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Materiais de Construção I O VIDRO série MATERIAIS João Guerra Martins Emanuel Lopes Pinto 1.ª
Materiais de Construção I
O VIDRO
série MATERIAIS
João Guerra Martins
Emanuel Lopes Pinto
1.ª edição / 2004

Apresentação

Este texto resulta do trabalho de aplicação realizado pelos alunos da disciplina de Materiais de Construção I do curso de Engenharia Civil, sendo baseado no esforço daqueles que frequentaram a disciplina no ano lectivo de 1999/2000, vindo a ser anualmente melhorado e actualizado pelos cursos seguintes.

A sua fonte assenta nas sebentas das cadeiras congéneres da Academia Militar, Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e Instituto Superior Técnico de Lisboa, bem como de outros documentos de entidades reconhecidas (caso do L.N.E.C.), bibliografia e pesquisas diversas. Contributo decisivo teve, igualmente, o Eng.º António Emanuel Lopes Pinto, sendo parte importante do texto apresentado conteúdo revisto da monografia de licenciatura por si elaborada. Pretende o seu teor evoluir permanentemente no sentido de responder quer à especificidade dos cursos da UFP, como contrair-se ao que se julga pertinente e alargar-se ao que se pensa omitido.

Esta sebenta insere-se num conjunto que perfaz o total do programa da disciplina, existindo uma por cada um dos temas base do mesmo, ou seja:

I.

Metais

II.

Pedras naturais

III.

Ligantes

IV.

Argamassas

V.

Betões

VI.

Aglomerados

VII.

Produtos cerâmicos

VIII.

Madeiras

IX.

Derivados de Madeira

X.

Vidros

XI.

Plásticos

XII.

Tintas e vernizes

XIII.

Colas e mastiques

Embora o texto tenha sido revisto, esta versão não é considerada definitiva, sendo de supor a existência de erros e imprecisões. Conta-se não só com uma crítica atenta, como com todos os contributos técnicos que possam ser endereçados. Ambos se aceitam e agradecem.

João Guerra Martins

Série Materiais

O Vidro

Sumário

Este trabalho tem como objectivo o estudo do vidro como matéria-prima na construção civil. De uma forma global, pretende-se abordar a sua origem, passando pelas técnicas de fabricação, os tipos de vidro existentes no mercado e a sua aplicação prática.

O texto está dividido em cinco capítulos fundamentais:

O primeiro capítulo é dedicado, fundamentalmente, à origem do vidro e aos processos de fabricação;

No segundo capítulo são abordadas as características e propriedades do vidro;

No terceiro capítulo faz-se referência aos diferentes tipos de vidros existentes, suas características especiais e a sua aplicação na construção civil;

O quarto capítulo aborda toda a metodologia intrínseca ao dimensionamento de vidros;

No quinto e último capítulo foca-se a temática da colocação do vidro em obra e a sua armazenagem, passando pela escolha da caixilharia, tipo de calços e o seu dimensionamento, tipo de juntas e tipo de vedantes a utilizar entre outros aspectos.

Série Materiais

O Vidro

Índice Geral

 

Sumário

I

Índice Geral

II

Índice de Figuras

VII

Índice de Tabelas

IX

1.

O vidro e processos de fabricação

1

1.1.

O vidro e a sua origem

1

1.1.1.

A evolução

2

1.2. História da indústria vidreira em Portugal

3

1.3. Dificuldades da indústria vidreira nos seus primórdios

4

1.4. Produção do vidro plano

5

1.4.1. Processo Libbey-Owens

7

1.4.2. Processo Pittsburgh

7

 

1.5.

Os fornos

9

2.

Características gerais e propriedades do vidro

11

2.1. Composição

11

2.2. Propriedades físicas

12

2.2.1. Densidade

12

2.2.2. Dureza

13

2.2.3. Resistência à abrasão

13

 

2.3.

Propriedades mecânicas

13

2.3.1. Elasticidade

13

2.3.2. Resistência à tracção

14

2.3.3. Resistência à compressão

14

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2.3.4.

Resistência à flexão

14

2.4.

Propriedades térmicas

16

2.4.1. Calor específico

16

2.4.2. Condutividade térmica

16

2.4.3. Dilatação linear

17

2.4.4. Transmissão térmica

17

 

2.4.4.1.

Radiação solar global

18

2.5.

Tensões Térmicas

24

2.5.1. Resistência ao choque térmico

25

2.5.2. Resistência ao fogo

25

2.6.

Propriedade acústicas

27

2.6.1. Intensidade, pressões e níveis acústicos

27

2.6.2. Frequência

28

2.6.3. Transmissão de sons

28

2.6.4. Altura

29

2.7.

Propriedades espectro – fotométricas (ópticas)

29

2.7.1. Transmissão da radiação através do vidro

29

2.7.2. Transmissão luminosa

31

2.7.3. Transmissão energética

31

 

2.7.3.1.

Factor Solar

32

2.8.

Cores

32

2.8.1.

O efeito do ferro na cor

33

2.8.2.

O efeito do crómio na cor

34

2.8.4.

Cor âmbar

34

2.8.5.

Cores verdes

35

3. Tipos de vidros e derivados

37

3.1.

Diferenças entre vidro estirado, float e cristal

37

3.5.

Espelhos

40

3.6.

Vidro aramado

42

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O Vidro

3.7.

Vidro temperado

43

3.7.1. Definição e processo de fabrico

43

3.7.2. Tipos de Tempera

44

3.8.

Laminado

47

3.8.1. Definição e processo de fabrico

47

3.8.2. Propriedades

48

3.9.

Vidro curvo – laminado

50

3.10. Vidro curvo

50

3.11. Lã de Vidro

50

3.12. Lã Mineral

53

3.13. Tijolos ou bloco de Vidro

53

3.13.1.

Modo de aplicação

54

3.14.

Vidros duplos

54

3.14.1. Bloqueio térmico

54

3.14.2. Bloqueio acústico

55

3.15.

Vidros de segurança

55

3.15.1.

Tipos de acabamentos

56

4. Dimensionamento de vidros para a construção civil

57

4.1. Determinação da espessura – Fórmula geral

57

4.2. Determinação da Espessura – Vidros para edifícios

60

4.2.1.

Determinação da pressão do vento

60

4.2.1.1. Zonamento do território

60

4.2.1.2. Rugosidade aerodinâmica do solo

61

4.2.1.3. Quantificação da acção do vento

61

4.2.1.4. Pressão dinâmica do vento

61

4.3.

Dimensões e superfícies do vidro

63

4.3.1. Factor de redução para os vidros em caixilhos fixos

63

4.3.2. Escolha da espessura do vidro

63

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4.3.3. Dimensões máximas de utilização

64

4.3.4.

Várias aplicações e recomendações

64

5. Colocação do vidro em obra

65

5.1.

Independência em relação ao vão

65

5.1.1.

Generalidades

65

5.2. Folgas a considerar em vãos

66

5.3. Calços

 

69

5.3.1. Tipos de Calços

70

5.3.2. Dimensionamento e colocação dos calços

71

5.4. Juntas de neoprene

73

5.5. Posicionamento

 

73

5.5.1. Generalidades

73

5.5.2. Vidro Exterior Agrafado (VEA) – Vidro temperado

76

5.5.2.1. Disposições particulares

77

5.5.2.2. Domínio de aplicação e de emprego

78

5.5.2.3. Condições gerais de concepção

78

5.5.3.

Vidro exterior colado (VEC)

78

5.5.3.1.- Contraventamentos de envidraçados

82

5.5.4.

Estanquidade Vidro – Caixilharia

83

5.5.4.1. Descrição do problema

83

5.5.4.2. Natureza dos vedantes

84

 

5.5.4.2.1.

