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UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO

CEAD – CENTRO DE EDUCAÇÃO CONTINUADA E À DISTÂNCIA


SÃO BERNARDO DO CAMPO – SP

OTTO E A INFLUÊNCIA DA
MÚSICA E DA RELIGIÃO AFRICANAS

SÃO BERNARDO DO CAMPO, 27 DE JUNHO DE 2006.


MARIANA BALDIN CAMARGO
PÓS-GRADUAÇÃO EM JORNALISMO CULTURAL
Otto e a influência da música e da religião africanas

1. Introdução – a cultura brasileira da miscigenação e a influência africana

A música popular brasileira tem como característica fundamental o hibridismo,


principalmente devido à miscigenação entre os povos nativos e os vindos de outros
países. Tanto os negros, que vinham da África como escravos, quanto os europeus, que
colonizaram o país, tiveram forte influência na formação do que hoje é a chamada MPB.
Segundo Mário de Andrade, cada povo que chegava ao Brasil trazia um pouco
de sua cultura e acrescentava à nossa:
Um povo misturado, porém ainda não amalgamado, parava nas possessões que
Portugal mantinha por aqui. Esse povo feito de portugueses, africanos, ameríndios
e espanhóis trazia junto com as falas dele as cantigas e danças que escutavam. E foi
da fusão destas que o nosso canto popular tirou sua base técnica tradicional.
(Andrade, 1987, p.171)
Com isso, foi-se criando diferentes estilos em cada região do Brasil, já que os
países colonizadores eram os mais diversos e costumavam se alojar em regiões distintas.
Neste artigo, será explorada a face africana da música brasileira, mais
especificamente a influência religiosa – da umbanda e do candomblé – com base nas
influências da obra de Otto Maximiliano, músico do Estado de Pernambuco. Para isso,
será necessário abordar o nordeste e suas características musicais.
Na época da colonização, a região recebeu forte influência da cultura africana,
devido ao grande número de negros que foram trazidos da África para trabalhar como
escravos nas fazendas e plantações.
Desde aqueles tempos, a festa e a dança estiveram sempre presentes nos rituais
dos negros. Alguns historiadores deduzem que, graças a estes elementos, a raça
conseguiu manter sua cultura em meio a uma realidade como a escravidão.
Segundo Tadeu dos Santos, “para quem vivia nesse ambiente hostil, o momento
da festa servia como descanso, devoção, lazer, renovação de ânimo e perpetuação de
valores, conquanto distantes de seu torrão natal” (Santos, 2003, p.38).
Na mesma época, religiões como o candomblé e a umbanda reafirmaram entre
os escravos valores como a importância e a força da natureza, baseada no culto aos
orixás e seus seguidores.
De acordo com Luís da Câmara Cascudo (2000, p.453), um orixá é uma
divindade que simboliza as forças naturais:
Atraídos pelo cântico e ritmo dos tambores em sua honra, encarnam-se, apossam-se
de seus instrumentos vivos, os médiuns, intérpretes. (...) Os orixás têm, cada um,
cânticos e ritmo dos tambores próprios, chamando-os ou anunciando sua presença
no candomblé. (...) A personificação é o atributo funcional do orixá, sua função na
terra. (Cascudo, 2000 p.453)
Sendo assim, os costumes e crenças dos africanos mesclaram-se com o
sofrimento a que foram submetidos, e trouxeram para seus descendentes traços muito
fortes de sua cultura.
E foi da mistura entre a raça holandesa, vinda dos colonizadores que se alojaram
no Recife, e a raça índia, dos povos nativos, que o artista Otto Maximiliano nasceu, na
cidade de Belo Jardim, no agreste pernambucano.
No começo de sua carreira, participou do movimento mangue beat, criado por
Chico Science e Nação Zumbi no início da década de 90. Naquele tempo, era
percussionista da banda, tornando-se posteriormente percussionista do grupo Mundo
Livre S/A. Assumiu carreira solo em 1998, quando lançou seu primeiro álbum, Samba
pra burro.
A partir deste trabalho, foi possível conhecer a mistura de sons e ritmos com que
o músico convive, com um pouco de drum and bass (ritmo eletrônico), misturado ao
maracatu e ao samba. O primeiro cd foi eleito em 1999 o melhor de MPB pela
Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
A jornalista Bia Abramo, no portal Trópico - idéias de norte a sul (2001) analisa
