BAGG’AVE

por:

J.J.Gallahade



Jairo N. Luna Editor
2006
(1.ª edição: 1984 – ed. do autor)



Bagg’Ave – Nota Importante:
Poemas de Jayro Jhade Gallahade, edição,
organização e notas de Jayro Luna, detentor do
acervo do poeta.

Edição de Jayro Luna com base na edição do
autor de 1984, acrescido de poemas inéditos
coligidos no acervo do poeta.

Capa: Walter Babaçu

ISBN: 85-90523-18-7

São Paulo,
1.ª edição: 1984 – ed. Do autor
2.ª edição: 2006 – ed. Jairo N. Luna









2
















251 $ 32: $ 95 $ 334






3

PREFÁCIO PARA BAGG’AVE

Tudo é poesia, só a poesia existe! Não faço este
pré-fácil para explicar meus poemas. Não sou carrasco de
minha própria criação, mas ofereço-a em sacrifício! Se não
trouxeram a chave para entrar, arrombem as portas, e mais,
derrubem as paredes! Mas, oh céus, eu vos digo, sou poeta
e edificarei esse templo em três dias, e bem poderia fazer
três templos em um só dia, um instante, porém não sou
profeta, nem tampouco guardião de templos-cerbero!
Agora não sou mais! Somais vós pedra à pedra e
convenha a forma que quiseres edificar! O espírito é intra, é
infra, é extra, está nas coisas e delas faz parte. Faço arte,
não sou porém artista, antes de tudo cometo erros, todos
os possíveis, sou profano! Atirais vós a primeira pedra,
atirais! Na porta, com força e verás que ela se abrirá...
Mas quando entrando, ó ledo engano, cigano! És
agora um trapezista lançado no espaço, sem redes embaixo
para proteção, e o que é pior, sem o trapézio onde se
agarrar! Bye, bye!
Enquanto a porta do templo se fechará atrás de ti,
furiosamente, em fogo e fumo. E quando pensares: “Ó de
mim, que infortúnio, estou agora trancado neste túnel,
neste templo, o que será de mim?” Mas vede, ó viajante,
olhe para trás, ainda não entrastes no templo, foi tudo
ilusão, mais que isso, o templo é uma ilusão; de qualquer
lado da porta nunca se entra; dentro, sempre se está fora!
4
No mais, tudo vai bem, tudo vai mal, tudo tudo,
descanse, sente-se aqui sobre esta pedra angular, tome uma
coca-cola ou um guaraná e depois jogue a garrafa ou a lata
descartável ou o copo reciclável na lata de lixo! E que
estranha lata de lixo é essa? Ela é furada no fundo e não
tem tampa que lhe sirva de jeito, ou melhor, tinha! Oh,
desculpe-me, engano meu! Tem ainda, é este teto sobre sua
cabeça! E as paredes que vês são as da lata, e este chão em
pisas é o fundo da lata de lixo!
Que problema surreal e difícil!
Não consegues entrar no templo da poesia, nem
sair da lata de lixo, oh céus!

*******

Post-Scriptum: Caro leitor, o templo é a lata!

Jayro Jhade Gallahade
Setembro, 1984.







5
Cavaleiro Menestrel Errante
1
“Em cest sonet coind’ e leri
Fau motz e capuig e doli,
E serant verai e cert
Quan n’aurai passat la lima”
Arnaut Daniel

Sou cavaleiro menestrel errante
Que vaga pelos vales da cidade,
Sou da aventura um eterno seu amante
Que também ama e canta a liberdade;

Sou cavaleiro menestrel errante,
Brasão vinil em trinta e três rotações,
De espada elétrica, acordes vibrantes,
Cantando os romances das gerações;

De armadura em desaire, jeans azul,
Vou sob os céus da América do Sul
Montado em dragões contra o rei e sua filha!

Sou cavaleiro menestrel errante,
Que em rocks canta o amor agonizante,
Trago em meu coldre um rádio de pilha!


1
Musicado pelos Lee Bats, LP-triplo “Símbolos & Selos”,
disco 2, labo B, faixa 1 (RJ, independente).
6

Árvore Solitude à Beira do Caminho
“Cuius latus perforatum fluxit aqua et sanguine”
Anônimo.

Um pingo d’água, orvalho rolante singrante pelas folhas,
Fez-se folhas aos fios de cabelos que não tosam
Árvore arvoada, arco arquejado à beira do caminho,
Artelhos crescentes em galhos marrons,
Pele cortiça pra rolhas, não posa os ramos nem ninhos;
Por dentro, corre a seiva verde-rubra no tom.

Vr ummmmmmmmmmmmmmmm!

Dum pingo d’água rolante destoante pelas folhas,
Reflexo convexo do rodeante mundo-rodovia,
Estrada cercando a imagem vertida nos olhos-orvalhos,
Pele cortiça pra rolhas, não dosa a magia os caminhos
atalhos!
Artelhos iridescentes como carvalhos marrons,
Folhas despenteadas e as flores-lábios em batom!

Roooommmmmmmmmmmmmmmmm!




7
Astrolábio
2
“Se o leitor, era afastado pelo medo e vacilava em
alguns do problemas anteriormente propostos, agora,
tendo sido iniciado nas introduções – resumidas, porém
tão necessárias – desta arte para os não-iniciados, pode
encontrar e compor resoluções semelhantes sem
reclamação de qualquer impedimento.”
Boécio.
Semblante místico em lã e seda,
Túnica inconsútil dos vedas
E o pantáculo luze à lua
Ou ao sol imáculo pontua.

Jovens rebeldes incendeiam
O incenso na busca que enleia
E a leve lança do alvo templo
Vem e atinge a névoa em vôo amplo.

Na lei antiga e cabal da seita,
Experimenta algo e deleita
Na estranha e vaga escura luz
Que vem de um turvo templo hindu.

Sei tudo do epílogo ao prólogo,
Sou velho e novo: Louco Astrólogo!

2
Há quem me diga que este poema também foi musicado pelos
Lee Bats, mas não consta dos discos editados, possivelmente
exista em versão de fita demo.
8

Ritmo
3

bate
ton-ton
(passas
baton)

contra-
baixo:
marca
o tom.

noutra
base
acho
meu som.

solta a
frase:
facho,
luz néon.


3
É evidente a relação entre o poema e a constituição musical dos Lee
Bats. Há quem me diga que este poema também foi musicado pelos
Lee Bats, mas não consta dos discos editados, possivelmente exista
em versão de fita demo.
9
Tênis

Corrida, passos de dança
Limpo ou sujo, novo ou velho
Cores, desenhos, nós, tranças,
Tênis pisa o escaravelho!



