gente não tem outro assunto não? Então chega o aniversário do namorado. Ele te mostra a lista dos convidados e você repara bem. Estão lá os nomes de todos os amigos dele que você ainda não conhece. Será um grande evento. Você se faz de tonta e pergunta: “não vai convidar a ‘você sabe quem’?” E ouve feliz, quando ele diz um sonoro não. Dia da festa. Você conhece o João, José, Maria, Pedrinho e por aí vai. De repente adentra o salão um par de gêmeas. Daquelas que você viu na foto que o seu namorado tirou do álbum. É, a própria. Como se já não bastasse ele ter uma ex-namorada, ainda tem a gêmea, que é pra não esquecer da cara da ex.. Nem você esquece, a essa altura. Mas calma que ainda vem a pior parte. Apesar de ter sido apresentada a toda a turma da Mônica, do Zé Colmeia e do Catatau, você não tem permissão para brincar de “Supergêmeas, ativar!” A tal da ex, que se separou do seu namorado há um longo ano, não quer ser apre-

sentada a você. Nem a sua irmã gêmea, claro. E a fulaninha ainda manda recado. Sem saber de nada, seu amigo vai lá dar em cima da gêmea solteira, a ex, ao que ela reage. “Eu ainda estou muito ligada no meu relacionamento anterior, com o namorado da sua amiga.” Cinco minutos depois, você está na pista de dança e leva aquele susto. Adivinha quem está dando um beijo na boca de um desconhecido? Ela mesma. A tal que ainda não esqueceu seu namorado. Mas agora vou contar o melhor da história. Lembra, lá na frente, quando você descobriu que seu namorado não convidou a ex? O mistério, enfim, é desvendado, quando você pergunta: “Então, quem convidou a ‘você sabe quem’, meu amor?”, ao que ele infelizmente responde: “’Minha mãe”.

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Contos

Léo Borges

12 de outubro sob ataque
Era feriado, mas ainda assim algumas lojas abriram para que os atrasados pudessem comprar seus presentes do Dia das Crianças. E eu, nessa luta de última hora, também buscava uma pequena lembrança para meu sobrinho quando, no meio da correria, passei pelo Bar do Setembrino e vi um vulto familiar. Quem era? Ele mesmo: Rildo, o paladino das contestações. O ilustre bonachão, que já chegou até mesmo a sentenciar que no mundo a única Paz possível é a garçonete Jacimeire – cujo sobrenome é Francisca da Paz –, estava lá, escarrapachado em sua cadeira cativa, observando a efervescência das ruas. Tendo como cenário a
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procissão de gente com suas sacolas de brinquedos, ele aguardava algum incauto para uma prosa – ácida, como de praxe. Ao vê-lo, ofereci-me como companhia efêmera, já que a tarde caía e eu ainda não havia comprado o presente. – Jacimeire – chamou a garçonete ao perceber minha aproximação –, traz outra gelada pro camarada aqui! – Obrigado, Rildo, mas já estou de saída. Ainda tenho que comprar alguma coisa pro meu sobrinho. Só parei porque, como você sabe, não abro mão de algumas palavras com o nobre amigo.

– Fique tranqüilo. Ainda faltam quarenta minutos para o comércio fechar – disse com seu jeito despachado, limpando o visor do relógio verde e branco que trazia no pulso. – Você sabe qual é a coisa mais importante neste feriado de 12 de outubro? – O que é? – Foi o dia em que me aposentei – disse rindo. – Feriado e dia útil pra mim agora é tudo igual: um deleite só! Aliás, esse negócio de dizer que dia útil são só os dias de trabalho sempre me desagradou, porque insinua que sábado, domingo e feriado são inúteis por definição, o que é um absurdo. É justamente nesses

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dias que o ser humano mais mostra sua utilidade: brinca, escreve, lê, namora, joga uma sinuca, conversa com amigos no bar... – É, mas, além disso, há outros fatos importantes nesse dia, não acha? – provoquei. – Sim, claro. É a data de fundação do Coritiba Futebol Clube, por exemplo. Pelo menos para o meu vizinho paranaense, que é fanático por futebol, hoje é um grande dia! Aliás, esse relógio com o escudo do Coritiba, que vive parando, foi ele que me deu – comentou, mexendo num dos botõezinhos do aparelho. – Bom, isso até pode ser – falei, concordando com a brincadeira –, mas, na verdade, as pessoas se ligam mais nas três datas, digamos, de maior expressão nacional: o feriado pelo Dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, o Descobrimento das Américas e o Dia das Crianças. Rildo abriu um sorriso malicioso, bebeu de um gole quase meio copo de cerveja e começou o discurso que colocava todos esses acontecimentos de 12 de outubro na berlinda. – Você sabia que o Brasil é um país laico? Significa que não temos uma religião oficial. Logo, como é que o poder público cria um feriado tendo como base uma data que festeja um

ícone cristão? Essa incoerência abre precedente e outras religiões se legitimam a pleitear toda a sorte de homenagens. Adeptos do satanismo, inclusive, poderiam requerer um feriado para eles, por que não? O Dia do Encontro com o Demônio, por exemplo. Ah, e os ateus também seriam contemplados com algo como O Dia Nacional da Não Crença em Deus. Diante dessa imprudência legislativa, isso me parece bastante plausível. Desconfortado com o comentário, bem típico dele, dei uma tossida e falei: – Há o Natal, um feriado de origem cristã que é mundialmente instituído. – A origem pode até ser essa, mas pergunte a qualquer menino qual a lembrança que lhe chega à mente no dia 25 de dezembro? Algum fato relacionado ao cristianismo ou o famigerado Papai Noel da loja de videogames? Por outro lado, poderiam criar também uma série de feriados mundiais pelos nascimentos de Sidarta Gautama, de Allan Kardec, de Maomé, entre outros. Assim, para felicidade geral, os perniciosos “dias úteis” iriam quase sumir – disse, prendendo a gargalhada. – Sei que algumas datas religiosas movimentam o comércio, mas é um contrassenso e um desrespeito atrelar questões mercantis à fé.

– O feriado do dia 12 de outubro seria mais apropriado, então, se fosse por causa do Descobrimento das Américas? – Na verdade, as Américas foram descobertas muitíssimo antes do dia 12 de outubro de 1492. O que hoje é propagado não passa de um eurocentrismo que até fica bonitinho em livros escolares, mas que não condiz com a realidade. Quando os europeus chegaram, já existia aqui uma população de milhões de ameríndios com seus costumes e línguas. Então, tal ‘descoberta’, incluindo aí a de Cabral oito anos depois, deveria ser compreendida como uma simples visita, inesperada como se vê, de um povo a outro, mas jamais como uma colonização e muito menos como uma conquista. No entanto, os galegos trataram os silvícolas como uma espécie de sub-raça, impondo credos e levando toneladas de madeiras e minérios em troca de bugigangas. Eu imagino como deve ter sido constrangedora a tal primeira missa dos lusitanos na Terra de Santa Cruz: uma sisuda solenidade cercada por uma multidão de índios pelados! – ria. – Cuidado com o que diz. O seu Setembrino é português, hein... – alertei. – Bom, nesse bar eu também sou explorado: olha o preço da cerveja! Mas esse delicioso bolinho de carne

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seca compensa... – disse, degustando o petisco. – Se o portuga resolver me catequizar, faço um escambo e levo a Jacimeire em troca do meu relógio do Coxa¹ – brincava, piscando tanto para o simpático seu Setembrino quanto para a solícita garçonete. Mas, e o Dia das Crianças? Até este ele conseguiria colocar sob fogo cruzado? – Datas com comemorações específicas, como Dia das Crianças, Dia dos Pais, Dia das Mães e Dia dos Namorados, realmente nasceram inocentes e bem intencionadas. Mas, aos poucos, foram ganhando um viés comercial e ficando sem alma, de modo que, infelizmente, dar presente se tornou mais importante do que estar presente. E isso tudo sem falar em anacronismos como o tal Dia do Índio. Nesse dia, as crianças da cidade se pintam e dançam. Mas ninguém lhes diz que, atualmente, índio de verdade é coisa raríssima. Os que não foram dizimados viraram uma espécie híbrida e agora vivem juridicamente como peles-vermelhas, mas, de fato, como autênticos caras-pálidas. Para Rildo todos esses dias chamados “especiais” se transformaram em estratagemas peçonhentos para que pudéssemos sustentar o verniz social do politicamente correto e, de quebra, gastarmos nosso dinheiro com quinquilharias.

– Como artimanha para a obtenção de lucro isso já seria algo questionável, mas a coisa é ainda mais ardilosa: passaram a servir como uma resposta picareta e debochada às necessidades das pessoas. Amar e fazer algo de bom deveria ser um padrão diário, uma rotina, mas restringiram isso a datas hipócritas, como, por exemplo, o intragável Dia Mundial da Paz. Argh! – completou, apertando o nariz como se algo cheirasse mal. Realmente, para alguém que não crê na viabilidade da Paz, esse dia deveria mesmo soar como pilhéria. O velho boêmio revelou que sempre presenteava os filhos com critérios diferentes daqueles determinados pela sociedade.

mundo. Mas, na qualidade de integrante da tal “sociedade de consumo”, perguntei pelas horas, já que as lojas estavam fechando e meu sobrinho iria acabar ficando sem ganhar nada. – Ih, amigo! Os ponteiros estão parados! Certamente já passou das seis e aqui ainda está marcando cinco e cinquenta... a culpa foi minha por te prender a papo tão utópico – falou mexendo no relógio. – Acho que você não vai mais encontrar nenhuma loja aberta. – Tranqüilo. Dou um abraço nele como presente. Se você me fez enxergar que objetos nessa data não são tudo, acho que ele também pode entender. – Leve para o seu sobrinho – disse Rildo tirando o relógio do pulso e me entregando. – É só trocar a bateria que volta a funcionar. Para ele se orgulhar, diga que o Coritiba foi campeão brasileiro de 1985. Só não sei se também foi no dia 12 de outubro.

– Eu nunca obedeci a esses cronogramas. Mimava quando queria ou quando achava que mereciam. Quando chegava o Dia das Crianças, eu não presenteava. Nem no Natal. Me chamavam de sovina e até de pernóstico. Antes isso do que escravo dessa sórdida obrigação de se adequar ao supérfluo consumismo datado. E não tive problema com a criação de nenhum dos guris. Hoje meus netos têm tratamento semelhante e gostam. É. Um diálogo com Rildo sempre mostra uma maneira insólita de se enxergar o

¹ - Coxa no masculino e com letra maiúscula por se tratar da alcunha do time do Coritiba.

