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Terceira Igreja Batista do Plano Piloto // EBD: Visão certa, mundo incerto // 08 novembro 2009 1

Visão certa, mundo incerto


Aula 10: O Cristianismo e as religiões

“Onde quer que o homem possa estar, tudo quanto possa fazer, em tudo que possa
aplicar sua mão – na agricultura, no comércio e na indústria – ou sua mente, no mundo
da arte e ciência, ele está, seja no que for, constantemente posicionado diante da face
de seu Deus, está empregado no serviço de seu Deus, deve obedecer estritamente o seu
Deus e, acima de tudo, deve objetivar a glória de seu Deus.” (Abraham Kuyper)

Uma das comunidades mais populares entre os evangélicos no Orkut se chama “Mais Jesus, menos religião”. Para os membros
desse grupo, o fato de seguir Jesus, ou mesmo ser cristão, não significa o mesmo que ser religioso. No entanto, a maioria das
pessoas (tanto crentes quanto incrédulos) sempre viu o cristianismo como uma das grandes religiões mundiais. Afinal, como
devemos enxergar as religiões? O cristianismo é uma religião ou não?

O que é religião?
A definição mais comum de religião vem da própria origem da palavra, derivada do termo latino religare. A palavra remete
à tentativa do homem se religar com Deus ou aquilo que é divino, por meio de cultos, ritos e sacrifícios. No entanto, essa
definição se mostra um pouco deficiente, pois certas religiões não procuram se religar aos deuses, mas apenas conviver
com seus caprichos e decisões (por exemplo, religiões animistas). Outras, como o zen-budismo e o hinduísmo, não têm,
respectivamente, o conceito de deus ou de sobrenatural.

Assim, podemos usar uma definição mais ampla para religião. O pastor Tim Keller propõe a seguinte:

“ O que é religião, então? É um conjunto de crenças que explicam o que é a vida, quem nós somos
e as coisas mais importantes com as quais os seres humanos deveriam ocupar seu tempo... Perceba
que, apesar de isso não ser explicitamente uma religião ‘organizada’, contém uma narrativa


principal, uma declaração sobre o significado da vida junto com uma recomendação de como
viver baseado nessa declaração. (Tim Keller)

Este conceito se assemelha ao conceito de cosmovisão, pois todas as pessoas, mesmo aquelas que se consideram incrédulas,
acabam se agarrando a certos “dogmas”, ainda que eles nada digam sobre realidades sobrenaturais.

A Bíblia usa poucas vezes palavras que são traduzidas como “religião”. Normalmente ela se refere à religião judaica ou
religiões pagãs, e o termo é visto de maneira negativa, ou pelo menos, fala de práticas exteriores. Em apenas um momento
um escritor fala de algo realizado por cristãos - e mesmo assim num tom de exortação.
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Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si


[ Tiago 1.26,27 ] mesmo. Sua religião não tem valor algum! A religião que Deus, o nosso Pai,
aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas
dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo.

Assim, a Bíblia usa, em geral, a definição mais restrita, e normalmente vê as expressões religiosas da humanidade com ressalvas.
Identificamos na Palavra também a impossibilidade de alguém professar a fé bíblica e abraçar alguma religião.

Cristianismo é religião?
A resposta para essa pergunta pode ser sim e não. Como vimos no texto de Tiago, existem certas práticas que são
chamadas de religião. Além disso, participamos de cultos, temos certos costumes, como o batismo e a Ceia, e até um
linguajar característico. No entanto, se observarmos a Bíblia com mais atenção, veremos que nada desses costumes tem
valor se não houver uma mudança de coração, um genuíno desejo de glorificar a Deus e de submeter-se à Escritura.

Eu odeio e desprezo as suas festas religiosas; não suporto as suas assembleias solenes.
Mesmo que vocês me tragam holocaustos e ofertas de cereal,isso não me agradará.
[ Amós 5.21-24 ] Mesmo que me tragam as melhores ofertas de comunhão, não darei a menor
atenção a elas. Afastem de mim o som das suas canções e a música das suas liras.
Em vez disso, corra a retidão como um rio, a justiça como um ribeiro perene.

Além disso, o cristianismo não pode ser considerado uma tentativa do homem se religar a Deus. Pelo contrário, cremos
que o homem é inimigo de Deus, e é necessário que o Criador tome a iniciativa para que o ser humano se volte para
ele. De maneira diferente das religiões mundiais, não é necessário que o fiel realize algum tipo de sacrifício ou cumpra


certos passos para ser aceito – o próprio Deus já providenciou tudo o que cada um precisa para reconciliar-se.

Cristo te deu o perdão que você precisa e a justiça que te falta através de um relacionamento
e, através do relacionamento, Deus aperfeiçoa a religião em você. Esse é um jeito elaborado de
resumir o que Jesus chama de “dar frutos”. Obras religiosas (a religião pura descrita em Tiago


1.27) virão ao um cristão por causa da nova natureza quando nascemos de novo e da obra do
Espírito Santo. (Ben Mordecai)

Se usarmos a definição de Tim Keller, até poderemos considerar o cristianismo como religião, pois suas pressuposições
abrangem todas as áreas de nossa vida (não apenas atitudes religiosas), e devemos viver baseados nelas.

