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REVISTA DA COMUNICAÇÃO / FEEVALE / 2009

Espelho, espelho meu...

Padrões de beleza formulados por uma sociedade consumista podem


ter consequências gravíssimas no desenvolvimento de crianças e
jovens

Por RAQUEL RECKZIEGEL

O que você vê ao mirar o próprio reflexo no espelho?

Cuidar do corpo e da aparência há muito deixou de ser uma questão


de saúde. Passou a se tornar uma necessidade. Quase que uma
obsessão.

O Brasil é o terceiro país do mundo em consumo de cosméticos, atrás


apenas dos Estados Unidos e do Japão. É, também, o campeão
mundial de uso de drogas para emagrecer, segundo pesquisa
realizada pela Organização das Nações Unidas em 2007.

Apesar das estatísticas preocupantes, a sociedade, com o auxílio da


mídia, implanta padrões de beleza seguindo a moda atual e incentiva
a busca eterna pelo “corpo perfeito”. É comum termos notícias de
parentes ou amigas que tenham feito algum tipo de cirurgia plástica,
como lipoaspiração ou implante de silicone.

De acordo com a professora de Psicologia da Feevale Ana Beatriz


Guerra Melo, a beleza é algo que trabalha, do ponto de vista da
psicanálise, com o narcisismo¹ humano. “O narcisismo é uma
tendência constitutiva do ser humano”, explicou. “Só que a
sociedade, em cima dessa tendência, foi explorando a mídia, a
propaganda e a economia, criando produtos para sustentá-lo”.

Cada vez mais crianças e adolescentes são incentivados a participar


de concursos de beleza, a passar quantidades enormes de
maquiagem, a vestir roupas que deveriam ser destinadas apenas a
mulheres adultas, a virar verdadeiras “princesas”, copiando modelos
de histórias infantis ou do cinema.

Caroline Saldanha tem 20 anos, mas começou a se envolver com o


mundo da moda ainda pequena, por influência familiar. “Minha

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família sempre incentivou a seguir esse caminho”, revelou. “Como eu
não sabia se queria ou não, pensei: ‘Bom o que custa tentar?’”. Ela
acabou gostando. Deslumbrou-se e, como a maior parte das meninas
que buscam um lugar no concorrido mundo da moda, iniciou cedo.

Em 2003, com 13 anos, entrou para o cast de uma agência de


modelos e passou a trabalhar na área. No final do ano, mudou-se
para São Paulo, onde morou com outras 19 meninas. “É muito difícil
morar sozinha tão nova em uma cidade totalmente desconhecida e
tão diferente da cidade em que cresci”, relembrou.

No início, pelo fato de todas as meninas serem jovens, a concorrência


não era tão grande. Entretanto, quando Caroline voltou a São Paulo
dois anos mais tarde, as garras foram colocadas de fora. “A
concorrência pegava em casa, meninas tentando atrapalhar outras,
roubando comida. Houve até uma vez que uma menina colocou
desinfetante na minha água”, contou. “Tem muitas meninas querendo
que as outras se deem mal nos trabalhos para não serem mais
chamadas”.

No apartamento, todas as contas eram pagas por elas, e as roupas


eram lavadas à mão. Tinham de lidar com problemas e afazeres
domésticos, para não mencionar o estresse proveniente do trabalho.
“Com 13 anos acabei me tornando praticamente uma adulta”, relatou
a jovem, que largou a carreira de modelo e pretende cursar História
em 2010.

¹ Narcisismo: termo proveniente de uma parábola grega que conta a


história de Narciso, um belo jovem que se mirava no lago e, de tão
apaixonado que ficou pelo próprio reflexo, caiu nas águas e afogou-
se.

Beleza: um padrão temporário

De acordo com o professor Henrique Keske, mestre em Filosofia, a


criação do padrão de beleza teve início na Grécia Antiga, a partir do
século V antes de Cristo. As estátuas gregas eram um conjunto de
partes corporais de vários indivíduos, e o conceito de belo era uma
conseqüência da bondade e da virtude moral. “O conceito de beleza
que temos hoje é completamente dissociado dessa consideração de
beleza e firma somente os aspectos externos”, ressaltou o professor.
“A idealização não pode ser atingida por nenhum indivíduo isolado,
porque sempre vai ocorrer um fator que não o enquadra naquela
perfeição. Isso, ao meu entendimento, na sociedade contemporânea,
gera muita infelicidade”.

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O padrão de beleza segue o sistema transitório da moda e muda
conforme a época. Em meados de 1950, Marilyn Monroe, com suas
curvas fartas, era considerada o ícone da beleza feminina. Hoje,
talvez os agentes recomendariam a ela que “perdesse” alguns
quilinhos. A beleza natural tornou-se postiça, com aplicações de
silicone, lipoaspiração, horas a fio na academia e, em alguns casos,
uma folha de alface substituindo uma refeição.