Camiseta de Rock

Ópio em faces delinqüentes,
Imagem, dramas nas fotos
De grupos de rock, duendes;
Nada ao lodo a flor de lótus!


Calça Velha Azul e Desbotada

Em nervos desfolhada a pele érea não corro!
Por lutas de sabor vetusto e vil não morro!
Lendo gibi e fazendo uma bola ao chiclet...
E a fé por guerras não me verás à espada,
Pois eu uso calça velha azul e desbotada!



10

Le Bal

Crack! Crash! Stroom! Blum! Stroll!
Lonely lonely lonely long time;
Bola louca colore o show,
Coisa estranha que tão bem cai-me.

Vrum! Íon! Win! Who! Room! Spoom! Flash!
Ruído rebel, mascar chiclet.
Rasga, singra, a flecha me fleche;
Vôa foguete, explode asa pan air!

Led Zep, Deep Purple, Betlestones,
Cabelos molhados aos sóis,
Gotas brilhando à luz néon-ônix;
Sabbath, Iron, AC/DC, Big Boys!

Dedos agitados no ar:
Guita imaginária a tocar!







11

Flash Back

A inconfundível frase musical,
Não recordar, antes redescobrir;
Aquela foto kodak: know-how.
Hi-fi no cadilaque: traduzir!

Toca uma fita ou um velho long-play,
Dança aquela dança com mil deslizes,
Talking about my generation! Hey!
Mutar o kitsch! O novo sem reprises!

Nítido e sonoro raio: um tacape!
Límpido luminoso laser: leque!
-Coca-cola, grapette, seven-up –

Abrir o casulo ao novo moleque,
Curtir – tubo blue – e às ondas bem escape!
Metamorfoses do velho: flash back!







12


Pedra Rolante

A rolar a pedra
Sobre outras rolando
Roça superfícies
Ressoa raso ruído.

Que som renitente,
Irritante tom,
Rasura na pauta,
Pedra quebra o limo.

Onda rude e baixa,
Agita o pó fino,
Névoa rente ao chão.

Pedra sem ser rara,
Vulgar cai ladeira:
Pólen duma rosa.






13






Trip

Se vou aos bips
Em meu jeep
Giro a estrada
Poeta beat
Jeito hippie
Seja a amada
Minha trip.











14

Poema Drix

Arranha a pele ao sutil céu,
Fica o besouro ao lenho podre,
Num apocalipse és réu,
Rebentou o vinho aos velhos odres.

Briluz tilintar de rubi e ônix,
Dedilha razante em vôo físsil,
Renascente como uma fênix,
Estrondoso como a um míssil.

Rubro carmim, fragrâncias, flora
Odor de pólvora e mandrix;
Bombardeio em luz violeta aflora,
Cogumelo sonoro, mix.

Borbulha em sulfuroso cálix
A pedra vulcão ao som de Hendrix!






15
Gotham City
4


Mas é preciso ser batman em gotham city,
É preciso ler gibi antigo e desfolhado,
Sendo morcego, não ser vampiro, ser beat,
Besouro caindo nos ouvidos deflorados.

Mas é preciso ser batman em gotham city,
Roncando o motor turbinado do bat-carro,
Gostar de Liszt, saber tudo e tudo cite!
Tomar copos de leite e não fumar cigarro!

Sendo o batman enfrento o coringa e o pingouin,
A sensual mulher gato que me arranha as pernas
E o peito e declara estranha paixão por mim!

Ter sempre ao meu lado um Robbin longe a tavernas;
É preciso ser batman em gothan city enfim,
Pra a luta ao som do rock, morar em caverna!






4
Musicado pelos Lee Bats, LP “Símbolos & Selos” (1985),
disco 1, lado B, faixa 1 (RJ, disco independente).
16


Disco Riscado
5

Pequeno passadista novo,
Jovem garoto rebel heavy
Lança como um lis laser leve,
Irrita, grita mudo estorvo.

Sob o braço esquerdo carrega
Alguns lps de rock’n’roll,
Estórias de cem grandes shows,
Dedos em “v” é o que lhe legam

As capas coloridas, álbuns
Duplos, triplos – nada de análogo
Um som latejando qual pus
De bandas fora de catálogo.

E aquela canção do outro lado
- Side B – do disco riscado!




5
Musicado pelos Lee Bats, no LP “Rock’n’Roll” (1980), lado
B, faixa 7 (SP, disco indepente).
17
Artesanato

Estilete ágil, finas mãos,
Esteira ou barraquinha rústica,
Euforia numa multidão,
Solitária aquarela acústica.

Rebeldes cabelos compridos,
Amor ácido em bijouterias,
Primitiva arte livre dos
Prêmios, bilhetes de loterias!

Em colorida feira hippie
Espalha-se um odor estranho,
Púrpura, azul, um velho jeep,
Batas, sacolas, cintos, banhos.

Corantes, luz dum sol intenso,
Pontos, traços, cortes em couro,
Gravar em metal – seda, incenso,
Bronze anel, imitação de ouro...

Camisetas com mil estampas,
Posters febris, tudo às pampas!




18

Woodstock
6

Facho de luz florchameja no espaço,
As estrelas mudaram-se de lugar,
No céu, confusão – astrólogos lassos
Descalços, andam na areia e ondas no ar

Fluídas, sonoras, torre antena ou haste,
Bute furado de tanto caminho,
Bolsos rasgados iriando tons, trastes,
Acorde para cantar, beber vinho!

Será que você pensa que eu sou lóki?
Não guarde segredos! Qual é a tua bicho?
Afine o instrumento nesse toque!

Estátuas quebradas caindo dos nichos;
Eia, festival de rock de woodstock,
Sou poeta beat e nos muros eu picho!





6
Musicado pelos Lee Bats, no LP Rock Barroco, 1984, lado B,
faixa 4 (RJ, disco independente).
19
Caleidoscópio
“(…)supreme Clairon plein dês strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges” A. Rimbaud

Cristais mutantes, multicores
Reflexos vertendo das flores
Girando – around, around – soslaio
O brilho tremeluz de um raio!

Asa colorida, galáxia,
Cometas faiscantes, o táxi a
Correr por via linda e moderna,
Formas novas loucas se alternam...

Dança e dança. Presença.
Vira. Gira. Alça vaga ausência.
Constelações e cornucópias.

Violeta. Azul. Violeta. Azul.
Cristal opaco ou que reluz,
Púrpura aura o caleidoscópio!







20




Botão


Fulge
Novo símbolo!
Belo signo, desenho
Frívolo, brilha na lapela
Efemérides, o cinema
Botão de rock
Ruge!










