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MODERNIDADE RECENTE E SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL:

SEUS IMPACTOS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Autor: Vinicius dos Santos Santana


Universidade do Estado do Rio de Janeiro
vinidsantanan@gmail.com

RESUMO

Palavras-chave: Segregação e Modernidade

Esta pesquisa busca analisar como as transformações na Modernidade


repercutiram sobre a dinâmica espacial urbana, pois entendemos assim como
aponta CORREA (1997) que as relações espaciais são de natureza sociais
sendo condicionados pelos movimentos da sociedade. Ao analisar transição da
Modernidade para a Modernidade Recente tentamos demonstrar como o
surgimento de novos valores e a reestruturação ocorrida a partir do pós-
fordismo e da revolução cultural aumentaram as tensões sociais de forma a
exacerbar a segregação promovendo a “fragmentação do tecido sociopolítico-
espacial” (SOUZA, 2000) a partir da eminência da sociedade do risco
(GIDDENS, 1991) e das modificações na visão e no tratamento da violência
urbana com a passagem de uma sociedade Inclusiva a uma sociedade
Excludente.
AS TRANSFORMAÇÕES DA MODERNIDADE
À MODERNIDADE RECENTE:

A partir de meados do século XX verificamos grandes transformações na


sociedade nas quais promoveram a esgarçadura do tecido social do mundo
industrializado, sobretudo no último terço do século XX, a partir do crescimento
do individualismo e da busca por igualdade social emergente que permearam e
modificaram as relações sociais e a vida como um todo. Estas modificações
têm sua base na alteração nos padrões culturais e materiais, onde a revolução
cultural iniciada na década de 60 e a passagem para um novo paradigma
industrial, o pós-fordismo com o advento da Globalização, transformaram
radicalmente a Modernidade.
A importância deste trabalho é que ao entendermos que o espaço é
derivado das relações sociais nele existentes buscamos averiguar como as
mudanças na sociedade influenciaram a dinâmica espacial, pois, assim como
aponta CORREA (1997), acreditamos que o espaço seja reflexo da sociedade.
Vivemos em um momento que mudanças estruturais maciças ocorreram
e ainda estão acontecendo; modificações no mundo do trabalho, onde o padrão
de emprego das mulheres sofreu profundas alterações, a criação de um
desemprego estrutural em grande escala; alterações nos padrões de lazer e de
consumo; mudanças no papel e atuação do Estado. Ao mesmo aconteceram
também bruscas modificações no que tange a cultura como a transformação
dos padrões de desejo; o surgimento de novas comunidades num contexto
multicultural; os padrões de recompensa e esforço foram re-delimitados; o
individualismo adentrou o cotidiano de nossas vidas (HARVEY,1996).
O discurso do mercado introduzido a partir da década de 80 colocou em
ameaça a metanarrativa da democracia social e da modernidade na
impossibilidade de cumprir seus ideais universalistas. Todas estas
transformações causaram impactos também nos níveis de criminalidade e nas
suas repercussões espaciais que são o foco deste estudo.
A reestruturação da produção industrial, numa lógica toyotista, propiciou
o aumento de um exército de mão-de-obra a níveis jamais vistos. SANTOS
(2001) ao descrever tal situação aponta que este exército não pode ser
considerado na acepção marxista, pois excede a sua previsão ganhando novos
contornos. Não se trata mais da necessidade de desempregados para a
redução dos salários, esta parcela marginalizada se tornou dispensável ao
capitalismo, onde “(...) seu trabalho é desnecessário, a introjeção de hábitos de
pontualidade e da disciplina irrelevante, sua demanda de consumo é útil, mas
facilmente controlável” (YOUNG, 2002: p. 83).
O desenvolvimento do meio técnico-cinentífico e informacional eliminou
muitos postos de trabalho assim como precarizou as relações de trabalho, as
demissões não mais resultam de um fracasso empresarial, mas de sucesso,
onde a automação é visto como um passo essencial para o desenvolvimento. A
partir de tais transformações do mundo industrial moderno, apontadas por
HARVEY (1996), cria-se uma sociedade de “Loosers” e “Winners” onde esta
sociedade tem se tornado desagradável até mesmo para os vencedores
(YOUNG, 2002).
O discurso meritocrata, por sua vez, retira a responsabilidade do Estado
de promulgação do Bem-estar social e de responsabilidade ao acesso ao
mercado de trabalho e transfere-o ao individuo, logo cabe ao individuo a busca
por satisfazer suas necessidades de modo que na ilusão mercadológica há
igualdade de oportunidades e o fracasso é visto como insuficiência individual,
eximindo assim o sistema por suas falhas.
A Modernidade ao conduziu a uma crescente expectativa de cidadania,
o que resultou num sentido disseminado de demandas e desejos não
satisfeitos gerados por um discurso universalista que ruiu com as
transformações de meados do século XX. Na modernidade recente, a
frustração de demanda expressiva de acesso se tornou uma fonte de tensão do
sistema na impossibilidade de atender aos anseios de outrora.
Contudo, a questão da criminalidade não se dá somente devido a falta
de acesso e a critérios materiais, o que poderia incorrer num reducionismo e
numa correlação errônea entre criminalidade e pobreza. Tal correlação pode
ser enganosa, considerando que houve um aumento expressivo na década de
60 no padrão de vida da população dos países centrais que foi acompanhado
do aumento da criminalidade. Portanto a crença de que o crime era
determinado por más condições sociais foi visivelmente contradita, pois a
criminalidade cresceu ao passo que o Ocidente enriqueceu.
Há de se levar em consideração as transformações culturais que
ocorreram neste momento de transição, iniciadas segundo HOBSBAWN (1996)
após os anos “dourados” no que compreendeu ao final dos anos 1960 e dos
anos 1970,

