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Entrevista com um fungo

Extraído de The World in 2004 (The Economist): 92-93 p. Tradução: Luiz Carlos Estraviz Rodriguez (Jan/2004)

O concurso de ensaios da Royal Dutch/Shell e da revista The Economist teve a sua quarta edição em 2004. Nessa edição o tema proposto aos participantes foi “Precisamos da Natureza? Quase seis mil pessoas, de todas as partes do mundo, apresentaram respostas. O primeiro prêmio de vinte mil libras foi concedido a Diane Brooks Pleninger, de Anchorage, Alaska, cujo ensaio, aqui traduzido com ligeiras adaptações, inverteu a questão de forma muito interessante.

Nosso convidado é Pilobolus crystallinus, autor do

premiado bestseller “Precisamos da Raça Humana? Uma Perspectiva Fúngica”. O Sr. Pilobolus é um membro do reino dos Fungos, da classe dos Zygomicetos. Ele é

professor, palestrante, habitante de esterco e autor. Benvindo, Sr Pilobolus. P.c. Obrigado, Diane. É bom estar aqui.

D.B.P.

Boa noite, telespectadores.

D.B.P. Sr. Pilobolus, o seu livro mais recente levanta questões preocupantes sobre o futuro da biosfera e do papel que os fungos e outros habitantes desempenham nela. Conte-nos o que o levou a escrever sobre esse assunto. P.c. O livro é resultado da minha participação em uma série de simpósios ao longo dos últimos dois séculos sob o patrocínio da Federação Mundial dos Fungos no assunto “O que a Natureza precisa?” A Academia da FMF é constituida por um delegado de cada família de fungos existente. Eu tive a honra de representar a família Pilobolaceae.

D.B.P. Os séculos 19, 20 e 21 têm sido revolucionários para a biosfera. Como os eventos da história moderna têm afetado os fungos? P.c. A história moderna dos fungos, que eu estimo tenha se iniciado há aproximadamente 400 milhões de anos, é uma estória de admirável sucesso. Os fungos ocupam dois nichos vitais na natureza, cuja importância nunca foi desafiada. Em um nicho, somos condutores do ciclo do carbono, times de elite devorando detritos cuja missão é digerir matéria orgânica e retornar as suas partes componentes para o sistema ecológico. Sem o nosso trabalho, a vida na terra teria sido impedida por falta de matérias primas. No outro nicho, atuamos em parceria com as raízes de plantas para extender o seu alcance no ambiente do solo e aumentar a sua capacidade de consumo de água e nutrientes. Essas parcerias são chamadas micorrizas (mico = fungo, riza = raíz). Os animais, por sua vez, se alimentam de plantas e se beneficiam desse arranjo. Assim, os fungos desempenham dois papeis bem distintos no mundo, e ambos os papeis são críticos para a manutenção da biosfera.

D.B.P. Quando a raça humana entra nessa história? P.c. A raça humana entra nessa história há cerca de 20.000 anos, quando descobriu o uso da fermentação alcoólica. Creditamos esse desenvolvimento ao gênero Sacaromice. Esporos ancestrais desse fermento foram encontrados alojados em um pote de alimentos pertencente a um grupo de hominídeos cuja existência até aquele momento poderia ser descrita como suja, bruta e curta. Isso deu início ao que nós chamamos de período lua-

de-mel do relacionamento do homem com os fungos.

Infelizmente, não durou muito.

D.B.P. O que aconteceu para acabar com essa relação? P.c. Duas coisas. A agricultura foi uma. A monocultura e a domesticação de animais

levou à concentração de populações animais e de plantas vulneráveis a certos membros do nosso reino, particularmente os oídios, os míldios, as ferrugens e os bolores. Algumas culturas e rebanhos mostraram-se sensíveis aos metabólitos básicos da atividade fúngica. Por exemplo, o meu colega Claviceps purpurea produz o alcalóide ergotamina (da cravagem do centeio – doença fúngica que forma um esclerócio roxo-escuro com forma de bastonete no lugar das sementes de muitas gramíneas, especialmente no centeio). A ergotamina causa gangrena, loucura e morte em humanos. Entretanto, não existe evidência científica que mostre que esse alcalóide se desenvolveu no C. purpurea para

afetar a mega-fauna.

