Você está na página 1de 94

HIBI.I OTECA DE FI LOSOFIA E HISTÓRIA DAS ClfNCIA S

VoL

N

~'

14

Coordenado res :

J . A . Guil hon de Albuquerque

e R o ber to Ma chado

E~angelista

2~

N

~'

LOUIS ALTHUSSER

FREUD E LACAN

MARX E FREUD

lntrÓcfuçào crítico-h ist6 rica, tradução e notas:

Walter José E~angelista

Revisão:

Alaíde lnab González

2~ Edição

"FREUD e LACAN" foi traduzido do original francês.

" POSITIONS " , -

Paris, Editions Sociales, 1976

" MARX e FREUD " foi traduzido do original espanhol. "NU EVOS ESCRITOS ", Barcelona , J.,.aia 8 , l978

Direitos adquiridos para a Ungua portuguesa EDOES GRAAL Ltda. Rua Hermenegildo de Barros , 31-A Glória - Rio de J a neiro - RJ CEP : 20241 - Tel .: 252-8582 Atendemos pelo Reembolso P ost al

Capa: Beatriz R on don Revisão : Áurea M oraes Santos Produçllo Gráfica: O rl ando Fernan des

Impre sso n o Brasil I -PTinted in Brazil

CIP- Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ .

A l thu sser, Louis, 1918- Freud e Lacan. Marx e Freud : introdução critica-histórica

  • I Louis A ltbu sser ; traduçlo e notas Walter José Evangelista ; revisão Alaide lnah Goo.zalez : - Rio de Janeiro: Edições Graal, 2~ ediçlo- 1985.

( Biblioteca de Bibliogra fia .

Filosofia e histó ria das ciênçias ; v. n? 14)

  • 1. Althusser, Louis, 19 18 - Bi bli ografia 2. Althusser ,

Louis , 19 18 . - Fílosofia 3 . Freud, Sigmund, 1856-1939 - Critica e interpretação 4 . La can, Iacques M ., 1901-1983 - Bibliografia S. Marx , Ka rl, 1818· 1883 - Filosofia- Critica e interpretação I. Evangelista, W alter José II. Título III . Ttítulo:

Marx e Freud IV . Série

84-0500

CDD -194

335.411

  • CDU- 330. 85 : 1 .

~ibliografia

ex.ist~ncia

2~

INDICE

INTRODUÇÃO

 

por: Walter José EVANGELISTA

-

Althusser e a

 

9

~ibliografia quase completa de

39

Bibliografia de Lacan

...........................................

42

-

Outras obras

 

.............................

42

FREUD E LACAN

 

por: Lou js ALTHUSSER

-

nota preliminar

 

4 7

-

In trodução

 

......

51

·

I -(voltar a Freud)

;

......

55

 

11 -

(Qual é o objeto da Psicanálise?)

 

61

 

111 - {A passagem da ex.ist~ncia biológica a existência

 
 

human a opera-se sob a Lei da Ordem e essa Lei

da Or<iem . se conrunde em sua essência fo rmal , com

 

ordem da linguagem)

:

63

MARX E FREVO

 

por Lou is AL'fHUSSER . ••••.•

 

••.••

75

INTRODUÇÃO

. ALTHUSSER E A PSICANÁLISE

. Walter José EVANGELISTA*

Para Ana, Matheus e Kim

• Pr ofessor de fi losofia da U!!ivcrsidade Foderal de Minas (ierais.

INTRODUÇÃO

ALTHUSSER E A PSICANÁLISE

Walter J . EVANGEliSTA

No início dos anos 60, o marxismo achava-se ameaçado. Torna-

ra-se uma doutrina de Estado. Ora, sobretudo depois de 1956, data do XX Congresso do PCURSS, começava-se a ver que as graves limi- tações do Estado soviético estavam longe de ser apenas calúnias inven-

tadas pelas forças

da reação. O marxismo estava obstruído . Obstruido

não somente pelo dogmatismo stalinist.a , mas também pelas tentativas de superação, feitas a custo de alianças com certas antropologias exis-

tenc ia lis tas e com certas filosofias do homem , que, a vanç-.u , arriscavam-se a arrastá-lo em seu próprio

ao invés de fazê-lo declínio. Além dis-

so, o " humanismo teórico" resultante dessas aliança s mostrava-se in- c a paz de ir além da j ustificada e necessária denúncia e de prestar con- t as, a n a li ticamente, dos impasses vividos. Por outro lado, com o apa-

rec iment o do estruturalismo, um n o vo ataque

se es boçava: incapaz de

uma co ncepção estrutural atenta aos isomorfismos , a tese central do

marxismo de uma determinação pelo econômico, não seria, apenas ,

uma grosseira e mecânica relação de causa-efeito entre base e superes- ·

trutura?

Nessa conjuntura , surge e intervém Althusser . Representante legit imo da mais pura tradição marxista, homem- de-partido , ele , embora fiel ao PCF , vai abandonar, tão ousada quanto habilmente, a defesa da dialética dogmática e oficial, deixan- do-a entreguo aos ataques das filosofias existenciais e do estruturalis- mo. Para espanto geral e pânico de alguns, vai muito mais longe: pare-

-

ce passar para o lado dos estruturalistas. Na realidade , aproveita-se,

momentaneamente , dessa moda para desvençilhar o marxismo deve--

l has filosofias e promover um rejuvenescimento de alcance mundial,

qu e se tornou conhecido como um ( re )c omeço do Materialismo Dialiri-

co.

Essa estratég ia de (re)começo abrange dois grandes momentos.

 

No primeiro , que culmina em 1965, mostrou-se 4e modo vigoroso

a c ientificidade do Materialismo H istórico, que se achava encoberta

p or. ideologias . Nessa pr imeira fase, o recurso à categoria bachelard ia-

n a de rup t ura , ass umida por A lthusser sob a forma do conceito de cor-

t e epis tem ológico, foi decisivo. No entanto , a Fi losofia, assimilando-se

à Epistemologia e definindo-se ccimo Teoria das práticas teóricas, con-

centrou-se exageradamente na oposição Ci~ncia X Ideologia, dei~an­

do , assim, a luta de classes em segundo plano.

