Você está na página 1de 167

MARIA JOANA DE SOUSA PINTO GUIMARÃES DE CASTRO MENDONÇA

A LINGUAGEM ESPECÍFICA DOS LANIFÍCIOS

(TECELAGEM) PORTUGUESES ATÉ INÍCIOS DO SÉCULO

XX

UM ESTUDO NA PERSPECTIVA DA LINGUÍSTICA DE TEXTO

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO EM TERMINOLOGIA E TRADUÇÃO

FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO

OUTUBRO DE 2003

Não esquecendo o inestimável apoio mais ou menos expresso recebido dos meus pais, do meu marido, dos meus irmãos e sobrinhos, quero agradecer ao Prof. Doutor António Franco a preciosa ajuda que se iniciou pela proposta do tema, se continuou pelas sugestões sempre oportunas, pelo conselho tão avisado e pela crítica construtiva permanente e muito contribuiu para a concretização deste trabalho.

INDICE

0.

Introdução

5

1.

Fachsprachen, Linguagens de Especialidade

7

1.1.

Origem e Definição: na Alemanha e em Portugal

1

1.2.

Problemas inerentes à análise de uma Linguagem de Especialidade

12

1.3.

Investigação no domínio das Linguagens de Especialidade

16

1.3.1. Na Alemanha

 

16

1.3.2. Em Portugal

27

1.4.

Classificação das Linguagens de Especialidade

30

2.

Textos de Especialidade

33

2.1.

A perspectiva da Linguística de Texto

33

2.2.

Análise de Textos de Especialidade

41

2.2.1.

O modelo de Gópferich

43

3.

A Linguagem dos Lanifícios em Portugal

46

3.1.

Enquadramento Histórico

47

3.2.

Divulgação e fixação do saber na área dos Lanifícios

54

3.3.

Metodologia e Selecção do Corpus

59

4.

Análise de Textos

63

4.1.

Análise do Regimento do officio de Tecelães desta cidade de Lixboa de 3 de

Janeiro de 1559

 

63

4.2.

Análise

do Regimento

da Fabrica dos Pannos de Portugal

68

4.3.

Análise de As Fabricas da Covilhã

80

3

4.4. Análise de Lans e Lanifícios

92

5. Conclusão

105

Bibliografia Geral

107

Bibliografia

da área têxtil e da área da História

117

Anexo

121

4

0.

Introdução

«Sameei no meu quintal O brio das tecedeiras; Nasceu-me uma rosa branca, Cercada de lançadeiras.»

In: Revista Lusitana, vol. XXXII, pág. 297

«Une science ou un art ne commence à être science ou art, que quand les connoissances acquises donnent lieu de lui faire une langue». - Foi corn estas palavras que Pierre Tarin, médico responsável pela secção de Anatomia da Encyclopédie ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers, organizada e publicada por Diderot e d'Alembert comentou a relação entre conhecimento e linguagem de especialidade. Se a tecelagem de lanifícios é uma arte, então o que se pretendeu através deste trabalho foi testemunhar, descrever e caracterizar a linguagem de especialidade própria da arte de tecer lã em Portugal, desde a sua consignação por escrito, passando por alguns momentos representativos do seu desenvolvimento, até ao estádio que atingiu nos princípios do século XX.

Neste estudo, realizado no âmbito da frequência de um Mestrado em Terminologia e Tradução, não se concebe Terminologia senão no sentido amplo de uma análise de termos no seu contexto, isto é, como parte integrante de textos em que se manifesta uma linguagem de especialidade. Tendo ao longo da parte curricular deste Mestrado realizado já algum trabalho na área dos lanifícios, a escolha deste tema foi de certo modo a consequência quase inevitável de um investimento pessoal na minha familiarização com a linguagem e os procedimentos técnicos do tratamento e sobretudo da tecelagem da lã.

5

A opção de trabalhar também com textos antigos condicionou a metodologia seguida, uma vez que prescindi do recurso a meios informáticos que permitiriam levar a cabo o tratamento estatístico dos vários textos que analisei. A única vez em que apresento uma quantificação, no caso dos substantivos que ocorrem no Texto 3,

a contagem foi feita manualmente, página a página, e justificou-se porque se

anteviam resultados particularmente interessantes. A utilização de programas de tratamento e gestão de corpora ficará reservada para um trabalho futuro, feito exclusivamente a partir de textos actuais, cuja digitalização será bem mais simples;

a textos modernos corresponderá então uma ferramenta de trabalho também ela mais evoluída do ponto de vista tecnológico. O presente trabalho encontra-se dividido em quatro capítulos principais

seguidos de uma conclusão. No primeiro capítulo, faz-se uma breve exposição sobre

a origem e definição das linguagens de especialidade na Alemanha e em Portugal,

seguida da apresentação de algumas propostas para a classificação destas linguagens. O reconhecimento de que é a Alemanha o país onde a investigação neste domínio se encontra numa fase mais avançada reflecte-se um pouco por todo o trabalho, nomeadamente na bibliografia que consultei. O segundo capítulo é dedicado aos textos de especialidade. Depois de uma apresentação sumária da evolução da disciplina da Linguística de Texto, faz-se alusão à aplicação dos seus princípios fundamentais à análise dos textos de especialidade. De seguida, o modelo de Gopferich (1995) é objecto de uma apresentação mais aprofundada, uma vez que serve de ponto de referência constante na parte prática do trabalho. No terceiro capítulo, consagrado à linguagem dos lanifícios em Portugal, ao enquadramento histórico da indústria das lãs no nosso país, segue-se uma apreciação da divulgação e da fixação do saber nesta área, uma vez que esse é um aspecto com consequências muito importantes para o levantamento e a selecção de textos para análise. Seguidamente apresenta-se a metodologia adoptada e o processo

6

de selecção do corpus de textos. Dado o grande volume das principais obras disponíveis, o corpus é composto apenas por excertos dessas mesmas obras. O seu estudo integral, além de ser incomportável num trabalho desta natureza, não contribuiria para um enriquecimento significativo dos resultados obtidos. Para facilitar o estabelecimento de comparações, optei por analisar em cada obra os capítulos relativos à operação da tecelagem. O último capítulo é constituído pela análise de quatro textos considerados representativos dos diversos estádios de evolução da linguagem da tecelagem, sendo esses textos originais apresentados em anexo.

1. Fachsprachen, Linguagens de Especialidade

1.1. Origem e Definição: na Alemanha e em Portugal

Não seria razoável escrever sobre Investigação das Linguagens de Especialidade sem antes tocar em alguns pontos que fazem parte do seu historial. Se é certo que a história destas linguagens está ainda por fazer, é inegável que as suas raízes estão indissociavelmente ligadas ao fenómeno da evolução do mundo do trabalho. Com o evoluir do tempo, com a organização e estruturação dos primeiros agregados populacionais e com o progressivo aumento do conhecimento e das exigências daí resultantes houve naturalmente uma diversificação das actividades e

1 Incluo aqui também o termo alemão, uma vez que vou tentar, ao longo dos dois primeiros capítulos deste trabalho, que o meu olhar se detenha tanto quanto possível de forma paralela sobre a Alemanha e Portugal e as suas respectivas línguas. Já nos capítulos restantes analisarei apenas o caso português, embora partindo de princípios teóricos e modelos de análise defendidos sobretudo por linguistas alemães.

uma necessidade de dividir tarefas, o que, por um lado, criou ao artesão a necessidade de sair de casa para as fábricas e, por outro, abriu a porta às futuras especializações. Na sequência da divisão de tarefas e da diversificação das diferentes actividades, que inicialmente estavam concentradas num único local de trabalho (que coincidia com a residência de quem trabalhava) e que eram desempenhadas de forma mais ou menos indiferenciada pelos vários elementos de uma família, foi-se assistindo ao longo dos tempos a uma progressiva separação entre esse mundo da residência e o mundo do trabalho tal e qual hoje o conhecemos.

A independentização destes dois mundos foi simultaneamente uma separação física

e uma separação de comunicação. Drozd / Seibicke (1973, 3) consideram que este afastamento da comunicação doméstica relativamente à que é própria dos locais de trabalho foi um factor determinante não só na formação das linguagens de especialidade, mas também na definição das próprias áreas de especialidade a que aquelas dizem respeito. Além disso, estes autores chamam a atenção para o facto de

o termo Fach, no sentido de área do saber, ramo profissional, ser relativamente

recente, começando a ser usado na Alemanha apenas nos finais do século XVIII, princípios do século XIX. No seu entender, antes de se terem constituído linguagens de especialidade existiriam Sachsprachen 3 (linguagens de coisas). Sem precisarem uma data 4 a partir da qual se fez esta evolução, estes autores sustentam que houve um afastamento gradual da comunicação linguística relativamente aos objectos / coisas (Sachen) a que se refere, de modo que se passou a falar desses objectos / coisas fora do ambiente em que são utilizados. Isto levou a que as diversas áreas de actividade se tornassem cada vez mais independentes e autónomas.

2 Cfr. Kalverkamper (1990, 113).

3 Mõhn / Pelka (1984,133) são outros dos autores que defendem que os Sachwortschãtze precederam

os Fachwortschátze. 4 Têm com certeza bons motivos para não o fazerem, porque tais desenvolvimentos são lentos,

estendem-se por gerações e são, por isso, difíceis de localizar pontualmente no tempo. A sua natural

coexistência é um factor que determina esse esbatimento de fronteiras.

8

Consequentemente, assistiu-se ao surgimento de uma metalinguagem e à necessidade de uma verbalização cada vez mais precisa. Assim se foram, também, definindo gradualmente grupos de pessoas especializadas nas diferentes áreas {Fachmann 5 ou Fachleute), que, usando linguagens próprias, orientadas segundo os factores característicos e determinados pelas suas actividades, se foram afastando do comum das pessoas, não só nas suas habilitações, mas também na sua linguagem. Em relação à língua portuguesa, não se afigura fácil estabelecer um percurso e uma cronologia idênticos aos referidos para a Alemanha, nem determinar o momento em que se tenha começado a utilizar uma expressão como "linguagem de especialidade", uma vez que a grande maioria das gramáticas tradicionais não aborda este tipo de linguagem, ficando-se pela distinção, aliás pouco conseguida, entre diferentes níveis de língua, como por exemplo o popular, o corrente, o familiar ou o poético 6 . Aquelas que abordam o tema fazem-no de um modo muito superficial . Parece-me, contudo, que a escolha daquela designação - à semelhança do que aconteceu com a designação francesa langue de spécialité 8 - não é alheia à opção anglo-americana. Na língua inglesa, e de acordo com Beier (1999, 1405), a investigação deste tipo de linguagem foi devida, numa primeira fase, a necessidades muito específicas ligadas ao ensino do inglês como segunda língua; daí ter-se provavelmente privilegiado uma designação que remetia mais directamente para o contexto didáctico: Language for Special/ Specific Purposes (LSP). A expressão "linguagem de especialidade" revela-se, pois, como um decalque 9 recente da expressão francesa referida, necessário para o preenchimento de uma lacuna lexical do Português, que continua, aliás, a não incluir nos seus curricula escolares ou

5 Sobre a definição de Fachmann, cfir. Kalverkãmper (1990, 97).

6 Cfr., a título ilustrativo, Figueiredo / Ferreira (2002, 18-21).

7 Cfr., por exemplo, Nunes / Oliveira / Sardinha, (1995, 25-28).

8 Sobre o emprego desta expressão, cfr. Kocourek (1991,18-21).

9 Cfr. Vinay / Darbelnet (1977, 47).

académicos, de maneira deliberada e organizada, uma disciplina dedicada a este

subsistema da língua portuguesa. Mais frequentes e, pelo menos para alguns, mais

familiares do que a expressão "linguagem de especialidade" serão as expressões

"linguagem especial" e "linguagem técnica", que Herculano de Carvalho (1973,

335) descreve como uma variedade sócio-cultural e que define assim, por oposição

à linguagem comum:

«As linguagens especiais são primeira e primordialmente as linguagens técnicas. Estas serão constituídas, em contraste com aquela [linguagem comum], pelo inventário léxico peculiar às diversas comunidades menores compreendidas naquela comunidade extensa, cujos componentes se encontram ligados por uma forma particular de actividade - profissional sobretudo, mas também científica ou lúdica (de arte, dos desportos, dos

Tais palavras, modismos, expressões

fraseológicas, etc. ora são idênticas às da linguagem comum, com significação diversa ou (parcialmente) idêntica, mas usadas num sentido unívoco e bem definido, ora são peculiares e estritamente técnicas.»

jogos),

em termos genéricos, cultural.

[

]

Tão importante talvez como esta definição é a conclusão a que o mesmo autor

(1973, 338) chega relativamente às origens destas linguagens:

«É uma necessidade tripla [

]

a que faz nascer estas linguagens: a de designar

conceitos desconhecidos do homem comum, porque alheios ao seu plano de agir; a de nomear (tanto quanto possível) inequivocamente, com uma precisão não consentida pela linguagem comum (onde abundam a homonímia e a polissemia) e portanto sem perigo de confusão ou equívoco; efinalmentea de referir objectivamente os objectos e processos, alheando o acto de referência de qualquer emoção ou atitude valorativa, usando para isso termos tanto quanto possível despidos de conotação.»

Apesar de devidamente identificadas, estas linguagens não foram objecto de

investigação significativa, como o prova a seguinte afirmação de Paiva Boléo

(1974, 278):

10

«Mas não quero deixar de me referir às linguagens especiais e técnicas, próprias de

uma determinada classe ou profissão. Quanto às primeiras, citarei apenas a gíria militar,

quer do Colégio Militar, quer a do soldado em campanha, e a gíria dos estudantes.

Quanto às segundas - as linguagens técnicas - alguma coisa está feita, mas há ainda muito

a estudar, tanto em relação ao presente como ao passado.»

Como aliás se deduz da definição apresentada por Herculano de Carvalho

(1973, 335) 10 , o léxico - talvez por ser aquele que mais "salta à vista" - é o principal

elemento em foco nas escassas análises feitas, ficando por tratar outros aspectos,

como, por exemplo, certas particularidades morfo-sintácticas e pragmáticas, que

julgo igualmente importantes, como adiante se verá (cfr. ponto 4.).

Na elaboração do presente trabalho, tomei como referência a definição que

Hoffmann (1988a, 24) dá de Fachsprache, porque, segundo penso, é a mais

completa e, por isso, mais susceptível de vir a ser adoptada universalmente:

«Fachsprache - das ist die Gesamtheit aller sprachlichen Mittel, die in einem fachlich begrenzbaren Kommunikationsbereich verwendet werden, um die Verstândigung der dort

tãtigen Fachleute zu gewãhrleisten [

Subsprachen, die der fachlichen Verstândigung in unterschiedlich geschichteten Kommunikationsbereichen von Wissenschaft, Technik, Õkonomie, materieUer Produktion, Kultur, usw. dienen. Gegenstand der Fachsprachenforschung sind Texte, die bei der Kommunikation in diesen Bereichen entstehen, mit ihrem ganzen Bestand an Lauten bzw. Buchstaben, morphologischen Mitteln, Formativen, Wortformen, Wortverbindungen, und Textkonstituenten hõherer Ordnung. Mit anderen Worten: Die Fachsprachenforschung hat es mit der Aktualisierung der Zeichen des sprachlichen Gesamtsystems in Fachtexten zu tun» 1

]

Objekt der Fachsprachenforschung sind also

10 Sobre este aspecto, cfr. também a nota 42 da pág. 339 desta mesma obra.

11 Tradução: «Linguagem de especialidade - é a totalidade dos meios linguísticos utilizados numa

área de comunicação delimitável do ponto de vista técnico, para garantir a comunicação entre os

Objecto da investigação das linguagens de

especialistas que aí exercem a sua actividade. [

]

1.2. Problemas inerentes à análise de uma Linguagem de Especialidade

São várias as dificuldades com que a investigação das linguagens de

especialidade se defronta. De seguida, e sem a preocupação de sistematizar, irei

chamar a atenção para aquelas que parecem mais significativas, sobretudo quando

se trabalha não a partir de textos actuais, mas sim de textos antigos, mais ou menos

representativos dos diversos estádios de evolução de uma determinada linguagem de

especialidade.

Relativamente à língua alemã, Fluck (1985, 28), por exemplo, é de opinião que

com base nos materiais linguísticos dos dialectos tradicionais e conservadores seria

possível ainda hoje fazer-se uma reconstituição parcial da linguagem do vinhateiro

ou do pescador; contudo, em virtude da evolução das línguas e das coisas, tal

exercício nunca ultrapassaria o valor de uma hipótese. No seu entender, a estrutura

das linguagens de especialidade na época anterior à escrita ficará sempre por

esclarecer. 12 Ainda em relação ao alemão, e também de acordo com o mesmo autor,

só a partir de meados do século XIV é que é possível seguir o curso das linguagens

especialidade são, pois, sublinguagens, que servem para a comunicação técnica em áreas de comunicação diversamente estratificadas da ciência, da técnica, da economia, da produção material, da cultura, etc. Matéria da investigação das linguagens de especialidade são textos produzidos na comunicação nestas áreas, com todo o seu inventário de sons e/ou letras, meios morfológicos, formativos, formas de palavras, combinações lexicais e constituintes textuais de ordem superior. Por outras palavras: a investigação das linguagens de especialidade tem a ver com a actualização dos signos do sistema linguístico em textos de especialidade» (J. G.). 12 A verdade é que, já mais recentemente, e não só na Alemanha mas também noutros países europeus, a Linguística tem vindo a dar provas de um interesse cada vez maior pelo período de transição da linguagem oral para a linguagem escrita, em parte na sequência de outros trabalhos oriundos de áreas como a antropologia e a história da cultura. (A título de exemplo, cfr. Ong (1982)).

de especialidade, pois só a partir dessa época é que existem testemunhos escritos, tais como regulamentos e actas das corporações de artes e ofícios. Von Hahn (1983, 13), por sua vez, chama a atenção para o facto de os primórdios das linguagens de especialidade verdadeiramente alemãs - que situa entre os anos 500 e 800, só depois de o alemão se ter substituído ao latim - não coincidirem com nenhum momento de viragem fundamental da história da tecnologia, o que dificulta, em certa medida, o seu estudo. Este mesmo autor, depois de passar em revista as publicações por ele consideradas de especialidade feitas entre os séculos XII e XIX, 13 sublinha a importância de se proceder a um levantamento das fontes de linguagem de especialidade, com a enumeração dos diferentes géneros de texto de especialidade (Fachtextsorten) 14 e contribuindo, assim, para aquilo que, no seu entender, poderia ser uma história da comunicação e das suas técnicas. Além disso, e talvez lançando um desafio, v. Hahn (1983, 8) defende que se justificaria uma análise das linguagens de especialidade sob dois pontos de vista distintos: por um lado, por parte das disciplinas teóricas que representam as diferentes áreas de especialidade - como, por exemplo, a Engenharia Química ou a Biologia - nas quais se utilizam essas linguagens (tendo como objectivo a fixação terminológica que geralmente acompanha a formação de uma teoria); por outro lado, por parte da Linguística (por razões ligadas à sua própria essência e razão de ser).

13 Parece-me interessante salientar o facto de v. Hahn (1983, 21) concluir, em relação aos escritos do

século XII, que o mais importante para o receptor/leitor destes textos não é a informação factual

neles contida ou a aplicabilidade de uma determinada técnica neles descrita, mas os seus elementos

de carácter mais especulativo e talvez mesmo lúdico. 14 Sobre a definição de Textsorte, cfr. Lux (1981, 273), ReiB / Vermeer (1984, 176). Em relação ao

termo Fachtextsorte, cfr. Gõpferich (1995) ou Glãser (1990, 28 e segs).

13

No contexto da complexidade da análise dos géneros de texto e a propósito do

trabalho levado a cabo por Giesecke (1983) em relação a receitas manuscritas, Fluck

(1985, 190 e seg.), por sua vez, regista precisamente duas perspectivas distintas:

«M. Giesecke hat z. B. an handschriftlichen Rezepten gezeigt, wie problematisch die Úbertragung eines modernen Textsortenbegriffs auf mittelalterliche Fachtexte sein kann, die hãufig andere, mit der heutigen Textdeklaration nicht vereinbarende Funktionen aufweisen. Dies mag ein Grund dafflr sein, dali die Beschreibung nhttelalterlicher Fachliteratur und neuere Fachsprachengeschichte immer noch relativ beziehungslos nebeneinander stehen und statt interdisziplinar, zumindest im Deutschen fur den mittelalterlichen Zeitemm haufig von Wissenschaftshistorikern (Juristen, Mediziner, usw.) und Philologen, fur den neueren vorwiegend von Linguisten eraibeitet werden».

No que diz respeito a Portugal e embora não versando directamente as

linguagens de especialidade, há um trabalho que vale a pena referir, por fornecer

algumas pistas que permitem entender melhor uma das dificuldades da análise

destas linguagens. Trata-se de uma publicação sobre O uso da língua latina na

redacção dos textos científicos portugueses (Carvalho, 1991). Apesar de se debruçar

acima de tudo sobre os textos da área da medicina, este trabalho contém

informações válidas para outras áreas de especialidade e toca numa série de

aspectos que merecem ser sublinhados: em primeiro lugar, porque defende, um

pouco à semelhança do que faz v. Hahn (1983, 21), o carácter quase exclusivamente

15 Trad.: «Com base, por exemplo, em receitas manuscritas, M. Giesecke demonstrou quão problemática pode ser a transposição de um conceito moderno de género de texto para textos medievais de especialidade que, muitas vezes, apresentam outras funções não conciliáveis com o que o texto actualmente manifesta. Esta pode bem ser uma razão para o facto de a descrição da literatura medieval de especialidade e a história mais recente das linguagens de especialidade ainda continuarem relativamente independentes uma da outra e, em vez de serem abordadas de modo interdisciplinar, serem, pelo menos em alemão e para o período medieval, frequentemente tratadas por historiadores da ciência Guristas, médicos, etc.) e por filólogos e, para o período mais moderno, acima de tudo, por linguistas». (J. G).

