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Pieter Brueghel, séc.

XVI
A IMAGEM
Imagens a partir do pp: daqui
• em Aveiro

• na Figueira da Foz

• no Tejo

• no Sado

• no Algarve

eli
Lenda da Deusa do Sal

Conta uma lenda que em uma ilha longínqua vivia uma solitária deusa de sal.
Ela era apaixonada pelo mar.
Passava dias, noites, horas na praia observando o balanço de suas ondas, sua beleza, seu mistério, sua
magnitude. Um desejo enorme começou a apossar-se do seu coração: experimentar toda aquela beleza.
Esse desejo ia aumentando até que um dia a deusa resolveu entrar no mar.
Logo que ela colocou os pés no mar, eles sumiram, derreteram-se. Encantada com o mar, ela seguiu em
frente e logo após suas pernas e coxas não mais existiam.
A deusa, entretanto, seguiu adiante, sentindo partes do seu corpo derretendo-se, até ficar apenas com o
rosto do lado de fora. Uma estrela que observava tudo falou:
- Linda deusa, você vai desaparecer por completo. Daqui a pouco você não mais existirá.
- A água do mar desfazia o rosto da deusa, mas ela respondeu fazendo um esforço:
- Continuarei existindo, porque agora eu sou o mar também.

Para conhecer e experimentar é preciso permitir-se, ir em frente. Quando isto acontece, a mudança se dá, mudamos. A
deusa mudou, transformando-se em mar, fazendo parte dele, passou a ser o mar que ela tanto admirava da praia.
O mar por sua vez, também transformou-se, porque foi salgado pela deusa. Ambos experimentaram a mudança: a deusa e o
mar.
(de amigo brasileiro - por email)
Presente em rituais religiosos de diversas épocas e civilizações, o sal foi adquirindo fama de ingrediente
poderoso na luta contra entidades do mal e interesses mesquinhos, passando a alimentar inúmeras
crendices e superstições que o imaginário popular veio mantendo vivas através dos anos. Entre as
muitas que existem estão as seguintes:

• tomar banho com sal grosso protege contra o mau-olhado.

• para afastar os maus espíritos deve-se jogar sal por cima do ombro esquerdo.

• derrubar sal traz má sorte; para evitá-la, jogue sal por cima do ombro direito.

• em muitos países espalha-se sal no umbral da porta de uma casa nova para impedir a entrada de maus
espíritos.

• a mistura de sal com água ou álcool, além de absorver tudo de ruim que está no ar, ajuda a purificar a
casa e impede a entrada da inveja, do mau-olhado e de outros sentimentos inferiores.

• depois de uma festa é sempre conveniente lavar com sal grosso os pratos e copos usados, para
neutralizar a energia negativa de qualquer dos convidados.
• banho de sal grosso e o antigo escalda-pés (mergulhar os pés em salmoura bem quente) neutralizam a
electricidade do corpo e renova as energias.

• uma pitada de sal jogada sobre os ombros afasta a inveja.

• sal marinho seco colocado atrás da porta, em um pires branco, puxa a energia negativa de quem entra
em sua casa.

• em alguns lugares ainda se conserva o costume do noivo ir para a igreja com sal no bolso esquerdo,
porque essa simpatia protege contra a impotência.

• se você colocar sal grosso em um ambiente, ele deverá ser trocado a cada quinze dias, pois decorrido
esse prazo ele ficará saturado.

• traz má sorte o saleiro passado da mão de uma pessoa para outra.

• emprestar, ou pedir sal emprestado, destrói a amizade. O melhor é oferecê-lo ou aceitá-lo com
presente.
• texto integral aqui
O SAL E A ÁGUA

Um rei tinha três filhas; perguntou a cada uma delas por sua
vez, qual era a mais sua amiga. A mais velha respondeu:
– Quero mais a meu pai, do que à luz do Sol.
Respondeu a do meio:
– Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.
A mais moça respondeu:
– Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal.
O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava
tanto como as outras, e pô-la fora do palácio. Ela foi muito
triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se
ofereceu para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel
muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou dentro um anel
muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as
damas da corte de quem seria aquele anel.
Todas quiseram ver se o anel lhes servia: foi passando, até que foi chamada a cozinheira, e só a ela é
que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo apaixonado por ela, pensando que era de família de
nobreza.
Começou então a espreitá-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com trajos de
princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho para casar com
ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o jantar do dia da boda. Para
as festas de noivado convidou-se o rei que tinha três filhas, e que pusera fora de casa a mais nova. A
princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam de ser postos ao rei seu pai não botou sal
de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o rei convidado é que não comia. Por fim
perguntou-lhe o dono da casa, porque é que o rei não comia? Respondeu ele, não sabendo que
assistia ao casamento da filha:
– É porque a comida não tem sal.
O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não tinha
botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a viu, conheceu-
a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por sua filha, que lhe
tinha dito, que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de sofrer tanto nunca se
queixara da injustiça de seu pai.