N o segundo, que se inicia em 1967 e tem como auge o ano de

I 974, a Filosofia é redefinida como sendo, em última instância, políti-

 

ca na teoria . Com iss o, a luta de classes retoma seus di rei t os e, conse·

 

qüentomente, a · antiga oposição C iência X -Ideo logia perde o caráter

absoluto que se arriscava a assumir , para ser reafirmada de "modo mais

s u t il e articulado .

·

De qualquer modo, o que

mais nos im porta aqu i observar é que,

em ambos os momen.tos dessa estratégia que provocou o (re)começo

 

do Materialismo Dialético, o confronto com a Psicanálise ocupou um

lugar decisivo .

·

Nessa estratégia e nesse confronto, " Freud e Lacan" (1964) bem

co mo "Marx e Freud " ( 1976), textos que ora apresen~o ao leitor brasi-

.leiro , são duas táticas essenciais, adotadas, cada uma delas, em cada

um dos referidos momentos. A leitura de ambos permite, portanto, na

medida em que abrange esses dois momentos; uma forma de acesao

completa, embora unilateral, à dimarcht althusseriana . ·

Oferecer al gumas informações e reflexões. para facilitar

sp , é o objetivo desta introdução .

tal ac;;es.

•••

Consideremos, então, o primeiro .desses textos: "Freud e Lacan".

É preciso ver, antes de mais nada, que; muito embora Louis

Althusser seja um d o s mais claros e

pedagógicos filósofos da atualida-

de, esse texto não ~onstitui uma "introdução ao pensamento de La-

can", que iria, fin a lmente, .revelar-nos os tenebrosos mistérios escondi-

dos sob !J.S fórmulas mágicas que afirmam ser o inconsciente estrutura-

do como uma linguagem ou falam dele como tendo o discurso do Ou-

t ro . Não se trata, tampouco, de um ensaio, puramente especulativo,

sobre Psicanálise. "Freud - e Lacan" e outra coisa. deriva de um duplo

l O

.

N~w

Re~iew,

condco~o

i{lt~rmJ;tç_àQ.~cariiana

P()Sirõ~$·].

Ci~ncia

dei~an­

apresen~o

~onstitui

estatuto que se articula rigorosamente: a Política e a Filosofia ; de uma

política que se faz filosofia e de uma filosofia ·que se faz politica, e que

constituem a paixão de Althusser .

"Freud e Lacan" é, antes de mais nada, um texto de Juta teórica .

N~sa luta, Altbusser se define, inicial e essencialmente, em relação a

um texto de 1949- " Auto-c ritique: la psycha~alyse. une idéologie reac-

tionn aire", e s ó em referên c ia a este texto aq uele pode ser inteiramente ··

compreendi do . ' Este último é um artigo que aparece em · Lo

Nouvrlle

Critique, que é

a revista teórica· oficial do P-artido Comunista

Franc!s.

O itn pro fi ssionais. familiarizados com o .d o mrn io da Psiquiatria , Psi -

cologia e Psi"canálise, e que se assumem como marxistas o assinam .

Um deles, S. Lebov ici, será , alguns anos mais tarde, entre 197Je t9n.

nada menos

que o único Presidente francês da lnternt:Ítiona/ Psy

.

A nalytical Association . Nele , há uma condenação sem apelo à Psicaná-

lise:

.. . ..

wgam os ao fun da nossa autocrltica, à.con~ião de qUI! o coojWt-

to . dize m os autores, sublinha ndo, eles mesmos. essa úl tima s p a laVTa, das

t eorias psicanalíticas es tá ·cotUamiNJdo pelo que n6s poderíamos deMminar

IÍm ·princípio mistificador'

.

..

,

·

·

•.

Neste texto, poucos autores são citados, mas~ dentre eles, aparece

o nome de Lacan, que é criticado.

Tendo

como pano

de fundo certas teses . de Politzer,

conduzidos

pe~a linha djanovista, procurando desesperad~mente fazer

face à ofen-

siva do imperialismo norte-americano que provocava efeitos ideológi-

ços no campo psicanalítico pela "ego psyclto/ogy ", nossos autores irão

lançar o

equivocado dilema: ou Marx. ou Frnlli.

·

.

· Em 49 o stalinismo estava em plena v igênciâ . Assim, entre o

Auto -critique

" e o "Freud e Lacan" irá existir um marco históri-

co, cuja importância nunca é demais sublinhar: o XX Congresso do

PCURSS, d i to da desestaJin·izaçâo. Logo, o texto exprime, acima

de tudo, a tensão entre doi s ·momentos diferentes. do movimento cO-

munista internacional: o · stalinista e o pós-stalinista. Trata-se, pois, de

I :

A lthusser tciia escrito, em 2 1 de fevereiro de 1969, a o seu tradutor para a edição d o

" Freud c Laca.n" da N~w Left Re~iew, o seguinte; "Há um perigo de que este artigo seja ma l compreendido, a meno s qu e seja tom ado pelo que enti o objc:tivamcnte er a: uma in·

tervcnçào filo:>úfic:o . inslaml o o:. mcm bros d o PC r- a rc<;onhcccn:m a c:icnt ifi cidude

du

Psicanálise, da obr,uk. frw6 e da i mportância da i{lt~rmJ;tç_àQ.~cariiana desta . Con5e-- qücnt.ementc. d e er<1 polemico, porque a Psicanál ise fora oficialmen te condenada, nos anos cinqDcnta, como uma "idcoloaia reacionária"; a despeito de algum as modifica- ções. essa condco~o ainda dom inava a situação quando cacrcvi este artigo . Esu situa-

ção expciona l deve ser levada em conta quando o sentido de minha i nterpretação é avaliado h oje". ALTHUSSBR , Louis. P()Sirõ~$·]. p . 103. ·

2 . BO"NNAFE et a líi. " Auto- c rit

..

u c; la p sycan alysc:. u n e idéolo gie reac ti on nai re."

um protocolo do movimento revolucionário do proletariado, embora se exprimindo em uma esfera aparentemente bem distanciada deste, que é o mun.do da teori-a. Uma teoria cientlfica não surge e persiste por milagre. Ela sempre paga um alto preço pata existir, tanto histórica quanto politicamente:

Al~husser

fiUIIkz~nto,

o preço de uma luta implacável. Essa luta poderá ser vista no combate t anto de Lacan, no seio do movimento psicualftico, quanto de

 

Altbusser, no do comunista. ••freud e

é a confluência dessas

lutas. Ele não contém uma única palavra sobre Stalin ou o stalinismo, no entanto.joi um dos primeiros textos, na décado de 60. a promover um ·anti~stalinismo, não apenas puramente verbal, que repi saria publica- mente o remono, através da repetição obsessiva da denúncia moral, mas que fundaria essa critica sobre um corpo conceitual rigoroso e de- monst rável.