14

especulativo e discursivo da Ciência até à «aceitação do experimentalismo como

forma activa e indispensável para dialogar com a Natureza» (ibid, 83); em segundo

lugar, porque constata o número reduzido de publicações em língua portuguesa nos

séculos XVI e XVII:

«Manuseando pacientemente a Biblioteca Lusitana de Barbosa Machado, contámos nela sessenta e três obras de Medicina de autores portugueses impressas nesse século

acrescendo ainda que das

nove obras restantes não latinas apenas duas se apresentam redigidas em língua

portuguesa. [

conjunto de temas cultivados no campo do saber, no século XVII, está representada por oitenta e nove obras de médicos portugueses das quais sessenta e oito foram redigidas em latim, dezasseis em português e cinco em castelhano» (ibid, 85 e seg.).

A Medicina, que continuou a marcar a sua posição de privilégio no

(XVI), das quais cinquenta e quatro redigidas em latim [

]

]

Torna-se assim evidente que o latim era por excelência a língua de

comunicação científica transfronteiriça e que a sua importância, estatuto e

divulgação contribuíram activamente para que algumas línguas nacionais não

pudessem atingir tão cedo a sua maturidade e plenitude pelo menos em algumas

áreas do saber. Nessa mesma medida faltam, relativamente ao português, as

necessárias fontes para o seu estudo e descrição no âmbito das linguagens de

especialidade.

Von Hahn (1983, 15) afirma, em relação às linguagens de índole mais técnica,

que a «latinidade» (Latinitãt) de uma terminologia era com toda a certeza um

critério para a avaliação da sua qualidade e ainda que o êxito de um aprendiz de

uma arte ou de um ofício se podia medir pelo grau de domínio da terminologia

latina de que dava provas. No texto de Carvalho (1991, 90) e relativamente ao século XVIII, salienta-se

o papel de Verney (Verdadeiro Método de Estudar, 1746) na defesa da tradução,

para as línguas nacionais, das obras de autores estrangeiros, como meio para

inverter o rumo tradicional das coisas; além disso, merecem também alusão as

15

críticas de Teodoro de Almeida faz na obra Recreação Filosófica (1751, 8) àqueles que «fazem as sciencias annexas a algum idioma», neste caso o latim. Por último, parece-me importante salientar o facto de em Portugal, e ao terminar o século XVIII, o uso do português na redacção das obras científicas não ser bem acolhido por toda a classe mais culta e o facto de haver quem se opusesse à publicação de traduções de obras desta natureza. Este é sem dúvida um obstáculo determinante, quando se considera o advento e a afirmação das linguagens de especialidade na área das ciências no nosso país e é um factor que não pode ser ignorado no âmbito da investigação de uma linguagem de especialidade.

1.3. Investigação no domínio das Linguagens de Especialidade

1.3.1. Na Alemanha

Mais uma vez e por questões organizativas, oriento-me pelos resultados dos trabalhos levados a cabo sobretudo em alemão. Para além de serem os que melhor conheço, a Alemanha é também um dos países em que esta investigação se encontra numa fase mais avançada e consolidada (veja-se, a título ilustrativo, a publicação da série Forum fur Fachsprachenforschung, da qual Hartwig Kalverkãmper é o editor, e que conta já com mais de 60 volumes exclusivamente dedicados a esta matéria). Assim sendo, a análise dos trabalhos desenvolvidos em alemão tem a vantagem de permitir acompanhar de uma forma modelar a evolução que a investigação das linguagens de especialidade sofreu ao longo dos tempos. Há unanimidade em reconhecer que as origens da investigação das linguagens de especialidade alemãs, ainda que naturalmente não conduzida nos moldes em que

16

é actualmente desenvolvida, estão consagradas no prefácio de Jacob Grimm ao

Deutsches Wórterbuch, datado de inícios do século XIX

:

« 8. Sprache der hirten, jãger, vogelsteller,fischer,u. s. w. Ich bin eifrig alien wõrtern der âltesten stande des volks nach gegangen, in der sicher begriindeten meinung, dasz sie fíir geschichte der sprache und sitte die ergibigste ausbeute gewâhren». 17

O interesse de Jacob Grimm pelas linguagens de especialidade prendeu-se

sobretudo com a diversidade do vocabulário alemão, que se deve a razões históricas,

e não tanto com um tratamento sistemático das diferentes terminologias de

especialidade.

Na viragem do século XVIII para o século XIX, começou a assistir-se, por parte

de linguistas conhecidos como Paul (1880) e Schirmer (1913) 18 , entre outros, a um

despertar do interesse pela terminologia de algumas áreas mais específicas.

Surgiram nessa altura numerosas monografias, que tinham como objectivo a

representação da terminologia de diferentes áreas de especialidade, atendendo a

aspectos etimológicos e de história da

Já no século XX, principalmente nas décadas de vinte e trinta, a chamada

Wirtschaftslinguistik (Linguística da Economia) foi responsável, não só na

Alemanha, mas também noutros países, como por exemplo nos Países Baixos

(Universidade de Roterdão) e na Suíça, pelo reconhecimento da importância das

linguagens de especialidade para a formação de especialistas, sobretudo do ramo

comercial, e pela integração destas linguagens nos curricula universitários. Este

16 Cfr. Fluck (1985, 27) e v. Hahn (1983,9). 17 Trad.: «8. Linguagem dos pastores, caçadores, passarinheiros, pescadores, etc. investiguei afincadamente todas as palavras das mais antigas classes do povo, na firme convicção de que constituem o mais rico manancial para a história da linguagem e dos costumes» (J. G.).

18 Citados em Móhn / Pelka (1984,1 e seg).

19 Cfr. Klenz (1900), Brõcher (1907) e Schmidt (1909), citados em Móhn / Pelka (1984, 1 e seg.).

17

facto ficou a dever-se, acima de tudo, a interesses de ordem económico-social.

Importante para os linguistas mais ligados a este movimento foi a análise da

de determinados conceitos e expressões da linguagem

. Sensivelmente na mesma época, os trabalhos dos linguistas checos seguiam

comercial

evolução do significado

uma orientação estruturalista, para a qual a linguagem da economia era acima de

tudo um meio de comunicação, entendido como um todo bem definido e

estruturado. Foi nos membros do Círculo Linguístico de Praga {Cercle linguistique

de Prague) que teve origem a análise funcional da linguagem. Na primeira das

Teses do Círculo, publicadas em 1929, a linguagem é caracterizada como sistema de

meios linguísticos que serve um determinado fim 21 . Em relação às linguagens de

especialidade, foram sobretudo as ideias de Havránek (citado em Fluck, 1985, 13)

sobre as diferenças funcionais da linguagem escrita as que mais marcaram a

investigação. Partindo da sua teoria da linguagem escrita - que considera a língua

um sistema polifuncional com vários estratos estilísticos -, os representantes da

Escola de Praga definiram linguagem de especialidade como um estilo funcional.

Estilo entende-se, neste contexto, como o princípio de selecção, adequação e uso de

meios linguísticos que está subjacente à concepção / elaboração dos textos. A teoria

de Havránek distingue quatro estilos funcionais, estando a linguagem de

especialidade representada em dois estratos: o estilo técnico-prático (fachlich-

praktisch), utilizado no sector dos serviços, como, por exemplo, os transportes

públicos, e o estilo teórico-científico (wissenschaftlich-theoretisch), usado nas

Ciências. Os outros dois estilos são o predominantemente comunicativo

(vorwiegend kommunikaiiv), usado no quotidiano, e o estilo estético (ãsthetisch), a

que se recorre na literatura. Associadas a estes quatro estilos estão quatro linguagens

20 Cfr. Beier(1999, 1404).

21 Cfr. Faye / Robel (1969, 23): "De ce point de vue [de la fonction, J. G.] la langue est un système de moyens d'expression appropriés à un but".

18

funcionais 22 : a linguagem de coisas {Sachspraché), a linguagem científica (wissenschaftliche Sprache), a linguagem quotidiana {Alltagssprache) e a

linguagem poética (poetische Spraché), respectivamente. Surgiram algumas críticas

a este modelo de Havránek 23 , sobretudo pela falta de uma componente de linguagem oral, mas foi Barth (1971) quem melhor conciliou as vertentes oral e escrita, definindo linguagem de especialidade como um tipo funcional do uso da língua. E

importante registar que a dimensão funcional, tão característica da Escola de Praga,

é ainda hoje um elemento essencial da investigação das linguagens de especialidade. No primeiro quartel do século XX, surgiu também a revista e o movimento homónimo Wòrter und Sachen, para o qual Heller (1998, 3) reclama algum protagonismo, enquanto raiz histórico-científica da actual investigação das linguagens de especialidade, apesar de reconhecer que se trata de um movimento de cariz predominantemente histórico-cultural, ao qual interessava, acima de tudo, uma perspectiva etimológica e etnográfica. Directamente ligados à criação deste movimento estão os nomes de Rudolf Meringer, indogermanista austríaco, e Hugo Schuchardt, romanista alemão 24 . Enquanto o primeiro partia das palavras para chegar às coisas, o segundo concedia a primazia às coisas 25 , publicando uma série

22 A distinção entre linguagem funcional e estilo funcional, se bem que ignorada por alguns autores,

como por exemplo Fluck (1985), parece ser mais importante para outros como, por exemplo,

Hoffmann (1985, 40), que cita a definição de Havránek (1967), segundo a qual o estilo funcional é

determinado pelo objectivo concreto de um enunciado e é uma função do discurso (da parole), e a

linguagem funcional, sendo uma função da langue, é determinada pelo conjunto de tarefas do

complexo normativo dos meios linguísticos.

23 Cfr. Vachek, citado em Barth (1971,210).

24 Cfr. Heller (1998, 13 e segs.).

25 «Die Sache besteht fur sich voll und ganz; das Wort nur in Abhangigkeit von der Sache, sonst ist

im Verhaltnis zum Wort ist die Sache das Primãre und Feste, das Wort ist

an sie geknupft und bewegt sich um sie herum» (citado in Heller (1998, 18)). - Trad.: «O objecto

existe por si só, total e plenamente; a palavra só tem existência na dependência do objecto, caso

19

es ein leerer Schall. [

]

de artigos intitulados Sachen und Wôrter, adoptando assim a ordem inversa daquela

que Meringer preconizava. Apesar das divergências, ambos chegaram a conclusões

semelhantes e contribuíram de forma determinante para a investigação das

linguagens de especialidade .

De acordo com Beier (1999, 1404), a investigação na área das linguagens de

especialidade foi, até finais dos anos oitenta, dominada pelos trabalhos levados a

cabo na então República Democrática Alemã. Baumann (1995, 13) reconhece

igualmente a forma hábil como, na Universidade de Leipzig, no início dos anos

oitenta, os investigadores conseguiram aplicar a Estatística à análise dos textos de

especialidade e incorporar nessa análise também a estilística de especialidade

{Fach(sprachen)stilistik), o que lhes proporcionou grande fama em toda a Europa,

chegando mesmo a falar-se de uma "Escola de Leipzig".

Durante muito tempo, a investigação das linguagens de especialidade ficou

marcada por uma polarização entre aquilo que se considerava ser a linguagem de

especialidade e a linguagem geral. A discussão pode facilmente resumir-se à

pergunta: será que as chamadas linguagens de especialidade apresentam

características especiais que as demarquem claramente da chamada linguagem

geral? Associadas a esta dicotomia (linguagem geral vs. linguagem de

especialidade), e numa tentativa de delimitar os vários subsistemas da língua,

surgiram inúmeras designações tanto para a linguagem comum {Allgemeinsprache,

Gemeinsprache, Nationalsprache ou Standardsprache) como para a linguagem de

especialidade {Sondersprache, Technolek, Berufssprache, Werkstattssprache,

etc.) 27 . Uma análise mais profunda da controvérsia em torno desta multiplicidade de

contrário é um mero som vazio. [

consistente, a palavra está-lhe associada e move-se em torno dele». (J. G.). 26 Cfr, Heller (1998, 22) e Neto (1957, 135 e seg.).

27 Cfr. Drozd (1973).

]

em relação à palavra, o objecto é o elemento primário e

20

termos - cuja tradução para português não me parece aqui tão pertinente - e da

justificação para a sua existência ficaria já fora do âmbito do presente trabalho.

Trabant (1983, 29) refere-se a esta oposição (linguagem de especialidade vs.

linguagem geral), utilizando para tal uma imagem que considero elucidativa:

«Die Gemeinsprache deckt alie allgemein bekannten Sachen mit Wõrtern ab, die

Fachsprache dagegen benennt solche Sachen, die nicht allgemein bekannt sind, sondem

Fachsprachen werden - bildlich

gesprochen - ais in die Breite oder in die Tiefe gehende Annexe der Gemeinsprache angesehen». 28

nur von Fachleuten, Experten gewuBt werden. [

]

A polarização acima referida é sobretudo consequência de um trabalho que

deu toda a prioridade ao estudo do léxico, e que encara as palavras da linguagem de

especialidade como termos que por si sós devem dar um contributo para a

compreensão global do enunciado de que fazem parte, igual ao que as palavras da

linguagem geral dão com a ajuda do contexto em que estão inseridas. Além disso,

esta orientação prescinde em boa medida da exploração dos meios sintácticos e da

situação de comunicação 29 . O vocabulário de especialidade é também referido, no

contexto da tradução de linguagens de especialidade, como o principal problema a

resolver. Esta constatação mantém-se em parte ainda hoje, sendo os aspectos

terminológicos (no sentido lexical) identificados como a principal dificuldade na

tradução de textos de especialidade.

Aquela polarização começou lentamente a ser contrariada, através da atenta

consideração de outros traços característicos das linguagens de especialidade. Este

28 Trad.: «A linguagem geral cobre com palavras todas as coisas do conhecimento geral, enquanto a linguagem de especialidade designa aquelas coisas que não são do conhecimento de todos, mas

apenas do conhecimento de especialistas, peritos. [

falando de modofigurado- como anexos da linguagem geral que se estendem em largura ou se

acentuam em profundidade». (J. G.)

29 Cfr.Beier(1961,195).

]

As linguagens de especialidade são vistas -

alargamento de horizontes fica a dever-se, acima de tudo, à tendência para a

descrição linguística sob uma perspectiva comunicativo-funcional, muitas vezes

protagonizada por representantes da chamada estilística funcional. Veja-se, por

exemplo, a posição defendida por Schmidt (1969, 17):

«Sie (die Fachsprache) ist gekennzeichnet durch einen spezifischen Fachwortschatz und spezielle Normen fur die Auswahl, Verwendung und Frequenz gemeinsprachlicher lexikalischer und grammatischer Mittel; sie existiert nicht ais selbstandige Erscheinungsform der Sprache, sondem wird in Fachtexten aktualisiert, die aulier der fachsprachlichen Schicht immer gemeinsprachliche Elemente enthalten».

A dicotomia é ainda mais decisivamente posta em causa pela análise de

outros planos linguísticos, como, por exemplo, o plano sintáctico. Schefe (1975, 25)

é um dos autores que reconheceu o papel da sintaxe para a análise e caracterização

dos textos de especialidade:

«Es ist nicht auszuschliefien, dali die Syntax zumindest zur heuristischen Abgrenzung von Fachsprachen dienen kann. Eine einheitliche Syntax der "Fachsprache" oder nur der "Theoriesprache" anzunehmen, hielie jedoch die Funktionahtat dieser Ebene im Ganzen auBer acht zu lassen. Die semantische Struktur des "Fâches" determiniert wesentlich die syntaktische Form ihrer Texte».

30 Trad: «Ela (a linguagem de especialidade) caracteriza-se por um vocabulário específico e por normas especiais para a selecção, utilização e frequência de meios lexicais e gramaticais da linguagem geral; ela não existe como forma manifestativa autónoma da linguagem, mas é actualizada em textos de especialidade que, além do estrato característico de linguagem de especialidade, contêm sempre elementos da linguagem geral» (J. G.). 31 Trad.: «Não é de excluir que a sintaxe possa servir pelo menos para a delimitação heurística das linguagens de especialidade. Admitir uma sintaxe homogénea da "linguagem de especialidade" ou apenas da "linguagem da teoria" seria contudo descurar totalmente a funcionalidade deste plano. A estrutura semântica da "área de especialidade" determina de modo substancial a forma sintáctica dos

seus textos». (J. G.).

22

A partir de meados dos anos setenta, verifica-se que, nos trabalhos de

investigação das linguagens de especialidade, e como consequência directa das

novas correntes linguísticas, da viragem pragmática (pragmatische Wendé), da

teoria accionai e da Linguística de Texto 32 , se começou a dedicar uma atenção cada

vez maior aos aspectos linguístico-textuais e teórico-accionais, para além dos

factores comunicativo-pragmáticos. Simultaneamente, o conceito de linguagem

geral {Allgemeinsprache) começou a ser utilizado sobretudo quando se recorreu a

uma perspectiva histórica para a análise da génese das linguagens de especialidade

ou da influência da comunicação de especialidade na comunicação global. Sempre

que a tónica foi posta na descrição comparativa, no âmbito da Linguística Aplicada,

o conceito de linguagem geral foi, por iniciativa de Hoffmann (1976), substituído

pelo de Gesamtsprache, termo que a ser traduzido para português leva a uma

denominação que, com certeza, causará alguma estranheza por não ser habitual na

linguística portuguesa: linguagem global.

Para além dos esforços da Linguística Aplicada, no sentido de neutralizar a

oposição entre linguagem geral e linguagens de especialidade, foram vários os

autores que se empenharam em contrariar esta visão demasiado reducionista do

problema. Kalverkàmper (1978, 437) foi disso um exemplo, ao defender que toda a

comunicação é comunicação de especialidade ou, pelo menos, comunicação "for

special purposes", i.e. para fins específicos ou de especialidade, e ao afirmar que a

distinção entre linguagem geral e linguagem de especialidade não é sustentável nem

do ponto de vista linguístico nem do ponto de vista pragmático .

32 Cfr., por exemplo, Dressier, W. (1973), Guttenecht, C. (1977), Wunderlich, D. (1971, 1972 e

1974) e Maas, U. / Wunderlich, D. (1974).

33 Para uma análise desta questão, cfr., por exemplo, Kalverkàmper (1990, 105 e seg.).

23

A negação desta dicotomia parece-me, de facto, fazer sentido, dada a

enorme dificuldade em estabelecer uma fronteira entre os elementos pertencentes a

uma eventual linguagem geral e os elementos pertencentes a uma linguagem dita de

especialidade. Um argumento claro a favor de que as linguagens de especialidade não podem existir sem a chamada linguagem geral e das influências recíprocas entre ambas é constituído pelos textos didácticos: são textos em que especialistas de uma determinada área transmitem conhecimentos específicos dessa área a destinatários não-especialistas. Associada a essa transmissão de conhecimentos específicos está também a transmissão de uma terminologia de especialidade, e essa é feita através da definição e da explicação de termos e conceitos, recorrendo ao uso de expressões

da linguagem geral.

127) fala em stilistisch neutrale Wòrter (palavras

estilisticamente neutras) utilizadas no estilo específico (ou de especialidade) e ainda

de "palavras-base (Grundwõrter) presentes em todos os estilos". Niibold (1987, 53),

a propósito de uma análise de um corpus de publicações em língua inglesa (da

autoria de investigadores alemães), fala em dignity words e reconhece tratar-se de

palavras que, não sendo termos técnicos, influenciam de forma determinante o estilo

Benes

(1970,

de um texto científico. Voltando à diferente focalização de interesses por parte da investigação, importa dizer que se assistiu, numa fase posterior à da negação da polaridade linguagem geral / linguagem de especialidade, à afirmação de um novo modelo de análise das linguagens de especialidade, assente no princípio de uma escala variável (gleitende Skala) de especificidade / especialidade (Fachlichkeit) dos textos e das acções intencionais, que vai desde o extremamente pobre em traços de especialidade até ao extremamente rico nesses mesmos traços (Kalverkàmper, 1990, 117-119). Relativiza-se assim a polarização, uma vez que a maioria dos textos se encontra algures entre os dois extremos. Kalverkàmper, que inicialmente (1979) se insurgiu

24

contra o estatuto de axioma concedido à Fachlichkeit,

linguagens de especialidade 34 , pronunciou-se mais tarde

este conceito:

no âmbito da investigação das

(1983, 139) de novo sobre

«Fachlichkeit ais eine Qualitat von - wie auch immer erfafiten - Fãchern ist nicht der

primáre Orientierungspunkt, nach dem sich die Versprachlichung (d.h. das Abfassen von

[Fach-]Texten) richtet oder zu richten hat. In der Gemeinschaft von Fãchern und

Sprachen sind nicht die Fâcher oder deren FachMchkeitsqualitãt mafigebend dafur, eine

ihnen "zustehende" Fachsprache auch tatsáchlich zugeordnet zu bekommen; vielmehr ist

dasjenige Medium, ûber das úberhaupt erst Fachlichkeit - und somit ein

die Sprache [

]

wichtiges Merkmal eines Fâches - signalisiert

wird». 35

Existe, assim, um espectro de diferentes graus de especialidade e

consequentemente um espectro de linguagens de especialidade de diferentes graus.

Isso aplica-se não apenas ao plano lexical, mas a todos os planos linguísticos, até ao

próprio texto, impondo-se a distinção de géneros de texto de diferentes graus de

especialidade. Kalverkàmper (1990, 121), ao introduzir o modelo da gleitende

Skala, de que já se falou, apresenta-o como um modelo pragmático-textual, no qual

a especialidade é vista como uma característica de textos-em-função (cfr. ponto

2.1.) 36 .

34 Von Hahn (1983, 64), que utiliza para o mesmo conceito o atributo heurístico, diz que fachlich,

específicas / de especialidade, são todas as acções, sobretudo de carácter instrumental que são

executadas com fins racionais e não sociais.

35 Trad.: «A especificidade como uma qualidade de áreas de especialidade - qualquer que seja a

forma como estas são abordadas - não é o principal ponto de orientação, pelo o qual a verbalização

(i.e. a redacção de textos [de especialidade]) se guia ou se deve guiar. Na comunidade de áreas de

especialidade e linguagens não são as áreas ou o seu grau de especialidade que são determinantes

para que também lhes seja de facto atribuída a linguagem de especialidade "que lhes cabe"; é antes a

linguagem que é o meio através do qual se sinaliza a especificidade - e assim uma importante

característica de uma área de especialidade.» (J. G.).

