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LINGUAGEM COMO INSTRUMENTO DE OPRESSÃO NO ROMANCE VIDAS SECAS

Mônica Ransolin ROSA (UNIOESTE)


Prof. Msd. José Carlos da COSTA (UNIOESTE)

RESUMO: Graciliano Ramos narra, em Vidas Secas, a história de uma família de retirantes
impelida pela seca. A saga dessa família é marcada por dificuldades que se estendem desde a seca, a
fome, a falta de moradia até a opressão do patrão e de autoridades. No entanto, mais do que esses
elementos todos, é a linguagem a grande arma opressora sobre Fabiano e sua família. Abordaremos
neste artigo, como a linguagem é instrumento de tal opressão e de que maneiras a
incomunicabilidade da família – entre si e com as demais personagens - passa a ser caráter
definitivo na condição oprimida das personagens principais. Como âncora para este estudo, traremos
uma breve reflexão sobre o poder e capacidade de influência que a linguagem confere àqueles que a
detêm, e como isso se manifesta na sociedade de Vidas Secas.

PALAVRAS-CHAVE: comunicação, repressão social, Graciliano Ramos, romance de 30.

INTRODUÇÃO

O romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, publicado primeiramente em 1938 – e que


já conta com mais de 50 edições e mais de 15 traduções – narra a história de uma família nordestina
de retirantes que tenta sobreviver à seca, buscando um lugar que lhe ofereça os meios necessários
para viver e melhorar suas condições de vida.
A família é liderada por Fabiano, um vaqueiro bruto, simples, humilde e trabalhador;
Sinhá Vitória, esposa resignada e fiel, cujo maior desejo era “uma cama real, de couro e sucupira,
igual à de seu Tomás da bolandeira” (RAMOS, 1986, p. 46), o Menino mais novo e o Menino mais
velho, crianças, que por não terem nome representam o anonimato social; e a cachorra Baleia,
personagem que permite a maior sondagem psicológica por parte do autor, conforme veremos.
O romance tem início com este grupo de retirantes já em meio a uma viajem de fuga da
seca, que havia chegado onde moravam, e em busca de um lugar melhor onde pudessem se
estabelecer – por isso o título da primeira parte do livro é “Mudança”.
Durante um longo percurso, que parece interminável, passam por dificuldades diversas,
desde a sede e a falta de um lugar para descasarem até a fome extrema, que os leva a sacrificar o
papagaio de estimação da família, para poderem sobreviver.
Após andarem muito debaixo do sol escaldante do nordeste, a família encontra uma casa
que parecia abandonada. Fabiano e sua família entram nessa casa, mas logo aparece o dono, para
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quem Fabiano passa a trabalhar, sendo vítima, agora, além da seca, da exploração do patrão, dono
das terras, que o engana e rouba no pagamento.
Na fazenda, após algum tempo cuidando do rebanho do proprietário, a família, desiludida
e aterrorizada com o aparecimento de arribações, que para eles anunciavam a seca novamente, deixa
a fazenda numa manhã bem cedo e segue para o sul em busca de terras melhores. Sua grande
expectativa era poder acomodar-se num sítio e cultivar um pedaço de terra e quem sabe até se
mudarem para uma cidade onde os meninos pudessem frequentar escolas e aprender, segundo Sinhá
Vitória, coisas difíceis e necessárias.
A narrativa é construída em quadros, em que cada um é uma peça autônoma (LINS,
1986)1, vivendo por si mesma, tendo sua unidade garantida na parte do assunto.
Assim, o romance termina exatamente como começou, com a família de Fabiano em
retirada, fugindo da seca, em busca de um lugar com melhores condições de vida.
Abordaremos neste trabalho uma adversidade não anunciada explicitamente, mas talvez a
grande responsável pela condição resignada da família frente à seca e à repressão: a limitada
habilidade de uso da linguagem.

