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Correio da Cidadania

Luiz Pinguelli: a Eletrobrás está sendo amputada pelo governo


Escrito por Valéria Nader

28-Ago-2007

Entrevistamos para essa edição especial do Correio da Cidadania o ex-


presidente da Eletrobrás na gestão de Luís Inácio Lula da Silva, Luiz
Pinguelli Rosa. Pinguelli relata a sua experiência no governo, lamenta a
situação de penúria a que estão sendo conduzidas as estatais e critica a
reverência aos contratos, nos quais “não se mexe quando é a favor do
Brasil, quando é contra, mexe”.

***

Correio da Cidadania: Em entrevista anterior a esse mesmo Correio, o


senhor disse que a alternativa para o aumento da capacidade de geração do
Brasil seria a troca do governo anterior por um outro que tratasse a questão
energética com seriedade e a eliminação dos economistas liberais do poder.
Como está a atuação do governo Lula?

Luiz Pinguelli Rosa: Infelizmente, houve uma continuidade da presença dos


economistas liberais no governo. Para ser factual, temos o Joaquim Levi
(secretário do Tesouro Nacional) e o Murilo Portugal (secretário-executivo do
ministério da Fazenda), que eram da equipe de governo anterior e
simbolizam um tipo de política na área econômica da qual eu discordo:
superávit primário, contenção das despesas públicas, elevação das taxas de
juros. São medidas que acarretam o aumento da dívida interna. O governo
dá prioridade absoluta para o aspecto financeiro-monetário e menor
prioridade para o resto de suas despesas. Há também imobilidade em
contratos que deveriam ser repactuados e que fazem parte do dia a dia de
qualquer negócio – aqui, temos o mito de que qualquer contrato que o
governo fez não pode ser mexido, o que é uma bobagem.

CC: E mais especificamente no setor elétrico, houve algum avanço na


retomada do planejamento público?

LPR: Houve, mas não tanto quanto necessário. Isso tem a ver com o que eu
disse anteriormente. Houve transferências de recursos da Eletrobrás para o
Tesouro Nacional, que poderiam ter sido investidos na ampliação da
geração elétrica federal. Também os recursos de Itaipu, que somavam mais
de US$ 1 bilhão por ano, foram transferidos para o Tesouro Nacional. Eu
discordava de tal proporção, dentro de meu ponto de vista não era correto.
Tínhamos também a retenção de recursos para o superávit primário, uma
série de proibições na Eletrobrás – não era possível ser sócio majoritário em
parcerias com o setor privado -, dificuldades enormes de acesso ao crédito,
ao BNDES. Passei o ano de 2003 sem ter nenhum aporte do BNDES, não por
culpa do banco, mas sim pelas regras que a Fazenda impunha e que o
BNDES cumpria. Calculo que R$ 7 bilhões foram passados às empresas
privadas elétricas estrangeiras, quase todas as distribuidoras privatizadas, e
não conseguia nada para as empresas pobres do Norte e do Nordeste, que
eram distribuidoras federais – de Alagoas, do Acre, do Amazonas, de
Rondônia –, que tinham muitas dificuldades e nenhum recurso. Eu tinha que
tirar dinheiro dos investimentos da Eletrobrás para cobrir as despesas
operacionais dessas empresas de estados com problemas econômicos,
enquanto a AES e os grupos estrangeiros tinham grandes aportes de
recursos do BNDES.

Tive problemas nas negociações que fiz com as empresas estrangeiras com
as quais tínhamos contratos, dos quais eu e minha equipe discordávamos.
Nós repropusemos algumas cláusulas e conseguimos a aceitação de parte
delas, mas não de todas. Infelizmente, depois da minha saída, tenho a
notícia de que não se completou a negociação com a usina de Cuiabá, da
Enron e da Shell, que precisa ser renegociada. Comecei a fazer isso com
Furnas, cujo conselho presidi, e pelo que sei existe uma posição contrária na
Aneel, complicando a vida de Furnas.

O rosário é muito comprido. O próprio leilão de energia velha foi muito ruim
para as empresas federais, tanto é que as privadas não participaram e as
geradoras estatais tiveram grandes perdas vendendo energia
excessivamente barata para compensar a energia excessivamente cara das
empresas privadas geradoras, quase todas estrangeiras. O caso mais
lamentável são as termelétricas, que compram energia de Furnas bem
barata –R$ 18 por MWh -, ficam desligadas e revendem essa energia a R$
140 por MWh para as distribuidoras, que é o valor que é repassado para o
consumidor na cobrança de tarifas. Portanto, não estou de acordo com boa
parte do encaminhamento que tem sido dado para o setor elétrico
atualmente. Não posso, porém, dizer que tudo ficou como estava. Criou-se a
Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que está sendo organizada, e as
privatizações foram interrompidas.