36 Em relação à aplicação deste mesmo conceito às palavras e aos textos, cfr. Heller (1998, 153).

25

As vantagens deste tipo de modelo residem no facto de não se traçar

nenhuma fronteira artificial num continuum linguístico de diferentes graus de

especialidade, que não só reflecte a realidade (onde não há de facto limites

identificáveis), como permite abranger todas as constelações comunicativas: dentro

de uma mesma área de especialidade (fachintern), entre áreas de especialidade

distintas (interfachlich) e fora de uma área de especialidade (fachextern)

Gópferich (1995), que como adiante se verá (ponto 2.2.1.) trabalha

exclusivamente com textos actuais, aplica este modelo a diferentes géneros de texto

e introduz-lhe algumas alterações, transformando-o num modelo de espectros

complementares (komplementare Spektren), sublinhando o facto de todos os textos

revelarem traços de especialidade e traços que não são de linguagem de

especialidade. A redução do grau de especialidade é associada a outros critérios

como a diminuição do grau de abstracção, o alargamento do círculo de destinatários

de um texto, etc.

E é aqui que, no entender de Hoffmann (1998b, 164), o círculo se fecha, uma

vez que considera que para a avaliação do grau de especialidade quer de acções

intencionais quer de textos não há nenhuma oposição que se possa substituir ao

contraste entre linguagem de especialidade e linguagem geral:

«Die Gemeinsprache lãfit sich offenbar nur schwer neutralisieren, geschweige denn eliminieren; die Polarisierung von Fachsprache und Gemeinsprache bleibt in der Skalierung mehr oder weniger deutlich erhalten; Skalierungen mit vielfáltigen Merkmalkomplexen versprechen fur die Zufiinft eine differenziertere Beschreibung der Sprachvariation in Fachsprache und anderen Subsprachen auf der Grundlage exakter Merkmalvergleiche, wobei sowohl sprachliche (textmterne) ais auch aufiersprachliche (textexterne) Merkmale beriicksichtigt werden sollten.»

37 Para a definição destes conceitos, cfr. Mõhn (1979), que foi quem os cunhou.

38 Trad.: «É óbvio que só muito dificilmente a linguagem geral se pode neutralizar e muito menos eliminar, a polarização entre linguagem de especialidade e linguagem geral mantém-se mais ou menos nítida nos modelos de estratificação; estratificações com conjuntos variados de traços

26

1.3.2. Em Portugal

Considerando o que se passou em Portugal, não deixa de ser interessante o

facto de um dos primeiros trabalhos que de certa forma se ocuparam das linguagens

de especialidade ter precisamente o título "Palavras e Coisas" (em alemão Wôrter

undSacherí). Trata-se de um artigo da autoria de Francisco Adolfo Coelho (1914),

publicado na Revista Lusitana vol. XVII, págs. 1-16, de que Leite de Vasconcelos

era o editor. À laia de introdução o autor escreve o seguinte:

«As Notas, cuja publicação se inicia aqui, foram coligidas pela maior parte há já anos bastante numerosos para auxílio privado de diversos estudos. Pondo-as ultimamente em certa ordem, pareceu-me que, ainda quando não fossem completadas de modo que formassem um todo que mereça o nome de um tratado, poderiam ter algum interesse e despertar até investigações mais amplas. Tais como saiem aqui não tem outra pretensão senão a de serem apontamentos incompletos.»

Para além das indústrias de construção, com os seus principais artífices

(carpinteiros, pedreiros, e alvanéis), e sem deixar de lado o registo de documentos

relacionados com a produção de telha, ladrilhos e cal, o autor menciona ainda outros

sectores de actividade como, por exemplo, a fiação e a tecelagem, dizendo - em

relação a esta última - que a nomenclatura da arte de tecelagem é por si só prova

suficiente da transmissão da arte de tecer em Portugal desde o domínio romano. A

distintivos prometem para o futuro uma descrição mais diferenciada da variação linguística, tanto na linguagem de especialidade como noutras sublinguagens, com base em comparações exactas desses traços, sendo levadas em linha de conta tanto as características linguísticas (intratextuais) como

extralinguísticas (extratextuais)». (J. G.).

27

propósito deste trabalho, Neto (1957, 13 e seg.) afirma que «é quase certo que

Adolfo Coelho conhecia os trabalhos de Meringer [

pesquisa de Schuchardt» e não hesita em recorrer aos conceitos de objectologia e objectólogo 39 para enquadrar e descrever a actividade levada a cabo por Adolfo Coelho. Infelizmente, este trabalho não parece ter tido sequência e, de qualquer modo, não deixa de ser um trabalho essencialmente centrado sobre o léxico, como acontece, aliás, com a maioria dos trabalhos posteriores sobre linguagens de especialidade realizados em Portugal. Ainda na Revista Lusitana, vol. XXII, págs. 170-196, foi publicado em 1919 um outro artigo da autoria de Laranjo Coelho que, devido à temática que aborda, não pode deixar de ser registado aqui. Trata-se de um trabalho intitulado "Os cardadores de Castelo de Vide - subsídios para a etnografia (indústrias) do distrito de Portalegre". O que este estudo revela - naturalmente entre outras coisas - é que as actividades produtivas, as da ciência e das técnicas parece não terem interessado, com as suas respectivas linguagens, tanto à "sciencia da linguagem" (ou "glortologia") como aos etnólogos e etnógrafos. É evidente que isto não significa que ilusteres filólogos como, por exemplo, Carolina Michaèlis de Vasconcelos e José Leite de Vasconcelos, ou nomes talvez não tão conhecidos, que publicaram os seus textos nomeadamente na Revista Lusitana, não se tenham dedicado a aspectos de linguagens específicas, sobretudo numa perspectiva literária, etimológica e dialectológica. Mas seria necessário esperar mais algum tempo para que surgissem outros trabalhos que se apresentaram declaradamente também com uma vertente linguística. É o caso do texto de Maria Helena Nogueira de Morais «A dobadoira. Estudo linguístico, etnográfico e folclórico», de que a primeira parte foi publicada no vol. VII, 1955, págs. 129-249, e a conclusão no vol. VIII, 1957, págs. 61-152 da Revista Portuguesa de Filologia - texto que refiro aqui por se prender de algum

]

bem como a notabilíssima

39 De acordo com Neto (1957, 135), estes são neologismos introduzidos no Português por Paiva Boléo.

28

modo com a área a que se reporta a linguagem específica que me ocupa. Neste contexto, convém recordar ainda a importância de alguns trabalhos de outros etnólogos portugueses como é o caso de Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Jorge Dias sobre temas tão variados como os pisões portugueses 4 , os arados portugueses 41 ou os sistemas de moagem . Depois de Cintra (1963) 43 ter chamado a atenção para o reduzido número de textos portugueses não literários que tivessem sido estudados por linguistas e de ter, com isso, sugerido que haveria aí um filão a explorar, poucos foram, no entanto, aqueles que se dedicaram à análise das linguagens de especialidade. Além disso, os trabalhos existentes, salvaguardando alguma excepção 44 , para além de estarem um pouco dispersos, carecem de serem atribuídos a uma classificação que os coloque no conjunto dos textos dedicados a linguagens específicas. A título de exemplo, refiro o trabalho de Herculano de Carvalho (1953), curiosamente também ele intitulado "Coisas e Palavras", sobre os primitivos sistemas de debulha na Península Ibérica. Mas continua a ser um trabalho acima de tudo de carácter etnográfico, enquadrando-se numa série de estudos dialectológicos levados a cabo pelo autor. Já muito mais recentemente e sob uma perspectiva diacrónica, Verdelho (1998) oferece-nos uma boa visão panorâmica das terminologias na língua portuguesa, chamando a atenção para aspectos como a génese e a configuração

40 Oliveira, V. de / Galhano, F. (1977).

41 Dias, I (1982).

42 Oliveira, V. de / Galhano, F. / Pereira, B. (1983). 43 Este autor realizou trabalhos na área da historiografia medieval portuguesa, dos dialectos

portugueses e dos textos medievais portugueses não-literários, mas, mesmo neste último domínio, o

seu objectivo foi, acima de tudo, encontrar informações sobre a linguagem utilizada nas diferentes

regiões do território português.

44 Veja-se, por exemplo, Franco (2001) sobre o Livro de Alveitaria do Mestre Giraldo.

29

linguística das designações científicas e técnicas, a dicionarização dos tecnoletos ou ainda para a linguagem das ciências e das técnicas na memória textual portuguesa. Martins (1999), à semelhança de Cintra (1963), escreve sobre a tipologia dos diferentes textos mais antigos escritos em português, mas mais uma vez a perspectiva não é a da análise da linguagem de especialidade, mas a da datação dos documentos e da sua análise scripto-linguística. Se se comparar o trabalho feito, por exemplo, na área da dialectologia e da análise das linguagens populares com o que existe no domínio das linguagens de especialidade, o desequilíbrio torna-se ainda mais evidente

1.4. Classificação das Linguagens de Especialidade

Uma das primeiras necessidades sentidas por quantos se dedica(ra)m ao estudo das linguagens de especialidade foi a da sua classificação. A própria definição que Hoffmann dá de linguagem de especialidade (cfr. ponto 1.1.) deixa já o caminho aberto para uma classificação possível. Ao falar em Kommunikationsbereich (área de comunicação) está já implicitamente a estabelecer a distinção entre aquilo que considera serem diferentes Subsprachen (sublinguagens ou subsistemas). Perante a constatação da enorme variedade de materiais caracterizáveis como uma linguagem de especialidade - e com o intuito de melhor estruturar o fenómeno destas linguagens -, foram feitas ao longo dos anos tentativas de estruturação horizontal, em função das diferentes áreas de especialidade, por exemplo, Medicina, Física, Matemática, Electrónica, Construção Civil, etc. com as suas respectivas linguagens. Cedo porém, esta divisão deu provas de não ser suficiente, uma vez que não é fácil

45 Cfr., a título ilustrativo, a bibliografia da obra Linguagem Regional e Linguagem Popular no Romance Regionalista Português de Verdelho (1982, 191).

30

decidir se existe, por exemplo, uma linguagem - de - especialidade técnica e uma linguagem científica ou se há uma linguagem geral da ciência e, a seu lado, linguagens de especialidade de cada um dos ramos da ciência (Química, Física,

etc.).

Fluck (1985, 16) defende que este não é um problema que se faça sentir da mesma maneira em relação às linguagens de especialidade dos ofícios e considera que cada ofício tem uma linguagem própria e um vocabulário fixo e ainda que estas linguagens sofrem, muitas vezes, influências dialectais, o que leva à existência de diferenças de carácter regional. Kalverkàmper (1990, 100) critica aqueles que consideram que há tantas linguagens de especialidade quantas as áreas de especialidade, acusando-os de um erro de perspectiva, pois no seu entender a constituição de uma área de especialidade está directamente dependente da linguagem. Foi sem dúvida devido a todas estas dificuldades que se tentou, para além da estruturação horizontal, uma estratificação vertical das linguagens de especialidade, que desse conta das diferentes variantes dentro de um mesmo tipo de linguagem. Neste contexto, surgiram diversas propostas de modelos de estratificação, que se podem enquadrar em duas categorias diferentes: os que partem de critérios estilísticos e os que partem de critérios comunicativo-pragmáticos. Os investigadores da Escola de Praga apresentaram modelos da primeira categoria, com apenas dois estratos: o estilo prático-utilitário e o estilo teórico-científico . Contudo, este esquema não é rígido, uma vez que o estilo prático é diferenciado, do mesmo modo que existem vários estilos dentro do estilo teórico-científico. Já Ischreyt (1965, 39), orientando-se por critérios pragmáticos, procede a uma tripartição e distinção entre a linguagem da oficina (Werkstattsprache), a linguagem - de - especialidade científica {wissenschaftliche Fachsprache) e a linguagem dos vendedores {Verkãufersprache).

Cfr. Beneã, (1971).

31

Por sua vez, Hoffmann (1976) apresenta um modelo com cinco estratos, que

dependem da aplicação de critérios como o grau de abstracção, a forma linguística,

o meio e os agentes da comunicação.

Porém, v. Hahn (1983, 76 e segs.) prefere um modelo tridimensional,

distinguindo entre três vectores: distância comunicativa (Kommunikationsdistanz),

acções intencionais {Handlungerí) e destinatários (Adressaterí). Ao definir estes três

eixos, o autor afirma que a distância comunicativa pode variar entre a comunicação

directa, i. e. comunicação face-a-face, e a anónima, quando há várias instâncias

intermediárias. Em relação ao conceito de 'distância comunicativa', que considera

inovador, v. Hahn identifica uma série de critérios que podem ajudar a determiná-lo.

São eles o grau de conhecimento dos destinatários, a existência de instâncias

intermediárias, o número de passos de intermediação, o canal de comunicação e o

grau de desfasamento temporal. Já o segundo eixo é baseado na teoria dos actos de

fala e divide-se em instrução, organização e informação. Ao terceiro eixo, e

comparando-o com o modelo de Ischreyt, por exemplo, v. Hahn acrescenta uma

quarta categoria, distinguindo entre Nutzung (utilização), Vermittlung (mediação),

Technologie (tecnologia) e Wissenschaft (ciência).

A avaliação que Gópferich (1995, 37) faz dos diferentes modelos reflecte

bem as limitações dos mesmos, e julgo importante reter as exigências que coloca à

apresentação deste tipo de propostas:

«Ein Modell der vertikalen Schichtung, das die Differenziertheit der sprachlichen Realitat in einem Fachgebiet adaquat widerspiegeln soil, muB jedoch so gegliedert sein, dali jeweils nur pragmatisch und sprachlich tatsãchlich verwandte Textsorten der gleichen Kategorie zugewiesen werden; es muB also auf einem textsortenorientierten Ansatz beruhen und die Gemeinsamkeiten der Textsorten durch Abstraktion verdeutlichen». 47

47 Trad: «Um modelo de estratificação vertical, que tenha por objectivo reflectir adequadamente o

grau de diferenciação da realidade linguística de uma área de especialidade, tem, no entanto, de estar

32

Para concluir, penso que v. Hahn (1983, 82) tem razão, quando defende que

o grau de diferenciação dos modelos é controverso e que além disso o tipo de

análise que se pretende levar a cabo condiciona a grelha de elaboração do modelo:

para trabalhos de teor lexicográfico bastará uma grelha mais rudimentar do que para

trabalhos que incidam sobre questões de carácter comunicativo-pragmático.

Além disso, parece-me importante referir ainda que os dois tipos de

articulação (horizontal e vertical) não podem ser considerados separadamente,

porque nem todas as linguagens de especialidade abrangem todos os estratos

verticais e porque existem sempre diferenças entre duas linguagens do mesmo

estrato vertical.

2. Textos de Especialidade

2.1. A perspectiva da Linguística de Texto

Uma vez que a análise de textos sob uma perspectiva da Linguística de Texto

constitui a parte prática do presente trabalho, é com certeza oportuna uma referência

breve à génese e à evolução desta disciplina e àqueles que são os seus principais

conceitos.

articulado de modo a que apenas os géneros de texto que sejam de facto pragmática e linguisticamente aparentados sejam atribuídos à mesma categoria; tem, pois, de assentar numa abordagem que tenha como referência os géneros de texto e de dilucidar por abstracção os pontos

comuns dos géneros de texto». (J. G.).

33

Neste sentido, vale a pena recordar que o termo "texto" (de origem latina), tal

como hoje o conhecemos, é o resultado de longas discussões sobre a língua. Cícero

e Quintiliano, que viveram, aliás, em épocas distintas, foram dois dos mais ilustres

representantes da Retórica clássica, a eles se devendo a utilização metafórica do

verbo "texere" e o recurso ao termo "textus" para designar o estilo. Segundo Ehlich

(1984, 10), embora "textus" pareça remeter para os conceitos de conexão e

coerência (trama), os dois mestres da Retórica utilizam-no com outro significado,

salientando a noção de estilo, cujas quatro qualidades Quintiliano considerou serem

a correcção, a clareza, a elegância e a adequabilidade.

Há ainda um segundo significado atribuído a "texto", que se manteve em uso

durante muito tempo: na Idade Média, "texto" era sinónimo de texto do Evangelho e

reportava-se às letras do evangeliário, que constituíam assunto de um sermão,

ascendendo à categoria de "original" e "autêntico", por oposição aos comentários,

aditamentos, traduções, etc. 48 . Este segundo significado foi depois, segundo Vater

(1992, 15), alargado à literatura "mundana", facto que explica a importância dada ao

traço sémico "escrito" na definição pré-científica de "texto".

É este segundo significado de texto que, no entender de Ehlich (1984, 11), se

impôs na Literatura: a obra literária toma a posição do texto bíblico e passa a ser

analisada filologicamente, mantendo os traços de autenticidade e originalidade.

Na Linguística, prevaleceu o sentido metafórico, ainda que não utilizado da

mesma forma em que o foi por Cícero e Quintiliano, mas sim reportando-se

essencialmente ao produto final: texto é o que está unido, coeso, coerente, bem

"tecido".

Não

será

por

acaso

que,

quando

se

fala

no

termo

"texto", se refere

obrigatoriamente a Retórica; e quando se vai no encalço de disciplinas precursoras

da Linguística de Texto, a Retórica surge, sem dúvida, como uma delas, tanto no

seu sentido mais lato (como arte do discurso público), como no seu sentido mais

Cfr. a definição lexicográfica de Silva (1959).

34

restrito (como retórica escolar ou arte do discurso partidário, exercida principalmente diante dos tribunais). De facto, a Retórica regulamentou a produção de discursos através de um conjunto de técnicas ou preceitos (praecepta) e estabeleceu que as matérias a tratar obedecem a cinco fases de elaboração: inventio, dispositio, elocutio, memoria e pronuntiatio, sem nunca perder de vista o objectivo final, ou seja - aquilo a que hoje se chamaria -, o efeito comunicativo do discurso:

convencer o receptor. Ora, são sobretudo as três primeiras fases, aquelas em que se pode reconhecer uma maior ligação à Linguística de Texto: segundo a Retórica, a procura e escolha de ideias (inventio) e a sua ordenação (dispositio) podem ser controladas de modo sistemático; além disso, a Retórica defendeu também que os textos são portadores de uma interacção com objectivos definidos e que se pode treinar a transição ou passagem da ideia à expressão (elocutio).

A obra Einfuhrung in die rhetorische Textanalyse (Plett, 1975) é apenas um exemplo da proximidade inegável entre a Retórica e a Linguística de Texto; outro testemunho é a conclusão de de Beaugrande / Dressier (1981, 63) relativamente à paráfrase 50 ou ao paralelismo (recursos tão explorados na Retórica), através dos quais se manifesta um fenómeno de recorrência, e que contribuem para um maior equilíbrio e uma maior precisão dos textos, factores determinantes para a interpretação e aplicação, por exemplo, de textos jurídicos de carácter legislativo. De acordo com Junker (citado in Heinemann / Viehweger (1991, 21)), apesar de se ter debruçado acima de tudo sobre palavras simples, grupos de palavras ou frases, a Retórica clássica não pode deixar de ser vista como antecedente da Linguística de Texto e da Pragmática de Texto, pois orientou-se tendencialmente para a totalidade de um texto (Textgamheit). No entender de Heinemann / Viehweger (1991, 21), o mesmo se pode concluir relativamente à Estilística, que se afirmou como disciplina autónoma no século XIX e que, tendo raízes notórias na Retórica, é também

Cfr. Lausberg(1967,75). Cfr. igualmente Fuchs (1980).

35

precursora da Linguística de Texto. Também ela reconhece o papel primordial da elocutio, sublinha o princípio da selecção dos recursos linguísticos em função de um determinado fim e se orienta sobretudo pelo efeito do discurso. Muito embora existam alguns pontos comuns entre a Retórica e a Estilística, há todavia algumas diferenças significativas entre estas duas disciplinas. Se, por um lado, a Estilística dirigiu o seu interesse para a fase da expressão e para o recurso aos meios estilísticos, por outro lado incluiu na sua análise não apenas o discurso oral, mas também o texto literário e, posteriormente, analisou ainda enunciados / textos provenientes das mais diversas áreas da actividade social.

Durante muito tempo, não foi porém o texto a ocupar o centro das atenções da Linguística. Seguindo uma orientação apoiada no estruturalismo e na Gramática Gerativa Transformacional, os estudos linguísticos, como o tinha feito a chamada gramática tradicional, incidiram sobretudo na frase, considerando-se que todas as estruturas que ultrapassassem as fronteiras desta recaíam no âmbito da Estilística. Dressier (1973, 6) considera que Zellig Harris (1952) deu um passo importante na direcção daquilo que viria a ser a Linguística de Texto, através da sua discourse analysis, na qual alargou os métodos estruturais do distribucionalismo americano da fonologia, da morfologia e da sintaxe ao plano textual. Mas só nos anos sessenta se começou a defender de modo programático que a unidade fundamental, o signo linguístico original, primário, é o texto 51 e que o homem escreve e fala por meio de textos 52 . Este modo de ver as coisas está associado a uma mudança de paradigma, que permitiu ultrapassar a Linguística

51 Cfir. Hartmann (1971, 10).

52 «Auf einer dritten Reflexionsstufe ist also ais hõchste sprachliche Einheit der Text zu suchen. Der

Mensch redet und schreibt in Texten, oder zumindest intendiert er es: sie sind die primaren

sprachlichen Zeichen, in denen er sich ausdriickt» (Dressier, 1973, 12). - Trad.: «Num terceiro nível

de reflexão, deve, pois, procurar-se o texto como a mais elevada unidade linguística. O Homem fala

e escreve em textos, ou pelo menos é essa a sua intenção: eles são os sinais linguísticos primários,

através dos quais se exprime». (J. G.).