Teófilo Braga, In Contos Tradicionais Portugueses


A VERSATILIDADE DO SAL é uma das principais causas de mortes que poderiam ser
evitadas com a simples redução do consumo de sal a
Substância imprescindível ao equilíbrio das funções valores diários entre o mínimo necessário de 0,1 a 0,5
orgânicas pode produzir efeitos danosos se consumida grama até um máximo de 5 gramas. Talvez o sal seja o
em excesso. Demanda natural fez com que superasse o mais antigo e comum aditivo alimentar. Praticamente
ouro como valor estratégico e fosse base para todas as culturas antigas temperavam seus alimentos
remunerar o trabalho. usando sal, tanto para suprir eventuais deficiências
deles como para melhorar o sabor. Há registos do uso
André de Souza Mecawi , Luis Carlos Reis, José do sal para conservar alimentos em antigas culturas às
Antunes Rodrigues margens do Nilo, no Egipto, há 8 mil anos. Guerras
foram travadas pelo controle de minas de sal que, em
O sal (cloreto de sódio ou NaCl), encontrado em grande determinados momentos da história, foi mais valioso
quantidade na Natureza, integra a dieta diária de quase que o ouro. Em virtude da necessidade do organismo
toda a população mundial, principalmente por melhorar por sódio, a maioria dos animais vertebrados procura
o sabor dos alimentos. Mas desde o início do século esse elemento no ambiente onde vivem. Os seres
passado a quantidade de sal ingerida é vista como um humanos não sentem necessidade explícita de outros
componente importante pela saúde pública, uma vez que minerais como magnésio, iodo ou potássio, da mesma
seu consumo excessivo está relacionado ao forma como ocorre com o sódio. A necessidade tanto de
desenvolvimento da hipertensão arterial. Segundo sódio quanto de água são os dois únicos mecanismos de
estimativas da Organização Mundial da Saúde, essa busca e ingestão de moléculas específicas inatas. Esses
doença, que afecta aproximadamente 1 bilhão de pessoas, processos são regulados mutuamente para manter os
níveis correctos de água e sal no organismo. […]
O Sal na Dieta Ocidental

O sal foi muito consumido na conservação de alimentos,


principalmente carnes, na ausência das geladeiras modernas.
Posteriormente o seu consumo foi significativamente reduzido.
Mas ainda hoje continuamos a apreciar alimentos salgados, como
embutidos, carnes curadas e conservas, de modo que carregamos a
herança de quase 8 mil anos de consumo de altos teores de sal, e
Imagem (desconheço autoria): da net
seu sabor é requisitado da mesma forma que a cafeína, doces,
gordura, carnes e outros alimentos consumidos em quantidades
acima de nossas necessidades diárias.
A maioria das pessoas aprecia muito o sal, o que as leva a consumos
elevados.

Texto com supressões.

Fumeiro tradicional: aqui


Sal e Hipertensão

Dados experimentais mostram que ratos CONCEITOS-CHAVE


alimentados com uma dieta mínima de sal vivem
significativamente mais que outros que ingerem - A produção de sal é bem distribuída
quantidades maiores. Em estudo realizado com uma mundialmente e essa substância pode ser extraída
colónia de chimpanzés, animais geneticamente da água do mar e de lagos salgados, ou a partir de
próximos do homem, observaram-se aumentos depósitos minerais ou incrustações superficiais.
progressivos na pressão arterial à medida que - Ingerir sal e água são os únicos mecanismos
quantidades crescentes de sal foram adicionadas à comportamentais que já nascem com a pessoa e se
dieta ao longo de 20 meses – a quantidade máxima autorregulam para manter em equilíbrio os
de sal administrada aos chimpanzés foi similar à da conteúdos corporais desses minerais.
dieta ocidental típica. Curiosamente, a hipertensão - Por ser um poderoso conservante de alimentos,
reverteu completamente seis meses depois de os carregamos a herança de quase 8 mil anos de
animais retornarem à dieta natural. Em humanos, consumo de sal e seu uso é estimulado da mesma
vários estudos confirmam que o consumo excessivo forma que a cafeína, açúcar e gorduras –
de sal é uma das principais causas de hipertensão alimentos que ingerimos em quantidades maiores
arterial. que as necessidades diárias.

