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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS FLC0201 – Literatura Brasileira II – Prof. Murilo Marcondes Janaína Castilho Marcoantonio – n o USP 3096577

Esboço de uma cartografia 1

Uma análise do poema “Mapa”, de Murilo Mendes

O poema “Mapa” pertence ao livro Poemas, livro de estréia de Murilo Mendes, publicado em 1930. Pode ser lido como uma tentativa do autor em definir o lugar do poeta no mundo, bem como uma reflexão sobre sua própria poesia. Nesse sentido, é um poema metalingüístico, pois se preocupa com o fazer poético, mas vai além, sendo também um poema existencialista ou, na expressão preferida por Murilo Mendes, essencialista 2 , na medida em que procura apreender a missão do poeta, sua transcendência. Tal leitura é sugerida pelo próprio título do poema, “Mapa”, objeto cuja função é situar, localizar, representar. No entanto, já o primeiro verso causa ao leitor certo estranhamento: a localização imediata não é espacial, como o título a princípio sugere, mas temporal (“me colaram no tempo”). Em seguida, como se fornecesse ao leitor as fronteiras de um território, o poeta define seus próprios limites a norte, sul, leste e oeste (versos 3 e 4). As dimensões espacial e temporal se confundem num mesmo plano, acentuando o estranhamento inicial. Os quatro primeiros versos sugerem uma imagem de imobilidade à qual está presa a “alma viva” do poeta. O quinto verso desequilibra essa imagem ao introduzir no poema

1 Cartografia. s.f. Descrição ou tratado sobre mapas. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa).

2 O termo “essencialismo” foi criado pelo próprio Murilo Mendes para designar as idéias do seu amigo Ismael Nery. Trata-se de procurar a essência das coisas, numa inspiração católica e utilizando procedimentos artísticos das vanguardas, especialmente do Surrealismo. (Moura, Murilo Marcondes de. Os jasmins da palavra jamais. In: Leitura de poesia, Alfredo Bosi (org.), Ática.)

a idéia de movimento: “nebulosa”, “rodando”, “fluido”. O uso do gerúndio “rodando”,

destacado entre vírgulas no centro do verso, contribui sobremaneira para confrontar a rigidez do primeiro quadro.

A palavra “nebulosa” pode significar tanto uma nuvem de matéria interestelar

quanto, metaforicamente, algo difícil de ser compreendido. A partir dela, os versos de 5 a 7 nos permitem múltiplas leituras: na primeira, o poeta estaria localizado acima do mundo terreno, sendo por isso dotado de uma visão privilegiada; o poeta percorre um

caminho de descida à terra, onde anda “como os outros”. Numa segunda leitura, tomando “nebulosa” como algo de difícil compreensão, podemos inferir que o conhecimento do mundo não é dado facilmente ao poeta; a “consciência da terra” é, ao contrário, arduamente buscada. Num outro desdobramento possível, a expressão “me pregam na

cruz”, presente no sétimo verso, nos remete ainda à figura de Jesus Cristo, retomando a idéia de um caminho de descida dos céus à terra. De todo modo, está sempre presente a idéia do poeta enquanto um ser capaz de estabelecer uma relação entre o mundo cotidiano

e o mundo transcendente.

Na primeira metade do poema, predominam um desejo de onipresença e uma certa indiferença em relação à vivência cotidiana. A almejada onipresença coincide com a visão particular que Murilo Mendes tem da poesia como forma de conhecimento total: ao contrário do aprendizado intelectual, compartimentado em diferentes faculdades, a poesia permeia outros campos de aprendizado, como as sensações, as percepções, os sonhos, as intuições. Murilo Mendes atribui um caráter pedagógico à poesia. Para ele, ao abraçar a visão racionalista do mundo, o ser humano acabou deixando de lado outras faces do aprendizado, ligadas à infância, às emoções e aos mitos.