O mesmo pode ser dito do Aspergillus flavus, que ocorre em

castanhas e grãos (sendo um problema grave no amendoim, quando não devidamente

As aflatoxinas produzidas pelo A. flavus estão entre as mais poderosas

armazenado).

Para o A. flavus, são apenas sub-

substâncias venenosas e carcinogênicas da Terra.

produtos metabólicos, com um toque de função auto-defesa também.

A outra mudança para pior decorre do transporte. O movimento rápido de espécies não

permite o desenvolvimento de imunidades nas populações locais. Muitas espécies de fungos têm sido apontadas como vilões por causar o extermínio massal de olmeiros, castanhas, batatas e outras plantas. Isso reflete a infeliz experiência de micro-organismos animais e virais envolvidos com certas doenças e epidemias. Os reais culpados, é claro, são os humanos que transportam seres exóticos entre os continentes.

D.B.P. Na sua visão, qual tem sido o propósito humano durante os últimos séculos? P.c. Em retrospectiva, podemos sumarizá-lo como uma experiência falha de individualismo. A idéia do indivíduo – e não existe equivalente no reino dos fungos – surgiu durante o período de rápidas mudanças na sociedade humana. Resumidamente, o individualismo parecia defensável, e até atraente. O indivíduo ideal seria aquele educado

e iluminado. Alguém que todos gostaríamos de conhecer. Entretanto, na prática, a

cultura do iluminismo individual se transformou rapidamente no culto à liberdade individual. Ao longo dos séculos seguintes, a liberdade pessoal desenfreada e o acaso da distribuição dos recursos naturais levou à criação de certas colonias humanas ricas e isoladas. A prosperidade dessas colonias excitou a inveja e o resto do mundo fez o que pode para imitá-los. Grandes massas populacionais se mudaram de uma simples experiência junto ao mundo natural para a expectativa de um estilo de vida similar ao que os exploradores estavam vivenciando. Esse clamor por plenitude põe enorme pressão sobre a biosfera.

D.B.P. Como sabemos a raça humana falhou ao tentar reverter essa tendência. Qual a sua explicação para o fracasso dessas ações? P.c. Certamente não foi por falta de tentativas. Se você visita os arquivos da humanidade em suas diversas mídias – e nós fungos somos capazes de fazer isso livremente apesar dos seus esforços em nos excluir – você verá que as questões ambientais estiveram na linha de frente das preocupações de todas as nações ricas no último século e meio. Tratados, regulamentos, protocolos, e a opinião pública foram

usados para superar a onda de praticas negativamente impactantes. Mas o crescimento da população venceu a efetividade dos boicotes comerciais e superou a abilidade da mídia de desenvolver uma maior sensibilidade pública para com as questões ambientais. E o crescimento populacional somou-se à pressão sobre a biosfera, no momento em que mais pessoas passaram a exigir um padrão de vida mais alto. Duas analogias podem nos ajudar a visualizar o que estava acontecendo. Uma é a do problema do solvente universal. Se existisse tal substância, o quê a armazenaria? O fenômeno da afluência transformou-se numa espécie de solvente universal. Nada pode detê-la. Intuitivamente, percebe-se também o problema no velho refrão sobre pão e circo, que se refere ao efeito alienante da diversão. Informação de baixa qualidade tende a se converter em entretenimento de baixo nível. Sob o brilho sulfuroso das transmissões noticiosas televisivas em todo o mundo, as instituições humanas – governamentais, militares, religiosas, culturais – tornaram-se objetos de diversão. Esse entretenimento persistente e auto-referente deixou grande parte da humanidade cronicamente enebriada e fundamentalmente deseducada.