Vedantes de endurecimento total por oxidação

84

5.5.4.2.2 Vedantes plásticos endurecíveis com o tempo

84

5.5.4.2.3. Vedantes plásticos que conservam a sua plasticidade inicial

85

5.5.4.2.4. Vedantes plastoelásticos (ou elastoplásticos)

86

5.5.4.2.5. Vedantes elásticos

86

5.5.4.2.6. Outros vedantes

87

5.5.4.3. Preparação dos rebaixos e dos bites

88

5.5.4.4. Preparação dos vedantes

89

5.5.4.5. Colocação dos vedantes

90

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O Vidro

5.5.4.6. Escolha dos vedantes e dos sistemas de vedação

90

5.6. Corrosão do vidro

98

5.7. – Armazenamento do Vidro

100

5.7.1. Cuidados especiais a ter com o armazenamento de vidros de segurança laminados

102

Conclusão

103

Anexos

105

Anexo I - Variedades de tipos e acabamentos [1]

106

Anexo II - Exemplos da gama de placas de lã de vidro que a empresa Fibrosom tem no

mercado (fonte: Internet - www.fibrosom.pt,

107

Anexo III - Tipos de tijolo de vidro da marca Saint-Gobain

110

Anexo IV - Factores solares de diferentes tipos de vidros em função dos factores de transmissão energética:

111

Anexo V - Raios Solares atingindo uma vidraça e suas repercussões

113

Anexo VI - Lã de Vidro como isolante Acústico

114

Anexo VII - Lã de Vidro como isolante Térmico

115

Anexo VIII - Estabilizadores

116

Anexo IX - Número de chapas a Empilhar/Tipo de vidro

117

Anexo X – Resumo dos tipos de Vidro Especiais na Arquitectura

118

Bibliografia

121

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Índice de Figuras

Figura 1 – Processo Fourcault de produção contínua do vidro estirado [1]

5

Figura 2 – Processo Libbey-Owens de produção contínua de vidro estirado [1]

7

Figura 3 - Processo Pittsburgh Plate Glass Company (PPG) [1]

8

Figura 4 – Processo de fabricação do vidro polido (processo antigo) [1]

8

Figura 5 – Processo Pittsburgh com a introdução do float [1]

9

Figura 6 – Radiação solar global máxima – Superfícies verticais

19

Figura 7 – Temperaturas exteriores no Verão - máximas absolutas [8]

20

Figura 8 – Temperaturas exteriores de Inverno - mínimas absolutas [8]

20

Figura 9 – Fabricação do vidro impresso [1]

38

Figura 10 – Gráfico espectro solar

40

Figura 11 – Tensões induzidas no vidro temperado

44

Figura 12 – Aparência do vidro temperado em fornos verticais

45

Figura 13 – Atenuação sonora [1]

49

Figura 14 – Fabrico de Lã de vidro – Processo do filtro de ar [1]

51

Figura 15 – Processo contínuo de produção de fibras têxteis [1]

51

Figura 16 – Processo contínuo com uso de tambor

52

Figura 17 – Tijolos ou Blocos de

53

Figura 18 – Bordas dos vidros temperados

56

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O Vidro

Figura 19 – Golas de madeira ou de metal [1]

67

Figura 20 – Tipos de golas

68

Figura 21 – Calços

69

Figura 22 – Tipos de caixilhos

74

Figura 23 – Esquema das dimensões das golas

75

Figura 24 – Junta preenchida com mástique de silicone

76

Figura 25 – Esforços – Vidro exterior agrafado

78

Figura 26 – Fixação – Vidro exterior agrafado

79

Figura 27 – Esquema de aplicação – Vidro exterior colado

81

Figura 28 – Portas com bandeira fixa fraccionada

82

Figura 29 – Portas com bandeira fixa inteira

83

Figura 30 – Gola aberta com moldura de vedação – Sem contra-vedação

91

Figura 31 – Gola aberta com moldura de vedação – Com contra-vedação

92

Figura 32 – Gola fechada com bites – Sem vedação (gola seca) [2]

92

Figura 33 – Gola fechada com bites – Com vedação do lado do bite [2]

93

Figura 34 – Gola fechada com bites – Com contra-vedação

93

Figura 35 – Gola fechada com bites – Com vedação e contra-vedação [2]

94

Figura 36 – Sistema composto de vedação

96

Figura 37 – Sistema composto de vedação

96

Figura 38 – Sistema composto de vedação

97

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O Vidro

Índice de Tabelas

Tabela 1 – Tensões de segurança à flexão de vidros recozidos e temperados

12

Tabela 2 – Propriedades mecânicas comparativas de alguns materiais

12

Tabela 3 – Coeficientes de dilatação linear de diversos materiais

14

Tabela 4 – Radiação solar máxima – Superfícies verticais

15

Tabela 5 – Radiação solar global máxima – Superfícies inclinadas

16

Tabela 6 – Temperaturas exteriores convencionais

17

Tabela 7 – Temperaturas interiores

17

Tabela 8 – Coeficientes de transferência de calor

18

Tabela 9 – Temperatura média nas superfícies interiores

18

Tabela 10 – Temperatura média nas superfícies exteriores por convecção natural

18

Tabela 11 – Temperatura média nas superfícies interiores por convecção natural

19

Tabela 12 – Resistência térmica / Posição do envidraçado e do sentido do fluxo de calor

19

Tabela 13 – Coeficiente de condutibilidade térmica / Espessura da camada

20

Tabela 14 – Coeficiente de condutibilidade térmica / Tipo de vidro

20

Tabela 15 – Graus atingidos por elementos de construção exposta a um incêndio simulado

22

Tabela 16 – Tipo de som / Local da emissão – Grau de intensidade do som

24

Tabela 17 – Nível sonoro do ambiente exterior

25

Tabela 18 – Espessura da película de PVB de vidros laminados / % de radiação filtrada

43

Tabela 19 – Empenamento admissível em mm / dimensões dos vidros

44

Tabela 20 – Coeficiente de Timoshenko

53

Tabela 21 – Conversão de unidades

54

Tabela 22 – Tensões de trabalho admissíveis

54

Tabela 23 – Tabela de conversão das velocidades do vento em pressões dinâmicas

57

Tabela 24 – Tabela de obtenção da pressão dinâmica do vento

57

Tabela 25 – Limitação de largura e comprimento máximo

58

Tabela 26 – Folga mínima / Semiperímetro

63

Tabela 27 – Comprimento dos calços em função do tipo de material de que são feitos

66

Tabela 28 – Comprimento dos calços em função da dureza do neoprene

67

Tabela 29 – Dimensões das golas em função do tipo de golas

70

Tabela 30 – Portas com bandeira fixa fraccionada / Necessidade de contraventamento

77

Tabela 31 – Portas com bandeira fixa inteira / Necessidade de contraventamento

78

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O Vidro

1. O vidro e processos de fabricação

1.1. O vidro e a sua origem

A data exacta da descoberta do vidro ainda não foi encontrada e em relação a este assunto existem diversas opiniões. Mas um consenso foi estabelecido: a existência deste material é bastante remota. Também não são conhecidos dados específicos sobre a sua origem. Alguns historiadores afirmam que a sua descoberta remonta a 3000 anos a.C. (5000 a.C.) e os primeiros objectos de vidro foram encontrados nas necrópoles egípcias.

Com a descoberta da impermeabilização das vasilhas através de um verniz que se obtinha a partir de uma mistura fundida de soda natural, substância esta que se encontrava em grandes proporções no deserto Ocidental do Egipto, ou extraída das cinzas de certas plantas ricas em alcalis, com pedra calcária ou cal e areia de quartzo. Deitava-se este líquido sobre os recipientes depois de frios ou submergia-se em massa de fusão e ficava coberto de uma película solidificada de vidro.

