Portugal, Democracia e Europa – E agora?

por Pedro Eduardo Ramos A propósito da celebração do 40º aniversário do 25 de abril de 1974 – e, por conseguinte, do processo que viria a culminar na implementação de um regime democrático –, parece-me fulcral que se reflita um pouco sobre o passado, o presente e, sobretudo, o futuro da Democracia em Portugal e na Europa. O que queremos fazer da nossa liberdade? Em que contexto pode a democracia perpetuar-se, consolidar-se e manter o seu estatuto privilegiado enquanto meio de construção de uma sociedade desenvolvida e igualitária? Quais os riscos que podem pôr em causa o nosso sistema democrático e, desse modo, a vida de todos os cidadãos portugueses e europeus? Comecemos, naturalmente, pelo princípio. Tendo raízes históricas profundas, nas quais estiveram presentes, desde o princípio, e apesar de todas as alterações, os valores de igualdade, liberdade e dignidade, a democracia como hoje a conhecemos teve origem numa época relativamente recente, sobretudo dentro das fronteiras do nosso país. A Revolução dos Cravos – 25 de abril – permitiu-nos a libertação do regime ditatorial do Estado Novo e a imposição (naturalmente conturbada durante o período do PREC) de uma democracia tão ansiada pelo povo. Procedeu-se então à fixação de bases que permitissem um Estado social competente, um regime jurídico de confiança e procurou-se iniciar uma nova era na nossa forma de ver a realidade económica, com apoios às empresas de todas as dimensões e, ainda, com o fomento da Constituição da República, na linha das de outros países desenvolvidos, capaz de proteger os interesses do ser humano e de construir uma “sociedade livre, justa e solidária”. Estão assim lançadas as sementes para uma democracia saudável. É, contudo, necessário ajustar a democracia ao correr dos tempos. Surge-nos então a necessidade de

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pensar um pouco nas raízes do nosso Portugal europeísta, integrado numa comunidade fundada em princípios de cooperação, de respeito pelos Direitos Humanos, tendo em vista o desenvolvimento amplo e sustentável das diversas nações. Poder-se-á afirmar, com relativo consenso, que o lema In varietate concordia tem, em certos sentidos, sido violado, pondo sobre a mesa questões de grande interesse: como podemos garantir um equilíbrio eficaz entre a manutenção da soberania dos Estados-membros em momentos de dependência financeira face à União Europeia (por exemplo, nos conhecidos programas de assistência financeira)? É uma questão delicada. O mais prudente será considerar a hipótese de receber indicações europeias ao nível da gestão nacional, sob a forma de sugestões, deixando ao critério do Governo a sua aplicação. Este diálogo, com um tom amiúde negocial, implica um sentido de responsabilidade aguçado por parte dos dois grandes intervenientes que aqui distingo: o Governo nacional e a Europa (corporizada nos casos concretos por diferentes organismos). Surge-me, neste ponto, a necessidade de identificar alguns comportamentos que podem danificar aquilo a que se poderá chamar o tecido democrático. Do lado europeu, compreende-se uma atitude de vigilância e, em certo sentido, austeridade, face aos países que, maioritariamente por uma gestão incompetente, se inseriram numa situação de bancarrota apenas resgatável com recurso a fundos europeus. Como tal, as medidas apresentadas tendem a caraterizar-se como puramente técnicas. É neste ponto que os diferentes Governos devem agir: retomando a ideia com que iniciei a minha exposição, é missão do governo democraticamente eleito a defesa dos interesses das pessoas e a procura, superior a quaisquer outros interesses, da melhoria das condições de vida da população. Não me parece razoável que um país em crise deva congelar as suas perspetivas de desenvolvimento aos mais diversos níveis. Assim, cabe ao Governo efetuar a filtragem racional e coerente das medidas sugeridas, adaptando-as à situação social particular do

