PUC Minas – Revista de Turismo – Vol.

2 - N° 3 - Dezembro de 2007

GEOTURISMO: UM NOVO SEGMENTO DO TURISMO
MARCOS ANTONIO LEITE DO NASCIMENTO1 ÚRSULA RUCHKYS DE AZEVEDO2 VÍRGINIO MANTESSO NETO3
1. Terra & Mar Soluções, marcos@terraemarsolucoes.com.br; 2. PUC-MINAS, Curso de Turismo. tularuchkys@yahoo.com.br; 3. Autônomo, virginio@uol.com.br.

RESUMO: O geoturismo compreende um novo segmento do turismo de natureza que surge com a intenção de divulgar o patrimônio geológico, bem como possibilitar sua conservação. Tal atividade utiliza feições geológicas como atrativo turístico, divulgando a geodiversidade da região turística, sendo útil, portanto, para promover a associação com as atividades de ecoturismo, unindo, assim, a bio e a geodiversidade. Contudo, é preciso educar para proteger e na comercialização desse segmento do turismo deve ser observada a venda do produto com cuidado, preparando o geoturista na questão da educação e da interpretação ambiental. Palavras-chaves: Geoturismo, Geodiversidade, Geoconservação, Patrimônio Geológico. ABSTRACT: Geotourism comprises a new segment of the nature tourism, which intends to promote the geological heritage, as well as to induce its conservation. Such activity considers the geodiversity, understood as the diversity of geological features of an area, as its principal attraction, so promoting an association with the ecotourism along to bio with the geodiversity. However, it is necessary to educate to protect or to conserve and in the commercialization of that segment of tourism sales of the product should be observed carefully, preparing the geoturist to understand the nature of the geological patrimony through education and environmental interpretation. Keywords: Geotourism, Geodiversity, Geoconservation, Geological Heritage.

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GEOTURISMO: UM NOVO SEGMENTO DO TURISMO

RESUMO: O geoturismo compreende um novo segmento do turismo de natureza que surge com a intenção de divulgar o patrimônio geológico, bem como possibilitar sua conservação. Tal atividade utiliza feições geológicas como atrativo turístico, divulgando a geodiversidade da região turística, sendo útil, portanto, para promover a associação com as atividades de ecoturismo, unindo, assim, a bio e a geodiversidade. Contudo, é preciso educar para proteger e na comercialização desse segmento do turismo deve ser observada a venda do produto com cuidado, preparando o geoturista na questão da educação e da interpretação ambiental. Palavras-chaves: Geoturismo, Geodiversidade, Geoconservação, Patrimônio Geológico. ABSTRACT: Geotourism comprises a new segment of the nature tourism, which intends to promote the geological heritage, as well as to induce its conservation. Such activity considers the geodiversity, understood as the diversity of geological features of an area, as its principal attraction, so promoting an association with the ecotourism along to bio with the geodiversity. However, it is necessary to educate to protect or to conserve and in the commercialization of that segment of tourism sales of the product should be observed carefully, preparing the geoturist to understand the nature of the geological patrimony through education and environmental interpretation. Keywords: Geotourism, Geodiversity, Geoconservation, Geological Heritage.