Também se atribui a Tebas o berço da indústria vidreira egípcia. Desde 1550 a.C. até à era cristã, o Egipto conservou o primeiro lugar na indústria do vidro. Foi dos mercadores fenícios que este material foi levado a todos os mercados do Mar Mediterrâneo. A partir do momento em que esta indústria se estabeleceu em Roma o seu desenvolvimento e aperfeiçoamento foram dignos de registo. Os romanos aprenderam esta arte com os egípcios mas desenvolveram processos de lapidagem, pintura, colorido, gravura e a moldagem do vidro assoprado. Estávamos, então, no tempo de Tibério quando esta indústria se expande aos outros países conquistados pelos romanos.

Mas esta indústria correu sérios riscos com a invasão dos bárbaros. Outro nome a salvaguardar é o de Constantino Magno que, ao mudar a capital para Bizâncio, levou consigo excelentes trabalhadores do vidro. Foi nesta época que o Oriente passou a ter o monopólio deste comércio. O fabrico de artigos de vidro foi incentivado por Teodósio II que isentou os seus trabalhadores de diferentes tipos de impostos e dava-lhes outros benefícios, quer sociais quer comerciais. O vidro nesta época tinha um grande valor. Inclusivamente os romanos,

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quando invadiram o Egipto, estabeleceram como imposto de guerra o fornecimento de artefactos de vidraria. Mais uma vez, os romanos desenvolveram a arte do vidro para a decoração, desta feita fabricando objectos de luxo.

Ao longo dos anos a protecção aos vidreiros foi elevada, chegando-se ao ponto de proibir a saída destes operários para o estrangeiro. Como exemplo, cite-se o monopólio das fábricas e oficinas de Murano, pequena ilha próxima de Veneza, para onde em 1289 haviam sido transferidas todas as oficinas, para que os trabalhadores pudessem ser mais controlados e para preservar a cidade do perigo dos incêndios. Apesar de todos os esforços, alguns trabalhadores conseguiram emigrar para a Alemanha e aí desenvolver esta indústria que, a pouco e pouco, se foi espalhando pelo mundo.

Em relação a Veneza não podemos ignorar a participação de alguns artistas, como é o caso de Beroviero e Godi de Padua. As tentativas de retirar de Veneza todo este monopólio começaram pela Alemanha, que aí foi buscar alguns artistas e conseguiu desenvolver esta indústria. Os artistas que aqui estavam transformaram e aperfeiçoaram os processos de fabrico e o estilo das obras feitas anteriormente. Veneza fazia-se representar pelas filigranas e os artistas alemães, por sua vez, apresentavam peças esmaltadas em relevo, nas quais sobressaíam brasões e diversas figuras alegóricas. Alguns dos artistas que assinaram estas obras foram: Scaper, Benchat, Keyel e Kunkel.

De seguida é de salientar Gaspas Lehman, checoslovaco, que iniciou o fabrico do vidro e cristal gravado e lapidado. Ao longo do tempo a indústria vidreira espalhou-se por todo o mundo.

1.1.1. A evolução

Até 1500 a.C., o vidro tinha pouca utilidade prática e era utilizado principalmente como adorno. A partir desta época, no Egipto, começaram a ser produzidos recipientes da seguinte maneira: a partir do vidro fundido, faziam-se finas tiras que eram enroladas em forma de espiral em moldes de argila. Quando o vidro arrefecia, tirava-se a argila do interior, obtendo- se um frasco que, pela dificuldade de obtenção, era somente acessível aos muito ricos.

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Por volta de 300 a.C., uma grande descoberta revolucionou o vidro: o sopro, que consiste em colher uma pequena porção de vidro com a ponta de um tubo (o vidro fundido é viscoso como o mel) e soprar pela outra extremidade de maneira a que se produza uma bolha no interior da massa, que passará a ser a parte interna da embalagem. A partir daí, ficou mais fácil a obtenção de frascos e recipientes em geral. Para termos noção da importância desta descoberta, basta dizer que, ainda hoje, mais de 2000 anos depois, utiliza-se o princípio do sopro para moldar embalagens, mesmo nas mais modernas máquinas.

Também a partir de gotas, colhidas na ponta de tubos e sopradas, passou-se a produzir vidro plano. Depois que da bolha estar grande, cortava-se o fundo, deixando a parte que estava presa no tubo e, com a rotação deste, produzia-se um disco de vidro plano, que era utilizado para fazer vidraças e vitrais.

No século I a.C., os melhores vidros vinham de Alexandria e já eram obtidos por sopro. Graças à contribuição dos romanos, iniciou-se a produção de vidro por sopro dentro de moldes, aumentando em muito a possibilidade de fabricação em série das manufacturas. Foram eles, também, os primeiros a inventar e usar o vidro para janelas. Com a queda de Roma, o vidro praticamente desapareceu da Europa, mas desenvolveu-se em grande escala na Síria e no Egipto, com a produção de vitrais, lâmpadas e outros objectos de fino acabamento.

1.2. História da indústria vidreira em Portugal

Tal como a origem do vidro, o início da história vidreira no nosso país não tem uma data precisa. Os primeiros vidreiros estrangeiros, consta que se fixaram em Portugal no século XVI. Com precisão pode-se abordar a Fábrica do Covo, que se fundou em 1484, talvez uma das mais antigas e importantes.

Mais tarde, D. João V também mostrou interesse por esta indústria, fundando também uma fábrica na região sul de Lisboa com bastante importância. Esta fábrica entrou em decadência e teve que ser transferida para a Marinha Grande. Por volta de 1748, passou a ser administrada por John Beare. Esta unidade fabril ultrapassou diversas dificuldades, entre as quais, os mercadores estrangeiros tentaram dificultar a sua laboração para poderem vender para Portugal os seus produtos. Mas a indústria que aqui se fazia era de boa qualidade, pois trabalhavam lá bons mestres estrangeiros.

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Deve-se, no entanto, ao Marquês de Pombal o maior impulso na indústria vidreira nacional. Este impulso tem origem no facto do restabelecer a Real Fábrica de Vidros da Marinha Grande, passando o alvará a Guilherme Stephens. Passados cerca de 15 anos, a fábrica estava apta a funcionar nas suas melhores condições, à frente da qual Stephens colocou quatro dos melhores mestres que havia na Inglaterra e cinco genoveses. Quando este administrador morreu passou a gerir a fábrica o seu irmão e sócio João Diogo. Tudo prosseguia bem até à morte do seu fundador, em que esta foi à falência, por falta de administradores capazes. No entanto, o seu fim ainda não era definitivo, pois, em 1928, ela passou para a administração directa do Estado e teve a denominação de Fábrica-Escola Irmãos Stephens.

Desde esse tempo para cá, a indústria vidreira em Portugal tem proliferado pelos diversos pontos do país.

1.3. Dificuldades da indústria vidreira nos seus primórdios

Várias foram as dificuldades com que se defrontaram as fábricas de vidros nacionais. Uma das maiores foi a concorrência estrangeira, principalmente o Brasil e a África. Concorrência essa difícil de ultrapassar quando as nossas indústrias estavam atrasadas e tinham que contratar operários especializados e competentes que gerissem de forma útil o nível de desenvolvimento tecnológico. A dificuldade de obtenção dos moldes de ferro a preços baixos era outra barreira, isto é, havia falta de moldagem. Existia também carência de matérias- primas, as quais tinham que ser importadas. Um problema que ainda se mantém e a falta de capitais e de combustível.

Com a queda do império Romano verificou-se o declínio da manufactura de vidro, embora se tivessem preservado as tecnologias e formas estilisticas, como o mosaico. Tornou-se frequente a aplicação de chapa de vidro em janelas, nomeadamente nos grandes templos góticos, onde membranas translúcidas e coloridas (vitrais) preenchiam os enormes vãos dos edifícios. Os melhores exemplares de vitrais datam dos séculos XII e XIV e foram realizados em França e Inglaterra.

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De lamentar é que as nossas indústrias tenham ainda processos de fabrico há muito ultrapassados, não fomentando a concorrência e provocando uma baixa produtividade.