36

voltada quase exclusivamente para a língua enquanto sistema (desde Saussure até Chomsky) para se chegar a uma Linguística marcadamente funcional e comunicativa. Essa passagem ficou conhecida no meio alemão por "kommunikativ- pragmatische Wende" - viragem pragmática. Muito embora tenha surgido numa altura em que predominava ainda o primado da frase, a Teoria dos Actos de Fala 53 contribuiu em vasta medida para forçar esta viragem, e a prova é que foram vários os autores que se empenharam na sua aplicação no plano textual 54 . À luz daquela teoria, mais do que uma sequência de frases com ligações gramaticais, um texto é uma acção linguística intencional complexa, através da qual aquele que fala / escreve estabelece uma relação comunicativa com aquele que ouve / lê. É por assim dizer nesta linha que a noção chomskiana de competência linguística é substituída pela noção de competência comunicativa 55 , definida como a capacidade dos indivíduos de comunicarem uns com os outros em conformidade com situações variáveis de natureza normativa, social, psíquica, etc. Um texto é simultaneamente texto-em-função (Schmidt, 1973, 145) etexto-em- -situação (Weinrich, 1976, 16), logotexto-em-situação-com-função. De Beaugrande e Dressier, na obra Einfuhrung in die Textlinguistik (1981), estabelecem sete critérios para a definição de um texto: (1) coesão e (2) coerência, dois conceitos centrados no próprio texto e ainda (3) intencionalidade, (4) aceitabilidade, (5) informatividade, (6) situacionalidade e (7) intertextualidade, conceitos estes mais manifestamente ligados à comunicação tanto do ponto de vista do produtor / emissor como do receptor dos textos. Alguns destes conceitos serão explorados mais à frente na parte prática deste trabalho.

53 Cfr. Austin (1965) e Searle (1969).

54 Gópferich (1995, 166) refere, neste contexto, os trabalhos de Sandig (1973), Schmidt (1973) e van

Dijk (1977) entre outros.

55 Sobre a noção de competência comunicativa, cfr. Hymes (1971, 269-293).

37

Uma outra distinção muito importante para a Linguística de Texto, e a que recorrerei também na análise dos vários textos que seleccionei, é a que se faz entre macroestrutura (segundo de Beaugrande / Dressier (1981, 29) esta noção terá sido introduzida por van Dijk) e microestrutura textual. No âmbito da análise macroestrutural, importa referir a possibilidade de se proceder à divisão de um texto em textos-parte, com uma determinada função no quadro do texto-todo, havendo partes com diferentes graus hierárquicos. A análise dos textos-parte (Teiltextanalyse de Gulich/Heger/Raible, 1979) assenta em determinadas regras; assim, as partes do texto que possuem um correspondente / equivalente extratextual {Analogon) são hierarquicamente superiores às partes do texto que não têm esse correspondente - a título de exemplo, pode apontar-se o caso de um aparelho para uso doméstico como equivalente extratextual do texto composto pelas respectivas instruções de utilização. Esta análise parte, pois, de um texto como um todo, que é aquele que tem a função comunicativa mais elevada da hierarquia - o "texto de grau zero" (Teiltext nullten Grades) na terminologia de Gulich/Heger/Raible (1979), "texto total" (Gesamttexi) para Oomen (1972) ou "texto global" (Globaltext) no entender de Gõpferich (1995) -, passando aos seus constituintes imediatamente abaixo na hierarquia: textos de primeiro grau (ou "texto principal" (Haupítext) para Gõpferich), textos de segundo grau ("texto auxiliar" (Auxiliartext) na terminologia usada por Gõpferich), e assim sucessivamente. A estrutura hierárquica dos textos- -parte constitui a macroestrutura de um texto. Ainda no contexto macroestrutural, são importantes determinadas especificidades culturais (cfr. Clyne, 1981 e 1987) e outros aspectos ligados à coerência textual, definida por Gõpferich (1995, 50) como a consistência lógico- -semântica (externa ao texto, ética) dos constituintes textuais, responsável pelo facto de a sequência dos constituintes de um texto parecer razoável do ponto de vista pragmático.

38

Já no plano microestrutural, entra-se em linha de conta com factores como o respeito pela cronologia na descrição de determinados processos; a progressão temática (Danes, 1974), baseada em certas estruturas de articulação tema-rema ; os problemas de isotopia; as noções de campo lexical e de referência; a retoma de ideias através do recurso a paráfrases, paralelismos ou pró-formas, como por exemplo os pronomes; os padrões de ênfase ou as variações diatópicas, diafásicas e diastráticas. Estes são factores que contribuem, em grande medida, para a coesão textual, definida lapidarmente por Gõpferich (1995, 51) como o conjunto das relações linguísticas (gramático-formais, internas ao texto, émicas) que se encontram nos textos 57 . Para além destes, poderíamos ainda citar o recurso à elipse ou ainda a factores como o tempo e o aspecto. Todas estas noções se constituem em instrumentos fundamentais e são recorrentemente convocados, como adiante também se verá (cfr. ponto 4.), na análise de textos de especialidade. Um outro aspecto fundamental da Linguística de Texto, para além da análise de texto em sentido mais restrito, é a tipologização dos textos. Neste contexto, e se bem que partindo de necessidades ligadas sobretudo à tradução, ReiB (1983), num primeiro momento, e mais tarde ReiB e Vermeer (1984) desempenharam um papel fundamental ao identificarem quatro tipos de textos: o tipo informativo, que resulta da vontade do autor de transmitir um determinado conteúdo, associado à função representativa {Darstellungsfunktiori) de Karl Buhler (1965); o tipo expressivo,

56 Neste contexto, importa referir a perspectiva funcional da frase, defendida pelos representantes da

Escola de Praga e segundo a qual a articulação dos elementos de uma frase tem a função de ordenar a

informação de acordo com uma perspectiva de importância e novidade. É por isso que, em muitas

línguas, as informações mais importantes ou mais surpreendentes surgem tendencialmente no final

da frase.

57 Uma outra dupla de conceitos relacionável com coesão / coerência é a da estrutura de superfície / estrutura profunda. Sobre o seu significado, cfr., por exemplo, Linke / Nussbaumer / Portmann (1994, 224 e segs.).

39

quando a tónica é colocada na organização estética desse conteúdo, associado à função expressiva (Ausdrucksfimktion); o operativo, que surge sempre que um autor pretende fazer uso da sua capacidade de persuasão, ligado à função apelativa (Appelfunkíion); e, por último, o tipo multimedial (audio-medial na primeira divisão

de Reifi em 1983), quando se recorre a representações gráficas, musicais, etc. Este é

considerado um tipo de certo modo transversal, uma vez que os outros três tipos de

texto se podem apresentar sob a forma de um texto multimedial. Estes autores chamam ainda a atenção para a existência de convenções e salientam o facto de a sua presença se fazer notar em todos os planos linguísticos e textuais: léxico, gramática, fraseologia e até mesmo pontuação. A nível dos tipos de texto, por exemplo, as convenções servem como sinais de reconhecimento, desencadeando determinadas atitudes e originando certas expectativas, pelo que funcionam como guias de orientação na compreensão do texto.

Por último e associado a esta acepção de texto, há ainda um outro aspecto que tem merecido especial atenção: a produção e a recepção textual. Quanto à produção,

o modelo dinâmico de texto (Viehweger, 1987) contribuiu para dar especial

destaque à figura do seu respectivo produtor, que passou a ser encarado como uma personalidade sensível e que, para além de transmitir, por via do texto, o seu conhecimento mais ou menos técnico, transmite também todo o seu conhecimento do mundo, a sua experiência de vida, etc. Consequentemente, para além das componentes racionais, o texto passou a ser visto como tendo também uma forte componente emocional. A análise dos textos do corpus seleccionado para o presente trabalho demonstra, em meu entender, o papel determinante do produtor do texto; no entanto, acrescento eu ainda, torna-se por vezes necessário acrescentar um novo elemento e proceder a uma distinção mais fina, como a que é proposta por Nord

(1988, 47 e seg.) entre Textsender (emissor de um texto) e Textproduzent (produtor

de um texto). De facto, nem sempre se verifica uma coincidência de identidade entre

ambos, o que leva à consideração da importância relativa dos papéis que um e outro

40

desempenham (Penso, por exemplo, no Regimento da Fabrica de Pannos de Portugal). Em relação à recepção de textos, destacam-se os trabalhos de Grõben (1978 e 1982) sobre psicologia do leitor e da leitura, de Heringer (1984) sobre compreensão de texto e, no âmbito dos textos de especialidade, a obra de Jahr (1996) dedicada também à recepção e aplicação de textos.

2.2. Análise de Textos de Especialidade

Sempre que estamos perante disciplinas tão próximas, é difícil saber exactamente qual é que sofre influências de qual, e a Linguística de Texto e a Linguística de Texto de Especialidade (Fachtextlinguistik) não constituem excepção. Se bem que existam autores, como Knobloch (1998), que consideram que

58

é sempre a disciplina dita aplicada que segue as pisadas da disciplina pura , outros

defendem que, nos últimos anos, a Linguística de Texto, no seu esforço para chegar

a uma tipologia de textos, se tem socorrido da comunicação de especialidade (cfr.

Glãser, 1990, 2). Mas mais importante do que proceder a esta aferição, e correndo o risco de me repetir, é o facto de a investigação das linguagens de especialidade ter também ultrapassado, como a Linguística de Texto, a descrição de características linguísticas nos planos da morfologia, do léxico, da fraseologia e da sintaxe, fíxando-se no plano textual. É assim que se tornou habitual utilizar textos completos como ponto de partida para qualquer estudo nesta área.

58 Este autor fala de um efeito trickle-down, previsível do ponto de vista sociológico e cientifico, que leva a que as tendências de uma disciplina dita pura cheguem com algum atraso a essa mesma disciplina, mas na sua vertente de disciplina aplicada (como sucedeu, por exemplo, entre a

Linguística e a Linguística Aplicada).

41

Hoffmann (1988a, 108), na obra Vont Fachwort zum Fachtext (Do termo técnico ao texto de especialidade), fala não só numa tendência geral dentro da Linguística, mas também em necessidades específicas da análise das linguagens de especialidade como estando na origem desta transição: ao aspecto da língua como sistema sobrepõe-se o seu aspecto accionai, e, além disso, a função comunicativa da linguagem exige uma atenção cada vez maior, por oposição à sua função denominativa. Uma vez reconhecida a importância do texto como ponto de partida, Hoffmann apresenta uma proposta de análise de texto cumulativa (/cumulative Textanalyse), que tem como objectivo o apuramento sistemático e tanto quanto possível completo das diferenças significativas entre os diversos géneros de texto

existentes na comunicação de especialidade. Esta análise representa a integração de todas as características relevantes e distintivas nos vários planos da hierarquia linguística, começando pela macroestrutura, passando pela sintaxe e pelo léxico até

às categorias gramaticais e aos morfemas que as representam.

Baumann (1992), por seu turno, defende uma Linguística de Texto de especialidade que seja integrativa (integrative Fachtextlinguistik), pois considera que para se proceder à classificação dos textos de especialidade tem de haver uma abordagem que integre as metodologias de diferentes disciplinas, desde a Sócio- -Linguística, à Terminologia, passando pela Psicologia e a Teoria dos Actos de Fala, entre outras. Gõpferich (1995), que apoia os pontos de vista de Hoffmann (1988a) e

Baumann (1992), divide os objectos da análise de texto em elementos externos ao texto (Textexterna) e elementos internos ao texto (Textinterna); dos primeiros fazem parte, por exemplo, a função de um determinado texto e a relação emissor / receptor.

A mesma autora considera que a classificação de textos baseada em critérios intra-

textuais tem a desvantagem de não permitir reconhecer com suficiente nitidez as

características comuns a géneros de texto muito próximos, não sendo além disso

42

possível estabelecer uma hierarquia de critérios; sugere, assim, que se parta dos factores extratextuais para todo e qualquer tipo de classificação. Lux (1981, 35), um pouco na mesma linha, afirma mesmo a supremacia dos factores externos, uma vez que é de opinião que será a intenção comunicativa e as características situacionais que determinam os elementos linguísticos internos ao

texto.

Este breve levantamento das posições actualmente defendidas por alguns dos principais investigadores de língua alemã no domínio das linguagens de especialidade serve apenas para fundamentar algumas das opções tomadas na parte prática do trabalho, que reflectem precisamente a necessidade de uma abordagem interdisciplinar e de uma análise que ultrapasse os limites do texto.

2.2.1. O modelo de Gõpferich

Tendo em conta a componente prática, de análise textual, do presente trabalho e para garantir uma análise tão exaustiva quanto possível dos textos de especialidade seleccionados, pareceu-me razoável e económico tomar como referência um modelo / uma grelha bem definida e que já tivesse sido testada em casos concretos. A minha escolha recaiu sobre o modelo de Gõpferich, que é um trabalho relativamente recente e actual (1995) e que, em comparação com os outros, como por exemplo o de Glãser (1990), é mais completo e abrangente discutindo e aprofundando mais certos aspectos como, por exemplo, o da problemática das tipologias e das convenções dos textos de especialidade. Importa desde já deixar bem claro que o recurso que faço ao modelo de análise de Gõpferich tem necessariamente de se conter dentro de certos limites, uma vez que esta autora

43

trabalhou com textos modernos e de características muito específicas no âmbito da

tipologia de textos, tendo eu optado por textos antigos e de tipos diversos. Na obra Textsorten in Naturwissenschaften und Technik, Gõpferich recorre a uma abordagem comunicativo-pragmática, de modo semelhante ao de Glãser (1990), para proceder a um levantamento das características dos géneros de textos de especialidade das ciências e da técnica e verificar quais dessas características são ou não convencionais e até que ponto determinam a função comunicativa do texto e influenciam a eficiência da comunicação. Para proceder a este estudo, Gõpferich tomou como ponto de referência textos oriundos de uma área muito bem definida e limitada, que é a da mecânica automóvel, tornando-se assim naturalmente mais difícil a aplicação integral do seu modelo a textos provenientes de outras áreas. Para além de ser um modelo desenvolvido sob uma perspectiva sincrónica, dada a natureza dos textos que lhe servem de corpus, é um modelo vinculado à tipologização de textos e à sua classificação Tendo em conta que os textos com que eu própria trabalho foram produzidos entre meados do século XVI e inícios do século XX, nem sempre é fácil socorrer- -me dos mesmos parâmetros típicos de uma classificação mais moderna. De facto, não se pode tentar aplicar sem reservas e problemas uma classificação actual a textos antigos (cfr. ponto 1.1.), visto que a distância temporal pode levar a que a função de um texto, projectada por dada intenção do respectivo autor, já não seja hoje compreendida por todo e qualquer leitor / receptor, com excepção dos estudiosos da época histórica em que aquele texto se originou. Para ilustrar esta dificuldade, recordo uma constatação de ReiB / Vermeer (1984, 212) a propósito de textos legislativos medievais, que, por uma questão de dignidade da forma rimada da linguagem, eram muitas vezes redigidos sob a forma de verso, pelo que - na perspectiva de uma classificação recente - teriam de ser incorporados nos textos de tipo expressivo. Por estas razões, aproveito do modelo referido apenas os elementos

59 Para uma distinção entre "classificação" e "tipologização", cfr. Glãser (1990, 41).

44

que julgo poderem contribuir para uma melhor fundamentação da minha análise e que são, sobretudo, os critérios de análise textual propriamente dita. Na parte inicial do seu trabalho, dedicada aos princípios teóricos, e partindo da divisão de ReiB / Vermeer (1984, 206 e segs.), Gópferich (1995, 124 e seg.) subdivide os textos informativos em quatro tipos diferentes: textos jurídico- -normativos (juristisch-normativ), textos de actualização orientados para o progresso (fortschrittsorientiert-aktualisierend), textos de compilação de saber (wissenszusammenstellend) e textos didáctico-instrutivos (didaktisch-instruktiv), dos quais fazem parte os textos que transmitem conhecimento teórico de forma unidireccional (em oposição aos bidireccionais como os manuais de instruções, textos mais apelativos). Gópferich começa por abordar a descrição dos géneros de texto através de critérios extratextuais (pág. 189 e segs.), identificando, neste contexto, como factores determinantes, a função textual, a relação entre emissor e receptor determinada pelo seu estatuto individual e social, o enquadramento do texto no espaço e no tempo e formas de ocorrência / produção e recepção. Segue-se a análise dos géneros de texto recorrendo a critérios intra-textuais (pág. 217 e segs); aqui, surge em primeiro lugar a análise da macroestrutura textual, que a autora define, baseada na formulação de Gláser (1990, 55), como o esquema convencionalizado de organização de um texto. De seguida, Gópferich passa à análise dos actos de fala (usados nos géneros de texto) e sua frequência; depois da sua classificação e delimitação, identifica os meios linguísticos envolvidos na execução de actos directivos, por serem aqueles que mais lhe interessam (devido ao corpus de textos que estudou). No passo seguinte, a autora estuda o grau de envolvimento das pessoas no texto, i.e. a presença ou não do emissor e do receptor. Debruça-se ainda sobre elementos metalinguísticos tais como definições e introdução de novos termos, de sinónimos, fórmulas e abreviaturas, etc. e ainda sobre os elementos meta- comunicativos como os comentários e recapitulações, as legendas de gravuras, etc.

45

Por último, trata de particularidades específicas de natureza sintáctica como, por exemplo, a frequência do recurso à voz passiva, a tendência para a nominalização e a complexidade sintáctica. À medida que eu própria for avançando na análise de textos, terei oportunidade de analisar um ou outro destes elementos com mais pormenor.

3. A Linguagem dos Lanifícios em Portugal

Como atrás foi dito (ponto 1, nota 1, segunda parte), daqui em diante deter- -me-ei na análise da linguagem dos lanifícios em Portugal a partir de um pequeno corpus, uma vez que uma análise de teor contrastivo (Português / Alemão) ultrapassaria largamente o âmbito desta dissertação. É hoje comummente aceite que a análise de uma linguagem de especialidade deverá não tanto ter em conta termos isolados, palavras soltas e descontextualizadas, como foi característico dos primeiros estudos sobre linguagens de especialidade (cfr. pontos 2.1. e 2.2.), mas acima de tudo considerar a linguagem na sua funcionalidade viva, isto é, integrada em textos, tanto quanto possível completos. Quando ao propósito de estudar sobretudo textos completos se associa a vontade de abordar dado tema dentro de um quadro histórico, é inevitável que, pelo menos numa fase inicial do trabalho, os percursos se cruzem com os do historiador, ainda que os pontos de partida e de chegada se correlacionem com disciplinas tão distantes entre si como a História, a Terminologia ou a Linguística de Texto.

46

3.1. Enquadramento Histórico

Em parte devido à escassez de documentos, mas seguramente por falta de materiais disponíveis, não é fácil fazer a história dos lanifícios em Portugal, o que torna também difícil a recolha e selecção de textos relevantes para um estudo da linguagem específica deste sector. Apesar disso, e com base nalguns estudos publicados 60 , parece-me não só possível, mas até desejável, para um melhor enquadramento deste trabalho, referir alguns dos momentos mais marcantes da evolução da indústria dos lanifícios em Portugal, embora correndo o risco de excluir alguns aspectos que outros possam considerar importantes (e de incluir outros que possam ser considerados irrelevantes 61 ). De qualquer modo, opto à partida por deixar de lado a discussão em torno de conceitos como o de indústria , de manufactura ou de fábrica 63 , por me parecer que esses conceitos são mais pertinentes a uma análise feita no âmbito de um trabalho mais claramente encaixado na disciplina de História, por exemplo, na sua vertente de História do Trabalho.

Segundo Pereira (1900, 4), os nossos primeiros escritores, ao descreverem a actividade nacional, não se ocuparam do trabalho produtivo, pelo que é extremamente difícil, senão quase impossível, fazer o estudo do desenvolvimento das indústrias nos tempos primordiais do reino. «Apenas as clausulas de foraes e um ou outro documento dos cartórios monásticos e das chancellarias offerecem indicações sobre as varias industrias». As primeiras referências ao fabrico de lã em

60 Veja-se, a título de exemplo, os trabalhos de Matos (1998), Bastos (1950), Garcia (1986), Dias (1958-62), o Catálogo do Museu dos Lanifícios da Universidade da Beira Interior e ainda os capítulos respeitantes aos têxteis / lanifícios das obras de Madureira (1997) e Rodrigues/Mendes

(1999).

61 Veja-se, por exemplo, a posição defendida por Macedo (1981) face ao Tratado de Methwen.

62 Cfr. Rodrigues /Mendes (1999, 16).

63 Cfr. Madureira (1997, 176).

47

Portugal são referências de um modo geral incompletas e mais ou menos vagas,

dizendo, na sua maioria, respeito a designações de tecidos. Apontam para a

existência de uma produção de lã, mas de uma forma rudimentar e imperfeita.

De acordo com Bastos (1950, 128), olhando para

« as doações e vendas coligidas nos Portugaliae Monumento verifica-se com

facilidade que já desde o século X eram correntes no condado portugalense os panos de linho e lã, os primeiros muito em uso nas vestes religiosas e roupas das camas, os

segundos vulgares nos trajes dos cavaleiros e donas [

ambos os lados, a borregam de camelão 65 e outros tecidos de nítida proveniência muçulmana aparecem citados com frequência e, da sua difusão e modesta valia, depreendemos o seu fabrico local.»

a biffa 64 de lã enfestada de

]

A falta de qualidade destes produtos é-nos testemunhada também por

Laranjo Coelho (1919, 171), que a propósito dos cardadores de Castelo de Vide

afirma o seguinte:

«Muito imperfeitos, porém deveriam ser estes primeiros produtos da indústria nacional de tecidos, visto que a maior parte das fazendas então usadas e consumidas no país, até mesmo pelas classes menos abastadas, eram de procedência estrangeira, como nos dá interessante e curioso testemunho a conhecida lei de 26 de Dezembro de 1253, por meio da qual D. Afonso III taxava o valor das moedas que então constituíam o sistema monetário do país, e fazia, ao mesmo tempo, a estiva dos produtos e géneros que entravam no principal comércio da nação.»