O desejo de onipresença se manifesta em versos que transportam o poeta a

diferentes lugares e diferentes tempos simultaneamente: “estou aqui, estou ali” / “estou com meus antepassados” / “depois estou com meus tios doidos” / “estou do outro lado do mundo, daqui a cem anos”. Esse desejo ardente de abarcar a totalidade das coisas é

retomado e sintetizado no vigésimo primeiro verso: “me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida”.

A busca de um conhecimento total também é notada na facilidade com que o

poeta passa do grandioso ao cotidiano, do efêmero ao duradouro: num momento está com

seus antepassados, balançando-se numa arena espanhola ou combatendo personagens imaginários num ato de heroísmo quixotesco, para em seguida encontrar-se com seus tios doidos, às gargalhadas, “na fazenda do interior”, “olhando os girassóis do jardim” – lembrança doce da infância. A indiferença em relação à vida cotidiana não se manifesta como um desprezo por esta ou uma atitude de descaso, mas, ao contrário, consiste em aceitar e absorver tudo, indistintamente: é como se o poeta fosse alguém capaz de libertar-se da condição humana, não por negá-la, mas por vivê-la do avesso, em todos os seus aspectos 3 . É com indignação que o poeta reage ao fato de ser chamado pelo número, no colégio: “detesto a hierarquia”. Sob o “rótulo de homem”, vai rindo, vai andando, não de qualquer forma, mas “aos solavancos”. Dessa forma, a condição humana se revela como algo que lhe é imposto, um “rótulo” que termina por limitar sua existência; daí sua necessidade de buscar respostas em outros planos. O tempo exerce papel importante na composição do poema, e neste ponto devemos nos deter à concepção religiosa do tempo em Murilo Mendes, segundo a qual, conforme coloca Murilo Marcondes de Moura, “o tempo nasce da ruptura do humano com o sagrado, expande-se na busca da recuperação daquela harmonia originária e morre quando esta é finalmente alcançada” 4 . Já o verso inicial, “me colaram no tempo”, revela um abandono dessa harmonia originária. O que o poeta busca não pode ser encontrado na realidade do tempo presente: pertence a um passado que já não existe, portanto só lhe resta projetar suas esperanças no futuro, quando “o vento que vem da eternidade suspenderá os passos” (verso 33), restaurando a harmonia.

3 Para Murilo Mendes: “um poeta deve misturar-se na vida, constituir-se um centro de relações”, “um essencialista deve procurar manter-se na vida como se fosse o centro dela, para que possa ter a perfeita relação dos fatos e das idéias”, e ainda: “inteligência de choque, o artista se mantém como centro de convergência de todos os fatos”. (Moura, Murilo Marcondes de. Os jasmins da palavra jamais. In: Leitura de poesia, Alfredo Bosi (org.), Ática.)

4 Moura, Murilo Marcondes de. Os jasmins da palavra jamais. In: Leitura de poesia, Alfredo Bosi (org.), Ática.

A trajetória do poeta é difusa, angustiante, desarticulada. Sem jamais abandonar sua vivência entre os homens, por vezes assume uma posição acima do mundo: “batalho com os espíritos do ar” / “minha cabeça voou acima da baía” / “estou suspenso” / “alguém da terra me faz sinais”. Tais versos evocam imagens fortes, que nos remetem aos quadros de Chagall 5 , pintor surrealista por quem Murilo Mendes foi sabidamente influenciado. Ao colocar-se acima do mundo, como quem observa de um telhado, o poeta opta por adotar um ponto de vista abrangedor, em vez de fazer um recorte da realidade. Essa postura vai de encontro à sua constante busca por uma compreensão total, e ganha espaço em sua poesia notadamente surrealista, que permite a aproximação de realidades díspares. No entanto, encontra-se num estado de embriaguez diante de realidades tão múltiplas e distintas, sendo incapaz de qualquer discernimento: “estou no éter” / “gosto de todos, não gosto de ninguém” / “rio e choro” / “não sei mais o que é o bem nem o mal”. Conforme coloca José Guilherme Merquior, “Murilo extrai do cristianismo uma dupla concepção da poesia. Da poesia como martírio, isto é, como testemunho sofrido, e mais ainda como registro do sofrimento coletivo” 6 . Essa dupla concepção é notada pelo estado de ânimo do poeta – que nem sempre é confortável, mas sim angustiante – e também nos versos em que demonstra ir de encontro aos outros homens: “ando como os outros” / “alguém da terra me faz sinais” / “levantando populações” / “beijarei sete mulheres” / “abraçarei as almas no ar”. Desnorteado, mas sempre esperançoso, aguarda uma resposta que certamente virá: “a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas”. Esse verso é a medianiz do poema, a partir do qual, após um espaçamento duplo de linha – marcação gráfica da mudança de eixo – o poeta nos apresenta suas aspirações futuras: “andarei no ar”.