 

Definindo-se em relação a esse texto de 49,

e Lacan" pro-

voca, no interior do movimento comunista , uma significativa modifi- cação em sua posição face às ciências em geral e à Psicanálise em parti- cular, modificação esta que exprime u~a transformação de suas posi- ções filosóficas . Indo diretamente ao esseneial: o texto procura mostrar, passan~o por Lacan, que a Psicanálise é " uma ciência nova, que é a ciência de um

objeto novo: o inconsciente'~: "Ora, o objeto de uma ciência, enquanto . objeto-de-conhecimento, ou seja, um obj eto produzido teoricamente~ não pode ser simplesmente apontado como a primeira realidade empí- rica vinda . Assinalar um objeto de uma cibcia implica poder distin- gui-lo das ideologias (teóricas) que o assediam .e sufocam. Implica. poi.v. a exi.ftência de princípios teóricos claros e rigorosos, capazes . seja

dt• ler. seja de produzir tais distinções.

E o que faz Althusser, respondendo ao texto de 49. Uma a uma, ele vai mostrando, demonstrando c desmontando as várias figuras da ideologia que ocultavam ou enterravam .o objeto de Freud, tanto aos olhos dos próprios profissionais da Psicanálise em geral, quanto, de forma ainda mais grave, dos próprios marxistas. que, por direito, deveriam ser capazes de conhecer a ideologia como ideolo- gia . Essas figuras vão desfilando, uma a uma: biologismo, psicologis- mo, sociologismo, empirismo, positivismo, etc . Elas aio, cada uma a seu modo, efetivações de uma mesma tend!ncia, que é o id~alism<J da ideologia dominante burguesa, e que contamina tanto a Psicanálise

quanto o Marxismo .

·

Esse combate ao idealismo, naturalmente, só é posaivel porque·

Althusser ocupa posições materialistas. E é essa a virada profunda que

ele provoca: enquanto os

marxistas de 48", como diz Althusser, pro-

.. curavam fundar ou, como no caso da PsicanAlisc, afundar, pela erltica, as ciências; enquan t o eles, em nome de um saber superior, o Materia-

12

~ecessário

~m

~~à ·

&impl~s,

~tU/o-s~

s~io d~

m~smq

~tnutk

porq~~e

Dial~ico,

~to

~e­

p~ende

Man~ismo hicanA&i~e.

·anti~stalinismo,

u~a

inconsciente'~:

passan~o

teoricamente~

id~alism<J

lis mo Histórico e Dialético, legiferavam sobre a prática científica; en- quanto eles estavam prisioneiros, para se ir ao fundo da questio, da .problemática idealista das filosofias ·do fiUIIkz~nto, a posição de Al~husser é diametralmente oposta. Ela é mt}terlalúta , ou seja, ela re- cusa a questão do fundamento .

. Assim, o texto de Althusser nio objetiva fundar o discurso da Psi- canáliSe em geral, e o de Lacan em particular. Num certo sentido , o que ocorre é exatam~nte o contrário: Althusser parte do caráter cienti-

fico da Psicanálise, J Parte do fato de que Laean reconbeeeu e soube ti- . rar proveito do caráter cientifico da Psicanálise. Nesse sentido, o tra- .balho de Althusser parece fazer-se na direção antes apontada por En- gels, em seu proj eto original da busca de uma dialética da Natureza :

cada nova ciência, segundo este, revoluciona o Materialismo. Tratar- se-ia, , poi.s, aqui , de explicitar a revolução feita pela Psicanálise, en- quanto ciência nova, no Máterialismo. Ou ainda, não se trata de im- por; uma dialética p~via às ciencias, mas , sim, de explicitar, partindo da existência de fato das ciênci&$, as ftguras da Dialética. Encontrar ou reconhecer, portanto, a dialética da Psicanálise. Não dispondo aqui do espaço que seria ~ecessário para uma deta-

lhada explicação desse ponto, que

é, no entanto, fundamental , limito-

me a indicar, esquematicamente; o esscncia1. 4 Como disse, Althusser provoca um (re)começo do Materialismo Dialético . Como fez isso? Ele o fez. voltando a Marx e à tradição marxista (Lênin, Mao, etc .).

Ele o fez voltando a eles e explicitando, de modo rigoroso e analftico, a _especificidlltle da dilllética materialista ~m relação à hege/iQIIQ. Ele o fez mostrándo qual é o pressuposto radical que torna a dialética hegeliana ·pensáve/, e como um tal pressuposto é inteiramente diferente daquele que torna a dialética marxista .possível e pensávcl. · Coni efeito, ele nos mostra que a dialética ·hegeJiana é posslvel .

~~à ·

"

...

pressupOJiçio rodical dt uma unldtMlt orlfln4rúJ &impl~s, dtstnrol-

~tU/o-s~ no s~io d~ si m~smq pela ~tnutk da MgtJtMtlade, e jtlmtlis restau-

  • 3. Num ceno sentido. porq~~e não se trata de mudar de rundamento . Anta, no tc:JLto

de 49, teríamos o f undamento lilosólico dado pelo Materialism:O Dial~ico, que ncpria o caráter de cientirlcidade à Psicanálise. a qual seria· uma simples ideologia reacionária; aaora. com o ~to de Althusser, terlamos o novo fundamento , que seria a Psicanálile enquanto Ciâlcia, redes(:obcrta por Lacan, o qual fundaria uma nova filosofll . que ~e­ ria o novo Mate ria lis m o Dialético de Al t huseer . Nio . O _que o autor de " Freud e La· can" p~ende é que a F ilosofia se desven ci lhe. de uma vez por t o das, da q ues.tão ideal is- ta d as teorias do f undamento .

  • 4. Uma exposição cletalhadá aparecerá, nesta mesma oolcçio , do autor da pruente In·

trodução, tratando das rclaç&s entre Man~ismo e hicanA&i~e.

rol!do, em todo o seu desenvolvimento, cada vez numa rota/idade mais · con- ·

 

crtta',

a não ser es.fa unida~e e essa simplicidade originárias."'