a percussão e estilo musical de Otto, ao lançar um trabalho solo:
Embora ele seja originalmente um percussionista, e seus discos tenham tratamentos
de percussão como poucas vezes se viu no Brasil, ele parece agora, em sua carreira
solo, interessado em investigar mais as melodias e harmonias das raízes afro-
brasileiras e dos desdobramentos da diáspora africana pelo mundo, como o reggae,
o funk e algo do rap, em vez de investir no óbvio dos ritmos. (Abramo, 2001)
Desde a sua infância, Otto se sentia emocionado com as canções que eram
tocadas nos terreiros, e que hoje trazem grande influência em suas composições. Em
entrevista a Marco Antônio Barbosa, do site de entretenimento do portal UOL, o músico
explicou a formação de seu estilo próprio:
A minha relação com a umbanda e o candomblé começou em 1974, quando escutei
pela primeira vez o álbum ‘Canta canta minha gente’, de Martinho da Vila.
Escutava o disco o tempo todo, e nele havia uns legítimos pontos-de-terreiro (festa
de umbanda). Na época, eu não tinha idéia do que aquilo significava, mas fui
crescendo e vi que a conexão samba-macumba se misturou, junto com os sons
típicos do Recife, como o maracatu, e outros ritmos negros. Quando viajei à Bahia
e tomei contato com o trabalho de Pierre Verger (etnógrafo francês que pesquisou a
fundo os terreiros de Salvador), tudo se formou na minha cabeça. (Maximiliano,
entrevista concedida em 28/10/2001)
Mais do que uma questão de fé, o candomblé entra na mistura de Otto como
base musical. Ele não freqüenta terreiros, mas vê a principal influência em seu modo de
compor, sempre abordando a natureza (o que aprendeu com a música do candomblé,
que celebra as forças naturais). Além disso, sua forma de compor engloba batidas
incomuns, pandeiro e feitiçaria.
A essência de minha poesia é assim: eu começo falando, passo a cantarolar aquela
frase e ela vai puxando outras, numa colcha de retalhos que é mais uma bruxaria do
que eu próprio. A melodia vem na minha cabeça. Normalmente é a minha voz e um
pandeiro, ouvindo umas batidas malucas, e com isso tenho a velocidade da canção
(Maximiliano, entrevista concedida em 28/10/2001 ao portal UOL)
Apesar de sua música ser bem elaborada e contar com participações de uma série
de talentosos produtores (Apollo 9, produtor do Mundo Livre S/A, teve participações
em seus três cds) e instrumentistas, Otto ainda não atingiu um público em quantidade
significativa, em comparação a outros artistas contemporâneos a ele.
O músico traz em suas faixas algo de singular, que soa um estranho aos ouvidos
“adestrados” de algumas pessoas. Em entrevista ao portal UOL, afirmou que, mesmo
não tendo a pretensão de ser um astro pop, acredita que ainda pode ser melhor
compreendido pelas pessoas, e disse que aqueles que entendem e gostam o motivam a
usar a criatividade e a inteligência.
Meu público é muito exigente, são amigos, jornalistas. Eles são muito críticos, são
'vivos', então eu tento sempre ser original, fugindo das barreiras e classes sociais.
Mas não tento cantar só para intelectual, pois acredito que se cantar para o 'cara de
baixo', o 'cara de cima' vai ver. (Maximiliano, entrevista concedida em 28/10/2001)
Otto é um bom compositor, fala sobre diversos temas atuais, sempre com o
objetivo de informar, transmitir alguma mensagem que possa resultar em uma atitude
positiva. Em entrevista ao portal UOL, mostrou um pouco de sua preocupação: “o dever
maior de um artista, principalmente no nosso país, é prever algumas coisas. Eu não fico
feliz só comigo, fico com meu bairro, minha cidade, meu país, meu mundo."
(Maximiliano, entrevista concedida em 28/10/2001).
Em suas apresentações, Otto tem costume de, entre as músicas, disparar frases
com idéias próprias sobre algo que esteja acontecendo no Brasil naquele momento.
Política, violência e respeito entre as pessoas são assuntos muito comumente citados em
“frases de efeito” como: “será que gente tem valor?”, sempre propondo uma reflexão
acerca dos assuntos.
Entre as suas características mais marcantes, a que deixa um pouco a desejar é a
voz. Mesmo com um timbre incomum, o que confere exotismo às músicas, não se pode
dizer que Otto apresenta grande técnica vocal.