“A revolução cultural do final do século XX pode assim ser


compreendida como o triunfo do indivíduo sobre a sociedade ou,
melhor, como a ruptura dos fios que antes entrelaçavam os seres
humanos nas texturas sociais.” (HOBSBAWN, 1996: 334)

Verifica se que a ascensão do individualismo dando suporte a um


modelo de competição, o crescimento da diversidade e a desconstrução em
vastíssima escala dos valores aceitos. Logo o sentimento universalista de
caráter coletivo é substituído e as instituições disciplinares passam a ser
questionadas e/ou perdem suas respectivas funções. “(...) as instituições
fundamentais do trabalho e da família já não proveriam mais as trajetórias do
berço ao túmulo que cingem, absorvem e asseguram” (YOUNG, 2002:p 24).

(...) Uma vez que tais práticas e instituições não eram mais aceitas
como parte de um modo de ordenar a sociedade que ligava as
pessoas umas às outras, e que assegurava a cooperação social e a
reprodução, desapareceu a maior parte de sua capacidade de
estruturar a vida social.” (HOBSBAWN, 1996: p. 332)

A sociedade de mercado concebeu uma cultura de individualismo que


devasta as relações sociais e os valores necessários a uma ordem social
estável, fazendo aumentar, consequentemente a desordem e a criminalidade.
A solidariedade da comunidade e da família concederam lugar a fragmentação,
no lugar de valores coletivos, entrou-se numa lógica de cada um por si.
Na modernidade o crime e desvio eram vistos como anomalias que
deveriam ser “consertadas”. Não havia o medo do indivíduo “difícil”, pois as
instituições disciplinares forneciam a base de transformação para a
reincorporação na sociedade e, sobretudo no mercado trabalho. A ameaça não
vinha da dificuldade, o que ameaçava a modernidade era a diversidade, esta
poderia colocar em risco suas estruturas de poder, o novo assim como aponta
SANTOS (1978) imprime novas relações. A modernidade abominava a
pluralidade e transformava valores relativos por absolutismo de padrões. No
que tange a criminologia havia uma tentativa de transformar a diversidade em
desvio, em algo que estava fora da sociedade associando a uma falta de
“cultura” ou a precariedade material. A partir do individualismo e de um maior
questionamento as estruturas de poder houve grandes transformações, onde:

“(...) O mundo moderno recente celebra a diversidade e diferença,


que lê absorve e saneia prontamente; o que não pode agüentar são
pessoas difíceis e classes perigosas, contra as quais ele busca
construir as mais elaboradas defesas, não apenas em termos de
pessoas de dentro e de fora do grupo, mas na população como um
todo. (YOUNG, 2002: p. 96)