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como uma das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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Contos

We’ll always have Paris
Barbara Duffles

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Cansada depois de um dia de caminhadas sob um sol seco, foi surpreendida pelos australianos, animados como cariocas. Uma volta em Montmartre? Oui, pourquoi pas... Andaram pelas ladeiras de paralelepípedos, comeram crème brûlée no café da Amelie Poulain, fotografaram e filmaram, como bons turistas que eram. Depois de visitarem uma loja de vinhos, cada um saiu com uma garrafa de dois euros na mão. Decidiram beber nas escadarias da SacreCoeur, importando-se menos com a arte sacra e mais com a deliciosa sensação de ter Paris aos seus pés. Sentados junto com eles, dezenas de jovens do mundo inteiro conversavam, emanando seus espíritos livres a ponto de dar inveja a Nietzsche. Uma chilena que havia morado em São Paulo. Um cubano tentando ser Che. Italianos, ingleses, americanos, brasileiros, fundindo seus mundos, deglutindo-se uns aos outros, entre goladas de vinho e tragadas entorpecentes. Foi quando Clive, um simpático gordinho australiano de dentes infantis, aproximou-se e puxou assunto com ela. Começaram falando de vinho, depois de viagens, culturas estrangeiras, pin-

turas – ele disse que era pintor amador. Sensível e delicado, Clive também escrevia, desenhava e lia, lia muito. Ele falou de Thomas Mann. Ela falou de Gabriel Garcia Márquez e Rubem Fonseca. Trocaram emails, links de blogs. Sentiam-se velhos amigos. Na volta para o albergue, ele a fotografou vendo as estrelas. Sim, ele também fotografava. Dias depois, Clive seguiu para Londres e ela para Veneza. Trocaram alguns emails falando de suas viagens. Ele enviou as fotos do grupo na Torre Eiffel. O último email que ela recebeu dele era enorme, falava de Ingrid Bergman e sua famosa frase em Casablanca: We’ll always have Paris. Por falta de tempo, ela não o respondeu. Meses depois, recebeu uma mensagem de Andrew, um dos australianos do grupo: Clive havia morrido de pneumonia. Triste, ela chorou toda uma tarde. Resolveu entrar no blog dele, tentando encontrar fotos da Cidade Luz. Seu coração quase parou quando viu, em um dos posts, uma imagem. Era uma pintura dela, sentada na porta do albergue, olhando as estrelas. ---------------------------------

Chaplins alucinados

Deita-se conformado. Mais uma noite de zumbido o espera, aquele vindo de dentro, ouvido sempre que se sente fora do eixo. Pensa que o barulho vem das traquitanas de seu cérebro, mexendo-se desconexas, como se chaplins escorregassem alucinados por suas engenhocas. Para lubrificar as porcas e parafusos, talvez leite quente dê cabo. Talvez cantar espante o zumzumzum. Pensa em Elvis, “Sweet Caroline”. Depois sussurra “Suspicious Minds”. Mas o Grande Ditador não deixa o Rei tomar conta, e intensifica os zumbidos. Pensa em apelar para comprimidos. Mas é tão medroso que prefere ficar na companhia de seus chaplins esquizofrênicos, desejando que eles sejam tão geniais quanto o bigodudo de bengala. Mas consciente de que são apenas reles peças dos Tempos Modernos.

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Contos

duetos assassinos
Giselle Sato
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Ela Gosto de jogos, de riscos e rasgos. Tragos e traços em finais imprevisíveis. Ser musa é o preço de viver através da eternidade. Gostaria que houvesse um toque de poesia e requinte, uma pequena alusão ao belo que compõe o quadro imaginário. Contudo, estou disposta a barganhar meus pequeninos luxos . Imaginei uma cena mas bem sei o quanto gostas do grotesco, horrores que somente você consegue imaginar... E que te delicia não tanto quanto o calor do meu seio em tuas mãos, manchadas de dores e agonia. Nascemos no mesmo dia, separados por minutos, em um parto maldito de uma carne morta. Desde sempre amaldiçoados, fomos separa-

dos, temidos e condenados. Você me trouxe de volta, e atravessamos o mundo dos vivos deixando um rastro de trevas. Ele Deitar contigo à luz da lua Sob a lona que depois servirá de mortalha Contando histórias, cantando, planejando Transporemos essa muralha Nosso brinquedo estará esperando Primeira honra será sua. Sempre. Alisarei os seus seios suavemente Com uma mão, na outra o bisturi Incisão inicial sob o pescoço frio

Minha mão no seu sexo, eu já sinto aqui Brincando na umidade, entrando sem esforço Lâmina deslizando lentamente Pressiono-te contra mim, estou duro Sua mão sobre a minha, no cabo da faca Beijamo-nos enquanto o sangue jorra Você desfaz meu cinto, meu pau como estaca Penetra violento, como procurando desforra Por algum mal, ou prejuízo prematuro Animais no cio, e a vida sob improvisada cabana Vai-se embora, atravessa para o além Éramos três, somos agora um par

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Gozamos, nos sentindo bem Amamos, matamos, e voltaremos a amar E a matar. Pois o sangue nos chama. Ela Olhos febris refletem medo e terror, perdem a inocência e odeiam. O grito suspenso, que jamais será ouvido, morre no murmúrio da mulher encolhida e trêmula. O homem tenta proteger a amada, você não permite e mostra sua força. Ele cai muitas vezes e eu peço que não o mate. Ainda. Abraço a pobre moça e aliso os cabelos em cachos perfeitos. Ela é bonita e jovem demais, percebo seu olhar e decido cortar cada fio. A tesoura vai e volta enquanto as mechas caem... Caem... Formando montinhos. Pequenas gotículas de sangue escorrem, ela geme sob as cordas apertadas. A boneca de trapos levanta os olhos azuis e me encara com raiva. Sou a ultima imagem, antes que a lamina destrua a cor. E assim seguimos, alguns nos chamam de monstros, outros de loucos e desalmados. Mas o que importa? Nossa essência é assim, mesclados em trevas, dores, agonia... Seguimos. A história de Ana e Léo Ana nasceu primeiro, um bebê forte e rosado. O vagido soou pelo casarão e reza a lenda que os, lobos na floresta, uivaram em uníssono. Meia noite e dois minutos após, Leonardo foi retirado a fórceps, o que lhe valeu a marca odiosa e disforme. Não houve alegria, o luto fechado foi declarado ainda no leito empapado de sangue.

Enquanto as empregadas corriam, providenciando calor e alimento para os pequeninos, o restante da família velava a morta. Não houve funeral aberto, apenas a mãe acompanhou a única filha à morada derradeira. Muitos atribuíram ao fato da moça ter aparecido grávida, o que levou a família a discrição e afastamento. Nove anos depois, os gêmeos passeavam no pátio, havia sol e a tarde morna prometia calmaria. A avó materna assumiu os meninos e amaldiçoou cada momento após o ato precipitado. Calados e unidos, Ana e Léo viviam em um mundo à parte e não admitiam qualquer interferência. A velha senhora tentou de todas as formas criar algum vínculo com as crianças. Completamente ignorada, aos poucos desistiu e acostumou-se aos estranhos netos. Ana falava e tomava todas as decisões, Léo seguia seus passos como uma sombra, silencioso e soturno. O frontal deformado, mal oculto pelos cabelos escuros, dava-lhe um aspecto maldoso e repugnante. Se uma criança poderia ser chamada de sebenta, assim era Léo... Sempre sujo e amarrotado, escondendo-se, esgueirando-se, espreitando e surgindo do nada. Possuía um odor característico, passava longo tempo nos pântanos e o lodo impregnou sua pele de tal forma, que era impossível não perceber sua chegada. Ana, ao contrário, era de uma beleza instigante e quase hipnótica. Enormes olhos negros, contrastando com a pele claríssima e um sorriso permanente. A menina adorava fitas azuis e enfeites nos vestidos leves e claros. Vivia cercada de mimos e apenas a avó era reticente aos seus encantos. Desconfiava do

contraste em que os gêmeos viviam, não gostava da risada aguda da neta. No entanto, a velha senhora nunca contrariava ou impunha a disciplina necessária. Sentada na cadeira de espaldar alto, toda de negro em luto fechado pelas perdas sentidas, a idosa apenas observava. Em complacente e arrastada existência, passava os dias como se não fizesse parte de nada. Os empregados caminhavam pelo casarão na ponta dos pés, falavam baixinho, com medo de alguma ameaça invisível. Principalmente, todos tinham verdadeiro pavor da antiga cabana que as crianças haviam transformado em local de brincar. Afastada da casa e isolada pela floresta, os meninos passavam todo o tempo livre na construção rústica. Mal terminavam as aulas, buscavam o refúgio e por lá ficavam o resto do dia. Com o tempo, Léo passou a dormir e fazer as refeições no local e quase não era visto na casa principal. A avó entendia o fascínio das crianças pelo brejo, local repleto de animais pestilentos e evitado por todos na região. Há tempos havia passado pelo mesmo problema com a mãe dos gêmeos. Se alguém atento prestasse atenção, teria notado o desaparecimento da primeira menina, quando os gêmeos completaram dez anos de idade. E com certeza, faria uma conexão com a data e outras vítimas. Infelizmente, não o fizeram... O tempo passou rápido, e todos os anos... Anjos partiam para cirandas eternas. Crianças no jardim do Éden ‘’Amorais são pessoas que desconhecem as normas, neste caso, são culpados ou inocen-

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tes?’’ Assistir Ana movimentando-se pelas ruas, os longos cabelos balançando ao sabor do vento, passos precisos e cadenciados... Era quase divino. Como se uma aura translúcida envolvesse a moça em mágica luminosidade. E Ana sabia disso, sempre sorrindo e com um leve movimento de baixar a cabeça, seguia seu caminho. Porte, atitude e afetuosidade, tornava cativos os maiores desafetos, cordeiros balindo atrás da pastora... Almas puras e crédulas. Nesses momentos, quase ninguém percebia a presença do irmão gêmeo. Vigilante, seguindo de longe... Sempre. Quem o visse, virava a face, tamanho era o desleixo e feiúra. Cabeça de lua, cabeça de lesma e outras variantes, já não o perturbavam... Sabia dos apelidos, mas Ana havia dito que um dia, todos se arrependeriam. E Ana havia prometido nunca mentir para Léo, ela era o anjo que o protegia e amava. Naquela noite, quase haviam brigado por causa do presente de aniversário. Cada ano a irmã ficava mais exigente e Léo não sabia dizer não. Eram meses de empenho, para que tudo saísse a contento: - Esta noite, será a noite mais linda de todas. Dezoito anos e o inicio da nossa libertação. Teremos direito a herança, vamos viajar e conhecer muitos lugares. Ana abraçou o irmão e ele riu, escondendo o rosto nos cabelos da moça: - Se você quiser, mas eu gosto de ficar aqui... É meu lugar. Eu e você não precisamos de outras pessoas. - Não! Não fique preocupado, sempre estaremos juntos... Posso ver meu presente agora?