64 Segundo Silva (1959) trata-se de uma espécie de tecido antigo, de lã, enfeitado por ambas as faces; Viterbo (1798) diz tratar-se de «retalhos de ffalsas laas en pedaços, similharis a biffas» e ainda «assim foi chamado um pano de lã, que era enfestado por ambas as partes». 65 «Barregana - Tecido de lã forte de que se fazem sobrecasacas, capotes, etc.» e « Camelão - Estofo grosseiro impermeável feito primitivamente com pêlo de camelo, depois substituído por pêlo de cabra, de ou lã / tecido de lã em rama» (Silva, 1959).

48

A maioria dos autores considera que as actividades artesanais da Idade

Média portuguesa tiveram um significado económico e social reduzido e um grau de

especialização e qualificação inferiores, se comparados com os níveis de qualidade

atingidos noutros locais da Europa.

Coelho (citada in Rodrigues/Mendes (1999, 45)), uma das autoras que

reconhece estas limitações do artesanato português, diz mesmo que o facto de o

equipamento dos mesteres não ter evoluído como noutros países se fica a dever,

«pelo menos nos séculos XII e primeira parte de XIII, a um ensinar e aprender a

profissão hereditariamente, transmitindo-se aos filhos os bens e o saber». Creio que,

já nessa altura, o isolamento, a interioridade, a falta de meios de comunicação e o

baixo grau de escolarização e literacia contribuíram também para esse

rudimentarismo. Relativamente aos mesteres, é importante recordar que, em Portugal, a

fiscalização e a regulamentação dos ofícios se foi processando gradualmente a partir

do século XII, mas a verdade é que, antes dos finais do século XV, não havia

corporações em Portugal e a regulamentação integral dos mesteres só se verificou

nos séculos seguintes. Contudo, os mesteres mais importantes, pelo número de

trabalhadores, possuíam, desde o século XIV, representantes oficiais eleitos ou

nomeados, conhecidos por vedores, com assento nass vereações

As corporações de artes e ofícios tiveram o seu início na "Germânia" , de

acordo com Pereira (1900, XII); na Roma antiga, só com os últimos Césares é que

elas adquiriram maior importância. Entre nós, a mais antiga organização dos ofícios

foi a do arruamento, pela qual certos ofícios mecânicos eram obrigados a ter as suas

lojas em determinadas ruas ou lugares. Marques (1974, 146) afirma que «as técnicas

Cfr. Marques (1974, 142).

49

empregadas pelos mesteirais 67 não variaram muito durante a Idade Média

portuguesa. Algumas persistiram mesmo sem alterações de monta até aos nossos

dias».

Em relação aos lanifícios, Pereira (1900, 13) afirma que durante o reinado de

D. Duarte «começou em varias terras de Portugal a fabricar-se pannos de lã

meirinha, como se diz no capítulo XXXVI dos Artigos da Sizas, ordenados por D.

Affonso V, sendo o mais que se fabricava até esse tempo estofos grosseiros, como o

burel, almaffega, etc.» 68 . Já no reinado de D. João II aumentou o fabrico de

lanifícios nacionais, como a solia, a perpetuaria e, mais tarde, a saragoça à moda

de Espanha.

Mas a verdade é que, um pouco mais tarde, e de acordo com Garcia (1986,

340), não há no século XV grandes avanços, no nosso país, neste sector:

«À semelhança de outros aspectos económicos, a produção de têxteis em Portugal

aparece-nos para todo o século XV, como um caso isolado, arcaico e periférico no

quadro da indústria europeia e dos circuitos comerciais de longa distância. Isolado pela

dimensão e situação no interior do país, arcaico pelas características da mão-de-obra, da

67 De acordo com este mesmo autor (ibid, 136) o termo «mesteiral» era geralmente aplicado apenas

«aos trabalhadores em ofícios mecânicos de artesanato ou de indústria. Contudo a expressão usada

na Idade Média incluía, além desses, alguns pequenos comerciantes».

68 Segundo Bluteau (1789), o burel é um «panno grosseiro de lâa, de que andão vestidos os Capuchos

e que antigamente se trazia por luto»; a almafega é «um panno de lâa grosseiro, que antigamente se

trazia por luto». Viterbo (1798) fala, em relação à almafega, de «um burel grosseiro, para luto ou

sacos, fabricado da pior lã que chamavam churra», acrescentando ainda que é uma palavra de origem

árabe.

69 Bluteau (1789) define "solia" como «huma droga de lâa vulgar usada antigamente», "perpetuana"

como «droga de lâa, de que havia várias sortes, ordinária, Imperial e apicotada» e "saragoça" como

»panno de lâa preta fabricado no Reino e bem conhecido». Em relação à "solia", Viterbo (1798) diz

tratar-se de «um certo pano de que pelos anos de 1300 se vestiam em Portugal senhoras nobres e

distintas».

50

maquinaria utilizada, da extensão dos mercados; periférico pela posição geográfica e pelo

70

papel secundário nas linhas de comercio.»

A situação altera-se ao longo do século XVI. A importação de maquinaria e mão-de-obra especializada e o estabelecimento de comunidades estrangeiras (em especial de judeus), quer em áreas onde era já forte a implantação do sector, quer em áreas novas, são alguns dos aspectos que para isso contribuíram. E ainda na segunda metade deste século (1573) que surge o Regimento da Fábrica de Pannos de Portugal, promulgado por D. Sebastião e que pretendia estabelecer as regras que deviam orientar todas as operações do fabrico de panos 71 desde a cardação aos acabamentos. Outro importante impulso para o desenvolvimento da indústria dos lanifícios ficou a dever-se à política do 3 o Conde da Ericeira, D. Luís de Meneses. As Pragmáticas do final de Seiscentos, ditadas pela preocupação com o estado deficitário da balança comercial, visavam estancar a saída de moeda do Reino, através da proibição da importação de certos artigos de ornamentação fabricados no estrangeiro, bem como da promoção da produção portuguesa, através da utilização de matérias-primas nacionais. Toda esta evolução culmina em 1690 com o aditamento de mais onze capítulos ao Regimento de 1573. Foi também durante a regência de D. Pedro que, de acordo com Pereira (1900, 32), o número de fábricas aumentou substancialmente em Portugal. Ainda segundo este autor, «foi pelo anno de 1681 que se estabeleceram fabricas de lanifícios na Covilhã, Fundão e outras terras do reino, com pessoal extrangeiro».

70 Cfr. também Marques (1974, 2): «Indústria não existia. O próprio artesanato era reduzido e confinado às necessidades de consumo: fabricavam-se artigos de vestuário, calçado, objectos de

ferro, madeira e barro, alfaias domésticas e agrícolas e pouco mais. Os bons tecidos tinham de ser

importados da Flandres e da Itália

71 Para a interpretação do conceito "panos", cfr. Garcia (1986, 333).

».

51

Já no início do século XVIII, o Tratado de Methwen (1703) constituiu um

marco de referência pelas dificuldades que criou à concorrência das manufacturas

de lanifícios portuguesas. Na sua obra .4 Indústria Portuguesa. Subsídios para a sua

História, Pereira (1979, 155) fala mesmo na «funesta e constante decadência a que

chegaram as nossas fábricas nos princípios do século XVIII».

O restabelecimento das fábricas de lanifícios foi uma das medidas em que

mais se empenhou o ministério do marquês de Pombal. Madureira (2001, 3)

descreve a política pombalina de investir na produção de tecidos de seda e lanifícios

por parte de unidades fabris do Estado, como permitindo

« consolidar a incipiente organização manufactureira do país. As Reais Fábricas

tornam-se um viveiro de incubação de novas categorias de trabalho, ligadas a sequências técnicas cada vez mais aperfeiçoadas. A este facto não é também estranha a política de elevação dos padrões técnicos de fabrico e o facto de a produção nacional conseguir penetrar na gama de tecidos finos apreciados na Europa: droguetes, lemistes, baetões,

sarjas, durantes, ao que concerne os lanifícios

»

Custódio (1994, 40-43) vai mais longe, ao reafirmar a importância decisiva

do proteccionismo pombalino para a indústria portuguesa, nomeadamente através da

criação do regime de privilégio, da concessão de crédito e do pacto colonial.

Acrescenta ainda que a acção do marquês de Pombal se baseou em «relatórios

circunstanciados sobre o ambiente de trabalho e de renovação tecnológica da

Europa, como, por exemplo, o que foi elaborado pelo espião Pierre d'Ange sobre as

manufacturas têxteis europeias (sobretudo dos lanifícios e algodão)». Por influência

do Enciclopedismo, é afirmada a necessidade de se conhecerem os recursos e as

potencialidades do Reino (nomeadamente através dos Inquéritos Industriais). E

também nesta altura que o investimento fabril começa a atrair negociantes privados

que se substituem ao Tesouro, não só no que diz respeito ao patrocínio de técnicos

estrangeiros mas também no que toca à introdução de novos equipamentos. Na

transição do século XVIII para o XIX, a economia portuguesa apresentava uma

52

situação relativamente desafogada, com condições favoráveis ao arranque da

Revolução Industrial, mas tudo se gorou, em grande parte devido às invasões

francesas. Na obra acima referida, Pereira (ibid., 159) afirma que, depois desta crise,

a indústria portuguesa «só a muito custo ressurgiu na época da restauração de D.

Maria II». Foi talvez esta fase, iniciada na segunda metade do século XIX, a mais

complexa em todo o processo de desenvolvimento da indústria de lanifícios, dada a

rapidez com que a mecanização se efectuou, nas diferentes fases da produção de

tecidos de lã. Esta mecanização começou por se fazer sentir de uma forma mais

intensa na fase da preparação das fibras e da fiação 72 . Tarefas manuais como lavar,

abrir as ramas, laminar, cardar, dobar e fiar foram simplificadas pela operação das

diferentes maquinarias.

Muitas destas inovações têm a princípio um alcance reduzido, uma vez que

são experimentadas apenas numa ou noutra unidade industrial. E assim que só no

século XX, no período que precede a segunda Guerra Mundial, se verifica uma

verdadeira difusão das novas tecnologias aplicadas à recuperação de lã usada, ao

tratamento químico, ao acabamento de tecidos, ao controlo de qualidade, à

embalagem, etc. Além do progresso nestes sectores, também a tecelagem conhece

alguma modernização, através da adopção, nomeadamente, dos teares de

Na história dos lanifícios em Portugal houve fenómenos que se destacaram

pelo seu carácter mais ou menos constante e permanente; é obrigatório destacar aqui

o significado da importação e a coexistência de diferentes tipos e modos de

produção, desde o mais familiar e manual ao mais industrial e mecânico. Em relação

ao primeiro destes aspectos, diz-se na História da Indústria Portuguesa :

«De uma forma ou de outra, a importação têxtil portuguesa foi, em toda a sua história económica, uma constante, desde a pragmática promulgada em 1340, ou das medidas

72 Cfr. Pedreira (1994, 193-260).

73 Idem ibid.

53

restritivas do dealbar do século XV, até às que foram publicadas (e não cumpridas) no final do século XVII, muito embora tenha variado o volume das importações como a natureza e proveniência dos têxteis entrados, quer pelos portos secos, quer pelos portos molhados». (Rodrigues / Mendes (1999, 54 e seg.))

Em relação ao segundo aspecto, o Catálogo do Museu dos Lanifícios da Universidade da Beira Interior, por exemplo, dá-nos conta da mudança de uma actividade que era exercida em regime doméstico e corporativo municipal para a actividade empresarial, mas reconhece também, nomeadamente em relação ao processo de fiação, que o trabalho domiciliário continuou a existir, apesar de as manufacturas procurarem concentrar num único espaço as diversas operações produtivas, de acordo com o princípio da divisão do trabalho. A este trabalho doméstico está naturalmente ligado o recurso às técnicas manuais.

3.2. Divulgação e fixação do saber técnico na área dos Lanifícios

Como atrás se disse, o levantamento de textos relevantes para o estudo da linguagem específica dos lanifícios é dificultado pela escassez de documentos relativos à própria história dos lanifícios. Contudo, não é esse o único obstáculo com que depara quem pretende fazer uma recolha de dados nesta área. Outros factores importantes têm de ser levados em linha de conta. É que paralelamente à evolução técnica dos lanifícios, há que considerar de igual modo o que se passou no âmbito da transferência e divulgação de saberes e tecnologias. Também em relação a este aspecto, julgo suficiente registar aqui apenas alguns momentos e fenómenos mais determinantes. Após um período em que a ciência assumiu sobretudo contornos de espectáculo, passou-se a uma era de aposta na divulgação dos novos conhecimentos, aposta nem sempre coroada de êxito,

54

talvez devido à distância sentida entre os profissionais da ciência e o público em

geral, a começar pela grande dificuldade de os artífices entenderem a nova

linguagem que os cientistas iam criando à medida que progredia o conhecimento.

Este problema é claramente exposto num artigo publicado na Gazeta de

Lisboa (in: Matos (1998, 69)):

« tendo a Química produzido grandes vantagens na sua aplicação às artes,

comummente se expõem os seus processos na linguagem que é própria da mesma química, mas que é absolutamente ignorada pelos artistas, sobretudo naqueles países onde estes não têm noções dessa ciência: sulfato, óxido, sílex, ácido muriático, etc. são termos absolutamente desconhecidos dos artistas em geral.»

No que diz respeito aos têxteis, os avanços da Química reflectem-se

sobretudo no domínio da tinturaria; Trenas (citado in: Matos (1998, 71) testemunha

que a admissão de alguém como aprendiz nalgumas oficinas de tinturaria

pressupunha o conhecimento de "gramática latina", para permitir aos mestres lerem

os receituários da arte de tingir panos, receituários que eram maioritariamente

escritos em latim.

Em Portugal, talvez tenha sido o marquês de Pombal quem mais se

empenhou em fazer com que o país se aproximasse dos níveis de desenvolvimento

europeu. Fervoroso cultor dos princípios iluministas, procurou dotar a indústria

portuguesa das bases científicas e técnicas mais próximas daquilo que era prática

corrente nos países mais industrializados. Para além da contratação de mão-de-obra

estrangeira, apostou também na formação de técnicos nacionais, reformando a

Universidade de Coimbra e tentando estabelecer as bases para o ensino técnico.

Se é certo que as primeiras sociedades científicas datam do final do século

XVin, a agitação política e militar que marcou as duas primeiras décadas do século

XIX dificultaram muito o seu funcionamento. Só com a revolução liberal se criaram

as condições políticas e sociais necessárias ao surgimento de sociedades promotoras

55

do desenvolvimento material do país, que contemplavam nos seus estatutos melhorias no ensino e na transmissão de conhecimentos técnicos e científicos . Muitas destas entidades eram responsáveis por publicações periódicas (por exemplo os Anais da Sociedade Promotora da Indústria Nacional), por manuais com descrições de máquinas, pela promoção de cursos públicos e conferências sobre questões de mecânica industrial, pela criação de laboratórios químicos, etc. A Sociedade Promotora da Indústria Fabril, por exemplo, defendia, em detrimento do livro, o recurso ao jornal, para divulgação de conhecimentos técnicos e científicos, talvez pela razão um dia apontada por Castilho (citado por Matos (1998, 157)), segundo o qual «os livros são muita ciência para poucos homens; os jornais são um pouco de ciência para todos».

Na mesma linha de divulgação do saber se inserem as obras da Biblioteca

das Fábricas editadas na década de 60 do século XIX pela mesma Sociedade

Promotora da Indústria Fabril. Com o avançar desse mesmo século XIX, a divulgação científica confronta- -se cada vez mais com a sistematização e organização das ciências, o que naturalmente leva os cientistas a desenvolverem e utilizarem uma linguagem técnica mais hermética e, como tal, mais difícil de assimilar pela maioria da população. Torna-se assim necessário que as publicações destinadas aos operários e ao grande público descrevam em linguagem comum e acessível as ideias e os princípios básicos de um determinado ramo do saber, fazendo muitas vezes acompanhar os textos de imagens que ilustram os processos e os aparelhos descritos. Embora infelizmente sem revelar a fonte, Matos (1998, 155) escreve que, já em 1812, o príncipe regente tinha chamado a atenção para a necessidade de

74 A Sociedade Promotora da Indústria Nacional data de 1849 e a Academia Real das Ciências, de 1780. Esta última mantinha importantes relações com outras sociedades, como as Academias de Ciências de Berlim, Liège e Nova Iorque, a Associação Britância para o Adiantamento das Ciências, a Academia das Ciências Físicas e Naturais de Madrid, para dar apenas alguns exemplos.

56

sistematizar o saber - retomando uma ideia dos princípios do século XVII -

manifestando o desejo de:

« que neste Reino haja, como em as nações mais civilizadas, um Dicionário de Artes

e Ofícios, afim de que os artistas e oficiais dos mesmos possam adquirir facilmente os conhecimentos necessários à sucessiva perfeição de uma ilustrada prática com o socorro do referido Dicionário, o qual deve conter os termos, denominações e frases próprias de cada um dos diferentes ramos da Indústria em que se empregam os mesmos artistas e mestres de ofícios».

Outra das medidas adoptadas foi o envio de comissões nomeadas pelo

governo às diversas exposições industriais, com o fim de obter o máximo de

informação possível. Estas comissões elaboravam depois relatórios tanto quanto

possível pormenorizados e didácticos, de forma a poderem ser posteriormente

divulgados. Muitas vezes, estas deslocações aos países mais industrializados

assumiam o carácter de verdadeira espionagem industrial.

O desenvolvimento industrial que se registou a partir da década de quarenta

do século XIX tornou ainda mais evidente a falta de técnicos e operários

especializados e a insuficiência das estruturas de ensino existentes. Mas, apesar de

se continuar a proclamar a importância do ensino técnico, a verdade é que a falta de

sequência das políticas governamentais e as elevadíssimas taxas de analfabetismo

dificultavam a generalização deste tipo de ensino.

Ainda segundo Matos (1998, 215), no final do século XIX, a ausência de um

ensino técnico industrial que abrangesse todo o país dificultava tanto a introdução

de novas máquinas como todo o desenvolvimento industrial. Essa situação era ainda

agravada pela incapacidade de a maioria dos trabalhadores portugueses utilizarem o

equipamento já existente em algumas unidades de produção, muitas vezes numa

escala comparável às de outros países do mundo. Para superar essas dificuldades

recorria-se frequentemente à importação de mão-de-obra estrangeira qualificada.

57

A opção de contratar tintureiros em França ou mestres de fiação na Irlanda,

por exemplo, não era feita só em função da preferência por uma ou outra tecnologia,

mas baseava-se também, por vezes, na maior ou menor influência das delegações

portuguesas com sede nos vários países. Além disso, acontecia frequentemente que

os técnicos estrangeiros sabiam aplicar as técnicas, mas desconheciam os princípios

teóricos em que elas se baseavam e isso dificultava-lhes a adaptação a novas

situações.

Em 1884, Proença (citado in Matos (1998, 230) teve a este propósito o

seguinte desabafo:

« .o tintureiro que no seu país era um simples operário, não conhece a composição das

águas, não as pode analisar, porque ignora os princípios rudimentares da química, por consequência vê-se impossibilitado de lhes neutralizar os seus maus efeitos; começa por estragar uma grande quantidade de drogas, danifica a lã e as fazendas, as cores saem péssimas, mal fixas e os tecidos queimados».

Uma ideia regularmente retomada ao longo do século XVIII e no início do

século XIX foi a de que as fábricas dependentes do Estado podiam funcionar como

fábricas-escola, locais destinados à formação de operários. A Real Fábrica de

Lanifícios de Portalegre foi disso um exemplo. Concebida como escola de

formação de operários, a verdade é que, destinada a uma mão-de-obra na sua

maioria analfabeta e sem qualquer tipo de formação básica, ministrava um ensino

que acabava por ser essencialmente prático. À excepção de técnicas mais

complexas, como no caso da tinturaria, em que se procuravam transmitir aos

operários também alguns princípios de carácter mais teórico, a aquisição de

conhecimentos era feita por observação / imitação.

Por último, importa referir que no Portugal oitocentista, que é aquele em

relação ao qual se dispõe de maior quantidade de informação, havia uma elite

adepta do progresso e que acompanhava e conhecia o que de mais moderno se ia

58

produzindo no domínio dos conhecimentos técnicos e científicos; mas é também verdade que havia um grande número de industriais que desconfiavam de tudo o que soasse a novidade e os obrigasse a alterar as práticas a que tradicionalmente estavam habituados. Este facto verificava-se particularmente junto dos pequenos fabricantes, naturalmente com menor formação escolar, com menor contacto com as obras de divulgação científica e, provavelmente também, com disponibilidades financeiras mais limitadas. Mais uma vez aqui se identificam constantes ao longo do tempo: a dificuldade de transmitir novos conhecimentos e processos de fabrico em virtude do analfabetismo da população industrial, por sua vez também consequência da ausência de um ensino técnico (situação que aliás se mantém nos nossos dias), tornava a circulação de ideias mais fácil e fluida no sentido horizontal do que no sentido vertical. Este estado de coisas tem repercussões importantes sobre a existência ou não de textos de carácter didáctico. Como não podia deixar de ser, esta situação teve também incidências na área dos lanifícios, acabando por me criar também a mim uma grande dificuldade para encontrar e seleccionar textos pertinentes à análise da linguagem que lhe é específica. A selecção obtida reflecte todas estas condicionantes históricas.

3.3. Metodologia e Selecção do Corpus

Uma questão de extrema importância para a selecção dos textos a analisar num trabalho deste tipo é a questão das fontes. A escolha das fontes, para além de determinar a natureza dos materiais que vão ser utilizados, condiciona ainda muitos outros aspectos; as fontes escolhidas reflectem necessariamente o contexto

59

histórico, sociológico e linguístico em que um dada linguagem de especialidade se

encontra inserida. No caso presente, as fontes seleccionadas são todas fontes escritas, muito embora reconheça a importância dada por vários autores precisamente à transição da oralidade para a escrita, sem esquecer naturalmente a transição para o vernáculo. Mas a verdade é que quanto mais se recua no tempo, mais difícil se torna elaborar um trabalho para o qual se encontre um volume de dados verdadeiramente relevantes de outros planos da língua para além daquele que logo se impõe ao analista: o plano lexical. Além disso, a análise de textos de épocas mais remotas implica diversos cuidados, como por exemplo o que diz respeito à fixação e à originalidade ou não desses mesmos textos 75 , cuidados que podem desviar a atenção daquele que é o principal objectivo do trabalho.