O Desvio só é um efeito “normal” quando a pobreza e as desvantagens


a ela relacionada na competição por valores culturais legitimados para todos os
membros da sociedade é atrelada a assimilação de uma ênfase cultural na
acumulação monetária como símbolo de sucesso. O crime ocorre, portanto
quando há uma inclusão social e exclusão estrutural. Não é resultado da falta
de “cultura”, mas do ingresso a uma cultura de sucesso e individualismo. Nem
ocorre em decorrência de privação material, nem em resposta ao déficit de
oportunidade, mas a privação no contexto de um “american dream”, em que se
exorta a meritocracia para todos. Esta privação relativa, ou seja, não a privação
em si, mas a de ofertas, recompensas, em grau comparativo, forma uma fonte
poderosa de criminalidade, o que não implica na necessidade de precariedade
material para o desvio ocorra (YOUNG, 2002).

(...) Pois não foi a privação absoluta, mas sim a privação relativa que
originou a inquietação social, e esta experiência subjetiva de
desigualdades e injustiça é correlata à meritocracia, não à
oportunidade, isto é, à alocação da recompensa por mérito em vez
de apenas à oportunidade de ganhar a vida. (YOUNG, 2002: p. 123)

A criminalidade, portanto não atende a determinadas classes sociais,


nem a determinaçõs diversas, mas se encontra difusa. Tal concepção contrasta
com o mundo moderno de ansiedades e perigos previsíveis, o que há é um
mundo de incerteza, uma “sociedade do risco”, incerteza e contingências estão
na porta a todo instante,

“Não só porque ocorrem processos mais ou menos contínuos e


profundos de mudança, mas antes porque as mudanças que
ocorrem não correspondem coerentemente nem à expectativa nem
ao controle humano.
(...) Aceitar riscos é um risco... é reconhecer que nenhum aspecto de
nossas atividades segue um curso predestinado, e que estão todos
abertos a contingências. (...) Viver numa “Sociedade do Risco”
significa viver numa atitude cálculo em relação a possibilidades
abertas de ação, positivas e negativas, com as quais, como
indivíduos e globalmente, somos continuamente confrontados na
nossa existência contemporânea.” (GIDDENS, 1991, p.28)

As forças de mercado que modificaram as esferas da produção do


consumo contestaram inexoravelmente as concepções de certeza material e de
valores incontestes, substituindo-as por um mundo de crises e insegurança, de
escolha individual e pluralidade, e de uma crescente precariedade econômica.
SOCIEDADE EXCLUDENTE: DO ESTADO CARITATIVO
AO ESTADO PENAL

A partir das transformações supracitadas o ideário moderno de


transformação do desviante e da criminalidade transforma-se, de deixando seu
caráter inclusivo se tornado o exclusivo. As mudanças trouxeram novos olhares
a cerca da criminalidade que por sua vez causaram modificações na atuação
contra a mesma. As respostas partiram do principio de buscar lidar com um
mundo mais diverso, um mundo em que a criminalidade e a desordem se
tornaram muito mais disseminados.
Com o advento do neoliberalismo, o Estado Mínimo, o bem-estar social
não é mais concedido via políticas públicas, mas o mercado que é visto como
possibilidade de salvação, ainda que as chances de aumento do mercado de
trabalho sejam extremamente incertas e improváveis.

(...) nessa luta o grande patronato e as frações “modernizadoras” da


burguesia e da nobreza de Estado que, aliadas sob a bandeira do
neoliberalismo, tomaram a frente e iniciaram uma vasta campanha
de sabotagem da potência pública. Desregulação social, ascensão
do salariado precário (...) e retomada do Estado punitivo seguem
juntos: a “mão invisível” do mercado de trabalho precarizado
encontra seu complemento institucional no “punho de ferro” do
Estado que se reorganiza de maneira a estrangular as desordens
geradas pela difusão da insegurança social.” (WACQUANT, 2003: p.
147)

