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Carta aberta à Senhora Ministra da Educação

Luís de Miranda Correia| 2007-04-10

Senhora Ministra, este é o estado calamitoso em que se encontra o


atendimento a alunos com NEE. É um facto que só vem uma vez mais
provar
a necessidade de se traçarem objectivos, cuja coerência se baseie
nos
resultados da investigação mais recente acerca do modo como os
alunos
devem adquirir conhecimentos e valores morais.
Hoje em dia, nas nossas escolas, o processo de ensino e
aprendizagem é
deveras complexo. Há imensos factores que podem contribuir para
uma
melhor ou pior aprendizagem por parte dos alunos - o grupo
socioeconómico a que pertencem, os conhecimentos que trazem para
a
escola, a motivação para as aprendizagens, o seu nível de
desenvolvimento e, claro, a preparação dos professores.

No caso dos alunos com necessidades educativas especiais (NEE), e


tendo
em conta o movimento da inclusão, ou seja, a inserção destes alunos
nas
escolas regulares, haverá ainda outros factores a ter em conta se
pretendermos atender com eficácia ao seu desenvolvimento global -
académico, socioemocional e pessoal. De entre estes factores realço
as
prevalências, características e necessidades dos alunos com NEE, a
formação dos professores e a existência de recursos especializados,
comummente designados por serviços de educação especial,
necessária,
tantas vezes, para a elaboração de programas educativos eficazes.

É precisamente sobre estes factores que gostaria de chamar a


atenção,
uma vez que a forma como eles têm vindo a ser encarados pelo
Ministério
que V. Exa. dirige, designadamente pela Secretaria de Estado da
Educação
(SEE) e pela Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento
Curricular
(DGIDC), tem deixado a educação especial à beira de um ataque de
nervos,
com as consequências negativas que daí advêm para os alunos com
NEE,
lesivas dos seus direitos e dos de suas famílias.

Reportando-me, em primeiro lugar, à prevalência de alunos com NEE,


a
percentagem avançada pela DGIDC, sem ter efectuado qualquer
estudo de
prevalência fidedigno, é de 1,8%. Ora, todos os estudos de
prevalência
efectuados noutros países (como, por exemplo, os EUA) apontam
para
prevalências na ordem dos 10% a 12%. Assim sendo, tendo em
conta que a
nossa população estudantil é de cerca de 1 500 000 alunos e
considerando
apenas uma prevalência de 10%, em Portugal temos mais de 100
000 alunos
com NEE entregues à sua sorte.

Quanto às características e necessidades dos alunos com NEE e à


importância de as determinarmos para podermos elaborar
programações
educativas eficazes, a DGIDC comete mais um erro de palmatória ao
pretender identificar e classificar estes alunos usando a Classificação
Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Não é
difícil perceber-se que a CIF emana de uma instituição especializada
das
Nações Unidas, eminentemente clínica, a Organização Mundial de
Saúde
(OMS) que, ao referir-se-lhe, diz que, "Como novo membro da
Família de
Classificações Internacionais da OMS, a CIF descreve a forma como
os
povos vivem com as suas condições de saúde... A CIF é útil para se
compreender e medir os resultados de saúde...". A DGIDC cria,
assim, uma
situação caricata, uma vez que a CIF é uma classificação que diz
respeito à saúde, embora a maioria dos profissionais de saúde nem
sequer
a use, podendo qualquer extrapolação para a educação trazer
consequências desastrosas para os alunos com NEE. Esta minha
afirmação é
corroborada por dois eminentes especialistas americanos de renome
mundial, James Kauffman e Daniel Hallahan, a quem pedi parecer,
afirmando o primeiro que "o uso da CIF para fins educacionais seria
um
erro muito sério, mesmo trágico" e o segundo que "qualquer
classificação
que não reconheça os efeitos das NEE no funcionamento educacional
(como
é o caso da CIF) é irrelevante".