Texto com supressões e adaptações


SAL NA HISTÓRIA, ARTE E RELIGIÃO

• O poeta Homero referiu-se ao sal como “uma substância divina”. Platão reverenciou a importância do sal
dizendo que ele é “particularmente caro aos deuses”.
• No Império Romano, a Via Salaria, era a principal estrada que levava a Roma e por onde passavam os soldados
com cargas desse produto. Para o senador romano Cassiodoro, o sal era mais importante que o ouro, porque
“alguns precisam de ouro, mas todos precisam de sal”.
• A palavra “salário” deriva do latim salarium, e este de sal, salis (em grego), porque era costume entre os
romanos pagar-se aos soldados em quantidade de sal. Hoje, se uma pessoa é produtiva em seu trabalho, diz-se
que ela “vale seu salário” ou “vale seu sal”.
• A palavra “sal” aparece mais de 50 vezes na Bíblia em versículos como “Vós sois o sal da terra”. (Mateus 5: 13).
• O papel do sal na reprodução e fertilidade é reflectido no mito antigo da Vénus, que na tela de Sandro Botticelli
nasce do mar.
• “O sábio coloca uma pitada de açúcar em tudo o que diz ao próximo, e ouve com um grão de sal o que o outro
diz.” (Provérbio tibetano)
• No filme Vicky, Cristina, e Barcelona, de Woody Allen (2008), uma das personagens descreve da seguinte forma
seu fracassado relacionamento amoroso: “O amor requer um equilíbrio perfeito. É como o corpo humano. Pode
ter todas as vitaminas e minerais, mas se houver um pequeno e único ingrediente em falta, como o sal, por
exemplo, a gente morre”.

Com supressões e adaptações minhas, texto colhido aqui


A flor de sal é a fina flor de sal marinho, também chamada
de nata ou coalho de sal – por ser recolhido à superfície das pequenas
peças, tal como a nata do leite.
A flor de sal, branca, húmida e cristalina, é colhida no verão. É uma
finíssima película de cristais de sal que se forma na superfície da água das
salinas, e que é cuidadosamente recolhida com um instrumento especial,
que nunca toca o fundo. O cristal tem a forma de delgadíssimas
palhetas que facilmente se desagregam por pressão entre os dedos...
A Flor de Sal não sofre qualquer processamento posterior, seca ao sol e é
depois embalada, mantendo o sabor e a humidade do mar.

Imagem: da net

Recolha da flor do sal – ver estas imagens


• sinopse

Imagem: ver aqui


Lenda Medieval

O Sermão de Santo António aos Peixes tem por


base a lenda medieval segundo a qual Santo António,
numa das suas pregações em que não consegue ser
ouvido pelos homens, lança a sua palavra na praia
deserta para os peixes, que levantam a cabeça à
superfície das águas como sinal da força da sua
palavra.

Museu Nacional de Arte Antiga - Lisboa

Imagem: daqui
Estava Santo em Itália, junto ao mar, descontente porque os hereges da terra o não tinham querido ouvir, quando
resolveu falar aos peixes, que, em cardumes, correram a escutá-lo, com a cabeça fora da água e o olhar fixo no seu
rosto. Todos os peixes se aproximaram o mais que puderam do santo, pondo-se na frente os mais pequenos, depois os
mais altos e, por fim, os grandes monstros marinhos. E todos ficaram quietos, seduzidos pela eloquência do santo,
que começou por lhes dizer: “Irmãos meus peixes, muita obrigação tendes de agradecer, segundo as vossas
possibilidades, ao vosso Criador por vos ter dado tão nobre elemento para vossa habitação e ainda águas doces e
salgadas, como vos agrade, e muitos refúgios para vos abrigar das tempestades.”

