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ABRASIL ADE
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ABRASIL ADE VE E-AMARELA: nacionalismo e regionalismo paulista Mônica Pimenta Velloso A construção da nação: arte

E-AMARELA:

nacionalismo e regionalismo paulista

Mônica Pimenta Velloso

A construção da nação: arte e política
A construção da nação:
arte e política

clima do primeiro pós-guerra de­ termina alterações fundamen­ tais na forma de se pensar o Brasil. Modificado o quadro internacional, alta­ ra-se conseqüentemente a oonfiguração

da parte Brasil. A crise de valores que sacode o cenário europeu tem seus refle­ xos imediatos aqui. Recorrendo às me­ táforas organicistas, nossos intelectuais exprimem a idéia da velha e da nova

civilização: o Brasil é o organismo sadio e jovem, enquanto a Europa é a nação decadente que deve fatalmente ceder lugar à América triunfante. Alguns in­ telectuais interpretam o contexto como uma confirmação da análise de Spen-

gler que previa o fim da cultura euro­ péia e a aurora do novo mundo. Cai por terra, portanto, o mito libe­

ral da 'era internacional que tornava

obsoletos os nacionalismos. A idéia da

grande comunidade que se auto-regu­

lava com perfeição, distribuindo eqüi­

tativanlente a ordem e o progresso, é

desmascarada. O Brasil vê-se, então,

frente a frente com os seus problemas. E eles são graves: quistos de imigran­

tes, vazios demográficos, amplidão de

território

I Este quadro denota clara­

mente a fragilidade da nossa situação

no panorama internacional, amplian­

do o fantasma da cobiça externa.

Em 1915, na conferencia "A unidade

da pátria",MonsoArinos prega a neces­ sidade de uma campanha cívica desti­

nada a criar a nação. Se o Brasil tem

cívica desti­ nada a criar a nação. Se o Brasil tem Nota: Este texto roi C$Crilo

Nota: Este texto roi C$Crilo em 1084 c pubJicodo pela primeiro vez em 1987 no série "Textos CPOOC". A versão originnl sorreu flq ui (l1�UllS cortes c leve pn8J�ngen8 sintelizndas.

ElJtlldo.llistór;cos, Rio de JOllCiro. vaI. 6, n. 11, 1903, P. 89-1 t2.

90

ESTUDOS HISTÓRICOS - 1093/11

território, não tem ainda o que se pode chamar de nação. 2

Esta é a palavra de ordem da época:

criar a nação. Daí o tom de urgência assumido pelo debate intelectual então

instaurado com vistas à descoberta de um veredito seguro, capaz de encami­ nhar o processo da organização nacio­ nal. O problema da identidade nacio­

nal assume lugar de relevo. Encontrar um tipo étnico específico capaz de re­ presentar a nacionalidade torna-se o

grande desafio enfrentado pela elite

intelectual.

A Revista

do Brasil, lançada em

1916, reflete esse debate, propondo-se efetuar um reexame da identidade na­

cional. Seu editorial de lançamento es­ clarece que o objetivo da publicação é criar um núcleo de propaganda nacio­ nalista. Gilberto Amado, em discurso parlamentar pronunciado no mesmo ano, conclama o brasileiro a assumir a sua verdadeira identidade: "Sejamos

cafuzos ou curibocas resignados.frocu­

"Sejamos cafuzos ou curibocas resignados .f rocu­ rando honrar o nosso sangue ' 1bmados deste sentimento

rando honrar o nosso sangue

'

1bmados deste sentimento de orgu­ lho e resignação, os intelectuais brasi­

leiros se auto--elegem executOle5 de urna

missão: encontrar a identidade nacio­

nal, rompendo com um passado de de­ pendência cultural. Verifica-se, portan­

to, uma mudança radical na forma de

conceber o papel do intelectual e da

literatura. A idéia corrente é a de que o intelectual deve forçosamente direcio­ nar 6118S reflexões para os destinos do país, pois o momento é de luta e de

engajamento, não se admitindo mais o escapismo e o intirnismo. Cabe, então, ao intelectual evitar os temas de cunho pessoal: ele deve deixar de falar de si

mesmo para falar da nação brasileira.

O marco valorativo da obra literária passa a ser o grau maiOr ou menor com

que exp'ressa a terra e a sociedade bra­

•

4

sileira.

Em Olavo Bilac esse naciona­

lismo literário venl associado à questão

da mobilização militar. A defesa da na­

cionalidade brasileira, segundo ele, só pode ser feita através do Exército, úni­

ca instituição capaz de restaurar a or­ dem no país. Seus discursos assinalam a união entre intelectuais de inclina­ ção militarista e oficiais propriamente ditos. O patriotismo é interpretado co­ mo um dever cívico, cabendo aos inte­ lectuais - elementos da vanguarda so­ cial - assumi-lo integralmente.

Ao desembarcar da sua viagem à

Europa,

em 1916, Bilac pronuncia um

discurso 5 alertando para a urgência da

mobilização intelectual em torno do ideal nacionalista. Duas questões ad­

quirem relevo em seu pronunciamento:

de um lado, a necessidade de se refor­ mular a função da literatura na socie­ dade; de outro, o novo papel a ser assu­ mido pelo intelectual. Assim, a literatu­ ra brasileira deve deixar de ser apenas um ''templo da arte" para se transfor­ mar em uescola de civismo". Para levar

a efeito tal princípio, o artista precisa

abandonar sua '�rre de marfinl" e pôr 05 pés na terra, que é onde se decidem

os destinos humanos. Porque dotados

de dons divinatórios, os intelectuais são

eleitos os '1egítimos depositãrios da ci­ vilizaçáo", tornando-se, portanto, os mais indicados paraensinar o amor pela

pátria H Nesta perspectiva, eles devem

se transformar enl educadores, exer­ cendo uma função eminentemente pe­ dagógíca na sociedade.

As idéias de Olavo Bilac encontram

repercussão imediata entre os intelec­

tuais que, mais tarde, comporiam o grupo modernista Verde-Amarelo. Me­

notti Del Picchia defende a idéia de que o intelectual deve se portar como um mestre em relação às multidões, que necessitam ser educadas, assim como as crianças. E é esta relação que vai assegurar o progresso e a cultura.

Além de mestre, o poeta deve assumir O papel de soldado a serviço da pátria,

A ORASIUDADE VERDE·AMARELA

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defendendo-a das invasões alieníge­

nas. O nome de D'Annunzio é constan­

temente mencionado por Menotti como

exemplo do "poeta-soldado" que soube

abdicar de sua individualidade para lutar pelos ideais patriótic06. 7

No período pás-guerra, a questão da organização nacional passa a figurar

como tema obrigatório no debate inte­ lectuaL Verifica-se uma refonnulação total de valores, na qual a política ad­

quire papel fundamental. Alberto 'lbr­

res aparece como um dos principais guias da nova geração, mais pelo tom de urgência de sua obra e pela ênfase

conferida à questão nacional do que

propriamente por suas propostas polí­

H

ticas.

O depoimento de Cândido Motta Fi­

lho registra o estado de espírito que reinava no seio da intelectualidade bra­ sileira sob o impacto da Primeira Guer­

ra Mundial.

geração como sendo essencialmente pc-­ lítica por ter ficado entre duas civiliza­

ções. Esta posição dramática teria leva­

do a que o problema da organização

nacional assumisse primazia absoluta.

A arte deixaria de ser um caprichoso subjetivismo para interferir na própria organização da sociedade. Procurando

desfazer a tradicional idéia da incompa­

tibilidade entre a arte e a política, Cân­ dido Motta Filho observa que ambas se

voltam para o ser humano. Enquanto a arte se dirige para a expressão, a políti­ ca se volta para o exercício da conduta.

Além do mais, argumenta ele, a política

não é destituída de raízes metallSicas conforme a concebiam os positivistas,

na medida em que trata da questão do destino. lO A arte, por sua vez, também

tem o seu lado pragmático, pois é atra­ vés do sonho que é possível projetar e dar margem à realização. Neste senti­ do, é nos "povos poéticos", como o brasi�

leiro, que encontramos as grandes reali-

9

O autor caracteriza sua

11

-

zaçoes.

Na constituição do projeto do Estado nacional, literatura e política cami­

nham juntas como il'liIÃs siamesas. A

arte é definida como o saber mais capaz

de apreender o nacional e, portanto, o mais apto para conduzir a organização do país. O mito cientificista do progles­ sa indefmido e todo o seu corolário de valores já haviam sido desmascarados nos estertores da guerra. Razão, leis, desenvolvimento linear, padrões civili·

zatórios etc. passam a ser vistos como representações ultrapassadas de uma época dada como encenada. Neste con· texto, as teorias de Bergson, a valora­

ção da intuição e da emoção mostram­ se mais atraentes, por oferecerem um novo lugar à arte no campo do conhe­ cimento. Lidando com a emoção e a

intuição, a arte passa a ser consagrada como depositãria de valores supe­

riores, devendo sair da esfera do puro intimismo para exercer uma ação mais

dinãmica no seio da sociedade.