2. Um pouco de sua história e o candomblé em suas músicas

A influência do candomblé (e dos diversos ritmos) na música de Otto pode ser


comprovada em cada um de seus álbuns. Já no primeiro, Samba pra burro (1998), é
possível notar a presença marcante de instrumentos de percussão.
Músicas como Celular de Naná trazem características afro-brasileiras fortes. O
ritmo, acompanhado de palmas, remete às rodas de capoeira.
Três anos depois, em 2001, o artista lançou seu segundo álbum, que merece
atenção. O nome, Condom Black (uma referência sonora ao candomblé), é apenas a
primeira característica marcante do cd.
O próprio encarte, nas cores vermelho, preto e cinza, trazem o conceito dos ritos
de origem africana e a menção aos orixás.
Segundo Antônio Praxedes, em seu guia Umbanda: fé e caridade, “as cores
votivas de Exu, orixá responsável pela comunicação entre os humanos e os deuses, são
o preto, o vermelho e o cinza. Exu possui grande importância dentro dos cultos afro-
brasileiros.” (Praxedes, 2003, p.26)
Na capa, Otto aparece pintado de preto, o que destacou ainda mais na imagem os
seus olhos azuis. O efeito explicita a mistura de raças que o artista carrega em seu gene.
Além, é claro, da referência estética e musical do disco.
Além do nome do álbum e de sua identidade visual, Condom Black traz uma
série de referências aos orixás em suas letras e melodias (que serão explicadas no
capítulo seguinte). Segundo Bia Abramo,
As referências à musicalidade dos ritos afrobrasileiros e aos orixás, embora
apareçam diretas tanto nas letras quanto nos arranjos de faixas, não direcionam o
disco para uma daquelas falsas “releituras” da herança negra via a inclusão de
tambores espúrios. Os tambores, juntamente com a dinâmica vocal sinuosa e
vagamente nostálgica, criam um clima de terreiro. (Abramo, 2001)
Seu cd mais recente, Sem gravidade (2003) traz um conceito um pouco menos
“pesado” do que o segundo. Otto compôs grande parte das músicas durante suas férias,
onde passou pela Amazônia, Chapada Diamantina e Califórnia.
A idéia de leveza não impediu o músico de continuar com a temática africana
em algumas faixas. Muitas das músicas deste cd foram dedicadas a orixás. Algumas
como Lavanda e História de Fogo, a serem explicadas posteriormente, demonstram
claramente a influência.

3. As letras e homenagens a orixás

É necessário atentar-se para as letras das músicas de Otto que tratam de orixás e
as relações dos homens com a umbanda e o candomblé. Além de citar explicitamente as
entidades, o músico realizou algumas homenagens a elas.
No primeiro cd, Samba pra burro, a música que mais demonstra este sentimento
e esta relação é Celular de Naná. Com letra simples e curta, a canção tem muito do que
Otto considera as “forças naturais”, conceito das religiões africanas explicado
anteriormente.
O celular de Naná é a lua
A lua é o celular de Naná
Banho de mar
Banho de cachoeira
Banho de rio
Banho de rosa
Que beleza é o mar
(Celular de Naná, letra: Otto)
Esta música apresenta uma série de aspectos interessantes. Em primeiro lugar,
quem seria Naná? De acordo com Antônio Praxedes, “Nana é uma entidade da
umbanda, representada pela figura de uma velha senhora.” (Praxedes, 2003, p.35)
Outra característica interessante desta letra é a citação ao rio, ao mar, às rosas e,
principalmente, à cachoeira, numa clara referência aos valores das religiões africanas. A
cachoeira é geralmente associada à figura de Oxum, que, diz-se, “trabalha” nas águas
doces e é a mãe dos rios e cachoeiras.
No disco, a canção vem acompanhada da cantiga Chapéu tá no alto do céu, de
Naná e Erastro Vanconcelos, cantada pelo Coral Daruê Malungo (grupo que também
faz percussão e dança afro em Recife).
Além disso, essa canção abriga uma outra peculiaridade: nas apresentações ao
vivo, Otto tem o costume de tocá-la atrelada a um canto de candomblé, fazendo um
pout-porri com Celular de Naná. Interessante ressaltar que, durante esta música, apenas
Otto e seus dois percussionistas se mantém no palco.
Trechos do que é cantado no palco:
Jogar capoeira e viver candomblé
Tocar berimbau e dançar afoxé
Meu povo não nasceu para a senzala (...)
Caô cabieci é caô (gira da entidade Xangô)
No segundo álbum, Condom Black, há uma série de faixas a serem analisadas.
Segundo Otto, “a música Anjos do Asfalto é dedicada a Exú, e Retratista, a Oxalá. Tudo
isso vai sendo sincronizado com os ritmos e vozes.” (Maximiliano, entrevista concedida
em 28/10/2001 ao portal UOL).
Ah, Exu mandou avisar
Que os anjos do asfalto
Estão em todo lugar
(Trecho de Anjos do asfalto, letra: Otto)