Séculos depois, quando estava no


Brasil, o Padre António Vieira
serviu-se da lenda para um dos
seus mais conhecidos sermões, o
Sermão de Santo António aos
Peixes.
ALEGORIA

Figura que consiste em representar pensamentos, ideias, qualidades, isto é, temas abstractos, por
termos que designam realidades físicas ou animadas (animais ou humanas), através de uma sequência
organizada de metáforas contínuas e de modo que os elementos do plano das ideias e do plano figurado
se correspondem um a um. Qualquer discurso alegórico pode ser lido de modo não alegórico,
permanecendo inteiramente aceitável e coerente.

“O polvo, com aquele seu capelo na cabeça, parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece
uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma mansidão.”

Padre António Vieira, Sermão de Stº António aos Peixes

Polvo traição, hipocrisia

Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente

A figura de olhos vendados e balança na mão que representa a Justiça.


SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES

• O Sermão de Santo António aos Peixes do P. António Vieira foi pregado em S. Luís do Maranhão, no dia da festa de
Santo António.
• Todo o sermão é uma alegoria, porque os peixes são a personificação dos homens.
• A frase bíblica que serviu de base ao Sermão foi: “Vós sois o sal da terra”.
• As duas propriedade do sal são: conservar o são e preservar da corrupção. Com base nessas propriedades, Padre
António Vieira dividiu o Sermão em duas partes: os louvores dos peixes e os defeitos dos peixes.
• Os peixes ouvem, mas não falam; os homens falam muito e ouvem pouco. Os peixes foram as primeiras criaturas que
Deus criou e entre todos os animais da terra são as maiores e as mais numerosas.
• Os homens recusaram ouvir a palavra de Deus e os peixes acorreram todos. Todos os animais se podem domesticar, os
peixes vivem em liberdade. O pregador tirou uma conclusão que repete várias vezes: quanto mais longe dos homens,
melhor. E dá o exemplo de Santo António que deixou Lisboa, Coimbra, Portugal e retirou-se para um ermo.
• O peixe de Tobias serviu para curar o seu pai da cegueira e afastar de sua casa os demónios; a rémora tem tanta força
que pode parar o leme de uma nau; o torpedo faz tremer tanto o pescador que este deixa de pescar. O peixe “quatro-
olhos” defende-se dos que o atacam do fundo do mar e da superfície do mar.
• Padre António Vieira compara o peixe de Tobias e a rémora a Santo António porque curava, isto é, convertia as almas e
tinha tanta força que fazia tremer os pescadores, afastando-os de pecar.
• Padre António Vieira faz duas repreensões aos peixes: 1ª – os peixes comem-se uns aos outros; 2ª – os peixes são
ignorantes e cegos.
• O pregador selecciona quatro peixes e põe em destaque os seus defeitos. Assim, os roncadores personificam a
arrogância; os pegadores, a servidão ou o parasitismo; os voadores, a ambição; o polvo, a traição.
• O polvo é comparado ao camaleão porque muda de cor, mas distingue-se dele porque ataca covardemente.
• Judas é comparado ao polvo porque traiu o Mestre, mas é considerado menos culpado do que este peixe porque
realizou a traição à luz.
• O último capítulo é chamado a peroração porque é a conclusão.
• O Sermão é uma sátira social visto que o Padre António Vieira tem como principal objectivo criticar a exploração dos
homens, sobretudo exercida pelos brancos; visa também criticar os holandeses que pretendiam apoderar-se da Baía.
• O Sermão ainda é actual porque ainda se mantêm alguns dos graves defeitos na nossa sociedade como por exemplo: a
ambição, a exploração, a traição, o servilismo.

• Os recursos expressivos mais utilizados para convencer os ouvintes são: apóstrofes, interrogações, exclamações,
comparações, metáforas, antíteses, repetições, ….
Sermão de Santo António aos Peixes

Pregado na cidade de S. Luís do Maranhão, ano de 1654. Este sermão (que todo é alegórico)
pregou o autor três dias antes de se embarcar ocultamente para o reino, a procurar o remédio da
salvação dos índios.