1.4. Produção do vidro plano

No início do século XX, a fabricação do vidro foi sujeita a um aperfeiçoamento do antigo sistema do vidro soprado e as vidraças passam a ser feitas pelo processo do cilindro.

Este sistema era feito por meio de ar comprimido que formava um cilindro de mais ou menos 13 mm de comprimento e 1 mm de diâmetro, tirado do banho do vidro fundido, que era resfriado, cortado e esticado. Mas, o produto daqui resultante era de baixa qualidade e era apenas utilizado em janelas. Mais tarde, no ano 1914, foi inventado o processo Fourcault, que está representado na seguinte figura.

A – debiteuse

B – resfriadores da lâmina de vidro

C – máquina de estirar e recozimento vertical

de vidro C – máquina de estirar e recozimento vertical Figura 1 – Processo Fourcault de

Figura 1 – Processo Fourcault de produção contínua do vidro estirado [1].

O sistema deste método consistia na estiração vertical da lâmina de vidro através de uma barra de refractário com uma ranhura, cujo nome era debiteuse, por onde o vidro sobe até 10/15m de altura. A tracção na parte superior produz estiramento e os roletes laterais de amianto auxiliam a ascensão.

Existem quatro factores que podem afectar a espessura da lâmina de vidro:

a temperatura do vidro na câmara: quanto maior a temperatura menor a espessura;

o nível de debiteuse: quanto mais submersa, mais espessa a lâmina;

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resfriadores: quanto mais próximos do vidro, e menor a temperatura da água de circulação, mais espessa a lâmina;

velocidade do estiramento: quanto mais rápido o estiramento, mais fina a lâmina de vidro.

O início do estiramento é feito atirando-se uma lança no vidro fundido e elevando-a

verticalmente. A tensão superficial e a viscosidade farão o vidro segui-la, formando uma lâmina de vidro.

A falta de homogeneidade química e térmica que provocam diferenças de viscosidade, as

irregularidades e rachaduras na ranhura da debiteuse, as variações de temperatura na câmara e

nos resfriadores, as flutuações na velocidade de estiramento são combinadas para provocar as ondulações características dos vidros estirados. Por último, o vidro passa pela fase de recozimento, cuja principal função é eliminar as tensões internas que poderiam impedir o seu corte.

A produção do vidro faz-se através da moagem da matéria-prima: a sílica (proveniente da areia siliciosa), o óxido de cálcio (fornecido pelo carbonato de cálcio) e óxido de sódio (fornecido pelo sulfato de sódio ou pelo carbonato de sódio). Em seguida, a mistura moída é homogeneizada e cozida num forno. Após ter perdido toda a água, junta-se a esta massa o fundente, que é, em geral, constituído por bocados de vidro finamente moídos. A temperatura é elevada até 1200 a 1400º C de acordo com a composição de matéria prima. Nesta fase juntam-se-lhe os aditivos (dióxido de manganês, borato de sódio e óxido de arsénio) e os corantes (óxidos metálicos), se for o caso de se querer obter vidro colorido. A partir daí a temperatura do forno desce até aos 800 a 400º C, sobre a qual fica pastoso, pronto a ser moldado.

Muitas vezes é necessário proceder ao recozimento do vidro para melhorar as suas características, com vista à eliminação das tensões residuais que condicionam a sua resistência

ao choque.

No recozimento existem duas excepções: as fibras, pois são muito finas e por isso não requerem recozimento, e alguns produtos domésticos, que já são temperados directamente no final do processo (o Duralex, por exemplo). O recozimento é realizado em fornos tipo túnel,

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cuja entrada fica perto de onde se faz a conformação, e a saída, no local onde o produto passa por inspecção e controle da qualidade. A partir daí, o vidro está pronto para ser inspeccionado, embalado ou transformado.

1.4.1. Processo Libbey-Owens

Este processo foi introduzido em 1920. Neste processo o vidro é estirado na forma vertical mas, a dada altura, a lâmina curva-se sobre um rolo dobrador, e prossegue na forma horizontal. Existem dois pares de roldanas refrigeradas para evitar a contracção da lâmina. Como quase tudo este processo apresenta vantagens e desvantagens sobre o processo anterior:

Fourcault.

Como desvantagem podemos referir o facto da superfície não ser tão brilhante devido ao rolo dobrador. Por outro lado, as vantagens são as seguintes:

não precisa de debiteuse;

não apresenta tantas inclusões e defeitos e é melhor recozido porque essa região pode ser maior.

e é melhor recozido porque essa região pode ser maior. A – tanque de estiragem B

A – tanque de estiragem

B – resfriadores do vidro

C – rolo dobrador

D – recozimento horizontal

Figura 2 – Processo Libbey-Owens de produção contínua de vidro estirado [1].

1.4.2. Processo Pittsburgh

Processo introduzido por volta de 1925, pela Pittsburgh Plate Glass Company. Este processo é similar ao Fourcault mas a qualidade do produto é superior.

Série Materiais

O Vidro

A diferença está na debiteuse que é substituída por um bloco refractário submerso, o chamado

draw-bar, algumas polegadas abaixo da superfície da massa fundente. Determinar a linha de origem da lâmina e controlar as correntes de convecção na câmara são as suas funções.

correntes de convecção na câmara são as suas funções. A – draw-bar submerse B – resfriador

A – draw-bar submerse

B – resfriador do vidro

C – máquina vertical de estiramento e recozimento

Figura 3 - Processo Pittsburgh Plate Glass Company (PPG) [1].

Antigamente o processo utilizado era idêntico ao do vidro estirado apenas com mais fases de rectificação e de polimento.

apenas com mais fases de rectificação e de polimento. Figura 4 – Processo de fabricação do

Figura 4 – Processo de fabricação do vidro polido (processo antigo) [1]

A partir da década de 50, o processo que passou a ser utilizado na produção do vidro polido

foi o Float. Este fabrico mantinha as mesmas propriedades do Pittsburgh, mas tinha uma

grande vantagem que era a redução dos custos de produção.

Série Materiais

O Vidro

Série Materiais O Vidro Figura 5 – Processo Pittsburgh com a introdução do float [1]. O

Figura 5 – Processo Pittsburgh com a introdução do float [1].

O Float processa-se da seguinte forma: o vidro fundido corre para o banho de flutuação e sob

uma atmosfera devidamente controlada a faixa de vidro flutua (float) num banho de estanho

fundido, produzindo uma perfeita planimetria das faces.

Os custos são reduzidos quando os cerca de 20% da espessura do vidro não se perdem durante o processo de polimento.

1.5. Os fornos

Os fornos têm por função promover a reacção de fusão dos componentes, clareamento, e homogeneização da massa fundida (refino), resultando vidro fundido a uma temperatura própria para a moldagem.

Nos fornos contínuos estas fases sucedem-se no tempo, ao longo da extensão do forno.

O forno de crisol é o forno utilizado na indústria vidreira para todas as operações do seu

fabrico. O vidro é fundido em crisóis de argila refractária que se introduzem no interior do

forno. Actualmente o vidro industrial já não sofre este tipo de tratamento e é fundido em fornos de cuba - são aqueles em que o combustível está misturado com a matéria a fundir. Um dos exemplos mais importantes deste tipo de fornos são os altos-fornos.

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O Vidro

Defeitos do vidro:

pedras, nós, intundidos e estrias (má granulação e má mistura);

bolhas (falta de afinantes e de temperatura);

defeitos de moldagem (temperatura incorrecta);

excesso de quebras (resfriamento muito rápido na moldagem);

decomposição superficial;

diferenças de coloração (variações nas matérias-primas e temperatura do forno);

desvitrificações.