Durante o tempo em que morou em São Paulo, Caroline Saldanha


presenciou exemplos preocupantes de exatamente quanto o padrão
de beleza estipulado pela moda pode influenciar jovens garotas. “A
maioria [das meninas] fazia algum regime. No meu apartamento,
tinha uma com bulimia. Ela comia muito e precisava emagrecer,
então acabava indo para o banheiro e colocava tudo para fora”,
contou. “Mas o pior não é isso: havia meninas, já no ramo há um
pouco mais de tempo, que usavam drogas pesadas, tudo para
perderem a fome. Se matavam aos poucos tentando permanecer
esqueléticas para o mundo da moda”.

As medidas corporais exigidas de uma modelo são de, no máximo, 90


cm de busto, 60 cm de cintura e 90 cm de quadril. Para Caroline,
essa é a razão pela qual tantas garotas desenvolvem anorexia. “Na
minha agência, eles nos davam almoço e jantar. Era sempre frango
grelhado, salada e uma fruta para sobremesa”, descreveu a jovem.
“Algumas ‘trapaceavam’ como eu. Quando dava, levava arroz junto,
ou massa!”.

Caroline tem o biótipo típico das mulheres brasileiras, com o quadril


mais largo. Por isso, a agência chegou a cogitar a idéia de lixar o
osso para diminuí-lo de tamanho. A jovem não concordou. “Não
queriam que eu voltasse. Voltei escondida, pois sabia que não iriam
aprovar”, contou.

Criador de milagres

A cirurgia não é a única solução para seguir padrões estipulados.


Existem alternativas muito mais rápidas e fáceis do que um lixar de
ossos: uma ferramenta ardilosa chamada de Photoshop. Programas
de computador como esse possibilitam a criação de homens e
mulheres perfeitas, a partir de fotografias alteradas digitalmente.

Profissionais da área chamam isso de retoque. A professora de


Psicologia Ana Beatriz pensa que se trata de uma perda de
identidade. “Todos esses apelos, cosméticos, cirurgias, Photoshop,
estão aí para enganar, produzir um ser humano que não é o natural,
criar uma imagem”, disse. “Às vezes, existem pessoas que perdem a
própria identidade criando essa imagem. Temos uma sociedade, hoje,
em que o ser humano não assume a sua identidade, ele procura
forjar uma para mostrar para o outro, mas acaba se perdendo nisso”.

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Felizmente, determinadas marcas e certos profissionais da área têm
tomado consciência da situação. Modelos como Isabeli Fontana e
Raquel Zimerman afirmaram categoricamente, em uma entrevista à
Revista Época, que as agências andavam exagerando no retoque e
deixando as mulheres com cara de boneca de porcelana. Elas não
veem problema algum ao serem fotografadas sem maquiagem e sem
alterações posteriores no Photoshop.

Além disso, quem não se lembra da campanha pela real beleza


organizada pela Dove há alguns anos? Os comerciais de televisão
mostravam mulheres ruivas, morenas, loiras, gordas, magras,
jovens, idosas, com sardas e rugas. “Esse despertar da mídia para as
mulheres reais me parece colocar as coisas mais no sentido de uma
realidade social efetiva”, afirmou o professor de Filosofia Henrique
Keske. “Não precisamos adequar os corpos às mulheres, a um padrão
ideal de beleza, mas o contrário”.

Beleza é um estado de espírito e deve estar relacionado ao bem-


estar, não a uma busca obsessiva pelos padrões estipulados e pela
eterna juventude. “Mais do que nunca a sociedade produz
mecanismos para cada um renegar a sua velhice da melhor forma”,
enfatizou Ana Beatriz. “Produz cirurgia, recortes no corpo, implantes,
uma série de questões para o sujeito negar o envelhecimento, que é
uma etapa natural do ciclo de vida e uma etapa muito bonita”.

“É muito difícil superarmos aquele ideal de juventude eterna e


aceitarmos efetivamente que, por maior que sejam os progressos das
ciências médicas, estaremos, na verdade, envelhecendo, e num dado
momento esses artifícios não irão resolver”, observou o professor
Henrique.

A moda procura o que é perfeição segundo seus padrões. Para a ex-


modelo Caroline Saldanha, cada um deve se sentir bem como é;
mudar o que venha a achar necessário, mas sem exageros. “No
mundo da moda, todas ficam muito magras para agradar os
estilistas, mas a mulher no dia-a-dia não precisa disso”, afirmou
Caroline. “Agora não estou tão magra, mas logo que voltei todos me
perguntavam se estava anoréxica, e eles me achando ‘gorda’ em São
Paulo. Dá para entender?”, questionou.