Vos estis sal terrae (S. Mateus, 5)


Vós, diz Cristo Senhor nosso, falando com os pregadores, sois o sal da terra: e chama-lhes sal da
terra, porque quer que façam na terra, o que faz o sal. O efeito do sal é impedir a corrupção, mas
quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual
será, ou qual pode ser a causa desta corrupção? Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se
não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina;
ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhe dão, a não
querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma coisa e fazem outra; ou
porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o
que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a
terra se não deixa salgar, e os ouvintes se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa
salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites. Não é tudo isto verdade? Ainda
mal.

• conjunção coordenativa disjuntiva – discurso disjuntivo – alternativo


Padre António Vieira
• adjectivação

• interrogativa

• adversativa

• conjunção subordinativa causal – discurso causal

• inventariação das causas que impedem a terra de se deixar salgar.


[…]

Isto suposto, quero hoje, à imitação de Santo António, voltar-me da terra ao mar, e já que os homens se não
aproveitam, pregar aos peixes. O mar está tão perto que bem me ouvirão. Os demais podem deixar o sermão, pois
não é para eles. Maria quer dizer Domina maris: Senhora do mar. e posto que o assunto seja desusado, espero que me
não falte com a costumada graça. Ave Maria.

Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes


O POLVO

Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas, temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas queixas,
e grandes, não menos que S. Basílio e Santo Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo, parece um monge; com aqueles
seus raios estendidos, parece uma estrela; com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura, a mesma
mansidão. E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente os dois
grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo é o maior traidor do mar. Consiste esta traição do polvo
primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no
camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício. Se está
nos limos, faz-se verde; se está na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo; e se está em alguma pedra, como
mais ordinariamente costuma estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede que outro peixe,
inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro do seu próprio engano,
lança-lhe os braços de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não fizera mais, porque nem fez tanto. Judas
abraçou a Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça e mais o que prende. Judas com os braços fez o
sinal, e o polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou a
traição às escuras, mas executou-a muito às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira
traição e roubo que faz, é a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas
em tua comparação já é menos traidor!

Padre António Vieira, Sermão de Santo António aos Peixes


e o polvo é…
J. Vermeer

The Art of Painting -- The Artists Studio - 1665/66


eli
eli
eli
Às tardes, de volta das aulas, neste meu estreito quarto

atravancado de livros, olho em redor as paredes brancas, onde


se destaca o colorido de uma ventarola chinesa, e depois o meu
próprio rosto no espelho. Então, como a madrasta da Branca
de Neve diante do cristal mágico, pergunto: «Haverá alguém
mais triste do que eu?»

Maria Ondina Braga , em Estátua de Sal


Maria Ondina Braga

Partir é bom, mas, pensar em partir, melhor ainda. Quanto a


mim, acho que tenho sempre chegado. Partir é esperança.
Chegar, desencanto.

Maria Ondina Braga , em Estátua de Sal


Maria Ondina Braga, autora de Estátua
de Sal, em entrevista dada a Maria
Teresa Horta e publicada em 1992 no
«Diário de Notícias», fala nos vinte
cinco anos de escrita literária.
Surpreende uma resposta sua sobre
esse tempo de dor: «Foi o mais
importante sim. O que mais vivi».

Foto e texto (adaptado:) aqui


O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda


uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
Eugénio de Andrade
Carlos de Oliveira,
óleo de Mário Dionísio
Imagem: da net
Que você não me faça jus Estátua de Sal
a gente até releva
mas você bem que tem um plus
isso ninguém pode negar
e são tantos momentos bons
apesar dos senões
você sabe a hora certa
de trocar a pele
da vilã
por alguém de mente aberta
de quem quase sempre
sou fã
você tem uma coisa boa
que às vezes
soa estranho
e um esplendor
encontrado em cada nota do soul, soul
ou no mar quando o sol ascender
deusa do amor ou
estátua de sal
qual será você
que vai dizer quem sou
pra que eu não vá
errar e me perder?
La Mujer de Lot

Nadie nos ha aclarado todavía


si la mujer de Lot fue convertida
en estatua de sal como castigo
a la curiosidad irrefrenable
y a la desobediencia solamente,
o si se dio la vuelta porque en medio
de todo aquel incendio pavoroso
amalia bautista
ardía el corazón que más amaba.

Amalia Bautista, de La mujer de Lot y otros poemas


A mulher de Lot

Ninguém nos esclareceu ainda


se a mulher de Lot foi transformada
em estátua de sal como castigo
pela curiosidade incontrolável
biografia
e pela desobediência, unicamente,
ou se ela se voltou porque no meio
de todo aquele incêndio pavoroso
ardia o coração que mais amava.
A MULHER DE LOT

A mulher de Lot, que o seguia, olhou

para trás e transformou-se numa estátua de sal.


