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Da Razão dos Professores e do Défice Democrático

Nacional

Fernando Cortes Leal

http://Kosmogafias.wordpress.com

As manifestações espontâneas de professores que decorreram


no passado fim-de-semana em várias localidades do país (Porto, Leiria
e Caldas da Rainha), a par daquelas outras que um pouco por todo o
lado trazem para as ruas o protesto e a indignação de milhares de
cidadãos confrontados com o inexplicável encerramento de
serviços sociais fundamentais ou com a sua absurda deslocalização,
particularmente os de assistência à doença e protecção à saúde,
devem rapidamente ser interpretadas pelos órgãos de soberania
nacional como um sério aviso e como um inquestionável sinal da
anémica fragilidade sobre a qual se sustenta presentemente a
democracia política representativa em Portugal.

É mau -é muito mau- sinal para a democracia política e social


portuguesa que para ilustrar o alegado sucesso do rumo da actual
governação, o primeiro-ministro invoque e se vanglorie da
“constituição de empresas na hora” e deixe ostensivamente a
muitas horas de distância o atendimento a cidadãos em
prolongada situação de dor e sofrimento, fechando-lhes, na
hora, e quase sem aviso prévio, as urgências hospitalares.

É mau -é muito mau- sinal para a democracia representativa que os


nossos governantes entendam que os sindicatos são organizações
marginais relativamente aos interesses e às expectativas dos
profissionais que estes representam.

É mau -é muito mau- sinal que um crescente número de


portugueses queira em Portugal exercer o seu cada vez mais
cerceado direito à cidadania e se renda à obrigação de cada vez
mais ser consumidor em Espanha. É lamentável que muitos
cidadãos portugueses assumam, já sem reservas, que se
envergonham dos seus governantes e, com compreensível pudor,
até já digam que de Espanha, afinal, já só vêm “bons ventos e
bons casamentos(!)” porque maus são os que por cá se fazem
violentamente sentir e interesseiramente urdir.

Os perigos para a democracia política portuguesa são já demasiado


evidentes. Por um lado, as instituições públicas e a democracia
política perdem rapidamente a confiança dos cidadãos, arredando-os
do fundamental estatuto democrático de co-autores das decisões
políticas fundamentais, e, por outro lado, na ausência de uma visão
política de futuro credível para Portugal e perante o insucesso que os
indicadores de desenvolvimento económico e social tratam de
insistentemente revelar, o governo insiste em governar quase
exclusivamente para marcar pontos nas estatísticas da
Europa, seja através do infindável combate ao défice público seja
mediante a artificial redução dos números do desemprego, do
insucesso e do abandono escolares.

Para além da razão que assiste aos professores (a qual se me afigura


incontestável, tal como em anteriores crónicas justifiquei), importa
sublinhar que a grave crise de representação democrática que
vivemos em Portugal, tem como causa primeira a emergência de
uma tecnocracia política liderada pelo actual governo
socialista, de cariz predominantemente europeísta e
vincadamente economicista, de corrosiva natureza
partidocrática, de vocação tentacular para com a
partidirazação do Estado e prossecutória para com a
participação dos cidadãos.

A acção governativa em matéria de educação é, deste perigoso facto,


paradigmático exemplo ilustrativo. Senão veja-se:

1. O Ministério da Educação tratou, desde cedo, de desvirtuar e


esvaziar de conteúdo democrático os desejáveis e legalmente
protegidos processos de negociação com as estruturas
representativas dos professores. Para evitar a mediação e a
participação dos sindicatos dos docentes em decisões políticas
essenciais para a educação, optou por constituir, na boa linha da
tradição monárquica mais conservadora, um seu apêndice, o
‘Conselho de Escolas’, o qual, mais do que vocacionado para
efectivamente representar junto do Ministério da Educação as
escolas, os professores e as preocupações sentidas nos territórios
educativos pelos seus actores imediatos e mediatos, se apresenta
como um nascituro órgão a quem já se atribui a incumbência de
calar a voz de alunos, de professores e de encarregados de educação,
e, ao invés do discurso oficial, de às escolas levar a “voz do
dono”, configurando-se, assim, como mais uma extensão tentacular
deste gigantesco polvo em que se transformou o Ministério da
Educação e a política centralista que o rege;

2. O governo socialista aprovou e impôs unilateralmente um estatuto


profissional que cumpre a estratégia de dominação preconizada por
qualquer neo-maquiavel ou por qualquer conselheiro de Estado norte-
americano: dividir para reinar(!). Para tanto fez dividir a carreira
docente em duas categorias, através de um incoerente, injusto e
absurdo concurso para professor titular. Com ele e com as
injustiças por ele geradas, enquanto os professores se entretinham a
contabilizar e a fazer prova dos pontos por si amealhados para efeitos
de concurso, a ministra da Educação e a sua equipa, preparavam
novos e mais requintados normativos para golpear a escola
pública. O novo Estatuto do Aluno e o recente modelo de direcção e
gestão das escolas constituem deles dois dos vários exemplos da
autocracia tecnocrática instada no governo da nação;

3. De permeio ficam muitas iniciativas unilaterais e outras tantas


omissões de que este governo tem sido pródigo autor. Relembre-se
que nunca a ministra da Educação teve uma palavra de apreço
para com os professores e jamais ousou dar-lhes uma palavra de
confiança e de motivação para o seu cada vez mais exigente
desempenho profissional. Pelo contrário, para além de os obrigar a
cumprir muitas dezenas de horas extraordinárias não
remuneradas (dentro e fora das escolas), de lhes aumentar a
ansiedade e promover o desenvolvimento de patologias
associadas à mais stressante das carreiras profissionais (como
vários estudos fazem notar), tratou, também, de desbaratar a
essência da profissionalidade docente vinculando os professores à
obrigatoriedade de assegurar aulas de substituição, quer em
prejuízo da natural e desejável socialização entre crianças e jovens,
quer em prejuízo de apoios educativos direccionados para os
alunos que deles efectivamente necessitam;

4. Como se tudo isto não bastasse, tratou a srª ministra da educação


de, mais recentemente, vincular os professores à obrigação de entre
si avaliarem (policiarem!) os respectivos ‘umbigos didáctico-
pedagógicos’, sendo que, no atabalhoado e ignóbil modelo de
avaliação instituído, como condição cimeira para a obtenção da nota
‘Excelente’, os professores não podem ter uma única falta anual e,
para alcançar aquela mesma menção ou para obter a de ‘Muito Bom’,
os professores terão de fazer transitar de ano
-administrativamente, como implicitamente se pede? - todos
os alunos e de implorar aos deuses (não vejo que todos os pais e
muito menos os serviços sociais de protecção e apoio aos menores o
façam) que nenhum dos seus alunos ouse abandonar as turmas que
cada um deles lecciona.

Enfim, é Portugal e decorre o ano de 2008. O 'Rei' ainda não vai nu. A
ministra da educação também não. Por enquanto.

Fevereiro de 2008