21


Protesto


A mão levantada em sinal de protesto
Um não, um sim, um grito de alerta,
Um par de olhos cansados desperta
E vê pares de olhos discretos.

A cabeça semiconfusa, difusa, semidestruída
Grandes cabelos, grades, cores diluídas,
Nas retinas cansadas dos olhos desertos,
A cabeça levantada em sinal de pró-texto!












22

Púrpura Asa



O
sol
asa linda raios luze onda
cintilante briluze sonoro céu
cadente luz estrela cai o som
risca o zodíaco carrossel
asa colorida palavras
voa ave, verbo, vil, véu
soa grave grava
do cinzel
crava
a rocha
ave, sol rebel.









23

Um Rock Barroco
7



Estrada que do leito começada
Caiu por duas firmes marcas de partida,
Eu, por rebelde, corro essa corrida,
Deixo a lei, levo a vida aventurada.

Nem sei quando saí em tal caminhada,
Que eram linhas que tracei parecidas
Às cordas sobre os trastes sustenidas,
Ou trilhos da ferrovia abandonada.

É uma torrente mansa de águas claras,
Que de pedras rolando se derrama,
Faz mudar, tão confusa mas tão rara,

Que nas roupas que visto faço a trama:
Fio rústico tecido à roupa cara,
Não sei se é reta fria ou curva em chamas!



7
Musicado pelos Lee Bats, LP “Rock Barroco” (1984), lado A,
faixa 3 (RJ, independente). A canção dá título ao LP.
24


Asa de Vinil


Leve
Éreo
Disco lunar

Zorra!
Éter,
Pans-
Permia solar!
E-
Letr- (a)
ica - (ro) &
Mágica...





25


Bolor Roxo






CaoSexotérico
esquaDrogasoso
& Rockets
‘N’Rollers











26

Let Me Spray




Nos muros cinzentos sem
paixão
Rude sensação
Escrevo coisas em spray
Azul ou vermelho
E em negro no coração
PAINT IT BLACK!
Eu te amo… só você e o
rock’n’roll...
Espelho partido!
Leque vazado!



27



Meus Discos de Rock



Side B
em meus
discos de rock
O
pulsa e corre por
seus sulcos a seiva
rebelde que gira e
vira a vida em
poesia!



















28



Rock’N’Roll



R O C K’N’R O L L
O R O C K’N’R O L
C O R O C K’N’R O
K C O R O C K’N’R
‘N’K C O R O C K’N’
R’N’K C O R O C K
O R’N’K C O R O C
L O R’N’K C O R O
L L O R’N’K C O R








29


Rebel Tropel


o carrocéu
no séu sencível
quero um cacharréu ter,
risque, céu e aether
el rey, disque tell... telephone
as-sim o réu termina:
esquel (eto) éter
em véu ter (é sina)
the ler-éter-skl!
lókis look:
helter skelter!










30
Rifis

Back Beck Beckon
ON THE ROAD
n Clip Clap Cl apt o
Page without number
Page whi t e
Page black
Page c ol our ed
Page myst i cal
H r r r r r !
H E r r r r !
h E N R o c k
r E N D o c k
r r r D O C K
r r r r r I X
R E N D R I X
WEST
Li e WESTer n
Town she end
BLACK
BLACKPLUS
BLACKMAX
BLACKMORE
TO N. Y. IO
OM
OMNI
31




Sem Destino

Se se perde a vista na estrada,
Se por isso corro demais
Vivo ao vento à soprar um nada
Em meus cabelos virginais

Nas curvas da estrada de Santos
Ou indo ao festival de Águas Claras,
Rumo com mochilas e mantos,
Aí solto a voz que antes calaras...

E se eu solto a voz nas estradas,
Se ando à gente jovem reunida,
Carona, a pé ou em disparada,
Trezentos por hora – corrida!

Veloz em busca a outra pintura,
É que eu vou em ritmo de aventura!




32





O Prisioneiro

São poucas as horas que tenho
Em meu relógio sem ponteiros,
São poucas as chaves que acionam esta nave,
Parece que a gente nunca consegue, never!
Mas a gente sempre persegue, revolver;
Querendo alcançar reviramos o alcáçar,
É preciso sonhar, certo certeiro preciso!

Tantos problemas, programas, lemas,
Às vezes cansados sentamos à beira do caminho,
Mas a voz viajante dos ventos vis,
Destruidores de ninhos, caranguejoulas,
Trazem-me novo alento, perfume de papoulas!







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Alta Magia


Whisky e gelo Free sensação!
Entre o copo, os cubos brancos,
Seduzido, rebelde e vão,
O líquido tateia tanto a
Úmida e vil, heliófuga
Luz ao vidro. Espelhadamente,
Divinamente centrífuga

Orvalhado reflexo em gotas,
Unido tem o fogo ao gelo,
Rolando vem, cadentes e soltas,
Suaves gotas, king é o selo e
Os lábios de Ninfetas nuas
Unem-se num ritual ao copo,
Lascivo tal a Onda à lua,
Linda e sensual ao
Louco Ritual!





34
Eco palíndrômico

sat or
ar epo
t enet
oper a
r ot as
ator! deves
orar!
teu pote de ouro
em peso neto
é a ópera
dum sonho r ar o

a diva é amor a solos, aroma é a vida...

ÉASAE
AMORA
SOLOS
AROMA
EASAÉ




35





Bônus Track
(Poemas Inéditos escritos entre 1979 e 1984 não
incluídos na edição de BAGG’AVE de 1984, mas
incluídos na pasta de manuscritos “Bagg’Ave”).
















36
Poema Psicodélico
Luzes Saturadas de Diodo!
Visão epizoótica!
Hoje irei escrever em branco sobre branco,
Usarei somente o branco,
E beberei apenas bebidas brancas...
O Significado secreto das coisas...
Eu vi os expoentes da minha geração
Destruídos pela loucura!
Um monstro múltiplo de um milhão de olhos
Está escondido em todos os seus elefantes
E numa enorme teia de aranha...
O Céu e suas maravilhas e o Inferno;
Depois desse tempo, no lugar em que vi tantos mistérios,
Fui levado por um turbilhão
E carregado para o Ocidente.
Lá meus olhos perceberam os segredos do céu
E os da terra...
Guiado por teu perfume, ó musa, às paragens mais belas,
Vejo um porto numa ilha preguiçosa, molenga e sem dono...
Um dia na vida tocarei na banda do maestro Pimenta!
Isto não é um poema nem um cachimbo,
É uma gargalhada de safira na ilha de Ceilão,
Um salto no vácuo...
Os raios ultravioletas terminaram sua tarefa:
O primeiro poema branco que, por acaso, será vermelho...
Luzes Saturadas de Diodo!
37
Sal à água sob o Sol

Ao travesseiro sonhando
À lua cantarolando
Navegando pelos mares
Em

busca de outros lugares.
O timão sem direção
Astros cintilam-me à vista
Aos lençóis marcas da ilusão
E

eu tenho alma de artista...
Vejo as luzes da cidade
Cingidas em seus cabelos
Em tranças de liberdade
Á política em desvelos.