Vale, pois, dizer que tÓdos os conceitos ou estruturas dessa dialéti·

 

ca (simplicidade, essência, identidade, unidade. negação, cisão. ali~na·

ção, contrários, abstração, negação da negação, Aujhebung, totaJ~da­

de contradição, etc.) estão suspensos a esse pressuposto. Vale dtzer

qu~ a contradição hegeliana, estrutura fun~amental da dialética, é, c

tem de ser, uma contradição simples. Vale dizer que Hegel é impensável

e impossível se excluinnos essa "unidade originária simples'' e, por·

tanto. espiritual.

.

O mesmo não ocorre com a dialética materialista. Voltando a

Marx e à trooição marxista, Althusser faz um pacie~te levanta~e~t~

tanto de questões de fato (a análise feita por Mao acerca da multtphct-

dade e complexidade das contradições, ou a feita por Lênin da Revo-

lução Russa) quanto de elaborações teór~cas rigorosas, e. portantQ, de.

direito (o que é dito por Marx, na Introdução de 57, quanto ao método

da Economia Política). e conclui que a dialética marxista não P'•de Jer a

mesma que a hegeliana.

Isso porque, segundo ele,

". . .

no lugar do mito ideológico de uma filosofia da origem e dos s~f

conceitos orgânicos, o marxismo estabelece o princípio do recOithtcimento do dado da estrutura complexa de todo 'objeto' concreto, estrwura que de-

termiM tanto .o desenvolvúnento do objeto quanto o desenvolvimento

da prá-

tica teórica que produz o seu conhecúnento. (

) Por con.reguinte, não te-.

. .. mos mais, continua ele (sob qualquer que seja a fonna ). unidade simples ori- ginal, mas o sempre-já-dado de uma unidade complexa estruturada":•

. logo, a dialética materialista não pode ser a mesina que a hegelia-

na, uma vez que seus pressupostos são diferentes. Importa observar'

que, por detrás dessas questões, aparentemente tão distantes e abstra-

tas, o que está em jogo é uma realidade dramaticamente concret&: o

stalinismo, seus horrores e crimes.

Com efeito, Althusser procurará demonstrar que o Materialismo

Dialético em sua dogmática versão stalinista, implicando, por seu

economidísmo, um panteísmo das forças produtivas (nova unidade

original simples) e tendo como conseqüência especul~r o humanismo

teórico, estava ainda prisioneiro da problemática hegehana. Para ele, a

ruptura com a dialética hegeliana será, na realidade, uma ruptura com

o stalínismo.

  • 5. AL THUSSER. L. Análi.te critica da teoria mar:cista. p. 173.

  • 6. AL THUSSER •. L.

Análise crítica da teoria marxista. p. 174.

14

~le

Psicanálise.~

unida~e

'

No entanto, para o que agora nos interessa, ou ~ja·, para situar os

tedos de Althusser acerca da P&icanálise i mporta observar mais de

,perto um outro aspecto do mesmo problema. A lthusser estabelece a

diferença entre a dialética marxista e a begeliana, sobretudo pela mi-

 

nuciosa análise de uma das suas estruturas essenciais, que é a contradi-

ção. Mostra que, coerente com seu pressuposto, a dialética hegeliana

qu~

é, necessariamente, de uma contradição simples. A marxista , poi:' seu

fun~amental

lado, igualmente coerente com

o seu pressuposto, não poderá .ser uma

contradição simples, mas, sim, uma contradição

". . .

complexamente

  • '- estruturalmente- desigualmente- determ;nada

. ..

"' SendQ a s:ontra-.

diÇão o motor de toda dialética, essa última caracterização que dela se

faz. é de extrema importância. Ela exprime o t ipo de causalidade dialé-

tica que é pensada por Mar~ peJa tradição marxista . Ele indica,

pacie~te levanta~e~t~

..

e

como dirá o próprio Althusser, grifando ele. mesmo a~xpressão, .....

o traço mais profundo da dialética marxista. " 3 Ora, para pensar urna

teór~cas

realidade

de tal importância, é preciso um conceito .

Mas corno é que se produz um conceito?

Um conceito não

é uma simples pal avra que podemos encontrar,

com a leitura do primeiro dicionário consultado. Como sabemos, ~le

não indica simplesmente uma realidade empírica. não é um nome que

damos a uma coisa imedi atlfmente observállel. Um co n ceito é.in.tcJ:de-

s~f

pendente de todo um campo c<tOceitual, do qual recebe uma significa-

ção. sendo esse campo, por sua vez, solidário com as condições de sua

produção. Ele não pode, pois, ser tomado de empréstimo , facilmente,

. como algo

isolável. Assim, produzir o co nceito que

no s dará "

o

traço mais

profundo da dialética marxista

", que

tornará poss íve l.

pensar o motor da dialética, que exprimirá a própria causali dade pro- .

posta por Marx , é, inegavelmente, tarefa delica4a

.

Althusser irá propor o conceito de superdeterminação (surdétermi-

nation ou Oberdeterminierung), que diz ter tomado de empréstimo de

outras disciplinás, no caso , da Lingüística e da Psicanálise.~

Tudo parece muito simples e inocente. A dialética marxista é dife-

rente da hegeliana, por ser uma dialética de uma contradição superde-

terminada. Este último conceito, d iz-nos Althusser, dá-nos

". . .

O lTa-

. ço mais profundo da dialética marxista'". 10

Olhemos, no entanto, tudo isso um pouco mais de perto. Que sig-

nifica exatamente essa "Lingüística e Psicanálise" que nos orereceram

especul~r

um conceito tão importante?

  • 7. teoria

ALTHUSSER.

L.

Análise

crítica

da

marxista . p . 185.

L.

  • 8. da

ALTHUSSER.

Análise

crítica

teoria

marxista. p . 18 1·2.

  • 9. ALTHUSSER. L. Análise crítica da teoria marxista . p. 182. nota 48.

10.

Al THUSSER . L.

Análise

crítica

da

lt>oria

marxista , p.

182 .