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país. Convirá, acima de tudo, privilegiar os indicadores sociais face aos indicadores económicos, não deixando, naturalmente, de procurar a sua melhoria. Uma gestão nacional competente não passa pela escolha de um caminho que, em seguida, se segue de forma cega; passa, sim, por uma governação sensível aos estímulos do povo e da Europa, balançando as velas desta nau portuguesa em direção a um horizonte comum de prosperidade democrática que se constrói a cada passo, diariamente. Outro aspeto de interesse aquando da reflexão sobre a democracia portuguesa e a projeção de Portugal na Europa é, sem dúvida, a forma como estes elementos são vistos pelas pessoas comuns. Há, no nosso país, um despreendimento significativo e crescente face às entidades europeias. Surgem-nos como corpos estranhos, algo que está "do lado de fora" e com o qual as nossas interações são meramente formais. O barómetro de Outono de 2012 da União Europeia revelou dados importantes sobre esta matéria: 14% dos cidadãos portugueses não veem qualquer benefício na pertença a este organismo. Este desinteresse é ainda bem visível aquando das eleições europeias, onde os níveis de abstenção atingem valores preocupantes. O que podemos então fazer no combate a este fenómeno? Como a grande maioria dos problemas de fundo da sociedade, a educação é a arma primeira para a desconstrução de falsas ideias, a desmistificação e a formação cívica e moral. É desde muito jovens que os futuros cidadãos devem ser levados a refletir sobre o enquadramento deste país à beira mar plantado do qual fazem parte integrante. Um cidadão competente tem de ser, na atualidade, alguém que reconheça a parceria europeia, que a valorize e que, democraticamente, aponte eventuais falhas (porque sempre existem) e sugira alternativas (por via dos mecanismos vigentes). O conhecimento dos Tratados Internacionais, a apreensão dos direitos enquanto cidadãos europeus e a aprendizagem dos mecanismos da União são fulcrais na construção de uma visão crítica face à posição portuguesa.
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Também a nível nacional se fazem sentir os perigos da displicência face à democracia: os níveis de abstenção em eleições legislativas, presidenciais e autárquicas atingem hoje patamares bastante elevados. Estará o funcionamento das instituições democráticas ferido nas suas raízes mais profundas? Estará o povo esquecido do valor inominável da nossa democracia? Não creio. Do ponto de vista histórico, como acima referido, estão, pelas piores razões, bem presentes na memória coletiva dos portugueses as exigências de um regime autoritário. A nossa democracia é, nesse sentido, perfeitamente jovem, apesar de estar já estabelecida com segurança e responsabilidade. Estará o regime tão vincadamente instalado que a população sofre hoje de um entorpecimento que a faz esquecer-se das suas obrigações e direitos democráticos? Não me parece, uma vez mais, ser esse o caso. A relutância generalizada dos cidadãos face ao panorama político da nossa democracia assenta, fundamentalmente, em dois vetores fundamentais: por um lado, a construção de uma conotação negativa e generalizada face aos agentes políticos nacionais; por outro, um sentido de fechamento partidário à sociedade civil, provocando um problema de representação política. Destrincemos, portanto, estes dois pontos essenciais. O sentimento de descrença face ao poder político é hoje profundamente vincado. Não raras vezes se deteta a opinião de que, independentemente do governo eleito, as medidas, as atitudes e a visão da realidade serão as mesmas. Perante este dogma que está instalado confortavelmente na nossa sociedade, é natural que a população baixe os braços, se alheie da questão política e vote de forma bastante desinformada. Há, naturalmente, uma vasta faixa da sociedade civil que não desiste de tentar compreender as questões políticas, optando por uma visão crítica da realidade, mas esse número de indivíduos tende a reduzir-se à medida que o dogma de que falo alastra e consome o nosso sistema democrático. Tendo já reconhecido as responsabilidades da população
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face a esta problemática (sumariamente, a falta de sentido crítico e responsabilidade), cabe-me, por maioria de razão, apontar as falhas que, na minha opinião, marcam de modo decisivo a ação dos partidos políticos. Utilizemos nesta análise a estrutura clássica do sistema partidário, por forma a estabelecer um raciocínio claro e simples: esquerda, centro e direita. Nos extremos encontramos partidos tendencialmente improváveis de atingir uma situação de poder: ou porque os seus ideais estratégicos se encontram descontextualizados face à realidade, ou porque têm uma função fundamentalmente de protesto e parca ou nenhuma ambição de governo, ou porque correspondem a pensamentos ideológicos muito restritos que, naturalmente, atraem uma porção reduzida dos eleitores. Estes partidos têm o mérito de uma visão coerente