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Introdução O Brasil apresenta um grande potencial para diferentes segmentos do turismo. Nosso rico patrimônio natural e cultural favorece, dentre outros, segmentos de turismo de aventura, rural, cultural, científico, pedagógico e ecoturismo. O ecoturismo se caracteriza por ser um segmento de turismo da natureza que utiliza o patrimônio natural de forma sustentável e que busca sua proteção por meio da sensibilização e da educação ambiental. Embora os aspectos associados ao meio abiótico, especialmente as rochas e o relevo, também sejam atrativos para o ecoturismo, o maior apelo para este segmento são, sem dúvida, os atrativos relacionados ao meio biótico – fauna e flora. Pesquisadores preocupados em valorizar e em conservar o patrimônio associado ao meio abiótico vêm, promovendo a divulgação de um novo segmento de turismo da natureza, o geoturismo. (Hose 1995, Hose 1996). Tal atividade utiliza feições geológicas como atrativo turístico, e constitui-se em uma ferramenta para assegurar a conservação e a sustentabilidade do local visitado, por meio da educação e da interpretação ambiental. Neste contexto, o presente trabalho apresenta uma discussão à cerca do tema geoturismo, promovendo a introdução de conceitos e da importância para a promoção dos patrimônios naturais de natureza geológica. O Conceito de Geoturismo A terminologia “geoturismo” passou a ser comumente utilizada a partir de meados da década de 90 e uma primeira definição amplamente divulgada foi elaborada por Hose (1995) como sendo: “a provisão de serviços e facilidades interpretativas que permitam aos turistas adquirirem conhecimento e entendimento da geologia e geomorfologia de um sítio (incluindo sua contribuição para o desenvolvimento das ciências da Terra), além de mera apreciação estética”. Mais recentemente, Ruchkys (2005) definiu o geoturismo como sendo: “um segmento da atividade turística que tem o patrimônio geológico como seu principal atrativo e busca sua proteção por meio da

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conservação de seus recursos e da sensibilização do turista, utilizando, para isto, a interpretação deste patrimônio o tornado acessível ao público leigo, além de promover a sua divulgação e o desenvolvimento das ciências da Terra”. Por ser um segmento relativamente recente, ainda são poucas as bibliografias que tratam do assunto, mesmo em nível internacional. No exterior, muito do que se escreveu sobre esse assunto foi publicado em periódicos pouco acessíveis no Brasil. Até o momento, sabe-se que existem apenas dois livros que tratam do assunto, um em italiano, escrito por Matteo Garofano (presidente da Associazione Geoturismo), em 2003, intitulado Geoturismo: scoprire le bellezze della Terra viaggiando. Nele são apresentados os principais pontos geoturísticos da Itália proporcionando ao leitor uma viagem por aquele país, além de apresentar sua geologia e trazer sugestões de como organizar uma viagem geoturística. Mais recentemente, em agosto de 2005, foi lançado o livro Geotourism: sustainability, impacts and management, escrito por David Newsome da School of Environment Science, Murdoch University (Austrália). O livro além de trazer os conceitos básicos sobre este segmento do turismo de natureza, também leva o leitor a conhecer a prática do geoturismo em diversos países do Mundo, tais como: Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, Espanha, China, África do Sul, Austrália e Iran. Finalmente, este livro contempla informações com relação aos diferentes geoparques espalhados pelo mundo. Vale salientar que existem outras publicações principalmente relacionadas ao tema geoconservação que muitas vezes dedicam capítulos sobre o Geoturismo. Porém, esses livros não são específicos sobre geoturismo, mas sim sobre conservação do patrimônio geológico. Dentre esses livros os principais são: Geology on Your Doorstep: The Role of Urban Geology in Earth Heritage Conservation (Bennett et al. 1996); Patrimônio Geológico: Conservación y Gestión (Barettino et al. 2000); e mais recentemente, foi publicado o livro Patrimônio Geológico e Geoconservação: a Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica (Brilha 2005). O Geoturismo no Mundo e no Brasil A promoção da conservação do patrimônio geológico é um dos maiores desafios da comunidade de geociências neste século XXI. Isto se faz necessário uma vez que os minerais,