Ao assumir uma perspectiva histórica, e mesmo excluindo o período anterior

ao uso habitual do português nos documentos régios 76 , a diversidade de textos é

apesar de tudo enorme e implica um conjunto de escolhas. Poderia ter optado por eleger um determinado padrão ou forma textual fixada pelo uso e pelas convenções e ir recuando no tempo em busca de textos desse mesmo género, apesar de, como já foi dito (cfr. pontos 1.1. e 2.2.1.), ser extremamente difícil adaptar os actuais géneros de texto aos textos mais antigos. Além disso, existia também a possibilidade de optar por uma determinada região, neste caso com certeza uma região de forte implantação da produção de lanifícios, e analisar sobretudo textos oriundos dessa zona. Num propósito talvez um pouco ambicioso, e tendo em conta que o que tinha em vista era uma análise sob uma perspectiva da Linguística de Texto, escolhi acompanhar a evolução da linguagem dos lanifícios não desde as suas origens até aos nossos dias, mas centrando-me nos momentos mais marcantes da história dos

75 Cfr. v. Hahn (1983, 49 e segs. ).

76 Cfr. Cintra (1999, 216).

60

lanifícios em Portugal, tentando, na medida do possível, fazer com que o percurso histórico traçado no capítulo anterior se espelhasse na selecção dos textos apresentados e procurando também, a partir desses textos, levar a cabo uma análise que me permitisse a aplicação prática dos diferentes critérios a que já várias vezes fiz referência e que são adoptados por quantos se ocupam dos textos de especialidade nos nossos dias. Nas leituras e na investigação que fiz, parti dos textos actuais, nomeadamente dos capítulos relativos aos lanifícios da obra Manual de Engenharia Têxtil, uma obra de referência no meio académico ligado ao sector têxtil. Fi-lo por considerar que seria sem dúvida a melhor forma de me procurar situar e familiarizar com uma área de especialidade com a qual não tinha, até há bem pouco tempo, outro contacto que não o de consumidora de produtos de lã.

Munida dessa informação de referência e à medida que fui recuando no tempo, fui verificando que era difícil obter textos relevantes para o estudo que pretendia levar a cabo. Para além de os principais centros ligados à produção de lanifícios e ao ensino das suas técnicas estarem fisicamente distantes, nem sempre esses centros se encontram dotados de materiais de referência fundamentais a este tipo de trabalho; e aqueles que o estão, nem sempre têm esses materiais devidamente organizados, como é o caso do Arquivo Histórico do Museu dos Lanifícios da Universidade da Beira Interior, que se encontra ainda em fase de catalogação do (como tudo leva a crer) preciosíssimo património de que dispõe.

Perante esta e outras condicionantes e fiel ao princípio segundo o qual se deve partir de textos completos, decidi centrar a minha análise em textos genuinamente portugueses do período que vai desde meados do século XVI - altura em que surgem, consignados por escrito, os regimentos das corporações dos ofícios mecânicos, nomeadamente os ligados à produção dos lanifícios, como é o do tecelão e do tintureiro - até inícios do século XX.

61

Pareceu-me ser este o período mais interessante do ponto de vista linguístico, uma vez que abrange a época em que a produção era meramente artesanal e apoiada e auxiliada por aparelhos sobretudo de estrutura de madeira, bem como a época posterior à Revolução Industrial, em que grande número de actividades, até então puramente manuais, passaram a ser executadas por equipamento mecânico. Julgo que ficam assim cobertos os momentos mais significativos da história dos lanifícios em Portugal e não me parece que a inclusão de obras mais recentes enriquecesse de forma significativa a análise efectuada 77 .

Em relação aos textos propriamente ditos, e no que diz respeito ao início do período selecionado, o primeiro texto escolhido foi extraído da obra de Langhans (1946) As Corporações dos Ofícios Mecânicos e intitula-se "Regimento do officio de Tecelães desta cidade de Lixboa de 3 de Janeiro de 1559". O segundo texto, do século XVII (1690), é o Regimento da Fabrica dos Pannos de Portugal, na sua versão mais completa, i.e. já com os onze novos capítulos acrescentados por ordem de D. Pedro H. Do século XTX, destaca-se a obra, publicada numa iniciativa da Associação Promotora da Indústria Fabril, As Fábricas da Covilhã. Por último, incluí nesta análise também partes da obra Lans e Lanifícios, datada de 1907, uma obra que descreve as propriedades da lã e todo o processo do seu tratamento e da sua transformação.

Naturalmente que existem muitos outros textos de interesse, até por marcarem momentos ou iniciativas mais conhecidas, como é o caso do Manual do Fabricante de Tecidos, publicado no âmbito da conhecida colecção da Biblioteca de Instrução Profissional, mas a verdade é que esta obra contém inúmeras referências à publicação anterior e além disso não é possível incluir todos os trabalhos relacionados com lanifícios publicados no nosso país. Mesmo de entre as obras referidas, e dado o seu considerável volume, citarei - pelo menos nalguns casos e a

77 Alguns dos trabalhos mais recentes publicados em Portugal são traduções de obras estrangeiras, facto que exigiria um trabalho de análise já completamente distinto.

62

título de exemplo - apenas os excertos que me parecerem mais relevantes para uma análise de uma linguagem de especialidade, sob a perspectiva da Linguística de Texto.

4. Análise de Textos

4.1. Análise do Regimento do officio de Tecelães desta cidade de Lixboa de 3 de

Janeiro de 1559

Já anteriormente admiti abertamente que não é fácil seguir um modelo linear para a análise dos diferentes textos; contudo, tentarei, na medida do possível, manter uma mesma grelha de análise para todos eles, com vista à apresentação das comparações pertinentes e também à formulação de algumas conclusões. A propósito da metodologia seguida e da seleção do corpus (ponto 3.3.), ficou claro que à medida que se recua no tempo se toma cada vez mais difícil encontrar textos relevantes para este tipo de estudo. A inclusão deste regimento (Texto 1) nos textos analisados deve-se acima de tudo ao facto de ele representar o momento em que, pela primeira vez, se consignaram por escrito os preceitos relativos à organização, regulamentação da actividade e às obrigações do ofício de tecelão. Embora o título do documento seja prometedor e tivesse criado algumas expectativas, a verdade é que o texto se veio a revelar extremamente pobre do ponto de vista da análise da linguagem específica dos têxteis. Trata-se de um documento onde é muito mais evidente o recurso à linguagem jurídica medieval. Composto por 16 parágrafos distintos, todos eles relativamente breves (o mais longo não ultrapassa as 26 linhas), o texto ocupa-se de uma série de questões de

63

carácter jurídico-administrativo relacionadas com normas profissionais, com o exame de candidatos a mestre, com o estabelecimento de autoridades e definição das suas competências e deveres. Começa por apresentar um conjunto de disposições relativas à eleição anual dos Juízes examinadores do ofício, para depois descrever as tarefas inerentes ao cargo de examinador e as sanções a aplicar a quem não cumprir as regras; enumera algumas das tarefas que o candidato a oficial tem de provar que sabe executar, alude às visitas que os examinadores devem fazer regularmente às "tendas" dos tecelões e faz referência à necessidade de eleger ainda, também anualmente, um escrivão, dois mordomos e oito oficiais conselheiros. Indica o processo de colecta das coimas aplicadas aos infractores e sublinha a importância de manter uma contabilidade organizada, com a ajuda do livro de receitas e despesas e termina com as determinações referentes às diligências necessárias aquando da passagem de testemunho dos examinadores cessantes para aqueles que forem eleitos e fazendo uma breve alusão à necessidade de cada tecelão, tendo começado a tecer uma teia, ser obrigado a levar o seu trabalho até ao fim, independentemente de esse trabalho poder ter algum defeito.

Apesar de haver uma separação de parágrafos, alguns deles marcados pela expressão item™, não deixa de ser complicado dividir o texto em partes, uma vez que nem sempre é clara a separação das ideias centrais de cada uma delas. Para esta dificuldade contribui também a quase total ausência de pontuação, própria dos textos da época. Em todo o texto há apenas dois breves momentos em que se recorre a uma linguagem típica da tecelagem. O primeiro deles é a enumeração das tarefas a executar pelos candidatos a oficiais, durante as suas provas (pág. 725) e que tem uma formulação, na perspectiva de hoje, muito geral e rudimentar, mas que devia

78 Assinala cada um dos artigos ou argumentos em que se desenvolve um requerimento ou qualquer outra exposição escrita.

64

representar para o século XVI um modo especial de usar a língua na comunicação

de especialidade:

-"Item E o que novamente se quyser emxeminar do dito officio de tecelão

pêra poder ter temda do dito officio saberá fazer as cousas seguimtes //

Primeiramente saberá asemtar hum tear tão direito e ao lyvel como cumpre a

bom officiall [

compre - E asy saberá vrdir huma tea na comta que merecer // E asy saberá a

comta dos fiados daquillo que ho official souber fazer". 79

E asy mais saberá emlyçar e apomtar huum pemtem como

]

O segundo momento encontra-se na parte final do texto (pág. 729) e surge

aparentemente desenquadrado, uma vez que no parágrafo anterior se faz referência à

questão da contabilidade e do livro de receitas e despesas. Diz-se então de seguida:

-"Item E pêra que neste Regimento aja em todo aquela ordem qual cumpre

pêra desemguano do bem Comum ordenaram e mamdarão que ho tecelão ou

tecedeira que começar de tecer qualquer tea que seja a não dexara de acabar de

tecer por quebradiço que ho fiado delia seja nem por outra qualquer fallta e

defeito da dita tea/".

Não sendo, em meu entender, estas breves alusões a procedimentos e a escassos

termos mais técnicos suficientes para justificarem uma análise com muitos

resultados na perspectiva da Linguística de Texto de Especialidade, a verdade é que

representam uma boa amostra do modo especial de usar a língua a que atrás aludi.

Veja-se, a título de exemplo, o modo como se indica e estipula o que o futuro

mestre deverá saber fazer: através do uso do futuro ("saberá asemtar") ou o

Ainda

paralelismo na construção ("E asy saberá emlyçar [

]

asy saberá

").

79 Para facilitar a transcrição deste documento não respeitei o uso do itálico para certos caracteres

como no original, nem o recurso a maiúsculas no meio de uma palavra ou no seu início sem fortes razões aparentes.

65

assim, procurei nos restantes documentos relativos ao ofício de tecelão, publicados

no mesmo volume, disposições mais específicas da técnica de tecelagem. Do

Regimento Que O Senado da Camará Manda dar Para bom regimen do Officio dos

«Teçeloens» - Anno de 1782 faz parte um capítulo 4 o (pág. 741), intitulado "Dos

Exames, e outras providencias", cuja linguagem mais específica da tecelagem revela

que houve um nítido progresso, traduzido numa maior exigência na selecção, para

fins comunicativos, dos meios da língua, na precisação na identificação de certas

partes do tear, bem como na descrição das tarefas a realizar pelos examinandos

candidatos a mestre do ofício. De facto, essas tarefas são descritas com outro

pormenor, pelo que o texto é mais rico em terminologia e recursos próprios da

tecelagem do que o anterior, merecendo por isso alguns comentários.

Este é também um texto de tipo jurídico-normativo (cfr. Gópferich 1995, 124),

com traços de texto instrutivo. As instruções são concretizadas por actos de fala de

tipo directivo, havendo também momentos onde se identificam actos de fala

representativo-descritivos, como por exemplo quando se fornecem indicações sobre

o modo como se deve assentar o tear e as distâncias que devem ser respeitadas entre

as várias partes. As instruções são dadas através do recurso um pouco

indiferenciado ao futuro simples do indicativo e ao infinitivo (infinitivo aliás

dependente do verbo "saber", no futuro do conjuntivo, da frase que introduz a

enumeração de acções anunciada pelo elemento catafórico "o seguinte"):

aquele Official

que souber fazer o Seguinte: Apontuar hum Pente, que fique certo, tendo

doze puas em cada ponto, e o ultimo ficará com doze fora o Puão do Oreleiro, e

o Pente será de qualquer conta que os Juizes lhe derem. Apontará as outo Prexadas para o Lisso do mesmo Pente que fiquem certos os pontos das Prechadas com os do Pente", [sublinhado meu, J. G.]

-"será só aprovado para exercer este Officio, como Mestre [

]

[ ]

ou ainda ao conjuntivo

66

"Segundo. Quefiquem muito destorcidos, e não sarilhados

os pés do Tear".

Terceiro. Que fique muito certo na esquadra tomada esta medida em Cruz

de Pombinha a Pombinha", [sublinhado meu, J. G.]

Mais importantes - para a avaliação da especificidade deste texto do que os

modos e tempos verbais - cuja utilização menos coerente talvez fosse comum na

época da publicação do texto - serão com certeza os aspectos lexicais. O texto

contém uma série de termos e expressões que fazem parte da terminologia

específica ou de especialidade: são termos como 'pente', 'pua', 'ponto', 'puão',

'oureleiro', 'prexada', 'lisso' (pág. 741), 'pombinha', 'primideira' ou 'queixa' (pág.

742), e colocações características como 'Apontuar hum Pente', 'Puão do Oureleiro',

'dar (uma certa) conta ao Pente', 'apontar as Prexadas', 'Lisso do Pente, 'crescer /

faltar Cadeia', 'urdir uma teia', 'carregar (a teia) 1 , 'cavas das primideiras', 'eriçar-se (a

teia)'. Infelizmente algumas destas expressões, como por exemplo, o 'repasso

enpuartado' terão caído em desuso, tendo-me sido impossível encontrar o seu

significado 80 .

Apesar de as marcas de especialidade se encontrarem quase exclusivamente no

plano lexical, e de hoje ser ponto assente que o léxico por si só não é suficiente para

determinar se um texto é ou não de especialidade, a verdade é que não se pode

ignorar que não é um documento actual e que, por isso, sem outros textos

Pelo contrário, registados nos dicionários compulsados encontram-se facilmente ainda termos como, por exemplo: 'pente' - uma espécie de caixilho com aberturas perpendiculares pelas quais passam osfios de uma teia; 'pua' - o intervalo entre os dentes do pente do tear; 'queixa' - cada uma das peças de madeira que seguram entre si os dentes do pente do tear; pomba' - uma peça do tear, uma espécie de pegadoiro, encaixado na queixa superior do pente; 'liço' - cada um dosfios entre duas travessas, através dos quais passa a urdidura do tear, e que elevando-se ou abaixando a cada passagem da lançadeira, determinam o tecido com o fio que sai desta. (Ferreira, 1986); Machado, 1990); (Figueiredo, 1982).

67

representativos para comparação, não deixa de ser uma empresa problemática

querer aplicar-lhe critérios analíticos modernos. Justifica-se, apesar disso, a sua

classificação como texto de especialidade do sector da tecelagem. O mesmo se

poderá dizer em relação às duas passagens referidas do Regimento do officio de

Tecelães desta cidade de Lixboa de 3 de Janeiro de 1559, o qual, a meu ver, a ser

classificado - na íntegra - como texto de especialidade terá de ser considerado como

pertencendo primariamente à área do Direito.

4.2. Análise do Regimento da Fabrica dos Pannos de Portugal, de 1690*

Pelo que respeita à sua macroestrutura, o texto (Texto 2) apresenta um

preâmbulo, relativamente breve, em que se faz a exposição dos motivos que

levaram à sua publicação, e a que se segue um conjunto de 107 capítulos. A divisão

no que se poderá chamar textos-parte é um facto reconhecível, apesar de não se

indicar sempre expressa e consequentemente a identificação dessas subdivisões: se

se considerar que ao capítulo XXXV é anteposta a indicação "DOS PIZOEIROS", que a

'parte' dedicada aos "TINTUREIROS" se inicia com o capítulo LI e que a parte que se

ocup a "DO PASTEL " te m iníci o n o capítul o LXXIV , log o seguida d a secçã o sobr e o

"TOZADOR" a partir do capítulo LXXV, fica-se com a sensação de ausência de

outros títulos com idêntica finalidade estruturadora. Não disponho de elementos que

possam objectivamente justificar essa falta, se é que a há, mas aquelas quatro

marcas podem ou terão de ser entendidas como sinais de uma articulação em partes,

* Infelizmente a numeração das páginas do Regimento indicadas neste capítulo não corresponde à paginação do excerto que consta no anexo, uma vez que trabalhei a partir de uma versão fotocopiada (Campos, 1783-1791) que me foi cedida e que não consegui depois encontrar disponível nas Bibliotecas que consultei, vendo-me forçada a recorrer a outra edição (Manescal, 1724).

68

se bem que não seja fácil deduzir o critério que subjaz a esta divisão. Todos os capítulos são, por sua vez, antecedidos por uma epígrafe, que resume o conteúdo do respectivo capítulo, relacionado com instruções técnicas (por exemplo: "Da maneira que se lavarão as lans", cap. II), com procedimentos sobre tecelagem ou com disposições sancionatórias a aplicar a quem não cumpra as determinações impostas

pelo regimento (por exemplo: "Da pena que terá o Tecelão, que lhe tomar pezolada de panno em sua casa, posto que a pessoa, cujo for, lha queira dar ou vender fiado, ou puzer pannos de muitos fiados, e cores sem o mostrar ao Vedor dos Pannos" (cap. XVÏÏI, pág. 292)). Por vezes, essa epígrafe coincide com a primeira frase do próprio capítulo. O facto de o texto não ter um índice acaba por não dificultar muito

a sua consulta, uma vez que a epígrafe de cada capítulo anuncia o tema nele tratado; assim sendo, torna-se mais fácil aos destinatários encontrarem os capítulos que dizem respeito às áreas que mais lhes interessam.

Dado o considerável volume deste regimento (aprox. 40 págs.), optei por analisar apenas parte do seu conteúdo. Atendendo à sua índole - trata-se de um documento legislativo sobre uma área técnica -, o texto é particularmente interessante do ponto de vista das linguagens de especialidade, uma vez que é possível identificar três grandes áreas diferentes: em primeiro lugar, é clara a

presença no texto de inúmeras marcas de linguagem jurídica, próprias de um documento de carácter administrativo 81 ; em segundo lugar, não é difícil reconhecer

a linguagem dos têxteis, que perpassa todo o texto, com particular relevo para os

primeiros capítulos, consagrados à preparação das lãs e à tecelagem; por último, nos

81 Para citar apenas um exemplo: "e ao Juiz, que naõ tirar esta devassa, sendo Conservador, se lhe dará em culpa na residência" (cap. XCVm, pág. 319), entendendo-se, segundo Bluteau (1789) por "devassa" o «acto jurídico no qual se inquirem testemunhas acerca de algum crime» e por "residência" «o exame ou a informação, que se tira do procedimento do Juiz ou Governador, a respeito de como procedeu nas coisas de seu officio, durante o tempo que residia na terra onde o exerceu».

69

capítulos relativos à tinturaria, assume especial destaque a linguagem da química ,

dado que se indicam não só os ingredientes, mas também as suas dosagens para a

preparação das diferentes cores, tendo também em conta as várias qualidades de

panos que podem ir a tingir.

Perante esta variedade de linguagens, e na impossibilidade de, neste

trabalho, analisar as características de todas, seleccionei os capítulos iniciais do

regimento (caps. "VU a XXXIV), dedicados às operações de urdidura e tecelagem,

porque são os que melhor representam a linguagem têxtil e que permitem mais

facilmente estabelecer comparações com excertos de outras obras da mesma área de

actividade, com o objectivo de analisar diferentes estádios da língua em diversos

momentos do tempo. A inclusão, por minha parte, dos capítulos relativos à urdidura

deve-se ao facto de serem geralmente os tecelões os responsáveis por urdir também

os panos antes de seguirem para o tear; todos os capítulos seleccionados são

capítulos que faziam já parte do Regimento de 1573, promulgado por D. Sebastião.

Na minha análise incluí também observações relativas ao preâmbulo, uma vez que

este me parece fundamental para a compreensão de todos os capítulos

seleccionados.

Embora o próprio título do documento o indique (regimento (do lat.

regimento) - um conjunto de instruções, neste caso escritas, que determinam as

obrigações inerentes a um cargo ou ofício -), o texto em apreço é um documento

régio que se poderá eventualmente incluir naquele grupo das leis que Cintra (1999,

203 e seg.) classificaria como leis gerais - embora a categorização que este

professor propôs se aplique especialmente aos textos medievais portugueses -, uma

vez que é de aplicação em todo o território do reino.

Veja-se, a título de exemplo, a seguinte passagem: "sendo o panno mais subido que o padraõ, que venha a ter o azul de sete celestes, haverá ao umar cinco anateis de aume, e quatro de razuras, e meio de caparrosa; e antes de dada a ruiva, dois e meio de çumagre " (cap. LV, pág. 304).

70

Este regimento, como o próprio D. Pedro II reconhece, surge com o intuito

de completar, actualizar e fazer cumprir o regimento anterior, datado de 1573:

"Assentei com seu parecer, que o dito Regimento antigo se cumprisse; e

guardasse assim como nelle he disposto até o Capitulo XCVI. E tendo outrosim

consideração a que no dito Regimento naõ está provido o que basta, segundo

requer a mudança, e variedade dos tempos, e conforme a experiência, que

depois se teve do que melhor convinha" (pág. 285) 83 .

A actualização desse regimento anterior tornou-se particularmente

necessária na sequência da proibição da importação e do uso de panos estrangeiros,

imposta pelo 3 o Conde da Ericeira (cfr. ponto 3.1). Perante essa situação, impunha-

-se uma melhoria da produção nacional:

sejaõ feitos na conta, e perfeição, que devem ter, por evitar

os enganos, e falsidades, com que até agora se faziaõ em menos credito, e

reputação da fabrica délies, ao qual prejuizo sou obrigado acudir com maior

razaõ no tempo presente, em que fui servido prohibir o uso dos pannos

estrangeiros;" (pág. 285).

