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Universidade de Sófia Sveti Kliment Ohridski

Faculdade de Letras Clássicas e Modernas


Departamento de Estudos Ibero-Americanos
Filologia Portuguesa
Disciplina: Literatura Portuguesa – Simbolismo,
Modernismo
a
Docente: Prof Auxiliar Dra. Yana Andreeva

RESUMO CRÍTICO

António Nobre

Maria Vélkova, 3º ano, № 1635

Sofia
2009
António Nobre

António Pereira Nobre nasceu em 16.08.1867 no Porto, era filho de uma


família de comerciantes do Porto com terras no Douro (e essa paisagem da
juventude, a que é preciso juntara das praias do litoral norte em que passava os
Verões, virá a ser determinante no mundo da sua obra). Em 1888 inicia estudos
de Direito em Coimbra e aí conhece Alberto de Oliveira, com quem participa,
em inícios de 1889, numa das revistas fundadoras do que viria a ser o
simbolismo português – Boemia Nova.
A figura extravagante e dândi de António Nobre, que recuperou elementos
entretanto caídos em desuso do traje estudantil, que usava o fez marroquino ou
as grossas camisolas de lã dos poveiros, juntamente com a fama de boémia,
foram factores dos seus chambos em dois anos seguidos, levando-o a Paris para
em Outubro 1890, se inscrever na Sorbona, no curso que não conseguira fazer
em Coimbra. Depois de alguns atrasos, devidos a problemas familiares e
financeiros na sequência da morte do pai, obtém a licenciatura em Direito pela
Sorbona em 1893, apresentando-se ao concurso para o lugar de cônsul, em que
será aprovado. No entanto, já doente, não virá nunca a ocupar o posto que lhe foi
atribuído, e os seus últimos anos de vida são uma quase incessante peregrinação
entre Lisboa, o Porto e a quinta do Sexto da sua infância, a Suiça e a Madeira,
em busca da saúde que a tuberculose ia minando cada vez mais. Estas
circunstâncias importam aqui a vários títulos: não apenas para trançar um
rapidíssimo esforço biográfico (que se encontrará com todo o pormenor em
Guilherme de Castilho), mas para frisar duas questões: por um lado, se a
paisagem fundadora da infância e da idade adulta é elemento fulcral na obra do
poeta do Só, é porque ela foi entretanto mediatizada pela memória que a
transfigurou em mito; e, por outro lado, a biografia de Nobre mostra em si
mesma como é redutora a leitura que, tomando o Só como “o livro mais triste
que há em Portugal”, o reduz ao biografismo do livro escrito pelo tuberculoso –
que Nobre não era à data da primeira edição, de 1892. Se à época o livro
suscitou reacções negativas, com rares excepções – de que se salienta a defesa
que dele fez Alberto de Oliveira e, se mais tarde o neogarretismo de que este
amigo do poeta foi mentor o procurou erigir em avatar do nacionalismo
tradicionalista, a verdade é que tudo isso se situa num plano exterior à literatura.
Largamente preparado por poemas que dispersamente Nobre vinha publicando
desde os 15 anos, o Só apresentava de facto suficientes motivos de estranheza
para os seus contemporâneos; a sua temática aparentemente ingénua,
recuperando vozes e vivências do povo, ou a figura de um sujeito em primeira
pessoa em torno do qual tudo gira, num tom que à superfície parece de
confessional saudosismo, foram os aspectos mais notados e largamente
parodiados nas reacções à edição de 1892, embora tenham quase desaparecido
quanto à de 1898, que o poeta preparou com substanciais diferenças quanto à
versão inicialmente dada à estampa. A análise comparativa das duas edições
mostra claramente, aliás, o saber poético e a maturação de um autor; ao rigor e à
mestria com que desde sempre usou a versificação e o ritmo, Nobre acrescenta
em 1898 uma ordenação do livro em secções, construindo o percurso da vida de
uma personagem: às três primeiras, cada uma constituída por um só poema (o
proémio “Memória”, “António” e “Lusitânia no Bairro Latino”), seguem-se as
outras secções, com número variável de textos (“Entre Douro e Minho”, “Lua
Cheia”, “Lua Quarto-Minguante”, dezoito “Sonetos”, “Elegias” e o longo