Posso? Os olhos de Ana brilhavam. - Venha comigo, mas não faça barulho. É uma surpresa. Léo e Ana saíram de mãos dadas, atravessaram a ponte velha e tomaram a trilha da floresta. Com o tempo, a cabana da infância ficou pequena demais para as brincadeiras. Descobriram que os pais possuíam uma estância de inverno, esquecida e abandonada. Perfeita. Aos poucos a trilha tornouse mais fechada, Ana apertou a mão de Léo e sorriu. ‘’ Quase lá... Nosso cantinho perfeito ”... Léo beijou a mão pequenina e aspirou o perfume suave e doce. Mordiscou o pulso quase infantil, provocando um gritinho assustado, entrecortado de risadinhas nervosas. Pararam em frente a grande porta de carvalho. Ana fechou os olhos, visivelmente excitada e inquieta. Ele sempre a guiava até o presente. Um ritual de amor e carinho que começava com um beijo doce e o velho sussurro: - Te amo, pequenina, feliz aniversário. Entraram e imediatamente perceberam que alguma coisa estava errada. Ana arregalou os olhos buscando o irmão, enquanto a foice desceu em único golpe. O grito perdeuse no ar e a moça recuou, o pano da saia branca empapada de sangue vívido. Os olhos acostumaram-se com a escuridão e os vultos tomavam forma e nome. A avó e o velho jardineiro estavam parados talvez decidindo o que fazer com ela... Ana tentou ganhar tempo enquanto buscava alguma saída: - Ele me obrigou, eu não queria... Nunca quis. -Gritou acuada. - Cínica. Mentirosa! Ele foi apenas um brinquedo nas

suas mãos. Léo era um menino, apenas tinha a força. Tornou-se um monstro, matou demais... Para te agradar. Vocês me enojam, sempre grudados... Finalmente acabou! - Não! Eu amava meu irmão, sempre o protegi de todos. Ele era inocente! Onde está a menina? – Ana sabia que Léo havia trazido uma de suas melhores amigas. - Não se preocupe, já demos um jeito! Você enlouqueceu? Raptar a filha do prefeito foi muita ousadia. Claro que seria o presente perfeito para sua maioridade. Um verdadeiro crime de gente grande! Vocês são dois tolos, brincando e deixando cair os farelos no chão. Ana observava a avó de uma forma diferente, aquela não era a senhora medrosa e frágil de sempre. Muito pelo contrário, Dona Augusta envergava uma roupa de caça antiga e elegante. Nas mãos, a espingarda pesada do falecido marido, homem famoso na região pelos troféus que enfeitavam as paredes do casarão. Pela primeira vez, notou a semelhança entre ambas e o porte altivo e impactante. Aquela mulher podia convencer qualquer um a fazer o que quisesse. O magnetismo incomodava Ana, sentiu-se enjoada com os olhos frios da velha senhora. O jardineiro jogou gasolina por toda cabana, o corpo do irmão decapitado foi arrastado até o meio da sala. Para espanto de Ana, um segundo corpo juntou-se ao do irmão. Era o da amiga, igualmente disforme, em grotesca parceria: - O que fizeram com ela? Não era para ser desta forma! - Ela sabia demais, infelizmente. Agora Ana, vamos começar a verdadeira brincadei-

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ra. Vamos retomar um velho hábito e ninguém melhor que você para iniciar. Daremos meia hora para que tome uma boa dianteira, depois vamos caçar... Lógico que não vai perguntar quem é a caça! - A velha nunca pareceu tão feliz, os olhos brilhavam de puro ódio. - Podemos ficar juntas, não quero morrer deste jeito. Feito um animal. Somos parentes! Não entendo! - A expressão de pesar, o olhar perdido, eram perfeitos... Puros e convincentes. - Claro que entende! Não há lugar, somos iguais e eu não vou arriscar. Anos e anos, cobrindo as bobagens que vocês dois faziam. Cansei. Além do mais, você há muito não sabe o que é ser humana. Um lindo e puro animal, correndo pela floresta, eis sua mais perfeita descrição. Um animal no cio, seguida por todas as criaturas que habitam aquelas paragens. Seres bestiais como você. Ana entendeu que não podia perder mais tempo. Rapidamente refez suas rotas de fuga e deixou a cabana. Os irmãos contavam com o imprevisto e estavam preparados. Havia a caverna com suprimentos alguns quilômetros rio acima. Calculou que podia chegar em dois dias de caminhada puxada. Correndo pelas trilhas, que apenas ela e o irmão conheciam, ainda tinha esperanças de escapar e quem sabe um dia... Retornar e matar a bruxa velha lentamente. Vingar o irmão da pior maneira possível, era seu maior desejo. Sentiu saudades de Léo, a sombra protetora e amada. De agora em diante, sabia que estaria sozinha. Com todas as forças, Ana desejou Léo ao

seu lado, nem que fosse uma única vez. O céu fechou-se em cinza e a tempestade cobriu as montanhas. Em um segundo, fez-se noite e a mata silenciou. Uma névoa espessa vinha descendo, formando uma cortina impossível de transpor. Um farfalhar de galhos sendo quebrados alertou que era seguida de perto. Ana apertou o passo, imaginando a avó chegando sorrateira... Atirando sem dó nem piedade. Na verdade, duas palavras que nunca significaram nada para os irmãos. Ouvidas incontáveis vezes, em meio aos gritos de dor... Ana sentiu um puxão nos cabelos e parou. O corpo tremeu com o sopro gelado, um cheiro conhecido fez com que abrisse um sorriso e fechasse os olhos: - Léo! - Falou baixinho, e sentiu a boca deslizando em seu pescoço. Mãos fortes abraçavam... Afagavam... Traziam alento. Deixou que a sensação tomasse conta... Entregou-se ao sonho, ou o que fosse... Estava segura e calma. Ele Sigo teu cheiro, que me entranha a alma E todos meus sentidos buscam teu calor Somos parte do todo, únicos herdeiros E jamais nos afastaremos, porque somos um. Ela Sem corpo, espaço ou tempo Sem nada além do desejo urgente Sem forças que o impeçam de vir Sem leis, conceitos ou preconceitos.

O fogo alto parecia rugir enquanto a cabana queimava, estalando e soltando fagulhas e fumaça. Dona Augusta entregou a arma ao jardineiro, sentou-se em um tronco e por algum tempo rezou pela alma do neto. O homem truculento e de idade avançada ainda era forte no trato com os animais. Trouxe os cavalos e ofereceu ajuda à patroa: - Vamos pegar a trilha do rio, a menina não deve estar muito longe... Alcançaremos sem problemas. - Não. Não para esta velha aqui, quero apenas que ela saia e só volte depois da minha morte. Estou cansada, precisava corrigir esta história e agora é o suficiente. Vamos tocar adiante e deixar o mundo e os antigos ensinarem Ana. Nosso clã está espalhado e alerta. Sempre haverá um de nós... Sempre. O empregado assentiu com um leve movimento, imediatamente os cavalos tomaram a marcha em direção à fazenda. Léo fora um erro e Ana era melhor que o esperado. Dona Augusta sempre soube que a linhagem ficaria com o mais forte dos gêmeos. Só não contava com a simbiótica ligação. Foi preciso esperar a idade certa e, neste meio tempo, os meninos deram muito trabalho. Ana manipulou toda a força, usou o irmão e transgrediu regras e tradições. Agora a maldita ligação estava desfeita. Mas jamais teria certeza. Não enquanto a neta estivesse viva.

Participação especial: Pedro Faria

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Contos

Conspiração zHaarP
Big Bang microcósmico- Capítulo 4
Dênis Moura

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- Não deixaremos que esta anarquia continue a assolar o mundo. - Diz um bigodudo senhor no meio da imensa mesa de sessenta lugares totalmente ocupados. - De hoje não passará senhor Karl Mittali. Apresento-lhes o plano que nossas corporações deverão seguir. Todos olham ansiosos para o grande holograma que surge no alto da mesa. Eles sabem que representam as sessenta famílias que controlam toda a riqueza do planeta. Por isto agora seus aparatos de poder reagem violentamente ao que chamam de desordem das massas. Enquanto isso milhões de pessoas invadem ao mesmo tempo os gabinetes corporativos e governamentais. São os braços de três bilhões de sobreviventes que se organizam mundialmente através da Grande Rede. Nela deliberam regras para regular a desordem esgotadora de pessoas e natureza que perdurou por mais de cinco séculos. Walton Lee Rockefeller prossegue: - Vejam esta constelação de satélites ao redor da Terra. A maioria deles estão equipados com canhões Zhaarp. Se disparados em direção a todas as cidades da Terra, inutilizarão todos os equipamentos eletrônicos. Será o fim da Internet e com ela as mobilizações que atentam contra a liberdade dos

empreendimentos. - Mas sem Internet como ficarão nossos negócios? Se voltarmos à era do papel, dos contratos através de correios, nossos lucros cessarão. - Diz um gordo senhor. - Muito simples, senhor Carl Johnson. A partir de amanhã passará a funcionar a mundial rede fotônica, única imune aos pulsos Zhaarp. Todas as nossas operações passarão a utilizá-la. Diferente da Internet baseada em eletrônicos e totalmente descontrolada, a rede fotônica (que utiliza somente raios luminosos) será centralizada e apenas os conteúdos que nos interessam trafegarão por ela. Devemos firmar agora o compromisso de que nossas Industrias nunca mais produzirão eletrônicos. Tiremos assim a ferramenta com que os baderneiros se mobilizam e retomaremos o controle do mundo, a tranqüilidade dos nossos negócios. Todos aplaudem exultantes. Pequenos hologramas em frente de cada magnata coletam suas assinaturas biométricas. Cada corporação recebe uma parte a ser cumprida no plano. O grande holograma central se transforma em um imenso cronômetro em contagem regressiva mostrando o tempo inicial de seis horas, seis minutos e seis segundos.