5 Marc Chagall (1887, Rússia – 1985, França) é considerado um dos precursores do Surrealismo. Em sua pintura são constantes as figuras de anjos e acrobatas, personagens libertos da lei da gravidade e do tempo. Compartilha com Murilo Mendes a crença na unidade da experiência humana. http://www.mac.usp.br/projetos/seculoxx/modulo1/expressionismo/surrealismo/chagall/

6 Merquior, José Guilherme. Notas para uma Muriloscopia. In: Murilo Mendes. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994

A que aspira o poeta? Inaugurar no mundo o “estado de bagunça transcendente”. Exalta os artistas doentes, os revolucionários, as almas desesperadas, insatisfeitas, ardentes, São Francisco, os suicidas e amantes suicidas, os soldados que perderam a

batalha, as mães bem mães, as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos, os criminosos, os amantes desesperados. Em comum, todos eles têm a mesma força libertária, carnavalesca, subversiva. São misturados a imagens da força indomada da natureza, e a sentimentos fortes e incontrolados como o ódio e o amor: “vulcões de ódio” / “explosões

de amor” / “dançarei na luz dos relâmpagos”.

As figuras femininas, representando o lado sensível e intuitivo do ser humano, ganham visibilidade na poesia de Murilo Mendes, para o qual os homens racionalizaram

demasiadamente o mundo. Daí que as “mães bem mães” e as “fêmeas bem fêmeas” sãos seguidas, no verso 42, dos “doidos bem doidos”. Quanto à forma, o que Murilo Mendes tem a dizer sobre sua poesia é que não

acredita em nenhuma técnica e não se inscreve em nenhuma teoria. O uso de versos livres

e

brancos pode a princípio sugerir uma simplicidade na composição, o que não é verdade.

O

uso de orações coordenadas encaixa-se perfeitamente ao conteúdo do poema, que é

uma soma de impressões, de pensamentos soltos, de imagens sobrepostas, de sensações.

O uso de vírgulas e da conjunção “e” assumem importância na aproximação idéias

díspares (“rio e choro” / “estou aqui”, “estou ali”). Tais recursos, ao lado das enumerações, (“tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos”) nos remetem ainda à técnica da fotomontagem. Como se pode ver, o poema “Mapa” tem importância fundamental na obra de Murilo Mendes, uma vez que, já em seu livro de estréia, anuncia sua concepção do poeta

e da poesia. Todos os elementos marcantes de sua obra – a visão de mundo marcada pelo

catolicismo e pelo surrealismo, o essencialismo, a idéia da função pedagógica da poesia como forma de chegar ao conhecimento total, a noção do poeta enquanto ser capaz de estabelecer um diálogo entre o mundo cotidiano e o mundo transcendente – estão

presentes nesse poema, que já evoca a força transformadora do poeta, “chama com dois olhos andando”.

Mapa

Murilo Mendes

1 Me colaram no tempo, me puseram

2 uma alma viva e um corpo desconjuntado. Estou

3 limitado ao norte pelos sentidos, ao sul pelo medo,

4 a leste pelo Apóstolo São Paulo, a oeste pela minha educação.

5 Me vejo numa nebulosa, rodando, sou um fluido,

6 depois chego à consciência da terra, ando como os outros,

7 me pregam numa cruz, numa única vida.