díptico “Males de Anto”). “Memória” abre o livro como um prólogo
pogramático, trançando uma ascendência mítica para o “menino” fadado desde o
berço para ser “um Príncipe” e um poeta, simbolicamente feito órfão e
condenado a uma errância sem fim em busca do seu lugar primeiro e da sua
identidade; a personagem é, desde logo, complexificada por em tal destino se
sobreporem o plano individual de “Anto” (hipocorístico e nome truncado,
mostrando a ferida narcísica) e um plano colectivo, pelo qual o eu simboliza
Portugal e os portugueses, nesse tempo finissecular de crise a vários níveis. É
esta a clivagem que se mantém em todo o livro, através de diversos modos de
encenar a divisão interior de um sujeito e do tempo que ele representa; veja-se
isso, por exemplo, no diálogo entre dois textos e duas instâncias discursivas em
poemas como “António”, “Os Figos Pretos” ou “Poentes de França”, na
interpelação de si mesmo como um outro em vários poemas ou na criação de
interlocutores como “Georges” em “Lusitânia no Bairro Latino” ou o amigo em
“Carta a Manoel”; ou pense-se no processo, muito moderno para a época, de
incorporação do coloquialismo das falas ouvidas a outros, ou da conservação
dos erros de ortografia (como na ladainha das lanchas em “Lusitânia no Bairro
Latino”). O sujeito, que parece à primeira vista egocêntrico, vai-se deste modo
tranformando numa polifonia, no lugar em que se cruzam várias vezes que, é
certo, o constituem mas o transcendem, até porque tem a vincada consciência de
ser um elo numa cadeia – a dos portugueses cumprindo um destino colectivo,
sendo os pescadores poveiros ou os minhotos em romaria uma espécie de rasto
dos descobridores de outrora, de um tempo glorioso que se perdeu no passado.
Nobre carrega o peso de saber que esse tempo épico não volta mais, assumindo
uma consciência colecitva que o aproxima do herói; aliás, de entre os seus
modelos explícitos salienta-se o Camões de Os Lúsiadas, entre referências mais
esparsas a diversas fontes (o romanceiro, Bernardim, Garret, Antero, Júlio Dinis,
Shakespeare e Poe). No plano mítico, o herói está entre o “Príncipe” ou
“Infante”, o pastor do bucolismo, o cavaleiro andante e o “menino”, situando o
duplo paradigma da infância (para que nostalgicamente se volve o eu) e do
adulto hiperconsciente; ao mesmo tempo, isso permite falar também da memória
como elemento essencial, já que o paraíso é apenas evocado, em violento
contraste com deceptividade que caracteriza o presente, tempo por excelência
negativo ou, pelo menos, de nostalgia, como desde logo assinala a constância do
tema do exílio – os poemas são datados de Paris, terra em que António Nobre, o
“Lusíada, coitado”, está entregue a si mesmo e à saudade. Um dos modos de
tentar combatê-la é a descrição sistemáticae pormenorizada do passado perdido,
pelo que o Só está muito marcado pelos vários recursos retóricos do visualismo
e da presentificação; o espontaneísmo, a exisitir, é um efeito textual
profundamente radicado na própria expressão complexa de um sujeito que se
procura ao reconstituir o seu mundo sob o signo lunar que os títulos de duas
secções definem e muitíssimas marcas ajudam a disseminar no texto.
Ao lado de Gomes Leal e Cesário, António Nobre é um dos poetas mais
renovadores do século XIX por ter libertado a linguagem e imaginação das
convenções de um estilo que se pretendia simultaneamente poético e elevado,
graças a certos ornatos e limitações de tom já atrás verificados em Antero ou
Junqueiro, por exemplo. Em Nobre, como em Cesário, a linguagem poética
assimila a viveza coloquial, mais citadina neste, mais provinciana e emocional
naquele. Nisto lembra em João de Deus mais variado na paleta de imagens, mas
um João de Deus desdobrado que contemplasse com ironia amarga a sua própria
e perdida candura.

BIBLIOGRAFIA:
1. MACHADO, Àlvaro Manuel (org., coord.), Dicionário da Literatura

Portuguesa, Lisboa, Ed. Presença, 1996.


2. SARAIVA, António José, LOPES, Óscar, História da Literatura

Portuguesa, 13.ª ed. rev., Porto, Porto Ed., 1985