A CONSTRUÇÃO DAS PERSONAGENS

A visão desiludida e pessimista da vida e do homem salta aos olhos em Vidas Secas.
Numa primeira leitura, poder-se-ia afirmar que a cachorra baleia é a única personagem humanizada
da história, ao passo que as demais personagens são quase animalizadas.
Essa afirmação ancora-se no esmero do narrador que, ao dar vida à cachorra, o faz com
tamanha riqueza de detalhes, que das personagens, a mais cautelosamente caracterizada e com mais
consciência de todos acaba destacando-se; baleia.
É possível apontar características humanas na cachorra, como ocorre no excerto: “Baleia
agitava o rabo, olhando as brasas. E como não podia ocupar-se daquelas coisas, esperava com
paciência a hora de mastigar os ossos. Depois Iria dormir.” (RAMOS, 1986, p.16). Além da atitude
de espera com paciência, é notável o efeito produzido pelo discurso indireto livre nesse trecho, que
dá luz aos pensamentos da cachorra premeditando a ação que seguiria a refeição: dormir.

Há ainda, em outros momentos da narrativa, a impressão de que a cachorra pensa, de que


possui consciência: “[...] quis latir, expressar oposição a tudo aquilo, mas percebeu que não

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LINS, Álvaro. Valores e Misérias das Vidas Secas. In Ramos, Graciliano. Vidas Secas. 56ª ed. Rio, São
Paulo, Record, 1986. (No final)
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convenceria ninguém e encolheu-se, baixou a cauda, resignou-se ao capricho dos donos” (RAMOS,
1986, p.83).
Uma análise mais parcimoniosa, no entanto, não seria precipitada se afirmasse que não há
inversão de papéis no Romance de Graciliano Ramos. O que ocorre é que os membros da família de
Fabiano são tão miseráveis e desprovidos de qualquer chance de ascender socialmente, que se
aproximam à condição do animal, cuja existência não ultrapassa o sobreviver.
Assim, em muitos momentos se confundem na narrativa, animal e humanos: “Ela era como
uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer, não se diferenciavam, rebolavam
na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo [...]” (RAMOS, 1986, p.87).
Podemos traçar um paralelo dessa perspectiva ácida e negativa de Graciliano com a visão
de Machado de Assis, expressa por Joel Pontes:

É todo um mundo de infelicidades a desfilar dentro da mira de um autor que se recusa a qualquer sensacionalismo,
pedido de piedade, enfatização ou polêmica. Mundo como o de Machado de Assis: “a onça mata o novilho porque o
raciocínio da onça é que ela deve viver e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal” (PONTES, 1978, p.
315).

Além do pessimismo, outro aspecto relevante, que tempera a narrativa e permite ao leitor
de Vidas secas uma consciência mais ampla do interior dos personagens, é o narrador em terceira
pessoa onisciente. No excerto a seguir, do primeiro capítulo do romance, algo essencial nos chama a
atenção:

Resolvera (Sinhá Vitória), de supetão, aproveitá-lo (o papagaio) como alimento e justificara-se declarando a si mesma
que ele era muito inútil. Não podia deixar de ser mudo. Ordinariamente a família falava pouco. E depois daquele
desastre viviam todos calados, raramente soltavam palavras curtas. O louro aboiava, tangendo um gado inexistente, e
latia arremedando a cachorra (RAMOS, 1986, p.11).

Aqui, Graciliano deixa que os personagens se apresentem ao leitor, permitindo que este
escute seus pensamentos mais íntimos, que justificam ações e revelam a personalidade que molda
cada um. O autor mostra, assim, como será desenvolvido o perfil psicológico dos personagens, bem
como a sua própria forma de narrar.

O ESTILO DA NARRAÇÃO E A INCOMUNICABILIDADE NA FAMÍLIA

Voltado para a vida interior, o escritor traz grande quantidade de introspecção em


personagens primários e rústicos (LINS, Álvaro, 1986). Dessa forma, evita redundâncias e
incoerências próprias da conversa e constrói a narrativa com pensamentos e frases soltas,
focalizando os personagens em momentos de crise.
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Diálogos reduzidos ao essencial, frequentemente a perguntas e respostas, e sintetizados em