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as rochas, os fósseis, o relevo e as paisagens atuais são o produto e o registro da evolução do planeta ao longo do tempo e, como tal, é parte integrante do mundo natural. Desde fins do século XX, começam a tomar corpo em alguns países, inclusive com o apoio da UNESCO, atitudes tendentes a valorizar como ponto de atrações turísticas locais com ênfase nos aspectos geológicos. Dentre as iniciativas que associam a conservação do patrimônio geológico com o turismo, destaca-se o Programa Geoparks da UNESCO. Um geopark pode ser entendido como: “Um território com limites bem definidos que tem uma área suficientemente grande para que sirva ao desenvolvimento econômico local. Isto compreende certo número de sítios associados ao patrimônio geológico de importância científica especial, beleza ou raridade, representativo de uma área e de sua história geológica, eventos ou processos. Além disto, um geopark deve ter valor ecológico, arqueológico, histórico ou cultural.” (UNESCO 2004). Mais informações em http://www.worldgeopark.org/ O Programa Geoparks vem sendo bem difundido em países que se preocupam com a conservação e promoção do patrimônio geológico, destacando-se vários países europeus e a China. Na Europa existe a European Geoparks Networks, com parques na França, Alemanha, Espanha, Portugal e Grécia, a qual define o Parque Europeu como “um território que inclui uma herança geológica específica e uma estratégia de desenvolvimento territorial sustentável, suportado por um programa europeu para a promoção do desenvolvimento”. Na China, a partir de 2000, baseada num acervo de sítios de herança geológica e experiência na sua conservação, aprovou formalmente a criação de 44 Geoparques Nacionais, cuja distribuição e características são dominadas pelo ambiente estrutural e neotectonismo. A conservação e desenvolvimento dos sítios trouxeram benefícios sociais, econômicos e ambientais, e criou um clima positivo para a sua inclusão na rede mundial de Geoparques sob a proteção da UNESCO (Zhao & Zhao 2003). Além do Programa Geoparks, outras iniciativas estão sendo desenvolvidas na Inglaterra, Canadá e Brasil.

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Na Inglaterra, um dos grandes incentivadores do geoturismo, é o geólogo Professor Thomas Hose, autor de inúmeros artigos. São deles os primeiros trabalhos que conceituam o geoturismo (Hose 1995; 1996a, b; 1997; 1999). Em virtude disto, muitos ingleses já possuem uma educação turística voltada para a compreensão e preservação do patrimônio geológico. No Canadá, a combinação paisagem/memória/parques/turismo já constitui matéria de estudos universitários perfeitamente estabelecidos. Por exemplo, a University of Alberta, em Edmonton (Província de Alberta), apresenta disciplinas que tratam da história da natureza, parques e viagens. Eles buscam formar idéias sobre a natureza expressas através do lazer. No Brasil, uma das primeiras providências para o desenvolvimento dessas políticas é a identificação de aspectos geológicos que sejam - ou possam vir a se tornar - atrações turísticas. Essa tarefa, por si só, em um país com as dimensões do Brasil, é muito significativa. Têm-se, sem dúvida, muitos exemplos clássicos e evidentes de locais de interesse geoturístico - a rigor, muitas de nossas atrações já são, sem que tivéssemos consciência disso, atrações geoturísticas como Cataratas de Iguaçu, Pão de Açúcar, Vila Velha, Chapada dos Guimarães, Lençóis Maranhenses, Pico do Cabugi etc. A iniciativa mais importante e abrangente nesse sentido é, sem dúvida, o Projeto SIGEP Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil. Este envolve representantes de toda a comunidade geológica brasileira, tendo apoio de grandes organismos internacionais, como: UNESCO - World Heritage Committee (WHC), IUGS - International Union for the Geological Sciences, IGCP - International Geological Correlation Programme, IUCN International Union for the Conservation of the Nature, e Working Group on Geological and Palaeobiological Sites (GEOTOPES). No primeiro volume do livro publicado pelo SIGEP, cujo fechamento se deu no final de 2001, constam 58 sítios (Schobbenhaus et al., 2002), mas o site da Internet já atingiu praticamente o dobro desse número (114 - mais detalhes em http://www.unb.br/ig/sigep/). Como exemplos práticos, já implantados, de roteiros geoturísticos no Brasil, existem alguns conjuntos, que são destacados abaixo: - 14 roteiros do Serviço Geológico do Brasil - CPRM, que instituiu o Programa Geoecoturismo do Brasil, abrangendo a descrição de monumentos, feições e parques geológicos, afloramentos, cachoeiras, cavernas, sítios fossilíferos, patrimônio mineiro (minas desativadas), fontes termais, paisagens, trilhas e outras curiosidades geoecoturísticas