Tais idéias tendem a adquirir força

crescente entre 08 intelectuais brasi­ leiros por tornarem patente a decadên­ cia dos valores civilizatórios europeus. A visão pessimista do ser nacional, o

atraso econômico do Brasil e os proble­ mas racial e climático são repensados em função das modificações determi­

nadas pelo panorama internacional.

Verifica-se, então, uma tentativa de reverter a situação. Os fatores negati­

vos atribuídos à nossa civilização não o são, na realidade. Se aparecem assim

é porque as elites brasileiras se pensa­ ram e pensaram o seu país de acordo com a mentalidade européia. E se esta

demonstra sua falência, sua inaptidão

para gerir a comunidade internacio­ nal, não mais sentido em continuar tomando-a como modelo.

Nesse ambiente de reclJsa ao aliení­ gena, considerado como responsável pe­

abatera sobre as

elites brasileiras, cresce a onda naciona-

gena, considerado como responsável pe­ abatera sobre as elites brasileiras, cresce a onda naciona- l o

lo

ceticismo

que se

13

.

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ESTUDOS HISTÓRICOS - 1993111

lista. Alceu Amoroso Lima observa que o impacro do pc5s-guena no nosso meio intelectual teria incentivado a "volta às nossas raízes, que mais tarde n06 iriam levar à reação mode rnis ta " . 12

l e v a r à reação mode rnis ta " . 1 2 São Paulo:
l e v a r à reação mode rnis ta " . 1 2 São Paulo:

São Paulo: símbolo da modernidade e brasilidade

Em nenhum ponro da nossa pátria ainda encontramos reunidas tantas

possibilidades,tantos farores para a elabo,,!ção de uma grande nacionalidade. E em São Paulo que está se formando a grande intuição,o

gran.<Ú! corweito de pátria.

A Carneiro Leão -10.03.1920

No início da década de 1920, o Brasil vive uma situação de otimismo. A de­ cadência da civilização européia é in­ terpretada como o advenro promissor de uma nova era, na qual a América deveria exercer o papel de líder mun­ dial. São Paulo vivencia mais intensa­ mente este clima. Argumenta-ee que o desenvolvimenro do estado o coloca em luga,: de vanguarda no conjunro nacio­ nal. E lá, portanto, que se experimen­ tam agudamente as maravilhas e 85 crises da modernidade. A revista Papel

e Tinta, dirigida por Menotti dei Pic­ chia e Oswald de Andrade, apresenta este registro otimista do Brasil:

uma rajada de energia conduziu o braço rural às zonas fecundas do ser­

tão,já axadrezadas pelos trilhos das estradas de fello e de rodagem; as cidades densas de uma população ávida de trabalho rornaram-se cen­

tros febricitantee de progresso e de

rIqueza.

cen­ tros febricitantee de pro gresso e de rIqueza. Este centro febricitante é São Paulo, núcleo

Este centro febricitante é São Paulo, núcleo do progI'esso econômico e social,

capaz, portanro,de difundir o moderno pensamenro brasileiro. Mais do que qualquer outra região,o estado paulista vive diretamente os impactos da imi gração européia,com a expansão do café dando surgimenro ao proletariado e subproletariado urbano. Em meio a este clima de intensa agitação social, política e intelectual nasce o movimenro moder­ nista, procurando expressar,simbolica­ mente,o fluxo da vida moderna.14 Para os intelectuais que dele participam tra­ ta-se naquele momenro de fazer a "aprendizagem da moderrudade" nos cenlIm civilizatórios,que é onde ela se manifesta. A revista Klaxon, considera­ da porta-voz da geração de 22, elege a arte de Pérola White como o paradigma da modernidade, por traduzir os valores do século XX que o Brasil precisa absor­ ver, com vistas à atualização de sua produção cultural. Se a figura de Pérola White é """"lhida como símbolo do mundo moderno,a de Sarah Bemhardt, em contraposição, incorpora 05 valores do passado. Vejamos os dois perfis:

Pérola White é preferível a Sarah Bernhardt. Sarah é tragédia, roman­

tismo sentimental e técnico. Pérola é

.

"

t i s m o sentimental e técnico. Pérola é . " rac IOCLTUO , z.nstruçao,

racIOCLTUO, z.nstruçao, esporte, rapL-

-

.

.

dez, alegria, vida. Sarah Bernhardt

= século XIX. Pérola White = século

XX.

.15

Cabe,portanro, à arte brasileira cap­ tar estes valores,registrando o dinarnis­ mo do momento. Porém, o processo de atualização nem sempre se de forma pacífica. Ele é conflituoso e às vezes chega a ser trágico,na medida em que implica a ruptura com 06 nossos valores tradicionais. Em "Novas correntes esté­ ticas " , Menotti dei Picchia exprime tal idéia argumentando que a arte deve

refletir o "espíriro de

a rgum entando que a arte deve refletir o "espíriro de tra�" que se debate na

tra�" que se

debate na cidade tentacular.16 O proces­ so de urbanização constitui a tônica e o

a.

A BRASIUDADE VERDE·AMARELA

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motivo de inspiração dessa fase do mc>­ vimento modernista, na qual São Paulo se confunde com o próprio Brasil. De

tão os livros

acordo com esse espírito

de Mário de Andrade Paulicéia desvai­ rada (1922) e de Oswald de Andrade Os condenados, obras que traduzem a per­ plexidade, a velocidade, o desvario, en­ fim, a própria tragédia existencial e sc>­ eial acanetada pelo processo de indus­ trialização-urbanização da grande cida­

de.

Concomitante ao clima de tensão,

instala-se também o de euforia. Os jor­ nais da época enaltecem o proglessO da cidade de São Paulo, comparando-a com as grandes capitais européias. Seus jardins públicos, avenidas, tea­ tros e cinemas nada ficam a dever a05 de Paris; a construção da catedral no largo da obedece ao modelo da cate­ dral de Viena; o seu povo é exem· plar.Enfun, a idéia é recorrente: São Paulo representa o exemplo da moder­ nidade e a imagem do país futuro.17

Alcântara Machado, tido como um dos cronistas mais perspicazes da vida paulista, não esconde o seu encanto

pela urbanização.

) em Santa Cecília as caSQS se aras­ tam respeitosamente para as rUAS

passarem à vontade. Higienópolis se enche de sombras. Do Piques atã a avenida é um despropósito de prédios se acotovelando. No Piques são pré­ dios mesmo. Na avenida são palace­ tes. E aí estão os anúncios de novo:

Cheurolet, Lança,.Perfume Pienvt, Cruzwaldina, Sabonete Gessy. Es­

verdeando, azulando e aVel'lIlelhan­ do, sobretudo avermelhando de alto a baixo a arquitetura embaralha-

(

18

d

A linguagem cinematográfica regis­ tra o dinaolismo das transforll18ções que fazem da província uma metrópo-

le. No cosmopoHtismo da cidade os in­ telectuais paulistas entrevêem o novo Brasil que se anuncia. Centro indus­ trial, berço do movimento modernista, São Paulo corporifica o espírito do pro­ gresso e da modernidade.

Menotti dei Picchia, nome já conhe­ cido nacionalmente através de 6Uas crónicas no Correio Paulist=, histo­ ria com entusiAsmo as inovações esté­ ticas introduzidas pelo movimento, apontando as obras de Mário e de Os­ wald de Andrade como símbolo da nova geração paulista. Oswald discursa na cerimônia de homenagem prestada a Menotti por ocasião do lançamento de

Nessa etapa

sua obra As máscaras. 19

inicial do movimento modernista os paulistas estão unidos em torno de uma questão: combater seus adversá­ rios passadistas para realizar a revo­ lução literária. São Paulo, segundo pa­ lavras de Oswald, surge como símbolo da prometida Canaã que irá acolher as futuras geraçôes. De lá, portanto, irra­

dia o espírito moderno destinado a to­ mar conta de todo o país.