e o demérito de se demarcarem da possibilidade de serem governo. Parece-me ser um entrave significativo ao funcionamento democrático que existam partidos políticos cuja leitura concreta da realidade se caraterize por uma oposição extremada face às medidas do governo eleito. Na zona central do nosso esquema, encontramos os partidos ditos do arco da governação (conceito esse, aliás, a priori duvidoso). Estas entidades políticas, com uma adesão eleitoral bastante mais proeminente, caraterizam-se por uma ação moderada em termos ideológicos e concretos: são europeístas, preservam a democracia e estão geralmente abertos a um debate relativamente lúcido. Contudo, são as falhas destes partidos que, devido ao seu peso político, se fazem sentir com maior intensidade. Por um lado, verifica-se que, em função das suas aspirações eleitorais, é comum caírem em contradições no que diz respeito às medidas a tomar: se o discurso eleitoral é globalmente atrativo, as medidas concretas que se tomam nos cargos de chefia assumem uma dimensão bastante mais penosa. Quero com isto dizer que a realidade social e económica deve estar presente em todos os momentos da ação destes partidos, impondo-se uma grande responsabilidade e coerência que, sejamos claros, continua em

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défice. Outra questão polémica sobre os referidos partidos do “arco da governabilidade” prende-se com o conceito de consenso. Sendo difundido por todos os meios de comunicação social, o termo perdeu até ao dia de hoje o seu verdadeiro significado, sendo usado mais como bastão de linguagem para construir uma narrativa responsável. Se entendermos o consenso como uma união dos partidos do designado Bloco Central a fim de se perpetuarem no poder, então deverá ser veementemente reprimido. Uma união que bloqueie a democracia e reduza as opções políticas é inviável e pode, como a História nos conta, dar origem a situações de algum perigo (como seja o desvio do eleitorado para posições extremadas). Mas o consenso é, regra geral, positivo. Fundado num espírito democrático de partilha de ideias, de abertura ideológica, de convergência e de elevação de um bem comum e superior a interesses menores, este mecanismo democrático produz consequências muito proveitosas para o país. Exemplo disso são as áreas em que a ação política se tem mantido relativamente constante, interrompendo uma alternância cíclica de medidas concretas que põe em risco o desenvolvimento. Áreas como a educação, a saúde ou a ciência – vetores fundadores de uma sociedade democrática –, dependem em grande medida de consensos alargados que permitam um estabelecimento de metas a longo prazo, caminhando para um objetivo nacional comum. É, portanto, essencial que os partidos políticos sejam capazes de se definir ideologicamente mas, em simultâneo, de se adaptarem à realidade do país, convergindo em matérias essenciais, mas mantendo a sua identidade intacta de modo muito claro: cada um votará no partido com o qual melhor se identifique ideologicamente e que proponha medidas razoáveis que apresente no programa eleitoral e cumpra ao longo do mandato. A existência de coerência providenciaria um sentido de justiça, de segurança e

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de confiança nos representantes políticos que decerto levaria à redução dos níveis de abstenção eleitoral e à participação ativa da população nos mecanismos democráticos. Outra das peças fulcrais no panorama da gestão nacional reside,

indubitavelmente, na sociedade civil, isto é, no conjunto dos cidadãos comuns que manifestam interesse e responsabilidade no acompanhamento da situação do país. Estes indivíduos e instituições, sob as mais diversas formas, interatuam com a população, integram-se nela e cumprem um papel decisivo no funcionamento social. A maneira como estes organismos interagem com o poder político parece-me, também, de grande relevo no fortalecimento da nossa democracia. Verifica-se atualmente um fechamento dos partidos políticos à população: um número relativamente pequeno de militantes nomeia comissões e órgãos de gestão praticamente à margem da vontade popular. Atingir cargos de poder é, de modo muito pragmático, uma quase inviabilidade concreta nos dias que correm. Urge então abrir os partidos à sociedade: permitir a entrada de ideias, pontos de vista e propostas de modo orgânico e natural seria uma necessidade imperial na construção de uma ligação mais intensa entre os cidadãos e o governo. A alteração