Todas as outras religiões são falsas


Vivemos em um mundo que exalta o pluralismo e o respeito pelas diferentes crenças e opiniões – desde que essas
crenças não adotem uma postura exclusivista. Assim, o cristianismo muitas vezes é alvo de críticas por tomar posições
consideradas intolerantes pela sociedade. Jesus afirma que ele é o único caminho para Deus e isto nos leva à conclusão
de que todas as outras propostas são falsas.

Quando as pessoas que pregam a tolerância repudiam a afirmação exclusivista do cristianismo elas acabam entrando
em contradição com o que acreditam. Se dizem tolerantes, mas não conseguem tolerar a mensagem dura da igreja.

Alguns acreditam que todas as religiões são igualmente válidas e basicamente ensinam a mesma coisa. O problema
dessa afirmação é não levar em conta as pequenas religiões e seitas. Poucas pessoas aceitariam como válida uma religião
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que exige o sacrifício de crianças ou as ideias propostas por alguém como Inri Cristo. Além disso, quando se pensa nas
grandes religiões percebe-se que suas diferenças são bem maiores que suas semelhanças.

Outra objeção ao exclusivismo cristão é a ideia de que cada religião vê apenas uma parte da verdade espiritual, mas
nenhuma enxerga a verdade total. Uma analogia a isso é a história dos cegos tateando um elefante e tendo diferentes
conclusões sobre com o que eles lidavam. No entanto, somente quem conhece um elefante sabe que os cegos estão
errados. A pessoa que levanta esse tipo de objeção, sem perceber, está afirmando que conhece a verdade absoluta sobre


a realidade.


Todos nós somos exclusivistas em nossos credos a respeito da religião, mas de formas diferentes.
(Tim Keller)

Abordagem secular x Abordagem cristã


Precisamos tomar cuidado com a abordagem que muitos estudiosos seculares fazem do fenômeno da religião. Sabemos que
em todas as culturas as manifestações religiosas existem. Para o pesquisador naturalista, isso se dá por um desejo humano
de explicar aquilo que ele não compreende. Assim, a religião seria apenas uma manifestação de desejos humanos que, com o
tempo, seria aperfeiçoada.

Essa ideia, conhecida como abordagem evolutiva das religiões, tem muita influência hoje. A humanidade teria saído de
religiões primitivas, como as religiões animistas que muitos índios até hoje mantêm, evoluiria para algum tipo de politeísmo,
como os gregos, chegando ao monoteísmo, que tem no cristianismo sua mais alta expressão. Assim, estamos numa época
pós-cristã, pois o homem já consegue explicar muito do seu ambiente por meios não-religiosos, tornando a religião obsoleta.

A Bíblia, no entanto, não ensina dessa forma. Ela ensina que o homem foi criado para um relacionamento vivo com Deus,
mas ao pecar perdeu essa intimidade com o Criador.

O mal residente nos corações humanos – combinado com a necessidade por algo maior que si mesmo – passou a distorcer
a verdade divina, gerando religiões variadas, algumas parecidas com o revelado pelo Criador e outras que nada têm a ver
com ele. Por outro lado, no decorrer da história, o Senhor realizou um plano para redimir a humanidade, aproximando-se


novamente dela. A religião verdadeira não surge dos desejos humanos, mas da vontade divina.

O ponto de partida de todo motivo na religião é Deus e não o homem. O homem é o instrumento
e o meio, somente Deus é o alvo aqui, o ponto de partida e o ponto de chegada, a fonte da qual as


águas fluem e, ao mesmo tempo, o oceano para o qual elas finalmente retornam. Ser irreligioso é
abandonar o propósito mais alto de nossa existência. (Abraham Kuyper)

Características do cristianismo
O teólogo Abraham Kuyper nos apresenta algumas características que devemos ter em mente ao pensarmos na visão
cristã da religião.

1) O cristianismo é direcionado a Deus: O homem procura a Deus (ou deuses) porque, apesar do pecado, ainda existe
nele aquilo que os estudiosos chamam de sensus divinitatis, isto é, um senso do divino. A salvação do homem começa
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na iniciativa divina e tem como objetivo principal a glória de Deus. O homem não é a prioridade, mas quando se volta
ao Criador ele encontra sua dignidade novamente.

Saberão que eu sou o SENHOR, quando eu tratar com vocês por amor do meu
[ Ezequiel 20.44 ] nome e não de acordo com os seus caminhos maus e suas práticas perversas, ó
nação de Israel. Palavra do Soberano, o SENHOR.

Não a nós, Senhor, nenhuma glória para nós, mas sim ao teu nome, por teu amor
[ Salmo 115.1 ] e por tua fidelidade!