Entrevejo à escotilha
A Noite em fuga da Luz
E eu teço versos às pilhas
E

meu sangue esvai-se ao sol.
Perdido pelo oceano,
O Sol sobre a cabeça
Traço às águas as espessas
Va

gas do brigue insano.
Nenhum amigo marujo
Restou-me sob o amplo céu,
Da cidade agora fujo
Eu, sal à água sob o Sol,
Sigo singrando, só e revel...
38
Uma Sombra De Letras Pálidas

Entre canções de fandangos
E serpentinas coruscantes pelo chão
Eu sentia uma náusea deslumbrante,
Os pares tracejavam a dança
No salão em névoa de cigarros -
Parecia um cenário de filme noir;
E por isso resolvi tomar outra bebida
Que o garçom me trouxe à bandeja.

E assim depois de tudo,
Enquanto um moleiro narrava casos,
Um rosto de musa pálida e fantasmagórica
Inspirava-me sombras de letras pálidas.

Insinuei-me a uma dança com a musa,
E sua face ficou mais clara à luz,
Mas eu já me sentia um tanto quanto ébrio
E o que me restou na memória
Foi mais um rosto de virgem vestal
Que ao fim da dança, partiu,
Dando-me as costas sem um último olhar,
E a cena fechou-se num close em meu rosto.

E assim depois de tudo,
Enquanto um moleiro narrava casos,
Um rosto de musa pálida e fantasmagórica
Inspirava-me sombras de letras pálidas.
39

Eu queria ser Bob Dylan

Eu queria ser Bob Dylan
Pra compor versos soprando ao vento
E me sentir como uma pedra rolante
Mas pela Br-116, pelo meio do sertão...

Eu queria ser um Rolling Stone
Pra cantar que não tenho mais satisfação
E declarar minha simpatia pelo demo
Mas no meio de uma procissão...

Eu queria ser John Lennon
Pra imaginar países sem fronteiras
Pra ser um beatle rebelde politizado
Mas fincar raízes nas matas brasileiras...

Eu queria ser Joe Cocker
Pra tocar guitarras imaginárias
E cantar velhas canções à margem dos rios
Mas que fosse o Velho Chico o leito de minhas árias...

Por fim, eu queria muito ser eu mesmo,
Jayro Luna, poeta marginal,
Que compõe versos a esmo,
Como se fosse sem cultura, mas com terra natal.

40



The Family Dog

Numa fluxo-festa
De estivadores no salão
-Longshoreman’s hall-
Ouvindo a Sanidade humana
Destruindo a santidade do mundo!
O aeroplano do Jefferson
Cortava o céu em piruetas com fumaça
E São Francisco palestrava entre bichos!













41




Arembepe
A Janis Joplin, Mick Jagger e Novos Baianos

Se vai até lá pela estrada do coco,
Sob Sol por mais de uma légua tirana,
E se chega a vila dos caras loucos
Que lá chegaram e ergueram cabanas...

Já foi só uma vila de pescadores,
Mas com seus lemas de paz e amor,
Tornou-se o recanto dos seguidores
Da filosofia livre da fé à dor!

Fazendo bonecos de durepoxi,
Enredando miçangas com alicate
Em fios de arame de aço inox

O artesão hippie se faz de mascate,
Pra se viver na Bahia ao som de rocks,
Curtindo o coqueiro, o caju e o abacate...



42


A Máquina
Tradução poético-barroca de uma canção concretista
do Belchior

MÁQUINAMÁQUINAMÁQUINAMA
QUINAMÁQUINAMÁQUINAMÁQUI
NAMÁQUINAMÁQUINAMÁQUINA
MÁQUINAMÁQUINAMÁQUINAMA

MÁQUINAMÁQUINAMÁQUINAMA
QUINAMÁQUINAMÁQUINAMÁQUI
NAMÁQUINAMÁQUINAMÁQUINA
MÁQUINAMÁQUINAMÁQUINAMA

QUINAMÁQUINAMÁQUINAMÁQUI
NAMÁQUINAMÁQUINAMÁQUINA
MÁQUINAMÁQUINAMÁQUINAMA

QUINAMÁQUINAMÁQUINAMÁQUI
NAMÁQUINAMÁQUINAMÁQUINA
MÁQUINAMÁQUINAMÁQUINAMA?




43

São Tomé das Letras
8
Parte I: História
A
Foi João Antão, escravo
Fugido, por ser amante
Da irmã de senhor bravo:
Chico Junqueira constante
Na Fé de Nosso Senhor...
B
Que se escondeu numa gruta
No alto da serra ocultada,
Vivendo de raízes, frutas,
De pesca e aves caçadas,
E saudades de seu amor...
C
Foi a João Antão então
Que se deu que apareceu,
A figura de um homem são
Em vestes brancas e deu
Um bilhete e dito ao pobre




8
Parece que o poema foi musicado pelos Lee Bats especialmente para
o show realizado em São Tomé das Letras, em 1983 ou 1984, porém,
não tive acesso às gravações até esta data.
44
D
Que o entregasse a seu senhor,
Que ao lê-lo este o perdoaria,
Com mais fé que medo ou dor
O escravo via ali a alforria
De si e de seu amor nobre...

E
O Capitão Chico Junqueira
Lendo o texto que sabia
Pelo negro sem verdadeira
Da escrita a sabedoria,
Quis conhecer a tal caverna
F
E voltou a gruta João
Com a tropa de soldados
E Chico, o bom capitão,
E assim foi revelado
O que até parece têtra...
G
Pois do lugar que surgira
A visão do homem são
Ali foi achado o que se admira,
A estátua em pedra sabão
De São Tomé, o das Letras...



45
H
O Capitão Chico Junqueira
Tomou posse desta imagem
E à casa grande e brejeira
Levou-a e com a criadagem
Fez orações num altar...
I/J/Y
Porém, já no dia seguinte,
Sem mistério explicável
A estátua, por conseguinte,
Ressurge em modo admirável
Na mesma gruta do lugar...
K
Creu se tratar dum milagre
O Capitão Chico Junqueira
E para que se consagre
A visão como verdadeira
Ergueu aí rústica capela...
L
Passado todo um qüindênio,
Com mui fé o Barão de Alfenas,
Constrói de pedra um proscênio,
A Igreja Matriz, bela e plena,
Em que ficou a estátua bela...