Eu já perdi você de vista


Tua alma meu Deus levou
Agora só resta uma foto
Que o retratista deixou
Se teu perfume exala rosa
Sexta feira é o dia de Oxalá
Pra animar
Meu peito chora (...)
(Trecho de Retratista, letra: Otto)
A homenagem a Oxalá, em Retratista, é reforçada com dois dados importantes:
em primeiro lugar, o dia da gira de Oxalá na umbanda é a primeira sexta-feira do mês,
daí a frase “sexta-feira é dia de Oxalá”; em segundo lugar, a expressão “se o teu
perfume exala rosa” remete ao sentimento daqueles que participam da gira, segundo
Antônio Praxedes (2003, p. 55): “geralmente, é comum sentir-se alguns fluidos na gira
de Oxalá. O mais freqüente é sentir um perfume de flores e arrepiar-se.”
A música Condom Black, que dá nome ao disco, é “escrachada” e fala sobre as
relações entre os seres de forma explícita, simples e pornográfica:
A preta gosta de mim
Sou eu que gosto da preta
A preta chora por mim
E eu choro pela preta
A preta quer um filim
E eu um filim com a preta
No condom black é assim
É pau, é cú, é buceta
Vamos lá Nação Zumbi
Já que ela curou, curou
Já que ela curou, curou, curou, curou, curou
É pau, é cú, é buceta
No armazém do seu Manuel
Me trouxeram sua filha
De presente no papel
(Condom Black, letra: Otto)
O próprio Otto, em entrevista a Ricardo Ivanov, do portal Terra, contou um
pouco sobre suas idéias e objetivos ao compor esta canção:
Condom Black é fantasia e realidade juntas (risos). Essa coisa pode ser de branco e
para preto. Minha mulher me chama de “meu nêgo” e eu a chamo de “minha
nêga”. A gente se vê preto, negro. E é uma música que fala que se você acha que a
preta gosta de você, sou eu que gosto da preta. Pau, cú e buceta têm a ver com isso.
Foi isso que nos fez, seja preto, baixinho, de bigode. Nossos pais treparam e da
mistura dos dois veio nós. (Maximiliano, entrevista concedida em 05/11/2001)
Além destas, fazem parte também da lista de músicas que fazem menção à
umbanda e ao candomblé as músicas Cuba e Único Sino. A primeira é dedicada a
Xangô e Iemanjá, e seus nomes são declamados durante a música.
A segunda não está relacionada a uma entidade, mas sim aos tocadores de
percussão dos rituais de terreiro. Segundo Tadeu dos Santos (2003, p. 103), “a música,
no candomblé, é executada pelos alabês, também chamados de ogãs”.
Único sino tocava
Anjo vermelho cuida de mim
Vem combater
Eu combatia
Meu pai dizia
Vou proteger
E o tambor tocava
Bonitas melodias
Como é lindo
Ver o Toca Ogan tocar
(Único sino, letra: Otto)
Além de ogã (ou ogan) ser o nome dado aos percussionistas do candomblé, há