A visão ufanista de São Paulo traz um aspecto interessante: a desqualifi­ cação empreendida em relação ao Rio

de Janeiro. A promiscuidade de suas praias, o aspecto anárquico de sua eco­

nomia, a futilidade dos hábitos cario­

cas e a violência e amoralidade do car­ naval são objeto de inúmeras crônicas e char� publicadas no Correio Pau­

Até a questão da diferença

climática entre os dois estados aparece

20

list=.

como fator favorável ao progresso pau­ lista. O clima frio propiciaria o confor­ to, a intimidade e a concentração de energias no trabalho, enquanto o calor

favoreceria a displicência e a promis­ cuidade das ruas e praças.21

O nome do estado paulista adquire significado simbólico: como o santo bí­ blico que se vê investido de uma missão sagrada, cabe a São Paulo levar sua

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ESTUDOS HISTÓRICOS -1093/1 1

mensagem ao Brasil, notadamente ao

Rio de Janeiro, vítima do ceticismo.22

São Paulo aparece sempre como a terra

do trabalho, do espírito pragmático, da responsabilidade e da seriedade. Mais

ainda. 'Iem o poder da síntese por ser

capaz de unir energias aparentemente

contradit6rias: a da ação e a da criação.

Por isso São Paulo é simultaneamente

Hércules eAp,<?lo, é um ''titã com miolos

de Minerva".Z� Como se vê, o manejo de

recursos simbólicos destinados a 'ideo­

logizar' a superioridade paulista atinge

dimensões surpreendentes A disputa estabelecida entre São

Paulo e Rio de Janeiro não se restringe

apenas ao período mencionado, mas apresenta linhas de continuidade no

corpo do nosso pensamento político.

Exemplos: as obras de Euclides da Cu·

nha e de Lima Barreto, autores mobili­

zados pela questão racial que tém a

preocupação de eleger um tipo étnico representantivo da nacionalidade. Eu­

clides aponta São Paulo como o foco da

hist6ria do Brasil, pois se encontraria

a Usede da civilização mameluca dos

bandeirantes". Já Lima Ban-eto elege o

Rio de Janeiro como modelo da socieda­

de mestiça, capaz de garantir o padrão

de homogeneidade étnica do país. Para

Lima, São Paulo é a imagem da opres­

são do Brasil, g' r ser a "capital do espí·

rito burguês".

Desde há muito, os intelectuais pau­

listas vinham insistindo na questão da

hegemonia do seu estado, destacando­

o como o centro dinâmico da nação. Tal

espírito presidira a criaçáo do Centro

Paulista, em 1907, no Rio de Janeiro.

Contando com o respaldo do governo

estadual, o centro promove uma série

de eventos, como conferências, soleni·

dades cívicas, reuniões, exposições so­

bre a indústria paulista etc., com o

objetivo

"centro de convergência paulista".25

de instituir na capital um

A revista Brasilea, fundada em 1917, pertencente ao grupo nacionalista cató­ lico, também reforça a oposição São

Paulo-Rio de Janeiro. Defendendo o '1>rasileirismo puro e integral", esta pu­ blicação desqualifica o Rio de Janeiro, identificando." como centro essencial­

mente

cosmopolita e corrupto, voltado

para fms puramente materiais.2G

Através da Revista cio Brasil os inte­ lectuais paulistas continuam defenden­ do o mesmo ponto de vista, que vem a

constituir a t6nica do artigo de Rubens do Amaral ''Manifestações do naciona­ lismo". Nele, o autor apresenta São Pau­ lo como o '}lai rico do Brasil vadio",

observando que o grande maI do país é a falta de integração. Cabe ao estado paulista, na qualidade de pai, promover a unificação nacional através da valori­ zação das tradições culturais brasilei­ ras. De acordo com esse espirito, a revis­ ta anuncia a promoção de um concurso literário, voltado para a pesquisa do folclore regional, sugerindo como temas

quadrinhas populares e as lendas

as

sobre o Saci-Pererê e o Caipora.27

A preocupação com a valorização das nossas tradições culturais e folclóricas é

plenamente encampada pelos moder­ nistas. Recuperá-las significa construir

a identidade brasileira, sem a qual seria

impossível ao país afirmar sua autono­

mia no panorama internacional.

Através da crítica aos gêneros literá­ rios herdados do século anterior esboça­ se um quadro do ideário modernista. Se nele predomina o acordo em discutir

certas questões- como a da atualização cultural- já se delineiam o que seriam mais tarde as diferenças entre os diver­ sos grupoe. Daí a importância de recons­

truir as linhas meshas do debate ocor­ rido entre 1920 e 1924, no qual se ma­ nifestam as oontrovérsias relativas ao regionalismo que mais tarde iriam se­ parar o grupo Verde-Amarelo das de­ mais cotlentes.

A BRASILlDADE VERDE·AMARELA

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Os modernistas são unânimes no combate às estéticas parnasiana, realis­ ta e romântica. O parnasianismo é des­ cartado enquanto gênero literário ultra­ passado por aprisionar a linguagem n08

cânones rigid08 da métrica

liberdade de expreesão é a bandeira de

luta do movimento, que reivindica a criação de uma nova linguagem, capaz de exprimir a modernidade.

Thmbém o realismo é criticado, na medida em que incidiria sobre valOles

tid08 como retrógrados, tais como o cien­ tificismo. OswalddeAndradese insurge contra a pintura figurativa do quadro de carneiros que se "não tivesse lãzinha mesmo não prestava". Para o autor, a utopia é uma dimensão do real, porque

8Pf!:Das sonho, mas também um

pro teeto. 28 Assim, o ideal figurativo, a

e da rima. A

não é

2 8 Assim, o ideal figurativo, a e da rima. A não é extre mada ê

extremada ê nfase no realismo são con­ siderados barreiras à criação artística.

Para Menotti, a crítica ao realismo adquire uma outra conotação. Ele as­ socia realismo a pessimismo, obser­ vando que 05 autores realistas dão sem pre uma visão distorcida do nacio­ naL Distorcida por sobrecarregar seus aspectos negativos, gerando sentimen­ tos de derrota e incapacidade. Em Juca Mulato (1917), o autor procura criar umA nova versão do "Jeca-Tatu", fugin­ do ao estilo realista de Monteiro Loba­ to, que retrata o atraso e a miséria do caboclo, em oposição frontal à ideologia da grandiosidade e da operosidade paulista, tão veementemente defendi­ da pelos verde-amarelos. Aobra de Me­ notti acaba derivando, todavia, para uma "idealização de base sentimen­ tal", sendo a vida do caboclo descrita de modo lírico e sonhador. 29

A objeção ao romantismo incide na ênfase que este ao sentimento, na sua tendência à tragédia e à morbidez. Agora, a "alegria é a prova dos nove". Oswald é categórico: "E preciso extírpar as glândulas lacrimais". Na literatura

modernista, o riso deeempenha uma função catãrtica, voltada pira a libera­ ção de falsos conceitos eetéticos, étiOO8 e sociais. Exige-se uma nova consciência social capaz de refletir a complexidade do mundo moderno. Menotti tamm combate o romantismo argüindo a nee cessidade de atualiwçãD do ser nacio­ nal. No entanto, eeta atualização assu­ me um tom às vezes dramático e dilacee rante quando o autor sente

(ou) uma necessidade instintiva de apunhalar (u.) esse q"aM duende (.u) que, de quando em quando, surge à tona do (seu) ser atualizado para relembrar o país sempre intimamen­ te sonhado da cisma e da sentimen­ talidade. 3O

A incorporação à ordem moderna é

compreendida como urbana e induse trial. Por isso torna-se dramático ter uma Ualma de caboclo'" aprisionada na

ter uma Ualma de caboclo'" aprisionada na "gaiola anti-higiênica da cidade". 31 O a ce s

"gaiola anti-higiênica da cidade".

31 O

acesso à modernidade significa então o acesso à racionalidade, ao pragillatise mo, enfim, à ética capitalista. Através de sua coluna no Correio Paulistann, Menotti defende esses valores e plei­ teia a morte necessária do romantise mo. Em ''0 último romântico", o autor lamenta o caráter anacrônico de um suicídio amoroso, argumentando que os novoe tempos exigem que o amor passe para o domínio de uma simples operação financeira, devendo essa

mesma dinâmica OCOI'ler no nível da vida pessoal, social e política.

er no nível da vida pesso al, social e política. Menotti propõe, então, o "patriotis­ m

Menotti propõe, então, o "patriotis­ mOeprático" baseado no lema "Amar o Brasil é trabalhar". Na era industrial, é preciso sacrificar o lirismo e o "nirva­ niSIDO contemplativo" e 886umir uma perspectiva eminentemente utilitaris­ ta e pragmática. A natureza deve dei­ xar de ser, confol"me o fora no roman­ tismo, objeto de culto poético para se

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ESTUDOS HISTÓRICOS - 1993111

transformar em objeto de lucro e de

investimento. A poesia da nossa rique­

za econômica deve predominar no Bra­

sil novo. Esse Brasil é representado

por São Paulo, considerado como cen­

tro do trabalho, de atividades práticas,

utilitaristas e inteligentes. A velha Fa­

culdade de Direito - antigo núcleo da

boemia - transforula-se numa "fábrica

de bacharéis" que deverão difundir a

32

cultura brasileira.