Ora, se lermos com atenção os textos de Althusser publicados nessa primeira metade do decênio de 60, se considerarmos, sobretudo, o peque"o artigo intitulado ''Philosophie et Sciences Humaines". bem como alguns argumentos que aparecem no ''Marxismo e humanis- mo", ou, finalmente, a introdução escrita por ele para o Lin Le Capi- ud, veremos ·que Althusser está, nesse momento, verdadeiramente fas- cinado por Lacan. Poder-se-ia mesmo indagar se nio se passaria com ele algo da ordem do que Frapçois Roustang chamaria UJPIS/enncia PJlfl~.a teoria. 11 De qualquer modo, parece-me inegável que "Psicanáli- se e Lingüística" nada niais são que a própria teoria lacaniana e que, portanto, o conceito dt superdetemúnação vem, na realidade, de La-

can. E isso AlthUsser não pode declarar abertamente. Estamos, então, diante da seguinte situação: o conceito que per- mite pensar "o traço mais profundo da dialética marxista", que permite distinguir essa dialética da hegeliana e, pois, finalmente, empreender, no nível teórico, um corte com o dogmatismo stalinista vem desse dou- tor explicitai:Tlente condenado pelos "marxistas de 48", que enfrentara uma significativa cisão com a ortodoxia psicanalitica em 1953, e que, finalmente, nessa mesma época (1963), está sendo excomungadC) pela Sociedade Francesa de Psicanálise. ''Freud e Lacan" foi escrito fundamentalmente para os marxistas, · e Lacan não era desconhecido dos "marxistas de 48". Ele era, como vj- mos, diretamente atacado. Logo, era .preciso, a todo custo, resgatar, mostrar e defender o caráter científico da Psicanálise em. geral e do tra- balho de Lacan em particular. Não se tratava de fu11dar urna ciência, como quereria o idealismo. Tratava-se de lutar Pltraque ela fosse reco- nhecida oomo tal e, em primeiro lugar, pelos· próprios marxistas, que haviam cometido, no texto de 49, o terdvel engano, de jogar fora, jun- to com a água do banho, o bebê que era essa jovem ciência.

[~partirA

m~ica fr~ncesa.

Visto nesse quadro geral,

Freud e Lacan" ~a meu ver, um dos

.. textos mais inteligentes, belos e vigorosos de Althuss~. Ele está,

sobretudo no interior dc;J movimento comunista, jogando uma cartada

:decisiva: ou o "mérito teórico· de Lacan" é reconhecido, e então o seu também terá chances de sê-lo e, assim, uma dos primeiras crilictU fun- dadas do ,ftalinismo (a questão da dialética stalinista como um h•lia- nismo de pobre, enquanto ignora a superdeterminação) será possfvel, ou Lacari será massacrado, como a excomunhão de 63 parecia indicar,

e então

e então, nem é bom pensar: o sufocamento stalinista conti-

nuaria.

li. ROUSTANG. F. Un fkstin si /UIItStt, fGMim.

16

página~

Ca~racas.

Normal~ Supr~

~to

PJlfl~.a

Althusser começa, então, pelo começo, ou seja. pelo ataque stali-

.

.a preciso saber convencer.

nista- via Jdanov- çontido no texto de49

.Althusser .faz uso da mesma arma tão esplendidamente manejada por Lacan: a Retórica. Ela servirá de instrumento para abrir caminho para

a Ciência. Com ela, Althusser irá ajudar a abrir o caminho para La- ·

can;

·

E. essa abertura de caminhos se faz não apenas na ordem abstrata ou. teórica, mas, também, na materialidade concreta das instituições;

Com efeito, no fim de 1963, Lacan é excomungado da Sociedade Fran· ccsa de Psicanálise, uma vez que esta desejava filiar-se à lntematiOtUJI Psycho-Analytic Associatíon, a qual, por sua vez, exigia, comó condi-

ção, a cabeça de Lacan. 12 Imediatamente

após, o professor Delay, que

acolhia seus seminários em Sainte-Anne, aproveita-se das circunstân: .. .cias para desembaraçar-se de tão tumultuosa personagem. Lacan está, . [~partirA de. então, sem a S.FP e sem O apoio logfstico de um·CC!ltro da 1mportanc1a que tem o Samte-Anne, no poderoso mundo da anstocra- . cia m~ica fr~ncesa. Nessa conjuntura, a intervençio de Altbusser é . dupla: ao mesmo tempo em que: redige "Freud e Lacan" (janeiro de 1964), na qualidade de Secretário da prestigiosa Eco/e Normal~ Supr~ rieun> da. rue d'Uim, convida Lacan para·ali continuar seus seminá- rios, que são retomados a partir de IS de janeiro de 1964. 11 . Se, convidando-o para a Eco/e Nomuzle, um espaço se abria no nível institucional, o texto que Althusser guardou na gaveta, entre ja- neiro e dezembro de 1964 (ou seja, durante esse primeiro ano de Lacan na Eco/e Norma/e) fez seu trabalho, abrindo caminho, no seio dtl ideo- logia, para que Lacan fosse ouvido. Certamente, durante esse ano de 1964, esse texto foi discutidO entre os "amigos" de Althusser, çeiu. mente ele circulou tanto na Eco/e Norma/e Supérieure, quanto entre os comunistas, criando condições para o trabalho de Lacan. Certamente, ele contribuiu para que o doutor Jacques Marie Emile Lacan se trans-

formasse em Lacan.

·

"Freud e Lacan" é, antes de qualquer outra coisa, um ~to polfti- co, e como tal deve ser avaliado. É bem verdade que o -texto pode ser diseulfvel, nesse ou naquele deta_lhe. O próprio Althusser o faz, em 1969, quando, por exemplo, ad- mite, perante os leitores ingleses, que certas teses deveriam ser.

~a

Althuss~.

12. hcqucs-Aihtin MILLER reuniu uma completa documentaçio sobre iudo isso. a

qual foi publicada no suplemento nt 8 da Omícar?, denominado

..

L'excommunication ....

  • 13. Jacqucs-AIIain MIL LER, em um seminário 110bre Psicanálise, realizado na Escola

de Psicologia da Universidade Central da Venezuela, fala -desse convite a Lacan, feito por Althusser. nas página~ 11-9 do texto. · divulpdo. em âmbito restrito, pelo Editorial.

Ateneo de Ca~racas.

"

• •

.