também um outro significado importante deste “personagem” na música de Otto. “Toca
Ogan” é o nome artístico do percussionista do grupo Nação Zumbi, que era colega de
trabalho de Otto. Atualmente, Toca Ogan participa de alguns shows e já teve
participações em músicas dos cds solo do artista.
Já no terceiro CD, Sem gravidade (2003), duas músicas podem ser selecionadas
para exemplificar a relação Otto-candomblé. A primeira delas, também a primeira faixa
do álbum, chama-se Lavanda, e representa uma grande mistura entre povos e raças:
Em Bora Tao
Em Bangladesh Goa
Na China Mao
Free Tibet para mim é pessoal
Lavanda ofereço orixá
Luanda, Havana e Salvador
Na lama do Recife sou xangô
Umbanda, caranguejo, salta a dor
Que idade banha ele
Banho de mar
Que idade banha ele
Iemanjá
(Lavanda, letra: Otto)
A letra, aparentemente desconexa, é a maior demonstração de toda a mistura que
Otto traz para seu estilo musical. A frase "na lama do Recife sou Xangô" mostra que
Otto é "filho de Xangô". Ser "filho" de alguma entidade, segundo Antônio Praxedes,
significa obter proteção e vibrações provindas dela.
Todos os seres humanos nascem da natureza, num determinado lugar, dia e hora,
sob o comando de um Orixá. Assim, recebem a influência desse Orixá e, portanto,
cada um tem em toda a sua vida as vibrações e proteção do Pai Orixá a que está
vinculado, de origem natural, o qual rege seu destino. (Praxedes, 2003, p. 101)
Outra música que merece destaque é História de Fogo. Talvez a letra mais
sensual já criada pelo músico, e que faz referências mais fortes aos rituais da umbanda e
do candomblé.
Esse amor me derreteu
Ajoelha-te esquece
Me chupa e agradece
A quem te machuca
Agradece, meu Deus
Dói demais
Tanta história de fogo
Que se passa
É melhor se queimar
Que viver na solidão
Esse giro
Esse amor
Essa cachaça
Esse cheiro de morte
Eu respiro forte
Eu desmaio
Eu amo demais
Vem nessa gira, vem
Caboclo vem cá
Vem nessa gira, vem
Caboclo dançar
Ijexá (3x)
Oxum, Ogum, Ilê-Babá
Sou benzida no Canzoá
(História de Fogo, letra: Otto e Alessandra Negrini)
A letra remete ao ritual do candomblé, ao citar a gira, o desmaio e a cachaça,
características do rito. Ao final da letra, Otto (que escreveu a música em parceria com
sua esposa, a atriz Alessandra Negrini, que canta esta e participa de outras no cd) chama
o "caboclo" para participar da gira, dançar o ijexá. Segundo a pesquisadora Bárbara,
cada orixá tem seu ritmo. "O ijexá, que representa Oxum, é alegre e festeiro.” (2002,
p.134) Ao mesmo tempo o Canzoá, na linguagem falada no candomblé, significa "casa".
4. Melodias, voz e performance em ritmo de macumba