É interessante notar que as mesmas forças de mercado que tornaram


nossa identidade precária e nosso futuro incerto, que fomentaram um aumento
constante das nossas expectativas de cidadania produzindo demandas
frustradas e desejos não satisfeitos agora é chamado para consertar os
problemas que a sua assimilação criou. Uma das perversões da nova ordem
econômica foi internalizar individualmente o fracasso da pobreza como
responsabilidade pessoal, o que também tange a mão-de-obra no sentido de
aceitar de enfraquecida o emprego precário e sem direitos.
Este fenômeno tem como um dos fatores as reestruturações promovidas
pelo pós-fordismo que enfraqueceu os movimentos sindicais a partir da
desconcentração industrial e de uma crescente automação que, como
supracitado, fez com o exército de reserva se tornasse excedente. Sobre esta
última consideração, Deleuze aponta que:

(...) o homem não é mais o homem confinado, mas o homem


endividado. É verdade que o capitalismo manteve como constante a
miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para o
endividamento, numerosos demais para o confinamento: o controle
não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a
explosão dos ghetos e favelas. (DELEUZE, 1992: p. 224)

A busca por segurança acontece correlata ao abandono do “direito ao


trabalho” sob sua antiga forma (isto é, em tempo integral, não precarizado, com
direitos e salários viáveis) onde parte da população encontra-se em Estado de
exclusão, exclusão esta em nível de consumo e não necessidade de sua re-
incorporação. São criados meios dedicados às funções de manutenção de
ordem que ocorrem também no momento certo para preencher o déficit de
legitimidade de que sofrem os responsáveis políticos exatamente porque
renegaram as missões do Estado em matéria econômica e social.
O dualismo Estado x Crime organizado é transformado numa ideologia
de segurança nacional, não havendo o questionamento de até que ponto ou
como o Estado é responsável ou envolvido na reprodução do crime. É o fim do
Estado Caritativo, mantenedor do bem-estar social, e o início do Estado
Jurídico Repressivo. A guerra contra pobreza é substituída por uma guerra
contra os pobres, a transição do Estado-Providência para um estado que
criminaliza a miséria (WAQUANT, 2001).
Na modernidade recente, a incorporação, a assimilação do desviante é
trocada por um processo de exclusão. Esta se dá em três níveis que em geral
são complementares: a exclusão econômica dos mercados de trabalho; a
exclusão entre pessoas na sociedade civil, e nas atividades excludentes
sempre crescentes do sistema de justiça criminal e da segurança privada
(YOUNG, 2002).
Para o autor, o Estado assume um discurso atuarial no tratamento da
criminalidade. A preocupação deste método está na minimização dos danos e
não com a justiça, em que as causas do crime e desvios não são mais vistas
como indícios vitais para a solução do problema da criminalidade. A postura
atuarial está focada no cálculo do risco, não se preocupando com as causas,
mas com as probabilidades, não tem a pretensão de livrar o mundo da
criminalidade, mas busca um mundo onde tenham sido postas em práticas as
melhores rotinas de limitação de perdas; não uma utopia, mas uma série de
paraísos murados num mundo hostil.
Ainda segundo o autor esta criminologia administrativa esclarece a
criminalidade como o resultado inevitável de uma situação em que o estado
universal de imperfeição humana é apresentado como oportunidade para
condutas erradas (YOUNG, 2002). Sua empreitada é produzir barreiras para
diminuir tais oportunidades e construir uma política de prevenção da
criminalidade que minimize riscos e limite perdas. Tal criminologia
administrativa se preocupa em gerir em vez de reformar, seu “realismo” está
em não pretender eliminar o crime, o que ela sabe ser impossível, mas
minimizar riscos.
Como já demonstramos, o crime é muito mais disseminado do que
sugere o estereotipo do criminoso, contudo vemos que o sistema de justiça
criminal seleciona “amostragens” particulares cuja base não é aleatória, mas o
próprio estereotipo. Esta escolha ajuda a reforçar tal estereotipo, visto que com
a suspeita de determinados grupos os demais grupos não passaram pelo
mesmo crivo, o que incidirá nos níveis percentuais e numa maior
estigmatização.
Tradicionalmente, a criminologia percebe a criminalidade como se
permanecesse concentrada na parte inferior da estrutura de classes e como se
fosse maior entre adolescente do sexo masculino. Seu foco tem sido: a classe
inferior, masculino e jovem (FOUCAULT, 1979).
Em alguma medida, a seletividade ocorre inevitavelmente, considerando
o universo onde se está procurando o crime, como se decide quem é de fato
criminoso, como instrui seu caso e isola o criminoso. Perde-se a justiça
individualizada neste processo; categorias inteiras de pessoas se tornam
suspeitas e a justiça se aparta da punição.
FOUCAULT (1977) ao tratar da criminalidade desloca estrategicamente
os enfoques tradicionais de “causalidade” na questão criminal para dentro dos
dispositivos do poder que produzem a verdade criminal e as instituições
disciplinares, o que demonstra que alguns enfoques tornam-se problemáticos
por estarem envolvidos no próprio objeto.
Logo percebemos que o crime, ou desvio, não é uma coisa “objetiva”
que lá está, mas um produto de definições socialmente criadas: o desvio não é
inerente num item de comportamento, mas é aplicado a ele pela avaliação
humana. A partir das artimanhas do poder e da estigmação (que também é
uma delas) a justiça torna-se resultado, não de uma culpa individual e uma
punição proporcional, mas de um processo negociado, resultante de pressões
políticas, sofrendo seus impactos até mesmo quando não seja culpado, pois o
estigma se torna inerente.
A probabilidade ajuda a criar os “vilões” da criminalidade. Devido a sua
base, as amostragens escolhidas, esta ajuda a reforçar o estereotipo e justificar
a o combate aos pobres, pois estas classes, a partir de tais métodos, são
tornadas perigosas. Volta-se então a lógica do positivismo social onde ocorre a
associação da precariedade material ao crime, porém a partir da lógica
individualista-meritocrata a culpa é do individuo e não do sistema, logo a
punição deve ser endereçada.
Vemos então a configuração de um ciclo vicioso, a exclusão no mercado
dá lugar a exclusões e divisões na sociedade civil, pois o acesso, os interesses
e as percepções se diferenciam conforme as classes sociais. Estas dão lugar a
mudanças quantitativas e qualitativas na exclusão imposta pelo Estado que
responde ao anseio de segurança. As respostas do Estado, por sua vez,
repercutem reforçando e exacerbando a exclusão da sociedade civil, a partir do
processo de criminalização que refletirá também no mercado.
A MATERIALIZAÇÃO DAS TRANSFORMAÇÕES:
O RIO DE JANEIRO E O AUMENTO DA FRAGMENTAÇÃO DO TECIDO
SÓCIOESPACIAL

