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CienteFico. Ano II, v.

I, Salvador, agosto-dezembro 2002

Animismo

Daisy Aragão


Durante o século XIX - no auge da teoria evolucionista - as pessoas que, de modo geral, por
séculos aceitaram as tradições religiosas herdadas de suas famílias sem questionamentos ou
investigações e que até desconheciam religiões distintas das suas, começam a reconhecer as
limitações dos sistemas estabelecidos, inclusive do sistema religioso.

Devido à dificuldade em se conseguir informações concretas sobre o assunto, estudiosos da
antropologia, da sociologia e da psicologia partiram para investigar civilizações primitivas
na tentativa de descobrir como, quando e por que surgiu a religião.

Assim, surgem muitas teorias - contraditórias inclusive - na tentativa de demonstrar ousadia
e originalidade umas sobre as outras. Dentre elas, vale-nos ressaltar as idéias pertinentes ao
animismo.

O animismo baseia-se na tentativa do homem em dominar a interferência que os fenômenos
e forças da natureza exercem sobre os assuntos humanos. Para o antropólogo inglês Edward
B. Tylor (1832-1917), o animismo é o primeiro grande passo evolutivo do pensamento
religioso.

Tylor defende que a origem da noção - do que, hoje, conhecemos como alma - encontra se
na freqüência com que ocorrem sonhos com entes falecidos, nas visões, alucinações e na
morte. São estas experiências que fazem imaginar a existência de uma imaterialidade do
ser, levando – portanto - os primitivos a concluir pela existência de uma alma que habita o
corpo e que continua a viver após a morte.

Por analogia, começa-se a considerar que animais e plantas também são dotados de alma;
pois, presumia se que a alma - ao deixar o corpo - morava em árvores, rochas, rios, etc -
concebendo-se, assim, a idéia de que espíritos independentes podem encarnar-se nos mais
diversos objetos.

Desta forma, os mortos e objetos nos quais se acreditava que residiam as almas passaram a
ser adorados como deuses. Surge, então, o culto à natureza (rios, árvores, etc) e,
conseqüentemente, a adoração a diversas divindades: deus sol, espíritos da água, do fogo,
dentre outros; conseqüentemente instaura-se o politeísmo.

Para Tylor, a forma mais simples de se explicar a transição do politeísmo para o
monoteísmo seria através da supremacia de uma divindade perante as demais.

Embora não se possa afirmar que todas as religiões tenham se constituído segundo sua
abordagem, pois que - dentre outros fatores - existiam comunidades nas quais o
monoteísmo surge sem que tenha havido o animismo; o trabalho de Tylor exposto de forma
clara e simples é valoroso por mostrar a relação entre o animismo e o culto aos mortos,
além de iniciar uma abordagem às crenças dos povos primitivos, “as quais ele viu como
uma tentativa de racionalizar a experiência, e não como manifestações de uma mentalidade
pré-lógica ou como meras representações simbólicas da ordem social” [1].

Outro antropólogo inglês, R. R. Marett (1866-1943) estudando a cultura dos melanésios das
ilhas do Pacífico aprimorou o animismo, chamando sua teoria de animatismo, e concluiu
que os primitivos acreditavam em uma força impessoal, em um poder sobrenatural que
dava vida a todas as coisas e não em uma alma pessoal. A partir dessas crenças o homem é
tomado por sentimentos de reverência e temor, base para sua religião primitiva.

Marett defendia a religião como sendo uma reação emocional do homem diante do
desconhecido, do logicamente inexplicável.

J ames Frazer (1854-1941), especialista escocês em folclore antigo, publicou em 1890 O
Ramo Dourado, livro no qual explica o surgimento da religião pela magia.

“Segundo Frazer, o homem tentou primeiro controlar a sua própria vida e o seu meio por
imitar o que via acontecer na natureza” [2]. Dessa forma o homem primitivo tentava
provocar chuva, por exemplo, borrifando água no solo; ou, prejudicar um inimigo
espetando alfinetes numa efígie.

Essas crenças levaram a rituais, feitiçarias e magias ainda vistos na atualidade. Mas, como
estes rituais mágicos não funcionavam a contento, o homem passa a não mais tentar
controlar os poderes sobrenaturais e submete a eles na tentativa de aplacar sua fúria e
suplicar sua ajuda. A partir daí surgiria a religião.

No campo da psicologia vemos Sigmund Freud (1856-1939) tentar explicar a origem da
religião em seu texto Totem e Tabu. Freud explica o surgimento da religião pela neurose
ligada à figura do pai, baseado em estudos sobre os aborígines australianos e nas idéias de
Frazer e Tylor, por exemplo.

Em resumo, segundo o raciocínio freudiano, os filhos homens - que tanto odiavam como
admiravam o pai - rebelavam-se e o matavam visando usufruir suas regalias, seus poderes e
compartilhar as fêmeas. Mas, para que isso ocorresse e adquirissem as qualidades paternas
era necessário que incorporassem a alma desse pai através do canibalismo.

Na tentativa de amenizar o remorso por atos tão cruéis, os primitivos criaram cerimônias
visando reparar esses atos. Assim, Freud explica como a figura do pai virou Deus e como
os ritos e cerimônias passaram a ser religiões. Ainda explica o ato de comunhão como
sendo a representação do canibalismo para com o pai assassinado.

De forma coerente, ele constrói seu pensamento a partir de conceitos como totemismo,
animismo e magia; por exemplo, introduzindo idéias sobre alguns pilares da teoria
psicanalítica como o complexo de Édipo.

O animismo constitui-se, ao meu ver, em uma tentativa do homem em explicar e dominar o
mundo; “como o psiquismo é movido por forças violentas e excessivas, que anseiam por
um controle mínimo sob pena de que a própria existência do primitivo seja ameaçada. O
ponto zero desse esforço de domínio exterior é situado precisamente pelo animismo.” [3]

Em síntese, o animismo me remete à questão da conscientização do homem primitivo
quanto a sua impotência frente aos poderes sobrenaturais e à necessidade de explicar o
inexplicável; a relação passa de domínio para defesa. “A invenção dos espíritos é um ato
emocional no sentido de que: Reconhece-se pela primeira vez o engodo da onipotência
narcísica...” [4]. Ou seja, o mundo não é regido segundo a “perfeição” humana; não é o
homem o espelho no qual tudo o mais se mira ou se baseia para acontecer.

Referências Bibliográficas:

Menezes, J osé E. X. de. Fábrica de deuses: a teoria freudiana da cultura. Ed. Unimarco: São
Paulo, 2000.

Sites:

http://www.medired.com/spo/totemetabu.htm

http://netfeminina.sapo.pt/J 92/322173.html

http://planeta.terra.com.br/relacionamento/mjkyo/reli.html

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[1] http://planeta.terra.com.br/relacionamento/mjkyo/reli.html

[2] http://planeta.terra.com.br/relacionamento/mjkyo/reli.html

[3] MENEZES, J osé E. X. de. Fábrica de deuses: a teoria freudiana da cultura. Ed.
Unimarco: São Paulo, 2000. p 223.

[4] Idem. P 225.