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O Vidro

2. Características gerais e propriedades do vidro

O vidro é um material tão comum nas nossas vidas que, muitas vezes, nem nos apercebemos o quanto ele está presente. Porém, basta olharmos à nossa volta com um pouco de atenção e vamos encontrá-lo nas janelas, nas lâmpadas, na mesa de refeições, em garrafas, copos, pratos, travessas. Além disso, muitos estarão a ver tudo isso através de óculos com lentes de vidro.

Mas, o que é o vidro? E o que faz este material ter tantas aplicações e continuar a ser usado em tão larga escala ao longo de todos este milhares de anos? Segundo a definição aceite internacionalmente, "o vidro é um produto inorgânico, de fusão, que foi resfriado até atingir a rigidez, sem formar cristais".

O vidro é uma substância inorgânica, amorfa e fisicamente homogénea, obtida por

resfriamento de uma massa em fusão que endurece pelo aumento contínuo de viscosidade até

atingir a condição de rigidez, mas sem sofrer cristalização (Barsa).

2.1. Composição

Na construção são utilizados os vidros silíco-sodo-cálcicos são compostos por:

um vitrificante, a sílica, introduzida sob a forma de areia ( 70 a 72 %);

um fundente, a soda, sob a forma de carbonato e sulfato ( cerca de 14%);

um estabilizante, o óxido de cálcio, sob a forma de calcário (cerca de 10%);

vários outros óxidos, tais como o alumínio e o magnésio, melhoram as propriedades físicas do vidro, especialmente a resistência à acção dos agentes atmosféricos;

para determinados tipos de vidro, a incorporação de diversos óxidos metálicos permitem a coloração na massa.

Série Materiais

O Vidro

Uma das razões de o vidro ser tão popular e duradouro, talvez esteja na sua análise, pois os

vidros mais comuns, aqueles usados para fazer os vidros planos e embalagens e que,

tecnicamente, são denominados "silíco-sodo-cálcicos", têm uma composição química muito

parecida com a da crosta terrestre:

Óxido

% na crosta terrestre

% nos vidros comuns

SiO 2 (sílica)

60

74

Al 2 O 3 (alumina)

15

2

Fe 2 O 3 (Óxido de Ferro)

7

0,1

CaO (cálcio)

5

9

MgO (magnésio)

3

2

Na 2 O (sódio)

4

12

K 2 O (potássio)

3

1

2.2. Propriedades físicas

2.2.1. Densidade

As densidades são muito variáveis, assim temos:

Cristal ordinário ……… 3.33

Vidro para óculos ………2.46

Vidro ordinário ……. … 2.56

Vidro para garrafas …… 2.64

Normalmente aceita-se o valor 2.5, o que dá uma massa de 2,5 kg por m2 e por mm de

espessura para os vidros planos.

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O Vidro

2.2.2. Dureza

Para determinar a dureza superficial, isto é, a resistência a ser riscado por outro material, utiliza-se a escala de MOHS. O vidro tem a dureza 6.5 entre a ORTOSE (6) e o quartzo (7).

2.2.3. Resistência à abrasão

É 16 vezes mais resistente que o granito.

2.3. Propriedades mecânicas

2.3.1. Elasticidade

O vidro é um material perfeitamente elástico: nunca apresenta deformação permanente.

No entanto é frágil, ou seja, submetido a uma flexão crescente, parte sem apresentar sinais precursores.

A) Módulo de YOUNG

É o coeficiente E que relaciona o alongamento L sofrido por uma barra de vidro de comprimento L e de secção S, submetida a um esforço de tracção F:

E F = L S
E
F =
L
S

* L

E é tanto maior quanto mais rígido for o material.

Para o vidro: E = 72 x 10 10 Pa

B) Coeficiente de Poisson (ou coeficiente de contracção lateral)

Série Materiais

O Vidro

É a relação, por unidade de comprimento, entre a contracção transversal e o alongamento de

uma barra de vidro submetida a esforços de tracção.

Para o vidro, este coeficiente é ν = 0,22.

2.3.2. Resistência à tracção

A resistência à tracção varia de 300 a 700 daN/cm2 e depende de:

Duração da carga para cargas permanentes, a resistência à tracção diminui em cerca de

40%;

Humidade; diminui em cerca de 20%;

Temperatura: a resistência diminui com o aumento de temperatura;

Estado da sua superfície, função de polimento;

Corte e estado dos bordos;

Os componentes e suas proporções.

2.3.3. Resistência à compressão

A resistência do vidro à compressão é muito elevada, cerca de 1000 N/mm 2 (1000 MPa) e não

limita praticamente o campo das suas aplicações. Em termos práticos significa que para quebrar um cubo de 1cm de lado, a carga necessária será na ordem das 10 toneladas.

2.3.4. Resistência à flexão

Um vidro submetido à flexão tem uma face a trabalhar à compressão e a outra à tracção. A resistência à rotura por flexão é da ordem de:

40 MPa (N/mm 2 ) para um vidro recozido polido;

120 a 200 MPa (N/mm 2 ) para um vidro temperado (segundo a espessura, manufactura dos bordos e tipo de fabrico).

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O Vidro

O

elevado valor da resistência do vidro temperado deve-se à operação de têmpera que coloca

as

superfícies do vidro em forte compressão.

Tendo em conta os coeficientes de segurança, as tensões de segurança, σ, habitualmente utilizadas são as indicadas na tabela 1 (em daN/cm2).

Tabela 1 – Tensões de segurança à flexão de vidros recozidos e temperados [2].

Tipo de vidro

 

Recozido

Temperado

Vidros verticais de edifícios

200

500

 

Cargas

   

Vidros

horizontais

acidentais

170

250

Cargas

   
 

permanentes

60

250

Tabela 2 – Propriedades mecânicas comparativas de alguns materiais [2]

 

Módulo de elasticidade (daN/cm 2 )

 

Tensão de Rotura

Materiais

Tracção (daN/cm 2 )

Compressão (daN/cm 2 )

Aço para construção Cobre laminado Ferro fundido Madeira (pinho) Betão Vidro recozido Tijolo

20.6x10 5

3600

a 5100

-

11.3x10 5

1960

a 2260

-

9.8x10 5

1180

a 3130

6850 a 8330

0.98x10 5

880

490

3.5x10 5

30

350

7.2x10 5

300

10000

1.05x10 5

-

140

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2.4. Propriedades térmicas

2.4.1. Calor específico

O calor específico C de um corpo é a quantidade de calor necessária para elevar de um grau,

um kilograma desse material a 20ºC. Para o vidro, o calor específico é:

C=795 J/Kg.ºC = 0.22W.h/Kg.ºC = 0.19 Kcal/.Kg.ºC

2.4.2. Condutividade térmica

Fluxo de calor é a quantidade de calor emitida por unidade de tempo. Exprime-se em watt (w) ou em kilocaloria por hora (Kcal/h).

A condutividade térmica é o fluxo de calor que passa, por hora, através de um metro quadrado

de uma parede, com um metro de espessura, para a diferença de 1ºC de temperatura, entre as suas duas faces.

Para o vidro: ------------------------------- λ = 1.16w/m.ºC ou 1Kcal/h.mºC

Material

Condutividade térmica (W.m -1 .K -1 )

Cobre

401

Ferro

53

Água

0,57

Ar (seco)

0,026

Cimento

1,4

Betão

1,28

Vidro

0,72 – 0,86

Tijolo

0,4 – 0,8

Madeira

0,11 – 0,14

Esferovite

0,033

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2.4.3. Dilatação linear

O coeficiente de dilatação linear de um sólido é a variação sofrida por uma unidade de comprimento, ao alterar de 1ºC a sua temperatura. No intervalo de 20ºC a 220ºC, o coeficiente de dilatação linear do vidro é de 9x10 6 .

Exemplo: Um vidro com 2m de comprimento, ao ser aquecido 30ºC, sofrerá um aumento de comprimento de l x l x t =2000 x 9 x 10 -6 x 30 = 0,54 mm.