A partir das transformações já mencionadas houve o fortalecimento do


individualismo, que se traduz como uma ideologia que privilegia o indivíduo em
detrimento de suas formas coletivas do existir. A sua exacerbação compromete
o ideal da cidade como local de encontro, da confraternização cidadã, espaço
público de convivência das diferenças e de coexistência. Ao invés de local de
encontro vemos o crescimento da busca por separação/isolamento, que gera o
fortalecimento da segregação sócio espacial e da fragmentação do espaço
urbano (SOUZA, 2000).

Numa sociedade em que o medo da violência assume um papel


destacado como na cidade do Rio de Janeiro, o medo tem o “poder” de
aglutinar os diferentes grupos em torno de interesses comuns. Na busca de
proteção, o medo sendo difuso não aglutina a todos da mesma maneira, pois
os anseios e o acesso à proteção se diferenciam.
A criminalidade e a insegurança confundem-se, no imaginário das elites
cariocas, com a cidade “tradicional”, e o acirramento dessa problemática tem
feito dela um fator de incentivo à auto-segregação. Este fenômeno se
intensificou a partir da década de 80 com a chegada do neoliberalismo e a
criação das facções criminosas. Os enclaves fortificados (CALDEIRA, 1997),
portanto, são vendidos como a solução para quem deseja e pode pôr-se mais
ou menos a salvo do ambiente conturbado da cidade tradicional (SOUZA,
2000).