forma de narração – estando quase toda a narrativa construída em monólogos interiores – deixam
subentendidos significados muito fortes, de cunho crítico, como a realidade dos oprimidos, que não
têm voz dentro de uma sociedade que os exclui.
O protagonista, o vaqueiro Fabiano, possui tamanha dificuldade em manipular as palavras,
que acaba por se comunicar por meio de grunhidos e gestos: “Fabiano, que não esperava semelhante
desatino, apenas grunhira: ‘- Hum! Hum!’ [...] O único vivente que o compreendia era a mulher.
Nem precisava falar, bastavam os gestos” (RAMOS, 1986, p. 40, 97).
Essa limitação em manipular as palavras é observada não só em Fabiano, mas também nos
demais membros da família: “Como não sabia falar direito, o menino balbuciava expressões
complicadas, repetia as sílabas, imitava os berros dos animais, o barulho do vento, o som dos galhos
que rangiam na catinga, roçando-se” (RAMOS, 1986, p. 59).
Esse reflexo da deficiência de comunicação do pai nas expressões dos filhos aponta a
perpetuação da condição de oprimidos e explorados, conforme aprofundaremos mais a frente.
Ao dar voz a um narrador onisciente, e valendo-se do discurso indireto livre, Graciliano
Ramos expõe ao leitor os pensamentos mais profundos das personagens, lançando luz aos
sentimentos e dilemas que acometem a família, e à sua origem.
No excerto que segue, observamos o conflito pessoal de Fabiano, ao se contemplar
deslocado da vida em sociedade e impotente frente aos próprios problemas, uma vez que, tendo um
vocabulário bastante restrito, não se comunica e não consegue sequer elaborar sua defesa: “Sinhá
Terta é que se explicava como gente de rua. Muito bom uma criatura ser assim, ter recurso para se
defender. Ele não tinha. Se tivesse, não viveria naquele estado” (RAMOS. 1986, p. 98).
Observamos aqui, mas também em muitos outros momentos da narrativa, a chave que
revela o meio repressor sobre a família. Antes da seca, antes da pobreza, antes da miséria do sertão
onde vivem, a linguagem é que se configura como a grande vilã, tocando fundo a essência do que
nos faz humanos: a capacidade de comunicação.
Como ser social, o homem estabelece relações com outros indivíduos, e garante, assim, a
possibilidade de expressar pensamentos e sentimentos. Para tanto, vale-se de um poderoso
instrumento, a linguagem. Dessa interação, tem origem a proficuidade de uma vida social e cultural,
conforme expressa Maria Luceli Faria:
O homem usa a língua por que vive em comunidades, nas quais tem necessidade de comunicar-se com seus
semelhantes, de estabelecer com eles relações dos mais variados tipos, de obter deles reações ou comportamentos, de
atuar sobre eles das mais diversas maneiras, enfim, de interagir socialmente por meio do seu discurso (BATISTOTE.
2005, p.123).
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Tal característica, contudo, é deficiente na família de Fabiano, de modo que suas relações
sociais ficam prejudicadas, tornando-se quase inexistentes, conforme salienta o próprio narrador ao
falar de Fabiano: “Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais” (RAMOS, 1986, p.19).
O mesmo abismo linguístico que separa Fabiano dos patrões, o separa dos filhos e da
esposa: “[...] (os meninos) chegavam-se à trempe e ouviam a conversa dos pais. Não era
propriamente uma conversa: eram frases soltas, espaçadas, com repetições e incongruências, às
vezes uma interjeição gutural dava energia ao discurso ambíguo” (RAMOS, 1986, p.63).
Nesse sentido, é possível explorar a voz do menino mais velho como instigador da
vantagem do exercício da linguagem naqueles que a dominam:
Fabiano tornou a esfregar as mãos e iniciou uma história bastante confusa, mas como só estavam iluminadas as
alpercatas dele, o gesto passou despercebido. O menino mais velho abriu os ouvidos, atento. Se pudesse ver o rosto do
pai poderia compreender talvez uma parte da narração, mas assim no escuro a dificuldade era grande. [...] Fabiano
contava façanhas. Começara moderadamente, mas excitara-se pouco a pouco e agora via os acontecimentos com
exagero e otimismo, estava convencido de que praticara feitos notáveis (RAMOS. 1986, p. 64, 66).