Na crítica ao romantismo e a todo o

seu corolário de valores (devaneio, esca­

pismo, culto à natureza, boemia) esbo­

ça-6e a ética do homem empreendedor­

ideologia típica dos países europeus no

começo do processo de industrialização. Nela encontram-se os fundamentos

ideológicos da doutrina dos verde-ama­

relos. AD defender o espírito pragmático,

o poeta-educador e o soldado, o culto da

operosidade e do progresso, o grupo, na

realidade, estã apontando São Paulo

como o modelo da nação. Pelo alto grau

de desenvolvimento industrial e pela

vanguarda de intelectuais que produ­

ziu, o estado deve necessarialnente

exercer o papel de líder.

A partir do denominado segundo

tempo modernista (1924 em diante)

consolidam-se as diferenças entre as

várias correntes do movimento. Se,

num primeiro momento, a questão da

atualização da nossa cultura uniu in­

distintamente os modernistas na luta

contra os gêneros literários tidos como

ultrapassados, agora o problema muda

de configuração. Para modernizar o

Brasil urge conhecê-lo, considerar as

-

suas peculiaridades e propriedades. E

neste momento, p:>rtanto, que se arti­

cula a proposta modernizadora - vol­

tada para a atualização - com a ques­

O ingresso na mo­

dernidade deve ser mediado pelo na­

cional. A grande questão que se coloca

é dar conta do nacional. E nesse ponto

33

tão da brasilidade.

vão se situar as divergências quanto à

forma mais adequada de apreendê-lo.

quanto à f o r m a mais adequada de apreendê-lo. A geografização d o B

A geografização do Brasil

Cada um de nós tem um ltecho de paisagem dentro de si. Temos que flXá-lo em tudo quanto escrevemos.

Cassiano Ricardo

O que é o Brasil? Um país fragmen­ tado pelas diferenças ou um conjunto homogêneo? E o regionalismo? Seria

um sinal do n0550 atraso, um obstáculo

à atualização da cultura brasileira ou, pelo contrário, o deJXlsitário da nossa verdadeira identidade?

São essas as questões que aquecem o debate intelectual modernista, crian­

do cisões, cOIÚusóes e alianças. Se, de certa fotmA, a idéia do Brasil como conjunto cultural que se impõe pela

sua originalidade é unânime, a consta­

tação do fato não dilui as divergências. Lançado em 1926, oManifesto regiona,. listadoNorckste registra o seu protes­ to contra a homogeneização, criticando

o estilo citadino de vida, a cultura ur­ bana ocidentalizada, enfim, a nova re�

alidade do pós-guerra. O grupo Verde­

Amarelo encampa em parte esta críti­

ca, notadamente a reação ao cosmoJXl� litismo. Acusados de fazerem uma

literatura regionalista, os verde-ama­ relos respondem dizendo que os acusa­

dores é que perderam a dimensão do

nacional por estarem comprometidos

com os modismos estrangeiros.

Entre 1925 e 1926, os verde-amare­ los rompem com os grupos Terra Roxa e

Pau Brasil. Desencadeia-se a partir de então uma verdadeira polêmica que

tem como pano de fundo a questão da relação regionalismo-nacionalismo. Pa­

ra os verde-arnarelos, as demais corren� tes modernistas cometem um elIo ruo-

Pa­ ra os verde-arnarelos, as demais corren� tes modernistas cometem u m e l I o

A BRASIUDADE VERDE·AMARELA

97

damental: encaram O regionalismo c0- mo motivo de vergonha e de aliaso. Isto acontece, segundo seu ponto de vista,

porque esses intelectuais teimam em ver o Brasil "com olhos parisienses", o que leva, em decorIência, a que qual­ quer manifestação de brasilidade seja

reduzida a regionaJisDlo. 34

Para o grupo Verde-Amarelo, o que

estâ em primeiro plano é o culto das nossas tradições, ameaçadas pelas in­ fluências alienígenas, tornando-se, JX>r isso, urgente a criação de uma "JlQlítica

de defesa do espírito

sim, a valorização do regionalismo co· loca-se como imprescindível porque poesibilita "delimitar fronteiras, am­

biente e língua local". E mais: só o regionalismo é capaz de dar sentido real no tempo e no espaço, já que o ritmo da terra é local. A1!.sim, o brasi­

leiro não deve acompanhar o ritmo da vida universal, pois este é abstrato, genérico e exterior. A alma nacional

tem um ritmo próprio que deve ser

naciona!". 35 A1!.­
naciona!". 35 A1!.­

36'

respeitado custe o que custar.

senso extremado do localismo que marca a doutrina verde·amarela, diCe· renciando-a do ideário modernista.

Ao aplcscntarem o caipirismo como elemento definidor da brasilidade, os verde-amarelos se indispõem com o gru­

po antropofágico e com a conente lide­ rada por Mário de Andrade. Criticam a

filiação européia do primeiro e o intelec­ tualismo da segunda, posicionando-se contra tudo o que não consideram ser

genuinamente nacional. As idéias do

particular, da fronteira e da guarda do

primitivo passam a constituir 85 bases do seu nacionalismo cultural.

'Ibda a polêmica desencadeada so­

bre o que significa ser brasileiro deixa clara a relevância da questão regiona­ lista no interior do modernismo, mar­ eando bem as resistências à tentativa

de redefini-la de acordo com novos pa­ rámetros. Apesar de o modernismo não

E este

se assumir como anti-regionalista, na medida em que confere notória impor­ tância ao folclore e aos costumes das

diferentes regiões culturais brasilei­ ras, ele introduz uma nova concepção do regional, acrescentando elementos que viriam mediar a relação regiona­

lismo-nacionalismo.

'Ibda a polêmica desencadeada so­

bre o que significa ser brasileiro deixa clara a relevância da questão regiona­ lista no interior do modernismo, mar­ cando bem as resistências à tentativa

de redefmi-la de acordo com novos pa­ râmetros. Apesar de o modernismo não se assumir como anti-regionalista, na

medida em que confere notória impor­

tância ao folclore e aos costumes das diferentes regiões culturais brasilei­ ras, ele introduz uma nova concepção do regional, acrescentando elementos

que viriam mediar a relação regiona­ lismo-nacionalismo.

A1!. diferenças existentes entre as vá­

rias regiiiee brasileiras passam a ser vistas como parta. de uma totalidade

COIporificada pela nação. A perspectiva de anãlise é extrair do singular os ele­ mentos capazes de infonnar o conjunto. Portanto, a visão do conjunto cultural é que deve direcionar a pesquisa do regio­ nal. Mário de Andrade, um doa intelec­

tuais mais representativos do movi­ mento, defende com precisão essa idéia

do movi­ mento, defende com precisão essa i d é i a através da teoria da

através da teoria da "desgeografização"

- prooesso através do qual se descobre, além das diferenças regionais, uma u�

dat:k subjacente relativa à sua identi­

dade. 37

objeto último da pesquisa do regional,

pois nela reside sua inteligibilidade, sua

razão de ser. O regional em si não tem

sentido.

Através da teoria da "desgeografiza­ ção". Mário propõe uma nova maneira de se pensar o Brasil. Até entâo a lite­

ratura regional vinha interpretando a realidade a partir da geografia e do

Tal unidade deve constituir o

98

ESTIJDOS HISTÓRICOS - 191)3111

meio ambiente, priorizando sempre o fator espacial. Agora, entram as ques­ tões temporal e histórica. De acordo

com esse universo conceitual, Mário procura interpretar o Brasil, situando­ o no quadro internacional.

O regionalismo aparece como uma mediação necessária para se atingir a nacionalidade, assegurando O ingl'esso

do país na modernidade. No quadro in­ ternacional, a parte Brasil deve ser

apreendida como uma totalidade indivi­ sa, coesa e unitária. Assim, o folclore e

as tradições populares das várias re gióes brasileiras - do Oiapoque ao Xuí­ devem ser valorizad03 apenas como ele­ mentos constitutivos da própria nacio-

apenas como ele­ mentos constitutivos da própria nacio- n a l i d a d e

nalidade. E portanto a idéia de unidade cultural que interessa resgatar.

Esta percepção do nacional que de­ fende a eliminação das partes em favor do conjunto torna-se uma das idéiss­ guias do modernísmo. No entanto, a própria dinâmica do movimento vai

mostrar que ela não é consensual. O obstáculo à sua aceitação residia na pre­

dominãncia de forte tradição regionalis­ ta de cunho ainda local e geográfico. O comentário que Sérgio Milliet endereça ao livro de Guilherme de Almeida Raça é um exemplo característico dessa visão

ideológica. Elogiando a obra pelo seu

alto sentido nacionalista, Milliet assim se refere ao seu autor: "Guilhelme é

profundamente brasileiro. Digo mais paulista.'.3il Mário de Andrade, em carta dirigida a Sérgio, o advertiria contra o

sentido simbólico, heróico e grandilo­

qüente atribuído à palavra paulista. Ar­ gumenta ser necessário abandonar tal

visão, pois o Brasil tem sido um "vasto

de regionalismo" e

o

hospital

''1>

'

'

amarelão

h

'

IS

'

,,39

81IT15mO

rico .