No que respeita à formação de professores, inicial e especializada, e


começando pela inicial, verifica-se que, na maioria dos países que se
preocupam com a educação dos alunos com NEE, é dada uma
atenção muito
especial às necessidades de formação dos professores do ensino
regular
no que concerne à aquisição de experiências que lhes permitam
trabalhar
com estes alunos. São disto exemplo as posições tomadas pelos
departamentos de educação de vários estados dos EUA que exigem
que
"todos os professores sejam versados em todas as facetas da
educação,
incluindo a da educação especial" (Independent, 28 de Junho de
2006) e
pelo Governo britânico que, de acordo com um relatório elaborado
pelo
"Commons Education Skills Select Committee" refere que "A
preparação em
Necessidades Educativas Especiais deve ser parte integrante da
formação
de professores" (The Guardian, 2 de Julho de 2006). Contudo, o
nosso
país parece não subscrever estas posições. Pelo contrário, ao abrigo
do
Processo de Bolonha, tivemos, nesta matéria, uma oportunidade
única de
melhorar significativamente a qualidade dos cursos que dão acesso à
docência. No entanto, o Decreto-Lei que define as condições
necessárias
à obtenção de habilitação profissional para a docência, aprovado
recentemente, não refere nem uma palavra sobre o assunto,
chegando ao
cúmulo de revogar o Artigo 15.º, Ponto 2, do Decreto-Lei n.º 344/89,
de
11 de Outubro, que determinava que "Os cursos regulares de
formação de
educadores de infância e de professores dos ensinos básico e
secundário
devem incluir preparação inicial no campo da educação especial". E,
nessa altura, ainda nem se falava de inclusão. Resultado deste
comportamento desastroso: a maioria das instituições de ensino
superior
não está a considerar unidades curriculares respeitantes a estas
matérias na adequação dos seus planos de estudos.

Quanto à formação especializada, espera-se, pelo menos, que a


legislação
que eventualmente estará para sair não se apoie na CIF, uma vez que
a
preparação cuidada de educadores e professores para o exercício de
novas
funções exige a implementação de um modelo de formação
especializada,
consistente, planificado e seleccionado, de acordo com a filosofia
comum
definida pelas e para as escolas/agrupamentos.

Finalmente, há ainda a considerar o papel dos recursos humanos


especializados que não se devem restringir ao docente de educação
especial, dado que, na maioria dos casos de alunos com NEE, o
recurso a
outros especialistas é uma constante, uma vez que, para além do
apoio
académico, ele poderá necessitar de outros apoios, de cariz
psicológico,
social, terapêutico ou, até, médico. Contudo, nas nossas escolas
assiste-se a uma constante pedinchice que geralmente resulta em
nada ou
em esperas de meses ou até de anos para se ter acesso a alguns
desses
serviços, premiando-se tantas vezes o aluno com NEE com uma
retenção.

Senhora Ministra, este é o estado calamitoso em que se encontra o


atendimento a alunos com NEE. É um facto que só vem uma vez mais
provar
a necessidade de se traçarem objectivos, cuja coerência se baseie
nos
resultados da investigação mais recente acerca do modo como os
alunos
devem adquirir conhecimentos e valores morais. Estes objectivos são
fundamentais quando se pretende articular uma reorganização
educativa,
neste caso, da educação especial, uma vez que, se mal formulados, o
resultado será uma tremenda confusão. Este parece ser o caso, já
que os
objectivos em que se apoia a reorganização da educação especial,
formulados pela Secretaria de Estado da Educação e, por
arrastamento,
pela DGIDC, são da responsabilidade de indivíduos que embora
detenham o
poder de decisão, não parecem ter em conta o conhecimento
científico,
nem possuí-lo, mas tão-somente as suas verdades e prioridades.

Uma última palavra, Senhora Ministra, que peço que tenha em


consideração, é a de promover um diálogo, que se apoie nos saberes
de
investigadores e especialistas e na experiência de docentes e pais,
que
contribua para a defesa intransigente dos interesses dos alunos com
NEE,
pondo assim cobro a situações de negligência e de exclusão funcional
experimentadas por um número considerável desses alunos, cujo
direito a
uma educação igual e de qualidade lhes é garantido nos artigos 71.º
e
74.º da Constituição da República Portuguesa. O nosso país não se
pode
dar ao luxo de menosprezar, diria até, de alienar milhares de crianças
e
adolescentes, mantendo um indiferentismo sociopolítico e educacional
que
em nada favorece os seus direitos e o seu futuro.

* Professor Catedrático
Director da Área de Educação Especial do IEC - Universidade do
Minho