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(Programa Geoecoturismo do Brasil). O principal é a “Coluna White” (PR-SC); há roteiros em fase de implantação na BA e PR; - a Petrobras lançou em 2004, o Projeto Caminhos Geológicos da Bahia, iniciado pelo painel Geológico da Falha de Salvador, em frente ao Mercado Modelo, e com previsão da instalação de mais 15 painéis em Salvador, Itaparica e Bacia do Recôncavo; - os Caminhos Geológicos do Estado do Rio de Janeiro, pioneiro nesta temática, representa o programa mais desenvolvido e “evoluído”. A partir das primeiras experiências, como os próprios responsáveis informaram, por um processo de “tentativas e erros”; foram instaladas 36 placas, estando muitas em lugares de grande fluxo de turistas. Há previsão para a instalação de cerca de outras tantas. - No recente XLII Congresso Brasileiro de Geologia (outubro de 2004 em Araxá, MG), o Simpósio 4, “Desenvolvimento Sustentável, Geologia e Turismo”, teve a apresentação de 32 trabalhos, e o Simpósio 26, “Monumentos Geológicos” 31 trabalhos. Destes 63, pode-se identificar, pelo menos, 39 diretamente focados em aspectos do geoturismo. - Mais recentemente, foi criado um grupo de discussão na Internet baseado no Yahoo, atualmente com 41 participantes de várias regiões do Brasil e alguns do Mundo, para levantar informações e discutir as temáticas geoturismo, geodiversidade e geoconservação. Para associar-se, basta acessar o site http://br.groups.yahoo.com/group/geoturismo_brasil/ Assim, vê-se, que já há um movimento bem estabelecido de início das atividades de geoturismo no Brasil. Potencial Geoturístico do Brasil O Brasil, por sua diversidade, possui inúmeras feições geológicas e distintas que podem ser utilizadas com fins turísticos e conservacionistas. Cada ponto de potencial geoturístico é, inevitavelmente, uma área, região ou feição de dimensões significativas. Geólogos podem se interessar e viajar quilômetros para visitar uma ocorrência de um mineral raro, de dimensões de milímetros ou centímetros, mas turistas querem ver atrações maiores. Existem casos de propriedades particulares que são locais que hoje podemos chamar de geoturísticos (por exemplo, a Mina da Passagem, entre Ouro Preto e Mariana/MG; a Mina da Brejuí em Currais Novos/RN), mas são casos esporádicos. Por essa própria característica de abranger grandes áreas, o geoturismo é inevitavelmente um tema de políticas públicas. Vale salientar que a atividade geoturística procura divulgar a geodiversidade que representa a:

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“Variedade de ambientes, fenômenos e processos ativos, de caráter geológico, geradores de paisagens/relevo, rochas, minerais, fósseis e solos que constituem a base para a vida na Terra” (Stanley 2000). Isto é, o “palco” no quais todas as outras formas de vida são os “atores”. A geodiversidade é tão importante quanto a biodiversidade, porém as ações que contribuem para a conservação da natureza estão preocupadas unicamente com os seres vivos. Isto se deve, principalmente, a uma visão parcial e distorcida de algumas pessoas que trabalham com a natureza e da problemática associada à sua conservação. Enquanto essas pessoas continuarem esquecendo a importância da vertente geológica nunca se poderão programar ações eficazes de conservação da natureza. Para uma ação mais ampla e completa em favor da conservação de qualquer patrimônio natural não faz qualquer sentido individualizar a Geo da Bio diversidade. No Brasil, são inúmeros os exemplos de locais propícios à prática da atividade geoturística. Serão apresentados aqui apenas alguns exemplos destacando os diferentes tipos de patrimônios, sejam eles geológicos, geomorfológicos, mineralógicos, paleontológicos e arqueológicos. No Brasil, o relevo se destaca na paisagem proporcionando cenários exuberantes e mirantes que permitem a contemplação de áreas pouco conhecidas. Na constituição do relevo, destacam-se as serras, os picos, as chapadas e afloramentos de rochas, cujos melhores exemplos são: as chapadas Diamantina (na Bahia), dos Veadeiros (em Goiás), dos Guimarães (em Mato Grosso); Pão de Açúcar (no Rio de Janeiro); picos vulcânicos do Cabugi (no Rio Grande do Norte) e de Nova Iguaçu (no Rio de Janeiro); Cataratas do Iguaçu (no Paraná); Cabo de Santo Agostinho (em Pernambuco); dentre outros. Todos esses diferentes tipos de relevo são formados por rochas sedimentares, ígneas e metamórficas. Esses locais são excelentes para a criação de sítios geológicos-geomorfológicos, hoje muito utilizados para a prática do turismo de aventura por meio de atividades como o traking, happel, off road e outras. Existe ainda o Parque Nacional da Serra da Capivara, que além de apresentar uma beleza cênica enorme, foi criado para conservar um dos maiores tesouros arqueológico do mundo. Milhares de inscrições pré-históricas com idades de seis a doze mil anos, gravadas em