A polêmica Mário uersus Milliet é significativa por registrar os resquícios

de uma tradição regionalista de fortes

bases locais. Através dela é possível entrever a }X>stura ambígua assumida

por alguns intelectuais frente à ques­ táo do nacionalismo. Presos à tradição localista, eles tendem a identificar a

sua região de origem como núcleo da nacionalidade. E o caso de Milliet: para ser autenticamente brasileiro é preciso ser paulista!

Este tema estará sempre presente nas elaborações de um grupo modernís­

ta: o Verde-Amarelo. Para estes intelec­ tuais, a construção de um projeto de cultura nacional deve comportar um re­

torno idílico às tradições do país. No

manifesto NMngaçu, os verde-amare­ los rememoram o período colonial como o momento áureo de nossa civilização devido à integração pacífica entre o ele­

mento colonizado e o colonizador. A cul­ tum brasileira é sempre percebida como uma esfera isenta de conflitos, onde rei­ na a integIação e a ha.litOnia. O elemen�

to tupi é eleito o cerne da nacionalidade brasileira por simbolizar a passividade, identíficada como o canal perfeito de

absorção étnica e cultural. A chegada

dos portugueses ao Brasil teria inaugu­ rado um tempo que não se esgotou sim­ plesmente no processo de colonização, mas que permanece ao longo de toda a

nossa história devido à plenitude de seus valores.4o

Observa-se nessa perspectiva o pre­

domínio de uma visáo pitoresca e está­

tica da tradição, uma vez que o passado passa a coexistir com o presente. lWm­ pe-se com a concepção linear do tempo:

passado e presente deixam de ser con·

cebidos como etapas sucessivas para

ingressarem numa mesma realidade.

Tal percepção da história que tende a privilegiar o espacial sobre o temporal constitui uma das características cen­

trais do pensamento conservador, de

com o já consagrado estudo de

acordo

Ma nnh·. eln.41

consagrado estudo de acordo M a nnh · . eln. 41 A o adotarem esta concepção

Ao adotarem esta concepção da tra­

dição, 06 verde-amarelos mais uma vez

se distanciam do ideário modernísta.

A BRASIUDADE VERDE·AMARELA

99

Não por defenderem a tradição como requisito para a elaboração de um pro­ jeto de cultura nacional. Nesse aspecto não há discordância; todos 08 modernis· tas estão convencidos de que a partir do conhecimento de noss as tiadições é possível encontrar um caminho próprio,

urna cultura de bases nacionais. BU8� cando os tmços definidores da identida­ de nacional, Mário de Andmde cria o conceito de "tradições móveis". Através

desse instrumental, o autor procura

móveis". Através desse instrumental, o autor procura resgatar a dinâmica das manifestações da cultura popular

resgatar a dinâmica das manifestações da cultura popular e, ao mesmo tempo, garantir a permanência do ser nacional.

Mário chama a atenção para o aspecto positivo das "t.radições móveis" na me­ dida em que, movimeniando-se através dos tempos. elas atualizariam as mam·

festações da cultura popular. A perspec­ tiva do autor é histórica, uma vez que evidencia sua preocupação em encon­

temporalidade

trar para o Brasil uma

própria no quadro internacional. 42

05 verde-amarelos não comparti­ lham desse ponto de vista, pois consi­ deram a tradição um valor que extra­

pola o contexto histórico. Assim, ela

transcende o tempo cronológico para se fixar no espaço, no mito das origens. Este mito cria um tempo ideal que deve ser revivido, retomado, pois nele reside

a brasilidade. A tradição permanece, portanto, aflXBda em um momento e espaço precisos: eles são plenos de sig­ nificados. Não há que atualizá-la, con­ forme o quer Mário de Andrade, já que ela não pertence ao temporal, mas ao espacial (São Paulo).

Este contmponto entre o ideário ver­

de-amarelo e as teorias de Mário de Andmde tem como objetivo mostmr

distãncia que separa o refer

dos ideais modernistas no que se refere à questão do regionalismo. Concebendo

a tradição de forma espacial, o grupo

busca recuperar o tempo mítico, locali­ zando� na região paulista. Se em MOr

grupo

cunaina (1928) é visível o esforço de Mário para superar a concepção geográ­ fica do espaço, em Martim Cererê

(1926), de Cassiano Ricardo, encontm­ se mais do que nunca pJ'esente a geogra­ fização da realidade. Mas vamos por partes.

Para Mário, o Brasil é uma entidade homonea na qual as diferenças re­

gionais devem ser abstmídas. Por isso seu personagem Macunaíma movi­

menta-se livremente pelo espaço da

brasilidade. Assim, sua trajetória não

segue a lógica dos roteiros possíveis, mas inventa uma espécie de "utopia geográfica" que vem corrigir o grande isolamento em que vivem 08 brasilei­ ro5.43 Sobrevoando o Brasil no "tuiuiú aeroplano", o herói COllBegue descorti­ nar o mapa da sua terra. Este episódio rico de significados. Encontrar a

identidade nacional significa não per­ der de vista a visão do conjunto. Para levar a efeito tal projeto, é preciso,

então, se deslocar dos estreitos limites

geográficos. Sobrevoar o Brasil para vê-lo na sua inteireza e complexidade. Assim, a perspectiva geográfica é abandonada, por impedir que se atiIüa uma visão do conjunto. E este o aspecto para o qual Mário de Andrade quer chamar a atenção na elaboração de um

,

projeto de cultura nacional.

Já no Martim Cererê verifica-se o

inverso: Cassiano Ricardo cria 08 "he_

róis geográficos" que irão realizar a epopéia bandeirante. O ponto de parti­ da das incursões tem um retorno pre­

determinado: São Paulo. O percurso é

circular, cabendo aos heróis realizar a

''psulistanização'' do Brasil. Isto por­ , que os valores desta civilização sinteti-

zam a própria brasilidade.

O contraste entre as duas obras é flagrante: a primeira constrói a figura

do "herói sem nenhum caráter", e a

segunda, a do '�rasil dos meninos, poe­

tas e heróis".

sugere

Koethé4

Flávio

100

ESTUDOS HlSTÓIUCOS - IO!l3i1 1

que a figura do herói, presente em qlJDse toda narrativa Hterária, se configura como elemento estratégico para decifrar

um texto. Rastrear o percurso e a tipo-­ logia do herói corresp:mderia a uma fo rma de captar as "pegadas do sistema social nosistema das obras", No caso dos

dois autores, a figura do herói - seja ele inspirado no épico (Cass iano J.'ticardo) ou no pícaro (Mário de Andrade) - tra­ duz a própria imagenl do Bras il. 'fumos,

então, o confronto de duas visões sobre

a nacionalidade: a de Mário, que é em aberto, irônica e inten'Ogativa porque voltada para a dificil busca da identida­

de naciona l. Busca esta que pode acabar em um logio, em um verdadeiro beco sem saída. O personagem Macunaíma náo corporifica apenas qualidades con­ sideradas positivas , mas inclui todas as fraquezas e vacilos do ser nacional que, dilacerado entre duas culturas, busca a sua estratégia de sobrevivência. Este

herói, ou este anti-herói, é o próprio Brasil: ambíguo, conflitante, em cons­ tante procura de identidade. A diversi­ dade de raças, culturas e dominações

tece a "roupa arlequinal" do brasileiro,

na qual se misturam o "tango. a bran-

do brasileiro, na qual se misturam o "tango. a bran- . �,, 45 p h "

. �,, 45 p

h "
h
"

'

01' 1550, o . el'Ol senl ne-

cura e pIa .

nhum caráter, o desenraizado, o descon­

tínuo

Já o herói ricardiano é aquele que realiza a "epopéia dos trópicos", Ele é pleno de atributos por sua capacidade de enfrentar dificuldades, seu espírito aguerrido, seu altruísmo ímpar. O en­ grandecimento e a dignidade desse he­

rói são sem", reforçados pela dimen­

são trágica. G Como decorrência desta

visão, temos um outro retrato do Bra­ sil: acabado (no sentido de não afeito a dúvidas), grandiloqüente e laudatório. Contrapondo-se à "heterogeneidade

Dlacunaínlica do nacional", vemos ins­ talar-se a homogeneidade.