Enclaves fortificados são espaços privatizados, fechados e


monitorados para residência, consumo, lazer e trabalho. Esses
espaços encontram no medo da violência uma de suas principais
justificativas e vem atraindo cada vez mais aqueles que preferem
abandonar a tradicional esfera pública das ruas para os pobres, os
‘marginais’ e os sem-teto. Enclaves fortificados geram cidades
fragmentadas em que é difícil manter os princípios básicos de livre
circulação e abertura dos espaços públicos que serviram de
fundamento para a estruturação das cidades modernas”.
(CALDEIRA, 1997: p.155)

Para CALDEIRA (1997), estamos diante da construção da anti-cidade,


pois estes espaços interrelacionais da cidade tradicional são fragmentados,
não possuindo relação com os demais. Estes espaços geralmente são
ambientes socialmente homogêneos, na maioria das vezes formados por
classes médias e altas. A difusão da criminalidade torna qualquer cidadão um
potencial desviante, a busca por auto-segregação indica um caminho em
direção a visão atuarial na tentativa de minimização de riscos e maior proteção

Ainda segundo a autora os Enclaves fortificados são mostrados como


uma nova alternativa para a vida urbana dessas classes médias e altas, de
modo que são codificados como algo que garante alto status. Em outras
palavras, a segregação socioespacial passa a ser expressa como um valor.

A construção de símbolos de status é um processo que corrobora para


a criação de distâncias sociais e cria meios para a afirmação de diferenças e
desigualdades sociais. SOUZA (2000) aponta que os condomínios auto-
segregados como ambientes de socialização primária tornam-se estímulos à
geração de anticidadãos, pois diminuem os horizontes convivenciais de
adolescentes e jovens e contribuindo o fomento de um imaginário de cidade
que, de certo modo, denota a dissolução da cidade enquanto um espaço do
encontro, mesmo que esse encontro seja tenso e conflituoso, o receio da
violência tende a ser transfigurado em receio do outro. A cidade vai sendo
partida, dividida em regiões, e o acesso à sua totalidade é vetado a grande
maioria.

O processo de segregação socioespacial tem um caráter muito mais


profundo. CORREA ao tratar do tema pondera que:

“(...) processo de segregação refere-se especialmente a questão


residencial, relacionando-se muito à reprodução da força-de-trabalho
(...) é um processo que origina a tendência a uma organização em
áreas de “forte homogeneidade social interna e de forte disparidade
entre elas”.” (CORREA, 1997 p.68)
Correa (1997) acrescenta ainda que a segregação possua dois vieses: a
auto-segregação que seria um meio de manutenção dos privilégios, por parte
da classe dominante através da auto-segregação, bem como o controle social
por esta classe sobre os outros e outro a segregação imposta, visto que tais
grupos possuem poucas ou nulas opções frente a tais determinações, acabam
limitados em suas ações. O mesmo autor apresenta explica através de uma
citação de Harvey, onde devemos compreender que:

“a diferenciação residencial deve ser interpretada em termos de


reprodução das relações sociais dentro da sociedade capitalista; as
áreas residenciais fornecem meios distintos para a integração social,
a partir da qual os indivíduos derivam seus valores, expectativas,
hábitos de consumo, capacidade de se fazer valer e estado de
consciência; diferenciação residencial significa acesso diferenciado a
recursos necessários para adquirir oportunidades de ascensão social
(...).” (CORREA, 1997 p.69)

Verificamos, portanto que a intensificação do processo de


segregação ajuda na radicalização do individualismo a partir de um maior
desconhecimento do outro e que por sua vez gera uma maior privação relativa,
pois como aponta Harvey na citação acima, trata-se não só da geração de uma
necessidade de consumo, o enclave fortificado como ideal a ser obtido, mas no
momento em que ele é criado sua gestação é acompanhada por um processo
de concentração de oportunidades, pois segregar é diferenciar acesso à
ascensão social.
Esta mistura é extremamente explosiva, pois esta forma espacial
contribui sem dúvida para um esgarçamento do tecido sóciopolítico espacial,
como aponta SOUZA (2000) e intensifica a ruptura dos fios que antes
entrelaçavam os seres humanos nas texturas sociais como apontadas por
HOBSBAWN (1996).
A auto-segregação com a formação de enclaves fortificados auxilia a
tentativa das classes dominantes de se livrarem de um problema que ajudaram
a fomentar a partir da concentração de renda, equipamentos urbanos e até
mesmo de políticas públicas, que é a outra face desta moeda, a formação dos
territórios enclaves, ou seja, as favelas geradas na esteira da segregação
induzida.
Enquanto a classe dominante busca se auto-segregar em carros
blindados, em condomínios fechados, tentando se esquivar da crise social que
veio bater a sua porta eclodindo dos guetos e favelas onde estava confinada, a
parte mais “frágil”, as populações de áreas segregadas articulam-se e traça
estratégias de sobrevivência na busca por realização de sua demanda por
segurança.