Esse trecho expõe as “lorotas” contadas por Fabiano aos filhos, ao narrar uma briga da
qual saíra vencedor. Tendo dificuldades em se expressar, e, ao mesmo tempo, pretendendo dar
maior sentido ao que narra, o pai acaba por trair-se nas palavras. O filho percebe a falha e se
decepciona.
O menino mais velho estava descontente. Não podendo perceber as feições do pai, cerrava os olhos para entendê-lo
bem. Mas surgira uma dúvida. Fabiano modificava a história e isto reduzia-lhe a verossimilhança. Um desencanto.
Estirou-se e bocejou. Teria sido melhor a repetição das palavras. Altercaria com o irmão procurando interpretá-las.
Brigaria por causa das palavras – e a sua convicção encorparia. Fabiano devia tê-las repetido. Não. Aparecera uma
variante, o herói tinha-se tornado humano e contraditório [...] (RAMOS, 1986, p. 68).

É notável o raciocínio do menino, que tanto percebe a falha no discurso do pai, quanto o
poder das palavras e o seu próprio possível poder se as dominasse.
Livre das amarras do mundo adulto, e com a curiosidade natural das crianças, o filho
mais velho interroga avidamente os pais na busca dos significados das palavras. Numa ocasião,
quando ouvira de Sinhá Terta a palavra “inferno”, busca com curiosidade a ajuda da mãe para
desvendar o mistério.
Sem sucesso com a mãe, recorre ao pai, que também não lhe dá resposta. Não
satisfeito, volta à cozinha e insiste: “‘- como é?’ Sinhá Vitória falou com espetos quentes e
fogueiras. ‘– A senhora viu?’ Aí, Sinhá Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe um
cocorote” (RAMOS, 1986, p.54).
Em contraste com a atitude do filho, repleto de curiosidades e sedento de respostas, a
mãe, indiferente quanto às ansiedades do filho, não se sente confortável quando é questionada. Não
tendo palavras sequer para reprimi-lo pelo atrevimento da pergunta, agride-o fisicamente.
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Graciliano permite novamente que mergulhemos nos pensamentos do menino para


entender com quanta dificuldade ele assimilava aquelas respostas, ou a falta delas:
[...] Tentara convencê-lo dando-lhe um cocorote, e isto lhe parecia absurdo. Achava as pancadas naturais quando as
pessoas grandes se zangavam, pensava até que a zanga delas era a causa única dos cascudos e puxavantes de orelhas.
Esta convicção tornara-o desconfiado, fazia-o observar os pais antes de se dirigir a eles. (RAMOS, 1986, p.60).

Com dificuldades em conversar com os pais, o menino procura agora Baleia: “[...]
Animara-se a interrogar Sinhá Vitoria porque ela estava bem-disposta. Explicou isto à cachorrinha
com abundância de gritos e gestos” (RAMOS, 1986, p.60). Dessa forma, a comunicação entre a
família, outrora já escassa, tende a reduzir-se cada vez mais.
Ao negar o conhecimento aos filhos, ao extirpar sua curiosidade de criança na raiz, os pais
perpetuam o ciclo de exploração e ignorância que tanto o oprimem. Apesar de o desejo da criança
de que as palavras virem coisas revelar, como já comentado, uma consciência da importância do
conhecimento lingüístico, a violência com a qual se depara cada vez que indaga o sentido delas
tende a refreá-lo de fazer novas perguntas.
Assim, o destino traçado pelos pais, quando cerceiam os filhos na busca do conhecimento,
caminha no mesmo sentido daquele pelo qual eles mesmos andam: a opressão.

A LINGUAGEM COMO ARMA OPRESSORA

Não conseguindo dominar as palavras, a família de Fabiano torna-se presa fácil daqueles
que o cercam: o patrão; a autoridade injusta do soldado que os rejeita, os oprime, os explora e
humilha, e seu Tomás da bolandeira.
Este último exerce influência especial na forma como Fabiano encara o uso das palavras,
como podemos observar a seguir:
Certamente aquela sabedoria inspirava respeito. Quando seu Tomás da bolandeira passava, amarelo, sisudo, corcunda,
montado num cavalo cego, pé aqui, pé acolá, Fabiano e outros semelhantes descobriam-se; em horas de maluqueira
Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis, truncando tudo [...] e Fabiano atentou na farda com respeito e
gaguejou, procurando as palavras de seu Tomás da bolandeira (RAMOS. 1986, p. 22, 27).