Caroline ainda deixou a dica: a beleza deve ser buscada, mas não
para os outros. “Você deve se gostar e não ficar se importando com o
que os outros pensam”.

É. Talvez o importante não seja a resposta para a pergunta das


historinhas infantis: “Existe alguém mais bela do que eu?”. Mas, ao
se olhar no espelho, antes de sair de casa, é preciso ter a consciência
de que padrões de beleza e corpos perfeitos não existem. Existem,
sim, mulheres reais: belas em sua diversidade, seja qual for a idade,
medida do busto ou tamanho da calça jeans.

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Cada vez mais jovens – BOX

Em 21 de julho de 2009, o programa de televisão Profissão Repórter


veiculou uma reportagem inesquecível, sobre a suposta empolgação
de meninas que participam de concursos de beleza.

A certa altura da reportagem, foi feito um close da pose de Lorena


Tucci, Mini-Miss 2009: ereta, com as mãos na cintura, como uma
“perfeita mulher”. Em seguida, a câmera se move para o público, e a
foca em uma pessoa em especial, que exclama, tirando fotos: “Mini-
miss Brasil da mamãe! Bonequinha!”.

Sem dúvida alguma, os pais acabam projetando seus sonhos


incompletos na criança. Para o professor de Filosofia Henrique Keske,
tal postura suprime a infância, desenvolve uma sexualidade precoce e
produz todo tipo de desequilíbrios emocionais. “Os pais estão se
deixando levar pela onda consumista da mídia e não percebem que
suas próprias filhas estão sendo consumidas por esse processo, por
uma fictícia proposta de celebrização”, afirmou. “Esses pais talvez
nem se deem conta que estão espetacularizando a vida das próprias
filhas, transformando-as em precoces objetos de desejo”.

Durante uma entrevista para o Jornal do Almoço da RBS TV de Santa


Catarina, no dia seguinte ao Mini-Miss, o jornalista Luis Carlos Prates
expressou sua aversão a competições de beleza infantis. “Eu senti
náuseas. Náuseas. A infância é um período da aquisição da
transmissão de valores que vão acompanhar o ser humano pela
vida”, afirmou. “Uma criança que é levada a um concurso em que ela
só vencerá se for muito bela – e este é um conceito altamente
discutível – entre várias crianças uma apenas ganha. Como crescerão
as outras que perderam esse concurso de beleza? Como crescerá
uma menina que ganhou o concurso de beleza aos cinco anos?”,
questionou, indignado.

Luis Carlos Prates acrescentou, mais tarde, em seu blog, no ClicRBS:


“Mas que vulgaridade é essa? Por que não promovem o concurso
Garota dos Livros, com garotas que devoram livros, hein, por que
não?”

Segundo a professora de Psicologia da Feevale Ana Beatriz Guerra


Melo, a criança é afetada pelo consumo e pelos padrões de beleza
implantados. “Ela já é submetida a usar determinadas roupas,
determinadas grifes, e isso afeta seu desenvolvimento e a condiciona
a responder dessa forma à sociedade”, ressaltou. Ao invés de crescer
de forma saudável e aprender brincando e estudando, a criança será

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jogada no competitivo mercado da moda antes de estar pronta para
enfrentá-lo, o que, no futuro, pode fazer com que ela procure
maneiras diferentes para suprir necessidades emocionais. “Pode
haver uma tendência a distúrbios alimentares, sujeitos que compram
e se alimentam compulsivamente. Não podem sentir nenhuma falta”,
finalizou a professora Ana Beatriz.

Mais tarde, rodeada de adultos, microfones e câmeras, a Mini-Miss


2009 debulha-se em lágrimas. “Ela está chorando de emoção, porque
ganhou”, desculpa-se a mãe, com um riso sem-jeito. Será?

Já Beatriz Petrentchuk, apesar de ter ficado em 3º lugar no concurso,


parecia não ter desistido. “Bibi quer ser miss!”, exclamava.

Mais adiante, na reportagem da equipe de Caco Barcellos, o Profissão


Repórter mostrou candidatas, já adultas, de biquínis minúsculos,
pegando um bronzeado nas lajotas de suas casas. O ritual é uma
preparação para o concurso Garota da Laje, que teve como
vencedora da etapa 2009 a loira Fernanda Abraão. Seu primeiro
trabalho após o título? Posar para a Playboy.

Serão as pequenas misses futuras Garotas da Laje?

“Olha só os presentes que eu ganhei!”, mostrava a pequena Beatriz,


exultante, já não dando importância ao 3º lugar. Uma clara prova de
que, mesmo por debaixo dos desejos implantados em suas cabeças e
por trás da grossa camada de maquiagem, o que criança quer, afinal,
é ser criança.

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