Gênesis

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,


alto e brilhante, pelas negras montanhas.
Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:
"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres da tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde destes filhos ao homem amado".
Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,
seus olhos nada mais puderam ver.
E converte-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão enraizaram-se.
Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?
E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
Anna Akhmátova por Nathan Altman quem deu a própria vida por um único olhar.

Anna Akhmátova
tradução de Lauro Machado Coelho
JORGE DE SENA
Conheço o Sal

Conheço o sal da tua pele seca


depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos


quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros


ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos


como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal


da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,


ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
Jorge de Sena por Pedro Vieira um cristalino pó de amantes enlaçados.
A flor do sal

de FARIA, Rosa Lobato de

recenseador: António Couto Viana, 2005

Apreciação:

Rosa Lobato de Faria começou a ser conhecida através da televisão, como declamadora. Rapidamente foi mais longe:
publica poesia, romance, literatura infanto-juvenil. E apresenta-se, ainda, como actriz de telenovela. Confesso que em
todas estas actividades literárias e artísticas lhe vou admirando o talento de escritora e o talento de intérprete teatral.
Traz-nos, agora, o seu nono romance, A flor do sal, com uma capa pouco feliz e enganosa, a sugerir, pelo estilo da
ilustração, uma obra destinada à primeira adolescência. O livro descreve, com habilidade, a biografia de um pescador
baleeiro, de Cascais, chamado Afonso Sanches que, em 1480, chega por acaso às costas da América ( como se verifica,
doze anos antes de Colombo), participando o facto ao rei D. João III, na sua corte de Évora, que lhe pede sigilo, já que se
encontrava negociando com Castela o Tratado de Tordesilhas. Isto, que é rigorosamente histórico, é-nos apresentado por
Rosa Lobato de Faria através de uma escritora actual que convive com o fantasma do navegador, recebendo dele a sua
biografia, naturalmente, muito romanceada. A autora confabula bem, escreve bem, com beleza, ductilidade e fluência,
sabendo distinguir a linguagem dos nossos dias e a quinhentista. Saboroso o relato da refeição renascentista que a
personagem escritora oferece ao seu editor, com graça e erudição.
Em leitur@ Gulbenkian
Cristina Norton em entrevista ao Portal da Literatura

Mais sobre Cristina Norton

Sinopse
Mário, um algarvio de Tavira a quem os reveses económicos da família levaram a trabalhar
numa salina, vigia, durante dois dias, o céu e os sinais de uma chuva próxima enquanto
espera pelo regresso da mulher. A ironia da vida surpreende-o e, ao procurar autenticar
uma fantasia, descobre que o segredo é outro, bem mais doloroso, que o leva a pôr em
causa o seu casamento com a mulher que sempre amou. Totalmente alheia aos tormentos
inventados e reais pelos quais passou o seu marido, Irene chega no preciso momento em
que começa a chover e urge colher a flor do sal antes que se estrague. A ternura de um
abraço e a confirmação do amor que sentem um pelo outro, põem um ponto final numa
história que não é mais do que isso mesmo, uma história.
Sinopse

O americano Richard Ford, autor de Independência, publicado pela Editora


Record, retoma a saga do personagem Frank Bascombe, um corretor de imóveis
de Nova Jersey. Durante o outono de 2000, ano da virada do milénio e de
eleições presidenciais, Frank sente ter atingido um estado de tranquilidade e
aceitação que denomina de Período Permanente. Às voltas com os preparativos
do feriado de Aação de Graças, ele perceberá que suas expectativas de paz serão
frustradas quando a família surge diante dele com diversas crises e problemas.

A Estátua de Sal
ALBERT MEMMI

Esse livro, prefaciado pelo romancista Albert Camus,


é considerado um clássico da literatura em língua francesa.
Um fascinante romance autobiográfico, em que o herói,
judeu tunisiano pobre, define pouco a pouco sua própria identidade por meio
de descobertas sobre religião, sexualidade, medo e solidariedade em meio aos
conflitos que assolam a Tunísia, sob domínio francês, antes e durante
a Segunda Guerra Mundial.
vamos …

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