Está nítida, aqui, a certeza de Fabiano de que o domínio da linguagem ergue-se como
poderosa arma, tanto para reprimir quanto para se defender. Isso acontece, também, quando Fabiano
recebe o acerto de suas contas. Ele percebe que está sendo explorado, logrado no ajuste, percebe que
os juros não são condizentes com o que deve, mas não tendo condições de se expressar e se
defender, o único fim possível é a resignação frente à ignorância que o esmaga.
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Tinha a obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente, conhecia o seu lugar. [...] Conformava-se, não pretendia
mais nada. [...] Na palma da mão, as notas estavam úmidas de suor. Desejava saber o tamanho da extorsão. Da última
vez que fizera as contas com o amo o prejuízo parecia menor. Alarmou-se. Ouvira falar de juros e prazos. Isto lhe dera
uma impressão bastante penosa: sempre que os homens sabidos lhe diziam palavras difíceis, ele saía logrado.
Sobressaltava-se escutando-as.
Evidentemente só serviam para encobrir ladroeiras. [...] Se soubesse falar como sinhá Terta, procuraria serviço noutra
fazenda, haveria de arranjar-se (RAMOS. 1986, p. 96, 97).

No entanto, ao mesmo tempo em que é lúcido de que esta arma – a linguagem - lhe falta,
muitas vezes Fabiano a repele, como que intimidado apenas com a presença de palavras que não
compreende. Tal condição atua como compressora sobre a personagem, que a diminui, intimida-a
inferiorizada, emudecida num mundo de palavras.
Esta ignorância aumenta o drama de Fabiano, que se revela intolerante, quase violento,
perante sua incompetência:
Uma das crianças aproximou-se, perguntou-lhe qualquer coisa. Fabiano franziu a testa, esperou de boca aberta a
repetição da pergunta. Não percebendo o que o filho desejava, repreendeu-o. O menino estava ficando muito curioso,
muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o [...]
(RAMOS.1986, 20).

Conforme explica Alfonso López Quintás em seu ensaio “A manipulação do homem


através da linguagem”, a linguagem é ao mesmo tempo o maior dom que possuímos e o mais
arriscado. Como uma espada de dois gumes, ela possibilita tanto matar quando amar. No entanto,
para bem manejá-la é preciso bem conhecê-la.
Quando esta habilidade de manipulação da linguagem é praticamente nula, como ocorre
com Fabiano e sua família, os outros que a detém, ainda que de maneira medíocre, posicionam-se
sobremaneira acima dessas personagens, com impressionante vantagem sobre essas.
O capítulo “Cadeia” expressa bem esse fato. A desvantagem de Fabiano frente ao soldado
amarelo não se dá porque a autoridade possui grande habilidade em manipular as palavras. Mas, o
soldado se impõe pelo abuso de sua posição de poder, e Fabiano, mesmo injustiçado, conforma-se
com a cadeia; não possuía meios para se defender e desfazer o mal entendido.
Essa resignação do protagonista de Vidas Secas reflete a consciência do personagem de
que, lhe faltando os meios para se expressar e elaborar sua defesa, basta-lhe aceitar a exploração, já
habitual para o vaqueiro: “Sabia perfeitamente que era assim, acostumara-se a todas as violências, a
todas as injustiças. E aos conhecidos que dormiam no tronco e agüentavam o cipó de boi oferecia
consolações: -‘Tenha paciência. Apanhar do governo não é desfeita’” (RAMOS, 1986, p.33).
Assim, podemos observar em Fabiano a ausência daquilo que Paolo Semama chama
“capacidade de objetivação”: “(A produção de comunicação) denota no indivíduo a capacidade de
objetivação, ou seja, de distinguir as necessidades do ambiente e de considerá-lo um meio de
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transcender a situação, ou melhor, um meio de transcender tais necessidades” (SEMAMA, 1981,