CC: Mas as privatizações já haviam sido interrompidas na era FHC, não?

LPR: Sim, mas conjunturalmente, pela grande luta dos sindicatos, das
organizações de profissionais, e devido à crise energética. Mas a decisão
política entendo que foi do governo Lula. Não vou nem tanto ao mar nem
tanto à terra, tenho grandes reclamações e tive muitas dificuldades em
fazer valer meu ponto de vista quando estava na Eletrobrás. No entanto,
muitas das questões que colocamos no programa de governo, como a
suspensão das privatizações, estão sendo cumpridas.
CC: Você fez referência às estatais, que estão vendendo sua energia a um
preço muito baixo. Isto está minando a sua capacidade de investimento?

LPR: Muito. Isso é um absurdo, pois a grande empresa geradora brasileira é


a Eletrobrás. No período em que estive lá, de janeiro de 2003 a maio de
2004, a Eletrobrás teve lucro e valorizou extraordinariamente suas ações,
que mais do que dobraram graças a uma administração muito rigorosa. Foi
também a empresa que mais investiu em energia elétrica no Brasil. A
Eletrobrás deveria ter maior liberdade de ação e ser mais bem remunerada.
A tática atual está sendo, na prática, amputar toda a Eletrobrás para
permitir que o setor privado mantenha suas tarifas altas. Não tem sentido
Furnas vender energia velha por R$ 60 o MWh durante oito anos e existirem
termelétricas desligadas vendendo energia a R$ 140 por MWh. Enquanto
isso, o consumidor não ganha nada. Veja o aumento que a Aneel previu em
Pernambuco, que era de 40%, e no Ceará, mais de 20%. No Rio de Janeiro, a
previsão era de 20% de aumento. Estão atenuando, parcelando, mas muito
pouco. A inflação brasileira foi de 8%, os funcionários públicos tiveram um
aumento de 0,1%. Como é que vão pagar uma tarifa dessa?

CC: A corda continua, então, estourando do lado do consumidor?

LPR: Sim, as empresas federais estão tendo prejuízo e as empresas


privadas, lucro. Mais nada. É uma política que não vai permitir que a
Eletrobrás exerça seu papel natural de puxar os investimentos. Nunca
pensei que ela pudesse voltar a ser a única empresa importante do Brasil,
mas ela é a mais importante. Tinha que ter um papel dinâmico, puxar
investimentos, e não ficar a reboque do setor privado, conforme a política
atual do governo está obrigando.

CC: A susceptibilidade do setor público aos interesses privados, histórica em


nosso país, continua, assim, a existir?

LPR: O que posso dizer é que a minha proposta de trabalho na Eletrobrás


não foi vencedora, o que nós fizemos foi um saneamento financeiro
rigoroso, mostrando que a empresa tinha capacidade de alavancar
investimentos, de se apresentar bem no mercado. Nunca fui ligado ao
mercado, mas meu diretor de mercado, que era uma pessoa com história na
esquerda brasileira e tinha experiência de trabalho junto ao mercado, me
ajudou bastante nessa parte. Eu tinha a intenção de dinamizar o grupo, criei
um conselho de presidentes que dirigia a empresa de fato. Com isso,
eliminei um histórico atrito entre a Eletrobrás e as suas empresas
controladas, como Furnas e Eletronorte. Nós nos reuníamos, às vezes,
semanalmente. Em conferências telefônicas, dois, três dias seguidos.
Tínhamos reuniões tantas quantas fossem necessárias, concorremos e
ganhamos em leilões com o setor privado. Com isso tudo, ao invés de
ganhar aplausos do governo, ganhei críticas. Tive dificuldades enormes com
o ministério de Minas e Energia (MME).

CC: Qual a sua opinião quanto ao MME?

LPR: O ministério é quem executa a política. Recentemente, minhas


desavenças com o MME foram, em grande parte, discordâncias que eu tinha
com a política econômica. Minhas relações com o Palocci eram boas, nunca
as rompi – e nem com a Dilma. As discordâncias eram de orientações
políticas e de ação empresarial, no caso da Eletrobrás.

CC: O senhor mencionou acima as suas dificuldades de negociação de


alguns contratos com empresas estrangeiras. O respeito aos contratos,
dentro dessa ótica, está sendo um empecilho ao avanço no setor?