Em resumo: enquanto a obra de Má­ rio aponta para uma perspectiva histó-

rica (mesmo que limitada), crítica e

universal, a de Cassiano Ricardo refor­ ça a visão geográfica de cunho estrita­ mente localista.

Para os verde-amarelos, São Paulo se apresenta como o cerne da nacionalida­ de brasileira, justamente pela sua con­ figuração geográfica. Aoriginalidade da geografia paulista investiu a região de

um destino especial: ser o guia da nacio­ nalidade brasileira. O argumento se de­ senvolve da seguinte forma: diferente­

mente das demais regiões do país, em

São Pa ulo os rios col'tem em direção ao interior. Este fato teria obrigado os pau­ listas a caminharem em direção ao ser­ tão, abandonando o litoral. Por uma

questão de fata lidade do meio ambiente, eles se tornaram, então, bandeirantes e desbravadores. Ao se internarem nos sertões, os bandeirantes teriam abdica­

do dos falsos valores do litoral-alieníge­ na para encontrar os mões do Brasil-au­

téntico, illue é o rural. Em ''Canção geo­

transparece claramente a

oposição litoral-sertão, e a associação

geografÍ<vbra3ilidatk-Sãa Paulo. Diz o

gráfica' ,4

bandeirante:

A estar chorando de saudade

portuguesa

prertrO varar o sertão

que é o meu destino singular

E mais adiante:

minha esposa é terra firme

as sereias estão no mar.

Na formação da cultura brasileira, o

litoral representaria a parte falsa e en­

ganadora do Brasil por reproduzir os valores estrangeiros. Não é à toa que Cassiano Ricardo se refere à saudade como uma herança portuguesa. Sauda­

de esta que se deve ao "instinto de na­ vegação", ao desejo permanente de des-

A BRASII.IDADE VERDE·AMAREt.o\

101

A BRASII.IDADE VERDE· AMAR Et.o\ 1 0 1 cobrir novos horizontes eaven turas . Por isso,

cobrir novos horizontes eaventuras. Por

isso, o habitante do litoral é propenso à

''nostalgia do exotismo", que o leva fre

à ''nostalgia do exotismo", que o leva fre qüentemente a importar idéias e ma. das, g

qüentemente a importar idéias e ma.

das,grando revoluções e desordem Sl>­

cial.

A imagem da sereia simboliza a atra­

çãl>-traição que o litoral exerce sobre os

seus habitantes, enquanto a tetla-es�

sa repIesenta a fidelidade e o porto se­

guro. Tal discurso poético bU8C8 mos­

trar que São Paulo optou pelo caminho

certo, ao contrário, por exemplo, do Rio

de Janeiro, vítima do fascínio europeu. Graças à sua reserva natural, ao seu

espírito conservador, sobriedade e tena­

cidade, o paulista soube se precaver con­

tra os sortilégios estrangeiros. Refu­

giando-se nas fontes nativas, ele se mos­

capaz de encarnar o espírito mais

trou

intenso da brasilidade. 49 É por isso que

cabe a São Paulo exercer o papel de

guardião das verdadeiras tradições bra­

sileiras, Assumindo a va nguarda no

conjunto nacional.

No ideário verde-amarelo, o Bras il sempre é apontado como motivo de

orgulho: de um lado, ele é o gigante, de

outro a criança . Apesar da aparente

disparidade, as metáforas convergem

para urna idéia matriz: a de potencia­

lidade. Quando o gigante acordar,

quando a criança crescer

A história do Bras il é apresentada

como testemunha da nossa gra ndiosi­

dade. E fato curioso: é a geogra{la que

escreve esta história de grandes feitos

Porque no Brasil, diferente­

mente dos países europeus, é a catego­

e heróis

ria espaço que explica a civilização:

A pátria, nos outros países, é uma

coisa feita de tempo; aqui é todaespa.­

ço. Quinhentos anos q'Ia"" não é pas­

ço. Q uinh entos anos q' Ia"" não é pas­ sa d o para uma nação.

sado para uma nação. Por isso, nós a

compreendemos no plesente, na sín-

5 0

pr od"

n d e m o s no plesente, na sín- 5 0 pr od" d ,

d

,

o nosso paIS.

Igl0S8

No seio da tradição filosófica ociden­

tal, desde os fins do século XVII, o fator

tempo já aparece associado à idéia de

acréscimo e aperfeiçoamento, prenun­

ciando 8S noções de evolução, civiliza­

ção e progresso. De acordo com esse

quadro de referencias o Brasil seria

desqualificado, e na qualidade de povo

primitivo representaria a "i nfância do

civilizado".

A idéia do Brasil-criança encontra

certo consenso entre as elites intelec­

tuais brasileiras, vindo a ser constituir

em vertente expressiva da nossa tradi­ ção política. O grupo Verde-Amarelo a

absorve e consagra, buscando, ao mes­

mo tempo, mcxlificar os marcos valora­

tivos que a infoJ'mam. Ou seja: ao invés

de o fator temporal entrar como elemen­

to abalizador da superioridade na histó­

ria das civilizações, agora entra o espa­

cial. O tempo paSSQ a ser associado à

idéia de esgotamento, crise e passado,

enquanto o espaço é identificado à idéia

5

de potencialidade, riqueza e futuro. Se o critério temporal serviu até entãopara

explicar a evolução das velhas civiliza­

ções, o espacial vai definir o Brasil, ga­

rantindo a sua originalidade no quadro

internacional. Chegamos ao ponto ne­

vrálgico da questão: brasilidade = espa­

ço, território, geograf18.

Em pleno modernísmo, os verde­

amarelos atualizam o pensamento de

um autor que fora estiglnatizado pelo

movimento: Afonso Celso. Dele reto­

mam a identificação entre nacionalis­

mo e território. A extensão territorial

do país aparece como fator determi­

nante de sua história, que será sempre gIandiosa porque deve reeditar a epo­

que será sempre gI andiosa porque deve reeditar a epo­ p é i a das Bandeiras.

péia das Bandeiras.

O mapa do Brasil se transforma no

nosso 81ande poema nacional, deelo­

se transforma no nosso 81 ande poema nacional, deelo­ cando-se do domínio puramente geo­ gráfico para

cando-se do domínio puramente geo­

gráfico para o �tico ao tomar a forma

de uma harpa.

62

102

ESTUDOS HISTÓRICOS -1993111

Esta transmutação do objeto impli­ ca a sua imediata sentimentalização:

Ergo-me para olhar o mapa, com amor. O sentÍlnento da pátria é uma eucaristia. Cada ponto da carta

gráfica me evoca uma lembrança.53

São as lembranças que geram o sen­

timento da pátria, o senso profundo de sua unidade, a par das diversidades. A

"totalidade da nação" é um mistério, comunhão profunda que não pode ser

decodificada pelo intelecto. Esse tipo de pensamento que desqualifica o uso do intelecto vendo-<l como prova de pouca brasilidade nos vem desde o romantis­

mo, conforme o mostra Luís Costa Li­ ma. 54 Nos trópicos, é a natureza que se

encarrega de provocar o avanço do pen­ samento nacional. E como isto ocolTe?

Como a natureza dá conta deste papel? Para os verde-amarelos, a questão se resolve na geografIa. Através do conhe­ cimento dos acidentes geográficos de

seu país a criança tem o primeiro in­ sg"ti de brasilidade.

fazendo

rios com tinta azul e mon­

tanhas com lápis maJ'lum, traçando fronteiras com tinta vermelha e pin­

tando coqueiI'05 primitivos. E for­

mando uma idéia gráfICa do pCÚ$ e amando nessa figura aquela coisa

O nosso

grande rma é ainda o mapa do fi

Brasil.

vaga e incompreensível (

)

O mapa do Brasil se transforma em objeto de culto cívico e poético, porque

através dele se consegue criar o senti­

mento nacional. Tal formulação eviden­

cia claramente a associação entre pa­ triotismo e representação gráfIca do país. Este ussber geogláficon que encer­ ra a noção do círculo da fronteira é típico

da escola de Jules Ferry, que confiaria à história-geograím a tarefa de inculcar o

espírito cívioo e patriótico. 56 Daí a ênfa­ se que os verde-amarelos conferem à defesa de nossas fronteiras, cujo concei­

to extrapola uma representação pura­ mente jurídica para exprimir a própria idéia de nação: sua economia, política, cultura e espiritualidade. O intelectual

deve se transfoJ'umr emum cidadão-sol­ dado sempre alerta, guardando as fron­

teiras do país contra as invasões aliení-

genas. 5 7 S ua rn15sao e resga ta r a 11510- '"

nomia interior da pátria, que está na terra, na língua e no Brasil-território. 58

Para expressar esse nacionalismo inerente ao espaço Brasil o grupo reto­ ma o pensamento romântico que identi­

fica brasilidade e natureza, vinculando­ as à questáo da identidade nacional. A uma natureza 8uigeneris deve necessa­ riamente corresponder uma civilização

8ui generis avessa a outros modelos ci­ vilizatórios. A natureza se transforma assim em elemento abaliz.ador e cons­ trutor da nacionalidade. Observá-la pa­

.