Um detetive...
Uma loira gostosa...

Um assassinato...
E o pau comendo entre as máfias italiana e chinesa.

O COvil dos inOCentes
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do
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gr

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tradução

Carta de Cristovão

anunciando o descobrimen

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o Colombo
Tradução: Henry Alfred Bugalho

nto da américa

Senhor, porque sei que terá prazer na grande vitória que Nosso Senhor me concedeu em minha viagem, escrevo-lhe esta, pela qual saberá como em 33 dias passei das ilhas de Canária para as Índias, com a armada que os ilustríssimos rei e rainha nossos senhores me concederam, onde encontrei muitas ilhas povoadas com gente sem número; e de todas elas tomei posse por Sua Alteza com pregão e bandeira real estendida, e não me contradisseram. À primeira que encontrei, nomeei San Salvador (ilha Watling) em comemoração a Vossa Alta Majestade, ao qual maravilhosamente tudo isto se deve; os índios a chamam de Guahaní; à segunda pus o nome de ilha de Santa Maria de Conceição (Cayo Rum); à terceira de Fernandina (Isla Long); à quarta de Isabela (Isla Crooked); à quinta de ilha Juana (Cuba), e assim a cada uma um novo nome. Quando cheguei à Juana, segui pela costa dela em direção ao poente, e a achei tão grande que pensei ser terra firme: a província de Catayo. E como não encontrei vilas e povoados na costa do mar, excetuando pequenas povoações, com gente com as quais não se podia falar, porque logo fugiam todos, andava eu adiante pelo dito caminho, pensando em

http://www.umich.edu/news/Releases/2005/Sep05/img/columbus.jpg

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não errar grandes cidades ou vilas; e, a cabo de muitas léguas, visto não haver novidades, e que a costa me levava a setentrião, contrário à minha vontade, porque o inverno já estava encarnado, e eu tinha o propósito de ir ao austro, e também o vento me deu adiante, decidi não aguardar mais, e retornei até um porto assinalado, de onde enviei dois homens por terra, para saber se havia rei ou grandes cidades. Caminharam por três jornadas, e encontraram infindas povoações pequenas e gente sem número, mas não coisa de regimento; por isto voltaram. Eu havia aprendido muito com outros índios, que já havia dominado, que esta terra era uma ilha, e assim segui a costa ao oriente cento e sete léguas até onde acabava. De onde vi outra ilha ao oriente, distante desta dezoito léguas, à qual logo pus o nome de a Espanhola e fui para lá, e segui a parte setentrional, assim como de Juana ao oriente, 188 grandes léguas por linha reta. Juana e todas as outras são fertilíssimas em grande grau, e esta ao extremo. Nela, há muitos portos na costa para o mar, sem comparação, que eu saiba, a outros entre os cristãos, e rios fartos, bons e grandes, que são maravilhosos. Suas terras são altas, e nela há muitas serras e

montanhas altíssimas, incomparáveis às da ilha de Tenerife; todas belíssimas, de feições, e todas acessíveis, e cheias de altas árvores de mil espécies que parecem chegar ao céu; e ouvi dizer que jamais lhes caem as folhas, segundo pude entender, pois as vi tão verdes e belas como são em maio na Espanha, e estavam floridas, com frutos maduros, ou em outros estágios; e, no mês de novembro, cantava o rouxinol e outros passarinhos de mil espécies por ali onde eu andava. Há palmeiras de seis ou oito tipos, que são admiráveis de ver, pela bela deformidade delas, assim como há outras árvores, frutos e ervas. Nela, há maravilhosos pinheiros e vastíssimas campinas, e há mel, muitos tipos de aves e frutas as mais diversas. Nas terras, há muitas minas de metais, e há gente em número estimável. A Espanhola é maravilhosa; há serras, montanhas, fozes, campinas, e terras belas e férteis para plantar e semear, para criar gados de todas as sortes, para edificação de vilas e povoados. Só se crê nos portos ao mar daqui ao vê-los, e nos rios vários e grandes, e nas águas salubres, a maioria das quais traz ouro. Há grandes diferenças nas árvores, frutos e ervas entre desta e as de Juana. Nesta, há muitas especiarias, e grandes minas de ouro e de outros metais.

As gentes desta ilha e de todas as outras que encontrei e das quais tive notícia, andam todas desnudas, homens e mulheres, assim como as mães que os parem, ainda que algumas mulheres se cubram num único lugar com uma folha de erva, ou uma coberta de algodão feita para isto. Eles não tem ferro, nem aço, nem armas, nem palavra para isto, não porque não sejam gente de boa constituição e de bela estatura, mas porque são medrosos ao extremo. Não tem outras armas, excetuando armas de canas, quando estão com a semente, nas quais põem no fim um palito agudo; e não ousam usar delas; pois muitas vezes ocorreu de eu enviar à terra dois ou três homens a alguma vila, para travar diálogo, e dar com um sem número deles; e ao vê-los chegarem, estes fugiam de tal maneira que o pai não esperava o filho; e isto não porque alguém os havia feito mal antes, pois por onde estive e pude travar contato, havia dado a eles tudo que tinha, assim como tecidos e outras muitas coisas, sem receber deles coisa alguma; mas são medrosos assim sem remédio. Verdade é que, depois que se certificavam e perdiam o medo, eles eram tão sem malícia e eram tão liberais com o que tem, que não creríeis sem o ver. Das coisas que eles tem, se pe-

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dir, jamais dizem não; pelo contrário, convidam a pessoa consigo e demonstram tanto amor que dariam os próprios corações, e se quiser algo de valor, ou seja coisa de pouco preço, trocam logo por qualquer outra coisinha, de qualquer maneira, que eles se vão contentes. Eu defendi que não lhes dessem coisas tão réles, como pedaços de caldeirões furados, ou pedaços de vidro quebrado, ou pontas de cadarços, pois quando eles recebiam isto, para eles parecia ser a melhor jóia do mundo. Ocorreu haver um marinheiro que recebeu, por uma ponta de cadarço, o equivalente ao peso de ouro de dois castelhanos e meio; e outros, de outras coisas que valiam muito menos, muito mais; já por moedas de prata davam tudo que tinham, mesmo que fossem dois ou três castelhanos de ouro, ou uma arroba de algodão. Até os pedaços de arcos quebrados e dos barris eles aceitavam, e davam o que tinham como animais; assim isto me pareceu mal, e eu os defendia, e eu dava com alegria mil coisas boas, que eu levava, para que se afeiçoassem, e que, além disto, se tornassem cristãos, e se inclinassem ao amor e serviço de Suas Altezas e de toda a nação castelhana, e procurassem juntar e nos dar as coisas que tem em abundância e que nos são necessárias. E eles não conhe-

cem nenhuma seita nem idolatria, excetuando que todos acreditam que o poder e o bem estão no céu, e tinham a firme crença que eu, com estes navios e pessoas, vinha do céu, e nesta suposição me recebiam em todos os cantos, depois de terem perdido o medo. E isto não ocorre porque sejam ignorantes, pelo contrário, são homens de muito sutil engenho e navegam todos aqueles mares, e é de se maravilhar a boa conta que eles tem de tudo; excetuando que nunca viram gente vestida, nem navios semelhantes. E logo que cheguei às Índias, na primeira ilha que encontrei, tomei por força alguns deles, para que aprendessem e me dessem notícia do que havia naquelas partes, assim foi que logo nos entenderam, e nós a eles, seja por língua ou sinais; e isto foi de muito proveito. Hoje em dia, trago-os comigo, mesmo que eles ainda acreditem que venho do céu, apesar de muita conversa que travaram comigo; e estes eram os primeiros a anunciar, onde quer que eu chegava, e os outros andavam correndo de casa em casa, e até as vilas próximas, com vozes altas: Venham, venham ver a gente do céu; assim, todos, tanto homens quanto mulheres, depois de perderem o medo da gente, vinham, adultos e crianças, e

todos traziam algo de comer e beber, que davam com um amor maravilhoso. Eles tem em todas as ilhas muitas canoas, como as fustas de remos, algumas maiores, outras menores; e algumas são maiores do que uma fusta de dez ou oito bancos. Não tão largas, porque são de uma tora única; mas uma fusta não compete com elas ao remo, porque são velozes que não dá para acreditar. E com estas navegam todas aquelas ilhas, que são inumeráveis, e comerciam suas mercadorias. Vi em algumas destas canoas 70 e 80 homens, e cada um com seu remo. Em todas estas ilhas não vi muita diversidade na feição das gentes, nem nos costumes ou na língua; salvo que todos se entendem, que é coisa muito propícia para a determinação de Suas Altezas para a conversão deles à nossa santa fé, para a qual são muito dispostos. Já disse como eu havia andado 107 léguas pela costa do mar pela linha direita do ocidente para o oriente pela ilha de Juana, segundo tal caminho posso dizer que esta ilha (Juana) é maior que a Inglaterra e a Escócia juntas; porque, além destas 107 léguas, há na parte poente, duas províncias que eu não percorri, uma das quais chamam Avan, onde nasce gente com rabo; tais provincias