Quando vocês ouviram e creram na palavra da verdade, o evangelho que os


[ Efésios 1.13,14 ] salvou, vocês foram selados em Cristo com o Espírito Santo da promessa, que é a
garantia da nossa herança até a redenção daqueles que pertencem a Deus, para o
louvor da sua glória.

2) O cristianismo é soteriológico: Isto é, considera que o homem não está em uma situação normal. Sabemos que após
a primeira desobediência o homem teve sua natureza decaída. O objetivo da redenção é trazer a humanidade a seu estado
normal. Precisamos de mudança, e Cristo a traz para nós.

Anteriormente, todos nós também vivíamos entre eles, satisfazendo as vontades


[ Efésios 2.3-5 ] da nossa carne, seguindo os seus desejos e pensamentos. Como os outros, éramos
por natureza merecedores da ira. Todavia, Deus, que é rico em misericórdia, pelo
grande amor com que nos amou, deu-nos vida com Cristo.

Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram;


[ 2 Coríntios 5.17 ] eis que surgiram coisas novas!

3) O cristianismo é abrangente: Não podemos colocar nossas convicções em um “compartimento” chamado religião, ou
mesmo, vida espiritual. O que a Bíblia propõe é uma visão unificada da vida, onde não apenas os atos religiosos estão debaixo
de Cristo, mas todo tipo de ação.

Assim, quer vocês comam, bebam ou façam qualquer outra coisa, façam tudo para
[ 1 Coríntios 10.31 ]


a glória de Deus.

Pecado não é apenas uma lista de coisas nocivas (assassinato, roubo, etc.). Pecado é deixar Deus


de lado nos assuntos ordinários de sua vida. Pecado é tudo o que você faz que você não faz para
a glória de Deus. ( John Piper)

4) Mudança de coração: Deus odeia a hipocrisia e a religiosidade exterior vazia. Os nossos atos devem ser motivados por um
coração transformado pelo Espírito Santo. As manifestações exteriores são consequência dessa transformação.

Samuel, porém, respondeu: “Acaso tem o SENHOR tanto prazer em holocaustos e


[ 1 Samuel 15.22 ] em sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? A obediência é melhor do
que o sacrifício, e a submissão é melhor do que a gordura de carneiros.”
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5) O sacerdócio dos santos: Por fim, o cristianismo afirma que não existe mediador entre Deus e os homens, além do próprio
Deus encarnado na pessoa de Jesus. Isso significa que nada pode se colocar como outro intermediário da relação entre o crente
e seu Senhor: nem a igreja, nem os pastores ou padres, nem algum tipo de experiência. Todos temos responsabilidade sobre
nossos atos e também devemos estar prontos para agir como ministros do Evangelho.

Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de
[ 1 Pedro 2.9 ] Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua


maravilhosa luz.

O sacerdócio universal dos crentes e os dons do Espírito aclaram e reforçam um ao outro. Os


crentes desempenham seus ministérios de modo diferente, em conformidade com os dons que
receberam de Deus. Da perspectiva do sacerdócio dos crentes, todo crente tem um ministério a
cumprir. Todo crente é um sacerdote, com acesso a Deus, responsabilidade perante outros no corpo
e um ministério no mundo. Como sacerdotes, os cristãos são missionários de Deus perante os


outros. Eles são o corpo de Cristo, investido e capacitado para representar Deus perante o mundo
e levar todas as pessoas a Deus. (Antônio José do Nascimento Filho)

Conclusão
Mais importante que saber se cristianismo é religião ou não, é termos a convicção de que Cristo é necessário para a
reconciliação entre Deus e os homens. Certamente temos características parecidas com outros tipos de crença, mas a
Bíblia nos apresenta algo muito maior que meros ritos ou costumes.

Assim, não podemos nos esquecer que o Senhor é Criador de tudo e, portanto, tudo lhe pertence e faz parte de nosso
relacionamento com ele – isso inclui tanto atos de devoção pessoal, como a oração e os cultos, quanto nossas ações


mais corriqueiras, seja trabalhar ou estudar.

A mensagem bíblica não trata somente de uma parte isolada da vida rotulada de “religião”
ou ‘atividades na igreja. A criação, queda e redenção têm extensões cósmicas, descrevendo os
grandes eventos que moldam a natureza de toda realidade criada. Não precisamos aceitar
uma fragmentação interna entre a fé e as outras áreas da vida. Podemos estar relacionados
integralmente com Deus em todos os níveis de nossa existência, oferecendo tudo que fazemos
em amor e serviço a Ele. ‘Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa,
fazei tudo para a glória de Deus’, diz Paulo (1 Co 10.31). A promessa do cristianismo é a
alegria e o poder de uma vida integrada e transformada em todos os níveis pelo Espírito


Santo, de forma que todo o nosso ser participa do grande drama do plano de redenção de Deus.
(Nancy Pearcey)