011 corritidas ou ampliados. (

) Em pariiniar a t~oria iir lANn I

aptr~rntadcr rm t~mtos qw . a fkspeito

dr todas as p~~s. tim

os a~,_

tos

cu/turalisttU , . ao passo qw a traria -M Úlctlll llllltlndtul'flli.sta". '•

E. de fato, fascinàdo como estava, nessa éj,óca, pela teoria laca~ nbna, Althusser a assume talvez um pouco apressadamente. A tese do

primado do simbólico, CO !li a qual Lacan unifica o campo da Psicaná - lise, vai aparecer. no "Freud e Lacan " , através da noção de ·~homini-.

 

zação",

a Freud, é inusitada

.

.

que , se é estrar,ha tanto a La~n quanto

_no próprio Althusser_..

·

·

·

·

 

Essa noção de "~ominizaçio" traz consigo um certo culturalis-

 

mo.

pois o incó nscientc, ."a despeito de todas as

, arri5ea-

a

se disso lver em

uma série de fatores e.x.terioret e sociais. E é sob

 

um tal

risco que se

monta um . programa .

. se a hominização, ou seja, ·o tornar-se humano da ·

Com efeito.

 

"cria de homem " se dá sob o primado do simbólico, então se.ria possível passar deste para as estruturas de parentesco, pela mediação das formas ideológicas na~ quais são vividas as funções de, por exem- plo, paternidade, materni.dade ·e tiliaçio 7 Ora, como seria possível dar- se conta rigorosamente destas últim~, sem considerar as condições

~,--conômicas, jurídicas. éticas, religiosas

da família, que estruturam o

papel do pai, da mãe e da prole? E como considerá-las sem reco_rrer ao corpo conceitual do Materialismo Histórico? De tudo isso, surge um programa capaz de. ~nir Marxismo J:. l!si- ~análise. Mas esse programa é montado mediante certos· riscos . O mais importan.IJLdelcs. a meu ver , foi o perigo de confundir o objeto de . F.reud.~cum o .de Marx . O oferecimento, pelo Materialismo Histórico, . de conceitos capazes de promover o estudo das ré feridas condições po - deria acabar condu z indo a uma anexação da Psicanálise ~lo Marxis- mo. sob o pretexto de não poss.uir o que ela poderia of«ecer-lhe, ou sej a, um a teor ia da idcol o gia. 15 Esse risco é claro· e definitivamen~e afastado pe lo segu ndo artigo que apresento- "Marx .e Freud " - e que d ist ingue, com r igor , o obj eto -de Freud do de Marx . · Dominique Lecourt c.hama a atenc;ão para um outro perigo desse programa . ~ Ele acaba tornando dificil uma análise critica da "maqui - naria lacaniana" . Qúanto a isso, a me.u ver, será . novamente o texto "Marx e F reud" ' ·q uc irá . abrir caminhos.

  • 14. Ck a nota do editor brasil.:;:o do "Freud e lacan". In: AL THUSSER. L ,oJi-

.(M.t·Z. p .

103.

  • 15. Não teria sido eal» tendência de um Michel TORT. no seu "IA !sydttu!DIJ'-"! dan.r

.

I~ MDtirialiJm~ DíQ{tctiqw".~.

  • 16. LECOURT , O . La ,kllosophit SQIIS Jrifrtr.

p. 113·20.

18

pa~a

sob~

des~ino

at~

Posi~j-)_'p.

it~­

~im

Rrchrrch~s

t~oria Mas, por mais importantes que sejam esse5 _impasses c cdtícas (que podem sempre ser retomados
t~oria
Mas, por mais importantes que sejam esse5 _impasses c cdtícas
(que podem sempre ser retomados e corrigidos), não se pode perder de
aptr~rntadcr
t~mtos
p~~s.
a~,_
laca~
vista o fato de que são apenas pequenos det{llhes em relação à estraté-
gia global de crítica do stalinismo e de relançamento do Materialismo
Dialético. Se, para tanto, o objetivo tático de Althusser fora. segundo
suas próprias palavras, o de intervir filosoficamente ,
instando os
memhro.f do PCF a recotJhecuem
·~homini-.
obra de
Freud e da impÓrtáncia da
a c ie_ntiflcidode da Psicanálisr, da
interpretação laconiana desto", 11 o
La~n
"~ominizaçio"
~
s ucesso parece ter sido bastante grande .
Para citar apenas um exemplo, b~sta considerar que , pouco tem-
po após a publicação do texto- em 1967~8 - o Crntrê ã Etudes et Rt-
l'hercheJ Mar:dstes (CERM) organiza um grupo de estudos pluri-
d isciplinares sobre Psycanâlise e Marxismo·, do qual resulta uma signi-
ficativa produção teórica (ccréa de 12 artigos do publicados), 11 nitida-
mente dominada por um debate em torno de Lacan . A pro~a disso é
que o próprio Lacân e&tará presente pa~a uma confrontação com o
grupo, fechando o ciclo de exposições.
na~
Uma pequena nota
da
edição original do '' Freud e Lacan" nos
últim~,
diz: "L.A. propõe, aqui, algumas rejláões sob~ o estatuto teórico da
PJiconálise. Ele desejo que essas I'J!.flexõe-s suscitem outras. É tambim o
~,--conômicas,
voto da revista". •• Se foi esse o objetivo e o desejo, cQtão ambos se rea-
lizaram, pois o des~ino teórico, mas sobretudo pólftico da Psicanálise,
· na França, está marcado, até hoje, por esse pequeno artigo.
~nir
....
~análise.
Consideremos agora o segundo teito ,
F.reud.~cum
Marx. e Freud".
_
·
Entre 1965, data da publicação de "Freud c Lacan", e 1976, data ·
~lo
definitivamen~e
•~
e m que redigiu "Marx e Freud' ' ,_muita _água rolou sob a ponte. No it~­
nerário teórico de Althusser, essas duas datas e, portanto , esses dots
artigos são testemunhos de momentos bem _dist i ntos , correlativos a
duas definições <liferentcs de Filosofia . ·
O primeiro momento vai at~ 1965, data da publicação de "Freud
e Lacan ". Nele, Althusser, recusando o dogmatismo .stalinista que se
consubstanciava no tradicional Materialismo Dialético, propõe uma
n o va definição para a filosófia marxista . Ela seria Teoria e é ~im de--
finida, :em 1963:
·

I~ MDtirialiJm~ DíQ{tctiqw".~.

·.

.· ..