46
M
Dois séculos consumados
E há dez anos da era de aquário,
A estátua do venerado
Apóstolo do santuário
Foi roubada por maldade...
N
O milagre não pode, porém,
Mais ser pelo homem desfeito,
São Tomé das Letras, bem
Que foi dado p’lo Perfeito,
Esotérica cidade!

Parte II: Memória
O
Há aqui a energia telúrica,
O portal de Machu Picchu
À oculta caverna única
Do Carimbado, anti-exu,
A força vital da Eubiose,
P
Descem ÓVNIS na Pirâmide,
E as inscrições rupestres
No Shangri-lá da potâmide
Narram a vida intraterrestre...
Mistérios em overdose!


47
Q
Durante a noite escura,
Ecoa pela mata virgem,
De duende e elfo se murmura
A música da vertigem
Na azul Cachoeira da Lua...
R
Aqui as formações rochosas
Que se espalham pelo sítio
Lembram espectrais monstruosas
De estranhos seres, admite-o
O fiel e ao vulto recua...
S
Quem sabe se são ruínas
D’alguma antiga cidade
Civilização de sina
Já perdida nas idades,
Que os sinais se desconhece...
T
No banho do Véu de Noiva,
Na cachoeira do Paraíso,
Parece que com u’a goiva
E cinzel fez-se o preciso
Talhe das pedras na messe...




48
U/V/W
Um pôr-de-sol admirável
Dum mais vivo rosicler
Ao arrebol mais inefável,
No cimo do belvedere
Se avista a imensidão!
X
Por bancos de quartzito
Em infindáveis linhas
Traça-se um estranho rito
Que nossa era desalinha
E que nos foge à razão...
Z
Seja ante à Pedra Furada,
Seja ante à Pedra da Bruxa,
À do Lavarejo na levada,
À das Gêmeas na ducha,
Aqui renasce o coração!










49

Rock é Rock Mesmo!
9
“The song remains the same” Led Zeppelin
“Aquele som de fuder”. Chacal, Ginga Genipapo.

Blowin’in the wind like a rolling stone,
Jumpin’ jack flash I can’t get satisfaction!
Vê se te orienta, Hey Al Capone!
Babamos Coca-cola com o Décio...

Rod sings: I can’t live without passion!
Sou qual um mutante singin’alone
Mas se eu leio poemas de Propércio,
Saw your picture by the telephone...

Purple Haze was my brain…Let it be!...
Get back! Get back to where you once belonged!
Tommy! Can you hear me? Can you hear me?

It’s been a long time since I rock’n’rolled,
I'm back to my home, back in Memphis, Tennessee,
As tears go by my generation, let it bleed!




9
Musicado pelos Lee Bats, no LP “Rock’n’Roll” (1980), lado
B, faixa 5 (SP, independente).
50


Panamérica Revisitada
A José Agripino de Paula
“Panaméricas de Áfricas Utópicas” Caetano Veloso.

Marilyn Monroe, a reencarnação de Vênus,
Vê dos verdes mares meu barco à deriva,
Entre argonautas jangadeiros e helenos
Caiçaras, busco a tua imagem mais viva,
Oh, Leila Diniz, fragmentos de deusa-atriz...
Di Maggio, numa rápida jogada master,
Reinventa o tempo-espaço e por um triz
Escapamos da ira do fero Burt Lancaster!...
Porém, vou refilmando a épica da Bíblia,
Transformando em deuses de quando em quando,
Os mitos do cinema e quanto à fé, que eu drible-a
Ou engane-a com um ar dum mal Marlon Brando!...
E assim esta treslouca epopéia psicodélica,
Estampa-se qual um Guevara de força bélica!








51

JESUS CHRIST SUPERSTAR
A Tim Rice e Andrew Lloyd Webber

*ist*
r*st*
ri*t*
ris**
jesuschristsuperstar
***us***i***up******
jesuschristsuperstar
r*st*
ris**
**sts
*ist*
*i*ts
r**ts
*is*s
ris**
***t*
listaROSTOristeRISCO
RESTOriscoPOSTS(CRIPTUM)
lista(S)AINTSrootsISISriscoSANTO


52
O Mistério dos Nomes Sagrados

Lobos da estepe na Montanha
E dentes fantasmagóricos
Na missa negra...

Enrolado num cactus a cobra branca
Espera sua tímida torta de creme:
Pássaros do pátio...

Alço vôo num zepelim de chumbo
Entre névoa de púrpura escura
E quem me vê?

Minha crença na recuperação das claras águas
Minha fé cega no arco-íris da má religião
Das portas da percepção...

Nada vale a poesia dum fino vagabundo
Na grande estrada do medo à alegria
Das armas às rosas...







53


Kaos Axé-Odara
Pro Mautner
E também para Nietzsche, Caymmi, Rimbaud, Sartre,
Wilson Batista, Thomas Mann, Sinhô, Camus, Danton, Vanzolini,
Lennon, Gil, Berdiaeff e Jorge (o do bem)!

A alegria anseia a doçura do mundo,
A eternidade foi reencontrada,
Hein? O quê? A Eternidade tá no Gantois!
Ela é o Sol além das flores,
Mangueira que a natureza criou,
Misturado ao mar teu cenário é uma beleza!
Uma paixão inútil: nada mais vai no caixão!...
O homem é Deus? É melhor morrer crucificado!
Não se deve amar e não ser amado,
Sem ser amado está em quem ama...
Eu quero a lua, aqui-agora!
A nega recebeu audácia e mais audácia!
Nero é a medida do homem!...
Queria botar fogo no morro!
Nós fazemos!
Levanta, sacode a poeira...
O que nós podemos
É dar a volta por cima!...


54
O Vagabundo Reconsiderado
(Reinvenção de um poema de Álvares de Azevedo)
A Luiz Pezão
“Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro” Bocage.