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paredões de rocha. As pinturas representam aspectos do dia-a-dia, danças, ritos e cerimônias dos antigos habitantes da região, além de figuras de animais, alguns já extintos. Ainda no Nordeste, na região conhecida como Seridó (envolvendo os Estados do Rio Grande do Norte e Paraíba), inúmeras pinturas rupestres também são encontradas, onde foram catalogados mais de 90 sítios arqueológicos. Nesta região são encontrados gravuras e pinturas das três grandes tradições de pinturas rupestres do Nordeste brasileiro – Nordeste, Agreste e Itaquatiaras. No Brasil destacam-se também as áreas cársticas que são aquelas que se caracterizam por um tipo de relevo muito particular que se desenvolve por processos de dissolução aos quais estão sujeitas, especialmente, rochas com uma composição químico-mineralógica específica: as rochas carbonáticas, principalmente quando predomina o carbonato de cálcio. Estas áreas apresentam um conjunto de feições muito características que configuram uma grande beleza cênica como maciços rochosos expostos, paredões ou escarpas, vales, torres, depressões, dolinas, lagoas, além das próprias cavernas. O Brasil tem mais de 3.200 cavernas conhecidas, onde cerca de 100 são de uso turístico. Esse tipo de geoturismo, também denominado pelos especialistas como turismo espeleológico tem, por exemplo, os Estados da Bahia e de Minas Gerais como um dos principais locais para a sua prática. Um exemplo brasileiro de área cárstica é a Área de Proteção Ambiental (APA) Carste de Lagoa Santa, localizada no Estado de Minas Gerais, situada a aproximadamente 30 km ao norte de Belo Horizonte. A região tem grande valor histórico-cultural, paisagístico e científico sendo, reconhecidamente, uma das mais importantes do país em relação aos aspectos paleontológicos, arqueológicos e espeleológicos. O patrimônio espeleológico adquire importância por ser o maior depositário dos valorosos vestígios pré-históricos de animais e humanos. Dada a importância da APA, a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, financiou em 2004/2005, o projeto “Definição de Percursos Geoturísticos na APA Carste de Lagoa Santa, MG: Aliando Educação e Turismo”. O projeto resultou na elaboração de um percurso geoturístico que foi mapeado e georreferenciado. Todo o percurso é explicado em linguagem acessível, tornando o patrimônio geológico da APA um importante meio de educação ambiental e patrimonial. A mineração possui também um potencial geoturístico particular no Brasil, atividade esta já bastante difundida em outros países do mundo. Aqui podemos citar os exemplos da Mina da Passagem, em Minas Gerais e a Mina da Brejuí, no Rio Grande do Norte, que hoje já são