dos comportamentos das máquinas partidárias poderá, no futuro, conduzir a uma democracia representativa mais coesa, orientada pela vontade social, e resolver, de forma eficiente, os problemas de representatividade política que afetam a população e que a afastam da participação democrática. Alargar o debate público, cívico e político à vida concreta das pessoas, naturalmente de modo controlado e regido por princípios firmes, é um passo natural na elaboração e integração do povo na vida democrática. Num período de celebração dos 40 anos da democracia em Portugal, parece-me também importante tentar perceber a forma como esta influencia a maneira de pensar, agir e debater dos portugueses. Estando naturalmente fundado em liberdades como a de expressão, reunião, manifestação e opinião, o regime democrático português revela-se
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hoje bastante saudável. O debate público é alargado: os meios de comunicação social difundem fóruns e discussões interessantes que pecam, frequentemente, pela falta de profundidade das opiniões e pela leviandade com que se proferem. Num mundo globalizado em que a informação percorre com crescente velocidade os nossos olhos e ouvidos, é importante fazer um esforço de concentração e análise crítica das notícias que nos chegam. Esta reflexão passa também pela criação de um discurso autónomo que tanta falta faz na nossa sociedade. A convicção é um requerimento fulcral para a lucidez. A lucidez é o requisito primeiro para o debate sério de ideias. Infelizmente, com o crescendo positivo de informação, surge inevitavelmente a desinformação sob as mais diversas formas: adulteração do significado real das palavras, criação de um universo de sentidos que segue fins puramente propagandistas, o uso continuado de eufemismos conducentes a mistificações e interpretações duvidosas. Pretendo com isto dizer que, para o bom andamento da nossa democracia, é necessária a moderação e elevação do debate na qual se funda. Todos os intervenientes devem, neste aspeto, ser chamados a intervir: os populares devem procurar informar-se; os governantes devem procurar informar com clareza. É nesta relação informativa que se incorre em riscos malévolos para um regime desenvolvido e aberto: ou porque as questões não são debatidas em toda a sua profundidade e, em consequência disso, a impressão provocada pelo tema em debate se torna enganadora; ou porque discursos presumivelmente isentos carregam consigo uma carga ideológica que lhes retira a necessária isenção; ou, em último lugar, mas não menos importante, porque o discurso de certos intervenientes políticos tende a não concordar com a realidade dos factos e das suas ações. Quanto a este ponto, julgo que a conduta dos políticos cumpre um papel essencial na perceção que temos do sistema democrático. A partir do momento em que se tornam figuras do Estado, falando em seu nome e estando envolvidos na sua gestão,
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os representantes de cargos públicos e de caráter governativo têm uma obrigação de responsabilidade, verdade, honestidade e isenção face à realidade com que contactam. Ora, como é sabido, essas condições nem sempre são totalmente preenchidas. O facto de se verificar objetivamente uma transição intensa entre órgãos estatais e empresas privadas, de forma quase cíclica, danifica a visão da nossa democracia (independentemente da eventual relação concreta entre organismos). Deve exigir-se dos políticos e dos deputados o mesmo que se exige de qualquer cidadão responsável: dedicação, honestidade, cumprimento integral da Lei, conduta séria e respeito. Conclui-se deste modo que a democracia está também afetada por fenómenos que importa combater: evitar a desinformação, promover o debate real e sério, valorizar a verdade e a seriedade e adotar uma conduta respeitosa e honesta. Também a cultura representa um signo poderoso na nossa democracia. Preservar os bens culturais e promover a sua criação é uma das marcas democráticas, visto que a arte é a mais clara forma de expressão de sentimentos e opiniões. Abandonar a cultura é abandonar o valor das nossas liberdades enquanto sociedade. O grande Nelson Mandela comparou um dia a democracia sem um sistema sustentável de educação, saúde e apoio social a uma concha vazia. Partindo dessa imagem, é fácil concluir que, de facto, esses três vetores consubstanciam o âmago do regime democrático. Estando virada para as pessoas, a democracia apenas se poderá concretizar em toda a sua abrangência se for suportada por uma componente social responsável e sustentável. A recente discussão sobre a sustentabilidade do sistema de Segurança Social é razoável, mas não se pode aceitar que uma crise económica implique uma crise social. Naturalmente, há a propensão inerente a que uma leve à outra, implicando-se mutuamente, mas impõe-se que as medidas tomadas para a recuperação