1.
Eu sou um cigano
Fumando cigarro de ervas de xamã
Numa noite de verão
Caio na farra até desmaiar...
2.
Ando em trapos, calça jeans, camisa de flanela
Sem um puto nos bolsos,
Uivos dou à Lua durante a madrugada
E viver de amor é foda!
3.
Não tenho inveja
Mas uma grande raiva do sistema social no coração!
Nas noites de sábado gosto de ir aos bailes de rock
No Led Slay ou no Fofinho’s.
4.
Namoro na base do amor livre,
Gosto de transar nos parques,
Tem uma mina que já se viciou
Em meus torpes carinhos.
5.
Tem já uma semana
Que ando precisado de amor,
55
Uma estudante do colégio
Tá afim de trepar comigo cabulando aula...
6.
Moro debaixo dum viaduto,
Mas já morei num barraco na favela,
Bebo declamando apócrifos versos de Lord Byron
E a cachaça me deixa com um bafo dos diabos!
7.
Às vezes, durmo na Igreja,
E meu cabelo se parece com o de Cristo,
Sou preguiçoso para o trampo,
Mas já li muito livro de poesia marginal.
8.
Peguei um gosto pela pixação
E nos muros escrevo poemas curtos
E palavra de ordem em tirada irônicas!...
Dizem que sou maluco, lóki!
9.
Sou um vagabundo, giramundo, sem rumo no mundo,
Mas vou fundo nas sensações...
Sou amigo dos diabos e dos santos
Mas não sei rezar, só improviso cantos...
10.
Se por aí, alguma mina
Tiver a fim de um romance moderno
Mas na base da vida alternativa
Me encontre vendendo artesanato na feira hippie da
[Praça da República!
56


Playwriting
A Luís Carlos Maciel

amor
teor b
gf e
aniz le c
do to k
av rin r es l d
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c u o rollrota ue
o g d mingr od
nego ae y rn
s g cio lainguru
ciência da
c o n t r a c u l t
u r a







57



Lesado

Leary, Sartre & Dylan
Luz, Som & Discos
Leve, Suave & Desaire
Loucura, Sacro & Dissonante

Led, Sabbath & Deep Purple
Love, Sin & Desire
Leila “Star” Diniz
Loa à São Domingos

Lírica de Safo à Deusa Vênus
Leite Semi-Desnatado
Liberté, Suffrage & Décadence

Liebe, Säure & Dada
Ligero, Satinado & Dañino
Lendo um Sonetilho ao Diabo




58



Papo Cabeça
Para Odair Cabeça de Poeta e Paulinho Boca de
Cantor
“Será que a cabeça explode ou não?” Walter Franco
“Não esquenta a cabeça, senão caspa vira mandiopã”.
M.Rubens Paiva, Feliz Ano Velho.



P A P O C A B E
Ç A P A P O C A
B E Ç A P A P O
C A B E Ç A P A
P O C A B E Ç A
P I P O C ‘À B E
Ç A P A Ç O C A
P O C A B E Ç A
P I P O C ‘À B E
Ç A P A Ç O C A
P O C A B E Ç A
P A P O C A B E
Ç A P A P O C A



59
Fast-Food (Larica)

Hot∗Dog
a C
m o
b c
u a
r ∗ Sorvete
g c Chiclet e
e o Sorvete
r l Chicle t e
Guaraná Sorvete
Chicl e t e
Sorvete P P
Chic l e t e pizza i
z z
z pizza
Batata-frita
Maioneszez z
MaiOnespizzaz z
MaioneSe i i i
h KETCHUP P P P
i A a a a
f R s s s
s D t t t
E A elelel…


60

Bhagavad-Gita

yoga
lodo-lótus
arjuna-nirvana
kharma-khrishna
maya-maha-mantra
visvasvan às vidas vãs
nadis-sushuma-nadis
atma-vritti-chitta-vritti
aum-aum-aum-avikta-um
brama-mahavishnu-brahma
há o um em muitos e muitos em um
vedas vedes de onde veio a criação?
o uno a tudo transforma ummm...
livre do eu livre do meu livro
sem princípio e sem começo
bondade atividade inércia
árvore da ciência secreta
luxúria ira avarezaum...
ingenuidade, bondade, paixão aum
samnyasa-tyaga
bhagavata-purana
folha-flor

61
Biiiiiin
14/12/1979
17:00
aPi
aQd
Rum! Min! Smack!
Nessa Kubrick não pensou,
Que tamanha fantasia:
O meu comportamento era uma farsa,
Li na Enciclopédia Barsa!
Minha mãe mandou-me
Falar com um psiquiatra!...

Comprei um Bamba novo
Agora vou fugir da Bomba H!

Hey Cassy (Jones), Nana (Vasconcelos)
& Ana (Miranda)!
Hey (João) Gordo, Veroca (Fischer) & Laurinha!
Olá Tucum, (Kate) Richard & Rubão (Paiva)!
Viva Bino, Virgínia (Woolf) & Maurão!
Salve Biguinha, Quitinha & Li!
Hey você, Gureti & Cris (Marques)!
Paralisia vai-se embora, ô ô
Minhas pernas vêm chegando, ê ê
dRh
ePf

62
Cântico da Solidariedade
A Aldous Huxley e George Orwell
“Ferve, Luxúria, Ferve!” Admirável Mundo Novo.
“Fry, lechery, fry!” Shakespeare, Troilo e Cressida.

Somos 12, ó Ford, em tuas mãos reunidos
Como as gotas a cair no Rio Social,
Ah! Faz com que corramos destemidos
Como teu Calhambeque sem rival!

Vem, Amigo Social, ó Ser Supremo,
Ó Destruidor dos 12 em UM, gigante!
Queremos morrer, a morte queremos,
Nesta vida é o mais sublime instante!

Senti! Vem a Vós o Grã ser dos dias!
Orgião-espadão, Ford, alegria a rodo!
Fundi-vos ao cantar das melodias!

Alegrai à sorte ideal que ele vos deu!
Com beijos unir-se às moças num Todo!
Porque enfim eu sou vós e vós sois eu!






63
Revolution 9 (para um sonho em 9ª
sustenida)
[Pequena ópera-rock bufo-concreta para palco de
arena]

Elenco de Personagens:
Orlando Tacapu: retirado do livro do Chacal, Preço da
Passagem, 1972.
Touchê: nome artístico de Antônio Carlos Lucena, poeta
marginal do Bexiga (SP, 26/11/56 - 12/12/85 ) .
Torquato [Neto]: poeta tropicalista (1944-1972)
J.J.Gallahade: personagem de romance ainda em
construção, quase heterônimo poético.
Alvin Bates: personagem - lead guitar - da banda fictícia
The Big Boys... Um dia escrevo e componho essa obra...
Zé Ninguém: vide Wilhelm Reich!...
Bib Pepper: personagem da banda fictícia The Big Boys...
este seria o baterista, ou o baixista?...
Albano: o conheci brevemente no início do curso de
graduação da PUC-SP, poeta, tinha sérios problemas do
coração e sabia estar a morte próxima.
Al Duluoz: pseudônimo de Alexandre Morales, amigo da
graduação na PUC-SP, publicou coletânea de poemas de
Albano.
Dulcinéia: musa idealizada.
Jayro Luna: Amigo, leitor crítico...