"que os pannos [

]

Ainda com o intuito de ilustrar o contexto da publicação deste documento,

convém acrescentar que, nesta época, a produção nacional já havia passado da

indústria doméstica à produção colectiva, com divisão de trabalho. Recorde-se neste

particular que foi no período que antecedeu a publicação do novo regimento que

83 Uma vez que o princípio da intertextualidade foi apontado como um dos critérios determinantes para a definição de um texto (cfr. ponto 2.1.), julgo importante sublinhar o facto de existir uma relação especial entre ambos os regimentos, uma vez que o rei faz, no preâmbulo, referência ao documento de 1573, e que esse mesmo documento foi retomado na íntegra por este Regimento de 1690. Não se trata neste caso de intertextuabdade; contudo, não gostaria de deixar de mencionar este aspecto.

71

surgiram várias fábricas de lanifícios, nomeadamente na região da Covilhã.

Apostado na promoção da indústria nacional através de uma melhoria da qualidade

dos seus produtos, D. Pedro II desencadeou um processo de consulta, levado a cabo

por pessoal administrativo, tendo essa consulta culminado no aditamento de onze

capítulos ao Regimento de 1573. O texto refere de modo explícito esse mesmo

processo de consulta:

todas as informações necessárias, que sobre esta materia mandei tomar

por pessoas de intelligencia, e confiança, e ouvidos os Povos, e Cameras das terras principaes deste Reino, aonde ha fabricas de pannos" (pág. 285).

"[

]

Na sequência do que acaba de ser dito relativamente às circunstâncias em

que o texto surgiu e numa perspectiva comunicativa, parece-me fundamental referir

mais uma vez o facto de se tratar de um documento escrito, por determinação real,

por pessoal administrativo tecnicamente bem informado e se destinar expressamente

a especialistas, i. e. artesãos, mestres, oficiais e seus ajudantes, que trabalhavam

directamente na produção de lanifícios. Tendo em conta a finalidade do texto, não é

de estranhar que se trate de um documento imbuído de uma forte componente

prática e instrutiva. A situação comunicativa em que se insere leva a que quem

escreve sabe bem a quem se dirige, partindo do pressuposto de que quem lê são

pessoas que possuem determinados conhecimentos técnicos específicos -

necessários ao desempenho das diferentes tarefas do processo de tratamento da lã -,

mas que simultaneamente possuem muito pouca ou nenhuma instrução escolar e

formação profissional 84 .

Vale a pena, neste contexto da situação comunicativa, fazer alusão ao facto

de serem extremamente raras as passagens em que surge a I a pessoa do singular,

84 Recorde-se, neste contexto, a importância das noções de intencionalidade, aceitabilidade e situacionalidade apresentadas a propósito da definição de texto (cfr. ponto 2.1.).

72

referida à pessoa do Rei, que aliás não é produtor directo do texto (Textproduzenf), mas a pessoa em nome da qual o texto é escrito, o seu emissor (Textsender). Todas estas referências são próprias do estilo que caracteriza este tipo de documentos administrativos, que obedecem a determinadas regras e convenções: "Eu, el Rei, faço saber", "e mando que daqui em diante", "hei por bem", etc. Justifica-se, assim, a consideração da já referida distinção de Nord (1988) entre produtor e emissor, uma vez que, para além da pessoa do Rei, surgem indicações, no capítulo CVII do texto, relativas a pelo menos outras duas pessoas: "Joaõ Cardoso o fez em Lisboa a sete de Janeiro de mil e seiscentos e noventa annos. Sebastião da Gama Lobo o fez escrever" (pág. 323). Contudo, não me parece que se possa aqui invocar a preocupação de neutralidade e rigor científico, que está na origem do anonimato e da ausência de referências à primeira pessoa - a desagentivação -, que caracteriza os textos de especialidade actuais.

Os destinatários não são directamente interpelados como sucederia se o

estilo escolhido usasse, por exemplo, formas verbais no imperativo da 2 a pessoa. As soluções a que os produtores do texto lançam mão vão desde o uso de formas

e depois de escolhido se lhe cortarão as fraldas";

" se cortarão três dedos ao comprido", cap. I, pág. 287), passando por frases de

agente não identificado ("em tal caso o deitarão no lugar que parecer melhor

caberá", cap. I, pág. 287), até expressões de quantificação negativa ("Tecelão algum

naõ poderá pôr marca

No plano pragmático, importa ainda realçar que este texto é - à semelhança do que acontece com a maioria dos textos de especialidade - um texto de tipo informativo (ReiB, 1983,12 e ReiB / Vermeer, 1984, 206 e segs.), que veicula informação técnica relativa a uma série de procedimentos e indicações de dados, como por exemplo as diferentes medidas dos diferentes pentes do tear, as várias quantidades de matéria a empregar para o fabrico dos diversos tipos de panos, etc. De acordo com a divisão de Gõpferich (1995, 124), poder-se-á afirmar que o

passivas de 'se' impessoais ("

", cap. XVII, pág. 291).

73

documento contém traços de texto jurídico-normativo e traços de texto didáctico- -instrutivo. Em relação ao primeiro aspecto e uma vez que não é meu objectivo fazer aqui uma análise da linguagem jurídica, basta recordar que o texto prevê sanções ("sobpena de qualquer pessoa, que assim o naõ fizer, e cumprir, e de outra alguma maneira obrar as ditas lans, pagar quinhentos reis, ametade para o Vedor dos pannos, e outra metade para quem o accusar", cap. H, pág. 286) e prazos para o cumprimento das suas diposições ("hei por bem, e mando que da feitura deste a seis mezes primeiros seguintes", cap. XIX, pág. 292). As referências às sanções e penas para quem não cumprir as disposições do regimento e a referência ao prazo de entrada em vigor dessas mesmas disposições são traços característicos dos textos legislativos, ainda nos nossos dias. No que diz respeito aos traços de carácter didáctico-instrutivo, identificáveis nos momentos em que predomina o objectivo de transmitir conhecimentos práticos, poder-se-ão encontrar actos de fala de tipo representativo-descritivo ("e o pentem, em que as ditas frizas se houverem de tecer, terá de largura dois covados e duas terças, menos dois dedos, e isto em todo o pentem de torçal a torçal", cap. XXXIV, pág. 296); porém, nas passagens do texto em que sobressai a intenção de instruir os destinatários para executar uma determinada tarefa, pondo em prática conhecimentos teórico-práticos, predominam os actos de fala de tipo directivo, que se manifestam pelo emprego do verbo "dever"

ou pelo recurso ao imperativo; neste texto o modo escolhido é o indicativo, no futuro simples (levará, urdirá, faraõ, etc.), forma que reforça o carácter imperativo. São também actos de fala directivos aqueles que são formulados na negativa,

transmitindo proibições ("naõ poderá Tecelão algum

No plano textual, e depois de já feitas algumas considerações relativas à macroestrutura do texto e a alguns dos critérios que contribuem para a definição de um texto, tanto do ponto de vista macro como microestrutural, centrar-me-ei de seguida em mais dois desses critérios, mais concretamente a coesão e a coerência do texto, apesar de nem sempre ser fácil distinguir os factores que contribuem para

").

74

uma ou para outra e de esses factores se situarem tanto no plano pragmático, como

nos planos sintáctico e semântico.

É inegável a existência no texto de uma progressão temática lógica, dado

que ao longo dos diferentes capítulos se vai acompanhando a cronologia das

diferentes fases do tratamento da lã, desde a selecção e separação das suas

diferentes qualidades ou sortes, aos diversos tipos de acabamento que os panos de lã

podem receber.

Apesar de ser naturalmente possível uma leitura "não contínua" do

regimento, no sentido de que cada leitor pode fazer uma leitura selectiva, apenas dos

capítulos que lhe interessam mais directamente, ele não deixa de ter uma sequência

clara. Essa sequência é-lhe assegurada, dentro de cada capítulo, pelo emprego de

variados sinais como, por exemplo, a conjunção "e" - cujo uso é uma marca do

português medieval e simultaneamente uma marca de oralidade - não só para

garantir continuidade, mas também para estruturar o texto e introduzir um novo

tema:

" e precedendo outrosim todas as informações necessárias, que sobre esta

materia mandei tomar por pessoas de intelligencia, e confiança; e ouvidos os "

Povos [

];

e examinado o dito Regimento antigo [

].

E sendo tudo visto

(pág. 285).

Além desta conjunção, são usados outros marcadores, como "o/a dito/a" e

"sobredito/a" ou o advérbio "outrosim" que mantêm o texto coeso: "E tendo

"

(pág. 285). Ocorrem ainda outras expressões, tanto catafóricas como anafóricas, que

outrosim consideração a que no dito regimento não está provido o que basta

85 Uma outra marca de oralidade é a pontuação do texto, que não obedece a critérios sintáctico- -semânticos, como é o caso no português actual, mas é marcadamente prosódica, correspondendo as vírgulas às pausas feitas pelos falantes e dando simultaneamente ao leitor / destinatário indicações que o apoiam e o orientam n(a leitura d)o texto.

75

remetem para outras partes do texto, criando ligações transversais e reforçando a sua

coesão: "ao diante declarado" (cap. VII, pág. 288), "na maneira que fica dito do

panno dozeno e conforme ao Capitulo acima" (cap. XI, pág. 289 [sublinhado meu,

J.G.]). As repetições das mesmas estruturas sintácticas (ou pelo menos estruturas

muito semelhantes), em passagens como aquelas em que se refere o número de fios

da urdidura, para além de reflectirem a necessidade de transmitir a mensagem de

forma simples, de modo a que ela seja entendida na íntegra pelos seus destinatários,

de revelarem uma total ausência de preocupações estéticas e contribuírem também

para uma mais fácil memorização das disposições relativas aos vários tipos de

panos, reforçam a coesão e a coerência do texto, já que, sempre que no regimento se

referem os panos de diferente "conta", essa referência é feita por ordem crescente do

número de fios, do pano dozeno em diante:

-"O Panno dozeno levará a urdir mil e duzentos fios, e naõ menos; e o Tecelão, que lhe menos deitar, perderá a valia do panno" (cap. VIII, pág. 288). -"O Panno quatorzeno levará a urdir mil e quatrocentos fios, e o que menos levar, se perderá na maneira que fica dito do panno dozeno" (cap. XI, pág. 289). -"O Panno sezeno levará a urdir mil e seiscentos fios, e o que menos levar, será outrosim perdido" (cap. XII, pág. 289). -"O Panno dezocheno levará a urdir mil e oitocentos e naõ menos, sobpena de ser perdido" (cap. XIII, pág. 290).

Vale a pena salientar, no contexto da coerência textual, a estrutura bipartida

de grande parte dos capítulos do regimento: como se pode ver pelo exemplo

seguinte, em primeiro lugar, apresentam-se as determinações a cumprir pelos

leitores / destinatários e, em segundo lugar, alude-se à pena em que incorrerão

aqueles que não cumprirem essas mesmas disposições:

76

" e o pentem, em que se tecer, terá de largura de fino a fino très covados e

huma sesma, [

menos: e o Tecelão naõ poderá tomar tecedura da maõ de cujo for o panno, sem primeiro a pezar: e sendo o pentem de menos medida, pagará cada vez que lhe for achado quatrocentos reis, e o pentem lhe será quebrado: e por cada vez que lhe naõ metter os ditos três arráteis, e lhe for achado o panno mal tecido, pagará pela primeira vez quatrocentos reis, e pela segunda oitocentos reis, as quaes penas seraõ para o dito Vedor, e Cativos" (cap. VIII, pág. 288).

e levará a tecer em cada ramo três arráteis de fiado, e naõ

];

Importa ainda registar o predomínio das frases simples e curtas e o recurso a

construções relativas introduzidas pelo determinante relativo 'cujo', concordando em

género e número com o nome a que se reporta, relacionando-o com o antecedente da

frase anterior e exprimindo a ideia de pertença: "as pessoas cujos forem, os urdirão"

(cap. VII, pág. 288), "e a pessoa, cujo for o panno, perderá o panno próprio" (cap.

VIII, pág. 288).

Um outro factor a ter em conta no âmbito da coesão textual é o emprego de

construções condicionais (-temporais) reduzidas, sob a forma de duas orações,

apresentando a primeira uma construção gerundiva exprimindo a condição, seguida

da oração principal exprimindo a consequência:

- "Sendo os ditos pannos fiados, as pessoas cujos forem os urdirão em suas

casas" (cap. VII, pág. 288).

- "Começando a tecer o panno dozeno ao principio da amostra delle, lhe porá o

Tecelão por letras e sinaes tecidos a conta, e marca do tal panno" (cap. EX, pág.

288). [sublinhados meus, J. G.]

Se atendermos às características tidas como típicas dos textos de

especialidade actuais, importa referir que neste texto, curiosamente, não se recorre à

passiva sintáctica e predominam as formas verbais do futuro e não do presente ou de

77

conjuntivo e infinitivo correlacionadas com a expressão de actos instrutivos e directivos. O facto de o texto ser escrito sem grandes preocupações estéticas, deixando no leitor actual a sensação de que o que surge na escrita reflecte traços de oralidade, torna-se patente também através de algumas incorrecções detectáveis em vários capítulos, como por exemplo: na mesma página, mas em capítulos diferentes (caps. Xni, XIV e XV), há uma designação de uma medida que surge duas vezes no masculino ("dobrado") e uma no feminino ("dobrada"); no capítulo V - muito embora não pertença ao grupo dos capítulos dedicados à tecelagem -, na mesma frase, o destinatário é interpelado uma vez no singular e outras no plural: "e tanto que assim for azeitada, a cardarão, fundindo-a muito bem ao emborrar, e naõ a cardará com cardas de redondo, nem imprimirão senaõ com cardas de desbarbado" (cap. V, pág. 287); já no capítulo XXIX, por uma questão de coerência, onde se fala em "panno dozeno dizimado", dever-se-ia falar em pano sezeno, uma vez que no capítulo anterior se diz "querendo alguma pessoa fazer pannos dizimados, os poderá fazer, mas naõ de menos conta que quatorzenos" (cap. XXVIII, pág. 295) e se diz também que esse pano levará a urdir mil e seiscentos fios (o número de fios dos panos sezenos); por último, regista-se ainda um lapso na numeração dos capítulos, uma vez que entre os capítulos XXII e XXIV, surge o capítulo XXXIII e não XXIII, havendo também a possibilidade de alguns destes exemplos se deverem a erros de composição tipográfica.

Finalmente, no plano lexical, não tendo por intenção fazer um levantamento exaustivo dos termos técnicos e específicos da linguagem têxtil, sublinharei apenas os aspectos que me parecem merecer destaque, tendo em conta o objectivo principal do presente trabalho. Assim, registe-se a importância das várias designações de pesos e medidas mencionadas ao longo de todos os capítulos seleccionados. Em relação às medidas das urdideiras destaca-se o "ramo" (cap. VII, pág. 288), como correspondendo a seis côvados e um terço; quanto à largura do pente do tear surge a

78

referência à "sesma" ("très covados e huma sesma" (cap. VHI, pág. 288)), que, embora venha definida como uma medida antiga equivalente à terça parte de um côvado 86 , feitas as contas, terá de corresponder neste documento à sexta parte de um côvado, caso contrário a frase seguinte estaria incorrecta: "e o pentem, em que se tecer, terá de largura de fino a fino três covados e uma sesma, e de ourelo outra sesma, que virá a ser ao todo de três covados e terça" (cap. Vin, pág. 288); além da "sesma" e da "terça", o côvado é fraccionado ainda em "quartas" (cap. XIII, pág. 290) e em "oitavas" (cap. XIV, pág. 290). Para medidas de peso, refere-se o "arrátel", também ele fraccionável, e não deixam de ser interessantes também as designações da "conta" dos panos, que em função do número de fios são "dozenos, quatorzenos, sezenos, dezochenos, vintenos, vintedozenos ou vintequatrenos". Ao longo do texto, aparecem ainda outras indicações de medidas, como "uma maõ travessa" (cap. X, pág. 289), "dobrado/as" (pág. 290), "um dedo" (cap. XXXIV, pág. 296) ou ainda "uma vara" (cap. XXXIV, pág. 296) - todas estas medidas são de facto consideravelmente imprecisas, mas são as medidas que eram correntemente utilizadas na época. Não deixa de ser curiosa também a indicação dos pontos de medida para os pentes do tear: "largura de fino a fino" e "em todo o pentem de torçal a torçal" (cap. XXXIV, pág. 296).

Um outro aspecto que merece destaque é a diversidade de panos referidos ao longo dos vários capítulos. Para além de poderem ser "verbis", ou "dizimados", os panos podem ser de vários géneros: "baetas", "picotes", "pannos de cordaõ", "guardaletes" ou "frizas". Os panos "verbis" são, e de acordo com as escassas informações que o próprio regimento oferece, aqueles nos quais é colocada como marca a letra B ("Berbim"), os "dizimados" correspondem aos panos finos que cada trapeiro é obrigado a fazer ("porém os Trapeiros seraõ obrigados a fazer em cada hum ano a decima parte dos pannos finos da quantidade dos pannos, que houverem de fazer" (cap. XIX, pág. 292)). Os diferentes géneros de pano não aparecem

Cfr. Ferreira (1986).

79

descritos no texto, uma vez que os destinatários sabem bem de que se trata, sendo possível apenas distinguir o modo como eram feitos e os fios e a quantidade de lã que levavam. Se mais uma vez se atendesse ao que é ou não comum nos textos de especialidade actuais, constatar-se-ia que éfrequentenesses textos, no plano lexical, o recurso aos termos técnicos, muitas vezes substantivos abstractos, acompanhados de adjectivos específicos, e que predomina a formação de palavras por derivação, sobretudo sufixação. O vocabulário a que se recorre neste texto é aparentemente corrente; as medidas utilizadas, por exemplo, não poderiam, nalguns casos, ser menos técnicas: a que corresponderá "um dedo" ou "uma mão travessa"? O mesmo se aplica às marcas que cada tecelão deverá pôr no pano que tecer: cruzes e riscos servem para distinguir os panos de várias "contas". Trata-se, sem dúvida, de uma linguagem que faz recordar aquela que ainda hoje se mantém nas receitas de culinária. Mas a verdade é que, e correndo o risco de me repetir, esses padrões actuais não se podem aplicar aos textos antigos e o uso da língua patente neste regimento é um uso específico, condicionado pela função do texto. Feita uma apreciação global dos vários factores pertinentes nos diferentes planos de análise textual, é curiosamente o léxico o aspecto que, no meu entender, mais marcadamente contribui para fazer deste texto um texto de especialidade.

4.3. Análise de As Fabricas da Covilhã, de 1863

Este documento (Texto 3) é uma publicação da Associação Promotora da Indústria Fabril. Trata-se de um pequeno livro com um total de 95 páginas, de que, mais uma vez, seleccionei apenas parte. Na introdução deste volume, regista-se que

80

ele contém "todos os documentos que o sr. Fradesso da Silveira publicou depois da sua visita a essas fabricas" (da Covilhã) (págs. 5 e seg.). O leitor fica ainda a saber que o serviço de inquérito relativo às diferentes fábricas de que o autor foi incumbido "foi interrompido, quando o sr. Casal Ribeiro deixou de ser Ministro da Fazenda" (pág. 6), tendo sido depois continuado e tendo os resultados sido apresentados numa outra obra, publicada pelo Conselho Geral das Alfândegas e intitulada Indagações Relativas aos Tecidos de Lã.

Das 95 páginas do conjunto do volume seleccionei as páginas 27 a 45, em que se descreve o fabrico dos panos de lã, por considerar que é aquela que mais se aproxima do texto anteriormente analisado, reservando-me, porém, a possibilidade de referir uma ou outra página das anteriores ou das seguintes, na medida em que tal permita melhor enquadrar o texto seleccionado e melhor entender os comentários feitos.

Em primeiro lugar, ao integrar a Bibliotheca das Fabricas - "uma serie de pequenos volumes, contendo noticias industriaes, descripções de fabricas, e artigos sobre assumptos, que possam influir no progresso da nossa industria fabril" (pág. 5) - este texto é de índole completamente diferente da do texto anterior (Texto 2). É classificado por quem o publica como um opúsculo (pág. 6), o primeiro de uma série de textos de divulgação, destinados a um público alargado, não necessariamente especialista. Quanto às suas fontes, importa chamar a atenção para o facto de o texto na sua globalidade ser composto por três partes: uma primeira (págs. 7-45) da autoria de Joaquim Henriques Fradesso da Silveira, inspector-geral de pesos e medidas do reino; uma segunda (págs. 46-82), anexa à primeira, intitulada "Inquérito Industrial na Covilhã" (publicada, de acordo com indicação em nota, no Jornal da Associação Industrial Portuense) e que inclui os relatórios elaborados com base nas informações recebidas das diferentes unidades de fabrico de lanifícios da região e apresentados pela "Associação Commercial Covilhanense" ao referido inspector; e, por último,

81

uma terceira composta por um artigo, retirado do "Diário Mercantil de 16 de Outubro de 1861" com o título "A Covilhã na ultima exposição" (págs. 83-95).

No plano comunicativo, salienta-se o facto de o autor do texto que seleccionei ser um profundo conhecedor da matéria, cuja autoridade é reconhecida por aqueles que com ele lidam 87 . Em relação aos destinatários, penso que é possível distinguir no texto dois tipos de destinatários: em primeiro lugar, o texto dirige-se ao público em geral, mencionado mais do que uma vez em termos como: "Muita

"Concorrem diversas causas para que sejam tão desconhecidas,

" (pág. 7) ou ainda: "Sabem todos que as

" (pág. 40). Ao visar esse público, o autor tem

consciência de que se trata de um público de certa forma distante do mundo dos lanifícios, não só com poucos conhecimentos sobre as fábricas onde as lãs são trabalhadas, mas também sobre todo o processo de produção dos tecidos de lã, factor extremamente importante e que não pode deixar de ser tido em conta na análise do texto seleccionado. Além disso, e este é, em meu entender, um dos pontos que tornam o texto interessante, ele tem também como destinatários, ainda que por vezes de forma implícita, os "poderes públicos". Fradesso da Silveira, para além de apresentar os resultados das suas visitas de uma forma enaltecedora dos méritos da indústria de lanifícios (como adiante se verá), aproveita a oportunidade para tecer duras críticas ao poder político, pela falta de apoio ao sector. Esta duplicidade de intenções cria uma situação curiosa e original do ponto de vista pragmático, que merece uma atenção particular.