D.B.P. Muitas vezes no seu livro, o senhor menciona o quê séculos atrás seriam chamados de “valores” – altruísmo, moderação, esse tipo de coisas. Como os fungos definem valores éticos? Ou talvez, o senhor prefira valores espirituais? P.c. (Risos) Muito do que os outros chamam espirituais, nós chamamos seculares. Isso não significa não termos uma teologia. Existem dois sistemas principais de micoteismo no mundo dos fungos. A religião mais recente tem apenas cerca de 50 milhões de anos de idade, mas tem uma representação significativa entre as ordens mais jovens. A religião mais antiga é mais disseminada, apesar de mais racionalizada a partir dos textos originais. Ao todo, 99,4% dos fungos são seguidores de uma ou de outra fé. Mas o importante é notar que não existem tensões, ou disputas doutrinárias entre esses dois teísmos. O princípio central de ambas as religões é idêntico.

D.B.P. E o princípio é

P.c. Equanto o princípio de virtualmente todas as religiões humanas se enraiza na mudança corpontamental, o nosso valor religioso central é o do reconhecimento das espécies. Os fungos compreendem aproximadamente um milhão e meio de espécies e incontáveis milhões de tipos de possíveis cruzamentos inter-raciais. As pressões que resultam de uma diversidade dessa magnitude não podem ser subestimadas. Nós temos há muito reconhecido que o melhor caminho para manter a ordem no sistema é encorajar o micoteísmo institucionalizado. Como resultado, consideramos ser essa a política mais capaz de alcançar consenso entre nós mesmos e de permitir a ação concertada para atingirmos esse consenso.

?

D.B.P. Como o senhor descreve atualmente a relação entre a natureza e a humanidade? P.c. Posso falar apenas pelos fungos, que caracterizam a humanidade como dispensável. O meu capítulo, “Muitos tijolos, um arco”, explora os usos que a humanidade tem feito dos fungos, que vai dos anti-bióticos e imunosupressores aos processadores de papel, pães, cerveja, queijos e vinhos, e às familiares delícias dos pratos com cogumelos. Nossos membros observaram e registraram milhões de interações fungo-homem nestes últimos dois séculos. Quero dizer, os humanos não escapam da nossa atenção. Estamos

em todos os lugares: na sua pele, nas suas casas, no subsolo, na estratosfera. Depois de uma intensiva análise desses dados, a Academia não foi capaz de identificar sequer uma transação homem-fungo indispensável. Nenhum parasitismo obrigatório, nenhuma relação essencial, nenhum sine qua non. Peço a vocês que se lembrem desse importante fato ao tomarem conhecimento das nossas deliberações

D.B.P. Sem revelar o fim do seu livro, poderia o senhor discorrer brevemente sobre o último capítulo? P.c. Recentemente, a Academia organizou a plenária de um fórum para rever nossas conclusões sobre o lugar da humanidade no ecosistema mundial. Avaliamos o estado da biosfera, dando o devido peso às mais recentes políticas energéticas humanas, às inovações da bioengenharia, do desenvolvimento da agricultura, da indústria e do transporte, aos esforços de bio-remediação e destoxificação de resíduos perigosos e radioativos. Consideramos a questão de quanta perturbação da ordem natural provocada pela ação humana seria por nós tolerada. Concordamos que a biosfera atualmente encontra-se no nível 9,6, numa escala de perturbação de zero a dez. Baseados nessas conclusões, a Academia adotou uma declaração de posicionamento quer foi apresentada à FMF. Eu adotei o título dessa declaração para o meu último capítulo. “O nó de mil laços”. Eu gostaria de ler parte dele, se eu puder.

D.B.P. Por favor, leia. P.c. “Não nos esquivamos do nosso papel no futuro. Acreditamos que a vida na terra embarcou em uma única trajetória, que não se repetirá. Acreditamos que a viagem para o exterior nos envolveu na longa e intrincada trama de interesses de todos os demais seres vivos. Acreditamos que o caminho de volta envolve o desenrolar sistemático dessa trama. E acreditamos que estamos perfeitamente preparados para desempenharmos o nosso papel nesse processo”.