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TEMPO COMUM. TRIGÉSIMA PRIMEIRA SEMANA.

QUARTA-FEIRA

69. OS FRUTOS DA CRUZ


– O sentido da dor.

– Os seus frutos na vida cristã.

– Recorrer a Jesus e a Maria na doença e na contradição.

I. A CRUZ É O SÍMBOLO e o sinal do cristão porque nela se consumou a


Redenção do mundo. O Senhor empregou a expressão tomar a cruz para
indicar qual deveria ser a atitude dos seus discípulos ante a dor e a
contradição. No Evangelho da Missa, Jesus diz-nos: Aquele que não toma a
sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo1. E em outra ocasião,
dirigindo-se a todos os presentes, advertiu-os: Se alguém quer vir após mim,
negue-se a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias e siga-me2.

A dor, nas suas diferentes manifestações, é uma realidade universal. São


Paulo compara o sofrimento às dores da mãe ao dar à luz: Sabemos que todas
as criaturas gemem e estão como que com dores de parto 3, e a experiência
nos ensina que não há ser humano algum que não sofra por um ou outro
motivo. Por isso, São Pedro advertia aos primeiros cristãos na epístola que
lhes dirigiu: Caríssimos, não vos perturbeis com o fogo da tribulação que se
acendeu no meio de vós para vos provar, como se vos acontecesse algo de
extraordinário4.

É como se a dor derivasse da própria natureza humana. No entanto, a fé nos


ensina que o sofrimento penetrou no mundo pelo pecado. Deus tinha
preservado o homem da dor por um ato de bondade infinita. Criado num lugar
de delícias, se tivesse sido fiel a Deus, teria sido levado desse paraíso terreno
para o Céu para gozar eternamente da mais pura felicidade.

O pecado de Adão, transmitido aos seus descendentes, alterou os planos


divinos. Com o pecado, entraram no mundo a dor e a morte. Mas o Senhor
assumiu o sofrimento, não só através das privações normais de qualquer ser
humano (passou fome e sede, cansou-se no trabalho...), como sobretudo da
sua Paixão e Morte na Cruz, e assim converteu as dores e penas desta vida
num bem imenso. Além disso, todos nós fomos chamados – mediante o
sofrimento e o sacrifício voluntário – a completar no nosso corpo a Paixão de
Jesus5.

A fé nesta participação misteriosa da Cruz de Cristo dá-nos “a certeza


interior de que o homem que sofre completa o que falta aos sofrimentos de
Cristo, e de que, na dimensão espiritual da obra da Redenção serve, como
Cristo, para a salvação dos seus irmãos e irmãs. Portanto, não só é útil aos
outros, mas presta-lhes ainda um serviço insubstituível. No Corpo de Cristo [...],
precisamente o sofrimento impregnado do espírito de Cristo é o mediador
insubstituível e autor dos bens indispensáveis à salvação do mundo. Mais do
que qualquer outra coisa, o sofrimento abre caminho à graça que transforma as
almas. Mais do que qualquer outra coisa, o sofrimento torna presentes na
história da humanidade as forças da Redenção”6.

Está nas nossas mãos colaborarmos generosamente com Cristo mediante a


aceitação amorosa de todos os tipos de dor: as contrariedades, as dificuldades
da vida, a doença, os sofrimentos próprios e os dos outros..., que Ele permite
para a nossa santificação pessoal e de toda a Igreja. A dor ganha então todo o
seu sentido e converte-nos em verdadeiros colaboradores do Senhor na obra
da salvação das almas: completa-se a obra da nossa santificação7.

II. A ÁRVORE DA CRUZ está cheia de frutos. Os sofrimentos ajudam-nos a


estar mais desprendidos dos bens da terra, da saúde, da riqueza e das
honras... “Deus meus et omnia!”, meu Deus e meu tudo!8, exclamava São
Francisco de Assis. Se o tivermos a Ele, todo o resto não representará grande
perda. “Feliz quem pode dizer de todo o coração: meu Jesus, Tu me bastas!”9

As tribulações são uma excelente oportunidade para expiarmos melhor as


nossas faltas e pecados da vida passada. Santo Agostinho diz que,
especialmente quando sofremos, o Senhor actua como médico para curar as
chagas que os pecados deixaram em nós, e emprega esses sofrimentos como
remédio10.

As nossas dificuldades e dores fazem-nos recorrer com maior prontidão e


constância à misericórdia divina: Na sua tribulação, hão-de procurar-me pela
manhã cedo11, diz o Senhor pelo profeta Oseias. E Jesus convida-nos a
recorrer a Ele em todas as circunstâncias difíceis: Vinde a mim todos os que
trabalhais e estais sobrecarregados, e eu vos aliviarei12. Quantas vezes
experimentamos este alívio! Verdadeiramente Ele é o nosso refúgio e a nossa
fortaleza13 no meio de todas as tempestades da vida, é o porto a que temos de
dirigir-nos pressurosamente.

