BOLETIM DO COMPA

Coletivo Mineiro Popular Anarquista
www.socialismolibertario.com.br – Nº 1 – 20 de junho de 2013

Uma leitura Socialista Libertária sobre as lutas que eclodem no Brasil
“Carregamos um mundo novo em nossos corações, que cresce a cada momento. Ele está crescendo neste instante [...]”
Buenaventura Durruti

As manifestações que se espalharam pelo Brasil em decorrência do preço abusivo das tarifas do transporte coletivo,
em solidariedade à luta que começou em São Paulo e contra os megaeventos da FIFA (Copa das Confederações e
Copa do Mundo), estão tendo Belo Horizonte como uma das cidades protagonistas. Entre os dias 13 e 17 de junho de
2013, houve na capital o II Seminário do COPAC (Comitê Popular dos Atingidos Pela Copa) e mais de 60 mil pessoas
foram às ruas em duas grandes manifestações - no sábado e na segunda-feira -, mobilização que não era alcançada há
mais de duas décadas. Os atos têm durado mais de 6 horas, fechando todas as faixas das avenidas mais movimentadas
da cidade, tomando as ruas de forma categórica e enfrentando a violenta repressão policial, formando gigantes espaços
ocupados por multidões de pessoas que não discutem nada além do atual estado das coisas na cidade e no país.

Em meio à grande revolta popular que paira sobre o país, alguns pontos reparados no contato direto com as
mobilizações devem, em nossa avaliação, ser profundamente discutidos por tod@s nós. Acreditamos que se não
houver grande esforço por parte dos movimentos populares, das organizações políticas de esquerda e das forças que
compõe o povo, nossas mobilizações correm imenso risco de serem desnorteadas, freadas e cooptadas por elementos
externos à luta popular que estão se infiltrando em seu seio.

VIOLÊNCIA: ESTADO + FIFA x O POVO

É importante medirmos e balancearmos o aparato físico, ideológico e econômico que as duas partes têm à sua
disposição: O Estado tem o Exército; tem suas polícias, uma investigativa e outra militar; a militar com suas dezenas
de batalhões (Choque, ações táticas/especiais, cavalaria, cachorros etc.); com suas viaturas, helicópteros, blindados;
suas bombas (efeito moral, gás lacrimogêneo, spray de pimenta) e suas armas (letais, de borracha, de choque etc.).
Esta estrutura do Estado é gerida pelas grandes elites brasileiras por financiarem as campanhas dos políticos, e as
intenções de tais grandes elites são as disseminadas no complexo e muito bem estruturado poder da mídia. A Fifa, uma
empresa privada, por ter em mãos o poder político e econômico internacional que o futebol pode proporcionar,
submete qualquer Estado ao seu bel prazer em nome dos megaeventos que realiza, reduzindo a pó conquistas
populares históricas e legitimando massacres e perseguições à pobreza.

O povo, de outro lado, possui sua consciência, sua solidariedade, seus sonhos e no máximo algumas pedras e
coquetéis molotov. É drástica e até surreal a discrepância nessa balança. Um povo submetido à barbárie pelo Estado
em função dos lucros exorbitantes e da aplicação de políticas antipopulares de alguns, quando se rebela, se encontra
no mais natural estado de autodefesa. Jamais se encontra no estado de violento. Vitrines de bancos - sanguessugas da
riqueza nacional -, viaturas quebradas, pichações de protesto, algumas pedras lançadas ou mesmo algumas barricadas
de fogo nas ruas não são comparadas à violência econômica, política e física que o povo sofre diariamente - e mais
acentuadamente no contexto da Copa.

É percebida claramente uma reprodução por grande parte dos manifestantes do discurso de "antiviolência" e
"manifestação pacífica". Quando algum companheiro ousa atacar algum símbolo da Fifa ou mesmo das grandes
empresas que financiam a Copa, logo vários manifestantes rechaçam e reprimem. Em nossa leitura, atitudes assim são
equivocadas e adoradas por nossos inimigos.

O DESESPERO DA MÍDIA: AMIGÁVEIS COM OS PACÍFICOS, TRADICIONAL COM OS
"VIOLENTOS”

É por medo que a grande mídia criou todo um arranjo manipulador que insiste em dar uma conotação positiva às
"manifestações pacíficas" e continuar em sua linha tradicional de difamar os ditos "violentos". As proporções que
tomaram os protestos no país não eram esperadas e são extremamente preocupantes para os nossos inimigos. Mais de
500 mil pessoas nas ruas em todo o país, sendo 100 mil em uma única capital (São Paulo, a mais visada
internacionalmente, por ser o centro econômico do país), é uma realidade que amedronta as elites. Mas toda essa
mobilização rumando pacificamente - criminalizando os que são taxados de violentos – com pessoas gritando "abaixo
a corrupção", "o gigante acordou", "fora Renan" e "fora Dilma", enquanto se enrolam em bandeiras do Brasil, de fato
não causaria tanto temor.