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não podem ter menos de 50 ou 60 léguas de comprimento, segundo pude entender dos índios que me acompanham, os quais conhecem todas as ilhas. Esta outra Espanhola tem de circunferência mais que a Espanha toda, desde Colibre (Catalunha), pela costa do mar, até Fuenterrabía em Biscaya, pois em um quadrante, percorri 188 grandes léguas por linha reta de ocidente a oriente. Ela é de se desejar, e ao ser vista, para nunca se deixar; na qual, posto que de todas tenha tomado posse por Suas Altezas, e todas sejam mais abastadas do que sei ou posso dizer, e todas tenho por Suas Altezas, que delas podem dispor como e tão absolutamente como dos reinos de Castela, nesta Espanhola, o lugar mais conveniente e melhor região para as minas de ouro e de todo comércio, assim em terra firme daqui como aquela de lá do Grande Khan, onde haverá comércio e lucro, tomei posse de uma vila grande, à qual pus o nome de vila da Natividade; e nela pus força e fortaleza, e que já nestas horas deve estar de todo concluída, e deixei nela gente suficiente para protegêla, com armas, artilharias e vitualhas para mais de um ano, e fusta e mestre de mar em todas as artes para construir outras, e grande amiza-

de com o rei daquela terra, em tamanho grau, que lhe apetecia chamar-me e ter-me como um irmão, e ainda que lhes mudasse a vontade em ofender esta gente, nem ele nem os seus sabem o que sejam armas, e andam desnudos, como já disse, e são os mais medrosos que existem no mundo; assim que apenas aquelas pessoas que lá deixei são suficientes para destruir toda aquela terra; e é ilha sem perigo para eles, se se souber regê-la. Em todas estas ilhas me parece que todos os homens se contentam com uma mulher, e a seus governantes ou rei dão até vinte. Parece-me que as mulheres trabalham mais que os homens. Não consegui entender se eles tem bens próprios; pareceume que aquilo que um tinha, todos tinham parte, em especial os víveres. Até aqui, nestas ilhas, não encontrei homens monstruosos, como muitos pensavam, mas antes toda a gente é de mui linda compleição, não são negros como na Guiné, excetuando seus cabelos escorridos, e não se criam onde há ímpeto demasiado dos raios solares; é verdade que o sol tem ali grande força, posto que é distante da linha equinocial vinte e seis graus. Nestas ilhas, onde há montanhas grandes, ali o frio tinha força neste inverno; mas eles

o sofrem por costume, e com a ajuda das comidas que comem em muitas espécies e muito quentes. Assim não encontrei monstros, nem notícia, tirando em uma ilha Quaris, a segunda à entrada das Índias, que é povoada por uma gente considerada em todas as ilhas como muito ferozes, que comem carne humana. Eles tem muitas canoas, com as quais percorrem todas as ilhas da Índia, e roubam e tomam o quanto podem; eles não são mais disformes que os outros, salvo que tem o costume de trazer os cabelos longos como mulheres, e usam arcos e flechas das mesmas armas de canas, com um palito no fim, por causa do ferro que não tem. Entre os outros povos, covardes em grau demasiado, estes são ferozes, mas eu não acho que sejam piores que os outros. Estes tratam com as mulheres de Matinino, que é a primeira ilha, partindo da Espanha para as Índias, na qual não se encontra homem algum. Elas não praticam o exercício feminino, mas arcos e flechas, como os supracitados, de canas, e se armam e se protegem com folhas de cobre, que tem em muita disponibilidade. Há outra ilha, asseguramme que maior do que a Espanhola, em que as pessoas não tem cabelo algum. Nesta há ouro sem conta, e desta e

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de outra trago comigo índios para testemunho. Concluindo, ao falar disto que apenas ocorreu nesta viagem, que foi assim rapidamente, podem ver Suas Altezas que eu lhes darei quanto ouro puder suprir, com muita pouca ajuda que Suas Altezas me darem; agora, especiaria e algodão quanto Suas Altezas mandarem, e almástiga quanto mandarem carregar, e de qual até hoje não se encontra a não ser na Grécia, na ilha de Chios, e o Senhorio vende como quer, e aloé quanto mandarem carregar, e escravos quanto mandarem carregar, e serão dos idólatras; e creio haver encontrado ruibarbo e canela, e outras mil coisas de substância encontrarei, sobre as quais encontraram a gente que eu lá deixei; porque eu não me detive em lugar algum, enquanto o vento me havia ajudado a navegar; apenas na vila de Natividade, que deixei assegurada e bem assentada. E, na verdade, muito mais faria, se me servissem navios na razão necessária. Isto deve ao grande e eterno Deus Nosso Senhor, que dá a todos aqueles que conseguem coisas que parecem impossíveis; e esta obviamente foi uma destas; porque, ainda que se tenham falado ou escrito sobre estas terras, tudo é conjetura sem

vê-las, mas compreendendo, os ouvintes escutavam e julgavam mais pela fala e faziam pouco caso. Assim, pois, Nosso Redentor deu esta Vitória a nossos ilustríssimos rei e rainha e a vossos reinos famosos, da qual toda a cristandade deve se alegrar e celebrar grandes festas, e dar graças solenes à Santíssima Trindade com muitas orações solenes, ao converter tantos povos à nossa santa fé, e depois pelos bens temporais; que não apenas a Espanha, mas todos os cristãos terão aqui refrigério e lucro. Isto, segundo o feito, assim em breve. Data na caravela, nas ilhas de Canária, em 15 de fevereiro, ano 1493. Farei o que mandarem O almirante. *** Depois de esta escrita, e estando no mar de Castela, saiu tanto vento sul e sueste comigo, que tive de descarregar os navios. Mas percorri aqui este porto de Lisboa hoje, que foi a maior maravilha do mundo, onde voltei escrever a Suas Altezas. Em todas as Índias, sempre encontrei temporais como em maio; para onde fui em 33 dias, e voltei em 28, excetuando estas tormentas que me detiveram 13 dias vagando

por este mar. Dizem aqui todos os homens do mar que jamais houve inverno tão ruim, nem tantas perdas de naus. Data a 4 dias de março. (O original desta carta de Colombo desapareceu. Conservam-se várias versões em espanhol, italiano e latim. Nossa edição eletrônica segue a cuidadosa edição de Lionel Cecil Jane, em sua obra Selected Documents Illustrating the four Voyages of Columbus. 2 vols. London: The Hakluyt Society, 1930. Vol. I, 2-19] Fonte: http://www.ensayistas.org/antologia/XV/colon/

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Envolvido desde cedo com a arte da navegação, Cristóvão Colombo realizou suas primeiras viagens em Gênova, no norte da Itália, onde nasceu. Em 1476, a serviço de um comerciante, acabou naufragando nas costas de Portugal, onde passou a viver. Ali morou dez anos, sobretudo no arquipélago da Madeira. Nesse período, dedicou-se a estudar as rotas de navegação, convencido da existência de uma passagem marítima pelo Ocidente até as Índias. Casou-se 1480 com Felipa Muniz, filha do navegador Bartolomeu Perestelo, em cuja biblioteca estudou as obras que viriam a certificá-lo da existência de novas terras. Com Felipa, que morreria quatro anos depois, teve um filho, chamado Diego. Por esta época, Colombo tentou, em vão, convencer o rei de Portugal D. João II a conceder permissão para uma viagem ao Oriente. Em 1485, Colombo fixou-se na Espanha, movido pelo interesse manifestado pelo reis de Castela, Fernando e Isabel, em patrocinar a viagem, com o intuito de expandir a fé católica para as terras orientais. Composta por três caravelas Pinta, Nina e Santa Maria - a frota de Colombo deixou as costas da Espanha dia 3 de agosto de 1492. A viagem foi atribulada e a tripulação quase pereceu em terríveis tempestades e tentativas de motins. No dia 12 de outubro, Colombo chegou na ilha que chamaria de San Salvador, no arquipélago das Bahamas. Na-

vegou pela ilha de Cuba e pelo Haiti, retornando à Espanha em março de 1493. Tinha certeza de ter chegado ao Oriente. Neste mesmo, ano fez sua segunda viagem, com uma frota de 17 naus. Chegou ao Caribe e descobriu várias ilhas, como Dominica, Guadalupe, Porto Rico e Jamaica. Em 1499, numa terceira viagem, alcançou terra firme, nas costas da atual Venezuela. Reconheceu também as ilhas de Trinidad e Tobago e Granada. Desta viagem, no entanto, já regressou com ordem de prisão. Mesmo perseguido por intrigas palacianas e não mais desfrutando dos privilégios reais, Colombo conseguiu se libertar. Assim, empreendeu ainda uma quarta viagem, entre 1502 e 1504, completando o reconhecimento da costa da América Central. Tendo regressado à Espanha em 1504, caiu no ostracismo, abandonado e esquecido. Morreria dois anos depois - e sem saber que havia descoberto um novo continente. Acreditava ter chegado a um anexo remoto da Ásia. Fonte: http://educacao.uol.com. br/biografias/ult1789u207.jhtm

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o autor independente

Caminhos para

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teoria Literária

Henry Alfred Bugalho

http://www.corleyfamilynapavalley.com/blog/wp-content/uploads/2009/05/bucher-press-installation.jpg

(Este é o terceiro artigo de uma série sobre publicação independente na era digital)

este método dependerá da tiragem desejada para o seu livro. A impressão off-set só compensa para tiragens superiores a mil exemplares, aliás, muitas gráficas nem aceitam encomendas para tiragens menores. O valor unitário do livro em off-set, em preto e branco, costuma ficar em torno de 3 ou 4 reais, mas pode sair mais em conta para tiragens mais altas, ou seja, para mil exemplares esteja preparado para desembolsar uns 4 mil reais, incluindo, às vezes, a diagramação. Vale lembrar que este tipo de impressão só vale a pena caso o autor já tenha um número razoável de leitores (i.e. compradores) e um local para armazenar os livros. Vender mil livros no Brasil não é nada fácil e nem sempre aquelas pessoas com as quais contamos — parentes e amigos — comprarão um exemplar. Até poucos anos atrás, esta era a única alternativa existente para um autor independente, o que dificultava bastante a vida pelo alto custo da impressão e pelas centenas de exempla-

res encalhados em casa. Para quem pretende publicar deste modo, é fundamental fazer uma boa pesquisa, solicitar orçamentos e, se possível, conversar com autores que já tenham publicado através da gráfica consultada e conferir a qualidade da impressão e acabamento dos livros.

Nos artigos anteriores sobre publicação independente, já expressei muito claramente o que é, para mim, o principal caminho para o autor independente hoje: a internet. Publicar e divulgar seus trabalhos literários através da internet é o modo mais barato e eficaz para chegar aos leitores. No entanto, esta não é a única possibilidade, apesar de hoje ser quase inevitável a utilização da rede, em alguma etapa do processo de autopublicação. Basicamente, há quatro opções principais para o autor independente publicar suas obras: 1 – impressão off-set; 2 – impressão digital; 3 – blog ou sítio literário; e 4 – livro eletrônico.