8 Colégio. Indignado, me chamam pelo número, detesto a hierarquia.

9 Me puseram o rótulo de homem, vou rindo, vou andando, aos solavancos.

10 Danço. Rio e choro, estou aqui, estou ali, desarticulado,

11 gosto de todos, não gosto de ninguém, batalho com os espíritos do ar,

12 alguém da terra me faz sinais, não sei mais o que é o bem nem o mal

13 Minha cabeça voou acima da baía, estou suspenso, angustiado, no éter,

14 tonto de vidas, de cheiros, de movimentos, de pensamentos,

15 não acredito em nenhuma técnica.

16 Estou com os meus antepassados, me balanço em arenas espanholas,

17 é por isso que saio às vezes pra rua combatendo personagens imaginários,

18 depois estou com os meus tios doidos, às gargalhadas,

19 na fazenda do interior, olhando os girassóis do jardim.

20 Estou no outro lado do mundo, daqui a cem anos, levantando populações

21 Me desespero porque não posso estar presente a todos os atos da vida.

22 Onde esconder minha cara? O mundo samba na minha cabeça.

23 Triângulos, estrelas, noite, mulheres andando,

24 Presságios brotando no ar, diversos pesos e movimentos me chamam a atenção,

25 o mundo vai mudar a cara,

26 a morte revelará o sentido verdadeiro das coisas.

27 Andarei no ar.

28 Estarei em todos os nascimentos e em todas as agonias,

29 me aninharei nos recantos do corpo da noiva,

30 na cabeça dos artistas doentes, dos revolucionários.

31 Tudo transparecerá:

32 vulcões de ódio, explosões de amor, outras caras aparecerão na terra,

33 o vento que vem da eternidade suspenderá os passos,

34 dançarei na luz dos relâmpagos, beijarei sete mulheres,

35 vibrarei nos canjerês do mar, abraçarei as almas no ar,

36 me insinuarei nos quatro cantos do mundo.

37 Almas desesperadas eu vos amo. Almas insatisfeitas, ardentes.

38 Detesto os que se tapeiam,

39 os que brincam de cabra-cega com a vida, os homens “práticos”

40 Viva São Francisco e vários suicidas e amantes suicidas,

41 e os soldados que perderam a batalha, as mães bem mães,

42 as fêmeas bem fêmeas, os doidos bem doidos.

43 Vivam os transfigurados, ou porque eram perfeitos ou porque jejuavam muito

44 Viva eu, que inauguro no mundo o estado de bagunça transcendente.

45 Sou a presa do homem que fui há vinte anos passados,

46 dos amores raros que tive,

47 vida de planos ardentes, desertos vibrando sob os dedos do amor,

48 tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria,

49 estou no ar,

50 na alma dos criminosos, dos amantes desesperados,

51 no meu quarto modesto da praia de Botafogo,

52 no pensamento dos homens que movem o mundo,

53 nem triste, nem alegre, chama com dois olhos andando,

54 sempre em transformação.

Bibliografia

MENDES, Murilo. Melhores poemas. Seleção de Luicana Segagno Picchio. São Paulo, Global Editora, 2000, 3ª Ed. MOURA, Murilo Marcondes de. Os jasmins da palavra jamais. In: Leitura de Poesia. São Paulo, Ática. MOURA, Murilo Marcondes de. II. As metamorfoses. In: Murilo Mendes. A poesia como totalidade. São Paulo, Edusp. MERQUIOR, José Guilherme. À beira do antiuniverso debruçado ou Introdução à livre poesia de Murilo Mendes. In: Antologia Poética. Brasília, Fontana, INL.

MERQUIOR, José Guilherme. Notas para uma Muriloscopia. In: Murilo Mendes.

Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. ANDRADE, Mário de. Aspectos da literatura brasileira. São Paulo, Martins; Brasília, INL, 1972, 4ª Ed., p. 42 – 45

Sites

Sobre Marc Chagall:

http://www.mac.usp.br/projetos/seculoxx/modulo1/expressionismo/surrealismo/chagall/

Sobre Murilo Mendes:

http://capitu.uol.com.br/P.asp?p=27,2,2004,2267