As contrariedades, a doença, a dor... permitem-nos praticar muitas virtudes


(a fé, a coragem, a alegria, a humildade, a identificação com a vontade
divina...) e dão-nos a possibilidade de alcançarmos muitos méritos. “Ao
pensares em todas as coisas da tua vida que ficarão sem valor por não as
teres oferecido a Deus, deverias sentir-te avaro: ansioso por apanhar tudo, por
não desaproveitar também nenhuma dor. – Porque, se a dor acompanha a
criatura, o que é senão insensatez desperdiçá-la?”14 E existem épocas na vida
em que ela se apresenta abundantemente... Não deixemos que passe sem
deixar frutos copiosos na alma.

A dor, enfrentada com sentido cristão, é um grande meio de santidade. A


nossa vida interior precisa também das contradições e dos obstáculos para
crescer. Santo Afonso Maria de Ligório afirmava que, assim como a chama se
aviva em contacto com o ar, assim a alma se aperfeiçoa em contacto com as
tribulações15. Até as próprias tentações ajudam a progredir no amor ao Senhor.
Deus é fiel, pois não permitirá que sejais tentados além do que podem as
vossas forças, antes vos dará com a tentação a ajuda necessária para suportá-
la16. E a prova, suportada junto do Senhor, atrai novas graças e bênçãos.

III. SEMPRE QUE NOS VEJAMOS atribulados, procuremos Jesus, em quem


sempre encontraremos consolo e ajuda. Como o Salmista, também nós
poderemos dizer: Na minha tribulação, clamei ao Senhor e ele ouviu-me 17, pois
em nós certamente não há forças suficientes para podermos resistir a essa
multidão que se lança sobre nós. E como não sabemos o que fazer, não temos
outro recurso senão voltar para Ti os nossos olhos18.

No Coração misericordioso de Jesus encontramos sempre a paz e o auxílio.


É a Ele que devemos recorrer em primeiro lugar, com toda a serenidade, para
não termos que ouvir as palavras que um dia dirigiu a Pedro: Homem de pouca
fé, por que duvidaste?19 “Oh! Valha-me Deus! – exclamava Santa Teresa –.
Quando Vós, Senhor, quereis dar ânimo, que pouca impressão causam todas
as contradições”20. Peçamos esse “ânimo” a Jesus quando tivermos de
enfrentar a dor e a tribulação.

Junto do Senhor, poderemos tudo; longe d’Ele, não resistiremos muito: “Com
tão bom amigo presente – Nosso Senhor Jesus Cristo –, com tão esforçado
capitão, que em matéria de padecer foi o primeiro, tudo se pode sofrer. Serve
de ajuda e dá esforço; nunca falta; é amigo verdadeiro”21. Com Ele, saberemos
comportar-nos com alegria, e mesmo com bom humor, no meio das
dificuldades, como fizeram os santos. Deixaram-nos abundantes exemplos
disso.

O Senhor ensinar-nos-á também a ver as provas e penas com mais


objectividade, para não darmos importância ao que realmente não a tem e para
não inventarmos penas que, por falta de humildade, são mero produto da
imaginação, “a louca da casa”, como a chamava Santa Teresa; ou ainda para
não aumentarmos o seu volume quando, com um pouco de boa vontade,
podemos suportá-las sem lhes dar a categoria de drama ou de tragédia.

Ao terminarmos a nossa oração, acudimos a Nossa Senhora para que Ela


nos ensine a tirar fruto de todas as dificuldades que venhamos a padecer ou
pelas quais estejamos passando nestes dias. “«Cor Mariae perdolentis,
miserere nobis!» – invoca o Coração de Santa Maria, com ânimo e decisão de
te unires à sua dor, em reparação pelos teus pecados e pelos de todos os
homens de todos os tempos.

“– E pede-lhe – para cada alma – que essa sua dor aumente em nós a
aversão pelo pecado, e que saibamos amar, como expiação, as contrariedades
físicas ou morais de cada jornada”22.

(1) Lc 14, 27; (2) Lc 9, 23; (3) Rom 8, 22; (4) 1 Pe 4, 12; (5) cfr. Col 1, 24; (6) João Paulo II,
Carta Apostólica Salvifici doloris, 11.02.84, 27; (7) cfr. Adolphe Tanquerey, La divinización del
sufrimiento, págs. 20-21; (8) São Francisco de Assis, Opúsculos, Pedeponti, 1739, vol. I, pág.
20; (9) Santo Afonso Maria de Ligório, Sermões abreviados, 43; (10) cfr. Santo Agostinho,
Comentário aos Salmos, 21, 2, 4; (11) Os 6, 1; (12) Mt 11, 28; (13) Sl 45, 2; (14) S. Josemaría
Escrivá, Sulco, n. 997; (15) Santo Afonso Maria de Ligório, Sermões abreviados, pág. 823; (16)
1 Cor 10, 13; (17) Sl 119, 1; (18) 2 Par 20, 12; (19) Mt 14, 31; (20) Santa Teresa, Fundações, 3,
4; (21) Santa Teresa, Vida, 22; (22) S. Josemaría Escrivá, Sulco, n. 258.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)

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