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atrativos turísticos bastante visitados. Nessas minas, antigos túneis subterrâneos por onde circulavam os mineradores e os vagões são adequadamente apropriados para a visitação. Nelas, os turistas ficam sabendo como nossas riquezas minerais são/foram extraídas e beneficiadas. Convém lembrar, que os locais mencionados são apenas uma pequena amostra do que o Brasil possui em termos de atrativos geoturísticos. Cada Estado (ou mesmo Município) tem suas potencialidades, que podem (e devem) ser bem investigadas e adaptadas à atividade geoturística. Discussões Finais Acredita-se que a atividade turística, se bem orientada, possa contribuir para a proteção do patrimônio por meio da sensibilização do turista em relação à importância dos atrativos que visita. Para as pessoas se deslocarem de seu entorno habitual, precisam de motivação, de atrativos que despertem seu interesse. Atualmente, os elementos passíveis de provocar deslocamentos de pessoas são muito variados, o que tem levado a uma segmentação da atividade turística em relação à motivação, criando termos específicos para designar determinados tipos de turismo, dentre eles, destaca-se o geoturismo. O geoturismo pode oferecer uma oportunidade para uma aproximação com o público, além de ser um novo produto de turismo direcionado a pessoas motivadas por conhecimento intelectual e por atividades que envolvam aprendizado, exploração, descoberta e imaginação. Esta necessidade de conhecimento faz da interpretação um meio eficaz de prover informação em linguagem acessível tendo um papel importante no aumento do interesse na geoconservação e na geologia, além de promover sua divulgação e uma maior educação ambiental. Assim, entender a geodiversidade, em conjunto com a biodiversidade de uma dada região, permitirá efetuar ações mais completas e, conseqüentemente, obter resultados mais precisos e duradouros quanto à proteção do meio ambiente, bem como uma experiência mais rica para o visitante. É preciso educar para conservar e na comercialização do turismo deve ser observada a venda do produto com cuidado, preparando o geoturista na questão da educação ambiental.

Praticado de maneira mal planejada, esse tipo de turismo pode se transformar em um instrumento de
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degradação ambiental, ao invés de ser uma ferramenta para a conservação. Sabe-se que uma boa educação ambiental favorece a proteção de qualquer patrimônio natural. Diante desse panorama, o geoturismo requer um planejamento prévio e adequado para se consolidar e se desenvolver garantindo o sucesso da atividade. Para a prática desta atividade necessita-se da participação das comunidades locais; favorece a geração de emprego e de renda; promove a minimização dos impactos ambientais e dos problemas sócio-econômicos; além da conservação do patrimônio natural para as presentes e futuras gerações. Referências Barettino D.; Wimbledon W.A.P.; Gallego E., 1999. Patrimonio Geológico: Conservación y Gestión. Instituto Tecnológico Geominero da Espanha. Ministerio de Ciencia y Tecnología. Madrid, 227p. Bennett, M.R., Doyle, P., Larwood, J.G. and Prosser, C.D. (1996) Geology on Your Doorstep: The Role of Urban Geology in Earth Heritage Conservation. Geological Society of London, 270p. Brilha J.B.R. 2005. Patrimônio Geológico e Geoconservação: a Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica. Palimage Editora, 190p. Dixon G.; Houshold I.; Pemberton M.; Sharples C. 1997. Geoconservacion in Tasmânia. Earth Heritage, 8: 14-15. Garofano M. 2003. Geoturismo: scoprire le bellezze della Terra viaggiando. DPS Edizioni, 114p. Grongrijip G.P. 2000. Planificación y Gestión para la Geoconservación. In: Barettino D.; Wimbledon W.A.P.; Gallego E. (eds). Patrimonio Geológico: Conservación y Gestión. Espanha, Instituto Tecnológico Geominero de España. p. 31-50. Hose T.A. 1995. Selling the Story of Britain´s Stone. Environmental Interpretation, 2: 16-17. Hose T.A. 1996a. Selling Coastal Geology to Visitors. In: Bennett M. R.; Doyle P.; Larwood J.G.; Prosser C.D. (eds). Geology on your Doorstep: the Role of Urban Geology in Earth Heritage Conservation. London, Geological Society. p. 178-195 Hose T.A. 1996b. Geotourism, or Can Tourists Become Casual Rockhounds? In: Bennett, M.R.; Doyle, P.; Larwood, J.G.; Prosser, C.D. (eds). Geology on your Doorstep: the Role

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