Numa aproximação grosseira pode-se dizer que para um aumento de 100ºC um vidro com 1 metro de comprimento dilata 1 mm.

Tabela 3 – Coeficientes de dilatação linear de diversos materiais [8]

Coeficientes de dilatação linear comparativos

Relação aproximada

Madeira (pinho)

4

x 10 -6

0.5

Tijolo

5

x 10 -6

0.5

Calcário

5

x 10 -6

0.5

Vidro

9

x 10 -6

1

Aço

12

x 10 -6

1.4

Cimento(argamassa)

14

x 10 -6

1.5

Alumínio

23

x 10 -6

2.5

Cloreto de

70

x 10 -6

8

polivinil(PVC)

 

2.4.4. Transmissão térmica

As transferências de calor entre a superfície de uma parede e o meio envolvente são feitas por convecção e por radiação. Pelo contrário, o fluxo de calor no interior da parede será feito por condução. As trocas de calor entre o meio circundante e as superfícies da parede são definidas através dos coeficientes h e e h j, de troca superficial das faces exterior e interior, respectivamente (em Kcal/hmºC).

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2.4.4.1. Radiação solar global

Valores máximos

A intensidade da radiação solar global incidente sobre a superfície de um vidro depende:

Da latitude geográfica do local;

Da altitude do solo no local;

Da estação do ano;

Da hora do dia;

Da orientação do vidro;

Da inclinação do vidro;

Da poluição atmosférica;

Do ambiente circundante (sombra projectada sobre o vidro, albedo).

Em Portugal Continental, os valores máximos da radiação solar global são, de uma maneira geral, os das tabelas 4 e 5.

Superfícies Verticais

Tabela 4 – Radiação solar máxima – Superfícies verticais [8].

 

Radiação solar máxima (W/m 2 ) Superfícies Verticais

 

Estações do Ano

N

E

S-E

S

S-O

O

Inverno

90

680

940

1050

920

670

Prim./Out.

150

720

980

790

940

700

Verão

180

900

880

460

800

780

Série Materiais

O Vidro

Série Materiais O Vidro Figura 6 – Radiação solar global m áxima – Superfície s verticais

Figura 6 – Radiação solar global máxima – Superfícies verticais [8].

Superfícies inclinadas

Tabela 5 – Radiação solar máxima – Superfícies inclinadas [8].

 

Radiação solar global máxima (W/m 2 ) Superfícies Inclinadas

 

(todas as Estações e Orientações excepto o Norte)

90°

75°

60°

45°

30°

15°

1050

1100

1150

1150

1150

1100

1100

Estações do

 

Radiação solar global máxima (W/m 2 ) Superfícies Inclinadas

 

Ano

(todas as Estações e Orientações excepto o Norte)

(90°-75°)

(75°-60°)

(60°-45°)

(45°-30°)

(30°-15°)

(15°-0°)

Verão

900

1000

1100

1100

1100

1100

Inverno

1050

1100

1100

1050

900

750

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Série Materiais O Vidro Figura 7 – Temperaturas exteriores no Verão - máximas absolutas [8]. Figura

Figura 7 – Temperaturas exteriores no Verão - máximas absolutas [8].

Temperaturas exteriores no Verão - máximas absolutas [8]. Figura 8 – Temperaturas exteriores de Inverno -

Figura 8 – Temperaturas exteriores de Inverno - mínimas absolutas [8].

Série Materiais

O Vidro

Quando não existe informação sobre a localização do edifício, adoptar-se-ão os valores das tabelas 6 e 7.

Tabela 6 – Temperaturas exteriores convencionais [8].

Temperaturas exteriores convencionais (°C)

Verão

36.5°C

Inverno

-6.0°C

Tabela 7 – Temperaturas interiores [8].

Temperaturas interiores convencionais (°C)

Verão

25°C

Inverno

20°C

Tabela 8 – Coeficientes de transferência de calor nas superfícies exterior e interior, he e hi, convencionais [8].

 

h e e h i [W/(m 2 .K)] convencionais

h

e

hi

Verão

Inverno

Sup. Vert

23

34

8

Valores práticos de he e hi (determinação das temperaturas extremas). O movimento forçado do ar em contacto com o vidro influencia significativamente o valor de he:

he = 8,23 + 3,33 v – 0,036 v 2 v = velocidade do vento [m/s]

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Tabela 9 – Temperatura média nas superfícies interiores [8].

h i [W/(m 2 .K)]

Verão

19

Inverno

29

Os efeitos térmicos sobre os vidros são mais importantes na ausência de vento (convecção natural). Neste caso, o valor de he depende da posição do vidro e do sentido do fluxo de calor, conforme tabela 10.

Tabela 10 – Temperatura média nas superfícies exteriores por convecção natural [8].

 

h e [W/(m 2 .K)]

 

Posição do Vidro

Fluxo Calor

Verão

Inverno

Horizontal

Ascendente

7

7.5

Vertical

Horizontal

7

7

horizontal

Descendente

7

6

Em convecção natural, reter-se-ão os valores de hi da tabela 11.

Tabela 11 – Temperatura média nas superfícies interiores por convecção natural [8].

 

h e [W/(m 2 .K)]

 

Posição do Vidro

Fluxo Calor

Verão

Inverno

Horizontal

Ascendente

8.5

8

Vertical

Horizontal

8

7.5

horizontal

Descendente

6.5

 

Série Materiais

O Vidro

Tabela 12 – Resistência térmica/ Posição do envidraçado e do sentido do fluxo de calor

[8].

Posição do envidraçado e sentido do fluxo de calor

Resistência térmica (m 2 hºc/Kcal)

1/hi

1/he

1/hi+1/he

Vertical ou pendente sobre a horizontal 60º e fluxo horizontal

0.13

0.07

0.20

Horizontal ou com pendente sobre a horizontal 60º e fluxo ascendente

0.11

0.06

0.17

Horizontal e fluxo descendente

0.20

0.06

0.26

Os valores de h e da tabela são válidos para uma velocidade do vento de 10.88 Km/h. Quando a velocidade aumentar de 10 Km/h, o coeficiente h e aumentará 7.5 Kcal/h. m 2 ºC

Quando uma das camadas atravessada pelo fluxo de calor fôr constituída por ar, o coeficiente de condutibilidade térmica λ variará com a espessura da camada. A tabela 13 fornece esses valores.

Tabela 13 – Coeficiente de condutibilidade térmica / Espessura da camada [1].

Espessura

                         

(mm)

3

4

5

6

7

8

9

10

11

12

13

14

15

λ

                         

(Kcal/h.m 2 .ºC)

.034

.038

.042

.046

.051

.055

.059

.064

.068

.073

.078

.082

.087

e/λ

.088

.105

.119

.130

.137

.145

.152

.156

.162

.164

.167

.171

.172

Para a velocidade do vento de 40 Km/h os valores de K aumentam de 26% no vidro simples, e 12.6% no vidro duplo. Quer dizer que as perdas caloríficas são mais sensíveis no vidro simples do que no vidro duplo. Na prática, os valores médios adoptados nos coeficientes para os principais tipos de vidro em paredes verticais, são os da tabela 14.

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Tabela 14 – Coeficiente de condutibilidade térmica / Tipo de vidro [1]

Tipos de vidro

W/m 2 .ºC

Kcal/hm 2

1. Vidros simples lisos incolores, impressos, armados, atérmicos, reflectantes e laminados

5,7

4,9

2. Vidros isolantes duplos com caixa de ar de:

   

6

mm

3,4

2,9

8

mm

3,2

2,8

10

mm

3,1

2,7

12

mm

3,0

2,6

3. Perfilados de vidro impresso em U

   

painéis simples

6,4

5,5

painéis duplos

3,5

3,0

2.5. Tensões Térmicas

A fraca condutibilidade térmica do vidro, o reaquecimento ou o arrefecimento parcial do vidro, conduzem a tensões que podem provocar quebras designadas por térmicas.