Trilha Sonora:
64
[por ordem de entrada da canção]:
1. Eu quero é botar meu Bloco na Rua - Sérgio Sampaio
2. Linguagem do Alunte - Novos Baianos
3. Acrilírico - Caetano Veloso
4. Vão da Boca - Walter franco
5. De Conversa - Caetano Veloso
6. The Mude Shake - Frank Zappa
7. Toc - Tom Zé
8. And The Gods Made Love - Jimi Hendrix
9. Ao Poeta - Novos Baianos
10.Moby Dick - Led Zeppelin
11.Whole Lotta Love - Led Zeppelin
12.Revolution 9 - The Beatles
13.2000 Light Years From Home - Rolling Stones
14.At The Mountains of Madness - H.P.Lovecraft
15.Several Species Small Furry Animals Gathered Together
in Cave and Grooving with a Pict - Pink Floyd
16. The Bag I’m In - H. P. Lovecraft
17. Reis da Bola - Novos Baianos.

Ato Único de cenas fragmentadas:
Cenário: o próprio palco.
[ Vários aparelhos de gravação - antigos e modernos -
alguns instrumentos musicais (pelo chão guitarras, contra-
baixo, bateria, piano, violoncelo, acordeão, trombone...Um
estandarte da Nenê de Vila Matilde, um pôster dos Beatles,
outro de John Lennon e Yoko Ono nus, uma fotografia
grande de Cristo, tudo colado num mural. J.J. Gallahade
65
dentro duma cabine de controle de estúdio, com grandes
vidros para permitir que o público o veja. Uma televisão
ligada, ao centro do palco, com som baixo mas mostrando
uma seqüência fragmentada de imagens e programas
conhecidos, uma poltrona]
***
(os personagens ocupam espaços e/ou posições diversas no
palco sucessivamente, sem no entanto, assumir um ritmo
catatônico: o piano, a guitarra, a poltrona, etc... são pontos
de referência para a troca de posições entre os personagens,
apenas J.J. Gallahade, o operador anômino, mantém-se
incólume na cabine de som - abre-se a cena tocando a
música “Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua” de Sérgio
Sampaio ):
Orlando Tacapau: “..te comprava um pequeno clarinete
para você
se eu soubesse’
Touchê: "Bem, faça isso na próxima vez"
Torquato: "Eu havia me esquecido completamente
Orlando, lamento, você me perdoa?"
Touchê: "Sim", "Filho da puta"

(Música de Fundo “Linguagem do Alunte” - Novos Baianos, 1974):
J.J.Gallahade (operador anônimo):
Número 9 de novenas de Pirapora do Bom Jesus...
Número 9 de 9 portões para o Nirvana...
Número 9 de 9 planetas do Sistema solar, mas todo místico
sabe que tem pelo menos 10!
66
Número 9 de 9 letras do autor desse texto!
Número 9 de 9 horas quando se está fazendo hora!
Número 9 de 9 por 9 que é o Selo da Lua!
Número 9 de 9 de Julho, dia da Revolução
Constitucionalista dos Paulistas!
Número 9 de 9 de Julho, que também é o dia da
Independência da Argentina!
Número 9 de 9 de Novembro, dia em que João de Deus e
Luiz Gonzaga da Conjuração Baiana foram derrotados!
Número 9 de 9 de Novembro que é o dia 18 Brumário da
Revolução Francesa!
Número 9 de 9 de Novembro, dia em que Mary Jane Kelly
foi a 5.ª vítima de Jack o Estripador!
Número 9 de 9 de Novembro, dia em que caiu o muro de
Berlim!
Número 9 de 9 de Novembro, dia em que morreu
Guillaume Apollinaire!
Número 9 são os círculos infernais de Dante Alighieri!
Número 9 é um tríplice triângulo!
Número 9 são as musas dos gregos!
Número 9 de salmo 9, versículo 9, domínio de Mebahel!
Número...

(Música de fundo: Acrilírico de Caetano Veloso - nos momentos de
silêncio na fala de Zé Ninguém o som sobe de volume)
Zé Ninguém:
... então tem essa peça rara, iroquês,
67
vestindo uma cueca marrom...
...sobre a escassez de semi di zucca em bufoneria
brasiliensis...
Cada um deles sabia
que conforme o tempo passa,
eles ficariam um pouco
mais velhos e mais lentos,
mas... É tudo a mesma coisa,
no caso, o Concretismo...
por alguém que sempre que...

(Música de fundo: “Vão da Boca” - Walter Franco - Ou Não -
após 30s do início da música fala Alvin Bates):
Alvin Bates:
Várias vezes vi seu pai
Cantando um velho rock’n’roll!
O distrito tão decadente...
Destinado a morrer
com fero ódio Otomano...
Foi há tempos já passou...
Pois tenho que te dizer,
estou irritado e ...
Solos, pacas de difíceis,
(o) bastante de se pisar...
Todo dia há um novo médico
No nosso distrito. Não
Há nem mesmo luz bastante
pra começar e ao final
68
das contas, já agachado
De repente...

Eles podem não parar de
financiar... Aqui coloque
O seu voto. O original...
Eu temo que a musa morra,
Grandes cores da estação....

J.J. Gallahade (Operador anônimo):
Número 9 Número 9...
Alvin Bates:
Quem é que sabe?
Quem ia saber?
Quem é que sabe o que tudo isto quer dizer?

(Música de Fundo: “De Conversa” - Caetano Veloso - Araçá
Azul):
J.J. Gallahade (Operador anônimo):
Número 9 de Novelas da Globo!
Número 9 de Novelas de cavalaria!
Número 9 de Novgorod!
Número 9 de Novenlobado por ter 9 lóbulos!
Número 9 de Novilúnio!
Número 9 de Novênio!
Número 9 de Novembergruppe!
Número 9 de Novembrada!
Número 9 de Noviche Jeje...
69
Número 9 de noves fora, nada!
Número 9 de novenário...
Número 9 de Novidade!...

(Música de Fundo: “The Mud Shake” - Frank Zappa/Mothers of
Invention - Filmore East, 1971):
Alvin Bates:
Não suporto nada pior
do que isso, por exemplo,
Qualquer coisa que esteja
fazendo... U’a negociata
se realiza…Eu o informei
na terceira noite quando
a fortuna se concede....
(Música de Fundo: “Toc” - Tom Zé - Estudando o Samba,
1975):
Jayro Luna:
Pessoal certo?
pessoal certo!
Certo?
Certo...
Certo!
certo, certo...

(Música de Fundo: “Ao Poeta” - Novos Baianos, 1974):
J.J. Gallahade (Operador anônimo):
Número 9, soma do Uno com as 8 caminhos do Yoga!
70
Número 9, soma do duplo ambíguo com os 7 pecados
capitais!
Número 9, soma da trindade com as 6 faces do cubo!
Número 9, soma dos quatro elementos com os 5 sentidos...