  • 17. ALTHUSSER, L. Posi~j-)_'p. 103.

t'8.

Psychanalyse et Marxisme: ús CQhirrs tlu Crntrt d'Etlllirs tt Rrchrrch~s Morxis·

u .t. Paris, 1970. 4 v.

b

19.

ALTHUSSER. L. "Freud et Lacan". IA Nouvrllr Crltiqur, n 9 .161-2. dezem ro-

janeiro 1964/65

·

·

" Chamanm os T~orla (c om maiúscula) à teoria geral, isto é, à t~orifl da

prática ~m gmzl ( ~labort~da, ~~~~ própriiJ , a Pflnlr dll t~oria das pníticos tró-

rl ctU ~xlst~nt~s dtU dlncia&) qw transformam~"' 'conh~cimentos' (wrtla- d~., C'i~nt{jltm) o produto ld~ógico das práticos ' emplrirtU' (a ativitlod~ do.f /rQfNf'ns J ~xlstmttJ".l" ·

'

E~

.~ndo

SJI,f~rlr.

d~

O que nos propõe, concretamente, essa definição, um tanto pc:&a-

dona c repetitiva'! Ela ~e · do princípio, rigorosamente marxjsta, se-

gundo o qual uma prior:idadc da prática. No entanto, quem~ capaz

de m nhecer a prática? Quem é capaz de conbecer esse concreto que é

"

. . .

a atividade dos hom~ns ~xistentes"? São . as ci!ncias. Althusser

chamá-las-á, no entanto, "práticas teóricas" . Essas cimciu ou práti-

. cas teóricas conhecem a práti ca dos homens. mas não possuem. n~

sariamente, uma . teoria da sua própriá prática teórica. Marx, com O

Capital. apropriou-se da prática real dos homens cxistcn~ transfor-

mando , por exemplo , a Economia PoUtica clássica, ainda muito pró~i­

ma da prática empíri ca, em uma ciência dotada .de um objeto próprio,

a luta de classes .

.

;

Marx não tinha , porém, uma teoria da sua própria prática teóri -

ca. Freud, com a Interpretação dos Sonho~. apropriou-se da prática .

real dos homen s existentes, transformando a antip Psicola,ia, ain4a

muito próxima da prática empírica, em uma ciênciá dotada de um ob-

jeto próprio, o inconscien,e . Mas também ele não tin.ha uma teoria

bem elaborada da sua prática teórica. Elaborar essa teoria seria, en-

tão, em 1963, o objeto da · Filosofia .

·

.

supcrdctcrminaç~o

~ria

L~

q~c

tam~m.

1~7,

movtmcn~

defin~

1~74, p~mentos.d~ Aut~ritica.

não~

T~na

··s~do".

F~eud

t~na.

um~ radic~l

te~~~:

~

~ma

Essa definição da Filosofia retoma alguns pressupostos filosófi -

cos bem conbcci<tos . Retoma. por exemplo, Kant, .quando este pensa a

cimslituidu da ciência pór um progressivo afastamento do empirico .

Ret o ma . sobretudo , Gaston Bachelard, quando este· nos diz que a s

ciênci as do ~ulo XX estã o em completa e radical ruptura com o co-

nhecimento c omúm ; e que essas ciências vivas têm necessidade. de uma .

conscllncia~do-$Í

~az

~csobstruir

filo sofia nov~. apaz .de ajudá - las a se desvencilharem desse "tecido de

"Mar~

erros tenazes" que é o conhecimento comum. Mas retoma, antes de tu-

~ntiga ~oncepçlo do , o velh o projeto de E ngels da constituição de uma Teoria
~ntiga ~oncepçlo
do , o velh o projeto de E ngels da constituição de uma Teoria ou Dia/1-
mosu•~tr
T~otfa.
t ica . que str ia elaborada a partir das ciinciaJ. Infelizmente, po~m.
essa definição de Filosofia retoma, também, a epistemologia stalinista
en~anto,
di~tamcntc
posterior a 1950 da oposição Ci~nçia X Ideologia c que, apesar de tu-
~
cxtremam~tc
do, nàó deixa de ·infl~enciar o trabalho de Althusscr.
passag~~ d~
~o

Essa definição da Filosofia·coloca, contudo, inúmeros problemas.

Por exemplo, o de saber se: cs8a Teoria geral não acabaria sendo uma

teoria única, uma s uperteoria, uma novà matesis universalis, que aca-

  • 20. ALTHUSSER , L. ANill.st u(tlca da ttorl4 marxista. p. 14S. crr . KANT . Crltlq~ dt la raúon pun : Ver o prefácio da 24 cdiçio.

2 1.

20

~m ~xlst~nt~s d~., C'i~nt{jltm) ~xlstmttJ".l"

T~orla

~labort~da, ~~~~

t~orifl

t~oria transformam~"' 'conh~cimentos' ativitlod~

ld~ógico

~e ·

hom~ns ~xistentes"?

quem~

n~

cxistcn~

pró~i­

Sonho~.

~ulo

nov~.

po~m.

Ci~nçia

·infl~enciar

Crltlq~

baria por impor-se, como um nov'\ \aber absoluto, a todas as ciancias.

E~ risco foi nwito .~ndo a SJI,f~rlr. depois d~ ".F.-eud c

lacan". por exemplo, que seria posslvcluma

..

fusia

entre a .tóptca mar-

xisla e a freudiana, qu!' Gria possfvcl um supcrdiscurso - eventu&:l-

mente chamado discurso da supcrdctcrminaç~o - que, enquanto tcona

. geral .dos discursos. seria uma Teoria Geral da Ciência . Restaria, natu-

. ralmente. saber quem ~ria o

..

dono" dessa Teoria Geral. se o Marx de

Althusser . ou o Frcud d.c ·Laean . Isso, porque . se foi Lacan quem te-

descobriu o objeto de Freud, fazcndQ, portanto, uma teoria da prática

teórica de t:reud, então o autor dos Elàitos seria, tam~m. o constru-

tor dessa nova filosofia .

.

Mas há um ugumlo Altlnuser, que se apresenta. desde 1~7, no

prefácio

à edição italiana de l,.irt

L~ Capilftl - quando um movtmcn~

,geral de autoerltica é

anunciado - e q~c .e torna claramente defin~

' dO e pensável quando

surgem , em 1~74, os p~mentos.d~ Aut~ritica.