O exemplo mais frequente de risco de quebra térmica é relativamente aos bordos de um vidro absorvente montado num caixilho, submetido a uma forte exposição solar e que reaquece mais lentamente que a superfície do vidro. No vidro recozido não se devem verificar diferencias de temperatura superiores a 30º C. Quando se preveja passar este diferencial, será necessário temperar o vidro.

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2.5.1. Resistência ao choque térmico

Depende do módulo de elasticidade, da resistência à tracção e do coeficiente de dilatação.

Para o vidro recozido considera-se para o seu valor 60º, para o vidro temperado este valor é

da ordem de 240º C. a 300º C.

2.5.2. Resistência ao fogo

O grau de resistência ao fogo dos elementos de construção é determinado de acordo com os

resultados obtidos em ensaios normalizados; as amostras ensaiam-se em fornos que simulam

um incêndio. O aquecimento em função do tempo é definido através da relação:

T – T 0 = 345 log. (8t + 1)

em que:

T – temperatura do meio envolvente da amostra

T

0 – temperatura inicial da amostra

t

– tempo de exposição ao fogo da amostra (em minutos)

A escala de graus atingidos pela amostra exposta a um incêndio simulado consta da tabela 15.

Tabela 15 – Graus atingidos por elementos de construção exposta a um incêndio simulado [1]

15 min.

30 min.

60 min.

90 min.

120 min.

180 min.

718º C

827º C

925º C

986º C

1.030º C

1.090º C

experimentais:

quatro

critérios

para

determinar

1. Resistência mecânica;

a

resistência

ao

2. Isolamento térmico;

3. Estanquidade às chamas;

4. Ausência de emissão de gases inflamáveis.

fogo,

baseados

em

resultados

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Segundo

categorias:

os

critérios

assinalados,

os

elementos

de

construção

classificam-se

em

três

Elementos estáveis ao fogo (só satisfazem o critério 1) – EF

Elementos pára-chamas (satisfazem os critérios 1, 3 e 4) – PC

Elementos corta-fogo (satisfazem os quatro critérios) – CF

Os elementos enquadrados nas três categorias descritas, distinguem-se por graus expressos em função do tempo de exposição do ensaio, desde que o material satisfaça nos ensaios durante tempos pelo menos iguais a: 15 min, 30 min, 60 min, 90 min, 120 min, 180 min, 240 min, 360 min.

Exemplo: um material que satisfaça aos quatro critérios durante 35 minutos será classificada em CF 30 min. Se satisfazer aos critérios 1, 3 e 4 durante 68min, será classificado em PC: 60 min.

Todos os materiais em vidro têm a classificação de “materiais incombustíveis”. Quanto à sua resistência ao fogo, apresentam a categoria de pára-chamas (PC) e alguns a de corta-fogo (CF).

Através dos ensaios realizados é possível tirar as seguintes conclusões:

O vidro recozido parte rapidamente por choque térmico; O vidro temperado resiste melhor, mas a resistência diminui muito quando se está a fragmentar, excepto se for de pequenas dimensões; Nos vidros aramados, a armadura metálica mantém uma certa coesão no vidro, suficiente para assegurar a estanquidade às chamas e retardar o aparecimento de fractura logo que o vidro entre em fluência (650/700ºC.).

Estudos recentes conduziram ao aparecimento de um gel especial perfeitamente transparente que, colocado entre dois vidros aramados ou temperados, permite constituir um novo conjunto de qualidades excepcionais, obtendo-se Vidro Corta-fogo. Este gel, posto rapidamente em contacto com o fogo pelo desaparecimento do vidro exposto, comporta-se como uma barreira térmica. A temperatura da face protegida eleva-se só lentamente e o conjunto responde ao clássico corta-fogo.

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2.6. Propriedade acústicas

2.6.1. Intensidade, pressões e níveis acústicos

A “força” de um ruído, som fraco ou forte, pode ser caracterizada pela sua intensidade I ou a

sua pressão P, medidas respectivamente em W/m 2 e em Pascal. Na prática utiliza-se o nível de pressão, ou de intensidade, representando numa escala logarítmica cuja ordem é o patamar de audição que apresenta os seguintes valores:

Nível de Intensidade: Li = 10 log

ID Nível de pressão: Lp = 10 log (P 2 / P 0 2 ) = 20 log (P/ P 0 )

I
I

I 0 =10 -12 w/m 2

P 0 =2 x 10 -5 pa

A unidade de intensidade, o decibel (dB), é o logaritmo de uma relação.

Nota: Se as intensidades acústicas se podem adicionar, o mesmo não acontece aos níveis acústicos.

Exemplo: duas fontes produzindo cada uma um nível de 40 db dão em conjunto 43 dB (e não 80), isto é, um aumento de apenas 3 dB.

Tabela 16 – Tipo de som / Local da emissão – Grau de intensidade do som [1].

Grau

Tipo de som / Local da emissão

0

Menor intensidade sonora perceptível pelo ouvido humano Quase silêncio – jardim tranquilo Sons de fraca intensidade – rua local (zona residencial) Ruídos de conversação – restaurantes, edifícios comerciais Carro eléctrico, autocarro, fábricas Rua de grande tráfego, oficina metalúrgica Martelo pneumático a 3m Motor de avião a 6m

20-30

30-50

60-80

80-90

90-100

100-110

110-120

130

Início de sensação dolorosa

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2.6.2. Frequência

A frequência é o número de vezes que o fenómeno periódico (acústico ou outro) se repete em

cada segundo. Exprime-se em ciclos por segundo (C/S), sendo esta unidade denominada Hertz (Hz).

O ouvido humano é sensível a sons cujas frequências estão compreendidas entre 16 e 20.000

Hz.

Na acústica de edifícios só é considerado o intervalo de 100 a 5000 Hz dividido em bandas de oitava (cada frequência é dupla da anterior), ou de 1/3 de oitava.

2.6.3. Transmissão de sons

A transmissão de sons aéreos através das paredes efectua-se simultaneamente de diferentes

maneiras. Tabela 17 – Espessura mínima dos vidros aconselhável em função do nível sonoro [1]

Estas são classificadas, grosso modo::

Transmissão e difracção se a estanquidade não for perfeita;

Entrada em vibração da parede que, deslocando-se e deformando-se, se comporta como um verdadeiro emissor. Através de uma parede não porosa, como o vidro, a transmissão de um som aéreo depende essencialmente:

Da sua massa e da sua rigidez; Do seu modo de fixação: rígido ou flexível.

Pode-se concluir que quanto maiores forem as espessuras e a massa do vidro, por um lado, e sua descontinuidade à caixilharia, por outro, menores serão as vibrações e maior é o isolamento. Os vidros de alta gama devem ser montados em caixilhos de alta performance

Série Materiais

O Vidro

   

Nível sonoro do ambiente exterior

 
 

Zona calma

 

Zona pouco ruidosa (42-62 dB)

Zona muito ruidosa (62-80 dB)

Tipo

 

(42 dB)

 

de

 

Recozido

 

Temperado

   

Recozido

 

Temperado

   

Recozido

 

Temperado

 

Edifício

Vidro

Vidro

Vidro

Isolante

Vidro

Vidro

Vidro

Isolante

Vidro

Vidro

Vidro

Isolante

Hospitais

5

5

4+4

8

8

4+4

10

10

12+8

Escritórios /

                 

bibliotecas

4

4

4+4

5

5

5+4

6

6

8+6

Escolas

4

6

4+4

5

6

5+4

6

6

8+6

Hotéis /

                 

Moradias

3

4

4+4

4

4

4+4

5

5

6+4

Edifícios

                 

Comerciais

-

8

- -

8

- -

8

-

Edifícios

                 

Industriais

3

4

- 3

4

- 3

4

-

.