LPR: O respeito aos contratos é uma besteira completa, uma bobagem que
esses economistas embotados inventaram. Eu briguei com algumas
empresas estrangeiras e não tive rompimento nenhum, simplesmente
cheguei e disse que os contratos eram absurdos, que precisávamos sentar e
renegociar, que só ia pagar o que deveria pagar, e que precisávamos
arrumar uma outra forma, pois aquela não servia para a empresa. Uma vez,
tivemos uma briga grande com a AES por conta de uma empresa de
informática de transmissão por fibra ótica, na qual éramos sócios e a AES
havia abandonado a empresa. Depois brigamos com investidores japoneses.
Todos queriam que a Eletrobrás assumisse o pagamento. Não concordava
com isso, queria mudar o rumo.

Acho que seria possível à Eletrobrás ter um outro papel no setor elétrico
brasileiro, muito mais dinâmico, muito mais agressivo e sem precisar de
grandes problemas, uma vez que o grupo estrangeiro entende que negócio
é negócio. Ele entra na questão do negócio como um lutador de boxe, e o
Estado brasileiro entra de salto alto. Eu entendo de boxe e, se os
estrangeiros estão preparados para a briga, você precisa brigar. Depois,
apertam-se as mãos e tudo volta ao normal. Este é o mundo do capitalismo.
A empresa estatal, nesse mundo, não pode tratar contratos com esses
grandes grupos de multinacionais como coisas sagradas; tem de tratá-los
como contratos, como eles tratam. Você vai lá, vê os contratos e diz que tal
item é impossível, pois se perde uma quantidade imensa de dinheiro, é
injusto, é incorreto, e precisamos renegociá-lo. Alcança-se, assim, uma
posição de força. É um besteirol o que esses economistas do século XIX,
recauchutados para os séculos XX e XXI, continuam a pregar. Para dar um
exemplo, preste atenção se vai acontecer isso com a Varig, que é uma
empresa nacional importante de aviação. Ela tem dívidas, principalmente
com a BR Distribuidora, com a Infraero e com o governo federal. Nada pode
ser feito, pois a Varig precisa ter uma solução de mercado. Sabe qual é?
Vem um grupo estrangeiro, propõe algo para o controle da empresa, chega
na Infraero e na BR e consegue um abatimento das dívidas para 20% do
valor. O grupo estrangeiro pode, mas a Varig, brasileira, não pode. É uma
mentalidade de besta quadrada. Isso é o que se faz, o grupo estrangeiro,
quando chega, consegue tudo do governo. É preciso mudar essa história de
que em contrato não se mexe. Não se mexe quando é a favor do Brasil,
quando é contra, mexe.

CC: Quanto à retomada dos investimentos públicos e privados, está


ocorrendo?

LPR: Na proporção devida, não. Do jeito que as coisas vão, o setor privado
não está investindo o suficiente, o governo continua com a questão de que
quem deve puxar os investimentos é o setor privado e mantém a Eletrobrás
muito aquém do que podia. Se o setor privado não investir, vamos sair
correndo atrás do prejuízo, arriscando um novo apagão caso a economia
cresça muito.

A Eletrobrás devia ter um papel mais alavancador ao estilo do que a


Petrobrás tem tido. Eu reivindicava igualdade de condições de operação, e
isso nunca foi dado à Eletrobrás, pois eles entendem que a dinâmica da
energia elétrica tem que vir do setor privado. Esse é o maior erro da política
do governo na área de energia elétrica.

CC: Você associou a questão do investimento ao risco de apagão. Esse risco


realmente existe?

LPR: Claro. O problema é o seguinte: se a economia for mal, não há risco


nenhum de apagão, pois ainda temos um superávit e dá tempo de
aumentar devagarzinho a oferta de energia, existem algumas obras em
andamento. Se a economia for bem, a energia elétrica vai mal: vamos ter
que correr atrás do prejuízo a partir de 2007, 2008, anos que não estão tão
longe se pensarmos que a construção de uma hidrelétrica leva, pelo menos,
cinco anos e de uma termelétrica, três anos. Desse modo, as coisas não irão
muito bem se a economia crescer como no ano passado. Se ficar capenga,
como muitos dizem que será em 2005, o consumo de energia crescerá
pouco e então há a possibilidade de novas obras se apresentarem se os tais
investidores privados, em particular os estrangeiros tão cortejados pelo
governo, comparecerem. Ou então, se deixarem a Eletrobrás correr na
frente, o que não deixam.

CC: Existem estudos comprobatórios de perigo de blecaute pós 2007?


LPR: No congresso brasileiro de Energia, presidi uma mesa onde este
debate foi feito. Eu e Roberto D’Araújo de um lado, de outro, Mauricio
Tolmasquim e Mário Veiga, que já trabalhava para o MME desde os tempos
das privatizações e que continuou no novo governo com a mesma função de
assessor especial a partir da retirada do meu grupo.