Além das letras, que mostram as influências africanas, há também na forma de


cantar e na instrumentação de Otto muito desse tipo de música.
A começar pela voz. Na música Celular de Naná, é possível notar-se claramente
a presença do coro. Há primeiro uma voz, a de Otto, que predomina e "dita" o que deve
ser cantado depois; na seqüência, o coro responde, em uma notável característica da
música dos escravos nos primeiros tempos, segundo Mário de Andrade.
Os brancos mostravam riqueza pelo número de escravos. Destes, os que sobravam
em casa, eram mandados sós e principalmente aos grupos para transportar coisas de
lá para cá, nas cidades. Para uniformizarem o movimento em comum e facilitar
assim o transporte das coisas pesadas, cantavam sempre juntos”. (1987, p.177)
A questão da voz se mostra também nas músicas Retratista e História de Fogo,
em relação às “vozes convidadas”. A primeira recebeu a participação da atriz Maria
Paula. Segundo Otto, "a voz de Maria Paula ficou ideal em Retratista, pois além de sua
voz ser grave e macia, ela é super espiritual - o que cai bem em uma música sobre
Oxalá" (Maximiliano, entrevista concedida em 05/11/2001)
A segunda, teve a participação de Alessandra Negrini. A escolha de uma mulher
para cantar a música, que fala sobre Oxum (entidade feminina), não foi por acaso. A
pesquisadora Bárbara mostra um pouco sobre a gira de Oxum.
Oxum busca mostrar em sua dança os ides (pulseiras), porque a história conta que
o primeiro filho de Oxum foi o metal. Ao dançar, ela mostra tudo isso. É uma
dança de rainha, sob o ritmo do ijexá, com passos miúdos. Passos pequenos nos
quais demonstra sua sensualidade, sensualidade de uma deusa, não guerreira.
Oxum é a verdadeira mulher. (Bárbara, 2002, p. 137)
Passemos agora considerar os instrumentos e o ritmo ditado pelo músico em
suas canções. Alguns dos instrumentos tocados por Otto e sua banda, durante as
gravações e os shows, são muito utilizados nos rituais de umbanda e candomblé. A
questão principal está focada na percussão. Na Enciclopédia da Música Brasileira
(2000), encontra-se que "a dança, o ritmo violento dos tambores e a incessante repetição
dos cantos gera fadiga da atenção e leva a um verdadeiro estado de hipnose".
A percussão é algo muito frequente em quase todas as canções de Otto, com a
presença marcante de caixas. Outros instrumentos, como a zabumba (grande tambor
cilíndrico com pele nas duas bocas), o agogô (instrumento folclórico, constituído de
duas campânulas de ferro percutidas com uma vareta de metal) e até o berimbau (arco
de madeira com um fio de arame), eram e são até hoje muito utilizado em manifestações
afro-brasileiras, como a capoeira e o candomblé.
Para Mário de Andrade, a música brasileira de hoje deve muito aos instrumentos
africanos.
“Foi certamente ao contato com o africano que a nossa rítmica alcançou a
variedade que tem, uma das nossas riquezas musicais. (...) Do dilúvio de
instrumentos que os escravos trouxeram pra cá, vários se tornaram de uso corrente.
Instrumentos quase todos de percussão exclusivamente rítmica”. (1987, p.176/177)

5. Considerações finais

A mesa da casa dos pais foi o primeiro objeto que Otto usou para fazer som. O
segundo, quando ainda era criança, foi o colchão da cama. Na adolescência, Otto fazia
barulho em bailes de Carnaval com um chocalho, tocando Ô Coisinha tão Bonitinha do
Pai. O músico também se encantou pelo rock and roll e foi vocalista da banda
Remember the Beatles.
Otto é um artista inovador. Não só por seu modo de compor, pensando sempre
na sociedade e nos atos que aquelas músicas podem causar. Não só por sua performance
no palco e sua preocupação com as reflexões que pode provocar em seu público.
Seu destaque maior está em saber aproveitar a nova e a velha escola da música, e
absorver dentro de cada estilo sua característica marcante. É incrível a capacidade que
tem de mesclar ritmos e instrumentos aparentemente opostos, e uni-los de forma
harmônica.
Em seus cds, é possível encontrar-se não apenas a música africana, mas também
o rock and roll, o jazz, a bossa nova e tudo o que mais possa tê-lo interessado em sua
busca. Livre de preconceitos, Otto se preocupa apenas com seu público e com a
expressão fiel de sua parsonalidade ou do momento que esteja vivendo.
6. Referências Bibliográficas

ABRAMO, Bia. Afrosambanbass. Disponível em:


<http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/391,1.shl> Acesso em 15/jun/06.
ANDRADE, Mário de. Pequena história da música. 9ª ED. Belo Horizonte: Itatiaia,
1987.
BÁRBARA, R. A dança das Aibás: dança, corpo e quotidiano das mulheres de
candomblé. São Paulo: FFLCH/USP (tese de doutorado), 2002.
BARBOSA, Marco Antônio. Candomblé + mulher bonita = a volta de Otto. Disponível
em:
<http://www.cliquemusic.com.br/br/Acontecendo/Acontecendo.asp?Nu_materia=3186>
Acesso em 15/jun/06.
IVANOV, Ricardo. Cantor busca originalidade e sabe que seu público é "esperto".
Disponível em: <http://www.terra.com.br/musica/entrevista_otto.htm> Acesso em
08/jun/06.
PRAXEDES, Antônio. Umbanda: fé e caridade. Belo Horizonte, 2003.
SANTOS, Tadeu dos. O corpo como um texto vivo – a festa e a dança no candomblé.
São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo (tese de doutorado),
2003.
Enciclopédia da Música Brasileira. São Paulo: Publifolha, 2000.