A visão atuarial do Estado indica as áreas segregadas, sobretudo as


favelas, como sendo o epicentro de sua ação repressiva em prol de conter a
violência. Verifica-se, portanto, que na favela e em outros espaços da cidade
há a exasperação da segregação e da estigmatização sócio-espaciais o que
implica na reprodução da ação discriminatória da polícia, culminando em
práticas discriminatórias de outros segmentos e em políticas sociais, que
geralmente, não contemplam as demandas reais da comunidade (SOUZA E
SILVA & BARBOSA, 2005).

O medo da violência assume novamente um papel destacado, pois ele é


quem legitima a ação repressiva do Estado nessas localidades, pois:

O que torna a presença policial, o controle policial tolerável pela


população se não o medo do delinqüente? (...) Ou se não houvesse,
todos os dias, nos jornais, artigos onde se conta o quão numerosos e
perigosos são os delinqüentes? (FOUCAULT, 1979: p. 79)

Foucault em 1979 já observava a função social apresentada pela


repressão e por seus agentes, sendo o medo um dos principais alicerces para
aceitação destas políticas. Atualmente nota-se uma alimentação mútua entre o
mercado da violência e o mercado da segurança, onde o primeiro estimula e
parece justificar a expansão do segundo, e este, por sua vez, mesmo que
indiretamente, por desvios e venda ilegal de armas, etc., termina por manter o
primeiro.
A demanda cada vez maior de tranqüilidade, segurança e civilidade é
cada vez mais respondida com autoritarismo e repressão. Os menos capazes
de resistir ao impacto do crime e da violência são os mais vitimizados, por não
possuírem/terem acesso a meios de proteção, “(...) Lei e ordem, como tantos
aspectos do Estado de Bem-Estar social, são menos garantidos exatamente
nos lugares que são mais necessários.” (WACQUANT, 2003: p84)
A ação policial nas áreas segregadas, com o confronto ao tráfico de
drogas gera uma retroalimentação a violência. Não há o fim da criminalidade
com essas intervenções e sim reestruturações, ocorrendo o aumento da
estatística de homicídios provocando uma elevação do medo, que por fim, gera
a demanda por maiores ações repressivas, formando um ciclo contínuo. A
ineficácia de tais ações, por sua vez, tende a suscitar perda de confiança na
organização policial legitima e consecutivamente a aumentar a demanda de
violência ilegal (MISSE, 1997).
A militarização da questão urbana é apontada como uma solução, para a
criminalidade, mas seus efeitos e objetivos tornam-se incoerentes resultando,
assim como desmonstrado, numa maior fragmentação do tecido urbano
através da intensificação da segregação (SOUZA, 2007).
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

As transformações atuais colocam os homens em permanente estado de


perplexidade, pois estamos diante de um momento da gestação do novo. A
pobreza e a desigualdade são produtos desta forma da produção do modo
civilizatório capitalista. O atual período histórico não é apenas a continuação do
capitalismo ocidental, é mais podendo ser a transição para uma nova
civilização.

"A instrumentalidade das estratégias espaciais e locacionais da


acumulação do capital e do controle social está sendo revelada com
mais clareza do que em qualquer época dos últimos cem anos.
Simultaneamente, há também um crescente reconhecimento de que
o operariado, bem como todos os outros segmentos da sociedade
que foram periferalizados e dominados, de um modo ou de outro,
pelo desenvolvimento e reestruturação capitalistas, precisam
procurar criar contra-estratégias espacialmente conscientes em
todas as escalas geográficas, numa multiplicidade de locais, a fim de
competir pelo controle da reestruturação do espaço" (SOJA,
1993:210).