CC: Como foi a sua participação no início deste governo quanto à proposição
de um novo modelo para o setor elétrico?

LPR: As pessoas mais identificadas comigo estavam muito ativas no início


do governo, na definição do chamado “novo modelo”, dentro daquilo que foi
o grupo de trabalho que coordenei no Instituto Cidadania. Houve uma
dissidência imensa e as duas pessoas principais que tinham a mesma
concepção que eu dentro do ministério eram o Roberto D’Araújo e o Leslie
Terry, que infelizmente faleceu, depois de ter sido afastado do papel que
tinha no grupo de trabalho do novo modelo. A partir de então, um outro
grupo, que foi o grupo das privatizações, assumiu.

CC: Poder-se-ia dizer, então, que a proposta original foi desfigurada?

LPR: Não vou usar a palavra “desfigurada”, pois o que tenho que fazer é
corrigir erros. A proposta não foi implementada na sua plenitude, e foram
deixados buracos que a comprometeram muito, como a manutenção dos
contratos e a descontratação da energia contratada das geradoras federais,
substituídas por geradoras privadas. Não se previram esses itens no
modelo, e eles foram sendo tolerados. E, finalmente, há a própria
Eletrobrás. No nosso modelo, seu papel era diferente, seria a principal
empresa elétrica brasileira, e não freada como é hoje, com a baixa
remuneração de sua energia.

CC: Imaginava-se, na reorganização do setor, restringir as funções da Aneel,


que passariam ao âmbito ministerial. Isso foi efetivamente realizado?

LPR: Há um meio termo, houve uma transferência de funções para o


ministério. Mas acho que o problema não é por aí, pois pode haver uma
Aneel funcionando muito bem também. Na realidade, volto a dizer: a Aneel
está dentro da mesma política, ela, junto com o ministério, formam um
todo. Engana-se quem vê essa contradição. E, no fundo, não há nenhuma
política elétrica, o que existe é uma política do ministério da Fazenda para o
setor elétrico. Não há desonestidade, nem erro técnico. É uma opção de
privilegiar o investimento privado – estrangeiro, em particular - no setor
elétrico, em detrimento do papel das empresas federais de geração elétrica.
CC: E sobre as energias renováveis, tão aclamadas por este governo, qual a
sua opinião?

LPR: É uma questão econômica. Neste ponto, defendo a política do governo,


que foi a implementação do PROINFA (Programa de Incentivo às Fontes
Alternativas de Energia Elétrica), que são três GW de energia renovável.
Essa política, embora já fosse decisão congressual anterior, foi levada
adiante no governo Lula, assim como o Biodiesel. No setor elétrico, ainda
não foi reconhecida a importância do uso do biodiesel na região amazônica,
substituindo o diesel em localidades distantes. O governo ainda tem muito a
fazer, mas o primeiro passo já está dado.

CC: Quais as perspectivas para o setor no governo Lula?

LPR: Eu acho deplorável a ausência de luta. Cadê os sindicatos? Cadê todo


mundo que reclamou das privatizações para ter uma Eletrobrás forte? Não
temos mais privatizações, mas temos uma Eletrobrás enfraquecida. Por que
não lutam? Isso me deixa perplexo, infelizmente existe esse grande silêncio.
São tão raras as vozes, com base técnica, que às vezes a impressão que se
tem é de silêncio. No fundo, houve um cala a boca geral.

CC: O que ficou como saldo da sua atuação no governo?

LPR: Fiquei muito feliz, a criação do conselho de presidentes foi uma solução
muito importante e bem sucedida da gestão da Eletrobrás, e lamentarei se
ela não continuar. Também muito importante foi o saneamento financeiro
do grupo, resgatando o prestígio da Eletrobrás como empresa, aumentado,
inclusive, o seu valor de mercado. Depois que saí de lá, não posso dizer que
o mesmo tenha acontecido. A Eletrobrás teve uma queda acentuada no
valor das suas ações, deixando de ter o papel que podia ter como empresa.

Colaboraram Mateus Alves e Luís Brasilino.

Link para o artigo original:

http://www.correiocidadania.com.br/content/view/777/112/

Charge
Esta imagem não é parte original do artigo publicado no correio da Cidadania e eu
não sou o autor do artigo publicado no Correio da Cidadania, assinado por Valéria
Nader e no qual colaboraram Mateus Alves e Luís Brasilino.

Esta imagem é parte do artigo sobre o apagão publicado no blog


Humanismo:

http://humanismus.blogspot.com/2009/11/microincidente-apaga-o-brasil.html

Artigo em defesa da Escola Friedenreich, Rio (citada na “ligação


para o Lula”):

http://humanismus.blogspot.com/2009/11/burrice-institucionalizada-ou-
mau.html