Antes porém de passar à análise sob essa perspectiva pragmática, importa referir ainda que o autor do texto está bem presente ao longo de todo ele, sendo

gente ignora

";

do publico em geral, as fabricas

operações de perchear e tosquiar

87 São várias as passagens ao longo das 95 págs. deste volume em que os seus conhecimentos são

enaltecidos: "S.

différentes matérias,

competência n'estas matérias. Conhece perfeitamente as machinas de que esta industria usa, e apresentou conhecimentos não vulgares n'esta especialidade" (págs. 49 e seg.).

82

á sua reconhecida proficiência em

" (págs. 47 e seg.); "Foi por esta occasião que s. ex" mostrou a sua

ex 3 . reúne a seus profundos conhecimentos, e

numerosos os momentos em que Fradesso da Silveira utiliza formas verbais ou

pronominais referentes à primeira pessoa para emitir opiniões: "parece-me que um

tal mercado ha de vir" (pág. 18), "se este [o governo, J.G.] promover a producção

da lã no paiz, como pôde, sem duvida, e como deve, a meu vêr, ainda que por esta

opinião me condemne uma escola económica" (pág. 18), "Admirou-me que não se

adoptasse este fácil melhoramento em outras fabricas" (pág. 30). Perante estas

formulações, o leitor não pode deixar de ficar com a sensação de que o autor se

sente, de facto, com autoridade para emitir os seus pareceres. Trata-se, na verdade,

de uma presença manifesta ao longo de todo o texto, o que não é frequente nos

textos de divulgação actuais, uma vez que aqui se associa o rigor da informação à

ausência de referências à pessoa do autor / agente / causador / experienciador.

Contudo, como adiante se registará, há também inúmeros momentos em que é

notória a desagentivação do discurso, própria dos textos técnico-científicos.

Passando agora à análise pragmática, convém deixar bem claro que o texto

é, nas páginas que seleccionei e que dizem respeito ao processo de fabrico,

naturalmente de tipo informativo (ReiJ3, 1983, 12 e Reií3 / Vermeer, 1984, 206 e

segs.), visando veicular informação técnica e tem, ao mesmo tempo, também marcas

de texto didáctico-instrutivo, uma vez que o autor tem a preocupação de explicar

com pormenor ao leitor os vários tratamentos a que a lã é submetida.

Consequentemente, os actos de fala predominantes são de tipo representativo-

-descritivo 88 :

(1) -"Das argueiradeiras a lã passa para as escarduças, em que é maior o

numero dos dentes, e maior a velocidade do movimento dos cylindros" (pág.

29)

Em relação aos Textos 2 e 3 optei por apresentar os exemplos numerados, sempre que considerei que tal facilitaria a leitura do trabalho.

83

(2) -"As cardas são compostas de um cylindro grande, em volta do qual giram

outros cylindros de menor diâmetro, com puas ou dntes, dispostos em sentido

opposto aos do tambor ou cylindro principal" (pág. 31)

Contudo, e sobretudo nas partes introdutória e final do seu texto o autor

dirige um grande número de críticas e recomendações ao governo e, no fiando, a

todas aquelas instâncias que, no seu entender, podem fazer alguma coisa pela

melhoria do sector dos lanifícios na região da Covilhã. Para melhor servir esse seu

objectivo, recorre a actos de fala directivos, criando um discurso com uma função

marcadamente argumentativa e persuasiva. São disso um bom exemplo as seguintes

passagens:

(3) -"Parece-me que um tal mercado ha de vir, satisfactorio para todos, e

naturalmente, sem sacrifício de empresários, e sem a intervenção directa do

governo, se este promover a producção da lã no paiz" (pág. 18)

(4) -"Meditem seriamente n'estas circumstancias os livre-cambistas, que

desejam inaugurar um systema novo, e cuidem nas bases, sobre que devem

fundaFo. Considerem os leilões dos mercados de Londres

" (págs. 22 e segs.)

(5) -"Todas estas observações provam a urgência de cuidar na viação. Aos

engenheiros compete indicar o melhor systema d'estradas, e ao governo cumpre

attender ás reclamações muito justas d'aquelles povos, e ás instancias do seu

digno representante na camará dos srs. deputados" (pág. 27) 89

Simultaneamente,

o texto

aproxima-se,

por vezes,

do discurso

de tipo

expressivo (ReiB, 1983, 12 e ReiB / Vermeer,

1984, 206

e

segs.) -

mas que

89 Uma vez que estas passagens são anteriores ao texto por mim seleccionado e não estão directamente relacionadas com o processo de produção de lanifícios, optei por não fazer uma análise pormenorizada dos recursos linguísticos nelas utilizados.

84

Gõpferich (1995, 120 e seg.) considera de certo modo incompatível com os textos

técnico-científicos e exclui do âmbito de aplicação da tipologia de textos de

especialidade, uma vez que considera estes textos todos de tipo informativo -

sobretudo em passagens como por exemplo a seguinte:

(6) -"Se a narração do que eu vi contribuir para que façam justiça áquclla povoação industrial, o prazer de haver concorrido para a sua justificação fará esquecer todos os encommodos de uma longa e trabalhosa jornada" (págs. 8 e

seg.)

ou também quando, depois de descrita a localização das fábricas que visitou

("O local em que se acham é muito distante das capitães; os caminhos são péssimos,

e os meios de conducção repellem o desejo de viajar por aquelles sitios" (pág. 8)),

chega à seguinte conclusão:

pasma ao ver funccionar nas fabricas as

machinas aperfeiçoadas de Venders. Que sacrifícios e esforços, para levar ali os

machinismos pesados e volumosos, que a industria dos pannos requer! Que serie de transformações, que pertinácia de ensaios e tentativas para passar do methodo approvado pelo regimento de 7 de janeiro de 1690 para o processo moderno!" (pág. 10)

(7) -"Quem entra na Covilhã [

]

A adjectivação e a opção por frases de tipo exclamativo aproximam o texto

da linguagem literária.

Comparado com os textos analisados antes, este texto (consideravelmente

distante deles no tempo) contém mais acentuadamente traços característicos de uma

linguagem de especialidade. O facto de ser um documento de cunho marcadamente

didáctico justifica uma série de opções relacionadas com a microestrutura textual. O

recurso sistemático à paráfrase ou reformulação parafrástica com ou sem a presença

85

de marcadores metalinguísticos é disso um bom exemplo. As reformulações, para

além de contribuírem juntamente com outros factores, que analisarei de seguida,

para a coesão textual, constituem uma via privilegiada para a apresentação de

definições, tão frequentes nos textos deste tipo:

(8) -"Para o fabrico dos pannos a primeira operação é apartar a lã, isto é, separar as diversas sortes" (pág. 27)

(9) -"Dá-se o nome de arminhos á lã dos cordeiros" (pág. 27)

(10) -"Lavam-se as lãs para que fiquem livres da suarda. Como esta substancia

" (págs. 27 e seg.)

unctuosa se dissolve na agua

(11) -"O desensugo, ou completa neutralisação e separação da suarda" (pág. 28)

(12) -"O desengrosso não é mais que uma primeirafiaçãoexecutada pela ultima carda" (pág. 32)

(13) -"espinça-se, isto é, tiram-se os nós com a pinça" (pág. 34)

(14) -"os fios do panno ligam-se mais intimamente, condensam-se por assim dizer" (pág. 36)

(15) -" O panno lustrado ainda vae á perchea muito molhado. Diz-se que por esta operaçãoficamortijado" (pág. 41)

Para além da expressão de equivalência "isto é" (em 8 e 13), as expressões

designativas e denominativas "diz-se que" (em 15) ou "dá-se o nome de" (em 9)

constituem marcadores metalinguísticos muito recorrentes. As estruturas duplas

com 'ou' (em 11) são também uma solução de que o autor faz grande uso. Um outro

86

aspecto que importa salientar neste contexto é o recurso, por um lado, à escrita em

itálico para destacar alguns termos/conceitos mais marcadamente técnicos (que

geralmente são acompanhados de uma definição) e, por outro, às notas de rodapé

para fornecer ao leitor explicações adicionais. Este último caso verifica-se, por

exemplo, a propósito do encanelamento da trama para entrar nas lançadeiras:

(16) -"Actualmente a maçaroca vem da banca dafiaçãopara a urdideira, e sobre os fusos colocam-se canellas de lata, que passam d'ali para a lançadeira" (pág.

33)

ou ainda da expressão "mortijado":

(17) -"Mortija-se para abrilhantar. Effectua-se a operação passando o panno

muito molhado pela perchea, com cardo já gasto

" (pág. 41)

Quer a escrita em itálico quer estas notas são, na minha opinião, importantes

factores de coesão e coerência textual, dado que contribuem para orientar o leitor /

destinatário do texto, facilitando-lhe a compreensão.

À semelhança do que se verificou para o Texto 2, também aqui o texto se

desenvolve aconpanhando a cronologia do processo de fabrico, mas neste caso, a

sequência lógica é reforçada pelo emprego de advérbios de tempo como "antes",

"depois" ou "por último" e pelo recurso à construção de particípio absoluto.

/

os fios de panno

" (pág. 36). Quanto ao gerúndio, de que se faz grande uso no Regimento da

Fabrica dos Pannos, sobretudo em posição anteposta à oração principal,

sublinhando o aspecto de 'anterioridade' de dado processo relativamente a outro, é

utilizado neste texto predominantemente para explicitar o modo como é executado o

processo ou a actividade anunciada na oração anterior:

87

"Lavada a lã e escolhida" (pág. 28), "Depois de azeitada

" (pág. 31), "Feitas

Terminadas estas operações" (pág. 33), "Iníurtidos ou pisoados

(18) -"[

]

faz-se a lavagem mergulhando as lãs por algum tempo em agua

quente [

neutralisando

]

e diluindo na mesma agua alguma urina em putrefacção, que actua

os ácidos" (pág. 28)

Por outro lado, o recurso à voz passiva (em 19-21) e às construções suas

concorrentes - passivas de 'se' (em 22-25) permitem a já referida desagentivação,

processo através do qual se põe em foco o objecto, a finalidade ou o resultado de

uma acção reforçando o carácter impessoal:

(19) -"Os fios de lã [ (pág. 37)

]

são puxados á superficie e dispostos parallelamente"

e depois serzido, atesado e escovado,

outra vez prensado, escovado, e por ultimo medido, pregado, e escovado." (págs. 41 e seg.)

(20) -"O panno affinado é esbicado [

],

(21) -"As

pisoados, tintos, prensados, medidos, e pregados" (pág. 42)

fazendas

ordinárias, os baetões por

exemplo, são unicamente

(22) -"Lavam-se as lãs

" (pág. 27)

(23) -"Termina-se a lavagem

" (pág. 28)

(24) -"Introduz-se a lã [

].

Limpa-se a lã" (pág. 29)

(25) -"Encarola-se a urdidura fio (págs. 33 e seg.)

, e encanela-se a trama

urde-se e gruda-se o

88

Ainda no plano sintáctico, sobressai neste texto, como é característico da

linguagem de especialidade, certa tendência, por um lado, para a nominalização, por

uma questão de economia na transmissão de informação e, por outro, para a

hipotaxe, através do recurso a frases subordinadas exprimindo relações causais,

concessivas, finais, etc. e criando uma rede de ligações e articulações tema / rema,

que dá sequência ao texto. Em relação à nominalização será suficiente referir

algumas construções como "o desensugo, ou completa neutralização e separação da

" (pág. 28) ou "O desengrosso não é mais que uma primeira

fiação" (pág. 32).

suarda

consegue-se

Quanto às orações subordinadas, que reforçam também elas a coesão textual,

predominam as orações relativas (em 27-30), e as orações finais (em 26, 27 e 28),

mais uma vez, provavelmente por serem aquelas que melhor se enquadram em

enunciados de tipo definidor:

(26) -"Lavam-se as lãs, para quefiquemlivres da suarda" (págs. 27 e seg.)

(27) -"A lã

corpos estranhos, que seriam prejudiciaes no fabrico" (pág. 29)

[

]

entra na argueiradeira, para perder o pó, as impuresas, os

(28) -"[

para ser ainda uma vez escarduçada depois de azeitada" (pág. 30)

]

na escarduça, d'onde sae a lã aberta e limpa, para não voltar, ou

(29) -"[

cujo resultado é ficarem de egual altura os filamentos, que a perchea havia levantado, e dispostos em direcções parallelas." (pág. 39)

em machinas, que executam por meio de tesouras, esta operação,

]

(30) -"Ha percheas aprestadoras, que servem para cortar em molhado" (pág. 39)

Não pode ainda ficar sem uma referência o uso do modo conjuntivo em

frases imperativas nas duas últimas páginas do texto que escolhi. Aqui, o autor

89

enaltece os sacrifícios por que passam as fábricas da Covilhã e exorta os poderes

públicos (embora sem referir, identificando-as, as estruturas, autoridades ou

entidades) a agirem para combater a crise que atravessa o sector dos lanifícios:

"concedam-lhe os benefícios do credito; tornem barato, e fácil de obter, o dinheiro

[

];

tornem possível [

]

o frete das matérias primeiras[

];

habilitem o fabricante

[

];

organisem as coisas [

];

façam concessões largas" (págs. 44 e seg.). Nestes

enunciados, o emprego do modo conjuntivo como supletivo do imperativo é um

mecanismo que veicula o valor de exortação e que permite também concretizar

actos de fala de tipo directivo.

Em relação ao léxico, como já tive oportunidade de mencionar, o texto é

marcado por um elevado número de expressões e termos técnicos específicos da

indústria da lã. Muitos deles (como 'apartar', 'arminhos', 'suarda', argueiradeira',

escarduças', etc. vêm sublinhados pelo uso do itálico, como já anteriormente dei

conta, se bem que outros o não sejam, como por exemplo, '(lã) entrefina',

'desengrosso', 'encarolar', 'infurtir', 'perchea', etc. Como uma das preocupações

subjacentes ao texto é manifestamente a didáctica e de divulgação, os objectos e

processos designados por aqueles termos são, em regra acompanhados das

respectivas definições. São vários os tipos de definição 90 de que se socorre Fradesso

da Silveira. Em diversas ocasiões no texto o autor recorre a expressões

denominativas como "dá-se o nome de arminhos á lã dos cordeiros" (definição

onomasiológica) ou ao verbo copulativo 'ser': "a primeira operação, das que

reunidas constituem [

definições em que o definiendum é explicitado mediante a indicação das finalidades

da sua utilização, tornando-se assim a definição menos explícita:

]

é a perchea". Além destas, foram também assinaladas

(31) -"A lã, em todo o caso, tinta ou não, entra na argueiradeira, para perder o

pó, as impuresas, os corpos estranhos [

].

Os dentes, ou puas, das escarduças,

90 Para as várias classificações etiposde definição, veja-se, por exemplo: Sager (2000).

90

pequenos, e em grande numero, servem para abrir a lã e completar o trabalho começado nas argueiradeiras". (pág. 29)

A acrescentar a estas, existem no texto também definições semasiológicas,

como por exemplo:

(32) -"As cardas são compostas de um cylindro grande, em volta do qual giram outros cylindros de menor diâmetro, com puas ou dentes, dispostos em sentido opposto aos do tambor ou cylindro principal" (pág. 31)

Ainda no contexto das definições, é curioso que, na parte final do texto, o

autor faça referência a uma série de panos, não apresentando qualquer explicação

mais pormenorizada sobre as suas características, contrariando assim a tendência

geral do texto de, de uma forma mais ou menos evidente, explicar toda a

terminologia com que o leitor possa eventualmente não estar familiarizado. A

justificação para esta aparente dualidade de critérios reside certamente no facto de o

leitor de finais do século XIX saber perfeitamente o que eram "briches", "baetões",

"castorinas", "serafinas" ou "picotilhos", uma vez que eram esses os tecidos que se

usavam na época.

Por último, e depois de se ter referido já o grande número de substantivos do

texto seleccionado (444 num total de 1965 palavras - logo 22%), reflexo de uma

forte tendência para a nominalização, importa salientar o facto de haver uma

quantidade elevada de substantivos deverbais, formados por derivação regressiva: o

"fabrico", o "desensugo", a "escarduça", o "desengrosso" e o "enxugo" são bons

exemplos de substantivos que exprimem uma acção, neste caso algumas das

principais actividades executadas ao longo da produção dos tecidos de lã. A

qualificar estes e outros nomes do texto, surgem adjectivos de maior ou menor grau

de especialidade, conforme são utilizados na descrição de procedimentos de carácter

técnico: "lã fina, entrefina e ordinária" (pág.27), "substancia unctuosa" (pág.28),

91

"lexivia alcalina" (pág. 28), etc. ou nos momentos em que o autor dá largas ao seu espírito mais crítico e tece comparações entre a Covilhã e outras regiões: ("Uma

viagem aos Gobelins é menos penosa, menos perigosa

lado, enaltece o mérito das fábricas e dos seus "sacrifícios enormes" (pág. 44) e, por outro, aponta o dedo aos poderes públicos, referindo-se ao transporte "dispendioso" (pág. 44) das matérias-primas e às "concessões largas", que é necessário fazer-se à indústria.

Para concluir, embora este texto seja um texto naturalmente enraizado na época em que surgiu e o seu estilo mais erudito e quase literário seja disso mesmo reflexo, pode considerar-se já um texto muito próximo dos textos de especialidade actuais, pelas opções do autor relativamente ao uso que faz da língua, nos seus diferentes planos.

" (pág. 8)) ou , por um

4.4. Análise de Lans e Lanifícios, de 1907

Este texto (Texto 4) distingue-se dos outros já analisados, logo à partida, pela sua macroestrutura. Constituído por um total de 435 páginas, apresenta um prefácio da responsabilidade de Dom Luiz de Castro, Lente Catedrático do Instituto de Agronomia, seguido de um preâmbulo, curiosamente intitulado "Palavras que não chegam a ser preambulo", da autoria de José Maria Mello de Mattos e de uma nota introdutória, com o título "Ligeiras Considerações", apresentada pelo próprio autor da obra, Campos Mello. O texto propriamente dito está dividido em 4 partes - antecedidas por dois capítulos isolados ("Fibras têxteis" e "Lans - Generalidades") -, às quais se seguem a "Bibliographia", o "índice das Matérias" e o "índice das Figuras".

92

À semelhança da metodologia adoptada para os outros textos, a análise

incidirá apenas sobre porções seleccionadas da obra, a saber: os textos introdutórios

(págs. VII a XXVII) - unicamente na medida em que for relevante para o estudo dos

restantes segmentos seleccionados - e as secções relativas à operação de tecelagem e

aos diferentes tipos de tear (págs. 312 a 336); de fora ficarão as considerações

referentes à montagem e afinação dos teares e aos acessórios da tecelagem.

No "Prefacio", escrito num estilo literariamente cuidado, por vezes quase

poético, classifica-se e caracteriza-se a obra nos seguintes termos:

"E assim é que a leitura d'esté livro technico, cheio de úteis e interessantes noções, de elucidativas e curiosas notas, de ensinamento valioso, [ Descrevendo o presente e preparando o futuro, por suas descripções e argumentos esta obra faz mover as três azas do moinho da actividade económica

K ) [sublinhado meu, J.

do paiz - agricultura, industria e commercio G.].

" (pág.

Mais adiante, acrescenta-se ainda:

"E se o livro interessantíssimo e tão proveitoso, que vae ler-se, com maior vantagem do que este prefacio, é sobretudo o que entre nós se chama um "

trabalho pratico

(pág. IX) [sublinhado meu, J. G.].

O preâmbulo, também ele escrito numa linguagem bem trabalhada típica das

pessoas cultas de finais do século XIX e princípio do século XX, caracteriza-se por

um tom histórico-sociológico crítico e amargo relativamente à capacidade de

realização e iniciativa dos portugueses e à "descrença no próprio esforço" (pág.

XV), pontuado por repetidas incursões na economia política, e terminando com

algumas considerações relativas à indústria dos lanifícios. Com um conteúdo geral

93

marcadamente pessimista e incriminador dos poderes públicos (à semelhança do

que se passa no Texto 3), a obra é apresentada ao leitor como se segue:

"Escrever e doutrinar para uma terra assim [isto é, onde prepondera a inveja em relação aos que persistentemente singram na vida, J. G.] é por certo inutil trabalho, produzir livros onde se ensine a technica de fabricas nossas, de industrias que vivem entre nós e entre nós se radicaram é sem duvida baldado esforço. No entanto, também existe neste proceder o exemplo que devêramos seguir, ahi também se acha o ensinamento aos que suppondo que teem a seu cargo a direcção dos destinos do país coarctam mais as iniciativas individuaes e impedem o nosso integral desenvolvimento, do que o orientam em sentido profícuo.

dá-nos mais noções sobre uma

das industrias de maior complicação que se conhece, do que toda uma larga serie de relatórios offíciaes, precedendo decretos de efficacia problemática" (págs. XV e seg.) [sublinhado meu, J. G.].

O livro de caracter essencialmente technico [

]

Por último, as "Ligeiras Considerações" servem ao autor da obra para se

pronunciar de forma crítica sobre a ausência de ensino técnico-profissional em

Portugal e sobre a falta de apoio do governo à indústria nacional. No que diz

respeito ao primeiro aspecto, Campos Mello apresenta uma proposta de curriculum

para um eventual curso técnico a ser ministrado numa escola industrial da Covilhã;

quanto ao segundo, depois de se socorrer de uma citação da Tragicomedia pastoril

da Serra da Estrela de Gil Vicente para justificar a atenção que deve ser dada à

indústria de lanifícios da Covilhã, aponta os exemplos de países estrangeiros e faz

algumas recomendações ao governo português, para que este analise as causas da

crise que atravessam as indústrias têxteis. Por último, expõe os motivos que levaram

à publicação da obra. Esta exposição merece ser transcrita na íntegra, porque