O mundo moderno com sua certeza passa por um processo de


desconstrução onde as novas bases podem ser construídas. HOBSBAWN
(1996) aponta que o mercado necessita de valores pré-capitalistas que a
erosão desses pode ser também um ponto de partida para a transformação,
para a passagem para um novo modelo.

SANTOS aponta que a mesma materialidade, atualmente utilizada para


construir um mundo confuso e perverso, pode vir a ser uma condição da
construção de um mundo mais humano. “Basta que se completem as duas
grandes mutações ora em gestação: a mutação tecnológica e a mutação
filosófica da espécie humana.” (SANTOS 2000: p. 174)

A incoerência dos valores de mercado é contínua, como pode uma


sociedade ser constituídas por valores cada vez mais individualistas, em uma
sociedade fortemente apegada aos valores da meritocracia, mas que nega a
muitos a participação na competição. Até que ponto o excedente do exército de
mão-de-obra ainda pode ser controlado?
Ao tratar deste momento de mudanças, SANTOS aponta que a
transformação indica que as mudanças não virão "dos Estados Unidos ou da
Europa. As alterações virão dos pobres, em especial do Terceiro Mundo, pois
tais modificações não podem vir das classes obesas que não podem ver muito,
que não enxergam a necessidade de mudanças e buscam o prolongamento
das relações de poder em favor de se manterem hegêmonicas. São os pobres
os detentores do futuro. “O problema de todas as épocas é saber como vai se
dar a ruptura. E as rupturas se deram antes que todos soubessem como elas
iam se dar..." (SANTOS et al., 2000: p.66).
A chegada do novo é mais claramente expressa ao ponto que
verificamos que as alterações que ocorreram na Modernidade recente
modificaram a estrutura de nossa sociedade de modo que a busca nostálgica
por melhorias na sociedade que recorram as modelos ou padrões passados
está fadada ao fracasso. Estabelecer a conexão entre as transformações
profundas que ocorreram no mercado de trabalho, nos relacionamentos de
gênero, no lazer, no uso dos espaços públicos e privados, no seio da família, e
os padrões recentemente emergentes de criminalidade e vitimização deve ser
a prioridade devem ser um esforço em prol de uma nova compreensão da
realidade e de estratégias de ação.

Não se trata apenas de prover mais oportunidades e aumentar os


padrões de vida, trata-se de justiça e mérito. Não se trata de mais
controle social, de remendar os vazamentos dos sistemas; trata-se
de incorporação: de famílias e comunidades cujas normas não sejam
obedecidas, mas aceitas e adotadas. Não é o caso de criar um
consenso monolítico de valores, mas de diversidade e mudança
contínuas. (YOUNG, 2002:p. 90)

A tarefa de criar novas formas de comunidade, empregos que não


dependam totalmente dos caprichos de mercado e estruturas familiares é um
desafio no novo momento da modernidade. Os padrões modernos que eram
sólidos e freqüentemente repressivos opressivos, passaram a ser re-
examinados, o que nos mostra novos caminhos a serem percorridos.
Criminalidade e repressão ocorrem quando há um déficit de cidadania,
estas são oriundas da injustiça, e suas conseqüências tem provocado um ciclo
de mais injustiça e violência. Este momento de maior crítica e reflexidade
precisa ser acompanhado de uma busca por melhores de maneiras de gerir os
problemas da justiça e da comunidade, baseando-se em modificações dos
sistemas atuais de recompensa a partir de uma difusão da cidadania que não
abranja apenas direitos formais, mas que perpasse a incorporação à sociedade
garantindo não apenas direitos políticos, mas sociais, como um mínimo de
renda, emprego, educação, saúde e habitação, onde o cidadão seja
compreendido como ser multidimensional, pois “Cada dimensão se articula
com as demais na procura de um sentido para a vida. Isso é o que dele faz o
indivíduo em busca do futuro, a partir de uma concepção de mundo" (SANTOS,
1987: p41-42).
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