2 – impressão digital
O processo de impressão digital se aproxima mais do que estamos habituados com a nossa impressora doméstica, resguardando as diferenças de processos e qualidade, com a impressão feita sem a necessidade de fotolitos, como ocorre no caso da impressão off-set. A grande vantagem da impressão digital é a possibilidade de se imprimir tiragens menores, às vezes de um único exemplar, com um custo relativamente baixo. Há algumas críticas em relação à qualidade da impressão, mas acredito que seja algo pouco distinguível para o leitor leigo e que não afete a leitura. O autor pode optar por uma gráfica e encomendar

1 – impressão off-set
Não entraremos nas especificidades técnicas do processo de impressão offset (principalmente porque não me sinto apto a explicá-las), mas o importante é saber que a escolha por

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tiragens menores, como 100 ou 200 exemplares, ou por uma editora sob demanda, que imprimirá apenas os exemplares encomendados por leitores. Desta maneira, o autor se livra de altos custos iniciais e de pilhas de livros empoeirando no quarto. No entanto, mesmo assim, uma tiragem de 100 exemplares pode chegar a custar uns 600 reais, já que o preço unitário é um pouco maior do que no caso da impressão off-set. Já no caso de editoras sob demanda, existe um vasto rol de opções e pacotes, desde editoras que não cobram nada, ou muito pouco, para inserir o livro no catálogo, até outras que chegam a cobrar até mais do que custaria uma tiragem offset. Novamente, uma boa pesquisa é crucial para não cair numa furada.

espécie de diários abertos ao público na internet. A primeira reação foi de repúdio, considerando este como um fenômeno adolescente passageiro. Contudo, após o surgimento de vários blogs de influência em 2000 e 2001, a mídia e a crítica começaram a rever o papel dos blogs na cultura digital. Hoje, praticamente quase todo grande veículo de comunicação mantém um ou mais blogs, e dezenas de milhares são criados todos os dias. A grande vantagem do blog, e este é um dos segredos da imensa popularidade, é a facilidade da interface para publicação e atualização de conteúdo. Com um mínimo de conhecimento de informática, é possível criar uma conta num dos vários provedores de blogs e começar a publicar. Esta é uma ferramenta que tem sido usada por escritores desconhecidos para dar visibilidade a suas obras, ou para escritores já consagrados manter um contato mais próximo com seus leitores. Ressalto que este é um instrumento de comuni-

cação que não pode ser desprezado e, por mais que passe por muitas mudanças no futuro, acredito que redefinirá a nossa noção de cultura e contato com os leitores. Além deste recurso, há vários sítios literários que agregam textos e autores, e que propiciam troca de experiência entre seus participantes e servem de vitrines literárias. Todavia, na minha opinião, estes sítios tendem a servir mais como comunidades de escritores do que uma via de acesso aos leitores, o que não diminui a importância deste tipo de relacionamento.

4 – livro eletrônico
Não sabemos qual será o futuro do livro eletrônico, ou e-book. Significará o fim do livro impresso? Conseguirá sobreviver à crise do copyright? Finalmente popularizará a leitura entre os brasileiros? São questões sem resposta, por enquanto. No entanto, para o autor independente, ao lado dos blogs, é a maneira mais barata para

3 – blog ou sítio literário
Ao contrário dos dois itens anteriores, publicar um blog ou num sítio literário costuma ser de graça. O blog como conhecemos hoje surgiu em 1998, inicialmente como uma

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conseguir se publicar um livro e talvez ser lido por alguém. Estatísticas do ano passado, no mercado editorial norte-americano, indicam que houve uma queda significativa nas vendas de livros (algo em torno de 15%), enquanto que as vendas de livros eletrônicos quintuplicaram. Isto pode insinuar duas coisas: a) que o livro eletrônico está realmente começando a se popularizar, graças aos preços mais baixos e à proliferação de dispositivos eletrônicos, como celulares, palm-tops e leitores de e-books, e por isto está se consumindo mais, ou b) que o mercado tem começado apenas agora a investir neste nicho e o crescimento só reflete este influxo inicial de consumidores que estão migrando do livro impresso para o digital. A vantagem do livro eletrônico é que ele pode ser diagramado em programas simples, como o Microsoft Word, e facilmente convertido em .PDF através de programas baixados gratuitamente na internet. Um autor que já possua um pequeno público leitor

chegará sem dificuldades a 200 ou 300 downloads, se o livro for distribuído gratuitamente, ou até venderá alguns exemplares se o preço unitário for razoavelmente baixo. Tudo isto a custo zero.

Conclusão
Estas quatro alternativas já representam um grande passo para o autor independente, que encontra na internet uma inestimável aliada na hora de divulgar e distribuir sua produção literária. Obviamente que, ao mesmo tempo em que a publicação digital facilita a vida do autor, ela também dificulta a visibilidade, já que um número muito maior de autores também competirão por seu lugar ao sol. Por isto, o fundamental é, antes de tudo, um bom conteúdo, uma boa apresentação gráfica e um dedicado trabalho de divulgação. No entanto, nada disto é garantia de sucesso, mas é um ótimo começo.

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teoria Literária

Jogue sua Gramática no Lixo
Guilherme Augusto Rodrigues

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Há pessoas que por decorarem a gramática acham que sabem língua portuguesa e por isso pensam que podem ridicularizar outros falantes que não falam como elas. Essas pessoas que decoraram as regras não sabem os conceitos que abordam a língua portuguesa. A gramática não é a língua! São profundos leigos quando se trata de língua portuguesa. O conhecimento da língua requer estudos, pesquisas, reflexões e conceitos que estão além da gramática normativa. Nós que estudamos a língua de uma maneira mais ampla e científica (e isso quer dizer que não nos prendemos a regras sem sentido e “furadas” da gramática normativa), sabemos que a língua portuguesa possibilita várias formas de se falar que não são descritas pela gramática normativa e são tidas como “erros”, as quais preferimos chamar de variações linguísticas. Mesmo conscientes da existência dessas formas os gramáticos insistem em ignorá-las. Nós estudamos e pesquisamos essas variações linguísticas e entendemos porque uma pessoa fala “para mim fazer” ao invés de “para eu fazer”, e por isso, não a ridicularizamos. O português falado pelo homem analfabeto do

sítio considerado “errado” por gramáticos e seus seguidores (leigos), não é o mesmo falado por um homem escolarizado que vive na cidade. E este homem analfabeto do sítio consegue se expressar e se comunicar com o homem escolarizado da cidade. Eles se entendem. Ninguém fala errado, fala diferente. O conceito de certo e errado com relação à fala não existe. Porém, há erros quanto à estrutura, por exemplo: “livro eu um longo ontem li”, está frase está errada e nenhum falante do português falaria assim, ele tem domínio do que pode e do que não pode. E mesmo assim, em raríssimas situações, quando comete um erro estrutural, corrige-se imediatamente. É possível escrever e falar bem sem ter conhecimentos normativos. Quando se estuda a língua portuguesa cientificamente, torna-se mais fácil e prazeroso o aprendizado das normas. Saber a gramática normativa não é ascensão econômica ou social, e saber suas regras e nomes técnicos não muda nada para o aluno ou morador do sítio. Eles sabem o português, o que não sabem são as regras da gramática. A frase: “alugam-se casas” tão defendida por gramáticos, leigos e professores

tradicionalistas, contém um erro (e não visto por eles). Já que a frase não segue a ordem: sujeito, objeto e verbo; então, colocaremos: “casas se alugam”. Alguém já viu casa se alugar? Além de estar errada, provoca boas gargalhadas. Nós temos uma explicação lógica e que não nos provoca risos. “Alugam” é o verbo, “se” é o índice de indeterminação do sujeito e “casas” é o objeto. Neste caso, a frase não tem sujeito, e “aluga-se casa” ou “aluga-se casas” ambas estão corretas. Então, quando vir escrito “aluga-se casas” não faça cara feia! Quando uma pessoa fala “errado” o único motivo para rir são as outras que a ridicularizam pelo “erro”, que não sabem e não entendem porque ela fala desse jeito. O grande mal do ensino da língua portuguesa é que gramáticos tradicionalistas fazem sucesso entre os leigos, e pessoas que adentram os campos da lingüística, criam leis sem fundamentos (como a inútil “antiestrangeirismos”), publicam “Guia Prático de Português”, “Português sem Complicação” e outros livros relevantes só para ganharem dinheiro, sem terem estudado e sem saberem como é, de fato, o estudo e funcionamento da língua portuguesa.

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Crônica

Eu não gosto de
ninguém da américa do Sul!
Léo Borges

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Minha sogra quer porque quer me fazer acreditar no diabo. Ela diz que o diabo existe e que precisamos acreditar nele e em suas maldades. Mais do que isso, ela também quer me fazer crer no inferno, de preferência o bíblico, já que eu, como policial, penso que o verdadeiro inferno seja a prisão. Com empedernida fé, ela não admite que eu não creia no reverso de Deus (e nem em seu habitat), o que, desta maneira, comprometeria a utilidade Deste. Afinal, como Deus poderia existir se não houvesse o Seu oposto? Um amigo concordou no que se refere à existência do inferno factual. Ao saber da característica de firme crença em figuras bíblicas por parte da mãe de minha esposa ele asseverou que qualidades como “sogra” e “ortodoxia religiosa” não poderiam – de forma alguma – coexistir em uma mesma pessoa. Caso contrário, isso seria, necessariamente, o inferno. Trata-se, claro, de um bem-humorado exagero, até porque, ainda que minha sogra evidencie seus dogmas cristãos, o sadio bom senso prevalece e nosso convívio não é afetado por nada além de subsídios que, eventualmente, ela me propicia como ponto introdutório a crônicas vadias.