O grande medo dos inimigos é a situação de combatividade que se iniciou em São Paulo e nasceu nas demais capitais.
A pauta de redução da tarifa, de repúdio à Fifa por suas catástrofes sociais e econômicas e repúdio à violência policial,
acompanhada de manifestações combativas e com caráter de enfrentamento é muito mais perigosa que a da corrupção,
do "fora Dilma" e "Fora Renan", patriota e pacífica. É mais perigosa, primeiro, porque ataca diretamente uma das
raízes dos problemas sociais - que aos ricos são suas soluções -, e, segundo, porque ousa desmantelar a disciplina e o
controle dos rebeldes impostas pelo Estado e pelos nossos demais inimigos, fundamentais para manutenção do capital,
da exploração e da opressão.

O DESESPERO DA POLÍCIA: A AMIGA QUE DÁ PAULADA

Nesse sentido nós vemos a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) se alinhando estrategicamente para conquistar os
manifestantes: alocando a Coronel da corporação para fazer papel de bondosa, dialogável e afável amiga dos rebeldes,
comandando uma tropa de choque que atravessa cegos no meio da manifestação e tirando foto com manifestantes
enrolados em suas bandeiras do Brasil. É uma estratégia descarada de pacificação da imagem (já tão queimada) da
Polícia Militar, que, na prática, com 50 mil pessoas marchando rumo ao Mineirão, mostra sua verdadeira face
descendo chumbo na população, não se preocupando se serão mulheres, idosos ou crianças os atingidos. Além disso,
percebe-se um esquema articulado entre a PMMG e a mídia, quando vemos grupos isolados atacando a prefeitura e
saqueando lojas sem nenhuma represália da polícia que assiste de longe, enquanto as as câmeras da imprensa
registram o conteúdo com intuito claro de criminalizar o movimento.

INFILTRAÇÃO DE DISCURSOS E PRÁTICAS DA DIREITA

É também muito visível uma infiltração estratégica da direita organizada nas mobilizações. O próprio discurso de
ataque fervoroso e exclusivo ao PT e à corrupção (que já se fundem) é uma delas: o motivo é desgastar o governo
federal para as próximas eleições, ou mesmo para possíveis revoltas contra o "PT", que no fim das contas se tornam
contra a "esquerda" em geral, recuando ainda mais a população e seu discurso para o espectro da direita. Militantes
descaracterizados de partidos historicamente de direita (PSDB, DEM etc) ou mesmo pessoas deliberadamente de
direita mas que não são filiados aos partidos puxam palavras de ordem e incentivam práticas que devem ser
rechaçadas pelos rebeldes num aspecto geral (como entregar pichadores para polícia, linchar manifestantes
radicalizados etc.).

De outro lado, a utilização e reprodução de símbolos nacionais devem ser repudiadas. Um hino e uma bandeira
nacional são símbolos que representam mais de 500 anos de drama e exploração do povo, perpetrados pelas elites. O
lema que a bandeira nacional carrega, "Ordem e Progresso", é muito claro quando se pensa numa necessidade das
elites manterem a "Ordem" ao povo para que haja o vosso "Progresso". É esse mesmo sentimento nacionalista e
patriota que foi utilizado para ludibriar o nosso povo durante inúmeros contextos de conflito social, desde as ditaduras
de Vargas e a Militar até os dias de hoje. O nosso povo possui diversas palavras de ordem, bandeiras e símbolos de
resistência e de luta que são muito mais compatíveis com o momento do que os símbolos que representam uma
história de manipulação e exploração. Detestam bandeiras que contenham conteúdo "socialista", "comunista",
“anarquista” ou "revolucionário", no entanto, entoam a bandeira da "Ordem e Progresso". Desse modo, silenciosa e
perigosa, a direita tenta avançar na disseminação de seu discurso e no esquecimento de nossas bandeiras de luta.

Existem ainda outras questões que são discutidas e apresentadas no próprio seio das manifestações de modo menos
complicado, que não necessitem de discussões mais aprofundadas como estas apresentadas. É claro que a cada novo
dia de mobilização, na atual situação, alguns panoramas mudam, resolvendo alguns equívocos políticos e nos
apresentando outros. É nesse sentido que a militância do COMPA busca atuar no movimento de Belo Horizonte, seja
nas reuniões, nas assembleias, nas manifestações, nos movimentos sociais ou em quaisquer espaços que existem ou
que estejam surgindo laços de mobilização rebelde.

Construir o Poder Popular nos atos e nas Assembleias Populares e Horizontais para fazer nossos inimigos
recuarem e conquistarmos nossas bandeiras!

Criar um povo forte para construir o Poder Popular!

Pela esquerda e por baixo, Avante à Luta!

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