-,

.
.
r u t o r da nacionalidade. Observá-la pa­ . -, . ra apreender nossa originalidade

ra apreender nossa originalidade oons­

titui um dos postulados românticos mais absorvidos pelos verde-amarelos. Mas esta observação, segundo Luís Cos­

ta Lima, é pura e tão somente impulsio­ nada pelo sentimento, sendo destituída

de qualquer esforço auto-rel1exivo. 59 No

contato com a

êxtase, dá-se a comunhão total oom as forças cósmicas do meio ambiente. O homem deve, então, fundir-se com a natureza: '\7er-se nela como no espelho dos nossos rios". 60 Plinio Salgado é ain­

natureza vivencia-se o

da mais categórico quando afIrma que ao pintar um coqueiro, o homem deve

transfol'lJlar-se no próprio coqueiro.

Não há dúvidas. A fusão hcmem-natu­

reza.brasilidade deve ser completa.

Coerentes oom tal perspectiva, os verde-amarelos vão criticar as demais visões nacionalistas, notadamente a de Mário de Andrade. O espírito de obser­

vação e a análise são descartados como impróprios porque reCOI'J'em às media-

A BRASIUDADE VERDE·AMARELA

103

ções do intelecto. No conhecimento não deve haver mediação, mas oomunhão: O sentimento da pátria é uma eucaristia

Os verde-amarelos consideram a visão crítica do nacionalismo falsa por se re fugiar no espírito de análise, o que de­ nota incapacidade de criar, de apreen­

der, de intuir. Daí a identificação do nacionalismo com o sentimento: ele de-­ ve ser "coração, sangue e cérebro". 61 Na construção do nacionalismo as catego­ rias do intelecto são sempre as últimas

r i a s do intelecto são sempre as últ imas a atuar. Como na literatura

a

atuar. Como na literatura romântica,

o

impulso à reflexão é confundido com

"deva neio ocioso". Ao invés da pesqujsa

e auto-reflexão, o contato direto com a

mâe e mestra natureza que fala pela voz da geoglafia. E ela que cria a nacionali- dade, fazendo prevalecer o espacial s<>­

bre o temporal. Basta, portanto, render­ mo-nos ao fa scínio do nosso habitat, in­ tegraimo-nos nele, para seI'UIOS nacio­ nalistas autênticos

No debate modernista a controvér­

-

autênticos N o debate modernista a controvér­ - sia do nacionalismo aparece de fO j'llla clara

sia do nacionalismo aparece de fO j'llla clara quando se distingue brasüidade

e brasileirismo. Qual das expressões

seria a Dlais adequada para exprimir o verdadeiro sentido do nacionalismo? A brasilidade, identificada como estado natural de espírito, diz respeito à intui­ ção de um sentimento nacional, visce­

ralmente brasileiro. Já o brasileirismo é associado a sistemas fU08Óficos, esco­ las e partidos. 62

Os verde-amarelos defendem a bra­ silidade, argumentando que esta per­ mite a comunhão natural do homem

com o meio ambiente. Ao intelectual é designada uma missão: a de criar a consciência nacional, removendo os obstáculos que dificultam a comunhão homem-meio. E quais aeriam esses obstáculos? As idéias alienígenas, o mal da inteligência , o mal urbano. O espírito citadino de nossas elites é visto

como uma verdadeira catástrofe, na

medida em que distancia o intelectual

do seu país. Um exemplo de intelectual alienado é Rui Barbosa, criticado pelo seu saber livlesco e inteligência teári·

criticado pelo seu saber livlesco e inteligência teári· ca, fatores que o teriam irremediavel­ mente afastado

ca, fatores que o teriam irremediavel­ mente afastado do Brasil. Já Euclides da Cunha é apontado como modelo do intelectual brasileiro, porque sua obra

fala do país, que é rural.

Na ideologia do grupo a visão anti­ têtica rural-urbano aparece intima­ mente associada à idéia de espaço e tempo. Assim, a cidade encarnaria a noção de tempo, porque sofreria a in­

fluência do século) enquanto o campo significaria o espaço, a influência da terra e da natureza. E estas seriam as verdadeiras forças nacionais

A cidade representa o cosmopolitís­ mo, na medida em que projeta o homem no mercado) dist&nciando-o da nature· za. Este distanciamento gera tipos fal­ sos como o homem de gab inete, da fá bri­ ca e da burocracia. E o brasileiro não é ísto; sua mentalidade é caipira, desur­ ba.nizada e rude. Os verde-smarelos consideram o espírito citadino um dos grandes males do Brasil por trair nossa índole primitiva e nossas mires rurais) gerando problemas e ideologias que náo combinam com a realidade brasileira. O fenômeno comunista é entáo apontado como um exemplo de corpo estranho à

organização do país, pois representaria a "antecipação histórica de um século". Por outro lado, se o espírito citadino antecipa problemas, ele também retar­ da soluções para as verdadeiras ques­

tões nacionais. O cangaço seria um des­

ses problemas não resolvidos.

O prognóstico sombrio sobre a reali­ dade brasileira é endereçado às elites intelectuais. São elas, segundo os ver­ de·amarelos) 8S responsáveis pelo nos· so descompasso traduzido ora na ante­ cipaçãD de problemas ora no atraso em resolvê-los. Exige-se, portanto, uma

nova postura do intelectual: não mais o "saber livresco", mas o saber prático.

104

ESTUDOS HlSTóRICOS - 1993/11

Para conhecer a sua terra, o intelectual deverá aprender geogra(w., único sa­ ber capaz de colocá-lo em contato direto

com a realidade e com os fenômenos naturais. Tal idéia é defendida por Plí­

nio Salgado que, na sua Geografia sen­ timental, narra suas viagens pelo Bra­

sil. Detalhe importante: leva apenas um livro na bagagem: O problema ncv cioruzl., de Alberto 'lbrres. E Plínio vai confirmar a tese do seu mentor: o Bra­

sil verdadeiro é rural

1bda essa retórica converge para um

ponto: a urgência de integração interior· litoral, espaço-tempo, enfim, a busca da homogeneidade. Se o litoral é designado como a parte falsa do Brasil, nem por

isso ele deve ser esquecido. Urge nacio­ nalizá-lo. E o sertão deve comandar esse processo, ou seja. deve dar sua alma à cidade para em seguida receber os be­

neficios oriundos da civilização.G3 E a alma brasileira se exprime através do fo lclore, dos cantos nativos e das lendas,

que são os elelllentos responsáveis pela

integração do rural com o urbano.

Para os verde-amarelos foi São Pau­ lo que deu início ao processo nacionali­

zador. Através da epopéia das Bandei­ ras, em pleno século XVI, o estado par­ tiu para a conquista do território. Cabe a São Paulo, portanto, coordenar todas

as vozes regionais, assegurando a co­

munhão brasileira. Este é o objetivo do

Centro Paulista, sediado no Rio de Ja­

neiro. Em 1926 a entidade promove uma série de conferências sobre o pa­ pel pioneiro de São Paulo na fonnação

do Estado nacional. Os verde-amarelos aplaudem a iniciativa argumentando que a providência histórica havia ou­ torgado ao estado este destino, pois

fora ele que elineara o "nosso giga n� tesco mapa".

A associação nacionalismo-territó� rio�heroísmo constitui Ullla das bases

do ideá rio verde-amarelo. E através

dela que sempre se estabelece a rela-

ção São Paulo-brasilidade, São Paulo­ Estado nacional. Todas as conferências do Centro Paulista vão girar em torno

desse eixo. A história de São Paulo

sintetiza a própria história do Brasil,

E

é a geograflB privilegiada da região que

explica o seu papel de vanguarda Rememorando o que já foi dito: o

grupo Verde-Amarelo atribui à origi­ nalidade da rede hidrográfica paulista o papel-diretor da região no seio da

nacionalidade. Os rios explicam o fenô­ meno bandeirante, que por sua vez propiciou a integração territorial. Da mesma forma, foi o clima que tornou possível a adaptação dos mais diversos

tipos humanos à região. O grupo Verde-Amarelo revive a epopéia das Bandeiras, mostrando que, desde o século XVI, São Paulo já estaria imbuído de uma missão: a da

65

desde a colônia até os dias atuais.

integraçáo territorial e étnica.

até os dias atuais. integraçáo territorial e étnica. o imigrante se incorpora à "alma coletiva" No

o imigrante se incorpora à "alma coletiva"

No interior da ideologia modernista,

o tema da imigração ganha um lugar

especial, marcando sua presença nas

obras mais expressivas do movimento:

basta lembrar a figura do gigante Pie­ tro-Pietra em Macunaima (1928) e a preceptora alemã em Amai; verbo in­

transitivo (1927), além dos vários con­

tos de Alcântara Machado sobre os imi­ grantes italianos em São Paulo.