Jayro Luna:
Ceeeeeeeeeeerto!
Ceeeeeeeeeeerto!

J.J.Gallahade (Operador anônimo):
Número 9, pois 9 são os apóstolos que sobram se não
contarmos Judas que o traiu, Pedro que o negou e Tomé
que não acreditou até ver...
Número 9, pois 9 são os ramos da Árvore da Vida se não
contamos o “Reino”...
Número 9, pois 9 são os números se não contamos o
zero!...
Número 9, pois 9 são as estrelas das Plêiades, as sete irmãs,
mais Atlas e Pleione...

(Música de Fundo: “And The Gods Made Love” - Jimi Hendrix -
Eletric Ladyland):
Alvin Bates:
Eu senti falta daquilo
Tudo. Me atrasa alguns
dias se fico sem’amor, Uau!
E coisas doidas como isso...

71
(Música de Fundo: “Moby Dick” - Led Zeppelin):
Bib Pepper:
Defendendo nosso lado:
Alguma vez, casca-flórida,
Os Críticos Dissolutos
estudaram esta espécime?
Eu tenho todo os atalhos
Pra ir de lugar algum
a casa de Zé Ninguém, aha!...

(“Whole Lotta Love”, Led Zeppelin - Gallahade entra na parte dos
efeitos sonoros e de percussão da canção):
J.J.Gallahade (Operador anônimo):
Número 9 Número....

Albano e Al Duluoz:
Com a situação...

Jayro Luna:
Estão parados de pé...

Albano e Al Duluoz:
O plano, o telegrama...

Jayro Luna:
Ooh, ooh!...

J.J. Gallahade (Operador anônimo):
72
Number 9, number...

Jayro Luna:
Um homem sem terror, de barba à falsidade
Como o diretor relatou para o meu filho...
Ele realmente pode tentar, como fazem
Para encontrar uma função...Diga-me o que

Ele dizia... sua voz baixa e suas brotoejas
Altas e os olhos baixos...Está tudo certo!
Estava pegando fogo! E, vê, seus óculos
Estavam do mesmo jeito. Essa é a coisa...

Sabe, se a obra é adulterada... Mas você
Sabe que não está... Pra mim está...Pois é...
E essa coisa louca do eco que tanto soa,

“Número Nove, Número Nove...” Mistério...
A poesia está nas coisas, está na rua,
Lá fora ou aqui dentro, na lata de lixo...

(Música de Fundo: “Revolution 9” - The Beatles - Álbum Branco
- sincronizar fala de Gallahade com a música):
J.J.Gallahade (Operador anônimo):
Número 9... Number Nine!...
Número 9... Numéro Neuf!...
Número 9... Nummer Neun!...
Número 9... Numero Nove!...
73
Número 9... Número Nueve!...
Número 9... Numeralis Novem!...
Número 9... αριθμός εννέα
Número 9... сосчитать девять
Número 9... Kazoeru Kyu
Número 9... Kalkulá Nuebe
Número 9... Husnummer Ni
Número 9... Nombro Nau

(Música de Fundo: “2000 Light Years From Home” - Rolling
Stones - Satanic Majesties Request):
Jayro Luna:
Então sua mulher me chamou:
“E é melhor irmos ver um
Cirurgião! Ou qualquer coisa
Que o valha...” -Roupas íntimas

Verde-Amarelas... Então
De alguma estrada partimos,
Ao invés, pra ver um dentista
Que deu a ela um par de dentes

que não prestava nem um
pouco...Pois então eu disse
Que a beijava... Me alistei

À porra dessa Marinha
74
e fui ao mar....fui ao mar...
e fui ao mar... fui ao mar...

(Jayro Luna olhando o horizonte rosicler):
Minha cadeira quebrada
Minhas asas já quebradas
e o meu cabelo também
Não tenho disposição
sequer para vomitar.

(Música de Fundo: “At The Mountains of Madness” - H.P.
Lovecraft - recorded live may 11,1968):
Alvin Bates:
Como?
Cães para agirem como cães,
Mãos para aplaudir
Pássaros para voarem como pássaros,
peixe para pescar...
Eles são o que são
E quando por instinto...
... apenas para encontrar o vigia noturno
sem noção de sua presença no prédio.

J.J. Gallahade (Operador anônimo):
Número 9...9 segundos não é nada pra se viver!
Número 9...9 minutos não é nada pra se amar!
Número 9...9 horas não é nada pra viajar!
Número 9...9 dias não é nada pra estudar!
75
Número 9...9 semanas não é nada pra se conhecer!
Número 9...9 meses é o tempo que se tem pra nascer!

Jayro Luna:
A Indústria causa desequilíbrio
Financeiro, empurrando-o entre as lâminas
[dos] ombros...Watusi! Carnavalização?!...

Albano e Al Duluoz:
Oliver Twist é Pedro Bala, e vice-cersa?...
Eldorado! Sete Cidades!

Jayro Luna (oferecendo uma garrafa de rum a Al Duluoz):
Tome isto irmão e que lhe sirva bem...

(Música de Fundo: “Several Species Small Furry Animals Gathered
Together in Cave and Grooving with a Pict” - Pin k Floyd -
Ummaguma, Studio Álbum - Dulcinéna fala após 1 minuto do
início da música):

Dulcinéia (que surge dançando como uma Salomé):
Talvez não seja nada,
Talvez isto seja tudo!
Taí a vez de ser currada!
Taí a vez de se chegar ao fundo!
Jayro Luna:
O que? O que? Oh...

76
Dulcinéia:
Talvez, quem sabe então, O império em Londres...
O Império em Londres é uma quimera...
O Império em Londres é como uma madrasta megera!...
O Império em Londres já era!...

Jayro Luna:
A garota propaganda…

Dulcinéia:
Pode ser uma coisa difícil...
E rápido como a busca pela paz,
Porque é tão parecido como estar nu...

(Música de Fundo: “The Bag I’m In” - H. P. Lovecraft, recorded
live, may 11, 1968):
Jayro Luna:
Está tudo certo, tudo certo,
Como dois e dois são cinco...
Como dois e dois são cinco...
Como três e três são sete...
Como três e três são sete...
Como quatro e quatro são nove...
Como quatro e quatro são nove...

Dulcinéia:
Se, você ficasse nu...

77
(Música de Fundo: “Reis da Bola” - Novos Baianos, 1974 - Na
televisão surgem cenas do programa Canal 100 com um gol
no Maracanã):
Multidão dum Fla-Flu no Maracanã:
(os atores todos cantando e dançando e tirando as roupas
até ficarem nus ou quase):
Gooooooooooooooooool!

***FIM***





78