E servindo-me desses subsídios, lembrei-me do ocorrido numa certa meianoite de um certo sábado. Estava esboçando um artigo no computador quando recebi a chamada no celular para cuidar de um detento que havia caído no banheiro da cela. Eu era o agente responsável pelo que viesse a ocorrer naquela madrugada e, por isso, fui encarregado de levá-lo, junto com outro colega acionado, para o prontossocorro. O sujeito parecia ter sofrido uma luxação na clavícula e não conseguia mexer um dos braços. No trajeto, o discurso de sempre: que os políticos também roubam e não estão presos; que não merecia punição tão rigorosa, pois não matou e nem estuprou; que o que fez foi apenas para não deixar a família passar fome. Tudo entremeado pelos tradicionais ruídos de sirene e gemidos. Até então eu nunca havia estado no São Lucas, hospital público de Vitória. Ao entrarmos, deparei-me com o local de sofrimento máximo de que minha sogra tanto falava. Eram dezenas de pessoas – muitas deitadas em macas e outras, menos afortunadas, em colchonetes espalhados pelo chão – murmurando dores lancinantes. Algu-

mas não tinham força para gemer e apenas se retorciam, mas todas possuíam semblantes que oscilavam entre angústia e desespero. Atropelados, baleados, esfaqueados, queimados, mutilados, drogados, parentes aflitos, amigos tensos, médicos atordoados. Era um cenário desconcertante. E o ombro do nosso preso transformou-se em um problema menor. O vigilante comentou que todo dia era mais ou menos aquilo, mas que no fim-de-semana o panorama se agravava. Data em que as pessoas saem, se embebedam, brigam, dirigem alcoolizadas, e, por fim, transformam o lugar de frios azulejos brancos em algum tipo de inferno. Após a análise da radiografia, que demorou quase uma hora para ficar pronta, um dos médicos recomendou imobilização da clavícula, que apresentava discreta fissura. O problema, a partir daí, começou com a ausência do gesseiro. Mantivemos prontidão na porta da sala de gesso, onde algumas outras pessoas também o esperavam. O diapasão lamuriento era a principal fonte sonora do lugar, porém, era vencido constantemente por gritos desconexos e esporádicos vindos da ala da psiquiatria. Percebi que

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aquele setor possuía uma peculiaridade que fugia à lógica. Apesar de poucos, os pacientes de lá não mostravam tristeza pelo mal que os acometia, mas um nervosismo agudo, uma loucura que não compactuava com o mórbido padrão passivo de todos. Eles não aceitavam estar no inferno sem alguma resistência. – Vamos embora, Valtinho. Vamos embora daqui – passou falando alto um rapaz dos seus vinte e poucos anos, se evadindo da sala do psiquiatra, que, assim como o gesseiro, também estava desaparecido. Sua voz estava tão perdida quanto seu olhar. O jovem, magro, olhos fundos, cabelo desgrenhado, trajava camisa branca surrada, calça jeans e chinelo. Possuía pequena barbicha a qual coçava repetida e nervosamente. Viu-se que Valtinho era a pessoa que o acompanhava e que tentava limitar seus atos. Mantinha um sorriso de constrangimento, como se quisesse dizer “ele está com problemas mentais, desculpem-no”. O rapaz não sabia onde estava e nem que, provavelmente, iria ficar internado. Liberto das mãos de Valtinho, voltava a andar de um ponto ao outro do extenso corredor ponderando ora sozinho, ora com o acompanhante.

– Tá trancado lá, Valtinho! Não tá aberto não!

Algumas pessoas procuravam se esconder como se ele representasse um perigo real, como se a qualquer momento ele fosse deflagrar uma guerra contra tudo a sua volta. – Piranha! Piranha! – gritou para algum ente imaginário. Pôs as mãos na cabeça e se sentou. De quem estaria falando? Certamente não se referia a uma garota com uma minissaia rota que perambulava entre nós com a boca inchada e os olhos roxos, já que ele enxergava as pessoas com homogênea singularidade. Acredito que tenha sido para sua consciência mesmo, que aos poucos se vendia, aceitando que não poderia fugir daquele circo dos horrores. Valtinho via que preso à irresponsabilidade de alguém o jovem estava e que preso ficaria, refém que era da omissão da rede pública hospitalar. Todos, doentes ou não, eram detentores da mesma impotência daquele condutor, que procurava apenas cumprir – sem vexame – seu único objetivo dentro daquele asfixiante lugar: acalmar o subversivo jovem.

Como a situação ganhava contornos apocalípticos, fez-se um movimento para que algum sedativo fosse arrumado às pressas. Sem aviso, o protagonista da noite se levantou e iniciou outra vertiginosa incursão pelo corredor, cruzando as macas com desprezo quase agressivo. – Eu não gosto de ninguém da América do Sul! – bradou. Aquela frase me intrigou muito. Sem um raciocínio equilibrado, o que o levaria a decretar raiva a todos os habitantes de um imenso continente? Bom, todos ali éramos da América do Sul, crescemos na América do Sul e vivíamos na América do Sul. Mas em sua ótica não havia mais diferença entre o preso e o policial, o médico e o paciente, a enfermeira e a puta, o maluco e o são, afinal, todos eram sul-americanos e, portanto, pertencentes à sua lista de odiados. Com os gritos, um homem literalmente amarrado numa das macas começou a se remexer, contraindo os músculos e comprimindo os olhos, parecendo querer nos mostrar os reais efeitos da cocaína. Toda sua triste performance, entretanto, não o livrava de ser também uma persona non grata.

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– Eu não gosto de ninguém da América do Sul! – repetiu com olhar sem rumo. Conseguia passar medo com o tom de voz estridente, fazendo com que um ou outro procurasse se espremer atrás de nós, acreditando que armas pudessem confortá-los diante daquela loucura ameaçadora. Era curioso, pois, por mais desvairada que fosse a declaração, ao ser feita aos berros ela se revestia de uma sinceridade visceral. E exteriorizada daquela forma, por aquele emissor e naquele ambiente, gerava grande pavor. Eu tentava imaginar: estaria ele realmente indignado com a miséria boliviana? A corrupção paraguaia? A insensatez venezuelana? A indiferença chilena? A soberba argentina? A guerrilha colombiana? O opróbrio brasileiro? Não se sabe. A única certeza era que a passividade dos pacientes, dos familiares, dos médicos e dos policiais não fora abalada. Mesmo diante de tão incisiva afirmação, continuamos como os inertes espectadores que éramos, já que ninguém demonstrava sentir o menor dos ódios contra o descaso estatal. O retrato da saúde sucateada era emblemático e,

por isso, palavras ensandecidas como aquelas serviam como um resumo geral, uma síntese consistente do melancólico cenário institucional latino-americano. O sistema, sem um culpado visível, mostrava a consequência de sua sujeira e de seu descompromisso. Mas alguém havia se rebelado. Um paciente da ala psiquiátrica decretou que não gostava de ninguém da América do Sul – o inferno do populismo e da demagogia – e isso incomodava.

A GUI

Henry Alfred Bugalho

Nova York
para Mãos-de-VAca
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O Guia do Viajante Inteligente

Essas palavras devem ter mexido de forma definitiva com os brios patrióticos de alguns enfermeiros que, com alguma truculência, enfim, o sedaram. Sem mais alvoroço, o jovem caiu calado, com o corpo torto num banco manchado de mercúrio. Engessamos o preso e fomos embora. O psiquiatra, pelo que ouvi, ainda levaria mais algumas horas para chegar.

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Crônica

Ju Blasina

quem é você, quem sou eu?
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Adulta jovem, humana, gaúcha, virginiana, casada, chocólatra, escritora... Até alguns dias atrás, pensava eu que estas características poderiam brevemente me definir em palavras. Pois não é que eu estava redondamente enganada? Recentemente descobri que podemos ser muito mais do que ousamos imaginar. Quer saber como? Eu explico, mas aviso de antemão: fujam enquanto há tempo, pois o hábito que eu lhes apresentarei é extremamente contagioso e viciante! Quando eu era menina, a moda era o “questionário” (perguntas escritas em um caderno passado de mão em mão; jogo semelhante a um censo de informações pessoais trocadas entre os amigos), depois vieram os testes de revistas femininas e agora isso: O quiz virtual. Quiz, nada mais é que o nome dado àqueles testes aonde, através de uma série de perguntas e respostas, chegamos a um resultado surpreendente, como por exemplo: se “ele/ela beija bem”, se “você é econômico” ou “que fruta você seria”. Sim, informações de “extrema relevância”. Hoje em dia, munido de um computador ligado à internet, um pouco de paciência e muita falta do que fazer, você pode descobrir tudo o que não sabia sobre si mesmo, como que música, livro, animal, artista,

personagem, pecado capital, cor ou “seja-lá-o-que-mais” você é ou poderia ser. E você aí achando que sabia alguma coisa sobre si mesmo, hein? Pois é, eu também. Não sei como pude viver até hoje sem todas essas informações... Descobri que sou “o número sete, a luxúria, as Antologias Poéticas de Carlos Drummond Andrade , A bela e a fera” e mais: descobri ainda que não vou “pegar” a gripe suína (Influenza A, H1N1) — Pasmem! Abençoado seja o cidadão que criou este último quiz! Ah, se a vida fosse assim, tão fácil, não é mesmo? Talvez exatamente pelo fato dela não o ser é que perdemos tanto tempo buscando respostas para as mais diversas (e por vezes desnecessárias) perguntas. Passamos a vida nos questionando sobre quem somos e como as outras pessoas nos vêem. Sobre o que fizemos e o que faremos. Sobre qualquer coisa que ilumine um pouco o caminho que nos leva ao misterioso dia de amanhã. Respostas estas que certamente não estão no fantástico mundo do quiz virtual, por mais divertido que ele possa se mostrar. E por que será que nos parece tão mais divertido ser qualquer outra coisa senão aquilo que já somos e bem sabemos? Talvez exatamente por “bem sabermos” — o sabor da vida está no misté-

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rio — são as dúvidas que nos movem, enquanto indivíduos e sociedade. Se tivéssemos todas as respostas, não iríamos à parte alguma! Não somos diferentes do cachorro que persegue a roda: o que fazer quando alcançá-la? Provavelmente parar de correr, ao menos até o surgimento de uma nova roda. “A curiosidade é a mola propulsora do intelecto, mãe da descoberta” e razão para o sucesso destes jogos de adivinhação. Não é de hoje que profecias — verdadeiras ou falsas — fazem sucesso (Nostradamus, Walter Mercado, Mãe Dináh e o horóscopo nosso de cada dia, não me deixam mentir). Cada um de nós procura suas respostas aonde nos parece mais adequado. Alguns se voltam para a fé, outros para si mesmos e há ainda aqueles que preferem responder a toneladas de quiz. E quem somos nós para criticar? Independente do caminho que lhes convém, mais importante que encontrar as respostas é seguir fazendo as perguntas. Por isso eu lhes deixo uma: “Se você fosse uma resposta, qual seria a sua pergunta?” Será que isso daria um bom quiz?