A queso deve ser necessariamente

enfrentada, pois o que está em pauta é

a constituição de um projeto de cultura

nacional. Qual seria, então, o papel do

imigrante no novo contexto? Constitui­ ria uma ameaça à nacionalidade ou um

elemento passível de ser integrado?

A maioria dos intelectuais paulistas tende a assumir a segunda posição, não

A BRASll.JDADE VERDE-AMARELA

105

deixando, no entanto, de mostrar o cho­

que cultural ocasionado pela imigração.

Mário de Andrade se refere ao fenômeno

da modernidade paulista como a "mis­

tura épica das raças". Já Oswald aponta

São Paulo como o modelo para se repen­

sar a nossa formação étnica:

A questão racial entre nós é uma

questão paulista. O resto do país, se

continuar conosco, mover-se-.á como

o corpo que obedece, empós do nosso

caminho, da nossa ação da nossa von-

GG

tade.

Os modernistas criam uma nova ver­

são sobre a nossa fOImação étnica diver­

sa da clássica teoria da "trindade racial"

composta pelo branco, o neglO e o índio.

Esta teoria, segundo eles, apICsentaria

uma profunda defasagem em relação à

nova realidade brasileira, muito mais

complexa e dinâmica. A associação imir

grcu;ão-nuxJernirúzde desfruta, portanto,

de certo consenso entre 05 intelectuais paulistas.

Para os verde-amarelos o Brasil o

pode ser definido pelo "selvagem anllO­

pofágico", pelos mestiços miseráveis,

"mulatos bonachos" e ''mucamas sape­

C:as". G1 Sua recusa da Utrindade racial"

se alia ao combate a uma imagem pessi­

mista da nacionalidade. Se "o passa do

Não

basta, porém, associar a questão da mo­ dernidade à da imigração: é necesrio

tornâ-Ia compatível com a proposição

que se tornou sua bandeira de luta: São

Paulo como núcleo da brasilidade. Como

estabelecer um nexo entre a idéia de São

Paulo constituir a representação mais

autêntica do nacional e o fato de ser o

maior centro de imiglação? Como defen­

der os beneficios oriundos da imigração

sem entrar em chCXJ.ue com o nacionalis­

mo? Enfun, como os verde-amarelos vão

conciliar seu virulento anticosmopolitis-

nos condena", o futuro é promissor

mo, o seu nacionalismo defensivo, com a

exaltação da flgllrR do imigrante?

A primeira vista tudo pareoe muito

contraditório. Mas O grupo tem uma res­ posta: devido ao seu passado glorioso,

São Paulo corporifica a própria idéia de nação. Logo, a região é imune às desca­ racterizações e ameaças alienígenas. Em outras palavras: em São Paulo, o sentimento de brasilidade é tão forle e está tão profundamente enraizado que se torna mais fácil O imigrante conta­

giar-se por ele do que exel1,er qualquer

ação que lhe seja prejudicial. Assim, a

"alma coleliud' da região é capaz de

homogeneizar todas as diferenças ra­

ciais, englobando-as em um todo orgâni­

co e coeso. A unlloI'luidade de valores - como o senso de realidade, instinto de expansão econômica e gosto pelas cate­ gorias objetivas do trabalho - é imposta

naturalmente.

G8

Com base em teis argumentos, os verde-amarelos alegam ser desproposi­ tada a crílica dirigida a São Paulo en­ quanto terra conquistada pelos estran­

geiros. Revertem a acusação: de antina­

ção, São Paulo passa a ser a nação capaz de abrasileirar todos os imigrantes. Re­ avivando as nossas tradições, reveren­

ciando os nossos cultos cívicos e rituali­ zando a nossa história, o estado paulista

é o exemplo mais vivo da brasilidade

junto aos imigrantes. 69

O grupo posiciona_ contra o "nacio­ nalismojacobino"que tem como lema ''O Brasil é dos brasileiros". Argumentam não ser necessária tal afil'll,sção, já por

demais evidente na nossa Constituo,

história, sangue, liVhó e discursos. O imiglante, segundo os verde-amarel06, se caracteri:za pelo sentimento de inte­

gração na comunidade nacional. Embo­ ra, às vezes, se verifiquem algumas ten� dências no sentido de quebrar esta uni­ dade - como o projeto de ligas de des­

cendentes italianos -, elas não têm con­ tinuidade. São apenas vozes isoladas

de ligas de des­ cendentes italianos -, elas não têm con­ t i n u i

106

ESTUDOS J IISTOruCOS - IDOS/li

que lutam contra os sentimentos patrió­

ticos.

O grupo defende, então, o ''naciona­

lismo integralizador", apontando a in­

fluência estrangeira, se reduzida ao

denominador comum da nacionalida­ de, como benéfica ao país. O imigrante

é sempre visto como elemento integrá­

vel, capaz de contribuir para o enrique-

71

ClIDen td o

No bojo de toda a discussão fica clara

uma idéia: a positividade de nosso meio,

sempre flexível à absorção de novos ele-

.

a naçao. -

mentos étnicos. E o mito da democracia

racial

advindo da miscigenação está fora de

cogitação, pois o que predomina é a

perspectiva de integl'açfro pací{tCa. As­

sim, entre 05 verde-amarelos, a pl'oble­ mática da imigração ganha um trata­

mento que a diferencia do conjunto do

ideário modernista. Explicando melhor:

o imigrante perde sua identidade origi­

nal para se integrar no "organismo et­

nológico nacional". Verifica-se quase

que uma reificação da figura do imi­

grante: ele se transfol'ma em instru­

mental não da modernidade, como

também da própria brasilidade!

Mas vamos por partes. Primeiro a idéia do imigrante enquanto elemento

introdutor da modernidade. Entra aqui

a questão do trabalho. São Paulo apare­

ce como exemplo da modernidade JXlr­

que foi a primeira região a abolir o tra­ balho escravo, favorecendo o afluxo de

correntes imigratórias. Mas, note-se

bem: não foram propriamente os imi­

grantes os responsáveis pela industria­

lização paulista. Para os verde-amare­

los, ela se explica antes pelo ímpeto

empreendedor dos paulistas do que pelo

trabalho do imigrante; o imigrante tor­

nou-se trabalhador porque sofreu as in­

fluências benéficas do meio. Logo, é a

herança bandeirante que explica o pro­

gle5S0 e a modernidade de São Paulo

O problema do choque cultural

O afluxo de imigrantes para a região explica também o fato de o modernismo ter ocorrido em tellas paulistas. Devido

ao contato direto com os centros civili­ zatórios europeus, todas as fOl'mas de pensamento chegam a São Paulo com uma "rapidez telegráfica". Mais uma vez aparece a idéia do imiglante en­ quanto veículo de atualização e de mo­

dernização da sociedade brasileira. Só que agora em termos de cultura. Arevo­

lução estética aó poderia ocon"r, por­

tanto, em São Paulo porque estaria se

formando a nossa verdadeira identida­ de. Identidade esta que se caracteriza

por uma complexidade proveniente da ''rebeldia íncola", da "inquietude ociden­ tal", do ''nirvarusmo do oriente" e da "audácia dos oow-OOys e aventureiros",

Os verde-amarelos atribuem à nova arte brasileira uma função inadiável:

refletir a "trbabélica da diversi­ dade racial". Tal diversidade, apesar de seu aspecto caótico, é sempre valori­

zada pelo grupo por abrigar em seu

interior a idéia de sintese. Se nossa raça

é originalmente heterogênea, ela é ho­

mogênea na sua essência, porque obe­

decemos à "futalidade de um destino"

A argumentação fica mais clara quando

os verde-amarelos anunciam o advento do homem novo. O homem que realiza

a sintese prodigiosa, pois reúne em si a

"soma de virtudes positivas" de todas as raças, constituirá um dos JXlVOS "mais

belos e másculos do mundo",

tamente nesse ponto que se a articu­

lação imigraçáJ:>-brasilidade via raça. O

abrasileiramento do imigrante é uma fatalidade, JXlis os que vêm de fora são absorvidos, pel"mitindo, assim, o enri­

quecimento do espírito nacionaL

Em síntese: a doutrina dos verde­ amarelos confere especial ênfase ao

papel dos imigrantes na construção da nacionalidade, sendo eles 05 responsá­

veis pelo progresso industrial paulista,

o evento modernista e a constituição de

73

E exa-

74

na'