· Com ele a filosoria não~ mats T~na da prAttca tcórtca. mas .

sim. · ·. : , em 'attltna instância . luta de clalses na

teoria ··. o.que . signiflca

isso'! A melhor resposta para uma tal questão t a próprta lettura dos

dois textos que ora apresento. "Freud c Lacan" foi escrito pelo "pri-

meil!J Althus.vd' e ·•Marx e Fteud", pelo ··s~do". Mas

..

F~eud .e

Lacan··, conforme mostrei,

~ um exemplo llmp1do de uma prát1ca .da

Filosofia como. em última ln11tAncia, uma luta de cla1ses na t~na.

·

Em outras palavra11, e"istc, com·o quer Althusser. um~ radic~l

prioridade da prática (mosmo quando •e trata de ~ma prâuc:a te~~~:

Cll .•. ) sobre a teoria. A prátl:ça teórica

quo nos deu

frcud c. Lacan

e

incompatível com ll conscllncia~do-$Í ' dCIIl . prática, OU SCJ8, c;om a

COI'I$tituição de uma Teoria da prâtic:a teórica que tenderia a clabor,r

supercO"nceitos (como o de supcrdetcrminação) para um (upcnaber,

um a ciência da c l6ncia ou um saber absoluto

. ..

Freud e ~az

. uma Juta de classes na teoria pará ajudar a ~csobstruir o çamtnbo para

o discurso cientifico da Psicanálise , Mais tarde, "Mar~ 111 f"'ud" vçm

pa1'a corriair oa evcntuai11 desvios da ~ntiga ~oncepçlo de Teoria c

mosu•~tr que . não mate a T~otfa. mas, stm, teonas dis tintas: 11 de Mar" _

e a de

Freud.

·

No en~anto, antos de entrarmos di~tamcntc na çon,lderaçlo des-

te segundo texto. vejarnos, rocsmo que seja ~ linhas cxtremam~tc

gerais, como se deu essa passag~~ d~ um momento ~o outro do .ittnc-

rário de Althusaer, tentando pr1vdcgJar o ponto de vtsta que ma11 nos

interessa aqui, ou seja, o da · relação CQm. a Psican61isc .

1965: Frunçois MASPEitO, um editor de esquerda C i ndependtn•

  • 22. ALTHUUiiR. L. Posiçdts-1. p. 75 e sep ,

ll

te face ao Partido Comunista Fran~. inicia uma nova coleção

..

,.

cha-

mada Thé~ri~ -, d!rig~da por LC?uí~ Althusser. Abrindo-a, nosso autor la~ç~ um hvro, CUJO tatulo, curto, claro ~ provoçativ.o, ressoa como um · mamfesto:_ Pour Marx . Ou seja, el~ dizia, com duas palavras, que se to- mava part1do a fa~or de Marx, qu~ se voltava a ele, que se fundava sobre ele para empreender - ou para continuar? - a longa marcha em

busca da

filo.s~fia mar1tista . Lacail, que fazia algo semelhante com

._ Freud, n~o dazta que a verdade é aquilo que corre atrás da verdade?

O prefácio desse livro inaugural- a meu ver um dos textos -mais bonitos, sinceros e vigorosos que foram escritos por um comunista contemporâneQ- vai, por seu titulo, direto ao essencial: elci se cha-

ma "Hoje". H~jc é preci8o v~ltar ~Marx, para se _analisar o· q'\e está ocorrendo. Hoje, com Marx, e precaso parar de ficar contando estórias da caJ:ochinha. Hoje é prçciso ver que o marxisma_oão é uma filbsofia . ~Q_sentido da .Hi.stór~. mas, sim, a possibilidade aberta para uma aná- hse concreta. de.umLUtua~o C?ncrcta ~porta.ilt~, atual. Hoje é preci- so o~ar aceitar a dura evtdêr:-ct'a que se tmpõe: Mo existe umaft/ruofta em esta~o ~~co elab~rado. Ou seja, o Materialismo .

...

I!U!'~t~ta

Oialc:taco dos.manu~ts stalin!Stas

!lio é~ filomfia marxista . Aqui está

unt Althusse! grandtoso,.radical, mtranstgente,louco talvez, tentando

a dura ex~nê!'cia de pontuar o diseurso da filosofia marxista, ptl'miJit~­ cendo no tntenor do Partido Comunista; vamos começar tudo de novo

vamos (re)começar o Materialiamo Dial~tico!

'

E o .conteúdo desse Jivro-manifeato? Artigos. Artigos diJttMÍos. Ele retoma os p~incipais_textos escritos desde 1960. aqueles que falam da super~etenrun~çao, com a exccçio- sintomática?- do "Philosopbie et . Scaences H u~ames" e do "Freud e Lacan", ou seja, dos textos em que

se fala, exphcJtamcntc, da PsiCtiiUÍiist em geral e·de Lac-on em pilnU:U-

Iar.

.

.

.

·

l_lu_almcnte em 65, a mesma coleçio _publica Lin ú Capht1J. 2 l

Este ultz~o recolhe o resultado ~ ~minários de estudos consagrados a O Capttal, em 1965, com a parttctpaçio de Etienne Balibar Jacques

Ran.cicr~, Roger Establet e

Pierre tdacherey. Enquanto La~. faz seus

semtnános, agora na Eco/e Norma/e , sobre Freud, Althuuer faz os

seus, .em grupo e com outro estilo, sobre Marx. São cucs dQis livros que, na segunda metade da década de sessenta, irio tomar AJthusscr ·

-conhecido e mundialmente famotó .

. Antes deles. na primeira metade dessa década, eie era muito pou- ~ conhecido. No int~rior do Partido, por exemplo, seu nome quase nao chega a aparecer durante os.debates . Embora já tenha sido notado

  • 21. .Hii uma tradução braalleira do amboa, _lançada ~ .Zaba:r. ·

22

acc~ito

fiddida~lc,

~

cor~

~_de

ind~ ~ticos ~rdetermi~·. d~
ind~
~ticos
~rdetermi~·.
d~

~e su~rdet~rmilfação,

(Psican~lise

laca~

La~vruÍMlt~diM«rii/W:v:l6e., ópratili•do ._

~o

~~

~ae

~9Sl,

Thé~ri~ d!rig~da

la~ç~