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Poesia

Laboratório Poético
Volmar Camargo Junior
areia e sal

preenche-se o vento com o que pode carregar com a areia, com o sal da praia e eu que vivo nas costas do mundo sinto no vento areia e sal a praia, tão longe, tão longa a mim tão inatingível arranca o vento de dentro do mar e sopra-o na minha direção o sal e a areia que me desconhecem a meus olhos, minha garganta querem arder queimam e querem me queimar - mesmo que nem em sonho tenha visto nunca haja deixado uma só pegada nessa areia nunca deixado que me viesse até as pernas uma gota que fosse desse mar quente, o vento sobe pelo dorso frio do mundo e me sussurra essa maresia e desacomoda o que antes fora ordeiro e mudo e que mudo permanece ainda mudo, mas inquieto

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que esperar agora, eu me pergunto, das idas e vindas desse vento dessa areia desse sal que vem do mar disso que veio sem que eu percebesse e que agora não consigo deixar ir? antes houvesse passado não há passado não o vento não passou faz com que o mundo se erga no meio das suas tempestades e depois, na calmaria vai-se mas há de voltar se um dia resolver fazer o caminho inverso e pelas rochosas vértebras do mundo buscar a praia de onde veio encontrará comigo ainda guardados os últimos grãos daquela mesma areia resquícios daquele mesmo sal do mar à hora de, com a noite, o sono ir-se ouço, triste, um apelo da aurora este, só aos meus ouvidos bem-vindo "crias para mim um idioma, e sê o falante nativo" crio-o, gracioso e sonoro, rico e inconcluso derramo-lhe a história e os fios do mundo e ainda antes que aurora se dilua em dia sou o único falante de uma língua morta
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Língua morta

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Poesia

Blavino
Ju Blasina

LaBiriNto
Errei Por tantos Anos, portanto O tempo perdi em Vão. Na busca por um Lugar — Errôneo — Vaguei No labirinto intrincado do viver Deixei-me levar a esmo feito Plâncton na correnteza De dúvidas frias. Fui Errante até achar -me bem Aqui

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Poetrix
Ju Blasina
dúvidas
Uma vez Descoberta toda A dúvida é fria

Fresta
O mundo eu espio pela fresta Sonhar acordada É o que me resta

descobrindo
Descobri minhas dúvidas Agora sinto frio No saber

Errante
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Leve como Folha solta
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O sopro do vento sou

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Poesia

SoNata da CriaÇÃo
Wellington Souza

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Seu caminhar não abalou o silêncio pré-genesíaco que dorme. Aproxima-se, sorri, senta-se hálito com hálito. Toca meu dedo anelar e o martelo, ainda tímido, faz vibrarem meu nervos e arrepiar-me toda, ali. Logo toca também o segundo e o terceiro e as notas vão regendo as coisas e os seres e o quarto e a mão e me faço, enfim – me faço não; e me fazes enfim ser ouvida, vencendo o vácuo e o infinito! para um instante depois quietar, esbaforida – esbaforida não, esbaforidos de tanto soar e tocar e suar. Ainda, antes de partir, fecha-me a cauda e acaricia de tão leve que apenas as pontas dos dedos me pulem e me engorduram. E tudo volta ao pré-genesíaco e nem ouço teus passos te afastando.
http://www.flickr.com/photos/notsogoodphotography/770557316/sizes/o/

que soam leve o bastante para embalar o primeiro sol do recém-mundo

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SAMIZDAT
Edição, diagramação e capa
Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”. Mora, atualmente, em Nova York, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha. henrybugalho@gmail.com www.maosdevaca.com

SOBRE OS AUTORES DA

Henry alfred Bugalho

Edição de imagens
Inconformado com a própria inaptidão para dizer algo sem ser através de subterfúgios, abdicou de parte de suas horas diárias de sono, tentando domar a sintaxe e adestrar a semântica. Depois de perambular pelo Rio Grande do Sul, acampou-se na brumosa, fria, úmida, às vezes assustadora – mas cercada por um cenário natural de extrema beleza – Canela, na Serra Gaúcha. Amargo e frio, cálido e doce, descendente de judeus poloneses, ciganos uruguaios, indígenas missioneiros, pêlos-duros do Planalto Médio, é brasileiro, gaúcho, e, quando ninguém está vendo, torcedor do Grêmio Futebol Porto-alegrense. Autor dos blogs “Um resto de café frio” e “Bah!”.
v.camargo.junior@gmail.com http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

Volmar Camargo Junior

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SAMIZDAT novembro de 2009

Revisão
Nasceu em SP em 1957 mas mudou-se para Salvador em 1984 onde reside até hoje. É arquiteta e artista plástica, além de tradutora (inglês e italiano) e revisora de textos. Escreve poesias esporadicamente desde adolescente e há cerca de um ano começou a escrever contos. Pretende concorrer ao mestrado em Artes Cênicas na Escola de Teatro da Ufba.
Participação especial para esta edição

maria de Fátima Brisola romani

Assessoria de imprensa
Por um amor não correspondido, a carioca de Copacabana começou a poetar aos 12 anos. Veio o beijo e o príncipe virou sapo. Mas a poesia virou sua amante. Fez oficina literária e deu pra encharcar o papel com erotismo. E também com seu choro. Em reação à hipocrisia e ao machismo da sociedade. Atuou como jornalista em várias empresas, mas foi na TV Globo onde aprimorou as técnicas de redação e ficção. E hoje as usa para contar suas próprias histórias. Algumas publicadas em seu primeiro livro e outras divulgadas nos links listados em seu blog pessoal: www.marianavalle.com

mariana Valle

Colaboração
Bahiano do interior, hoje mora na capital. Estuda Psicologia na Universidade Federal da Bahia e espera um dia entender o ser humano. Enquanto isso não acontece, vai escrevendo a vida, decodificando o enigma da existência. Não tem livro publicado, prêmio, reconhecimento e sequer duas décadas de vida. Mas como consolo, um potencial asseverado pela mãe.

Caio rudá

www.revistasamizdat.com

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Paulistano de pia, cearence de mar e poeta de amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto o ciberespaço, mais com bits de imaginação que com telescópios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e a igualdade, com um giz na mão e uma pistola na outra. É Tecnólogo a sonhar com Telemática social, com a democracia participativa eletrônica, onde o povo eleja menos e decida mais. Publica estes dias sua primeira obra, um Romance de Ficção Científica, e deixa engavetadas suas apunhaladas poesias. É feito de bits, links e teia pra que não desmaterialize, o clique, o blogue e o leia!

dênis moura

Autora de Meninas Malvadas, A Pequena Bailarina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine apenas como uma contadora de histórias carioca. Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes, funcionando como um eficiente panorama da sociedade em que vivemos.

Giselle Sato

Paulistano, mas morou também em Ribeirão Preto, onde cursou economia na Universidade de São Paulo. Hoje, reside novamente no bairro em que nasceu. Participou das antologias do concurso Nacional de Contos da Cidade de Porto Seguro e do Poetas de Gaveta/USP. Escreve poemas, contos, crônicas e ensaios literários em um blog (Hiper-link), na revista digital SAMIZDAT e no portal Sociedade Literária. “Escrever é um modo de ser outro ser”.

Wellington Souza

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SAMIZDAT novembro de 2009

Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor público e amante da literatura. Formado em Comunicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas “Retratos Urbanos” em 2008 pela Editora Andross.

Léo Borges

Gaúcha de Porto Alegre. Não gosta de mensurar a vida em números (idade, peso, altura, salário). Não se julga muito sã e coleciona papéis - alguns afirmam que é bióloga, mestre em fisiologia animal e etc, mas ela os nega dizendo-se escritora e ponto final. Disso não resta dúvida, mas como nem sempre uma palavra sincera basta, voltou à faculdade como estudante de letras, de onde obterá mais papéis para aumentar a sua pilha. É cronista do Caderno Mulher (Jornal Agora - Rio Grande - RS), mantém atualizado seu blog “P+ 2 T” e participa de fóruns e oficinas virtuais, além de projetos secretos sustentados à base de chocolate e vinho, nas madrugadas da vida.

Jú Blasina

Ouro Preto – MG, 1981). Professora de Língua Portuguesa e Literatura em escolas estaduais. Escreve já há algum tempo, é inédita em livro e edita o blogue A Parede Lá de Casa. Possui textos publicados na revista Germina, participa do site Escritoras Suicidas, e colaborou com o conto Rosário de Lágrimas na edição de aniversário de sessenta anos do Suplemento literário Correio das Artes. Escrever é uma necessidade.

Simone Santana

www.revistasamizdat.com

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Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licenciado recente em História da Arte, experimenta agora o prazer da escrita, em Lisboa. episcopum@hotmail.com

Joaquim Bispo

Estudante de Letras na Universidade do Sagrado Coração, em Bauru, onde sempre morou. Procura reinventar o mundo a seu modo, seja belo ou grotesco, e assim mostrar um novo caminho. Admirador das coisas mais simples e belas do mundo e da vida, busca expressar essas sublimes minúcias em suas poesias. Não dispensa o café da tarde com pãezinhos. Apaixonado por Línguas, Literatura e Linguística.

Guilherme rodrigues

Sempre em busca de escritas que façam desfuncionar a máquina do mundo, de experiências do caos e experimentações pela palavra - convicta de que o mundo vale a pena em poesia. Mantém o blog http:// sheylas.wordpress.com , cursa Estudos Literários (Unicamp), e atualmente pesquisa sobre escrita experimental no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor-Unicamp).

Sheyla Smanioto macedo

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Jornalista, escritora e roteirista, é autora do livro “Não Abra” e do blog “Não Clique”. Apesar das negativas, esta carioca quer, sim, ser lida - como todo escritor. Tem dias de conto, de crônica e de pílulas sem sentido. Suas paixões: cinema e livros com cheiro de novo - se bem que adora se perder nos sebos da vida.

Barbara Duffles

Publicitário, redator, executivo, professor, aluno, marido, pai, filho, cunhado, tio, sobrinho, genro, sogro, amigo, botafoguense, tijucano, lebloniano, neopaulistano, escritor, leitor, eleitor, metido a cozinheiro, guloso, nem gordo nem magro, motorista categoria B, pedestre, caminhante, viajante, sedentário, telespectador, pilhado, zen, carnívoro, beatlemaníaco, cinemeiro, desafinado, sinfônico, acústico, capricorniano, calorento, alérgico a ditaduras, sonhador, delirante, insone, objetivo, subjetivo, pragmático, enérgico, banana, introspectivo, extrovertido, goleiro, blogueiro, colunista do Bolsa de Mulher, colaborador do Mundo Mundano, tem livro publicado, conto premiado, teve texto encenado no teatro, fez roteiros para televisão, criou uma infinidade de comerciais e aprendeu que aproveitar a vida intensamente é ser de tudo um muito. Samizdat é seu mais recente energético..

José Guilherme Vereza

www.revistasamizdat.com

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Também nesta edição, textos de
Barbara Duffles Caio rudá dênis moura Giselle Natsu Sato Henry alfred Bugalho Joaquim Bispo Jú Blasina Léo Borges mariana Valle Sheyla Smaniotto macedo Simone Santana Volmar Camargo Junior

José Guilherme Vereza Wellington Souza

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