p.34).
Por considerar natural a exploração, inerente ao seu meio, Fabiano se conforma em se
subordinar aos eventos ambientais. Essa situação estende-se aos filhos, em especial ao mais novo,
que observa Fabiano admirado e considera que tudo o que pode desejar é crescer e ser como o pai:
“E precisava crescer, ficar tão grande como Fabiano, matar cabras a mão de pilão, trazer uma faca
de mão à cintura. Ia crescer, fumar cigarros de palha, calçar sapatos de coro cru” (RAMOS, 1986,
p.52).
Noutro momento, quando vai acertar as contas com o patrão, Fabiano percebe a diferença
no salário e não se conforma, reclama. O Patrão não gosta, repele a insolência e manda que Fabiano
procure serviço noutra fazenda. “Aí Fabiano baixou a pancada e amunhecou. Bem, bem. Não era
preciso barulho não. Se havia dito palavra à-toa, pedia desculpa” (RAMOS, 1986, p.93).
Novamente aqui, cabe a Fabiano aceitar a injustiça. Falta-lhe não apenas o instrumento
para argumentar, reclamar, efetivar as relações sociais, mas falta-lhe a própria interação com o
meio, como afirma Semama:
(A comunicação humana não opera meramente como) instrumento de relações, mas como relação ela mesma; não como
veículo cultural, mas como cultura, não somente como meio para entender e operar, mas como entendimento e operação
ela mesma, a comunicação humana torna-se imediatamente objeto de si mesma. Adotada como critério interpretativo da
realidade social, deveria revelar a própria validade, permitindo intervenções específicas, além de qualquer construção
possível de teorias, onde quer que se trate de organizar, normatizar, determinar condutas coletivas, e assim por diante
(SEMAMA, 1981, p.5).

CONCLUSÃO

Conforme já considerado, Graciliano Ramos revela suas personagens de dentro para fora,
explorando uma análise profunda da personalidade e alma humana. Nesse ínterim, a linguagem tem
papel decisivo ao passo que torna possível externar, por meio do narrador onisciente, a fonte dos
dilemas e angústias mais profundas suscitadas nelas.
Em Vidas Secas, a falta da possibilidade do estabelecimento de um diálogo concreto entre
as personagens, e a opressão decorrente disso, comprovam o poder suscitado pela linguagem.
É dessa inabilidade com a linguagem que advém todo o drama da família vivificada por
Graciliano, sobre a qual a seca, a fome e a miséria são meros temperos de opressão, se comparados
com o papel decisivo da linguagem, que perpetua a condição de oprimida da família de Fabiano.
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Vidas secas é mais do que um exemplar do romance regionalista de trinta, transcende


o regional e toca o universal ao levantar uma profunda análise e, consequente, reflexão sobre o
papel dominador da linguagem ou sufocador, pela falta dela.
A família protagonista da saga narrada por Graciliano Ramos é espelho da exclusão
social e ideológica imposta sobre a ignorância linguística do homem rústico do sertão.
Conhecemos os problemas sociais do nordeste depois de conhecer o mais íntimo da
alma e pensamento das personagens. Mais do que isso, conhecemos a nós mesmos e somos
impelidos a refletir até que ponto somos usuários ou usados por essa arma poderosa, a linguagem.

REFERÊNCIAS

BATISTOTE, Maria Lúcia Faria. Discurso jornalístico: A construção da imagem do povo Paresi. In:
Baronas, Roberto Leiser. Identidade cultural e linguagem. Campinas, SP> Pontes editores, 2005.

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: José Ulympio; Niterói: UFF-
Universidade Federal Fluminense, 1986.

LINS, Álvaro. Valores e misérias das vidas secas. In: Ramos, Graciliano. Vidas secas. 56. ed. Rio,
São Paulo, Record, 1986.

PONTES, Joel. Romances de Graciliano Ramos. A reivindicação social no diálogo. In: Graciliano
Ramos. Coletânea organizada por Sônia Brayer. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira; 2. ed. 1978.
315 p. (Fortuna crítica, v. 2).

SEMAMA, Paolo. Linguagem e poder. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1981.

QUINTÁS, Alfonso López. http://www.hottopos.com/mp2/alfonso.htm

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 56. ed. Rio, São Paulo, Record, 1986.