2.6.4. Altura

Permite distinguir um som agudo de um grave, consoante a respectiva frequência:

entre 16 e 315 Hz: sons graves;

entre 400 e 1250 Hz: sons médios;

a partir de 1250 Hz: sons agudos.

2.7. Propriedades espectro – fotométricas (ópticas)

2.7.1. Transmissão da radiação através do vidro

A radiação solar que atinge a superfície da terra é composta por:

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Radiações visíveis, cujos comprimentos de onda estão compreendidos entre 0,38 e 0,75µm (1µm =10 -6 m), do violeta ao vermelho;

Radiações ultravioletas invisíveis, com comprimentos de onda que vão de 0,3 a

0,38µm;

Radiações infravermelhas curtas, igualmente invisíveis, de comprimentos de onda entre 0,75 a 2,5 µm.

As percentagens respectivas de cada tipo de radiação relativamente à radiação total são, aproximadamente:

Radiações visíveis: 50%;

Radiações ultravioletas: 3%;

Radiações infravermelhas: 47%.

Acima de 2,5 µm existem as radiações infravermelhas longas que, não sendo emitidas pelo sol, correspondem à emissão de todos os corpos previamente aquecidos por ele, em particular o solo, as paredes das casas, etc

Cada uma destas três categorias de radiação são em parte transmitidas, reflectidas e absorvidas pelos vidros em proporções diferentes e muito variáveis conforme o tipo de vidro.

O vidro incolor é transparente na proximidade da radiação ultravioleta, aproximadamente 90% da radiação visível e 80% da radiação infravermelha curta. É, pelo contrário, praticamente opaco à radiação infravermelha longa. Esta propriedade confere ao vidro a sua utilização em estufas, pois permite a entrada da radiação calorífica conservando-a depois no interior.

Do mesmo modo que numa estufa, a temperatura de uma peça aquecida pelo sol subirá rapidamente se as janelas estiverem fechadas, o ambiente tornar-se-á assim, desconfortável. Daqui surge a necessidade de controlar o aquecimento solar.

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2.7.2. Transmissão luminosa

Uma primeira característica dos vidros é o factor de transmissão luminosa, relação entre o fluxo luminoso que atravessa o vidro e o fluxo incidente. Este factor intervém somente na luz visível, não sendo, por isso, suficiente para apreciar o comportamento dum vidro à radiação global. Com efeito, falta a acção dos raios infravermelhos que são portadores duma energia calorífica importante, como se viu anteriormente, sendo absorvidos em proporções muito variáveis segundo os diferentes tipos de vidro.

O factor de reflexão luminosa é a relação entre o fluxo luminoso reflectido e o fluxo incidente. As tabelas indicadas no anexo IV dão, para cada tipo de vidro e para a luz natural, estes dois factores sob uma incidência normal. De notar que estes factores são dados a título indicativo como ordem de grandeza, pois podem surgir ligeiras alterações em função do fabrico.

2.7.3. Transmissão energética

Uma segunda característica dos vidros, que tem em conta com maior precisão o seu comportamento sob a radiação solar, é o factor de transmissão energética, isto é, a relação entre o fluxo energético que atravessa o vidro e o fluxo incidente (visível ou invisível). Os factores de reflexão e absorção energética são as relações entre os fluxos energéticos reflectidos ou absorvidos e o fluxo da energia incidente.

Conforme as percentagens de raios infravermelhos absorvidos forem iguais, superiores ou inferiores às percentagens de luz visível absorvida, assim os factores de transmissão energética serão respectivamente iguais, superiores ou inferiores aos factores de transmissão luminosa.

O factor de transmissão energética, com maior interesse que o factor de transmissão luminosa, não é ainda suficiente na prática. Isto porque a parte da radiação solar absorvida pelos vidros aquece estes últimos e a energia calorífica, assim produzida, é distribuída pelos dois meios ambientes de um e do outro lado do vidro. Para o exterior, a energia é rapidamente dissipada mas, para o interior ela irá adicionar-se à energia que penetrou por transmissão directa.

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2.7.3.1. Factor Solar

É a razão entre a energia total que atravessa determinado material e a energia solar incidente.

Esta energia total é a soma da energia cedida pelo vidro ao ambiente interior, como consequência do seu aquecimento por absorção energética. As tabelas que se podem consultar no anexo IV, mostram os factores solares de diferentes tipos de vidros em função dos factores de transmissão energética. O factor solar depende da posição do sol e das condições exteriores, tal como a intensidade de convecção natural favorecida pelo vento. Para o cálculo do factor solar considera-se:

O sol 30º acima do horizonte num plano perpendicular à fachada;

As temperaturas ambientes, interior e exterior, são iguais entre si;

Os coeficientes de troca de energia do vidro para o exterior de 23W/mºC e para o interior de 8W/m 2 ºC. O conceito de factor solar é aplicado igualmente aos vidros associados a outras protecções solares. Deste modo, para vidros com estores temos as seguintes características energéticas (estores interiores e estores exteriores):

reflexão:0,40; absorção:0,50; transmissão:0,10.

2.8. Cores

Uma das características mais interessantes do vidro é a sua cor. Os vidros podem-se apresentar desde o mais puro incolor até infinitas cores, que também podem variar desde uma leve tonalidade até a total opacidade. A cor do vidro pode ter uma função apenas estética, e

não por isso menos importante. Basta lembrarmo-nos dos vitrais e de todas as peças artísticas

e decorativas que nos causam prazer em admirar. Em questões de marketing a cor também é muito importante pois ajuda muito na escolha do produto.

Um exemplo são os frascos de perfumes que existem nas mais diferentes formas e cores para chamar a atenção dos clientes. Além da função estética, a cor do vidro tem também uma função utilitária. Quando um vidro apresenta uma determinada cor é porque ele contém na sua composição química alguns elementos que interferem ou filtram a luz que sobre ele está a incidir. Por exemplo, uma garrafa é verde porque a luz do sol ou a luz artificial que incide nela, que contém todas as cores, ao atravessar o vidro, que no caso contém cromo, é filtrada,

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O Vidro

passando somente a porção verde da cor sendo as demais retidas. É por esta razão que vemos

a garrafa verde.

Dependendo dos elementos que introduzimos na composição do vidro, este filtra a luz, deixando passar alguns raios e retendo outros. Por isso se utilizam garrafas âmbar para

cerveja ou verde para o vinho, pois estes vidros impedem a passagem de certas radiações (ultravioleta), que estragariam os produtos. O vidro é o único material que possibilita a visualização do produto que ele contém, ao mesmo tempo que o protege contra radiações que

o deteriorariam.

No caso dos vidros planos das janelas, dos prédios ou veículos, utiliza-se o mesmo princípio. Colora-se o vidro de maneira a que ele impeça a passagem da radiação responsável pelo aquecimento (infravermelha) mas permita a passagem da luz visível, possibilitando a visão através das janelas.

Desta maneira, o ambiente aquece menos e ao mesmo tempo não se torna necessário utilizar iluminação artificial durante o dia, economizando energia na iluminação e no ar condicionado. Este também é o princípio dos vidros reflexivos, que são utilizados nos prédios modernos, através dos quais durante o dia parecem um enorme espelho. Na verdade, além de

bonitos, estes vidros reflectem boa parte da radiação solar que de outra forma estaria a entrar e

a aquecer o ambiente.

2.8.1. O efeito do ferro na cor

O ferro encontra-se no vidro no estado tri-valente (Fe 2 O 3 ), que é o mais oxidado (+) e no

estado bi-valente (FeO) que é o mais reduzido (-).

O efeito corante do FeO é de cinco ou seis vezes mais que o Fe 2 O 3 . Portanto, é mais desejável

manter o máximo de ferro no estado de Fe 2 O 3 . Este Fe 2 O 3 impacta ao vidro uma tonalidade ligeiramente amarela esverdeada e o FeO dá uma tonalidade mais azulada, somente mais intensa para a mesma quantidade.