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económica minimizem as consequências danosas para a vida diária das pessoas mais desfavorecidas. Esta componente social do Estado é por vezes esquecida, sendo vários os argumentos (comummente falaciosos) que procuram justificar medidas desfavoráveis aos mais carenciados. Entre os referidos argumentos, destaque-se o seguinte, como forma de refletir um pouco na relação entre a democracia e a economia: existe a necessidade de tornar a economia mais competitiva por meio da redução dos custos do trabalho, da massa salarial dos trabalhadores e da adoção de mecanismos de despedimento mais céleres. Considero a visão apresentada notoriamente negativa e, no seguimento do grande tema abordado, avessa à democracia. Um país cuja cultura ocidental está fundada em princípios que exigem um regime remuneratório justo não pode escolher a redução dos salários como forma de ganhar notoriedade junto dos restantes membros da União Europeia e das grandes potências mundiais. Esse caminho levaria (ou, infelizmente, levará) a uma luta infrutífera e desoladora. A democracia sairia também ferida desse confronto, uma vez que a redução dos salários e do número de postos de trabalho teria como consequência uma sobrevalorização das entidades empregadoras e a diminuição da capacidade laboral do trabalhador. Como tal, vendo-se este numa situação de desespero financeiro, seria naturalmente obrigado a aceitar um emprego mal remunerado e descontextualizado das suas habilitações (frequentemente superiores). Qual será, então, a alternativa a este cenário? O investimento na produção interna de qualidade. Sendo um país de reduzidas dimensões, o investimento em salários razoáveis, a aposta na inovação nos sectores fundadores da economia portuguesa – calçado, pasta de papel, produtos agrícolas, recursos do mar, vinho, entre outros –, a criação de apoios a essas áreas produtivas e a dinamização das mesmas junto de eventuais mercados externos seria uma via de crescimento, em oposição à via previamente referida. Ora, este caminho, profundamente democrático, levaria não

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somente a uma progressiva evolução económica como à perpetuação dos valores da democracia junto da população. A Constituição é, em paralelo com a figura do Presidente da República, a presença viva dos valores democráticos na atualidade. Nela constam os princípios basilares que por unanimidade se consideram conducentes ao desenvolvimento do país. É este documento – que é bem mais do que apenas um documento –, que assegura a estabilidade democrática, as liberdades e mantém em funcionamento os mecanismos de Estado. Como tal, todas as medidas e leis integradas no corpo de ação do Governo subjugam-se ao texto constitucional. Naturalmente que, com a mudança da realidade económica e social, também a democracia e a Constituição devem alterar-se, mantendose atualizadas e coerentes. Ora, estando prevista a possibilidade de alteração, convém pesá-la com especial cuidado, não a suscitando de ânimo leve. Que Democracia queremos no futuro? Que sociedade queremos criar? E agora? São perguntas difíceis com respostas ainda mais complexas. É certo que Portugal é membro da União Europeia, órgão para com o qual tem obrigações. É certo, também, que os mercados de capital existem e têm de ser ponderados, por mais que se deseje ignorá-los. É certo que em função dessas duas condicionantes a forma como se governará o país daqui por diante será provavelmente mais objetiva, precisa, rígida e formal. Os Políticos como Mário Soares, Jorge Sampaio ou Álvaro Cunhal deixarão, talvez, de existir. Os cargos políticos serão exercidos por técnicos meramente teóricos, desligados da realidade quotidiana. Podemos evitar essa possibilidade? Parece-me certo que sim. É importante um Primeiro-ministro que saiba o preço do pão na mercearia da rua. É importante uma política concreta e não abstrata. Lúcida mas sincera. Pragmática mas solidária. Impõe-se uma nova interpretação democrática do povo e para o povo, com o devido grau de razoabilidade e integridade.
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A democracia é um regime dinâmico: a sua constante mutação tem-lhe permitido adquirir uma resistência invulgar às vicissitudes do tempo. A democracia é, também, o conjunto de procedimentos que permitem definir quem governa um país e de que forma é que essas entidades são eleitas. Interessa-me olhar o futuro do nosso regime democrático, tal como tenho vindo a fazer desde o início da exposição. Verifica-se portanto a necessidade de retorno da população para o ato eleitoral e para o exercício da democracia. Não obstante, o facto dessa participação se dar em larga escala e sem restrições não é suficiente para o estabelecimento efetivo da democracia. Importa que os cidadãos sejam confrontados com alternativas claras e definidas, sendo os partidos os principais responsáveis pela criação de propostas que deverão seguir com coerência. Esse é um dever basilar no sistema democrático, que deve promover um debate realista, sólido, com argumentação consistente. A abertura à sociedade civil sob a formação de participação cívica e política deve também ser concretizada, envolvendo novamente os cidadãos no exercício democrático. A integração na União Europeia trouxe uma nova dimensão a Portugal: o seu lado europeu, com a colaboração importante entre estados-membros. Saibam os governos apresentar com clareza as suas posições europeias, e saiba a sociedade ter o interesse necessário para reconhecer os seus direitos e deveres a este nível, poderemos alongar as nossas ligações internacionais em planos como o económico, comercial, social e cultural. O balancear entre os fatores sociais e económicos deve ser feito com cuidado: se a economia é fulcral para o desenvolvimento do país, também importante é a população que diariamente o cultiva, o estimula, o faz crescer. O respeito pelos trabalhadores, pelos mais desfavorecidos, pelos mais humildes é, para além de uma obrigação social indissociável de um país desenvolvido, o respeito pelos agentes ativos do regime democrático. Mas o que seria da democracia sem educação, saúde, apoio
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social, justiça, segurança e paz? Importa, como objetivo maior, defender e evoluir nestes vetores, ampliando o grau de formação da população, a sustentabilidade dos sistemas de saúde e justiça, as formas de apoio social e a implementação de relações geostratégicas pacíficas. Urge impedir que a concha se esvazie. Importa, acima de tudo, não dar a democracia como algo adquirido, não esquecer os sacrifícios e a luta daqueles que, em abril de 1974, implementaram a democracia em Portugal e lutaram pelos seus direitos. Este esforço deve perpetuar-se, diariamente, com os olhos postos no desenvolvimento transversal da sociedade. Muitas serão as dificuldades, muitos tentarão abandonar os mais fracos para perseguir utopias distantes: mas a democracia é o que existe. Rodeia-nos quando lemos um jornal, quando debatemos uma ideia, quando escrevemos (ou tentamos escrever) um pequeno ensaio. A Democracia somos todos nós, unidos.

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O presente documento foi redigido em conformidade com as regras do Novo Acordo Ortográfico.

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